Textos Publicados


 


ATRAQUEM



Ao pe. Artur V. Marques



O Manuel Lopes, conhecido por Beirigo, era um bom homem, de estatura média e bem apessoado, que nasceu em Freiriz, Vila Verde, em 2 de junho de 1911, no lugar que lhe conferiu o apelido.

Ainda na infância, juntamente com a irmã Carminda, ficou órfão de pai e de mãe (apanhados nas malhas do surto epidémico que grassava pelo País), ficando sob a tutela de uma tia. Fruto de má administração e do oportunismo de alguns intrusos e agiotas, quase ficaram depenados dos muitos terrenos que herdaram.

O Beirigo cantava bem, era tocador de concertina, de viola braguesa e de cavaquinho, muito alegre, com uma gargalhada sonora e agradável, sendo respeitador e muito respeitado.

Das muitas peripécias em que se viu envolvido, uma havia que o próprio contava repetidas vezes, e com imensa piada, sobretudo ao sr. pe. Artur V. Marques, atual pároco de Espinho e de Sobreposta, Braga, sincero amigo da casa e que, nos derradeiros anos de vida do Beirigo (que nos deixou no dia 5 de novembro de 1979), pontualmente, o apanhava para irem à Feira dos Vinte, a Prado e, claro está, reouvir a narrativa e juntar as suas gargalhadas às do ator principal do narrado.

Fora o caso que, no seu tempo de mocidade, o Manuel Beirigo comprara uma boa bicicleta. Ora, nesse tempo (e ainda hoje), na Vila de Prado, os festejos em honra de S. Sebastião, a 20 de janeiro, registavam uma afluência digna de assinalar, com a sua afamada feira de gado e, sobretudo, dos burros...

Resolvera o Beirigo montar a sua boa e nova bicicleta e ir folgar, largamente, no tradicional e festivo acontecimento. E, pelos vistos, divertiu-se à farta!

Quando à tardinha regressava a Freiriz, no seu transporte de gosto, na saída para a estrada nacional, que conduz a Ponte de Lima, bateu com os olhos num feirante, montado no seu belo cavalo, selado a rigor, e que trazia atrelados alguns burros, que negociara na feira. Perante aquele cenário, o Beirigo foi assaltado por um inesperado desejo, que logo procurou pôr em prática, rogando, educadamente:

"Ó meu senhor, deixe-me montar um bocadinho num burro!"

Sem hesitações, e até dava a impressão que satisfeito, o interpelado retorquiu, sorridente:

"Ó moço, escolhe o que quiseres e consola-te, mas vai devagar..."

O Beirigo entregou a bicicleta a um companheiro de confiança, para que lha fosse levando a caminho de casa, e escolheu o que lhe semelhava ser o mais garboso dos asinos, o mais bonito e o mais fácil de montar.

Trepou para o lombo do animal, desprovido de arreios e de rédeas, amarrou-se às crinas e deu a ordem de partida. O burro iniciou a marcha, troteando com lentidão. O negociante deixou-o ir à-vontade e foi-o seguindo.

O Beirigo principiou a incitar a alimária, para andar mais depressa, excitado, aos berros...

Na reta de Febros, a certa altura, a besta, sem freio, sem rédeas, sem albarda, sem estribos, desatou a acelerar, a acelerar, numa correria vertiginosa e, quanto mais o Beirigo, aflito, suplicava por socorro, berrando, "atraquem!, atraquem!", se amarrava desesperadamente às crinas e apertava afincadamente as pernas no lombo do desvairado animal, para não ser cuspido, muito mais o quadrúpede acelerava...

Apanhado nesta emaranhada teia, resultante do bicho ter estranhado o montador e a sua falta de experiência, o cavaleiro ia atrapalhadíssimo, via a sua vida a andar para trás, pelo que gritava, cada vez mais, a plenos pulmões:

"Atraquem!..., atraquem!!..., atraquem!!!..., atraquem!!!..."

E ninguém atracava, porque não estava prevista aquela cena e porque o desalmado burro galopava como um raio.

O feirante, entretanto, quando chegou ao local onde tinha que mudar de direção, para tomar o destino da sua residência, estendendo o olhar pela estrada fora, e não enxergando nem a azémola, nem o cliente gratuito, esporeou o possante cavalo, ultrapassou o burro espantadiço e atravessou-se-lhe na frente, obrigando-a a estacar.

Mostrando um ar de sério e de gozão, o dono da alimária dirigiu-se ao Beirigo (que, ainda mal refeito do tremendo susto, a tremelicar e ligeirinho, foi abandonando o transporte - que ele julgava ser uma realização pessoal e um inédito momento de lazer), e acusou-o, sem mais:

"Ó moço, então eu empresto-te o burro e tu ias-me a fugir com ele?!..."

"Ó meu senhor, eu a fugir-lhe com o burro?..., homessa! O burro é que ia a fugir comigo!!"




2 de abril de 2012

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A CONCERTINA



O tempo em que as uvas eram pisadas com os pés (pois ainda não existiam raladores ou as modernas máquinas de ripar os bagos do cangaço), e se utilizavam pequenos e grandes lagares de granito, dornas e dornões, foi um tempo áureo, repleto de alegria e de lazer.

Cantava-se a solo ou em grupo, repenicavam cavaquinhos e violas braguesas, a baqueta percutia a pele dos tambores, vibravam as pandeiretas, tilintavam os ferrinhos, roçava-se a cana no reco-reco e então, quando aparecia um realejo, um harmónio, ou, mais tarde uma concertina, era um momento de festa para se guardar na alma.

Bem me lembro ainda, pelos anos 50/60, do século vinte, desses salutares eventos e pude participar em muitos deles. Retenho, também, na memória, as narrativas que me eram produzidas por anciãos e anciãs, que parecia, pela parte de alguns, ainda estarem a viver e saborear esses tempos doirados, em que a vida das aldeias era feita de muitas fainas agrícolas, em que quase todos colaboravam.

Existia paz, fraternidade e mútuo respeito.

Belos e saudosos tempos!

Ora, pelos anos quarenta, do século que findou, o Quim Pinguinhas era um moço trintão, mediano de estatura e bem composto de carnes, apreciador de umas boas merendolas, regadas, de preferência, com uns valentes e bons pingatos... Cantava muito bem, dava cartas ao desafio (e tomara ele que lhe aparecessem muitos desafiadores - embora sempre preferisse digladiar-se com vozes femininas), e dedilhava na perfeição o cavaquinho e a braguesa.

Há muito, todavia, que trazia uma ideia alojada na cabeça e que nunca o largava: adoraria possuir e saber tocar uma concertina!

À época era um excelente carpinteiro e ia ganhando uns troquitos, mas não se esticavam para satisfazer-lhe o obsessivo desejo. No entanto, com tal intuito, quando lhe era possível, lá deixava uns escudos de lado.

Num certo dia, pelo fim da tarde, numa festa concorrida de uma aldeia vizinha, alcandorada quase no topo de um monte, denominado "Cabeço do Mocho", onde cantou ao desafio e acompanhou, com a braguesa, o Tone Alemão (cuja alcunha lhe advinha de ser muito alto e anafado e que tocava primorosamente concertina), no terreiro de um afamado tasco, (e também já sob os vapores de uns razoáveis quartilhos do mais repintado carrascão), arranjou forma de fazer uma negociata com o Tone Alemão e apalavrou a compra do ambicionado instrumento de foles! E a data apalavrada foi, também, a tardinha do domingo vindouro, naquela mesma tasquinha, onde confraternizavam...

