Seara Rutilante


ÍNDICE

 

Prefácio

GRINALDA CRISTALINA

Felicidade

Redenção

Ainda não é Tarde

Cansaço

Insónias

Frustração

Desfile de Imagens

Solidariedade

Sem Dúvida

Naufrágio e Revelação

      1 — Naufrágio

      2 — Revelação

Sonata

      1 — Allegro

      2 — Adagio Cantabile

      3 — Allegretto

Bendito

Ternura

Enquanto a Vida Passa

Cenas Patéticas

Boneca

Quatro Poemetos

Realidade

Balada de Saudade

Sou Rico

Sonho e Realidade

Sou Feliz

Respeito pelos Mais Velhos

  ÍNTIMO EM POESIA

Balada

Retorno à Vida

Não me Conheço

Eureca

Oração de Sempre

Mágoa de um Adeus

Melancolia

Candura

Desvario

Prenúncio

Lamento

Cantilena

Amor Incerto

Partida

Prece

 NOSTALGIA E TERNURA

Aldeia de Saudade

Sussurro

Memorando

Carnaval da Boa Gente

Santos Populares

Regresso

A Pastorinha

O Sineiro

Música

 


PREFÁCIO

 

            Nunca soube fazer crítica poética. Sempre li poesia  com todos os meus sentidos atentos,  abertos à catadupa de impressões, sensações e emoções que cada poeta acorda em nós, a deflagrar a semiose interposta entre, dentro e fora daquilo que se nos é dado ler em cada poema escrito. Semiose que fala da multiplicação do signo em outros signos, do diálogo das linguagens,  a accionar o texto múltiplo e o seu caudal de interpretações.

            E eis que me chega “Seara Rutilante”, de José Fernandes da Silva, resultado de gavetas abertas, a expor ao mundo duas décadas de poesia  jovem, arca de pequenas filigranas tecidas de sentimentos, imagens, acordes e fábulas a revolver o real de amizades, paisagens e cheiros de lugares,  sinfonia quase nostálgica de um tempo vívido, vivido, embebido agora num versejar fluido e tranquilo, cachoeira de rebentações ora serenas, ora singelas, ora brotar de uma tristeza suave, agora desfeita em  verso, envolto num pranto de neve de Outono.

            Seara Rutilante. Nos títulos das suas obras, José Fernandes nos vai sugerindo um aprontar de mãos, a colher em conchas os pequenos tesouros que são a sua poesia, um esmerar da forma perfeita, a rima e a métrica impecáveis, como já pressentíramos em “Arca de Filigranas”, ou no metafórico “Alfobre de Amores”.  Em Seara, o que recolhemos às mãos-cheias, são cachos cintilantes de puros sentimentos desenhados. Sentimentos de amor, de amizade, de generosidade, de respeito pela vida, num mundo organizado sob as vigas da rectidão, da moral e da solidariedade.

  O que recolhemos nessa Seara, o que sentimos emergir  de dentro do cheiro da terra, a ressumar das suas Primaveras, do branco quase tépido dos seus Outonos, o que sopesamos em nossas mãos, como relíquia pulsante, é o coração mesmo do poeta,  jóia maior de onde brota a terna essência da sua poesia.

Poesia que, quando desdobrada,  revela aos sentidos atentos,  as marcas concretas de uma intensa fabulação que habita o processo criativo do poeta, cuja amostra clara aparece no poema “Respeito pelos mais Velhos”, ou em “Cantilena”, narrativa que ao modo de pássaro tagarela,  entremostra uma prosa encoberta, descoberta lúdica que desmente, enfeita e engrandece a poesia, agora meio fábula, meio canção juvenil,  redescoberta do voo:

     “... — Avezinha, minha amiga,

  tens a frescura na voz...

    Quanto gosto de te ouvir

  sobre esse ramo cantar

  — a minh’alma é noite escura

  e precisa de luar...”

O que nos surpreende, pois, nesse conjunto de poemas, é o traçado que podemos contemplar, por via dos espelhos de dentro, pintura inigualável de um homem, assentado na sua terra, a escriturar ora com brandura, ora com firmeza,  o solo comum dos princípios da sua vida.  Vida cuja poesia emoldura, com uma beleza de jóia rara e antiga.

 

Joana Belarmino

(Jornalista, Escritora, Doutora em Comunicação

e Semiótica pela Pontifícia Universidade

Católica de São Paulo)

 

João Pessoa, 24 de Março de 2004

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GRINALDA CRISTALINA


Ao meu querido Mestre
Luís Artur Clemente Ribeiro

 


FELICIDADE



Feliz nome que redime,
enchendo-me de prazer:
leve, como a leve pena,
imensamente sublime...
celeste e meiga açucena,
isto só quero dizer:
dou-me, convicto e de todo,
ao amor que hoje me invade;
dá-te a mim, do mesmo modo,
eterna Felicidade...
 

Sobreposta, Janeiro de 1976

 

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REDENÇÃO


À minha Mulher



Já fatigado da vida
pus-me, enfim, a percorrer
o extenso jardim de imagens...
Concluí que fôra belo,
porque de tantos cultivos
que fiz, de diversas flores,
somente uma conservava
o frescor que conheci
no nosso primeiro encontro...
De resto, tudo murchou...
 

E, ao ver antigos Amores,
esquecidos, esqueléticos,
não me causou pena, embora
eu me sentisse culpado
da Sorte que alguns tiveram...
 

E então, todas as imagens
se desfizeram, mas uma,
magnífica e deslumbrante,
formou um novo jardim...
Foi dessa flor, delicada,
que aspirei todo o afecto
e a tornei minha Mulher,
pedindo, em prece sincera,
que jamais perca o vigor!
 

Freiriz, Outubro de 1976
 

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AINDA NÃO É TARDE


Para a Arminda Emília


 

Gostei de ouvir-te, de novo,
repetindo coisas velhas...
 

Tudo vai desapar’cendo,
só a amizade persiste...
 

Não mudou a tua vida
e dela esperas, talvez,
Tudo, Nada, o Impossível...
 

Repara que o tempo foge
e, com ele, a juventude,
a formosura do corpo
e a meiguice da voz...
 

Sucedem, depois, as rugas,
os lindos cabelos brancos,
a velhice, o abandono...
 

Tenta, pois, voltar atrás,
porque ainda não é tarde
p’ra recomeçar a vida
e encontrar o verdadeiro
amor e a felicidade...
 

Sobreposta, Junho de 1976

 

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CANSAÇO



Vou deitar-me. Estou cansado
de destruir os castelos
que, ditoso, no Passado
ergui, julgando-os belos...
 

Era terreno bem preto,
onde hoje há brancos cabelos...
Fruto de tanto projecto
dos meus falhados castelos...
 

Sobreposta, Julho de 1976

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INSÓNIAS


I
Ouvi cantar os ralos. Era noite.
Noite quente, sem nuvens, de luar:
e eu pus-me, deleitado, a meditar
em coisas belas... E o sono foi-se!

II
Em silêncio cai a neve,
na noite cinzenta e fria...
Há tempos que não cobria
a terra, manto tão leve...

III

Cantou na noite a chuva uma canção,
igual a tantas outras, já cantadas:
as notas eram gotas bem ritmadas,
que me iam embalando o coração!

IV
Toda a noite sem pregar
olho: chuva, trovoada
e o vento a ulular,
numa fúria desusada...
 

Sobreposta, Outubro de 1976

 

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FRUSTRAÇÃO



Dia e noite, no Passado,
tentei semear o Bem,
por tudo, desint’ressado,
sempre sem olhar a quem...
 

Mas hoje, tenho a certeza
de que o que eu julgava Bem
germinou e cresceu mal...
Lamento e sinto tristeza,
por constatar que ninguém
entendeu meu Ideal!
 

Braga, Novembro de 1976

 

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DESFILE DE IMAGENS


À minha mulher


Às vezes fico a pensar
que podia ser dif’rente
o meu Destino marcado:
longos filmes a rodar
do turbulento Presente
e do marcante Passado
levam-me a concretizar
que não foi tudo azarado,
porque me afloram à mente,
desfilando, lado a lado:
 

Cardos rudes, rosas belas,
perfeição e sequelas,
 

tristezas e alegrias,
venturas e agonias,
 

prazer, enleio, ternura,
lágrimas, riso, amargura,
 

desprezo, anseios, amor,
esp’rança, saúde, dor,
 

altos castelos erguidos,
sonhos loucos, desmedidos,

batalhas ganhas, derrotas,
ambições, certezas mortas,
 

fé, desejos, caridade,
dúvidas, raiva, bondade,
 

revoltas e contrições,
destroços de corações,
 

a noite, a luz do dia,
cegueira e visão sadia,
 

crianças, que me enternecem,
trapaças, que me aborrecem,
 

promessas, paixões falhadas,
deusas de amor, desprezadas,
 

e a Mulher, que, enfim, chegou,
me redimiu, transformou
 

meu coração inconstante
num grato e feliz amante...
 

Freiriz, Abril de 1977

 

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SOLIDARIEDADE


Ao António Matos Augusto


Nascem todos destinados
a carregar uma Cruz...
Eu não fugi à sentença,
como não fugiu Jesus...
 

Num já distante Janeiro
(nesse dia em que nasci),
chegou a Cruz, que eu devia
levar ao longo da vida...
 

