Ramalhete de Safiras


ÍNDICE

 

Dedicatórias

Prefácio

Estratagema

Fidelidade

Os Lírios

Tambor silenciado

Canto filial

A Semente

Audaz ribeirinho

A divagar

Gostos

Canto à Lua

Baladilha

Amenidade

Cantiga p'ra embalar

Cântico intercalado

Amenidade

Flache

Verdes serranias

Elegia

Devoção

Cogitações

Fadiga

Intimidade

Escravidão

Outros tempos

Irreversível

Sonho de Natal

Grato e suplicante

Toada do pescador

Cantigas

Vira minhoto

Sobreposta

Contemplação

A Senhora do Sameiro

Junto à Cruz

Cântico mariano

Epitáfio

Rubis

Candelabro

Gratidão

Partida

Morte

Na hora do adeus

Sempre presente

Na hora do adeus

Canto final

Rosário

Inútil

Amargor

Escolhos

Canto íntimo

Anseio longínquo

Cinco lustres

Sinceridade

Raios de esperança

Meninice

Calmante

Miradouro

Indiscriminação

Coincidência

Enleio e prece

Caminhada


Dedicatórias




Ao Fernando Pinheiro,
o amigo certo e disponível quando solicitado


À minha Mulher,
Aos meus Filhos


Concebido sem mentiras,
com bem-estar, amarguras,
"Ramalhete de safiras"
é um álbum de ternuras...


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Prefácio

O SUAVE ESPLENDOR DO OURO VELHO

Uma leitura fugaz de Ramalhete de Safiras



No seu projeto poético, José Fernandes da Silva mantém-se fiel a si próprio, quer as suas obras sejam entrevistas na perspetiva formal ou na perspetiva temática. Poetando já de uma forma contínua desde há vinte anos o autor que agora voltamos a ler não se desvia da regra sistemática a que submeteu a sua oficina artística, desta forma rejeitando qualquer experimentalismo ou imitação de frustres tendências passageiras, que de tempos a tempos fazem força de lei na literatura.

O título agora dado à estampa, Ramalhete de Safiras, tal como outros, também se insere na grande matriz histórico-literária da chamada poesia tradicional, género que tanto faculta ao poeta formas clássicas e eruditas como formas populares, e às quais recorre de modo alternado. Entre as dezenas de poemas que o autor coligiu no período de 2000 e 2010, não só se encontram sub-géneros como os sonetos e as canções, mas também redondilhas e quadras do gosto popular.

Sendo José Fernandes da Silva um mestre da arte poética não é de admirar que enforme a sua mensagem no mais variado tipo de estâncias, desde os dísticos até às décimas, passando por tercetos, quadras, sextilhas e oitavas. O mesmo se diga da estrutura métrica e rimática, porquanto os versos em Ramalhete de Safiras vão das três às doze sílabas. Apesar de o autor ter uma predileção especial pelas redondilhas (versos de cinco e sete sílabas), o certo é que compôs nesta obra inúmeros decassílabos e alexandrinos. De igual modo são usadas todas as possibilidades das correspondências sonoras no final do verso, onde podemos ver rimas cruzadas, emparelhadas e interpoladas. De notar também as sempre bem conseguidas antinomias, que descortinamos em substantivos de sentido oposto: fel / mel; dor / amor; alegria / tristeza; dissabores / primores; carícias / sevícias.

Sintomático é o facto de o autor usar os sonetos e as canções para abordar os temas mais sérios e graves da sua obra, como se pode ver em Estratagema: "Já há muito que aquele adolescente / não se podia levantar do leito..."; em Canto Filial: "Imensas vezes, Mãe, nas horas de amargura, / me refugio nos teus dotes de ternura..." e em Caminhada: "Muitas vezes tenho sido signatário / dos sofrimentos que me traz a vida...".

Contrariamente, deita mão das sempre encantatórias redondilhas e quadras (consagradas pela tradição popular) para abordar matéria mais comezinha, ligeira ou grácil. Vejamos alguns exemplos: "Audaz ribeirinho, / que escava o caminho / em busca do mar: / de noite e de dia / marulha alegria / num meigo cantar!" (Audaz Ribeirinho); "A Lua infinita / é hóstia bendita / feita de luar: / formoso luzeiro, / que não tem parceiro / para o imitar!" (Canto à Lua). E, finalmente: "E a guitarra, amena, / p'la noite serena, / geme e se desfaz: / sob raios de prata, / uma serenata / a quem não apraz?" (Baladilha).

Por sua vez, a temática também não se afasta muito daquela que José Fernandes da Silva tem trabalhado em obras como Arca de Filigranas, Canteiro Mimoso, Celeiro de Retalhos, Seara Rutilante e outras. Também em Ramalhete de Safiras o leitor continua a estar mergulhado no perturbador lirismo de um poeta que persiste estoicamente em renunciar aos sedutores cantos de sereia da sociedade contemporânea e se aferra cada vez mais aos valores perenes e inamovíveis do seu afetuoso ideário. Neste universo de grande coerência e solidez moral abundam não só poemas saídos do peito de um Eu lírico, de que cito, a título de exemplo, o primeiro dístico de Escravidão: "Era bem tempo de apagar o círio, / que alumia, há anos, o martírio..."; mas poemas também saídos de um Eu social, como se verifica em Outros Tempos: "Já não se reza o terço, como outrora, / nos pacíficos lares das aldeias..." Portanto, em Ramalhete de Safiras, o poeta tanto se debruça sobre a trama moral e sentimental da sua interioridade, revelando angústias, medos e sofrimentos; como afere judiciosamente as mudanças que se vão operando na sociedade hodierna.