O carpinteiro passou a semana a sonhar com a compra que ia efetuar e a imaginar-se a dar ao fole do estimado e atrativo instrumento. O tempo girava imensamente vagaroso e ele desejava que, depressinha, chegasse o domingo...

E, finalmente, graças a Deus, o domingo chegou, iluminado por um sol que irradiava muita luz e calor. Foi à missa do cedo, tomou um traçadinho (uma mistura de vinho do Porto com bagaço), na venda do Cruzeiro, foi tentar receber umas maças que lhe deviam, e entrou em casa para jantar já próximo das duas horas da tarde. Comeu com apetite, regou abundantemente o arroz aguado de pica-no-chão, deu duas de treta com a estimada esposa, juntou as notas de vinte e as moedas que tinha, acomodou-as na carteira e enfiou-a no bolso interior esquerdo do casaco, que, como de costume, abotoou.

Consultou o relógio de bolso. Eram quatro horas e estava na altura de calcorrear os cerca de três quilómetros, praticamente sempre a subir, pois queria chegar ao "Cabeço do Mocho" sem perda de tempo.

(...) Após a negociata, molhada com umas boas tigelas de verde, o Quim Pinguinhas enfiou os braços nas correias da concertina, acomodou-a nas costas, e predispôs-se a regressar, mais contente do que um cuco rebaldeiro. Como fosse já noite bem cerrada, meteu-se em passo acelerado pelo desértico e tortuoso caminho, que ligava o "Cabeço do Mocho" à sua terra natal, implantada lá no fundo.

Algumas passadas começaram a fugir-lhe para o falso e ele sentiu-se um tanto ou quanto cambaleante, mas para a frente é que era o caminho...

Embora fosse pelos finais de junho, a noite tornou-se fria, sem luar e caía uma chuva miudinha (molha-todos, como costuma dizer o povo), com que o comprador não contava... Ainda não havia vencido um terço do itinerário, quando pressentiu uma restolhada e, quase ato contínuo, uma rija bordoada de lódão acertou-lhe em cheio nas ilhargas e estendeu-o de bruços, no chão de saibro escalavrado.

Tentou levantar-se e sentiu que lhe tentavam segurar as pernas. Conseguiu distribuir uns pontapés, proferir uma dúzia de sonoras obscenidades e constatou que apanharam o jeito de lhe surripiar o objeto de tão grande estimação. Voltou a escutar outra restolhada e passos que, tanto quanto era possível perceber, na subida, apressados iam soando cada vez mais longe, no sentido inverso à sua atribulada deslocação para o ambicionado lar.

Refez-se do susto, habituou-se à ideia de que tinha sido assaltado... Com os pensamentos num turbilhão ainda projetou voltar atrás.

Àquela hora, porém, já não encontraria vivalma...

Ergueu-se, vagarosamente, e reiniciou a marcha, ciente de que guardava, no bolso interior esquerdo do casaco, uma carteira sem notas e, às costas, a leveza, pela falta da concertina, de que o despojaram...

Bem, desta vez nem dedos nem anéis!




17 de julho de 2013

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DÁ-ME LUME?




Ao Francisco Bezerra


O Gaspar Manso, a quem alcunharam "o Vila Verde" (por ser natural da vila e concelho do mesmo nome, próximo do distrito de Braga) era, já havia anos, estivador no porto de Viana do Castelo, - a sugestiva, linda e panorâmica Princesa do Lima.

Para a época, o Gaspar recebia uma boa paga, sobretudo atendendo às muitas horas extraordinárias que fazia, e levava uma vida de lorde, como na roda dos seus amigos se costumava gracejar. E os encómios eram ainda maiores quando aparecia num dos muitos bem apetrechados tascos da sua vila de origem, para confraternizar com umas abundantes pingas do excelente verde da região, no tempo em que havia muitos e afamados apreciadores e consumidores. Então assistia-se ao despique salutar entre os taverneiros, que porfiavam em ter o melhor vinho - ótimo benefício de que desfrutavam os imensos confrades do "prisioneiro das pipas", que apreciavam acima de tudo o paladar, a cor e o aroma, isto é, a qualidade!

O Gaspar sempre trazia novidades de Viana e, então, todo se regalava a expô-las.

Era um inveterado fumador e fazia-se acompanhar sempre de uma pistola, tentando explicar, ou confundir ainda mais, que se tratava de uma segura companhia e que apenas a trazia "cá por coisas!"

Das imensas peripécias em que foi interveniente, havia uma que não se cansava de referenciar; e notava-se bem que sentia prazer em referi-la e relembrá-la...

Fora o caso que, numa certa vez, ao fim da tarde, quando acabou o dia de trabalho e saiu do porto marítimo vianense, deu com os olhos num cavalheiro, bem-vestido e bem-apessoado, fumando um charuto.

Gaspar dirigiu-se para o concorrido quiosque, na esquina do outro lado do largo, para comprar tabaco, e o sujeito, após ele, também foi comprar charutos...

Gaspar tomou a rota de um café vizinho, e o cavalheiro, mantendo uma determinada distância, lá o ia seguindo.

Gaspar entrou no café, sentou-se numa mesa, acendeu um cigarro e pediu uma cerveja. Ao ser servido, observou que o empregado caminhara para outra mesa, ali próxima, e colocara nela uma chávena de café e um copo de água, e que o cliente era, nem mais nem menos, o mesmo cavalheiro que viu ao deixar a doca, que o acompanhou até ao quiosque e até ao estabelecimento de restauração e que agora, quase a seu lado, como que distraído e devagar, saboreava as duas bebidas.

Gaspar permaneceu por longo tempo no café, lendo o jornal e queimando alguns cigarros.

Por fim, acenou ao servente, pediu a conta, pagou e saiu para a rua, a fim de ir pegar no automóvel que, pela manhã, tinha estacionado a uns trezentos metros dali.

Já era noite. Meteu-se no acesso que o levava ao sítio pretendido e, palmilhados uns cinquenta passos, virando-se, com discrição, para trás, volta a dar com os olhos no companheiro indesejado... O qual ainda o acompanhou mais uns cem metros.

Mas, de súbito, desapareceu...

Gaspar, com a pulga na orelha e apresentando uma cara de poucos amigos, parou no passeio, junto de um candeeiro de iluminação, meteu a mão direita ao bolso traseiro das calças e sacou a pistola. Destravou-a, puxou a corrediça atrás, colocando uma bala na câmara, e acomodou a arma na manga esquerda do casaco...

"O freguês parece que se arrependeu e desistiu de me querer fazer companhia. Ainda bem, porque já me estava a enfastiar e a cheirar a esturro. Dá-me a impressão de que queria cócegas e eu não estou nadinha virado para aí!" - desabafou Gaspar Manso.

E, com lentidão, recomeçou a marcha.

Um pouco adiante, de novo, parou. Subtraiu mais um cigarro do maço, acendeu-o com a prisca do anterior, colocou-a no paralelepípedo do chão, pisou-a, apagou-a com o sapato e jogou-a fora, para a via deserta.

Estava a chegar ao estacionamento do carro, quando, de uma viela que ali desembocava, vê reaparecer o perseguidor daquela noite...

"Raios o partam! Afinal, o figurão é teimoso... Dizem-me cá os meus botões que hoje as vamos ter, e das boas! É que parece mesmo o Demónio a tentar as almas... Deixa ver no que isto dá..."

Desta feita, o sujeito, afoito e empertigado, delicadamente, aproximou-se de Gaspar, apresentou-lhe o charuto e dirigiu-lhe a palavra:

"Dá-me lume, por obséquio?"