Carreguei-A e era leve!
Depois, tornou-se pesada,
à medida que eu crescia...
 

Mas, só verguei os joelhos,
quando há muito, em certo dia,
A não pude transportar,
por pesada se tornar,
mais que a minha tenra idade...
 

Numa amostra de amizade,
alguns, então, me ajudaram
a levá-l’A ao meu Calvário,
até torná-l’A tão leve
como as contas de um rosário...
 

Freiriz, Maio de 1977

 

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SEM DÚVIDA


Ao velho amigo
Domingos Ribeiro da Silva



Disseram-me que esqueci
a minha pequena Aldeia...
 

Poderei eu esquecer
uma coisa assim querida?!
 

Não! Sempre hei-de recordá-l’A,
porque um dia ali nasci
e passei o melhor tempo
que me concedeu a Vida...
 

Fui obrigado a deixá-l’A,
em busca de outras paragens:
mas, sempre prevaleceram,
na minha mente, as mais belas
e salutares imagens...
 

Freiriz, Julho de 1977

 

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NAUFRÁGIO E REVELAÇÃO


Para a Felicidade




I
NAUFRÁGIO


Perdi-me no alto mar,
em busca de melhor Sorte
e, afinal, fui ao encontro
de uma sentença de morte:
 

Vogava na tempestade,
sozinho, com ilusões,
projectos, múltiplos sonhos
e muitas recordações...
 

O vento soprava forte,
as ondas metiam medo
e a minha frágil barquinha
desfez-se contra um rochedo,
 

levando para bem fundo
retalhos do meu Passado
que, no decorrer da vida,
nela tinha semeado...


E a tal sentença de morte
castigou o meu Passado,
ao destruí-l’O na rocha
e, em seguida, sepultado...
 

Mas encontrei mão amiga
que p’ra terra me guiou,
rico, embora despojado
de tudo que mergulhou...
 

E, seguros, lado a lado,
decidimos começar
uma nova e bela vida:
Foi um feliz naufragar,
 

já que a minha salvadora
há-de comigo vogar,
sem medo, na nova barca,
em busca do alto mar...

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II
REVELAÇÃO


Desta barca, que é só nossa,
toma o leme, meu Amor,
e vamos ao Deus-dará
por esse mar, sem temor!
 

E fomos, fomos vogando
com suave maresia
e embalados pelos sonhos,
repletos de fantasia...
 

Já longe, no alto mar,
surgiu a revelação
do anseio mais adorado
que havia em meu coração!
 

Assim Deus seja louvado
pela novidade bela
que, sorrindo, segredaste
na silente caravela!
 

Não tinha mais que te dar,
senão um forte desejo
de ao novo fruto e a ti
prender num ardente beijo...
 

E voltamos logo a terra,
não fosse a barca afundar,
levando tanta alegria
que todo me fez vibrar!
 

Freiriz, Setembro de 1977

 

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SONATA


Para o meu João Pedro



1
ALLEGRO


Tenho um filho pequenino,
que é fruto de casto amor:
queria que o seu Destino,
de todos, fosse o melhor!
 

João Pedro é um botão
de uma flor de rara cor:
brotou-me do coração,
onde só havia amor!
 

És tão pequeno, João,
ó filho de terno amor!:
Hoje, apenas um botão,
mas, amanhã, subtil flor...
 

Quando souberes dar beijos,
meu João Pedro adorado,
hás-de matar os desejos
ao teu pai idolatrado...
 

Falo de ti, com ternura,
e ao bom Deus pedir queria:
que sempre tenhas ventura,
saúde, paz, alegria...

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2
ADAGIO CANTABILE


Ó-ó!, dorme, meu menino,
filhinho de tenra idade:
oxalá o teu Destino
seja isento de maldade...
 

Dorme, pequenino lindo,
um sono calmo e ligeiro:
com a boquinha, sorrindo
e um olhar puro e fagueiro!
 

Que tenhas tão boa Sorte
(mais que para mim desejo):
Quer a Vida, quer a Morte
sejam doces, como um beijo!

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3
ALLEGRETTO



Com que sonhas, meu pequeno,
inundado num sorriso?!
Assim, quieto e sereno,
talvez com o Paraíso...
 

Minha criança querida,
que sossegado dormir!:
Oxalá também a Vida
te deixe sempre sorrir!...

Freiriz, Março de 1978

 

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BENDITO...


Para a minha Mulher


Bendita seja a ventura
de ter-te encontrado, um dia,
pois me trouxeste a alegria
e a desejada ternura!
 

Bendito seja o Amor,
que tão forte em mim pulsou
e, desde então, transformou
em prazer o que era dor!
 

Bendita sejas, Mulher,
por teres correspondido
ao apelo tão sentido
do mais fundo do meu ser!
 

Bendita por teres dado
amor, sem nada pedir,
e deixado em ti florir
o nosso filho adorado!
 

E bendito seja Deus
por me ter dado o ensejo
de unir num único beijo
estes dois tesouros meus!!!
 

Freiriz, Março de 1978

 

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TERNURA


Um pequenino a chorar...
Por quê?! Frio? Dores? Fome?
Tenta a mãe remediar,
aflita, o mal que o consome!
 

Que pena as criancinhas não dizerem
porque sofrem, ou choram, ou sorriem!
 

Freiriz, Abril de 1978

 

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ENQUANTO A VIDA PASSA...


Ao Sr. Maurício Pires


1
Belos tempos de criança,
recordo-vos, com saudade,
porque tudo era bonança
e não havia maldade...

2

Meus barquinhos de papel,
frágeis, na água a boiar:
vou encher-vos com o fel,
que a Vida teima em me dar...
 

3
De cerejas me pediste
querer matar os desejos:
eu dei-tas e tu sorriste
e pagaste-mas com beijos!
 

4
Dizem-me que há uma estrela
no firmamento a brilhar
e que é magnífica e bela,
mas eu não a posso olhar...
 

5
Pinheiros, que habitais montes,
dai-me um pouco de frescor,
pois corri todas as fontes,
sem matar este calor...
 

6
Debrucei-me sobre as águas
do ribeiro, a marulhar,
tentando esquecer as mágoas
e na Vida meditar...
 

7
De uma casca de pinheiro
sabia fazer carrinhos
e onde passasse um regueiro
fazia e punha moinhos...
 

8
Uma laranja comi,
saborosa, como poucas,
porque nos lábios senti
o sumo de lindas bocas...
 

9
Uso o tacto para ler,
o que outros fazem com olhos:
poucos podem entender
que as privações são abrolhos...
 

10
Jesus! Tenho tanto medo
de aqui a noite passar:
na gruta de tal penedo,
enorme, que faz pasmar...
 

11
Abelha, que fazes mel,
dá-me um pouco de doçura,
que a boca sabe-me a fel
e no peito há amargura...
 

12
Doce e lindo rouxinol
passas a vida a cantar,
preferindo, em vez de sol,
noites claras de luar...
 

13
As contas do meu rosário,
de amargas, fazem sofrer,
como o fel, que no Calvário,
Jesus bebeu, sem querer...
 

14
Com música adormeci,
da tua voz, tão suave,
que me arrastava p’ra ti,
como a serpente uma ave...
 

15
A vida que já vivi
não gostava de lembrar:
houve sonhos, que perdi,
belos, que não vão voltar...
 

16
Dos campos vêm cantigas,
que se propagam no ar:
são as frescas raparigas,
de sol a sol, a ceifar...
 

17
Oh!, mata a sofreguidão,
que me abrasa a cada instante;
satisfaz o coração
deste bem sincero amante...

18
Fico triste no momento
em que há luto nas famílias,
expressando o desalento
nas prolongadas vigílias...
 

19
Saem puras melodias
do meio dos milheirais:
de tristezas, de alegrias,
de satisfação ou de ais...
 

20
Sob um sol abrasador
sega-se a erva ou centeio,
com abundante suor
e cantigas por recheio...

21
Deixai-me, quero viver,
sempre a dar graças à Vida:
ainda que vá sofrer,
troco, ao sabê-l’A perdida...
 

Freiriz, Outono de 1978

 

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CENAS PATÉTICAS


Para a menina que, sinceramente,
chorou a sua querida ave morta



Conheci uma menina
que adorava um Pintassilgo
e lhe queria tão bem,
como ao filho quer a mãe
e se estima um bom amigo!
 

Tratava-o com meiguice,
dispensava-lhe carinhos,
tomava-o entre as mãos
e cobria-o de beijinhos...
 

Quando saía de casa,
ou voltava do trabalho,
corria a ver a gaiola,
para que nada faltasse
ao seu pequeno mimalho...
 

E ele cantava, cantava,
em trinados de alegria,
demonstrando à sua dona
o muito que lhe queria...
 

E assim se passaram anos,
sempre com cenas patéticas:
a conversar, como se ele

entendesse o que dizia;
a imitá-lo no canto
e a chamar-lhe nomes ternos,
como só ela sabia...
 

Quando a ave não cantava,
ou recusava a comida,
ficava triste a menina,
receando ser doença,
que vinha roubar-lhe a vida!
 

Mas, um dia, aconteceu
que indo ela ver a gaiola
encontrou o Pintassilgo
caído do seu poleiro,
inerte, gélido, morto...
 

Com mais carinho tomou
entre as mãos o frio amigo
e, com saudade, chorou...
 