A expressão de uma emoção redentora a um tempo e solidária a outro leva o poeta a alimentar o gosto pelo bucólico: "Lua pura, véu da noite / derrama bento luar..."; pelo nostálgico: "Já gozei dias felizes...", pela contemplação: "Infindáveis tapetes de verdura...", pela identificação com a dor alheia: "Jamais compreendi qual a razão / dele tomar aquela decisão (...) atendendo a que foi arrebatado / por um golpe brutal da fera Sorte...", e por todo um tipo de proposições que vão desde a confissão de desgostos pessoais até ao desagravo cristológico, passando por hinos ao amor conjugal, ao culto mariano e à saudade, esta bem expressa em elegias e epitáfios.

Mas se Ramalhete de Safiras é semelhante na forma e no fundo às obras anteriores do poeta, onde encontrar o toque da diferença, da originalidade e da própria evolução estética? A mudança mais visível é, sem sombras de dúvidas, a maior gravidade que o poeta coloca no discurso, cada vez mais recheado de ponderação, juízos de valor e confidências repassadas de melancolia. Para este embotamento da alegria e do otimismo muito terá contribuído a morte recente da mãe, a quem o autor dedica vários poemas, mas também fatores como a marcha indetenível do tempo, que obriga o poeta a vacilar no seu já longo "calvário" e a voltar-se para um passado já distante, mas de onde lhe chegam imagens vívidas de felicidade e enleio: "Na minh'alma habita / antigo luar / de um tempo fagueiro...". Daí a razão por que o autor faz constantes paralelos entre um passado ridente em que "...inocentinho, / livre de labéu," fruía gozos sem fim e um presente sombrio, onde "os desgostos caem (...) aos centos".

Esta obra, que agora se apresenta, mercê de um mais visível banho de desilusão e cansaço, e até de um halo de misantropia, de um confessionalismo redentor e autocompadecido, e de um tom elegíaco e passadista, marca de forma iniludível a entrada de José Fernandes da Silva na senectude da vida, tanto mais que na sua introspeção contrita admite: "...aos poucos, começo a ver desfeito / o meu sonho de vida...".

Os leitores de José Fernandes da Silva são assim prendados com mais uma obra que não só delicia os sentidos, mercê da musicalidade que o poeta imprime aos seus versos, como conforta o espírito, graças ao tom elevado e profundo da sua mensagem fortemente ideológica e moralizante. Desta forma, este autor continuará a servir-se da pena para pelejar pela virtude e pelo Bem, execrando o egoísmo feroz, as paixões destrutivas, o embrutecimento materialista da sociedade de consumo. E não se pense que os seus ditames são pura retórica, ao jeito das pregações de Frei Tomás, porque o autor impôs as disciplinas em primeiro lugar a si próprio: "O prémio de um viver puro / hei de encontrar pela frente...". Ramalhete de Safiras é pois um delicado e precioso manual para todos os que se identificam com este autor reto e sentimental e calcorreiam igualmente caminhos de prudência, justiça, amor e gratidão.

Mas Ramalhete de Safiras também é relicário de saudade e de luz simbólica de tudo o que é grandiosamente belo, como a misteriosa luz que nimba a noite e o dia, e que José Fernandes da Silva perdeu acidentalmente na sua infância.


Braga, 5 de setembro de 2011


Fernando Pinheiro
escritor


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Estratagema

Ao meu filho João Pedro


Já há muito que aquele adolescente
não se podia levantar do leito,
inconformado, débil, padecente,
com diagnóstico de que no peito
grande moléstia tinha residente.
Ia passando o tempo sob o efeito
de manifesto e abominável tédio,
cismando que morrer era o remédio...


Os anos já vividos foram belos,
recheados de enormes alegrias,
a construir magníficos castelos,
com fortificações de fantasias,
onde era cumulado de desvelos,
meiguices e sinceras harmonias,
atendendo ao convívio salutar
que desfrutava no mimoso lar...


Sempre lhe ofereceram os brinquedos
que desejava para a diversão:
dominava, nos jogos, os segredos,
exercitando como campeão.
E agora, arremessaram-lhe os torpedos,
que só trouxeram a desolação,
pois nessa fase crucial da vida
o enjaularam num beco sem saída...


Longas noites e dias sem descanso,
a não ter um balsâmico momento
de merecido e natural remanso,
capaz de libertar-lhe o pensamento,
até tornar possível o balanço
de se esvair tamanho sofrimento,
ou que lhe fosse feita a concessão
de mergulhar em funda hibernação...


