Trabalhos Variados



Um testemunho sobre o pro. Albuquerque e Castro

Sinopse Bio-Bibliográfica

Do Cofre de Ternuras ao Ramalhete de Safiras

A Capoeira

A Informática, uma janela aberta para os cegos

A musica e a notação musical através dos tempos

O Braille e a musicografia

O sistema Braille

Testemunho sobre o Braille na minha realização pessoal

Garras do Destino

 


UM TESTEMUNHO SOBRE O PROF. ALBUQUERQUE E CASTRO



Foi na tarde de 28 de outubro de 1958 que, sem saber, pela primeira vez, escutei a voz do prof. Albuquerque e Castro.

Fora o caso que, depois de inúmeros e insistentes pedidos e movidas diversas influências, se tornou possível o meu ingresso no Instituto de s. Manuel, na cidade do Porto. Por isso, no início desse ano escolar, levou-me lá a minha mãe; chorei, porém, de tal forma, que regressei à minha pequena aldeia minhota da Lageosa. Volvidas umas três semanas lograram convencer-me de que deveria dar entrada no estabelecimento de ensino e preparar-me para o Futuro.

Desta vez, todavia, temendo uma reincidência, a minha mãe não me quis acompanhar, pedindo a um dos seus irmãos que concretizasse o que ambos classificaram de dolorosa missão. Tudo tinha sido, atempadamente, previsto e preparado; chegámos à praça d. Filipa de Lencastre, de camioneta, a meio de uma manhã solarenga, do dia 28, almoçámos num restaurantezinho próximo da r. da Paz, saboreando umas excelentes batatas cozidas com bacalhau e grelos e, no meio de muita conversa, lá transpus o grande e pesado portão de ferro, do nº 116, da Rua da Paz!

Encaminharam-nos para a secretaria, comandada pelo sr. Elias, cumpriram-se algumas formalidades e saímos… Quando me dei conta, encontrava-me no meio das muitas escaleiras que ligavam os dois compridos e espaçosos pisos, agarrado ao velho e seguro corrimão de madeira, lavado num mar de pranto, gritando pelo meu tio Alfredo que, sorrateiramente, se tinha esgueirado, contrafeito.

Foi então que, neste entremeio, alguém que subia os degraus, me poisou, com leveza, a mão no ombro direito e, meigamente, num timbre de voz grave, que jamais pude olvidar, inquiriu:

“Você está a chorar por quê? Não é seu desejo frequentar um colégio e preparar-se para a vida?”

“É”, - retorqui um pouco mais manso e confortado - “mas eu queria o meu tio Alfredo e ele deixou-me aqui sozinho!”

“Vai ter calma, deixar de chorar e verá que há de gostar desta casa; e se se empenhar chegará onde não chega muita gente; boa tarde.”

E desceu a escadaria.

Só algum tempo depois – quando, de novo, voltei a ouvir aquele inconfundível timbre de voz – pude aferir que o personagem que me interpelou e deu ânimo era, nem mais nem menos, o prof. Albuquerque e Castro.

Uns dez minutos após esse curto diálogo, por diligência do interlocutor, como vim a saber, fui abordado por dois companheiros, que tomaram conta de mim, levando-me numa digressão, a fim de conhecer o rés-do-chão e o recreio. Do imenso que gostei do Instituto de s. Manuel, esse foi um dos momentos mais felizes e de agrado da minha vida!

O prof. José Maria Ferreira de Albuquerque e Castro nasceu numa freguesia de Vila Nova de Gaia, a 23 de janeiro de 1903. Ora, para essa data, no s. Manuel, no meu feliz tempo de seu estudante, era costume preparar-se um programazinho de variedades, a ter lugar na sala de aulas, com o contributo de professores e de alunos, convidando o aniversariante para estar presente, o que sempre aceitou com agrado.

Para uma dessas sessões, creio que em 1960, foi ensaiada por antigos e atuais alunos da Instituição, uma bonita e prepositada pecinha teatral, da autoria do homenageado, intitulada “Miragem”, depois gravada em LP, ouvida na sala nesse dia 23 e que lhe foi entregue como presente de larga estima e consideração.

Com muita pena, nunca mais ouvi falar, nem escutar esse querido tesouro de infância…

Era hábito, também, pelo Natal, às vezes pela Páscoa e sempre no fim do ano letivo, realizar-se o que apelidávamos de “festas”, as primeiras na sala de aulas e, no fim do ano letivo, no salão de festas, abertas à comunidade e sempre com muito público, com a presença do prof. Albuquerque e com as mais altas individualidades da Santa Casa da Misericórdia do Porto.

O prof. Albuquerque era senhor de uma vasta cultura geral, excelente músico e apreciador e apologista do trabalho levado a cabo por professores e alunos, não se cansando de expressar, publicamente e sempre que a ocasião lhe era propícia, tal entendimento.

Nessas saudosas audições, cantávamos, recitávamos, tocávamos piano, acordeão, saxofone, violino e outro instrumental Orff e representávamos teatro e, em muitos desses eventos, cantámos partituras e recitámos poemas da sua autoria.

Recordo-me muito bem de, numa dessas festas finais, termos interpretado duas marchas, creio que de um ciclo de seis, que ele havia composto para serem cantadas e enriquecerem as alegres e sadias aulas de ginástica; ainda numa dessas audições, e com agrado geral, incluímos no reportório uma peça de canto, cujo título era “Cantares” (que, religiosamente, guardo, quer em fraca gravação, quer harmonizada para três e quatro vozes), um coral muito bem concebido, musicando umas estrofes de António Correia de Oliveira.

Aliás, a meu pedido por carta, em 1966 remeteu-me a partitura de “Cantares”, que o excelente grupo coral do Instituto Branco Rodrigues interpretou com mestria, sob a batuta do estimado prof. António Mimoso.

A propósito das duas marchas, um belo dia, quando, sozinhos, alguns alunos se autoensaiavam, surgiu o prof. Albuquerque, discretamente, dizendo:

“Desculpem, mas há aí um erro: isto deve cantar-se assim.” – e cantou, corrigiu e apenas nos deixou com o dito erro emendado.

Por mais de uma vez, sobretudo na música, fui esclarecido pelo muito saber do Prof. Albuquerque.

Habitualmente, estudava piano na fria biblioteca, implantada no segundo piso, num enorme instrumento de cauda inteira. Em inúmeras ocasiões, para tirar dúvidas sobre musicografia braille ou sobre determinada passagem da partitura a executar, tinha que palmilhar uma grande distância, ao encontro dos professsores Luís Ribeiro ou Fernando Silva. Várias vezes, nessas caminhadas, lá encontrei o prof. Albuquerque, interrogando-me sobre a razão daquele tresmalhe. Colocada a dúvida, um imediato esclarecimento e o regresso ao estudo.

Lembro-me também, sobretudo quando estudava piano no rés-do-chão, numa sala contígua a uma das salas do Centro de Produção, dedilhando umas melodias bárbaras – isto é, de música popular e similares -, e se abusasse da dose, claro está, às vezes, devagarinho, delicado e com um tom de voz especial, lá aparecia o prof. E inquiria:

“Em que livro encontrou isso?! Lá virá o tempo para tocar essas coisas; por agora, por favor, toque o que está nos manuais e torne-se num verdadeiro profissional…”

Desaparecia, mas não me lembro de ralhar.

Onde nos encontrávamos com relativa frequência era na biblioteca do Instituto, à época bastante bem apetrechada e enriquecida com soberbos manuscritos e obras de referência, fruto de muitas pessoas voluntárias que, desinteressadas, transcreviam milhares de páginas, que, malogradamente, “Tudo o vento levou”…

A esse tempo, o responsável pela biblioteca era o dr. Fernando Silva, que delegou em mim alguns poderes e tarefas, como catologar obras, substituir páginas danificadas, verificar os volumes que necessitavam de reparação, nas oficinas de encadernação de Nova Sintra e, acima de tudo, a missão de aviar as requisições de obras e observar o estado dos livros devolvidos. Por isso eu passava imenso tempo enclausurado na biblioteca, pugnando para que tudo estivesse em ordem. E também, em muitas ocasiões, por lá aparecia o prof. Albuquerque, gostando sempre de ser informado daquilo que eu me ocupava no momento, dando-me sábios conselhos e proveitosas sugestões.

Como não existia mesa, a tampa do enorme piano era aproveitada para colocar a pauta e os volumes para receberem o adequado tratamento, devolvidos ou a expedir para os muitos utentes.

Em 1964 concluí o então 2º ano liceal, bem como o 2º ano de música, com o exame de solfejo e o 2º ano de piano, frequentando o Conservatório de Música do Porto.

Penso que devido à consideração em que me tinha e, certamente, pelos excelentes resultados obtidos nas provas de exame, pois dispensei das provas orais com média de dezoito, assim como uma boa prestação no campo musical, o prof. Albuquerque empenhou-se, pessoalmente, logrando que eu ingressasse no Instituto Branco Rodrigues, situado na Linha do Estoril, a fim de prosseguir os meus estudos, quer literários, quer musicais.

Mantivemos, então, uma correspondência assídua, recebendo dele missivas com palavras amigas e com incentivos para que me empenhasse no estudo, com vista a uma valorização como homem e como cidadão competente, preparando-me para enfrentar o difícil Futuro que se avizinhava.