Freiriz, Maio de 1979

 

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BONECA


Para a Adrianinha

 

Tive um dia uma Boneca,
que amimei com mil carinhos...
Dava-lhe corda: falava,
com uma voz tão suave,
tão meiga, tão delicada,
que nem um gorjeio de ave...
 

De princípio, envergonhada,
tímida, desconfiada,
poucas palavras dizia...
Depois, foi-se habituando
até proferir, convicta,
a doce palavra Amor...
 

E aquele sorriso aberto
ficava-lhe muito bem
nos lábios aveludados...

Uma Boneca de corda
amimada por um homem,
talvez não seja bonito:
Mas eu sabia-me bem
pegá-la ao colo, beijar-lhe
os cabelos pequeninos,
os lindos olhos, de olhar
tão cândido e feiticeiro
e a boca, rubra, a queimar...
 

Certa vez partiu a corda
e começou a chorar
encostada à minha mão...
Foi então que descobri
que era uma Boneca humana
e que tinha coração...
 

Freiriz, Junho de 1979

 

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QUATRO POEMETOS


I
Não vale a pena viver,
quando a Vida tudo nega...
Mas, vale a pena sofrer,
convicto de que o Amor chega...

II
Adoro tanto a Vida,
achando-A tão bela
que, coisa assim querida,
receio perdê-la!
 

III
Vive-se sempre no sonho
de a Sorte, um dia, chegar:
Espera-se. Nunca chega.
Sucede o desesperar.
 

IV
A mãe tão pobre, a chorar,
com fome e sem agasalho
e o filho a poder ganhar,
mas desprezando o trabalho!
 

Freiriz, Julho de 1979

 

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REALIDADE


Para o Sr. João Lourenço

 


Nunca sei bem o que quero,
pois tão mal digo da Vida...
No entanto, amo-A como poucos!
Talvez o motivo seja
de me ser sempre adverso
o cru Destino...
Contudo, a realidade,
é que no meio dessa confusão,
revoltas, incertezas, desespero,
me reconforto com a minha crença,
porque acredito em Deus e sigo a Sua Lei...
 

Sei bem que n’Ele encontro apoio firme,
embora tenha uma pesada Cruz,
que deverei arrastar
para o meu longo Calvário...
E, reconheço também,
que as minhas forças são poucas,
para, como Jesus, A transportar!
 

Freiriz, Setembro de 1979

 

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BALADA DE SAUDADE


À memória de Manuel Lopes,
que a Morte levou em 5/11/79



Dlão... dlim! dlim! dlão...
Dobram os sinos
fúnebres hinos!
 

Oiço-os, ao longe, dobrar
e sei bem qual a razão:
aos outros anunciar
a dor do meu coração,
 

porque foi mais um amigo,
roubado ao seio dos seus,
que a Morte levou Consigo
a prestar contas a Deus!
 

Amortalhou-o o Outono,
com um manto de saudade
e no derradeiro sono
o passou à Eternidade...
 

E ao longe, os sinos:
dlim! dlão... dlim! dlão...
Não param de dobrar
fúnebres hinos!

Chora-o o neto, inocente;
a esposa, desconsolada;
os amigos; toda a gente;
e os filhos, que ele adorava...
 

Chora o Poeta, dorido,
lágrimas de sentimento,
pelo amigo querido,
que lembra a cada momento...
 

Unidos, na mesma dor,
aqueles a quem quis bem
rogam a Deus, com fervor,
que descanse em paz: Amém!

E ao longe, os sinos,
sempre a dobrar
fúnebres hinos:
dlão... dlim... dlão... dlão...!
 

Freiriz, Dezembro de 1979

 

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SOU RICO


De que havia de ser rico
tive um sonho, certo dia:
e sou-o, não em dinheiro,
mas saúde e alegria!
 

Que mais pode desejar
quem tão bons tesouros tem?,
além de amigos, amor
e f’licidade, também,
 

porque tenho uma Mulher,
de quem gosto e que me adora
e um pequenino, criança
querida e encantadora...
 

Haverá maior riqueza
que ser feliz e amado,
ter saúde e alegria
e ser muito respeitado?!
 

Freiriz, Janeiro de 1980

 

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SONHO E REALIDADE


Ao António J. Mourão




O mar a desfazer-se em cada rocha;
o vento, fortemente, a ulular;
noite espessa, de breu, e eu sem tocha,
para o longo caminho alumiar!
 

— “Ó bravo mar, põe-te manso,
que não posso caminhar
com o ‘strondoso balanço
e o vento, forte, a soprar!”
 

— “Mas não tens tu uma vela,
para teus passos guiar,
nesta noite sem estrela,
nem pontinha de luar?”
 

— “Ó noite escura, ó vento, ó bravo mar!
Achei-me em tempos idos, ao pensar
que me faltava apenas uma vela,
para o longo caminho iluminar...
Mas não: voltei a mim, ao constatar
que, se a tivesse, não podia vê-la!”...
 

Freiriz, Janeiro de 1980

 

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SOU FELIZ


Ao José Silva e Sá


Sou feliz porque posso ouvir cantar
a Natureza, rios, aves, fontes;
nas sombras repousar; subir aos montes;
sentir o deslumbrante sol queimar...
 

Sou feliz por poder saborear,
dos outros, êxitos e alegrias;
e, as crianças — famintas e vadias,
rotas, tristes, descalças —, não olhar...
 

Sou feliz por dizer, com liberdade,
tudo o que penso e ser compreendido;
p’la alegria de que, em pé de igualdade,
 

tenho os mesmos deveres e direitos
de qualquer cidadão... E por ter tido
bons mestres, corrigindo-me os defeitos...

Sou feliz por sentir no apalpar
das coisas, os contornos e beleza;
e, com meus passos, firmes, caminhar
 

nos rumos desejados... Ter o olfacto
apurado p’rò que há na Natureza;
e, para ler, o meu sensível tacto...
 

Sou feliz por jamais a esperança
me ter abandonado e saber pôr
no papel, versos, aos quais tenho amor;
e, nas horas amargas, confiança...
 

Sou feliz porque encontro em cada dia
um problema da vida p’ra vencer;
e ainda por tentar sempre esquecer
o escuro que me habita e que me guia...!
 

Freiriz, Fevereiro de 1980

 

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RESPEITO PELOS MAIS VELHOS


À Maria Amélia Macedo

 

Vou recordar uma história
que, algures, num livro li
e me ficou na memória...
Era bela, de verdade,
e vou resumi-la aqui,
por constatar que interessa
que nela meditem bem,
seja lá qual for a idade...
Peço que ninguém esqueça
e retenha na memória
as máximas que contém
esta maviosa história...
 

Trata-se de um lindo conto,
antigo e tradicional
do Quénia, que é um país
localizado num ponto
da África Oriental:
O título de raiz,
sugestivo, por sinal,
“Vejo na noite”, narrava
o grande amor que um menino
ao velho pai consagrava...
Foi um dia consultar,
muito em segredo, um vidente
que adivinhava o Destino
de quantos, por serem crentes,
o iam interrogar.

Pretendia conhecer
se haveria uma maneira
de ter sempre à sua beira,
sem nunca vê-lo morrer,
o velho pai, adorado...
Respondeu o consultado
que teria de abater
um rinoceronte e dar
a seu bom pai a comer
o fígado retirado
da presa que ia matar...
 

Foi o jovem à floresta
e uma tarde, após a sesta,
um exemplar avistou
e, inundado de esperança,
devagar, se aproximou.
Fez pontaria. Atirou
contra o animal a lança,
certeira e bem afiada.
Uma vermelha golfada
de sangue foi atingir
um outro que ia a fugir,
com enorme ligeireza,
nesse preciso momento.
Funesto acontecimento:
caiu ali fulminada
aquela segunda presa,
que apenas foi atingida
com sangue da companheira.
Repara e vê a primeira
desaparecer com vida!

Corre ao vidente a contar
o que se havia passado
e também a perguntar
se o fígado retirado
ao rinoceronte morto,
mas não por ele abatido,
ao pai devia ser dado.
O sábio quedou-se, absorto,
da nova surpreendido.
 

Disse ao rapaz que teria,
por força, de consultar
uma família, que havia
longe, perto da montanha.
Decidiu-se a efectuar
uma distância tamanha.
 

Pelo caminho encontrou
motivos que o espantaram:
 

Logo de início se achou
na presença de um sujeito
a quem as forças faltavam,
muitos ramos a cortar,
porque lhe faziam jeito
na construção de um curral,
para o seu gado guardar:
Não entendeu, afinal,
porque é que o homem tentava
às costas o feixe pôr
e, ao ver que o não levantava,
com coragem, com labor,
mais lenha lhe acrescentava...

Viu um lindo cavalo, que comia
erva tenra, num prado, quanta queria
e, em lugar de engordar, emagrecia...
 

Mais adiante um feio burro andava
num árido terreno a se fartar:
não existia ali que mastigar
e, ao invés do cavalo, só medrava...
 

Avança e lhe aparece pela frente,
com o pêlo a cair, um cão rafeiro,
veloz, a perseguir, raivosamente,
um gordo e manso branquinho cordeiro.
Corria o cão nojento p’ra caçá-lo,
só com desejos de contaminá-lo...
 