Ao vê-lo absorto, quase indiferente,
dele se abeira a mãe, muito a miúdo,
pugnando para que ache no Presente
promissor e saudável conteúdo
e se lhe varra da cansada mente
tal obsessão de se despir de tudo.
Mas sentia-se mesmo desgastado,
sem forças p'ra sair daquele estado,


ao remirar-se na viçosa hera,
presa à parede, em frente à vidraça,
como que uma imutável primavera,
a sorrir-se da cíclica desgraça,
que o Destino tão cedo lhe pusera
a transbordar da delicada taça...
E sempre exposta a dolorosa tela,
na galeria, fora da janela...


Renovava-se, assim, cada estação,
às vezes, devagar, de outras, ligeira,
primaveras, invernos ou verão,
que a do outono par'cia zombeteira,
pois lhe não alterava a opinião
que ao contemplar aquela trepadeira
tinha a impressão de olhar um grande círio,
que sempre iluminava o seu martírio...


Folha a folha, tombava, lentamente,
até de tudo a planta se despir,
fazendo-o sonhar que um bom presente
seria poder, enfim, também partir
em busca do lugar tão excelente,
onde ninguém as dores vai sentir,
isento dos meandros da matéria
e usufruir de uma existência etérea...


Mês após mês, o mesmo itinerário,
da aguda dor, ferrada, que o prostrava
e, pela frente, o opressor cenário,
que o íntimo sensível causticava,
desfiando os mistérios de um rosário,
que teve início e nunca terminava...
E na alma buscava sempre o meio
da concretização do seu anseio:


Contrariar a folha derradeira
que, apesar de forçada pelo vento,
teimava em não deixar a trepadeira.
Nele, porém, mantinha-se o intento
de que a Morte seria justiceira
quando lhe abreviasse o sofrimento
e doasse a mansão celestial,
onde não mais tem penas o mortal...


Em meio de um outono, fim de tarde,
o tempo principia a escurecer;
relampeja e parece que o céu arde;
os ventos, furiosos, a gemer;
os trovões a rugir, com grande alarde;
desabam gotas de invulgar chover!...
Ainda assim, a folha derradeira,
trémula, resistiu na trepadeira...


Logo que a mãe, após a tempestade,
cortinas e janela pôde abrir,
o doente julgou não ser verdade
a solitária folha não cair
e, plena de esperança e de vaidade,
um verde sem igual a exibir...
Invade-o repentina mutação:
não quer morrer, quer a ressurreição!


Só quando o filho achou recuperado
é que a mãe, carinhosa, confessou
como é que fora o êxito alcançado:
Vendo-lhe a ideia fixa, a irmã pintou
aquela folha, tendo-a colocado,
confiante, na planta, que a firmou...
Milagroso e sublime estratagema,
que das garras da Morte foi algema!


Março de 2002


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Fidelidade

Ao meu filho Artur Augusto


O pobre cão sofria, resignado,
atenuando a dor com a lembrança
de que tinha cumprido o seu dever:
Treze anos, ou mais, tinham passado
e sempre a usufruir da confiança
que na casa podiam nele ter.


Agora, estava muito velho, claro:
pelagem feia, trôpego, visão,
ouvidos e olfato quase nulos.
Trouxeram para o substituir um raro
exemplar, para novo guardião.
Ainda jovem, junto dele, aos pulos,


fazia-o relembrar os tempos idos,
a correr, a saltar, em brincadeiras
que muito divertiam os miúdos,
dando-lhes os brinquedos preferidos
e indo achar, de todas as maneiras,
objetos escondidos por graúdos.


Depois, foi-se tornando corpulento
e grande responsável p'lo lugar
que, com firmeza, tinha de exercer.
Se alguém lhe desse um franco cumprimento,
correspondência igual ia encontrar.
Contudo, se o quisessem esquecer,


demonstrava como era inteligente,
vagueando de lado para lado,
sem deixar de seguir os movimentos,
por vezes, colocando-se na frente,
com o ouvido muito concentrado
e os olhos, perspicazes, bem atentos...


Coisa alguma deixava ser mexida
e a escolta só findava na saída,
à hora em que encerravam o portão...
Agora, estava muito velho, claro,
e tinha que admitir aquele raro
exemplar, para novo guardião...


Mas o pobre sofria, resignado,
atenuando a dor com a lembrança
de que tinha cumprido o seu dever.
Sentia-se, por isso, compensado,
pela justa e sincera confiança
que a casa nele pôde sempre ter...


Março de 2002


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Os Lírios

Ao meu filho Francisco Miguel


Eis uma delicada narrativa,
que se reporta ao tempo de Jesus,
de quando Ele era ainda pequenino.
P'ra sempre em mim permaneceu tão viva,
como um alegre e consagrado hino,
que só bondade e grande amor traduz:


Brincava, um dia, num formoso prado,
por perfumadas flores rodeado,
quando o céu, de repente, enegreceu
e desabou fortíssimo aguaceiro.
Havia frágeis lírios num canteiro
e, ao contemplá-los, o Petiz tremeu,


pois os pingos de chuva que caíam
sobre eles eram grossos e pesados
e iam destruir os seus amigos:
Por isso, sabedor de que corriam
enormes e gravíssimos perigos,
sem demora e com passos apressados,


ao maior e mais belo se chegou
e a haste para a terra debruçou,
para que as gotas de água deslizassem
das pétalas sedosas para o chão.
Com todos praticou a mesma ação,
para que as gotas os não estragassem...