Previamente combinado, no termo de cada período de férias, ao fim da tarde, passava pelo s. Manuel, dirigia-me à sala do Centro de Produção e tinha lugar um prolongado encontro com ele e com a risonha e simpática esposa, a d. Pilar Ribas. Em cada visita recebia a amável oferta de um volume em braille e autorização para jantar no Instituto e ser acompanhado, próximo da meia-noite, à estação de s. Bento, para apanhar o Comboi-Correio, que rumava para Lisboa.

Ainda guardo, já velhinho e puído de tanta leitura, o volume da primeira edição de “Poemas de ontem e de hoje”, saído em 1967. Conservo, também, num “cofre de ternuras” tantas palavras bonitas e conselhos sábios, vindos da sua voz meio-grave, repletas de estima e que transmitiam sempre confiança.

A última carta que dele recebi era datada de fevereiro, em resposta aos parabéns que lhe dei, pelas 64 primaveras e agradecendo o envio de quatro sonetos que eu lhe tinha dedicado e que se encontram insertos no meu livro de poesia, intitulado “Auréola” e vindo à estampa em abril de 1995.

Frequentava o antigo 5º ano liceal, no Instituto Branco Rodrigues, quando, no dia 15 de abril de 1967, me foi dada a notícia do súbito e prematuro falecimento do prof. Albuquerque e Castro. Ao sabê-lo, tive a impressão de que despejaram sobre mim um balde de gelo e tive a noção exata da partida de um verdadeiro amigo e de que os cegos portugueses acabavam de perder um acérrimo defensor dos seus direitos, bem como um baluarte da tiflologia.

Por minha expressa solicitação e por grande prémio da Sorte, fui um dos três alunos escolhidos para viajar até ao Porto, em representação do Instituto Branco Rodrigues, no funeral do prof. Albuquerque e Castro, podendo, desta forma, prestar-lhe a minha derradeira e sentida homenagem.



10 de março de 2013



josé Fernandes da Silva



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SINOPSE BIO-BIBLIOGRÁFICA



José Fernandes da Silva nasceu a 28/1/1948, na Lageosa, freguesia de Sobreposta, concelho de Braga, e reside em Freiriz, concelho de Vila Verde.

Aos 9 anos perdeu a visão, tendo prosseguido os seus estudos, por método adequado, em instituições especializadas.

É bacharel em Composição, pela Escola de Música Calouste Gulbenkian, de Braga, licenciado em Orientação Educativa, pela Universidade Católica Portuguesa, e prof. de Educação Musical..

Deu à estampa 23 títulos (11 de poesia, 8 de música e 4 de narrativas). Prepara para publicar mais cerca de uma dúzia.

Colaborou em diversas revistas editadas em Braille, em algumas coletâneas e antologias.

Foi Sócio da Associação de Autores de Braga.



OBRAS DO AUTOR:



POESIA



Cofre de Ternuras, 1992
Relicário, 1993
Celeiro de Retalhos, 1994
Auréola, 1995
Alfobre de Amores, Poesia infanto-juvenil, 1997
Barca de Esperança, 2000
Arca de Filigranas, 2001
Seara Rutilante, 2004
Jardim de Imagens, 2007
Canteiro Mimoso, Poesia infanto-juvenil, 2009
Ramalhete de Safiras, 2012


POESIA



Receptáculo, Um punhado de narrativas, 2005
Palco de Memórias, 2011
Bornal de Narrativas, 2014
Cristais de Natal, 2014
Ares de Sobreposta, 2015


MÚSICA



Canções da Minha Escola, Canções Didácticas, 1992
Pátio das Canções, Canções infanto-juvenis, 1996
Cantando Jesus Menino, Cânticos para o Advento e Natal, 1997
Grinaldas para Jesus, Cânticos simples para crianças e jovens, 1998
Sobreposta Canta - Ao Bom Jesus dos Milagres, A S. Tomé de Lageosa, Música sacra, 2009
Aclamações ao Evangelho, Música sacra, 2009
Cantares de Natal, Reis e Janeiras, Música, 2010
Saudações a Maria, 2013


EM PREPARAÇÃO



Bosque Sortido - Quadras soltas, Poesia
Iguarias de Natal, Poesia
Várzea Promissora, Poesia
Derradeiras folhas, Poesia
Caixinha de Mistérios, Prosa
Desfile de Bicharada, Prosa
Baú de Mimos, Prosa
Miminhos, Prosa
Pomar de Histórias, Prosa
Floresta de Sonhos, Prosa
Varanda de Miragens, Prosa
Um punhado de Canções, Música
Hinos de Louvor, Música sacra
Louvando Deus e os Santos, Música sacra
Salmos responsoriais, Música sacra
Coreto de Variedades, Música variada
Estante harmoniosa, Música instrumental


COLABORAÇÕES



Ler e contar – Câmara Municipal de Braga (Seleção de texto Autores de Braga), 2000
Louis Braille – Revista Especializada para a Área da Deficiência Visual, ACAPO, Lisboa
Espiral – Revista de divulgação cultural, ACAPO, Lisboa
Poliedro, Revista de tiflologia e cultura. Porto: Centro Prof. Albuquerque e castro – Edições Braille.
Rosa-dos-ventos, Revista infanto-juvenil. Porto, Centro Prof. Albuquerque e Castro – Edições Braille.
Ponto e som, Cultura e informação, Lisboa – ALDV, Biblioteca Nacional de Portugal
Jardim da Sereia, Coimbra, Serviço de Leitura para Deficientes Visuais – Biblioteca Municipal de Coimbra, Setembro de 2012.
Jornal da vila de Prado, Casa do Povo da Vila de Prado, 1991/2002.
Jornal escolar “Os Garotos”, Escola C+S de Freixo, 1989/1995.
Jornal escolar “ Escola Verde”, Escola EB2,3 de Vila Verde, 1996/1997.
Jornal escolar “O Mourinho”, Escola EB2,3 de Moure, de 1998/2012
Boletim Informativo da Associação Social e cultural de sobreposta.
III Antologia de poetas Lusófonos, Folheto Edições & Design, 2010.
IV Antologia de poetas Lusófonos, Folheto Edições & Design, 2011.
V Antologia de poetas Lusófonos, Folheto Edições & Design, 2013.
VI Antologia de poetas Lusófonos, Folheto Edições & Design, 2014.
Um livro é um amigo, Poesia e Conto, Edição ACAPO, Coimbra, 2009.
Mãos que lêem Testemunhos a Louis Braille, Editorial Minerva, 2003.
Antologia de Poetas Vilaverdenses Palavras Frondosas, Câmara Municipal de vila Verde, 2005.
Quadras Populares de Santo António, Câmara Municipal de vila Verde, 2012.
Vozes Confluentes III, Braga, 2013


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DO COFRE DE TERNURAS AO RAMALHETE DE SAFIRAS




No 20º aniversário da vida literária de José Fernandes da Silva



José Fernandes da Silva, poeta e músico natural de Braga e residente em Vila Verde, acaba de perfazer vinte anos de intensa criação artística, tendo dado à estampa neste período mais de duas dezenas de obras do foro musical e poético. No ano de 1992, este profícuo e versátil autor iniciou-se nos dois géneros artísticos, ao publicar Cofre de Ternuras e Canções da Minha Escola. Nascido em 1948 na Lageosa, Sobreposta, José Fernandes da Silva, em plena infância, ficou privado da visão num infeliz acidente, tragédia que não o impediu de prosseguir estudos e de se tornar telefonista-recepcionista. O seu gosto artístico levou-o porém a obter o Bacharelato em Composição, pelo Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, título académico que lhe valeu a entrada no ensino oficial, sendo actualmente professor do quadro de Educação Musical na EB 2,3 de Moure, Vila Verde.

Quando publicou Relicário (1993), José Manuel Mendes, numa das badanas da capa, diria que “a poesia de José Fernandes da Silva procura sempre o registo das vivências e das sensações pessoais.” E ao comentar o título seguinte (Celeiro de Retalhos, 1994), o mesmo escritor, aliás amigo de infância do autor, nota que “numa linguagem que muito deve aos ritmos populares e musicais das construções clássicas, a sua palavra fala das relações com a natureza e os seres, da vibração íntima e dos sentimentos, sem demitir o sobressalto metafísico, os registos solidários, a deceptividade ante o desconcerto do mundo”. A título de exemplo deste pensamento, citemos apenas a primeira quadra do poema Presto: “Queria ter um cavalo / mas um cavalo de vento / que a qualquer hora, num halo / me levasse o pensamento...”

Paralelamente à publicação de poesia, José Fernandes da Silva foi dando à estampa também obras musicais, do foro lúdico, didáctico, religioso e tradicional (cantares de Natal, Reis e Janeiras). Quando vieram a lume as Aclamações ao Evangelho, já em 2009, o Pe. António Rodrigues, fraterno companheiro do autor, abre o prefácio da obra com estas justas e iluminantes palavras: “Não há ninguém que, tendo perseguido durante muitos anos, com toda a sua determinação e sem desânimos, um determinado objectivo, dele se possa dizer que se não apaixonou. E quem fez da escrita, música, poesia ou romance, o sonho dos seus dias e vai semeando como quem reparte pedaços da sua alma, esse já se tornou para todos mais que um luminar, um guia ou um exemplo; ele é um pedaço de todos nós, entra na nossa alma e fica cantando aí a sua música e dizendo aí as suas composições.”