Gaspar, aparentando grande calma e sem pressas, com a mão direita, retirou a pistola da manga esquerda do casaco, enfiou, na boca do cano, o cigarro e, com o dedo indicador, emperrou o gatilho.

Estendeu o braço, aproximou a ponta do cigarro a arder à ponta do charuto apagado e, solícito, proferiu:

"Faz favor de se servir..."




2 de janeiro de 2012

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ASCENSÃO E ASSUNÇÃO




À Maria Teresa Lobato


Era uma vez duas meninas vizinhas, que sempre frequentaram os mesmos lugares de estudo e de ocupação dos tempos livres, com a mesma idade - dez anos -, que adoravam e praticavam as mesmas brincadeiras, jogos e diversões, ambas invejosas e cultivadoras do pecado do orgulho, uma chamada Ascensão e a outra Assunção.

Era uma vez uma alta e copada cerejeira, nascida na extrema de duas leiras, pertença, cada uma, do seu dono, um progenitor de Ascensão e o outro de Assunção.

Tendo, pois, cada proprietário a sua filha, cada uma defendia e gabava-se de que a cerejeira lhe pertencia.

Ambas sempre a conheceram muito alta e bem copada, mas, quanto a frutos... era a única deceção, porque em cada primavera se deliciavam repetidamente a olhar a lindeza de um enormíssimo andor asseado mas, por motivos que desconheciam, caída a flor, dos tão desejados frutos, nem sinais!

Os pais, quer de uma, quer da outra, de vez em quando, e sobretudo nas ocasiões em que as filhas os questionavam das razões da infertilidade do estupendo exemplar, julgando-a ambos também sua, com ar de aborrecidos, desabafavam que, qualquer dia, não haveria outro remédio senão derrubá-la, porque tinham bem presente na memória a conhecida frase: "Árvore que não dá fruto corta-se pela raiz."

As duas meninas residiam em casas vizinhas, frequentavam a mesma escola, brincavam imenso juntas, mas cultivavam, pois, um mesmo defeitozinho: eram invejosas. Desta forma, o que uma tinha, também a outra gostava de ter e não sossegavam enquanto não satisfizessem os respetivos anseios, orgulhando-se com a exibição das novidades. E era nas alturas em que uma possuía algo de novo que mais quezilavam.

O tempo é quem manda no tempo. A Natureza prega muitas e inesperadas partidas e, nos meados de um certo abril, de repente, as duas meninas, em diferentes momentos, mirando a alta e bem copada cerejeira, estupefactas e alegres, testemunharam um espetáculo fantástico, inédito e há longo tempo aguardado: nos ramos da fruteira não se vislumbrava uma nesga de espaço onde faltasse a tão ansiada cereja! Estava carregadinha, triunfantemente apinhada do delicioso fruto!!

Passaram a partir de então as duas meninas, e mais do que uma vez ao dia, na época própria, a contemplar das suas leiras a formidável tela, onde os frutos cresciam, cresciam e, pelos fins de maio, começavam a pintar a olhos vistos...

E também, finalmente, as cerejas amaduraram e, a dita tela, exibia a inevitável e maravilhosa cor encarnada! Formidável cenário aquele!!

E as duas meninas, invejosas como eram, tudo faziam para que a outra não bulisse e não apanhasse as agora madurinhas cerejas.

Era junho. Tinham terminado as aulas e começado as férias grandes. As duas meninas tinham o tempo disponível e passaram a gastá-lo numa vigia quase permanente à carregadíssima cerejeira, não admitindo que a outra tocasse nos frutos e só às vezes, e às escondidas, é que conseguiam provar uma cereja, caída do bico da passarada, ou já muito mole e a apodrecer.

As duas meninas pediam e incitavam os pais para tomarem uma posição e apanharem as cerejas. Eles, porém, iam adiando, porque, lá no fundo das suas consciências, não tinham a certeza da cerejeira lhes pertencer.

Às filhas, para lhes agradar e mostrar que eram donos, iam dizendo:

"Vão-se apanhar, filha..."

E as duas meninas, invejosas e repletas de orgulho, só para ferir suscetibilidades, garantiam, mutuamente:

"O pai já me disse que se vão apanhar as cerejas!"

Ao que a outra retorquia, molestada:

"Que nem pense!..."

O tempo não se compadece do tempo. As cerejas eram muitas e estavam maduríssimas... e os pais e as duas meninas não tomavam uma decisão.

Perto do dia de S. João, numa noite, começou a soprar uma brisa, que se foi transformando em rajadas fortes de vento, formou-se uma trovoada medonha, com relâmpagos que iluminavam a densa escuridão e trovões que atroavam o infinito, desabou um chuveiro torrencial, com momentos de fortíssimo granizo. A intempérie durou umas duas ou três horas...

Quando nasceu o novo dia, apresentou-se o céu limpinho, com um sol bonito e quente, dando a impressão de que não tinha existido qualquer borrasca, não fossem os tremendos estragos que se observavam, a olho nu, nos campos de centeio, nas árvores de fruta, nos montes...

Mal se levantaram da cama, ainda cedinho e parece que combinadas no horário, as duas meninas vizinhas, a par, correram para as suas leiras, a fim de verificarem se a "sua" cerejeira tinha sido danificada... Jesus!, uma desolação!

Muitos e muitos ramos partidos. Nem um fruto suspenso... O chão era uma restolhada e estava extremado de cerejas esborrachadas, mais parecendo um lamaçal do que a extrema de duas leiras com uma altíssima e bem copada cerejeira, de dois pretensos donos, invejosos e emproados como as duas filhas de dez anos!...




3 de maio de 2012

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A FIDALGA DE GUISANDE




Ao José Manuel Mendes


(...) A airosa e bem ornamentada igreja paroquial de Sobreposta ficava ao cimo da asseada e acolhedora aldeia bracarense, com o idoso e venerando sacerdote preparado para receber e abençoar os estimados noivos, Violante e Hilário, que se recusaram, terminantemente, a matrimoniar-se na antiga e bem cuidada capelinha da extensa quinta da fidalga de Guisande. No espaçoso largo, frontal ao palacete dos pais da formosa noiva, a banda de música dava início ao cortejo nupcial, ouvindo-se já o estralejar de muitos foguetes.

Incorporaram-se os inúmeros convidados e, subindo pela antiga estrada de macadame, partiram a caminho do templo do Senhor...

Decorria o derradeiro quartel do século dezanove.

A Violante era filha única (conhecida por morgada de Guisande) de uma das famílias mais abastadas de Lageosa, com muitos teres e haveres, perto da margem direita do Febras, ainda reclamando e querendo mostrar hábitos e certas manias, como descendentes de ilustres avoengos, que pertenceram à nobreza de Portugal.

E é que, sobretudo a mãe de Violante, uma senhora de meia-idade e de alta estatura, não abdicava uma unha que fosse daquilo que afirmava serem os costumes do verdadeiro fidalgo lusitano.

E claro está, quando recebia alguém no seu casarão de cantaria, procurava servir com dignidade e com pompa, indo buscar ao louceiro da sala de receber as louças antigas e os talheres de prata, herança de um tio clérigo, falecido cerca dos anos oitenta do século dezanove e que se sabia ter sido um miguelista ferrenho, pois até se envolveu em diversas escaramuças e deu guarida, numa sua quinta bem murada, a imensos correligionários e simpatizantes do monarca absolutista.