Logo que terminou a tempestade,
ao local, outra vez, se dirigiu
e aos lindos lírios, sem dificuldade,
a forma primitiva conferiu,
não ficando nenhum danificado
e muito menos inutilizado!


Depois de concluído o nobre gesto,
com espontaneidade e sempre lesto,
o Pequenino andou de flor em flor,
banhado, agora, por um sol fagueiro,
e, os castos lírios, cheios de esplendor,
de novo, embelezavam o canteiro!


Abril de 2002


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Tambor silenciado

Ao Maciel Cardeira


Aquele pequenito foi forçado
a ir à guerra,
a fim de combater, como soldado,
p'la sua terra!


A tenra idade não lhe permitia
a arma manejar.
Por isso, à frente, com aprumo, ele ia
o tambor a rufar!


Vezes sem-fim se repetiu a cena:
Na dianteira,
a figura franzina, mas serena,
era bandeira...


Certa manhã, de raios colorida,
no seu posto, a rigor,
injusta bala recebeu, perdida,
o frágil tocador!


Julho de 2000


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Canto filial

À memória de minha Mãe, com um beijo de gratidão


Imensas vezes, Mãe, nas horas de amargura,
me refugio nos teus dotes de ternura!


Só Tu na vida me livraste da nudez,
elevando bem alto a minha pequenez!


Mesmo crescido tento dirigir os passos
para o conforto e fortaleza dos teus braços!


A tua imagem me conduz e ilumina
e os caminhos da honra e retidão me ensina!


Não deixo de guiar-me p'los conselhos sábios,
presenteados, num sorriso, p'los teus lábios!


Quando imagino estar sentado em teu regaço,
não me consomem negras penas, nem cansaço!


Ó Mãe, tudo Te devo desde que nasci
e sublimes lembranças me unem sempre a Ti!


Já sou tão grande mas me sinto pequenino,
quando recordo o teu olhar diamantino!


Tu és, ó Mãe, a mais fulgente e linda estrela
e nunca alguém pintou tão expressiva tela!


Tu és, ó Mãe, a flor mais cândida e mimosa
e na Tu'alma encontro a mansão bem ditosa!


Abençoada sejas, prenda tão querida,
que nas dores do parto me ofertaste a vida!...


Janeiro-fevereiro de 2007


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A semente


Uma semente, pelo vento transportada,
caiu na terra e fecundou-a, consolada!
Regou-a a chuva; raiou o sol e a aqueceu;
passaram gelos, intempéries, desgraças
e resistiu a incontáveis ameaças,
para brotar, da Terra-Mãe, em apogeu!


A raiz, frágil, no terreno se firmou;
o caule, tenro, para os ares se elevou;
naquele sítio, aos poucos, foi robustecendo,
com mil instantes de alegria e sobressalto.
Embelezou a verde serra, lá no alto,
e cantos de aves pôde ouvir, agradecendo...


Cresceram ramos, premiados com folhagem,
dando a impressão de colossal e rara imagem
de um grande andor, bem asseado pelas flores,
que, em breve, aos frutos sazonados dão lugar...
E o livre vento, que outrora ali a quis deixar,
por ela passa, para e tem castos amores!


Setembro de 2000


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Audaz ribeirinho

À Adrianinha


Audaz ribeirinho,
que escava o caminho
em busca do mar:
de noite e de dia
marulha alegria
num meigo cantar!


Pelas águas mansas
risonhas crianças
a se recrear:
repletas de orgulho
dão o seu mergulho
para refrescar!


A calma corrente
a muitos consente
um breve sonhar:
fazer um barquinho
de casca de pinho
e pô-lo a boiar...


Já tudo isso fiz
no tempo feliz,
debruado a ouro:
para o repetir
nem mesmo investir
o maior tesouro...


Janeiro de 2001


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A divagar


Nesta poesia,
a divagar,
com alegria
quero saudar
o novo dia
que vai chegar!


É primavera,
tudo a florir!:
Ai quem me dera
usufruir
dessa quimera
de igual sorrir...


O sol aquece,
vindo o verão:
tudo parece
admiração
pela benesse
da geração!


Tranquilo outono,
vento a gemer:
profundo sono
vai submeter
ao abandono
inúmero ser!


O inverno chega,
frio, sem par:
a chuva pega
a desabar
e em manto lega
neve a alvejar...


Traz esperanças
cada estação:
como as crianças,
o coração
só de horas mansas
quer o condão...


Fevereiro de 2001


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Gostos

É bom estar-se na praia,
pelos dias de calor,
desde cedo, manhãzinha,
quando o Astro-Rei ensaia
nobres bailes de esplendor
com a Aurora, Mãe-Rainha,
até que, lento, desmaia
e, lá longe, se vai pôr,
suavemente, à tardinha...