Palavras igualmente abonatórias, mas merecidas, recebeu-as o autor do escritor João Lobo, o qual, no prefácio de Barca de Esperança (2000), assevera que “... dar à estampa um livro iluminado pela singeleza das coisas simples, por entre esta áspera fuzilaria a que chamamos civilização, é um momento grave de combate.” E mais à frente, o mesmo escritor, sublinha que “... na sua simplicidade infinitamente comovente (o poeta) soube deixar-nos ao lume da consciência um livro que arrancando do lirismo telúrico regional é sugestivamente rico em sensações visuais, fundamente catártico no seu pode emotivo, sincero nos temas que trata...” Vejamos, como pequena ilustração destas ideias, estes quatro decassílabos: “Com ternura recordo aquele dia, / em que p’la vez primeira te encontrei; / o vendaval de frases, de alegria; / o prolongado abraço que te dei!”

Já em 1997, Maria Teresa Lobato, a propósito de Alfobre de Amores, um título de poesia infanto-juvenil, dado à estampa três anos depois, dizia que “José Fernandes da Silva alude a sensações pessoais e a situações onde o sentir e a musicalidade que lhe é inerente se revelam, onde a generosidade das dádivas simples mas significativas da vida se sobrepõe ao vazio das incongruências de certo mundo moderno e metropolitano.” A propósito do mesmo livro, Alfredo Pedrosa, ao escrever uma recensão crítica no jornal da EB 2,3 de Vila Verde, adianta que (o poeta) surge-nos “como um homem que joga com as sílabas e as palavras de uma forma invulgarmente autêntica, até instintiva, gostosamente entregue a um infinito espectáculo de sensações, transpirando o ambiente bucólico em que temos a felicidade de estar inseridos de uma forma intensa e objectiva.”

Também a escritora Maria do Céu Nogueira se associa a este laudémio generalizado, pois, segundo ela, “ler Alfobre de Amores foi penetrar no mundo maravilhoso da infância.” E prossegue: “Pela mão do seu autor, José Fernandes da Silva, apequenei-me e revivi, encantada, os meus tempos de menina. Cantei e dancei, fiz diabruras inocentes sob o olhar atento dos meus pais, trepei às árvores e aos muros da quinta onde nasci, provei todos os sabores dos frutos maduros, bebi, insaciável, a água pura e cristalina das fontes, nadei no Neiva, o rio das belas trutas, e corri, louca, pelos caminhos de erva fresca que calcava de pés descalços.”

Quando o José Fernandes da Silva me convidou para prefaciar o seu mais recente título poético, Ramalhete de Safiras (2012), reparei que a obra estava mergulhada num denso halo de misantropia, e que o seu costumado confessionalismo redentor e auto-compadecido declinava já para um tom elegíaco e passadista, e para a assumpção de um indisfarçável desencanto existencial. Deste modo, Ramalhete de Safiras marca de forma iniludível a entrada de José Fernandes da Silva na senectude da vida, tanto mais que na sua introspecção contrita admite: “...aos poucos, começo a ver desfeito / o meu sonho de vida...”. Esta toada disfórica e lamentosa pode ver-se em sonetos como o Cântico Final, onde o poeta confidencia: “Imensas vezes, Mãe, nas horas de amargura, / me refugio nos teus dotes de ternura...” Em contraponto a esta derrota anímica, José Fernandes da Silva deita mão das sempre encantatórias redondilhas para abordar matéria mais comezinha e grácil, e para fugir talvez ao tormentório da existência: “A Lua infinita / é hóstia bendita /feita de luar:

/ formoso luzeiro, / que não tem parceiro / para o imitar!”

Em Ramalhete de Safiras o leitor mergulha no perturbador lirismo de um poeta que persiste estoicamente em renunciar aos sedutores cantos de sereia da sociedade contemporânea e se aferra aos valores perenes e inamovíveis do seu afectuoso ideário. Neste universo de grande coerência e solidez moral abundam não só poemas saídos do peito de um Eu lírico, de que cito, a título de exemplo, o primeiro dístico de Escravidão: “Era bem tempo de apagar o círio, / que alumia há anos o martírio...”; mas também poemas saídos de um Eu social, como se verifica em Outros Tempos: “Já não se reza o terço, como outrora, / nos pacíficos lares das aldeias...” A expressão de uma emoção redentora a um tempo e solidária a outro, leva o poeta a alimentar o gosto pelo bucólico: “Lua pura, véu da noite / derrama bento luar...”; pelo nostálgico: “Já gozei dias felizes...”, pela contemplação: “Infindáveis tapetes de verdura...”, pela identificação com a dor alheia: “Jamais compreendi qual a razão / dele tomar aquela decisão (...) atendendo a que foi arrebatado / por um golpe brutal da fera Sorte...”, e por todo um tipo de proposições que vão desde a confissão de desgostos pessoais até ao desagravo cristológico, passando por hinos ao amor conjugal, ao culto mariano e à saudade, esta bem expressa em elegias e epitáfios.

Ramalhete de Safiras também é relicário de saudade e de luz simbólica de tudo o que é grandiosamente belo, como a misteriosa luz que nimba a noite e o dia, e que José Fernandes da Silva perdeu acidentalmente na sua infância.



Fernando Pinheiro

Escritor in “Diário do Minho”, 22/05/2013



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A CAPOEIRA




Falar sobre “A Capoeira” não é tarefa fácil, porque se trata de um tema muito abrangente e com imensas possibilidades de ser explorado.

Numa definição breve poderemos dizer que “A Capoeira” é uma mistura de luta, arte marcial, dança, música, cultura popular e divertimento.

Há já séculos que ela chegou ao Brasil, desenvolvida por escravos africanos, trazidos para este país, podendo ser caracterizada por movimentos ágeis e complicados, com frequência realizados junto ao chão ou de cabeça para baixo, tendo, por vezes, uma forte componente acrobática e o facto de ser acompanhada por música distingue-a de outras lutas.

Tem muitos significados a palavra “capoeira”, referindo-se um deles às áreas de mata rasteira do interior brasileiro. Sugere-se ainda que a palavra obteve o nome a partir dos locais que cercavam as grandes propriedades rurais de base escravocrata.

As primeiras referências sobre “A Capoeira” surgem no século XVI, quando Portugal enviou escravos para a América do Sul, provenientes da África Ocidental, sendo o Brasil o maior receptor da migração de escravos.

Os negros trouxeram para o Novo Mundo as suas tradições culturais e religiosas e a homogeneização dos povos africanos, sob a opressão da escravatura, foi o catalisador da capoeira. Neste contexto, a capoeira foi desenvolvida pleos escravos do Brasil como forma de resistir aos seus opressores, praticar em segredo a sua arte, transmitir a sua cultura e melhorar a sua moral.

Em cada zona do grande país brasileiro foram feitas adaptações da capoeira, segundo as suas ideias e necessidades.

Registos maies concretos sobre a prática da capoeira aparecem nos séculos XVIII e XIX nas cidades do Rio de Janeiro, Recife e Salvador. Durante anos, todavia, a capoeira foi considerada subversiva, a sua prática era proibida i duramente reprimida. Por via dessa repressão a capoeira quase se extinguiu no Rio de Janeiro, onde os grupos de capoeiristas eram conhecidos como “maltas” e, no Recife, dava-se-lhe o nome de “passo”.

Em 1932, Mestre Bimba fundou a primeira academia de capoeira do Brasil, em Salvador. Tão grande mestre acrescentou movimentos de artes marciais e desenvolveu um treino sistemático para a capoeira, estilo que passou a denominar-se Regional.

Em contrapartida, Mestre Patinha pregava a tradição da capoeira com um jogo matreiro, de disfarce e ludibriação, estilo que passou a ser conhecido como Angola.

Da rivalidade destes dois grandes mestres, a capoeira deixou de ser marginalizada, estendendo-se desde a Baía até todos os estados brasileiros.

Hoje em dia, a capoeira continua a ser largamente cultivada no Brasil.



José Fernandes da Silva



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A INFORMÁTICA, UMA JANELA ABERTA PARA OS CEGOS

  

As novas tecnologias são símbolo de enorme desenvolvimento em todos os quadrantes. Quando há poucas décadas nasceu a Informática, os cépticos não vislumbraram o seu largo alcance. Mas ela foi-se impondo de tal forma que hoje é impossível ignorá-la. No que diz respeito à acessibilidade para os deficientes, volvidos alguns anos, começaram a delinear-se e a abrir-se amplos horizontes em muitas vertentes. Uma delas contemplou os invisuais.