Prossegue, cada vez mais admirado:
 

Numa clareira da floresta vê
de uma rocha a sair uma nascente
de água bem fresca e límpida, corrente,
a qual se deslocava para um lado
onde havia uma poça. Mas por quê
em lugar de na poça a água entrar,
girando em seu redor, seca a deixava,
indo, muito mais longe, mergulhar
numa outra que à desamão ficava?...
 

Chega a uma cabana, finalmente,
e um miúdo à porta está sentado:
Compreendeu logo que tinha achada
a casa dos videntes procurada.

O pai dormia, repousadamente.
Não quis que o moço o fosse despertar
e tudo quanto havia acontecido
começou, sem rodeios, a contar:
desde o rinoceronte que, ferido,
com vida se escapou e em seu lugar
ficou morto o que nada tinha tido,
até ao cão nojento, que queria
macular o cordeiro, que fugia...
 

O rapazinho ouviu com atenção,
do visitante, toda a narração.
Pediu, com gentileza, que deixasse
que seu pai, que dormia, despertasse
e, com sabedoria, lhe explicasse
tudo aquilo que havia sucedido.
 

O bom pai acordou e tendo ouvido
narrar as peripécias havidas
não as quis, no momento, decifrar:
deviam ser, de novo, repetidas
a outro irmão mais velho, que pastava
o gado da família, mas que estava
dentro de pouco tempo, a regressar...
 

Quando já anoitecia, apareceu
o irmão que, prontamente, respondeu
ser melhor aguardar um outro irmão,
que era o mais velho e que o redil guardava,
para ouvir sua sábia opinião,
bem como as conclusões a que chegava...

Já bem noite, o terceiro irmão chegou
e, gentilmente, ao jovem sugeriu
que aguardasse seu velho pai, que estava
no mercado da aldeia. Não tardou.
No carreiro, com passo firme, viu
um ancião, que em direcção marchava
da casa, onde a família o esperava...
 

Ao seu encontro, com respeito, vão
o miúdo e os três homens a saudá-lo
e, até dentro da casa, acompanhá-lo,
numa mística e sã adoração!
 

Depois de descansar e ter comido
o ancião ao jovem perguntou
as causas da visita. Narrou
tudo quanto lhe havia acontecido.
 

O velho não quis logo responder
e os olhos do rapaz fitou bem fundo
para, com gravidade, lhe dizer:
 

“Se ambicionas que teu pai no mundo
fique contigo para sempre, tens
que o meu neto e meus filhos imitar,
pois sabendo os motivos porque vens
e o segredo também das profecias,
nada disseram. Seguiram as vias
da paciência de antes escutar
os velhos e a velhice respeitar...
 

O que tiveste ensejo de observar
é espelho do que irá acontecer:

Os dois rinocerontes, um ferido
de morte e sempre vivo e se finar
o segundo, em contacto, unicamente,
c’o sangue do primeiro, mostrar quer
que há no mundo injustiça: o oprimido
e condenado é sempre o inocente,
ao passo que o culpado se rirá
de tudo e todos, pois triunfará.
 

O que tu viste lenha derrubar,
sem conseguir o feixe levantar,
significa que tempos hão-de vir
em que vão os humildes oprimir
com mil calúnias e acusações,
e que em vez delas serem libertados,
com mais veemência os prendem a grilhões
e sempre cada vez mais acusados...
 

O cavalo a comer a tenra erva,
onde, porém, magreza só se observa,
a classe aristocrática apresenta,
de incalculáveis bens a desfrutar
os vai perdendo de uma forma lenta,
acabando, depois, por definhar...
 

O burro feio, que se consolava
no árido terreno, onde pastava,
representa os homens que desprezamos
e que prosperidade alcançarão,
mesmo sabendo que os não estimamos
e lhes negamos nossa franca mão...

O branco cordeirinho ao cão fugindo
as nossas raparigas representa:
em tudo conservando um porte lindo
— puras nos hábitos e tradições:
virá sempre de fora alguém que tenta
impingir nelas contaminações...
 

A fonte, que da rocha vai encher
a poça que lhe fica à desamão
e não se rala de deixar morrer
outra vizinha, com sofreguidão,
é símbolo da nossa terra amada
que, em lugar de assinar com os vizinhos
acordos em que seja contemplada,
os faz longe, seguindo maus caminhos...”

O rosto do vidente iluminou-se
na escuridão da noite terna e calma.
E um sublime hino à paz, vindo da alma,
lembrando, dos antigos, tradições,
com o neto e os três filhos entoou-se
num sincero entender de corações!
 

Freiriz, Verão de 1980

 

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ÍNTIMO EM POESIA



Ao querido amigo Hélder Portugal,
que a morte ceifou tão cedo



BALADA


Para a Maria Isabel Maduro

 

Silêncio, silêncio,
ó vento gemebundo:
não cirandes, tristemente...
Não rujas, inclemente,
mar verde e profundo...
 

Não cantes, não cantes,
fonte cristalina e bela...
Quedai, ó rios viandantes...
Brilha, no céu, fagueira estrela...
 

Por favor, gélida chuva
cala-te, não digas nada:
cai, serena, de mansinho,
não despertes, friamente,
as aves que estão no ninho...
 

E também tu, neve branca
pára, porque já tudo está da tua cor:
tem dó, tem dó de quem sofre
e pena do mal de amor...

Meiga Lua, mãe da noite,
asperge o plaino e a serra
com pálido luar...
Não deixes, ó mãe da Terra,
o filhinho, no berço, a soluçar!
 

Silêncio, silêncio...
Sê triste como eu,
delicada Natureza:
dá à minh’alma, enegrecida,
um pouco de beleza...
 

Eu peço, suplico,
imploro, ordeno, exijo,
não cantem, não chorem,
não gritem, não riam:
mais um coração morreu!
Façam silêncio, silêncio...
O coração era o meu!!
 

Estoril, Novembro de 1966

 

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RETORNO À VIDA


Procurei margaridas no meu campo,
nesse campo que é toda a minh’aldeia...
Não encontrei nenhuma, por nenhures,
por mais que procurasse em toda a parte...
 

Não desisti. Queria ter, ao menos,
um ramo pequenino, só que fosse,
ou, por satisfação, um simples pé!
Nem isso consegui. Todos diziam
que não perdesse tempo a procurar
o que não existia por ali
e se eu fosse prudente poderia
encontrar flor mais meiga e mais formosa...
Mas eu perdi e perderia tanto
quanto fosse preciso p’ra ter uma...
 

Prossegui, sem descanso, a intensa busca,
porque todo o meu sonho era encontrá-la.
 

Desiludido e muito fatigado
quis repousar um pouco, finalmente.
E sentei-me num sítio povoado
de espinhos dolorosos e agudos...
Olhei à volta e nada vi de bom...
Quis descansar, mas não podia... Ao longe,
num canto, me par’ceu ‘star uma flor!
Aproximei-me, mas sem esperança:
achei a margarida desejada...

Arranquei-a e guardei-a, bem guardada,
para que não perdesse aquele encanto,
que eu sempre imaginei que ela tivesse!
 

Transportei-a comigo, bem ‘scondida,
p’ra não ser cobiçada por ninguém:
é que eu tinha um destino para dar-lhe...
Plantei-a, com cuidado, no meu peito,
nesse sacrário amargo, só de dores,
p’ra que pessoa alguma ma pisasse!
E ela cresceu, cresceu, infindamente,
já que a terra era boa, sem espinhos...
 

Mas um dia morreu, como sucede
a tudo quanto existe e que é mortal.
Ao ver a minha margarida morta,
toda murcha, encostada ao coração,
bradei, em altos gritos: “Morte, Morte,
Tu não poupas ninguém! Com que direito
me roubas o carinho desta flor
que, apesar de não ser bonita, eu quis
com tanto mimo e resguardei da chuva,
do vento, das pedradas sem destino,
da podridão, da neve, dos abismos,
das tristezas, dos homens inclementes,
da maldade do mundo corrompido,
de tudo, e muito mais, se mais houvesse?”...

A Morte não me respondeu... Por quê?...
Talvez que p’ra além d’Ela haja outra vida!
E há, que eu sei que há, tenho a certeza
e eu é que tive a culpa que esta planta
morresse no meu peito tão depressa...
 

Pretendia que fosse bem só minha,
contudo, ela o meu peito não ‘scolheu
para servir ao seu amor de abrigo.
E, se não era meu o seu amor,
eu não tinha o direito de escondê-la...
 

Em busca de uma flor esbanjei tempo,
que não pôde florir dentro de mim.
Descobri a verdade no meu peito,
que de paixão sangrara e padecera,
mas que acordara a tempo, embora tarde,
quando a quimera se desvaneceu
e voltou ao meu ser toda a Razão...
 

Estoril, Novembro de 1966

 

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NÃO ME CONHEÇO


Ao padre José Ribeiro Mendes

 

Anda tão tresloucado o meu espírito
que a confusão não deixa conhecer-me.
Penso, mas já não sei como é que penso.
Julgo-me sempre o mais feliz dos homens
e nunca sei quem sou, nem onde está
o José que habitou dentro de mim!
E no meio de tanta tempestade
procuro um braço amigo p’ra amparar-me...
Não encontro ninguém... Tudo me foge...
Onde estará o braço que eu preciso?
Que é dos que ofereciam os seus préstimos?
Que é dos que se diziam meus amigos?
Por entre a multidão, que se atropela,
não vejo quem me possa socorrer...
Não importa que todos de mim fujam,
pois já me habituaram a contar
só comigo. Não digam outra vez
que tenho amigos. Que todos me estimam.
Que devo ter esp’rança e confiar...
Não cabe em mim, não posso acreditar
que alguém me estime... Quero ser sozinho
(p’ra não dever favores a ninguém)
a suportar a minha amarga dor!...
 