Há quem aprecie os montes,
com verdura, arborizados
e mil canteiros de flores;
ou as cristalinas fontes,
pelos dias encalmados,
para refrescar calores;
e quem busque os horizontes,
que não sejam destinados
a constantes dissabores...


Gosta-se, afinal, de quanto
existe na Natureza,
exprimindo puro espanto
pelos focos de beleza!


Setembro de 2001


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Canto à Lua

A Lua infinita
é hóstia bendita
feita de luar:
formoso luzeiro,
que não tem parceiro
para o imitar!


Lençol coradinho
do mais puro linho
que alguém já teceu:
a renda que encanta,
de noiva ou de santa
podia ser véu...


Outubro de 2001


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Baladilha

Baladas de amor
canta um sonhador
em doce enlear
e os sons cristalinos
são ímpares hinos
por tudo a vibrar!


E a guitarra, amena,
p'la noite serena,
geme e se desfaz:
sob raios de prata,
uma serenata
a quem não apraz?!


Outubro de 2001


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Amenidade

Na minh'alma habita
antigo luar
de um tempo fagueiro:
uma enorme dita,
que vem embalar
o sonho primeiro...


Quando inocentinho,
livre de labéu,
em gozos sem-fim,
tinha um pergaminho
que apontava o Céu,
etéreo jardim...


E a rústica avena,
num cântico audaz
trilados desata,
levando-me a pena
tão negra e voraz,
que me maniata!...


Outubro de 2001


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Cantiga p'ra embalar

Eram raios de harmonia
a linda e meiga canção
que a mãe, cheia de alegria,
tirava do coração.


Muito humilde, à moda antiga,
a grande afeição materna
expressa numa cantiga
há de ser sempre moderna.


Por isso é que as amarguras,
enquanto embalava o berço,
eram rios de ternuras
que adoçavam cada verso:

"Pombinha mansa,
no bico traz
verde raminho
de amor, esp'rança,
saúde e paz,
p'ra ser o ninho
desta criança!"


Novembro de 2001


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Cântico intercalado

À Felicidade


Não me foi fácil a Vida,
em momentos p'ra esquecer:
são os pontos de partida
que jamais queria ter...


Com sincera reflexão
p'lo Passado viajei,
em busca da conclusão
das muitas vezes que errei!


Parece-me que o Sol brilha
com um pouco de fulgor:
deve ser a maravilha
de reaver meu Amor!


Voam baixo, as andorinhas,
o tempo vai-se alterar:
oxalá que as penas minhas
com ele possam sarar!


É penoso este Calvário,
que a Vida teima em me dar
e muito extenso o rosário
que tenho p'ra desfiar...


Não foram propositados
tantos males que causei,
mas sim fruto dos errados
caminhos que palmilhei.


Percorro longos atalhos
e chego ao fim, tudo em vão:
busco queridos retalhos,
caídos do coração!


Irradia-me do peito
a fulgência de uma estrela:
quem me dera achar o jeito
de ocupar o lugar dela!


Quando puder despejar,
num abismo, tanto fel,
o Futuro irei mudar
em loiros favos de mel!


Deixava de ser terrível
o lamentável estado,
se um dia me for possível
não mais lembrar o Passado!


Se pudesse regressar
atrás muitíssimos anos,
tentava remediar
o que foram graves danos!


Nos momentos de amargura
um esforço vou fazer,
pois nada paga a ventura
de um pacífico viver!


Não olharei aos princípios
até atingir os fins:
tenho que mostrar indícios
de esquecer tempos ruins...


Há de ser um novo mapa
que na Vida seguirei,
ao desfazer-me da capa,
que tantos anos usei!


O prémio de um viver puro
hei de encontrar pela frente,
investindo no Futuro
e apostando no Presente.


Luto para ser capaz
e tenho que conseguir:
o que ficou para trás,
não pensar em repetir...


Somente os esquecimentos
me levarão a bom porto,
ao poder gozar momentos
de merecido conforto!


Tenho força de vontade,
mas necessito de ajuda:
basta-me que haja bondade
e o que é reticente muda...


Reconheço haver razão
nas culpas que me consomem,
por não cumprir o guião
das etiquetas de um Homem!


Sei que pena e corre o pranto
e eu nada posso fazer,
mas nem imagina o quanto
o facto me faz sofrer!


Não deixei nunca de amar
nem de manter-me fiel
àquele desempenhar
de responsável papel.


Quero-me crucificar
nesses braços maternais
e o tempo poder passar
sem lágrimas e sem ais!


Agora tenho a noção
da funda melancolia:
foi não prestar atenção
quando o evento merecia!


Pulsa-me o peito de amor
por quem levei ao altar:
oxalá que o seu ardor
para mim possa voltar!


Fevereiro-abril de 2002


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Flache

Sob a folhagem de uma árvore frondosa,
deitei-me a repousar:
veio uma aragem, de mansinho e carinhosa,
p'ra me afagar!


Adormeci, num sono cheio de quimeras,
de encanto e de alegrias
e regredi até me achar em velhas eras
e belos dias...


Acaba tudo quando menos nos agrada,
de forma repentina,
e o conteúdo de prazer reduz-se a nada
e a triste sina!