O Hilário era um garboso rapaz, bem-apessoado, trabalhador e filho de remediados lavradores. Os avós tinham sido ricos proprietários. Uma questão familiar de partilhas, porém, levou unhas e sabugo, absorvendo a Justiça uma maquia bem acuculada de ouro. E o que mais doía e que influenciou a sentença do tribunal foi o aparecimento de testemunhas falsas que, por saberem da existência de muito dinheiro, não dispensavam umas vistosas libras douradas...

E a verdade seja dita: em relação à morosidade da justiça, aos tribunais, aos favorecimentos, aos testemunhos falsos e às fortunas que se derretem nos processos pouco ou nada se alterou, ou, melhor dizendo, piorou uns quantos por cento...

De maneira que o jovem Hilário, apanhado na teia da pouca fortuna, apaixonou-se pela riquíssima Violante.

Ainda namoriscaram, clandestinamente, uns dois anos. Quando, todavia, o pé-de-alferes chegou ao conhecimento da mãe afidalgada e com preconceitos genealógicos, foi o diabo em figura de gente: chamou a morgada a capítulo, pregou-lhe um sermão com missa cantada e tudo, ameaçando deserdá-la, enclausurá-la num convento, dá-la ao desprezo. A aristocrática senhora desfiou num tal rosário de mil e uma patifarias que, de princípio, assustou a moça.

Neste entremeio, Hilário foi cumprir o serviço militar e escolhido para chefiar uma importante missão numa das possessões ultramarinas portuguesas, na África Ocidental.

Antes do embarque ainda conseguiu um encontro secreto com a mulher que o enternecia e por quem, verdadeiramente, se prendera de tal maneira que por nada deste mundo desejava perder.

Foi um encontro idílico, regado com amargas lágrimas e selado com a jura mútua de que, um dia, ou seriam um do outro, ou manter-se-iam solteiros até ao fim das suas vidas...

Partiu, pois, o militar para a sua nobre missão e por lá permaneceu cerca de meia dúzia de anos...

Fervilhavam diversificados sentimentos na mente do agora já patenteado militar: era capitão!

E não esquecia as aleivosias da mãe da sua bem-amada, nem os entraves interpostos à desejada união matrimonial... E mais ainda: somente por uma questão de falta de dinheiro e de situação social. Parecia impossível que naquele tempo ainda houvesse o pedantismo da fidalguia e dos preconceitos de fortuna e de família: mas a teimosa fidalga não torcia, nem se lhe vislumbrava uma nesga de esperança...

O marido da fidalga, esse, tanto se lhe dava como se lhe deu, não ligava patavina e até, às escondidas, confortava a filha, sem a esposa desconfiar, caso contrário, logo se entornava o caldo outra vez...

A fidalga era tão safada que logrou arranjar forma de intercetar a correspondência, para que as cartas de Hilário não chegassem às mãos da filha... Por isso, a moça andava sempre triste e a chorar pelos cantos.

Nas terras de Basto havia um idoso general, já aposentado, com uma folha de serviço cumulada de coisas boas, de medalhas e condecorações e que era filho de um tio-avô da fidalga de Guisande.

Casualmente, numa certa Semana Santa, meteu-se na sua liteira e resolveu fazer uma inesperada visita à prima lageosense.

Havia longo tempo que a rica proprietária não desfrutava de tão grande e efusiva alegria. E fez questão de que o primo general ficasse uns dias por ali, pois poderiam visitar o Bom Jesus do Monte, a Sé de Braga e outros ex-líbris dos arrabaldes.

Honrado, o primo general aceitou o convite e por lá permaneceu uns dias.

Como observasse a contínua tristeza de Violante, quis saber quais as razões.

E começou as investigações, se calhar, pelo sítio errado; mas, por outro lado (como Deus escreve direito por linhas tortas), se calhar, também, começou pelo melhor sítio: num cavaqueio ameno com a prima fidalga, lançou o repto:

"Acho a menina com um ar triste e tão desprovida de carnes e cores... Alguma doença a traz naquele estado?"

"Não, sr. primo, não: é uma antiga paixoneta por um rapaz pobre... Mas aquilo, com o tempo, vai passar..."

"Bem, mas se se gostam, fortuna tem a sra. prima que baste para os dois; e só com uma filha, quem há de herdar tantos bens?"

"Ela também podia ter sabido escolher alguém, pelo menos, que pertencesse a uma família de nome, semelhante à nossa..."

"A sra. prima é que sabe, mas eu, se tivesse filhos, deixava que fossem eles a escolher o seu futuro, aconselhando-os, evidentemente."

E mais conversa, menos conversa, cada um manteve e defendeu os expostos argumentos.

Quando se proporcionou uma bela oportunidade, o primo general abordou, com doçura, a sra. priminha Violante.

"Então, menina tão bonita, a que se deve esse corpo esquelético e essa tristeza que a não larga um instante?..."

Em lugar de responder, Violante desatou a chorar baixinho, com soluços que não pôde evitar e com uma torrente de reprimidas lágrimas...

"Onde mora esse infeliz rapaz? Tens a certeza que ele nutre por ti os mesmos sentimentos que não consegues esconder?" - rematou e inquiriu, sem dar tempo à moça para se desculpar.

"Sim, sr. primo, sim, sim, pouco sei dele, porque a sra. mãe interceta toda a correspondência. Ele está em Angola. É militar de carreira..."

"Em Angola?... Militar de carreira?... Como se chama esse moço?"

"Hilário Pimenta..."

"O capitão Pimenta, o bravo "Braga", como lhe chamam e que embarcou para África há meia dúzia de anos?..."

A cachopa parou de chorar; ficou hipnotizada ao ouvir aquelas interrogações, que a enchiam de orgulho e de um bom augúrio. O primo general, o idoso de coração de ouro, o arauto da alegria e da esperança, de leve, poisou-lhe as mãos nas loiras e sedosas tranças e quase que balbuciou:

"Fizeste-me regressar à minha mocidade e lembrar uma mulher (não, muito mais do que mulher, um anjo!,) que amei idolatradamente e que o Destino, contra a vontade de ambos, cruelmente, desviou da minha vida. Nunca mais amei. Creio que nunca mais fui amado. Estou contigo, vou ajudar-te: tens direito à felicidade, Violante..."

Depositou-lhe na testa um sentido e carinhoso beijo e foi procurar a sra. prima fidalga de Guisande...




7 de janeiro de 2012

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ABRAÇO SEM TEMPO




À Felicidade e aos nossos filhos


O Nicolau Pardal, oriundo das cercanias de Braga, era um moço com dezasseis primaveras, bem-parecido e jovial, quando, à volta dos anos vinte, do século passado, decidiu ir trabalhar para a província de Lugo, na Galiza. As coisas foram-lhe correndo de feição e, pelos vinte e dois anos, desposou Pilar, uma guapa rapariga espanhola, que, à época, festejara o décimo oitavo aniversário.

Amaram-se apaixonadamente e nasceu-lhes um menino, batizado com o nome de Juliano, que, de dia para dia, mais se parecia com Nicolau.

Mimado e idolatrado por pai e mãe, Juliano atingiu os cinco anitos.

Rebentou, entretanto, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e o casal, sem conhecer as causas, começou a ser perseguido por dissidentes do regime vigente. Abandonaram tudo e resolveram fugir para Portugal. Às escondidas, lograram alcançar a margem do rio Minho, fronteira com a província minhota, mas em sítio onde não havia ponte, nem barco para efetuarem a travessia.