Estoril, Dezembro de 1966

 

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EURECA


Ao meu professor e amigo
D. Manuel S. Martins



“Já p’lo teu ser passaram mil quimeras,
nas tuas dezanove Primaveras!
Já lá vai tanto tempo, Deus louvado,
após aquele dia abençoado...
 

Como a haste de um lírio eras frágil;
mimoso, como o lindo rouxinol;
brilhava-te no rosto um novo Sol!
 

Terno, foste crescendo a pouco e pouco,
sem dar pela passagem desse tempo
que corre livre e cego como um louco...
 

Tantas e tão salgadas gotas de água
que as pálpebras de tua mãe verteram,
por ter o coração pleno de mágoa!
 

Deves sempre lembrar a boa mãe,
porque foi ela quem te deu a vida,
essa santa mulher que te embalou,
que te trouxe nos braços, que amimou
o teu corpinho nu, em frio berço,
que os teus cabelos negros penteou
e no teu peito branco desfolhou
as amarguras de um Passado triste,
que dentro de sua alma enraizou...”

E eu, depois de ouvir o meu Passado,
despertei do bom sonho cor-de-rosa...
Fiquei contente ao recordar aquilo
que há muito não ouvia de ninguém.
Senti-me, de repente, perturbado:
somente me falavam do Passado
e nada me diziam do Futuro!
 

É que o Passado foi-se e não voltou
e do Futuro não encontro a chave...
E o meu Presente?... Não sei onde está,
porque passa por mim, tal qual o vento...
Instante a instante, nem eu sei porquê,
me sinto um vagabundo, alcoolizado,
sem poder dominar tantos desejos
e enfrear loucos instintos de homem...
 

Olho-me no espelho, que não mente,
da minha consciência, que acusa
a vida inútil que levei. Que dor
ao saber-me culpado de um Presente
que o vento, furioso, desmorona...

Eureca!, eureca!
Encontrei a Verdade:
Com que sofreguidão eu a buscava!
 

— Toda a luz da Verdade está em Deus,
mas eu perdi-A ao afastar-me d’Ele...
Hoje creio... É mais viva a minha Fé...
Se sofreu mil martírios por nós
e se desceu da Cruz para brincar
com as crianças, não me deixará,
um só momento, entregue aos desvarios,
que me fazem a alma vaguear
por lamaçais, abrolhos e abismos...
 

Depois de reflectir por um instante,
adormeci mais calmo e confiante...
 

Estoril, Março de 1967

 

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ORAÇÃO DE SEMPRE


Tu bem sabes, ó meu Deus,
que a Tua divina Lei
eu sempre tenho seguido;
mas muitas vezes errei...
Sou um cordeiro perdido
— mea culpa!, que eu pequei!
 

Serei um dos filhos Teus,
meu Senhor, omnipotente:
tenho sido um pecador,
mas acredita, estou crente
de que Tu, meu Criador,
estás comigo contente...
 

Eu suplico, Salvador,
Tua eterna protecção:
porque é grande o Teu amor
defende-me o coração!

Minha vida a Ti pertence,
seus maus ímpetos acalma:
se comigo estás contente
socorre sempre a minh’alma!
 

Ó Coração de Jesus,
de Maria o Filho amado:
mercê do lindo rosário
levarei a minha cruz
à coroa do Calvário!
 

Apenas lá chegarei,
se a Tua mão me amparar...
Assim, pela Tua Lei,
o cume eu hei-de alcançar,
ó meu poderoso Rei!
 

Estoril, Maio de 1967

 

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MÁGOA DE UM ADEUS


Para os colegas do Instituto
Branco Rodrigues - Estoril, 1964-67


 

Adeus, adormecida Natureza;
adeus, ó mar, rugindo a cada instante;
adeus, ó velha cátedra, querida
onde acabou meu tempo de estudante...
 

Adeus, fiéis amigos de três anos
— desde o mais jovem até ao maior —,
parte triste e saudosa a minha alma,
que indescritível é a sua dor!
 

Correi, saltai, alegres, descuidados,
abri asas, p’ra sempre, à vossa ânsia...
Levo-vos na lembrança, pequeninos,
porque em vós tive a minha ida infância...
 

Vós outros, mais crescidos, que ficais,
melhor sentis a dor da despedida:
não há em mim palavras p’ra exprimi-la,
pois cada uma faz sua ferida...

Meus livros, tão queridos, que fizestes
de mim o feliz jovem que hoje sou:
parte triste a minh’alma nesta hora
em que p’ra sempre vos deixar eu vou...
 

E é assim, meu “Cardenho”, muito amado,
que p’ra sempre se vai um filho teu,
transportando saudade e amor no peito
e no âmago alguém que me prendeu...
 

Vai, minh’alma, chorosa e magoada,
pedir guarida no amor dos meus...
Mas antes, p’ra que todos ouçam, grita,
grita bem alto o derradeiro adeus!!!

Estoril, Julho de 1967

 

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MELANCOLIA


Para a Filomena Queirós


Sinto regressar lágrimas aos olhos,
gotas quentes que há muito os não molhavam
e pergunto a mim mesmo se os abrolhos
que encontro em meu caminho não serão
os que em menino tanto me ensombraram...
 

Vem-me a resposta, triste e magoada,
da profundeza do cansado peito
— o peito triste, fonte lacrimosa
de uma paixão ardente, mas frustrada...
 

“Nunca esqueças, meu filho muito amado,
que com as rosas belas e sedosas
crescem os cardos rudes e tiranos!
Também, no teu espírito confuso,
onde existe um vazio que já foi,
em tempos idos, cofre de alegrias,
desabrocham tristezas, lado a lado,
com essa confusão que tanto dói!
P’la vida além passam por ti os anos
e deves, cada vez, ser mais prudente
ao pisar o caminho, povoado
de pedras afiadas como lanças,
que ferem e penetram, longamente,
na sola dura dos teus pés descalços...”
 

Eu sinto, dia-a-dia, este meu peito
tornar-se gélido de tanta dor,
porque p’ra ele ser o que era dantes
lhe falta o coração, morto de amor!
 

Praia da Granja, Março de 1968

 

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CANDURA


Para a Arminda Emília



Ó açucena, frágil e mimosa,
deixa, por um instante, o teu jardim:
chama com essa voz melodiosa
e vem sentar-te aqui ao pé de mim!
 

Criança... O teu sorriso de inocência
não deixa ver-se o mal que vai no mundo:
tudo é traição, vingança e covardia;
é rancor, falsidade e inclemência...
 

Quero-te assim inocente,
com esses olhos castanhos,
onde nasce um brilho cândido!
 

Esquece tudo só por um momento
e fica, sem receio, nos meus braços;
desfolha sobre mim os teus abraços
e poisa-me no rosto um beijo teu!
 

Não chores mais: tu fazes-me sofrer!
Deixa que eu chore por ti,
porque quero aliviar
meu espírito confuso...
 

Deixa escoar a água dos teus olhos,
que a vida para ti não tem abrolhos,
nem tuas mágoas são iguais às minhas...

Praia da Granja, Junho de 1968

 

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DESVARIO


(Como que num sonho)

Serás, pois, tu o meu filho?
Oh!, não creio, tenho medo,
porque quem mo prometeu
o fez com muito segredo...
 

Mas eu queria que fosses,
que o desejo a cada instante;
e que fosses um menino,
amoroso, inebriante...
 

Penso nele muitas vezes,
porque é um sublime anseio
e sinto longe essse dia,
que ao qu’rê-lo me devaneio...

Essa que um filho me der
me fará homem feliz:
dar-lhe-ei o coração,
porque, ardentemente, a quis!
 

Ter um filho é renascer
e lembrar, a cada instante,
que é da minha carne e sangue,
esse frágil diamante!
 

Vida!, Vida! Por favor
não negues este desejo:
dá-me um filho e um amor,
que a ambos prenda num beijo!
 

Sobreposta, Agosto de 1969

 

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PRENÚNCIO


Se algum dia, minha amada,
a nossa aldeia percorreres,
na doce alacridade da manhã,
e vires as plantas nuas
a pedir agasalho em plena Primavera;
e as flores do jardim
(que tantas vezes colhia,
para te oferecer, apaixonado,
que tu pagavas com ardentes beijos
— as habitantes desse Paraíso,
onde tivemos momentos
de profundo e casto amor),
a emurchecer, melancólicas,
deixando tombar
as pétalas, multicores;
e o céu toldado, ameaçador,
prometendo desabar
chuveiros catastróficos;
e a geada, por toda a noite caída,
manter-se em gelo;
e o ribeiro, emudecido,
não produzir melodias,
com harmónicos marulhos;
e a nascente da fonte cristalina,
onde sempre íamos matar a sede,
não permitir que brote a pura e fresca água,
que dessedenta o fatigado viajante;

e a alegre orquestra de aves
interpretar uma toada triste;
e o meu querido cão (um velho amigo,
que é dedicado, prestável
e que me lambe, delicadamente,
tal e qual fez a Lázaro,
outrora, um irmão seu,
afagando-lhe o corpo,
coberto de gangrena),
a latir e a uivar, perdidamente;
e que p’la terra, que nos deu o ser,
ninguém passa, ninguém canta,
tudo imerso em silêncio de saudade;
e a Natureza, envolta por escuro manto,
pedir sol e pedir vida...
 