E foi com pena que do sonho despertei,
ainda sob o afago
da tão serena árvore, onde me abriguei,
que n'alma trago...


Maio de 2002


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Verdes serranias

Infindáveis tapetes de verduras
enfeitam do sopé ao cume as serras
e pelas fraldas descem águas puras,
que, amigas, vão matar a sede às terras.
Mas os tapetes, muita vez, são leve
fotografia de alvacenta neve...


É mesmo pena haver quem não respeite
o salutar e natural enfeite,
onde o pastor entranha o seu rebanho,
para fartar-se da viçosa erva
e, na flauta subtil, soprando, estranho
mas belo efeito tímbrico se observa...


Quem não adora a paz da solidão,
que oferecem as verdes serranias,
arborizadas, sem poluição,
para passar uns agradáveis dias?!
É um palco magnífico a montanha,
sempre que o fulgurante sol a banha!


Junho de 2002


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Elegia

Ao José Manuel Mendes


Quando a Morte chegou, embora disfarçada,
a pobre mãe reconheceu-A no momento:
O vulto entrou como uma brisa regelada


e à cabeceira da caminha teve assento.
Há muito já que, noite e dia, a pequenina,
febril, arfava num viver de sofrimento...


Sobre a criança, vezes sem contar, se inclina,
a ver se ainda pulsa o frágil coração,
enquanto as lágrimas lhe brotam em surdina...


E o vulto negro estende a descarnada mão,
com o cutelo donde pinga ainda sangue,
a fim de um golpe desfechar, sem compaixão...


A pouco e pouco o rostozinho ficou langue
e os resquícios arfantes foram-se do seio.
A mãe, então, verificou que estava exangue


e regelada como a brisa que antes veio...
Rompeu num convulsivo soluçar, medonho,
porque se desfazia, em trágico entremeio,
um lindo, promissor e inefável sonho!


Junho de 2002


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Devoção

Ao longe, soltam os sinos,
uns repenicados hinos,
lembrando que é meio-dia:
o que for crente e se preza,
cheio de respeito, reza,
recolhido, "ave-Maria"!


Depois, à noite, na torre,
quando o sol, cansado, morre,
arrastando as claridades:
outra vez há badaladas,
aspersas em revoadas,
e também reza às "Trindades"...


Fevereiro de 2003


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Cogitações

À Felicidade

Sempre que de alguém se gosta,
já que puro amor se sente,
não deve fazer-se a aposta,
que a rutura está presente!


Nunca imaginei que a Vida
comigo fosse tão fera,
ao provocar-me a ferida
da mais profunda cratera!


Bate sempre o coração,
repleto de sofrimento
imerso na solidão
que o não larga um só momento!


A solidão mortifica
e é uma pesada cruz:
o nosso ser modifica
e cicatrizes produz...


Apesar de tantos anos
e exp'riência no viver,
não deixo de ter enganos,
que na Vida julguei ter...


Errei - afirmo mil vezes -,
por falta de reflexão:
eis inesperadas teses,
que permite o coração...


Perdendo-se a confiança
em Alguém que muito se ama,
vai morrendo a esperança
na mais dolorosa chama...


Não foi a mais oportuna
a decisão encontrada,
porque esbanjei a fortuna
com esmero amealhada!


Muito quero, tudo perco -
faço e refaço o baralho:
tudo jogo, sai-me esterco -
foi inútil o trabalho...


Vamos ver se lucrarei
coisa alguma no Futuro:
o modo como joguei,
de ganhar não 'stou seguro...


Pressinto o gume da lança,
sem piedade, a golpear-me:
a finalidade alcança,
pois não posso libertar-me!


Porque esqueci a cautela,
fui apanhado no laço:
pode formar-se a mazela
e ser um grande fracasso!


O rancor é fina flecha,
que fere sem compaixão,
fazendo a mais grave brecha
no incauto coração!


Vem a dor, vai-se a alegria,
o sofrimento aparece,
até que um funesto dia
toda a 'sperança fenece...


Tanto dou, pouco recebo,
nesta existência que vivo:
muitas razões não percebo,
mas prossigo, expetativo...


Nunca me apraz a mentira,
seja qual for a razão:
a confiança retira
e macula a opinião!


Desanima que quem erra
não sinta arrependimento,
porquanto provoca a guerra
no mais belo sentimento!


Que errei muita vez, assumo,
mas não me sinto culpado
(digo, convicto), do rumo
p'los insucessos observado...


Sinto-me cheio de tédio
e nada quero mudar:
sei bem qual era o remédio,
mas não o quero tomar...


Sofro, por saber que sofre
e tudo tenho tentado:
levou-me a chave do cofre,
que há anos me havia dado...


Dia a dia, passo a passo,
me abrasam tantos desejos
de um bem apertado abraço
e dos velhos ternos beijos!


A minha alma fica louca
em instantes de prazer,
quando beijo a tua boca
e comungo do teu ser!


Habita grande esperança
no meu reino de amarguras:
reaver a confiança
de certezas inseguras...


Acho que surgem clarões,
tremeluzindo, no ar,
a querer que os corações
num só possam palpitar!