            Em relação à Acessibilidade e Tecnologias de Apoio, antes da implementação dos meios informáticos, podemos citar a invenção, em 1808, por um italiano da primeira máquina de escrever para ajudar as pessoas cegas a escreverem de forma legível. Alexander Graham Bell, em 1876, inventou o telefone porque a sua mãe e a sua mulher eram surdas. O controlo remoto foi inventado para as pessoas com limitações de mobilidade. Em 1935, foi criado o primeiro aparelho para reproduzir livros falados. Em 1936, foi a vez do primeiro sintetizador de voz. Em 1975, Kurzweil inventou o primeiro digitalizador, scanner, que hoje usamos no escritório, para possibilitar a leitura de livros por pessoas cegas.

            Há imenso trabalho investido, com progressos já bem visíveis e prosseguem diversas e afanosas investigações, visando a concretização dos meios para que os cegos possam digitalizar, escrever, ler, tratar, imprimir, converter, exportar e importar ficheiros, compor música, orquestrar, fazer alterações, isto é: ter a possibilidade de manejar e rentabilizar os softwares disponíveis e usufruir das ferramentas facilitadoras das suas dificuldades.    

            Este trabalho está a ser levado a cabo por diversas entidades, cada qual com as suas motivações, tais como, associações de deficientes, governos, produtores de material especializado, ajudas técnicas, grandes companhias de softwares...

            Significa que, em todos os tempos, esteve sempre presente a solidariedade para com os mais desfavorecidos.

            Especificamente, agora, referir-me-ei a mais algumas invenções e a alguns aspectos marcantes que a Informática proporcionou e proporciona aos utentes cegos.

            Louis Braille, que cegou aos três anos, por ter espetado uma sovela num dos olhos e que, entretanto, lhe afectou o outro, perdendo totalmente a visão, internado numa instituição parisiense, sentiu necessidade de comunicar com os demais seres humanos e de ter acesso à cultura. Assim, em 1825, inventa um sistema, que mais tarde tomou o seu nome, constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 símbolos. Este processo de leitura e de escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na matemática, física, música, informática, etc.

            Actualmente, uma das funcionalidades de alguns softwares, como o Braille Music Editor, é a transformação do teclado do computador em teclado de máquina Braille, usando as letras f, d, s (pontos 1, 2, 3) e j, k, l (pontos 4, 5, 6, respectivamente). A barra de espaços assume a sua função normal.

            Mais tarde, Ballu, também francês e ainda através de pontos, inventa um sistema que reproduz as letras de imprensa. É uma forma de escrever directamente para quem vê, mas trata-se de uma escrita excessivamente morosa, pela qual, aliás, fiz os exames da 4.a classe e admissão ao liceu.

            Seguidamente, um inglês chamado Moon, adoptou a mesma estratégia para a impressão informatizada, criando o código Moon, que, ainda hoje, é possível utilizar em algumas impressoras Braille.

            Nas décadas de 50-60 houve o bom senso de ministrar aos cegos o curso de dactilografia, preparando-os para apresentar os seus trabalhos dactilografados.

            Deram-se, de facto, passos incontestáveis para a sua integração, comunicabilidade e independência. A Informática, porém, ao aglutinar e desenvolver os eventos já citados, tornou-se numa ferramenta que, cada vez mais, os cegos têm presente, porque vem preencher incontáveis lacunas.

            No final da década de 80 surge o primeiro leitor de ecrã e um sintetizador de voz, para o sistema operativo MS-DOS, que possibilitou, essencialmente, a utilização dos softwares de processamento de texto, tais como Word Perfect e Word Star, de folhas de cálculo, como o Lotus 1-2-3, de gestão de bases de dados, como o DBase, etc.

            No auge da utilização do Windows 95, apareceram vários leitores de ecrã, que, numas línguas mais cedo, noutras mais tarde, puderam ser ouvidos através das colunas do computador, dispensando assim um sintetizador específico, e começando a possibilitar o uso do mesmo hardware que a generalidade das pessoas...

            Em Portugal, nesta época, apenas dois softwares deste tipo existiam e havia ainda a necessidade da utilização de um sintetizador externo...

            A década de 90 é a era da competitividade, aparecendo em Portugal diversos leitores e alguns com muita qualidade, como, por exemplo, o Jaws. Tornou-se possível navegar na Internet e, mercê da criação constante de novos scripts, é mais fácil trabalhar com quase todos os softwares.

            Um dos grandes obstáculos que se levanta aos invisuais é a impossibilidade de usar o rato, muito embora já haja algumas novidades e prossigam grandes investigações, principalmente no capítulo da interactividade do rato com o utilizador, possibilitando sentir as imagens e as texturas...

            Não podendo utilizar o rato, para cada software, é necessário recorrer constantemente aos menus, ou decorar inúmeros comandos por teclado, que quando executados efectuam a mesma acção que as opções dos menus ou barras de ferramentas.

            Apesar de algumas pessoas terem pensado que a utilização da voz como meio de leitura iria tornar o Braille obsoleto, tal não aconteceu, sendo actualmente possível imprimir-se directamente do PC para Braille, usar um terminal Braille, mais conhecido por linha Braille, que converte o texto presente no ecrã, e em alguns casos, até gráficos, em caracteres Braille; pode exportar-se um texto normal e recebê-lo convertido em Braille, ou vice-versa, etc.   

            Ainda recentemente, concretamente no ano passado, passou também a estar acessível a esta camada da população o mercado dos PDA e dos telemóveis inteligentes, por adaptação de leitores de ecrã a esses sistemas operativos, dando-nos a certeza de que a evolução não será tão prejudicial aos deficientes como alguns dentre eles julgam, sendo apenas necessário esperar um curto período de tempo para que apareçam as ferramentas que os irão tornar acessíveis...

            Cada vez há mais cegos a utilizar a Informática e não dão por mal empregado o tempo e o dinheiro investido, embora o factor preço seja um dos grandes obstáculos à sua massificação.

 

            Março de 2004

 

                        José Fernandes da Silva

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A música e a notação musical através dos tempos

(Elaborado para expor aos alunos)

 

 

O que é a Música?

            Diferentes definições e dos mais variados quadrantes tentam dar-lhe resposta: "É a arte de exprimir sentimentos ou impressões por meio de sons. É a linguagem universal. É a poesia da alma. É a arte dos sons."

Platão escreveu que "A Música dá alma ao universo, asas ao pensamento, impulso à imaginação, encanto à tristeza, alegria e vida a todas as coisas."

Santo Agostinho definiu-a como "A arte do belo movimento."

António Aleixo poetou-a nesta quadra: "Tem a Música o poder / tornar o homem feliz / ninguém consegue dizer / tanto quanto ela nos diz!"

Mais recentemente, Leonardo Coimbra, referiu que "A primeira educação deve ser artística e as próprias virtudes morais só podem ser dadas à criança pela harmonia estética."

Já mais voltado para a origem da Música, William Man afirmou: "A Música, bem cotada entre todas as artes sofisticadas da comunicação humana, é considerada a mais antiga, a mais primitiva nos seus propósitos. Desenvolveu-se a partir dos principais ritmos e vibrações do nosso planeta, dos sons dos ventos e da água, do ar e do fogo."

Na verdade, os historiadores acordam que o surgimento dos sons se fundamentam na necessidade de comunicar. O homem primitivo imitou os sons da sua experiência com a natureza: o quebrar dos ramos, o sussurrar do vento, o marulhar da água nos regatos e nas fontes, o canto das aves, etc., que terão sido os seus primeiros instrumentos musicais.

As lendas mais remotas atribuem à Música origem divina. Dizia-se que a arte musical era um prémio atribuído pela divindade ao homem.

Há discrepância entre os historiadores sobre o que será mais antiga: a Música vocal ou instrumental. A primeira hipótese reúne mais consenso.

Wallaschek afirma que a origem da música se encontra na tendência inata no homem. Nietzsche, Spencer e Darwin filiam em determinados impulsos psíquicos a primeira manifestação musical. Combarieu defende que a origem da Música está presente na magia. O professor berlinense Karl Stumpf sustenta a hipótese dos sinais, gritos e cantos de guerra entre as tribos primitivas. O economista Karl Bücher deduz que o esforço físico tivesse sido a origem do canto e da Música.

Certezas não existem, mas podemos socorrer-nos dos elementos de estudos que nos dão as primeiras tentativas musicais da criança e a música dos povos selvagens, acreditadas como a primeira manifestação musical do homem.

Luís de Freitas Branco, acerca da divergência do que foi acima exposto, explana: "Segundo todas as probabilidades, a primeira manifestação musical do homem foi o canto. Todas as considerações históricas, psicológicas e fisiológicas nos levam a essa conclusão. Qual foi a causa dessa manifestação? A tendência rítmica do homem? Os impulsos psíquicos? O esforço e o trabalho? Na impossibilidade de optar por uma delas, não rejeitemos nenhuma destas hipóteses. Admitamos, pois, que o homem cantou primeiro: pela tendência rítmica, por impulso psíquico, no trabalho, no recreio, na oração ou na guerra, mas não admitamos nunca que a primeira música humana não fosse vocal."

Voltemo-nos, agora, para a escrita da música e da sua evolução.

É muito longo e pouco documentado o historial da escrita musical. A Música, como tantas artes, foi-se transmitindo de geração em geração por via oral, levada a outros povos pelas correntes migratórias. Como na escrita de textos, usou-se todo o tipo de simbologia.