Se tudo isto puder realizar-se,
então, sim, dona dos meus pensamentos,
saberás que eu já parti.
E, vítima de tal sorte,
comigo levarei os fios de esperança
dos laços que nos uniam...
Lembra-me, Amor, se mereço,
nas tuas preces ardentes,
que eu pedirei ao Céu o privilégio
p’ra deixar este regelado peito
recolher dos teus lindos, meigos olhos
as lágrimas amargas e saudosas...
 

Sobreposta, Outono de 1969

 

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LAMENTO


Coberto pelo manto de tristezas,
quantas ocasiões, reclamo a Morte?,
para que neste mundo de incertezas
me remedeie ou suavize a Sorte!
 

Sorte!, Sorte!, o meu tão cruel Destino:
de que maneira poderei amar-te,
se já no tempo em que era pequenino
vieste no caminho atravessar-te?!
 

Estou farto da Jornada
e de quanto faço e fiz,
pois que não encontro nada
que me deixe ser feliz...
 

Levai, ventos, minhas penas,
para longe, para longe:
tão negras e eu de melenas
pareço um austero monge...
 

E as penas que me causam sofrimento
tu foste quem mas deu:
se gostasses de mim, um só momento,
sofrias como eu...
 

Porque não somos iguais,
tu nunca sofrerás nada...
Mas eu, dia e noite, aos ais,
te lembrarei, minha Amada!
 

Sobreposta, Fevereiro de 1970

 

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CANTILENA


Para o velho amigo Alberto Gomes da Silva



Passarinho, passarinho,
que de longe vens cantar,
sobre os ramos dessa árvore
p’rò meu ‘spírito alegrar:
 

Quero esquecer-me de tudo,
quando a dor for mais atroz
— avezinha, minha amiga,
tens a frescura na voz...
 

Quanto gosto de te ouvir
sobre esse ramo cantar
— a minh’alma é noite escura
e precisa de luar...
 

Se queres que eu adormeça,
sob a bênção do teu canto
— canta sempre, passarinho,
nunca mais tenhas descanso...
 

Vive a minha bem amada
para além desses penedos
— diz-me tu se ela me adora
e conta-me os seus segredos...

Aquela a quem tanto quero
mora atrás daquele monte
— segreda-me, passarinho,
com quem a viste na fonte?...
 

Repara nesta tristeza,
mas não digas a ninguém
— são as saudades que tenho
de não falar ao meu Bem...
 

Vai voando pelo ar
ao encontro dessa flor
— leva-lhe as saudades minhas,
mais o meu sonho de amor...
 

Quando eu, enfim, despertar
do lindo sonho, doirado
— queria vê-la feliz
e tê-la sempre a meu lado...
 

Não quero ficar sozinho,
nem já posso mais penar
— canta sempre, passarinho,
p’rò meu ‘spírito alegrar!...
 

Braga, Julho de 1970

 

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AMOR INCERTO



Batalhas não travei, mas tive auréolas
que, não sei onde, nem porquê, me deram
(coroas valiosas como as pérolas,
que os mercador’s orientais tiveram...)
 

Se é facto que ganhei essas riquezas,
imerecidamente, sem saber
porquê, também passei muitas tristezas,
quando perdi o que era do meu ser,
 

já que essas maravilhas transformaram-se
em coisas de mim mesmo...
E, quando a gente
se prende por aquilo que encontrou
perdido, porque alguém abandonou,
fica contente, ou triste, para sempre...
 

Encontrei-te... Perdida? Abandonada?
Não sei... Somente sei que tu dizias
querer ser bem só minha... Minha amada
queria eu que fosses... Mas os dias
 

passam sem eu sentir todo o calor
que sai de um coração que tem amor
p’ra dar àquele de quem diz gostar!
Eu tenho muito medo de enganar
este meu peito, todo carimbado
de frestas, que me dão muito cuidado...

Se tu queres ser minha, bem só minha,
vem, meiga, lavada de outras paixões,
que por ti já passaram... Sê rainha
do meu lar e senhora do meu qu’rer,
porque este peito mais não quer sofrer...
 

Assim, bem limpa, tu serás a mãe
dos filhos que farão toda a ventura
do nosso eterno e grande amor... Porém,
se contigo vier ‘inda veneno,
suplico que não venhas, pois prefiro,
a esse amor, a paz da sepultura...
 

Talvez que do sepulcro te chamasse
com palavras de amor, de noite e dia:
“Tu, que na terra não vieste pura
p’ra pertencer-me, vem, sofre comigo,
porque a dor, dividida pelos dois,
bem menos custará a suportar...
E, com o sofrimento, remirás
o mal que me causaste sem saber...
Aqui, neste silêncio sepulcral,
com lágrimas de sangue, chorarás
aquele amor eterno que juraste...
Perdoar-te-ei o mal que me fizeste...
 

Mas nunca, nunca mais sejas cruel,
ao prometer o que te não pertence:
se não tens para dar-me o teu amor,
não me dês a beber vinagre e fel!...”
 

Sobreposta, Novembro de 1970

 

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PARTIDA


Com uma sentida lágrima
por ti, H. P.



... E foi mais um que desapareceu,
dos muitos que se vão e deixam a saudade,
a mágoa e a tristeza semeadas...
 

Enraiza-se a amizade
e depois é difícil conquistar-lhe
o terreno que ocupou!
Sucede assim com o amor:
aparece, envolve-nos
e, quando se cansa,
como nuvem de fumo,
parte para longe,
deixando vazio
o peito que habitava
(misérrimo este ciclo da renovação
de tudo o que é mortal)!
A dor não é mais aguda
no momento em que se sente:
é-o, sim, quando, decorridos tempos,
nos ferem os espinhos
que ela deixou cravados...
A cega foice,
na destra mão do lenhador,
retira a seiva às plantas que golpeia,
fazendo tinir a lâmina
com som cavo e implacável!

Nada mais triste que perder-se a vida,
na altura em que a Primavera
principiava a florir!
E nada mais cruel que um golpe inesperado,
dado por mão tirana e crua...
 

A Morte, amigo, levou-te!
Talvez te precipitasses,
iludindo-te as múltiplas quimeras,
que desabotoaram no sedento cérebro...
 

A Morte não respeita, nem poupa ninguém...
Com Ela partiste,
para jamais sentires as saudades
daqueles que ficaram...
 

Verto por ti uma sentida lágrima
e lembro a única Verdade,
que esqueceste na hora derradeira:
“Será que, lá no Alto,
não haverá Alguém
superior a quanto existe pelo Mundo?”
 

Acredito que sim. E, se há, só Ele deve
os nossos passos dirigir
e serenar-nos o espírito confuso...

Braga, Novembro de 1970

 

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PRECE


Para a Adrianinha



Descia do seu leito perfumado,
a alta e magra virgem, desnudada:
o cabelo, sedoso e aloirado
esvoaçava na cabeça alada.
 

Dava-lhe a luz do sol na boca ardente
e inundava-lhe as faces de cristal;
e, dos castanhos olhos, feiticeiros
nascia uma candura divinal...
 

Arfava o peito alvo, livremente,
e os seios balouçavam, com vigor...
A jovem colocou-se em frente ao ‘spelho
e viu-se bela, triste e descontente...
 

“Que importa eu ser esbelta e ter riquezas,
se para além daqui não sou ninguém?...
O meu Presente é cheio de incertezas,
porque de Deus perdi a protecção...
Eu cria n’Ele, mas perdi a crença,
quando, orgulhosa, julguei ser Alguém...

Meu Deus antigo traz-me aquela calma,
que há muito não habita na minh’alma...
Faz com que eu volte a ser o que era dantes
— simples, crente, ditosa e inocente —,
a fim de que não tenha de chorar
amargas lágrimas de sangue, iguais
àquelas que salvaram Madalena...
 

Se me voltar a Tua protecção,
eu tornarei a ser o que era dantes
e não mais sofrerá meu coração”...
 

Braga, Dezembro de 1970

 

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NOSTALGIA E TERNURA



À minha Mãe,
À memória de meu Pai,
Aos meus irmãos





ALDEIA DE SAUDADE


Ao Domingos de Freitas Ribeiro




És amada, ó Lajeosa,
e em tudo muito querida:
minh’Aldeia, carinhosa,
ser-me-ás sempre saudosa,
pois em ti cheguei à vida!
 

Toda a tua boa gente
trabalha, sem descansar,
desde que o dia é nascente,
até a noite cerrar.
 

Recordo, agora, as malhadas,
as vindimas e pisadas,
os serões, as desfolhadas,
tudo feito, alegremente,
por um povo que não sente
nunca as suas mãos cansadas!

São à noite as desfolhadas,
feitas com grande alegria,
para esquecer as maçadas
do tão quente e longo dia...
 

E o trajar das raparigas,
as vestes das lavradeiras,
têm a cor das espigas,
quando estendidas nas eiras!
 