Foram atacados por uma brigada de combatentes e forçados a atirarem-se às águas do Minho, debaixo de um chuveiro de balas... Mas, felizmente, Pilar e Nicolau puderam atingir a margem do lado português...

E, então, deram-se conta de que o menino não viera com nenhum deles, pois, mutuamente, julgavam que estava com o outro. Ficaram desesperados e loucos... Quiseram retroceder. Os perseguidores, porém, não lhes deram uma nesga de oportunidade.

Ficaram por ali uns dias. Questionaram outros fugitivos. Nada. Clandestinamente, por mais de uma vez, conseguiram ir a Espanha e procurar Juliano por onde lhes era possível. Em vão. Perderam-lhe, de todo, o rasto...

Terminou a sangrenta e fratricida guerra. Realizaram-se diligências de toda a índole. Nada. Sempre em vão...

Nicolau não resistiu à enorme paixão e saudade da perda do filho único. Pelos quarenta anos faleceu. Pilar tomou a decisão de retornar à sua pátria e ao seio familiar.

O tempo foi passando e, a amargurada progenitora, a passos largos, aproximava-se dos sessenta anos e já se tinha conformado à ideia de morrer sem encontrar Juliano...

Uma tardinha, todavia, passeava ela numa avenida movimentada da velha e amuralhada cidade de Lugo, quando, de repente, como que por encanto ou hipnotismo, os seus olhos se fixaram num bonito e simpático sinaleiro, que ali dirigia o complicado trânsito...

Mirou-o, remirou-o, comeu-o com os olhos e com a ternura, das pontas dos cabelos às solas das botas... E quanto mais o mirava, mais a invadia a certeza de que era o seu Juliano, aquele muito amado menino da sua mãe...

Não precisava de mais provas: o sensível e amargurado coração materno não poderia ludibriá-la... Era ele, Jesus!, era ele mesmo...

Aproximou-se, um pouco a medo, e deu boa-tarde...

Santo Deus!, Pilar estava agora frente a frente a um homem que aparentava uns quarenta anos e cujo timbre da voz tinha todas as parecenças com a do há muito falecido pai!

"Juliano!" - tartamudeou ela, ainda incrédula, arrebatada e com voz rouca - "És mesmo tu?"

"Não sei do que fala, senhora..."

"Não te chamas Juliano?..." - prosseguiu, por um lado, afoita, por outro, cada vez mais nervosa e a temer uma deceção.

"Se quer falar comigo, por favor aguente por aí mais umas duas horas, que é quando sou rendido por um camarada. Apareça se quiser." - respondeu o militar, solicitamente.

Pilar procurou um lugar no passeio, o mais perto possível e onde não o perdesse de vista, porque cada vez se convencia mais de que não havia dúvidas...

As quase duas horas levaram uma eternidade a decorrer. Logo que chegou o companheiro que o substituiria no posto de sentinela, o soldado dirigiu-se a Pilar e interrogou-a:

"Então o que há, senhora?"

Ela queria dizer tudo. As palavras saíam-lhe da boca aos molhos, apressadas, desconchavadas, mas sempre no mesmo objetivo. E repetia, repetia:

"Já sei que és Juliano. Tens pai e mãe? E..."

Ele entristeceu-se e, sem delongas e francamente, retrucou:

"Não tenho pais. Perdi-os no início da maldita Guerra Civil. Fiz todos os esforços para encontrá-los, ou alguma pessoa da família e, até hoje, nem a mais insignificante pista me foi apontada e já se me esvaíram todas as esperanças... Vi os meus pais a atravessar um rio a nado, mas não me deixaram acompanhá-los..."

"Oh, Juliano querido, eu sou a tua mãe, que te tem procurado em cada segundo do viver. E, em suave milagre, apareces-me ao fim de décadas..."

Atarantado, mas sob uma força misteriosa, com a voz embargada pela comoção e por incontidas lágrimas que lhe saltaram dos olhos, o homem ficou preso ao local...

E ambos se deixaram levar completamente pelos seus sentimentos. Ela abriu e estendeu os braços e ele avançou e precipitou-se neles com intensa naturalidade, dando a impressão de nunca se terem separado. Após um longo instante, Pilar recuou e Juliano continuou a contemplá-la... Ela, então, acariciou-lhe as faces, os cabelos escuros, deliciando-se com quanto lhe era dado observar e alegrando-se por ele se ter transformado naquela imagem de um bonito homem maduro. "Nem imaginas a felicidade que me assalta por ter-te encontrado, Juliano! Há quantos anos aguardava esta ocasião única.

Quanto teria eu dado para que isto pudesse ter sucedido há trinta e tantos anos. Mas que bom ter-te reencontrado e conseguido que me escutasses... Louvado seja Deus, meu estremecido filho... Já não terei muito espaço de tempo para fazer-te companhia, mas asseguro-te que tudo hei de empenhar para recuperar o tempo perdido e, se possível, centuplicar os muitos carinhos que me habitam e que somente a ti pertencem... E nunca, nunca mais hás de sair da minha companhia. Somos a simbiose um do outro. Bendita seja a hora deste nosso inesperado encontro..."

E voltou a abrir e a estender os braços... E de novo, sem reservas e feliz, Juliano se entranhou neles e o abraço, desta feita, prolongou-se no tempo, sem tempo...




15 de abril de 2012

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O MORGADINHO DA GRANJA




Para o amigo pedralvense Fernando Marques


O verão de 1810 aproximava-se do fim.

Em Pedralva, um casal, que já contava cinco filhas, mas que adorava ter um rapaz, vira o sonho realizado, quando a esposa deu à luz um menino, bem-parecido e gordinho.

Passaram a chamar-lhe "morgado", que, mais tarde, viria a tornar-se herdeiro da casa da Granja, uma das mais ricas da freguesia e senhor de uma imensa fortuna.

As cinco irmãs não quiseram casar e ficaram a residir no amplo casarão de cantaria, um apreciado imóvel que remontava aos meados do século dezoito, pertença de um abonado comerciante que, estabelecido na cidade do Porto, ali vinha muitas vezes, para desfrutar de merecido descanso e de uns aprazíveis momentos.

O morgado, já trintão, decidiu casar, pois na Póvoa de Lanhoso tinha encontrado a forma para o seu pé: uma mocetona, filha, também, de abastados proprietários.

Matrimoniados, não tardou muito que Deus lhes povoasse o lar com um filho, a quem puseram o nome de Evaristo. Após o malogro de inúmeras tentativas, não mais conceberam e ficaram com um filho único que todos tratavam, carinhosamente, e para não confundir-se com o pai, por "morgadinho".

Evaristo foi crescendo e, quase sem darem por isso, tornou-se num simpático moço que atingiu um quarteirão de primaveras da noite para o dia.

De estatura mediana, os dotes de beleza nem por isso o favoreciam muito.

Todavia, se lhe minguavam os dotes de beleza corporal, o mesmo não sucedia com os da alma: era temente a Deus, sensível, amigo de fazer bem e dono de um coração de ouro, reto e compreensivo.

Em meio de uma certa tarde primaveril, o morgadinho regressava da sua quinta de santo Estêvão de Briteiros, montando um dos seus melhores e preferidos cavalos, subiu a Citânia e, chegando à margem esquerda do rio Febras, em vez de tomar o caminho à direita, direto a Pedralva, preferiu seguir pela Várzea e, ladeando as Barrocas e a Sobreira, apeou junto das puídas escaleiras da vetusta capelinha de S. Tomé de Lageosa, prendendo o animal ao tronco de um velho pinheiro, e trepou para o pequeno adro.