            Por exemplo, os antigos indus da época dos Vedas (3.500 a.C.) empregavam a escrita musical por algarismos ou letras do alfabeto sânscrito. Os chineses teriam sido os iniciadores da notação musical por meio de letras e os primeiros a filiar a escala na relação da quinta perfeita, 3 tons e meio, (2637 anos a.C.).

No Império Romano, na escrita musical utilizavam as primeiras 15 letras do seu alfabeto.

Mesmo a sério, a notação musical começou por surgir, sobretudo com a função de auxiliar a memória de quem cantava e apenas mais tarde se tornou cada vez mais precisa. Principalmente, eram colocadas pequenas marcas junto das palavras, indicando o tipo de movimento sonoro a cantar. Essas marcas chamavam-se neumas, ou sinais, cuja decifração era difícil, e dividiam-se em dois grupos: punctum e virga. O primeiro, quando o movimento sonoro era ascendente e o segundo, quando o movimento musical era descendente. Neste sistema, o cantor tinha de conhecer antecipadamente as músicas que iria interpretar.

Os documentos mais antigos que se conservam, contendo neumas, datam do século oitavo. Apesar de toda a sua dificuldade e imperfeição os neumas tinham sobre a escrita musical por algarismos ou letras, a vantagem de seguir com a disposição dos sinais a altura dos sons. Este é, porém, o início da notação moderna.

Para a emancipação da música, na época medieval, a influência do cristianismo foi decisiva. Claro que a cultura musical dos gregos, dos romanos e dos demais povos antigos foi de grande importância para a Humanidade, mas tinham como pano de fundo a mitologia, os seus costumes e sentiam plasticamente. Todavia, o cristianismo, pondo acima de tudo a alma, condenando o materialismo, trouxe para a história um elemento que favoreceu o desenvolvimento da Música: a espiritualidade.

Santo Ambrósio, bispo de Milão (374-397) tornou-se o primeiro reformador importante da música cristã. Manteve quatro dos modos gregos, que mais tarde se chamaram modos autênticos e determinou os cantos que se deveriam fazer ouvir nas diferentes festas do ano litúrgico.

Como no século VI surgissem queixas sobre a falta de unidade do cantochão nos diferentes países, o papa S. Gregório (540-604) retirou do culto os cantos que julgou impróprios, restaurou outros que se tinham modificado, compôs alguns novos e adotou, além dos quatro modos autênticos mais quatro denominados plagais. Todos os cantos da liturgia cristã foram reunidos na colectânea denominada "Antifonário", pela ordem das festas do ano, sendo preso o volume a uma cadeia de ouro, sobre o altar de S. Pedro, no Vaticano.

O hino da festa de S. João Baptista foi composto de maneira que cada verso  começasse num grau mais alto do que o precedente. Ao substituir a letra que indicava o som pela primeira sílaba de cada verso, passou a atribuir-se aos sons o nome que hoje têm.Por exemplo, a nota si, foi obtida juntando as duas primeiras letras de Sancte Ioannes.

Esta invenção, assim como o uso de um conjunto de quatro linhas a partir do qual surgiu o sistema de notação, diz-se que se deve a Guido d'Arezzo, que viveu nos finais do século X até metade do XI, grande teórico da Idade Média. Este sistema de linhas funcionava da seguinte forma: em cima era traçada uma linha amarela, representando a nota dó e em baixo uma outra a vermelho, que representava a nota fá. Estas eram separadas por uma linha sem cor, representando a nota lá. O som era inscrito nestas linhas por um pequeno quadrado, que indicava a sua altura precisa.

Passaram, mais tarde, a traçar-se cinco linhas, tendo uma delas uma referência que consistia numa letra ou clave, como nós actualmente lhe chamamos.

            A partir do século XI o uso da pauta tornou-se habitual.

 

            Agosto de 2000

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O BRAILLE E A MUSICOGRAFIA

 

  Origens, Evolução e Actualidade

  

(Trabalho apresentado no

Seminário: "Acessibilidades - o que temos e o que queremos",

Que teve lugar no dia 20 de Outubro de 2003

no Auditório do Orfeão da Covilhã)

 

 

 INTRODUÇÃO

 

 

            Ao ser-me dirigido o honroso convite para dissertar um pouco sobre esta temática, interroguei-me acerca da forma como haveria de elaborar o trabalho. Desde logo, tive em mente que a Música, ao longo dos tempos, tem sido o ganha-pão de muita gente e também de inúmeros cegos, que a utilizaram e utilizam, cultivando-a, amando-a, estudando-a e trabalhando-a como bons profissionais e dela retirando os justos dividendos, quer leccionando, quer como executantes, quer mesmo como compositores.

Não foram apenas os cegos que precisaram de uma musicografia específica, porque desde os primórdios do tempo o homem se viu confrontado com a necessidade de criar regras de escrita, para que, com efeito, a Música fosse uma linguagem universal e interpretada de igual modo em qualquer lugar do Mundo.

Por isso, depois de ter reflectido maduramente, decidi dar corpo a este texto, focando três aspectos, que julgo de cabal importância e elucidativos:

a) A música e a notação musical através dos tempos;

b) O Sistema Braille e a Musicografia - nascimento, evolução e actualidade;

c) A informática e o aperfeiçoamento de softwares de música manejáveis pelos cegos.

Esta pequena exposição é baseada na minha experiência profissional; na História da Música; numa bem elaborada dissertação de mestrado em Ciências da Educação, apresentada à Universidade Internacional de Lisboa, intitulada "Musicografia Braille - Instrumento de Inclusão", pela Drª Dolores Tomé, professora da cadeira de Musicografia Braille na Universidade de Brasília; a consulta de documentos actualizados e disponibilizados pela ONCE, assim como a primeira Edição do "Novo Manual Internacional de Musicografia Braille", vindo a lume em 1998 e publicado por esta Instituição; algum traquejo com softwares específicos e a leitura de bibliografia adequada.

 

 

                                                                             

a) A MÚSICA E A NOTAÇÃO MUSICAL ATRAVÉS DOS TEMPOS

 

 

 

O que é a Música?

            Diferentes definições e dos mais variados quadrantes tentam dar-lhe resposta:

"É a arte de exprimir sentimentos ou impressões por meio de sons. É a linguagem universal. É a poesia da alma. É a arte dos sons."

Falemos, então, um pouco sobre a escrita da música e da sua evolução.

É muito longo e pouco documentado o historial da escrita musical. Como na escrita de textos, usou-se todo o tipo de simbologia.

            Por exemplo, os antigos indus da época dos Vedas (3.500 a.C.) empregavam a escrita musical por algarismos ou letras do alfabeto sânscrito. Os chineses teriam sido os iniciadores da notação musical por meio de letras e os primeiros a filiar a escala na relação da quinta perfeita (2637 anos a.C.). No Império Romano, na escrita musical utilizavam as primeiras 15 letras do seu alfabeto.

A notação musical tinha a função de auxiliar a memória de quem cantava. Por isso, o cantor era obrigado a conhecer, antecipadamente, as músicas que interpretava. Principalmente, eram colocadas pequenas marcas junto das palavras, indicando o tipo de movimento sonoro a cantar. Estas marcas chamavam-se neumas, ou sinais, cuja decifração era extremamente difícil.

Os documentos mais antigos que se conservam, contendo neumas, datam do século VIII. Apesar de toda a sua dificuldade e imperfeição os neumas tinham sobre a escrita musical por algarismos ou letras a vantagem de seguir com a disposição dos sinais a altura dos sons. Trata-se do início da notação moderna.

Para a emancipação da música, na época medieval, a influência do cristianismo foi decisiva. O hino da festa de S. João Baptista foi composto de maneira que cada verso  começasse num grau mais alto do que o precedente. Ao substituir a letra que indicava o som pela primeira sílaba de cada verso, passou a atribuir-se aos sons o nome que hoje têm. Por exemplo, a nota si, foi obtida juntando as duas primeiras letras de Sancte Ioannes.

Esta invenção, assim como o uso de um conjunto de quatro linhas a partir do qual surgiu o sistema de notação, diz-se que se deve a Guido d'Arezzo, que viveu nos finais do século X até metade do XI, grande teórico da Idade Média. Este sistema de linhas funcionava da seguinte forma: em cima era traçada uma linha amarela, representando a nota dó e em baixo uma outra a vermelho, que representava a nota fá. Estas eram separadas por uma linha sem cor, representando a nota lá. O som era inscrito nestas linhas por um pequeno quadrado, que indicava a sua altura precisa.

Passaram, mais tarde, a traçar-se cinco linhas, tendo uma delas uma referência que consistia numa letra ou clave, como nós actualmente lhe chamamos.

A partir do século XI o uso da pauta tornou-se habitual.

 

 

 

b) O SISTEMA BRAILLE E A MUSICOGRAFIA -NASCIMENTO, EVOLUÇÃO E ACTUALIDADE

 

 

 

O que é o Sistema Braille e a respectiva Musicografia? Quais as origens, desenvolvimento e estado actual?

Teríamos aqui matéria para proceder a uma ampla dissertação. Vou, porém, abordar o assunto com alguma sintetização.