Ó terra de fantasia,
de ventura e de ansiedade:

viver em ti, dia-a-dia,
é ter muita f’licidade...
 

Em teu redor, sem igual,
existem muitas belezas,
que engrandecem, afinal,
essa terra, sem rival,
das aldeias portuguesas!
 

Doce berço de carinho,
Deus te guarde e a tradição,
pois que a província do Minho
já te traz no coração!
 

Uns rapazes, com fervor,
durante a noite calada,
pensam palavras de amor,
p’ra dizer à sua amada!
 

Outros, porém, de mãos dadas,
na noite silenciosa,
pertinho das namoradas
gozam sonhos cor-de-rosa...
 

Que belos são os caminhos,
bem cedo, de madrugada,
escutando os passarinhos
a cantar em alvorada!
 

Frescas águas de um ribeiro,
sempre a correr, sem cessar,
dão alegria ao moleiro,
pois fazem as mós girar...

Do meu lar, já tão saudoso,
era um encanto observar,
lá ao longe, no Barroso,
em dias de sol, nevar...
 

Lindo e querido Regueiro,
lugarejo onde nasci:
no suspiro derradeiro
não me esquecerei de ti!
 

Também tu, lugar do Monte,
não ficas por recordar:
como os murmúrios da fonte
tens pombinhos a arrulhar!
 

Ó lugar de Bacelar,
não sei bem qual a razão
de eu um dia aí passar
e perder o coração:
 

Perdi-o na confusão,
já o consegui reaver,
só não sei qual a ilusão
que me fez assim prender!
 

Lajeosa, minha terra,
perfumada e linda flor:
és uma aldeia que encerra
carinho, paz, terno amor!!
 

Estoril, Fevereiro de 1965

 

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SUSSURRO


Na minh’Aldeia corre um ribeirinho,
que só sabe ensinar uma canção;
mas, canta melodias, com carinho,
a quem, penando, traz o coração...

Estoril, Maio de 1965

 

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MEMORANDO


Ao padre Artur Vieira Marques


I
Oh!, deixem-me, por favor,
divagar aqui um pouco,
porque o tempo não perdoa,
corre livre, como um louco!
 

Aqui me tens, meu Regueiro,
lugar querido e saudoso:
deste-me, um dia, o meu berço,
tornando-me tão ditoso...
 

Numa casa humilde e pobre
nasci em certo Janeiro;
éramos pobres, também,
mas eu valia dinheiro,
 

porque os meus queridos pais
não me davam a ninguém
por nadinha deste mundo!
Tu lembras-te, santa Mãe,
 

de quando eu era menino?
Que pena sinto, Deus meu,
de não ser o pequenino,
que ‘inda merecia o Céu!

... E fui crescendo, crescendo,
alegre, sadio, enfim...
Mas um dia, dia horrendo,
chegou a Cruz para mim!
 

Era pesada demais
para a minha tenra idade,
pois apenas com nove anos
eu perdi a liberdade!
 

Não me deixou afundar
o Coração de Jesus,
já que eu tinha que arrastar
p’rò Calvário a minha Cruz!
 

Com o muito que me deu,
achei a minha Razão;
e compreendi, que afinal,
todos nós, sem excepção,
 

temos um fardo pesado,
que é preciso transportar,
p’ra cumprir o nosso Fado,
que co’a Morte vai findar...
 

Num lindo monte, adorado,
palpitou, p’la vez primeira,
o meu pobre coração...
Cupido, com mão certeira,

entrou em mim, para em mim
fazer sua habitação,
mas povoou meu jardim
somente com ilusão...
 

Abriu-se, então, o meu peito
para aquela linda flor,
a quem jamais revelei
o segredo desse amor.
 

Vou amando outras mulheres,
mas ela, porque primeiro
habitou o meu sacrário,
ainda é hoje o veleiro
 

onde tantas, tantas vezes
procuro doce guarida;
quando é que eu esquecerei
mais este espinho da vida?

II
Oh, que pena! S. Tomé
já não tem sua capela:
sem telhado, sem sineta,
que tristeza sinto ao vê-la!
 

Devia ser amorosa
a capelinha que honrava
o nosso bom padroeiro,
S. Tomé de Lajeosa!

E deixaram que as ruínas
se apoderassem de ti?!
Recordação de um Passado
que, com mágoa, não vivi.
 

Diz-se ainda, meu bom santo,
que reedificarão
a tua casa bendita.
Perdoa! Meu coração
 

recusa-se a acreditar
nessa bela fantasia.
Como tu eu sou incrédulo...
Espero dia após dia...

III
Meu pequenino Bobi,
o já tão querido cão:
com saudade falo em ti,
como fosses um irmão!
 

Cabriolavas, contente,
quando me vias chegar;
depressa, a Morte, inclemente,
te levou p’ra não voltar...

IV
Que frescor, que maravilha
vem das fontes do Tapado,
da Devesa e de Espinheiro!
Tenho sede, estou cansado,
 

deixai-me beber um trago
dessas águas cristalinas!
Tenho sede, tenho sede,
ó águas frescas, divinas...

V
Tens os cabelos branquinhos,
minha boa e terna Avó:
mas não admira, és velhinha,
vives já há muito só...
 

Já pelo teu ser passaram
dezenas de Primaveras
e tens o cérebro pleno
de belas e más quimeras!
 

É tão bom ter-se uma Avó...
Adormenta o teu netinho,
como tu sabes, “ó-ó!”
Faz-me outra vez pequenino...

VI
Olá, bom lugar do Monte,
és delicado e airoso;
vou ser mais um filho teu,
deixo o Regueiro saudoso!
 

Quando para ti mudar
levo o manto da tristeza,
que comigo há-de chorar,
irmanada, a Natureza...
 

Deixarei a minha Bouça,
onde tanta vez sonhei;
deixarei a pobre casa,
onde a viver comecei!
 

Saberei, novo lugar,
amar-te, com devoção,
porque já tens um cantinho
aberto em meu coração!

VII
Como gosto de sentir-vos,
alegremente, brincar,
crianças de toda a idade!
Em vós fico a retratar

o que fui quando menino.
Quem me dera ser assim
feliz, como agora sois!
Mas não, não sou, para mim
 

foi-se p’ra sempre esse gozo,
porque as agruras da vida
me marcaram, fortemente...
Hei-de lutar, destemida
 

e também garbosamente,
para conseguir ganhar
as inúmeras batalhas,
espinhosas, que travar...
 

Em vós, crianças queridas,
recordo os mais belos dias
que tive e que Deus me deu
e foram só de alegrias!
 

Adoro e amo as crianças,
por serem tão inocentes
e terem sempre nos lábios
um sorriso, de contentes!

VIII
Ó Bom Jesus dos Milagres,
que imagem tão delicada!
És o Senhor muito amado
na minha terra adorada...
 

Senhora da Padroeira,
no adro, à chuva e ao vento:
não deixo, ao passar por Ti,
de ter-Te no pensamento.
 

Bruta pedra, trabalhada,
erguida num pedestal:
Teus filhos Te pedem, Virgem,
uma bênção maternal!
 

Igreja Paroquial
és muito linda e airosa
e eu confesso, que afinal,
igreja assim tão vistosa
 

não conheço mais nenhuma!
Eu sei bem que as há mais belas,
mas não há recordações
iguais em nenhuma delas

às que de Ti eu reservo:
foi lá que me baptizaram
e me tornei de Deus filho;
os meus pais lá se casaram
 

e já os meus avós, também,
por isso, Te quero tanto,
Casa que és um lugar santo,
Igreja que és minha Mãe!

IX
Escola, muito querida,
não ficas por recordar:
em ti comecei a vida,
que nunca mais tem findar...
 

Recordo o tempo feliz
em que fui um filho teu:
é saudade que perdura
neste triste peito meu!
 

E vós, que hoje andais na escola,
ouvi, que vou segredar:
“O melhor da nossa vida
é sempre o tempo escolar”...

X
Quem me dera ser poeta,
quem me dera ser pastor,
para tocar numa flauta
toadas de ardente amor!
 

Não sou poeta, nem nada,
sou um triste sonhador:
faz de mim, ó terra amada,
um bendito no amor!
 

Deixa-me dormir, sonhando,
ó minha terra velhinha;
deixa-me morrer, rezando,
à Virgem a ladainha...
 

Deixa-me sorrir aos montes
e cantar co’as avezinhas;
e ciciar com as fontes,
para embalar criancinhas...
 

Banhar-me no teu ribeiro
e estimar a tua gente;
deixa-me ser o primeiro
a viver sempre contente!
 

E quando, um dia, eu morrer,
oculto na negregura,
tu, que me deste o viver,
dá-me também sepultura...
 

Sobreposta, Outono de 1965

 

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CARNAVAL DA BOA GENTE


Carnaval é alegria,
é festa de reinação:
vamos gozar todo o dia,
encher tudo de folia
e brincar nesta função!

Vamos todos, vamos todos,
tem mais graça a brincadeira,
cada qual com os seus modos,
que é bom de toda a maneira!
 

Cantemos todos, contentes,
que é dia de Carnaval;
gritem lá, os descontentes:
“Ai que grande vendaval!!”
 

E quem quiser vir bailar,
que se canse e não se farte,
hoje mesmo é que é folgar,
todo o dia, em toda a parte!
 