Mentalmente e recolhido, rezou um padre-nosso e uma ave-maria ao bom santo padroeiro. Benzeu-se e preparava-se para descer as escadas, quando, na bouça frontal à capelinha, teve uma visão fatal: uma rapariga, com todo o aspeto de juventude, bastante alta e muito esbelta.

A soberba aparição andava distraída na sua tarefa, mas quando ouviu o trote do cavalo e, pouco depois, viu o aparecimento de um cavalheiro bem trajado, à porta da capelinha, voltou-se para aquele sítio, a tempo de ser observada em cheio pelo cavaleiro, que a achou, desde logo, uma figura divinal, toda feita de lindeza!

Ela, delicada e inocentemente, ao ver os olhos dele em si cravados, sorriu.

O morgadinho sorriu também, e acenou-lhe.

Depois, vagarosamente, desceu as escadas, abeirou-se do quadrúpede, tomou-lhe as rédeas, colocou o pé esquerdo no estribo, levantou a perna direita e sentou-se no selim.

Contornou as escadas, pela esquerda, voltou a passar em frente à capelinha, deitou uma larga olhadela para o local onde se encontrava o objeto de admiração, que estava de costas, agachada e virada para os lados do Reguinho d'Água, esporeou o cavalo, passou Santa Cristina, as Cruzes, a Eira dos Caniços, os lugares de Bacelar e Entre Casas, desceu ao lugar da Vinha, atravessou o do Paço e entrou em terrenos pedralvenses...

Chegou a casa, desarreou o animal, pensou-o, de passagem, saudou duas das velhas tias e correu para o aposento de dormir...

De olhos fixos no teto, estendeu-se na cama, colocou as duas mãos no peito e balbuciou, emocionado:

"Vi uma mulher que admirei, ou foi um anjo que me apareceu?! Estou apaixonado, Deus bendito!..."

Não sabia quem era, mas conjeturava que deveria ser filha dos donos da bouça.

Não queria perder tempo e era necessário proceder a investigações, voltar a ver aquela formosura e... pensar no Futuro!

Tinha parentela muito chegada e ótimos amigos na Lageosa e não lhe seria difícil recolher informações precisas. Mas que estava seriamente apaixonado, disso já não restava uma nesga de dúvida...

Sentou-se à mesa, ceou pouquíssimo e esteve ausente ao longo de toda a refeição.

Rezou-se o terço em família e as curiosas tias queriam conversa fiada. Evaristo, porém, docilmente, queixou-se de uma dorzita de cabeça e retirou-se.

Entrou na alcova, escancarou a enorme janela e pôs-se a apreciar a lua, que brilhava intensamente e iluminava tudo e teve a sensação de que o monte de Campelos desaparecera e que a capelinha de S. Tomé estava ali bem pertinho...

Já era madrugada alta quando, por fim, se acomodou nos frescos e confortáveis lençóis de antigo linho. Mas dormiu mal.

Era primavera. Estava uma manhã esplêndida, cheiinha de dourado sol, ornamentada por imensas folhas e flores e povoada por bandos de aves, a chilrear, descuidadamente, pelos campos e pelos montes...

Dirigiu-se à cavalariça, arreou um belo cavalo e voou para Lageosa, ao encontro dos primos da casa dos Vales...

Encontrou, pelo caminho, o primo Venceslau e dele soube o que desejava e o que não pretendia saber...

"Ó primo Venceslau, é capaz de me prestar um favorzinho?" – falou Evaristo, após as efusivas saudações.

"Se eu souber, estás servido, rapaz..." - respondeu o interpelado.

"Ontem à tarde," - prosseguiu o cavaleiro - "quando vinha de Santo Estêvão, numa bouça, na frente do terreiro da capelinha de S. Tomé, vi uma rapariga alta e bonitíssima. Sabe de quem falo, primo Venceslau?..."

"De tranças loiras e compridas, magra e com uns olhos que dão a sensação que hipnotizam quem os fixa?"

"Nem mais, nem menos..."

"Não é senão a Zefa do Albino, linda como um cravo, alegre como um clarim, joia rara de rapariga, modelo de respeito e de educação, filha do casal mais pobre cá da terra, que sobrevive com tremendas dificuldades. Andava no monte, o que já é costume, a apanhar o rebotalho, a fim de manter a lareira acesa, quer para cozinhar, quer para aquecer, principalmente no inverno, o casebre térreo, onde veio ao mundo, no outono de há dezoito anos atrás. E nunca me esqueço da idade dela, porque nasceu um dia antes do meu Artur e porque fui lá dizer à comadre Joaquina que se fosse preparando para mais um parto, pois a minha patroa tinha passado a noite e o dia a gemer com fortes dores... Vive no Regueiro, com os pais e com quatro irmãos mais novos, três rapazes e uma menina ainda de colo..."

E, de repente, olhando de soslaio para o forasteiro, atalhou:

"Estás a chorar, primo Evaristo? A narrativa, na verdade, é muito triste e mexeu-te com os interiores... Mas é a vida, pois Cristo povoou o mundo com ricos e com pobres..."

"Sim, sim..." - tartamudeou o morgadinho, desabafando, só para si - "Se a Josefa quiser passa a ter bem-estar e conforto; não precisa de sentir mais privações!..."

Doravante, sempre que lhe era possível, visitava a capelinha e lançava um saudoso olhar sobre a bouça, dois pontos de referência e de agradável memória para ele...

Chegou à fala com a jovem. Simples e sem rodeios confessou-lhe os sentimentos que o arrastavam para ela e a vontade de torná-la sua esposa.

E Josefa, com um sorriso amargo nos lábios, quase ciciou:

"Seria um milagre, mas é impossível, sr. morgadinho..."

É que já tinham chegado diversos rumores aos ouvidos do pai da jovem, tendo em conta os propósitos e os castos sentimentos do morgadinho da Granja.

Albino não transigia e era preciso arrancar-lhe, a ferros que fosse, as razões das repetidas recusas, evitando as permanentes ameaças à filha.

Mas tanto martelaram, quer familiares, quer amigos, quer mesmo pessoas influentes (e até o sr. Arcebispo de Braga se envolveu no assunto) que, numa certa noite, já enojado de tanta taramelice, Albino lá evocou os seus argumentos.

Deu-se o caso que, sendo os seus ascendentes tão pobres como ele, aos sete anos foi servir para a casa do morgado da Granja...

Como era ainda muito pequeno, embora procurasse aprender e fazer as coisas bem-feitas, quase tudo lhe saía mal. O sr. morgado era compreensivo e apiedava-se dele. As irmãs, porém, por dá cá aquela palha, mimavam-no com uns valentes puxões de orelhas e com umas fustigadas, usando umas vergas de oliveira, rindo-se, escarninhas, do desjeito do garoto.

Ao fim de quase um ano de torturas verbais, corporais e de chibatadas, o miúdo veio passar o Natal com a família e recusou-se a regressar a Pedralva, ao degredo, o que lhe valeu uma sova mestra do pai e mais castigos que julgou por bem aplicar-lhe: mas não tornou à farta e espetacular mansão do morgado! E, apesar das palavras mansas que lhe dirigiam, não cedia nem um palmo...