Desde que o homem existe sobre o nosso Planeta sentiu necessidade de se comunicar através de diversificados meios. Um deles foi a escrita. As muitas formas de escrever foram evoluindo positivamente, à medida que a Humanidade vencia os obstáculos e se aperfeiçoava em todas as vertentes. Também assim sucedeu com a escrita. E a leitura surge como consequência imediata, atendendo a que é necessário interpretar os escritos.

Até quase ao fim da Idade Moderna desconhece-se que alguém haja pensado na escrita e leitura para os cegos.

Chega-nos a primeira informação em 1784, quando Valentin Haüy, um homem culto e de coração nobre, funda em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para a vida. Defensor de que tudo depende dos sentidos, adapta o alfabeto vulgar, traçado em relevo, para que as letras fossem perceptíveis pelos dedos dos destinatários.

Pela mesma altura, um capitão de artilharia, Charles Barbier de la Serre, debruça-se sobre um código através de pontos, que podia ser tacteado e era usado para tornar secretas as mensagens militares e diplomáticas.

Nascido a 4 de Janeiro de 1809, oriundo de uma humilde família, Louis Braille teve o seu berço na aldeia de Coupvray, perto de Paris. O pai era correeiro e um dia, apenas com três anos, o filho, quando brincava com uma sovela, feriu-se num dos olhos, propagando-se a infecção ao outro, vindo a perder a visão totalmente.

Em 1819 ingressa na instituição de Valentin Haüy e conhece o código de Barbier. De imediato, inteligente e cheio de força de vontade, começa a sua investigação, a fim de ultrapassar as inúmeras dificuldades que o impediam de pôr-se em pé de igualdade com os demais cidadãos, tendo também em mente ofertar aos congéneres da mesma sorte um Sistema capaz de abrir-lhes as janelas para o inesgotável mundo da cultura.

Pensa-se que Louis Braille inventa o Sistema (que mais tarde tomou o seu Nome) em 1825. Contudo, apenas quatro anos depois, dá a lume a primeira edição do trabalho, intitulado "PROCESSO PARA ESCREVER AS PALAVRAS, A MÚSICA E O CANTOCHÃO, POR MEIO DE PONTOS, PARA USO DOS CEGOS E DISPOSTOS PARA ELES". Deu-lhe a forma definitiva em 1837, quando saiu a segunda edição.

O alfabeto Braille é constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 sinais.

Este processo de leitura e escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na matemática, física, música, etc.

O alfabeto tem-se mantido praticamente invariável até hoje, mas tudo está sujeito a mudanças e a melhoramentos e, por essa razão, há quem pesquise a utilização de oito pontos.

 

Como a escrita das palavras, também a Música evoluiu ao longo das gerações. Os cegos, desde muito cedo, têm-na utilizado como ganha-pão e lazer. Mas como decifrar os caracteres da música a tinta?

Não escapou esta delicada situação à perspicácia de Louis Braille, que também cultivou e interpretou a música. Apercebendo-se de que urgia criar uma notação musical para os cegos, persistente e ousado, lançou mãos à obra.

Assim, em 1829, baseado no seu sistema, realizou a primeira Musicografia, integrada na obra já citada e publicada nesse ano. Sugeria, junto ao alfabeto, um sistema de caracteres musicais, baseado nos seis pontos.

Ao longo da sua curta vida, Braille foi alterando completamente o código musicográfico, desenvolvendo a notação básica do código em uso presentemente.

Com os 63 símbolos é possível obter a representação de toda a notação musical a tinta. São as letras que funcionam como símbolos musicais, precedidas de prefixos específicos.

Assim, podemos indicar as claves, os compassos, os andamentos, a dinâmica, as oitavas, os intervalos, os baixos cifrados, as notas, os silêncios, os acidentes, as alterações, a harmonização, a forma de escrita para diferentes instrumentos e vozes, etc., etc....

            Por toda a parte foram surgindo diversos códigos musicográficos para uso dos cegos, tendo em conta, essencialmente, a escrita a tinta, que dificultava a sua leitura, impossibilitando também poderem ser escritos pelos usuários.

Em 1834, ainda antes do Sistema Braille ser aceite, oficialmente, pela França, o autor optimizou a notação básica do código musical.

Rapidamente este código alcançou grande êxito em França, mas no estrangeiro apenas foi conhecido em 1871, data em que o Dr. Armitage, de Londres, publica a obra "Uma chave para o Alfabeto e a Notação Musical Braille".

Oito anos depois, na Alemanha, surge outro guia e, em 1885, um novo, em Paris. Os três compêndios eram divergentes, tendo-se constituído uma comissão internacional, incorporada pela Inglaterra, Dinamarca, França e Alemanha, com a finalidade da unificação dos conteúdos. Em 1888, esta comissão, reunida em Colónia, acordou nas decisões tomadas, sendo os resultados desse Congresso divulgados nos países respectivos, ficando a ser conhecidos como a "Chave de Colónia".

Foi-se divulgando por toda a parte a Musicografia Braille, pois, cada vez mais, os cegos se valorizavam e empenhavam na melhoria dos meios postos ao seu serviço. Por assim dizer, em cada país e mesmo dentro dele, os usuários foram inventando e usando símbolos consoante as necessidades. Urgia pôr cobro a esta anarquia. George L. Raverat, secretário estrangeiro da American Braille Press, de Paris, tomou a seu cargo esta delicada missão, efectuando várias viagens entre a Europa e os Estados Unidos, até conseguir a realização de um congresso, que teve lugar em Paris a 22 de Abril de 1929, o "Congresso Internacional de Especialistas em Notação Musical Braille", com o patrocínio da União Braille Norte-Americana. Aí se adoptaram acordos importantes, que conduziram ao consenso da unificação da escrita musical dos cegos a nível mundial.

Com a participação de representantes de 29 países, sob a égide da Unesco, Conselho Mundial Braille e Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, reuniu-se em Paris, de 22 a 29 de Julho de 1954, o "Congresso Internacional sobre a Notação Musicográfica Braille", a fim de concretizar os esforços desenvolvidos em diversos países, no sentido de aproximar cada vez mais a Musicografia Braille à escrita musical a tinta.

O Subcomité para a Notação Musical no Sistema Braille, dependente do Comité de Cultura da União Mundial dos Cegos, foi criado no início da década de 80 e reuniu pela primeira vez em Moscovo, em 1982.          Desde essa data que o Subcomité se tem empenhado para que não haja desvios aos acordos estabelecidos e pugna para que prevaleça o consenso em todo o mundo.

                       Até chegar-se à publicação do derradeiro manual, saído, originalmente, em 1996, intitulado "Novo Manual Internacional de Musicografia Braille", editado há cinco anos pela ONCE e de que se espera, algum dia, seja contemplada a sua publicação em Portugal (onde nunca nada foi editado sobre a matéria e a que se tem dado pouca ou nenhuma importância), houve mais um longo e espinhoso itinerário a percorrer.

            Esta obra, de largo alcance para uso dos cegos de todo o mundo, é o resultado de vários anos de estudo por parte do Subcomité sobre Musicografia Braille da União Mundial de Cegos e é a continuação do conjunto de manuais publicados após as conferências de Colónia (1888) e Paris (1929 e 1954), contendo ainda as resoluções e decisões tomadas pelo referido Subcomité nas conferências e acordos celebrados entre 1982 e 1994.

 

 

 

c) A INFORMÁTICA E O APERFEIÇOAMENTO DE SOFTWARES DE MÚSICA MANEJÁVEIS PELOS CEGOS

 

 

No campo da informática há muito trabalho investido, com progressos já bem visíveis e prosseguem diversas e afanosas investigações, visando a concretização dos meios para que os cegos possam digitalizar, escrever, tratar, imprimir, converter, exportar e importar ficheiros, compor, orquestrar, fazer alterações, isto é: ter a possibilidade de manejar e rentabilizar os softwares musicais disponíveis e usufruir das ferramentas que facilitam a vida aos músicos normovisuais.

            Tem-se apostado bastante em facultar aos cegos a escrita da música em Braille e imprimi-la para tinta e vice-versa.

Sucintamente, referirei alguns softwares e as suas principais tarefas:

1. GoodFeel - Transcritor de partituras a tinta para Braille. Funciona associado a programas de reconhecimento óptico de música.

2. Cakewalk e CakeTalking - Sequenciador Midi, tornado acessível aos cegos através de scripts para o leitor de ecrã Jaws.

Este ano foi substituído pelo Sonar, para o qual foram adaptados os scripts.

3. Braille Music Editor - Software que permite a escrita de música, utilizando o código Braille, permitindo depois a sua impressão, quer em Braille, quer em tinta.

4. Sybelius e SybSpeaking - Software de notação musical, que se tornou acessível aos cegos por meio de scripts também para o Jaws. Este software permite a impressão a negro, directamente, ou em Braille, usando o GoodFeel ou o Braille Music Editor.


 

Uma das curiosidades de alguns destes softwares é a transformação do teclado do computador em teclado de máquina Braille, usando as letras f, d, s (pontos 1, 2, 3) e j, k, l (pontos 4, 5, 6, respectivamente). O espaço assume a sua função normal. 

Desta forma, uma das regras essenciais para manejar os softwares é o conhecimento e domínio da Musicografia Braille.

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Pelo exposto se conclui que o Sistema Braille é uma escrita maravilhosa e repleta de recursos.