São as dúvidas que teimam
em não querer-me largar,
já que discussões ateiam
em labaredas sem par!


Subo do sopé ao cume,
sob o peso de um tormento:
esse espinhoso ciúme,
que me não deixa um momento...


Procuro a tranquilidade
e a paz que tanto preciso:
faço-o com sinceridade,
p'ra viver só num sorriso...


De tentar nunca desisto,
sem obter bons resultados:
convicto, porém, insisto,
p'rws fins serem alcançados...


Disputo a guerra sozinho,
por inércia do adversário:
esmoreço, pois caminho
nas agruras do Calvário...


Bem procuro a consonância
de um sentimento de amor,
mas não acho ressonância
da parte do recetor...


Senhor, já sofri demais
em tão reduzido espaço:
tantos suspiros e ais
transformaram-se em cansaço...


Seria uma depressão
que assim me abalou o ser,
ou seria o coração
a mostrar tanto sofrer?!


Respiro certos momentos
de alguma serenidade:
após tantos sofrimentos
voltará a f'licidade?!


Que não seja fingimento
a paz que parece haver,
pois era o maior lamento
que podia suceder...


Aconteceu-me o inverso
da outra lua de mel,
pois me coube no regresso
sorver vasilhas de fel...


Apoquenta-me a fadiga
de viver um "não-viver":
é desfolhar uma espiga
de fraco amadurecer...


Amo e seria melhor
cultivar a indif'rença,
pois mais não me ter amor
parece ser a sentença!


Não há reciprocidade
ao grande amor que me habita:
por isso, às vezes, me invade,
uma profunda desdita!


Que tempos irá durar
o jogo do gato e rato,
pois posso desanimar
ante contínuo aparato?...


Não será oportunismo
a forma de tratamento?
Pode haver um cataclismo
e mudar-me o sentimento...


Amo, sofro, o tempo passa,
oxalá que Deus me valha
e me cumule da graça,
para vencer a batalha!


A minha vida decorre
entre a procela e bonança:
tanto nasce como morre
a ilusão e a esp'rança!


Parece agora que sim,
logo parece que não:
julgo que gosta de mim,
mas foge-me a convicção!


Desejo entoar um canto
d'alegria sem igual,
para destruir o pranto,
que me causa tanto mal...


Finge-se que existe calma:
só Deus sabe o que se sente,
pois de negro traja a alma,
de amor e de paz carente...


Ouçam o meu grito forte
e a sincera confissão:
Que de mim se abeire a Morte
e me leve o coração!


O amargor que me persegue,
pela noite e pelo dia,
seus objetivos consegue:
não deixa ter-me alegria!


Oxalá possam partir
as dúvidas e tormentos,
que teimam em destruir
reconstruídos alentos!


Repito que são ciúmes,
incertezas, dores, ais,
que me ferem como gumes
de envenenados punhais!


Dá-me, ó Vida, o talismã
pois tenho-Te em grande apreço:
desfrutar um Amanhã
da Paz, que tanto careço...


Fevereiro-abril de 2003


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Fadiga

Ao José Monteiro dos Santos


Parece que desmaio, com fadiga,
procurando manter-me indiferente
às preocupações deste Presente,
onde abunda a inveja e a intriga.
Tenho de proteger-me até que siga
o caminho trilhado pela gente
que, mesmo castigada, não consente
que a dignidade sofra qualquer briga...


Todavia, será que atingirei,
alguma vez, os pensados objetivos?
Possivelmente, não, mas tentarei,
com acendrada fé, juntar motivos
que a moral me consiga levantar
e, de cabeça fresca, bem erguida,
o 'spírito, cansado, serenar,
reavendo a confiança então perdida...


Setembro de 2009


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Intimidade

Para a Maria Teresa Gomes

Voguei num barquinho,
bem devagarinho,
na espuma a brilhar,
querendo que os sonhos
(e mais os medonhos)
ficassem no mar...


Pensei que ao zarpar
do ódio, da guerra,
dos vícios da Terra
podia encontrar
sublimes momentos,
com bons pensamentos...


Depois, meditei
que também levava
o meu coração
e aí constatei
que ainda pulsava
com mais ilusão...


Despejei na espuma
essa enorme ruma
dos males que tive.
Chegando a bom porto
houve o desconforto:
tudo sobrevive...


Se eu pudesse, um dia,
fretar um barquinho
e por lá ficar,
não me importaria,
muito de mansinho,
de a Vida afundar...


Dezembro de 2009


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Escravidão

Ao Escritor amigo Fernando Pinheiro

Era bem tempo de apagar o círio,
que alumia, há anos, o martírio,
que me faz dele escravo permanente:
Tem sido um curso íngreme, enfadonho,
repleto de um inacabado sonho,
que só quem sofre de tais males sente...


Volto a gostar um pouco mais da Vida
e a ter mais incentivos na subida,
que, receoso, aos poucos, vou subindo:
Prossigo a tropeçar, vezes sem conta,
em precipícios de pequena monta
que, inesperadamente, vão surgindo...