Que não queria paleio com tal gente; que a filha não tinha onde cair morta; que se o morgadinho tinha muito que o gastasse e comesse de noite e de dia; que a não queria ver maltratada como ele o fora; que as tias eram um veneno, umas beatas e umas corriqueiras incorrigíveis; que nunca lhe deram uma palavra carinhosa, nem uma sede de água; que fizeram dele gato-sapato e bombo de festa; que, certamente, aquelas velhacas atuariam do mesmo modo com a sua Zefa; que trapos e sapos, que cobras e lagartos; que era pobrezinho, mas muito sério e que sempre se esforçara por procurar trabalho e mourejar de sol a sol, por uma côdea; que leva, que deixa, que a amaldiçoava, negava a bênção e desprezava como filha, se ela fosse no engodo do morgadinho e de quantos o elogiavam e protegiam...

Em resumo: tudo em vão, nada feito...

E, neste contexto, decorreu meia dúzia de anos.

O Albino era pedreiro. De vez em quando tinha umas enxaquecas e era forçado a ficar em casa até se restabelecer. Naquele inverno ruim e excessivamente frio e húmido, o Albino começou a não sentir-se bem de saúde, a perder peso, a tossir a todo o instante e a ter dores no corpo, mas, sobretudo, no peito.

Sabedor da grave situação de saúde e económica, Evaristo tentou ajudar, procurando todos os meios ao seu alcance. Suspeitando donde viria a ajuda, o magoado e birrento doente recusava.

Mexeram-se os pauzinhos de outra forma e, por uma manhãzinha de meados de janeiro, um médico apareceu, acompanhado da autoridade e obrigaram o enfermo a ter uma minuciosa consulta.

Quando deixou Albino, de semblante carregadíssimo, o competente profissional, à mulher do enfermo, que já nem tinha pranto para derramar, em voz grave e baixinho, comunicou:

"Já é tarde. A tuberculose desfez-lhe os dois pulmões. A sentença é terrível e triste, mas é a realidade: está a sofrer grandemente e não tem mais do que uns dois ou três dias de vida..."

E partiu.

Como vaticinara o sábio facultativo, no dia seguinte, pela noitinha, o Albino já não pertencia ao número dos vivos!

(...) D. Zefinha, como passou a ser conhecida e tratada, ainda celebrou o septuagésimo nono aniversário, finíssima de memória, a vender saúde e muito mimada, à frente do amplo casarão de granito, já que, mal passado o tempo de nojo, ou de luto, como uma flecha, voou para Pedralva, ao encontro dos ternos beijos e abraços do adorado morgadinho da Granja!




25-27 de Janeiro de 2012

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FELIZ DESFECHO

  

Teria os seus sete anos, a Marília, quando, naquela risonha e linda manhã de Maio, banhada por um sol quente e esplendoroso, deixou a sua humilde casinha e, como habitualmente, a transbordar de alegria, partiu rumo à escola.

A passarada gorjeava, descuidadamente, por entre as ramagens muito verdes e o colorido de incontáveis andores floridos, erguidos aos céus e asseados por toda a casta de pétalas sedosas e perfumadas.

Não era longe o estabelecimento de ensino e, como não tinha quem a fosse buscar, porque o pai era jornaleiro e trabalhava de sol a sol e a mãe fazia limpeza em diversas casas, a pequena, terminadas as aulas, regressava ao lar, onde, como sucede a milhões de crianças, espalhadas por todo o mundo, passava a maior parte do tempo sem companhia.

Naquele dia, contudo, não voltou.

Os pais admiraram-se da anormal demora da filha. Já principiava a cair a noite e ninguém dava notícias que conduzissem à sua localização. Apenas os colegas confirmavam que ela fôra às aulas e passara todos os intervalos, estarrecida e sem brincar, lá ficando quando se encerrou o portão da escola, junto de um pequeno circo, que no largo frontal ao edifício se tinha montado, exibindo três sessões espectaculares e que naquela tarde partira em busca de outras paragens.

Adultos, jovens e crianças se irmanaram numa busca minuciosa, que resultou infrutífera.

Alertaram-se as autoridades que, nessa mesma noite, deram início a uma rigorosa investigação. Entrou em acção a judiciária, que vasculhou tudo quanto era sítio, procedeu a interrogações e não se vislumbrava o encontro da ponta do fio da meada.

Toda a comunicação social se empenhou em noticiar o funesto desaparecimento, exibindo os jornais e a televisão fotografias da criança...

Dois dias depois, próximo do meio-dia, uma rádio, com enorme e justa audiência, interrompia a emissão e o locutor, nervoso, comovido, sensível e satisfeito, anunciava:"Foi encontrada a menina de sete anos, que há dois dias, misteriosamente e sem deixar o rasto de quaisquer pistas, não regressou a casa no fim das aulas, como sempre fazia. Num telefonema para a nossa redacção, um empresário de gado caprino, informa que um seu velho pastor, ontem, a encontrou num monte, muito cansada, a dormitar e triste. Pegou nela e recolheu-a na sua cabana, trazendo-a, hoje, para a casa do patrão que, sabedor do episódio, logo procurou contactar-nos. Para que não restem dúvidas e para satisfação dos familiares e de numerosos estimados ouvintes, encerramos este flache especial e em cima do acontecimento, com as declarações da Marília".

E, entre alegre e a choramingar, ouviu-se a vozita da catraia: "Gostei tanto das pessoas e dos animais do circo que resolvi acompanhá-los, escondendo-me numa das caravanas, sem que alguém me descobrisse. À noite, a companhia parou num local para comer. Como pude, saltei para a rua e comecei a andar, a andar, sem saber onde estava nem para onde ia. Com muito luar a mostrar-me carreiros e montes, até me cansar, fui sempre caminhando. Adormeci e, a meio da manhã, o sr. José encontrou-me, levou-me para a sua cabana, deu-me de comer e de beber e pediu-me que não chorasse mais, porque me prometia que hoje já voltaria para a casa dos meus pais, que é o que eu mais quero..."

 

Setembro de 2004

 

            Jornal “O Mourinho”

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FRUTIFICAÇÃO TARDIA

  

Conheceram-se na escola, com a bonita idade dos catorze anos, dois troncos primaveris prenhes de seiva, de ramos floridos e vigorosos. Foi um amor à primeira vista, que se solidificou e teve concretização, porque, após cinco anos de apaixonado namoro, se realizou um solene e concorrido casamento no bonito santuário, ex-libris do seu concelho natal. 

Chegados de uma prolongada e deliciosa lua-de-mel reassumiram os seus postos de trabalho, na firma onde ambos laboravam e auferiam remunerações muito satisfatórias para a época, já que se tratava de uma empresa desafogada, sobretudo porque apostava quase exclusivamente na exportação.

O tempo foi decorrendo e não havia sinais de descendência. Nasceram as mútuas suspeitas e acusações sobre a infertilidade. E nem um nem outro dava a mão à palmatória, nem se decidia a consultar um especialista e seguir os conselhos e terapêutica adequada, que levasse à satisfação de tão lindo, justo  e ambicionado sonho.

Nesta indecisão consumiram dez anos e tentaram aceitar a pesada sentença, que tão injustamente os punia, não os deixando gozar a felicidade da grande maioria dos casais.

Por alturas do Vinte e Cinco de Abril de 1974 (essa maravilhosa festa dos cravos vermelhos aos molhos, saudável revolução que muitos, maldosamente, desviaram dos nobres fins que a nortearam, baldando a perseverança e generosidade dos bravos capitães que a sonharam, delinearam e garbosamente promoveram), entrou a firma numa grave crise laboral, acabando por abrir falência e encerrar, lançando no desemprego cerca de duas centenas e meia de trabalhadores.