Venham todos, a correr,
que ninguém lhes leva a mal:
é divertir a valer,
é dia de Carnaval!
 

Estoril, Carnaval de 1966

 

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SANTOS POPULARES


Este santo popular
quer ver tudo sorridente:
vamos cantar e bailar,
dia e noite, sem parar,
p’rò santo ficar contente!

Já andam no ar balões,
de mil cores, sem igual,
batem forte os corações,
que folgam no arraial!
 

À venda há manjericos,
serpentinas a voar
e animados bailaricos,
que a todos fazem vibrar!
 

Rapazes e raparigas,
todos saltam a fogueira,
a cantar lindas cantigas,
que duram a noite inteira!
 

Voltam a casa, de ar franco,
quando o dia despontar,
que após uma noite em branco
é preciso repousar!
 

Estoril, Junho de 1966

 

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REGRESSO


À minha Mãe


Em certa noite, pura de luar,
‘stava na minha Bouça, solitário:
 

A cobra, num lamento, sem cessar,
silvava,
cumprindo assim seu fadário;
o mocho, melancólico, piava;
a coruja, às risadas, agourava;
e tantos bichos, próprios da noite, também
se divertiam em feliz palestra,
ou se integravam numa imensa orquestra...
 

E eu esperava minha Mãe!
E quando, enfim, apareceu,
o luar lhe cobria o rosto de candura,
numa bênção magnânima do Céu!
 

Há quanto tempo eu a aguardava,
numa ansiedade, que pasmava...
E, muito alegre, nessa noite de ternura,
abracei-a
e beijei-a...

Mas... duas atrevidas gotas de água,
sem que pudesse evitar,
lhe saltaram das pálpebras, sem mágoa,
e sobre a minha face vieram rolar...
 

Beijou-me, sofregamente,
e ao seu bom coração
me aconchegou, então,
terna, muito ternamente...
 

Em prece humilde, fervorosa,
agradeci à Virgem, carinhosa,
por tê-la protegido ao longo da jornada
dos múltiplos perigos, que espreitam na estrada...
 

Sobreposta, Setembro de 1966

 

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A PASTORINHA


Às crianças da minha terra



No mais alto de uma serra,
uma humilde pastorinha
via avançar pela terra
uma emplumada andorinha,
que lá pelos horizontes
ruflava as asas pequenas,
movendo as vistosas penas
sobre as cimeiras dos montes.
 

A menina, extasiada,
tinha todo o seu olhar
naquela ave delicada
que ali mesmo ia poisar.
E sentia-se contente,
maravilhada a sua alma!
Mas... por que estava a sua alma
maravilhada e contente?
 

Porque ainda tinha a mente
muito pouco esclarecida
sentiu-se fraca e temente
naquele passo da vida...
As feições empalidecem...
Ela põe-se a meditar...
Finos raios aparecem
em toda a volta a brilhar.


E uma voz sai do clarão
(que voz serena e tão terna),
a revibrar pelo vão,
como em tecto de caverna:
“Sabes tu, linda pastora,
que as estrelinhas do céu
estão pregadas num véu,
que envolve Nossa Senhora?”
 

“Sei, já mo disse a avozinha,
quando eu estava a olhar.”
“E também sabes rezar,
minha boa pastorinha?!”
“Eu sei lindas orações,
que à noite, após o cear,
durante os longos serões
pedia p’ra me ensinar...”
 

“Diz-me o que é uma oração.”
“Mas eu não sei bem dizer...”
“Pois vais, agora, aprender:
Quase sempre, uma oração
é um pedido ao Senhor,
para que Ele nos assista
e indique a segura pista
com todo o Seu grande amor!

Também, quando agradecemos
o saboroso maná
e todo o bem que Ele dá,
ainda, então, nós fazemos
uma oração, um louvor.
Quem reza bendiz a Deus,
nosso Pai e Criador,
que nos espera nos Céus...”
 

“A avozinha já falou
dos homens que numa cruz
pregaram quem os salvou,
o meu querido Jesus...”
“Mesmo a esses teve amor,
apesar do que fizeram:
mataram o Salvador,
porque não O conheceram.
 

Olha, eu fiz-te esta visita,
para ouvir-te uma oração.
Diz uma muito bonita,
diz de todo o coração.”
“Ó meu Anjinho da Guarda
és a minha companhia,
que o amor de Deus não tarda,
quer de noite, quer de dia...”

“Sou o teu Anjo da Guarda,
que sob invisível farda
te protege dos perigos,
como o melhor dos amigos.”
... Foi-se o clarão, de repente,
e ouviu-se um coro, imponente,
que nas nuvens se perdeu.
Também desapareceu
 

a emplumada andorinha:
ficou só a pastorinha...
E, desde esse feliz dia,
sentiu-se sempre contente,
porque pela sua mente
passara um raio brilhante,
vindo de outro mais brilhante,
que a inundara de alegria...
 

Praia da Granja, Março de 1968

 

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O SINEIRO


Ao António da Silva Teixeira


A história que vou narrar,
e que vós ides ouvir,
é das que fazem chorar
e a ninguém deixa sorrir.
 

História simples, mas triste,
repassada só de amor,
ternura e dedicação
e onde o motivo é a dor:
 

Havia um homem feliz
e da aldeia era o sineiro.
Madrugador como era
não tinha nenhum parceiro.
 

Chovia, soprava o vento,
do céu a neve caía...
Na madrugada, contente,
só o seu dever cumpria.
 

As mãos na corda, geladas,
sabiam qual o destino
e no ar, como um clarim,
ressoava a voz do sino...
 

Conhecia bem os toques,
também o significar:
a alegria de um baptismo,
de uns noivos que vão casar;

saudade por um anjinho,
que tão cedo deixa o mundo,
e a tristeza, comovente,
de um dobre por um defunto...
 

Um dia amou e casara.
Uma filha, então, nascera.
Mas a desditosa mãe,
ao dar-lhe vida, morrera...
 

“Ó Morte, Morte tirana,
por que me dás tal castigo?
Tinha um Bem e Deus dá-me Outro
e Tu levas-me Um Contigo!”
 

Sentiu-se só, muito só,
chorando a mulher roubada...
Mas serenou e na filha
viu a esposa retratada...
 

Amou-a, então, doidamente,
e p’ra ela só vivia:
era toda a sua vida,
um tesouro sem valia!
 

Via-a crescer sadia
e, alegremente, brincar
e sentia, lá por dentro,
uma delícia sem par!
 

A primeira comunhão
ela a fez com alegria
e o repenicar dos sinos
foi só de amor, nesse dia!


Fez quinze anos e era
o enlevo e orgulho do pai.
Mas uma tarde, oh!, que dor!,
Da ventura o manto cai...
 

Morre, inesperadamente,
a menina tão amada,
a flor que, como seu pai,
por todos era estimada...
 

“Filha, filha da minh’alma,
que me deixas só no mundo!
Poderei eu resistir
a desgosto tão profundo?!
 

Ó Morte, cega e tirana,
leva-me, também, Contigo!
Mas, antes, deixa os meus sinos
por ela chorar comigo!”
 

Corre à torre, como um louco,
põe os sinos a dobrar;
mas logo, sem forças, pára,
cai no chão a agonizar...
 

A morte fez-lhe a vontade,
deu-lhe o dia derradeiro!
E os sinos, com mais saudade,
choraram o seu sineiro...
 

Sobreposta, Novembro de 1969

 

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MÚSICA


À memória do professor
J. Machado Sá Marques


 

Música, Música...
Felicidade para quem te sente!
Deslumbrante quimera que me afaga
como a ditosa mãe que nunca deixa
de amimar o seu menino!
Suave brisa,
acariciadora das minhas tristezas,
desventuras e alegrias!
Tu me dispões,
quando me bate à porta o infortúnio!
Quanto me apraz escutar-Te!:
Bem concebida,
terna, leve e formosa como a flor!
És a linguagem do amor e da amizade
espalhada por tantos que Te entendem!
És a satisfação para as horas amargas
do dia-a-dia...
 

Música, Música...
Poesia real dos sons,
que elevas o meu espírito
a zonas celestiais...
És fresca, como a flor que desabrocha
com a vinda da bela Primavera!


És alarmante, como a voz do galo
que, apenas os primeiros raios de clarão
aureolam a Terra,
saúda a Natureza
com hinos de alvorada!
És triste, como o vento,
que ulula nos ciprestes!
És aprazível,
como o luar, que caia,
palidamente, a arfante terra!
És harmoniosa,
como avezinhas que pipilam
com doçura!
És impulsiva,
como o bater das ondas, furiosas,
nas rochas escarpadas!
És sedutora,
como as sombras amigas de árvores frondosas!
Tu és, de facto, do mais repousante e belo
que existe pelo mundo...
 

Em Ti se encarna o ruidoso e o agradável
que, por simples combinação de sons,
transformas em famosas melodias,
que sempre agradarão
a quem Te perceber com sensibilidade...

Ó Mozart, ó Beethoven, ó Chopin!,
vós, que fostes autênticos gigantes
na sublime arte, vossa predilecta,
ensinai-me a melhor senti-l’A e escutá-l’A!
Porque jamais será possível imitar-vos
no segredo de inúmeras composições,
emprestai-me um bocado
do vosso fino gosto,
para amar, compreender,
compor e viver a Música...
 

Sobreposta, Outubro de 1970

 

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