Todos os cegos o deveriam dominar correctamente e tê-lo presente nos momentos de trabalho e de lazer.

A informática é um instrumento de inegável utilidade para os cegos e também é urgente que eles a dominem em todas as suas ricas vertentes. Todavia, de modo algum, deve substituir o bom hábito de utilizar o Braille.

Só quem o conhece e o exercita pode, também, usufruir das benesses da respectiva Musicografia.

Formulo votos para que esta, finalmente, como sucedeu com o Sistema Braille, seja uniforme em todo o mundo, de maneira que os músicos cegos possam afinar pelo mesmo diapasão!

 

José Fernandes da Silva

 

 

Setembro de 2003

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O SISTEMA BRAILLE

 

(Trabalho apresentado na Vídeo-Conferência,

promovida pela ACAPO e que teve lugar

no dia 24 de Maio de 2001)

 

             Todo o tipo de escrita tem evoluído positivamente ao longo dos tempos. Sempre existiram diversificadas formas de escrita, atendendo às necessidades específicas dos usuários. A leitura surge como consequência imediata, na medida em que é preciso interpretar os escritos. E a leitura é uma das formas essenciais da apreensão do conhecimento humano, isto é, um infinito horizonte aberto sobre a realidade que nos envolve, onde constatamos aquilo que os outros sabem e pensam, encontrando-se no papel a cronologia dos acontecimentos desde há milhares de anos.

Até quase ao fim da Idade Moderna não há notícias de que alguém se tenha debruçado sobre a escrita e leitura para os cegos, visando a sua educação, valorização, promoção social e preparação profissional.

A primeira informação que nos chega situa-se em 1784, quando Valentin Haüy, um homem culto e de nobre coração, funda em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para a vida. Apologista das filosofias sensistas - defensoras de que tudo depende dos sentidos -, adapta o alfabeto vulgar, traçado em relevo, a fim de que as letras fossem perceptíveis pelos dedos dos destinatários.

Também, por essa época, Charles Barbier de la Serre, um capitão de artilharia, aperfeiçoava um código através de pontos, que podia ler-se com os dedos e era usado para encobrir o segredo das mensagens militares e diplomáticas, a que chamou "escrita nocturna" ou "sonografia".

Após várias alterações e melhoramentos, Barbier apresentou o método na instituição de Valentin Haüy.

Foi a partir deste código que Luís Braille iniciou a sua investigação, no intuito de superar as imensas dificuldades que se lhe deparavam a todo o instante e oferecer aos seus congéneres um sistema que lhes abrisse as janelas para o amplo mundo da cultura, que lhes estava vedado.

Nascido a 4 de Janeiro de 1809, de uma família modesta, Luís Braille era natural de Coupvray, uma pequena aldeia vizinha de Paris. O pai era correeiro e, quando um dia o filho, apenas de 3 anos, brincava com uma sovela, feriu-se num dos olhos, tendo-se a infecção propagado ao outro, provocando a cegueira total.

Em 1819 o pai conseguiu interná-lo na instituição de Valentin Haüy, onde se revela um aluno inteligente, empenhado e sôfrego pelo saber. Aprende música e tudo quanto lhe é ministrado, sempre com distinção e bom aproveitamento.

Geralmente, aponta-se 1825 como o momento em que o jovem aluno inventa o sistema (que mais tarde veio a ter o seu nome). Todavia, apenas em 1829 publica a primeira edição do trabalho, sob o título: "PROCESSO PARA ESCREVER AS PALAVRAS, A MÚSICA E O CANTO-CHÃO, POR MEIO DE PONTOS, PARA USO DOS CEGOS E DISPOSTOS PARA ELES". Deu-lhe forma definitiva na segunda edição, saída em 1837.


 

O alfabeto Braille é constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 sinais.

Este processo de leitura e escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na música, matemática, física, etc.

A criança cega deve iniciar a aprendizagem do Braille logo que entre para a escola, para que se não sinta diminuída em relação aos companheiros normovisuais. Numa escola especializada ela tem um acompanhamento de mais duração e pode trocar impressões com as suas congéneres, mas penso que o ensino integrado é de cabal importância para o deficiente visual.

É evidente que o ensino do Braille requer uma pedagogia específica, mas os fins a atingir são iguais aos da aprendizagem vulgar da escrita e da leitura.

O ensino deve ser bem orientado, já que se reveste de grande importância em todas as áreas e ao longo do percurso escolar os alunos devem ter um técnico que domine o sistema e possua competência pedagógica para os acompanhar, atendendo a que, à medida que progridem nos estudos, novos sinais de toda a ordem vão aparecendo.

É de enorme interesse doptar os alunos com os materiais de que precisam em Braille, mentalizando-os de que este sistema é, por excelência, a sua escrita e leitura e é nele que sempre se devem apoiar.

Se houver uma leitura persistente do Braille evitam-se os reflexos negativos na escrita, sobretudo no que diz respeito à qualidade do Braille e à ortografia.

Actualmente existe uma tendência para a pouca utilização do Braille e menos esmero na qualidade. Há quem defenda que a situação se deve ao aparecimento dos livros sonoros e de toda a tecnologia ligada à informática. Creio, porém, que as novas tecnologias não anulam o Braille, até porque ele facilita o manuseamento das mesmas.

 

Do que foi explanado podemos retirar as seguintes ilações:

- As crianças cegas devem ingressar nas escolas na idade própria e ser-lhes ministrado o Sistema Braille.

- O acompanhamento dos alunos deve ser mais intenso nos primeiros anos de escolaridade, alicerçando os anos vindouros.

- O Braille deve ser ensinado por técnicos competentes, que o dominem em todas as suas vertentes.

- O professor de apoio deve sensibilizar os alunos para que tirem o melhor partido dos equipamentos específicos disponíveis.

- A informática, os livros sonoros e demais tecnologias específicas são manancial de extraordinários recursos para o desenvolvimento cultural dos deficientes visuais, devendo estes ter sempre presente o Sistema Braille, como instrumento insubstituível na sua educação.

 

José Fernandes da Silva

 

Maio de 2001

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TESTEMUNHO SOBRE O BRAILLE

NA MINHA REALIZAÇÃO PESSOAL

 

 

 

             Iniciou-se com 10 anos na aprendizagem do braille no Instituto de S. Manuel. Dedicou-se aos estudos musicais, vindo depois a situar as prestações nos meios religiosos e populares. Foi telefonista/recepcionista até se tornar professor de Educação Musical.

 

Aos sete anos fui para a escola e vi nela a concretização dos primeiros sonhos, pois desejava aprender a ler e escrever.

 Feitas as provas de passagem para a classe seguinte, com 9 anos, um fulminante de dinamite, que fiz explodir, apagou para sempre a luz nos meus olhos. Desmoronavam-se os ambicionados anseios! Tudo eram dificuldades, impossíveis, desalentos e vontade de nada mais fazer. Não me saía da ideia a separação de tanta coisa bela que dantes contemplava! Não mais leria os bonitos trechos que ilustravam os meus queridos livros! Não mais expressaria os desejos e vontades na minha linda caligrafia! Não mais executaria os coloridos e expressivos desenhos! Tornara-me num inútil...

Em quatro longos meses de internamento hospitalar, eram estas divagações e o desânimo que me acompanhavam.

Um dia, uma simpática irmã de caridade, abordou-me e falou-me da possibilidade de reaprender a ler e escrever, através de um método especial que um senhor francês, ele também cego, tinha inventado e posto ao serviço dos seus congéneres em todo o mundo. Que sensação me invadiu a alma! E que ânsia de conhecer essa maravilha redentora me começou a devorar!

Nessa época era muito difícil ingressar numa escola especial. Só depois de um ano de muitos pedidos e influências foi possível internar-me no Instituto de S. Manuel, onde tive como mestres, competentes e dedicados, o Prof. Luís Ribeiro, Dr. Fernando Silva e, muitas vezes, a tirar dúvidas e a incentivar, esse baluarte da tiflologia portuguesa e verdadeiro amigo meu e de todos os cegos, o Prof. Albuquerque e Castro.

            Iniciei a aprendizagem do braille, essa "Bíblia" inesgotável que me tem acompanhado na vida. O cenário da sala de aula era a polirritmia dos punções, das pautas, do manejo dos cubos nos cubaritmos, do deslizar dos dedos pelas folhas de zinco ou de papel e pelos livros, enquanto eu tacteava um pequeno tabuleiro de madeira, onde se dispunham seis bolas, em duas filas verticais de três.

            Era um exercício excitante, reproduzir os 63 símbolos do Sistema Braille. Depois, passei para uma régua dividida em rectângulos, de seis furos cada, dispostos como no tabuleiro anterior, onde colocava pequenos pregos. Seguiram-se as folhas de zinco (com letras separadas, pequenas palavras, linhas espaçadas), mais tarde substituídas por folhas de papel, já com frases curtas, e, finalmente, dominados perfeitamente os caracteres, uns livrinhos com textos simples e cativantes, retirados do "Campo de flores" e da "Cartilha maternal". Não mais se me extinguiu no ouvido o som da azáfama da sala de aulas!