O ainda jovem e infértil casal, de repente, achara-se numa posição extremamente delicada e desconfortável. Bateram às portas de inumeráveis empresas e sempre os esperou a mesma resposta negativa. Então, como extremo recurso, surgiu a hipótese do marido poder emigrar. Muitas e sentidas lágrimas de parte a parte, rogando a esposa que a não deixasse sozinha, porque não resistiria a tão cruel separação.

"Mas não existe outra forma de resolvermos a nossa vida". - Contrapunha ele, afectuosamente, acrescentando: - "O mais breve quanto possível estarás junto de mim, pois é doloroso viver sem a tua amorosa companhia. Vou escrever-te e telefonar-te bastas vezes e ter-te-ei sempre bem presente no meu coração".

"Depressa te esquecerás das promessas e de mim". - Retorquiu lhe ela, profundamente triste e desconsolada.

No fim do Verão ele partiu. A correspondência foi constante ao longo dos primeiros seis meses. Chegou o Natal e passaram-no cada um no seu canto. Festejou-se a Páscoa e permaneceram longe um do outro. Regressou o Verão... e ele não veio...

Os espinhos, que já há tempos a feriam como gumes de aguçadas lanças, afundavam-se mais e mais e dilaceravam-lhe o despeitado coração... Soube que ele tinha outra mulher e esperavam já um filho!

Ainda pensou surpreendê-lo em Paris e esmagá-lo com ódio e desprezo. Mas para quê, se ele se dera a outra? Se a esquecera tão depressa? Se lhe não podia dar um filho, porque agora tinha a prova de que era apenas sua a culpa... A inexistência de filhos fazia com que faltasse entre ambos um sólido e terno elo de união.

Também há muito que um outro homem lhe fazia a corte, perseguindo-a com promessas e juras de verdadeiro amor: eis a forma de vingar-se. E vingou-se, pois aceitou viver com o persistente e apaixonado solteirão...

E coisa extraordinária e milagrosa: engravidou de imediato e, cumprida a gestação, recebeu o prémio de uma gorducha, perfeita e encantadora menina!

Louvado seja Deus, pelo mistério insondável!...

Como é explicável que dez anos de paixão e mútuo desejo de povoarem o lar com a ternura e os alegres chilreios dos filhos, se pautasse por tão castigadora e teimosa esterilidade?...

 

Agosto de 2004

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O PENEDO DA COSTUREIRA

 

            Quase na extrema da minha aldeia natal com Briteiros, o Moinho Velho era um sítio desabitado e pouco aprazível.

            Da estrada nacional entrava-se por um caminho estreito e íngreme, ao fundo com uma pontinha de pedra tosca, sem quaisquer resguardes, sobre o rio Fêveras, nascido em Pedralva, na serra do Carvalho e que ali corre ao encontro da margem direita do Ave, onde vai desaguar, em S. Cláudio do Barco.

            A meio do curto caminho, à esquerda de quem desce, erguia-se um rústico e não muito alto penedo, conhecido por "Penedo da Costureira".

            Recebeu esse nome porque se contam algumas histórias relacionadas com aparições de uma bonita mulher, sentada a uma velha máquina de costura, no topo do penedo e, muito atenta e sem parar, a coser não se sabia o quê…

            Há quase meio século, pela primeira vez, ouvi falar de tais aparições, numa das muitas agradáveis e extensas conversas com o seZezinho dos Caniços (um abastado lavrador, venerando e simpático ancião, que me queria como se de um filho se tratasse e que há muito partiu para o Céu, onde creio ter merecido assento, rogando eu ao meu Deus, no qual ele também sempre acreditou e seguiu na vida, que, entre os esplendores da luz perpétua, lhe dê o descanso eterno)!

            Depois, no percurso dos anos, escutei mais do que uma versão sobre as estranhas estadias do fantasma no cimo do penedo.

            Havia também quem sustentasse que um jovem de uma rica família rural se apaixonou pela costureira e que, num certo dia, a levou para casa, firmemente decidido a recebê-la como esposa. Todavia, à noite, descobriu que se tratava do demónio em figura de gente e, persignando-se repetidas vezes, fez com que a esbelta dama começasse a inchar e a crescer desmesuradamente, acabando por dar um estrondoso estoiro e uma rouca e lúgubre gargalhada, que tiveram intenso eco pelo vão.

            Quando mais tarde se me proporcionou a leitura das "Lendas e narrativas", de Alexandre Herculano, lá encontrei a descrição pormenorizada de "A dama pé de cabra" que, ao fim e ao cabo, é uma das muitas histórias de Satanás, disfarçado nos mais variados géneros e personagens.

            Sobre as causas de tais aparições é que nunca ouvi ninguém a argumentar…

   O pequeno e rústico penedo ainda lá está, no sítio que continua ermo e pouco aprazível e a figura fantasmagórica da linda costureira também deixou de ser vista no topo da pedra secular...

 

                        Abril de 2005

 

   “Boletim de Sobreposta”

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PALAVRA CUMPRIDA

 

          Estava eu mergulhado num sonho das antigas e tão alegres lides campesinas, nomeadamente das sachadas e mondas do milho, das lavradas, das espadeladas do linho, das varejadas da azeitona, das desfolhadas, das malhadas de espigas e do feijão, das segadas do centeio e da erva, como que embalado pelos arrastados, bonitos e já quase esquecidos cantares tradicionais, quando me veio à lembrança um episódio pouco comum, que o meu pai, há muito, me narrou, do seu avô materno, que não resisto à tentação de o partilhar convosco:

            No início do século passado, o seInácio era um homem trintão. Hábil caçador e pescador, também era considerado o melhor segador de centeio e de erva, de que havia memória em Lageosa e nas redondezas. Jeira onde ele investisse era como se por lá passasse um vendaval! Mas, valha a verdade que se diga, gostava de fazê-lo com a companhia de umas abundantes pingas do prisioneiro das pipas!

            E de uma vez, a meio da tarde de um dia quente de Junho, quando regressava da distribuição da moagem e tangia os burros para casa, na Veiga, encontrou a seMariquinhas dos Caniços, que à cabeça carregava um cântaro de vinho, destinado a dessedentar o muito pessoal que, sob um sol intenso e abrasador, segava o centeio, no campo do Moinho, na margem do rio Fêveras.

            “Ó Inácio, vai uma pinga?!” – perguntou, com toda a franqueza, a bondosa e santa proprietária, certa da resposta pronta e afirmativa do interpelado.

            “Se vai, seMariquinhas! É que vem mesmo na hora!...”

            Pegou no cântaro, deitou-lhe os queixos e, de um fôlego, levou-o até meio. Ia a entregá-lo, quando a boa senhora lhe disse:

“Ó Inácio, já que tenho de ir a casa e tenho, acaba lá com esse restinho…”

Ora, o Inácio, não se fez rogado e, num segundo fôlego, sugou o cântarao até à derradeira gota!

            Agradeceu e entregou a vasilha à atónita senhora, que não teve outro remédio senão voltar a casa, a fim de se reabastecer.

            A restabelecer-se da empreitada, enquanto limpava o bigode, sorridente e decidido, declarou:

            “Vou lá abaixo desarrear os machos e apareço no campo para deitar uma mão…”

            Apareceu, de facto, em curto espaço de tempo, fez um brilharete, merendou e ainda bebeu da segunda e da terceira remessas.

            Depois, à noite, na espaçosa varanda da grande casa de lavoura dos Caniços, regou uma farta e saborosa ceia, certamente semelhante a tantas que lá me regalaram e que hoje, nostalgicamente, me vêm à memória, porque me deram um prazer incomparável!...

 

                        Junho de 2005  

 

            “Boletim de Sobreposta”

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