 

A primeira vez que juntei letras em palavras e comecei a ler, senti enorme alegria, porque a partir de então podia ler, escrever, fazer contas, decifrar desenhos e enterrar um ano de dolorosa escuridão. Rasgavam-se-me, assim, as janelas para o mundo da cultura, da educação, da comunicabilidade, para o campo profissional e do lazer.

Apesar das novas tecnologias, que admiro e uso largamente, jamais deixei um só dia de ler e escrever braille. Mesmo quando recebo textos digitalizados, gosto de os converter para relevo e tacteá-los. Sou seguidor dos princípios que me incutiram, e aconselho, - a necessidade de usar bem o Sistema Braille, quer na qualidade da escrita e para a fluidez na leitura, quer na estética do tratamento dos textos.

O Sistema Braille tem sido precioso na minha realização pessoal; mas gostaria de ressaltar alguns aspectos:

 

1. Plano educativo - O braille esteve sempre presente na minha educação; e a leitura e a escrita proporcionaram-me e fortaleceram o processo de aprendizagem a todos os níveis. Tive acesso a alguns manuais escolares, o que punha em pé de igualdade com os colegas normovisuais, sentindo-me frustrado sempre que não podia dispor deles. Assim, estudei línguas, contactando com a ortografia; exercitei a matemática e a física, disciplinas que exigem muita prática; estudei música, servindo-me da musicografia braille; pude discutir as matérias disciplinares; prestei provas escritas, pondo em evidência capacidades e dificuldades; sempre privilegiei a leitura e a escrita em braille.

 

2. Plano profissional - Convenientemente alfabetizado pelo método braille não me foi difícil a progressão nas metas a atingir: não teria sido um excelente telefonista/recepcionista e, actualmente, um professor de Educação Musical sem problemas, se não tivesse tido uma educação esmerada e persistente no manuseamento do Sistema Braille. Como telefonista/recepcionista pude criar a minha lista pessoal com os contactos mais usados na empresa; tomar apontamentos vários; registar mensagens de qualquer tipo, etc. Profissionalmente, o braille é um aliado inseparável e o gesto de escrever tudo o que elaboro dá-me mais segurança, permitindo-me maior criatividade e facilidade na organização do raciocínio.

 

3. Plano afectivo - Ler e escerever, em braille, ao longo da vida, tem-me proporcionado uma infinidade de satisfações: escrevo música, poemas, contos, trabalhos técnicos e académicos, crónicas para jornais e revistas; troco correspondência (excelente veículo para a permuta de ideias, bem como para contacto e conservação de amizades nascidas do companheirismo nas escolas, nos centros de reabilitação, em convívios, etc.); leio livros e textos de toda a índole, de carácter lúdico ou profissional.

 

4. Plano interpessoal - Neste particular, o braille tem-me facultado manter relações com diferentes tipos de pessoas, versando diversificados assuntos, como troca de ideias, partilha de experiências e opiniões sobre obras literárias e técnicas, música, jogos, informática, política, religião, etc.

 

 

Em conclusão direi que o braille me tornou a integração mais acessível: permitiu-me, globalmente, o desenvolvimento cultural, social e profissional, alargou-me o conhecimento em todas as vertentes, poupou-me ao tédio preenchendo-me com benesses os vazios do dia-a-dia.

No braille há ainda muito por explorar. Só o permanente contacto com a leitura e a escrita levará à descoberta de outras potencialidades. O braille é o amigo por excelência, o instrumento de que me socorro a todo o momento, o escape para o tédio, para a solidão, para as horas alegres e para o desânimo. É o catecismo que deve ser reconhecido de fio a pavio e dominado em todas as extensões. Sinceramente, pelos benefícios colhidos, solto um canto de júbilo, de exaltação, de agradecimento e acção de graças, em memória de Luís Braille, esse Cego notável, que legou aos parceiros da mesma condição o Sistema Braille, uma fantástica e inesgotável "Bíblia", que a todo o instante deve ser folheada!

 

In "Mãos que lêem - Testemunhos a Louis Braille"

- 150 anos da morte de Louis Braille

- (Editorial Minerva, p.51-54)

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GARRAS DO DESTINO

  

Na margem direita do rio Cávado é que o abastado lavrador possuía a sua melhor quinta. Nela fixara residência, porque lá tivera o berço e se criara. De tudo e em abundância se produzia naquela imensa e bem cultivada veiga, que dava trabalho diário a cerca de uma vintena de pessoas: algumas nativas da freguesia e outras vindas das aldeias limítrofes.

Estávamos na derradeira década do século XIX. O morgado da Veiga, boa figura e com um quarteirão de anos de idade, desposou uma jovem esbelta e também muito rica, de uma terra próxima. Só ao fim de meia dúzia de anos é que o casal viu concretizar-se um sonho, que a cada hora enleava e entristecia as permanentes e intermináveis conversas. Mas o prémio atribuído foi compensador: a mãe deu à luz uma menina bonita, qual serafim jamais visto! Nela depositaram as mais ardentes esperanças, porque, baldadas todas as tentativas, Deus não lhes concedeu mais filhos. E eles tanto os desejavam e tinham posses para manter um rancho...

Cresceu a Raquel, assim se chamava a benquista criança, bafejada pelos mais finos tesouros de mimo, de ternura, de beleza e de graça.

Em 1916, inesperadamente, o estremecido pai foi chamado para ir combater em França. Estremeceu, afligiu-se e abraçou-se à filha, tomou-lhe, com doçura, a mimosa cabeça e, olhando-a bem no fundo dos olhos, sob um fluxo de amargas lágrimas, gemeu e balbuciou: "Minha querida Raquel, que não te voltarei a ver... A minha partida vai separar-nos para sempre"...

Apesar da avultada fortuna e de múltiplos e influentes pedidos, não logrou alterar a terrível sentença: forçaram-no a seguir para as trincheiras da morte... Contudo, não morreu na feroz guerra, regressando dois anos depois... E, na realidade, bem melhor fôra ter perecido numa renhida fuzilaria do que acabar os dias, desconsolado, no tremendo vazio e sofrimento, que o aguardavam no seu antigo paraíso de felicidade...

Entretanto, Raquel completara 18 anos e, quase sem dar por isso, amava ardentemente e da mesma forma era correspondida por um garboso moço, filho de uma família vizinha e respeitável, que terminara, brilhantemente, um curso de Direito, na universidade de Coimbra.

À luz do dia e e pelo luar ou escuridão da noite, sucederam-se imensos e idílicos encontros e era cada vez maior a chama que os iluminava e sustinha.

Em certa noite, alvoroçada, mas convicta e enternecida, Raquel tinha uma feliz notícia para confidenciar ao seu bem amado: estava grávida!

Esperou toda a noite e todo o dia, mas ele não apareceu... e nunca mais apareceria...

Por linhas travessas ouvira que o filho do sr. Arturinho das Levadas, como era o alcunhado, misteriosamente, havia desaparecido, sem deixar uma pista que lhe seguisse o rasto.

Cismava na hipótese de ele se ter cansadodela, ou até entregar-se a outra e, covarde ou delicadamente, ausentar-se, nada lhe revelando... Empalideceu e começou a definhar, alarmantemente. Deixou de se alimentar e de sair do quarto. Visitaram-na febres e alucinações. Ninguém a consolava. E, numa noite ventosa e gelada de um frio Janeiro, furtando-se à vigilância apertada da mãe e dos serviçais, saiu de casa, alucinada, em louca correria e, soltando um grito lancinante, precipitou-se na forte corrente das volumosas águas do Cávado, que passava a uns duzentos metros da casa solarenga...

Quando se aperceberam do seu desaparecimento já era tarde: no dia seguinte, aureolado pelo sol do meio-dia, percorridas três léguas, o cadáver, a boiar, foi recolhido perto da vila de Prado...

Esta comovente história foi-me narrada há uns vinte anos por um septuagenário muito amigo e a propósito de uma ossada humana que aparecera em Maio de 1936, na já referida quinta, quando se abria uma extensa vala, para entubar a água duma nascente, explorada numa bouça mais alta da propriedade.

"Feitas as devidas averiguações" - prosseguiu o venerando ancião - "concluiu-se que se tratava do esqueleto do filho do sr. Arturinho das Levadas, de quem há 19 anos se ignorava o destino. Embora o esqueleto estivesse ainda muito uniforme, o que levou à imediata identificação foi o encontrar-se-lhe ao peito um medalhão de oiro com o retrato dos pais"...

"E qual foi a causa da sua morte e porque se manteve assim tão sigilosa"? - Perguntei, a fervilhar de curiosidade.

"Era uma época de grande fome e de muito roubo. Na última noite em que se encontrara com a moça, ao regressar a casa, com mil cautelas, dois criados, de longe, não o reconheceram, julgando tratar-se de um larápio. dispararam dois tiros de caçadeira e deram-lhe morte repentina. Chegados junto da vítima inocente, arrepiados, reconheceram o namorado da sua jovem e estimada ama. Atónitos, envergonhados e cheios de remorsos, concordaram que a única e melhor solução era enterrar o defunto, destruir todos os vestígios e guardar inviolável segredo do funesto acontecimento..."

 

Setembro de 2004

 

            Jornal “O Mourinho”

 

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