Preciso recompor-me do abalo
e de múltiplas culpas que 'inda calo,
embora, consciente, a defini-las:
Medito, remedito e fico tonto,
sem poder atingir aquele ponto
de as avivar, revê-las e sumi-las...


Se um dia for capaz de ultrapassar
a encruzilhada que me faz penar
e retira momentos de sossego:
Então, sim, poderei erguer um canto,
que, eternamente, leve a dor, o pranto
e as cruas incertezas que carrego...


Setembro de 2003


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Outros tempos

Ao pe. dr. Alípio da Silva Lima


Já não se reza o terço, como outrora,
nos pacíficos lares das aldeias,
repletos do luar vindo de fora,
ou sorvendo a luz frouxa das candeias!


Pelo inverno, à volta da lareira,
desfiavam-se as contas com piedade,
ante o crepitar rubro da fogueira
e a resposta dos outros, com bondade...


Era ao ar livre, às vezes, no verão,
a rematar as lides e canseiras,
erguendo aos Céus a límpida oração
por cometidas faltas, passageiras...


Lembravam-se os parentes, benfeitores,
amigos e até mesmo os inimigos,
e rendiam-se múltiplos louvores,
para serem libertos dos perigos...


Também se orava pelos falecidos,
quer aos convivas pertencendo ou não,
para que Deus ouvisse os seus pedidos
e concedesse o divinal perdão...


Era pedida a bênção dos mais velhos,
ao terminar a devotada reza,
tendo-se em conta sempre os bons conselhos,
vindos da dignidade que se preza...


Que pena não haver já nas aldeias
o desfiar das contas em família,
a rogar se evitassem as mãos cheias
do terror, da agressão e da quezília...


Mas tudo terminou sem regressar,
porque julgam as novas gerações
sumir-se-lhes o tempo p'ra gastar
no vício, malfazer e diversões!


Outubro de 2003


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Irreversível

Jamais compreendi qual a razão
dele tomar aquela decisão,
pois sempre o rotulei de equilibrado,
inteligente, amigo, responsável
e senhor de esmerada educação!
Não me passou p'la mente o outro lado,
que veio a ter um termo irreparável,
atendendo a que foi arrebatado
por um golpe brutal da fera Sorte,
que lhe aferiu imerecida Morte...


Soube depois que fora a depressão
a causadora da situação
que, a pouco e pouco, o pôs assim frustrado
e proporcionou ser inviável
vir a alcançar uma libertação...
Não tinha dúvidas de estar minado
por doença malévola, incurável,
a que estaria sempre escravizado
e lhe não retirava a ânsia forte
de, com a Vida, concluir o corte...


A epilepsia combateu, em vão,
até, por fim, sentir-se derrotado,
ante o garrote rígido, implacável
do algoz que lhe toldava o Sul e o Norte...!


Novembro de 2003


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Sonho de Natal

À Maria do Sameiro Miranda


Era tão pobre, tão pobre,
que na noite de Natal
não lhe sobejava um cobre
para ter o essencial:
umas couves e batatas,
grandes riquezas, baratas...
Se existisse um gesto nobre
remediaria o mal
e teria a desejada
santa e feliz Consoada!


A noite ia decorrendo
e as brasas também morrendo
na reduzida lareira,
sopradas por manso vento,
que unia o triste lamento
em visita passageira...
E tremenda lassidão
lhe oprimia o coração
e vedava toda a esteira...


Com o borralho a esvair-se
e sem luzir a candeia,
começou mais a sentir-se
angustiado p'la ceia,
que já não ia servir-se
e lhe não largava a ideia...
O sono trouxe-lhe um sonho
delicioso e risonho:


Em deslumbrante mansão,
como nunca vira assim,
pejada de multidão
e cercada por jardim,
achou lauta refeição
de sortidas iguarias
e efusivas alegrias...


Toalha branca de linho,
cobrindo a mesa de pinho:
filhós, pinhões, uvas passas,
aletria, pão-de-ló,
licores servidos só
em puro cristal das taças!


E formigos, rabanadas,
maçãs a assar na braseira,
bolo-rei, cristalizadas
frutas, diversificadas,
e crepitante fogueira!


Pinheirinho iluminado
e um presépio imenso e lindo,
onde, nas palhas, deitado,
'stava o Menino sorrindo!


A confraternização
gozou de fio a pavio,
até o dia raiar...


Regressou a solidão,
inda o 'stômago vazio


e mais gelo ao despertar...!


Outono de 2003


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Grato e suplicante

À Maria do Céu Nogueira


Já gozei felizes dias,
noutros tempos que lá vão,
plenos de sãs alegrias...


Foram, de facto, momentos,
que tanto prazer me dão,
quando tenho desalentos...


Aos sete anos fui à escola
e ainda me lembro bem
que levei uma sacola
já usada por alguém!


Não importava, contudo,
porque o que mais desejava,
como aplicado miúdo,
era a sorte no estudo,
sorvendo o que se ensinava...


E fui crescendo em idade,
e também na inteligência,
tendo em conta que a bondade
era a minha preferência:
mas hoje também o é
sem dela arredar o pé...


Era um ditoso menino,
por desvelos cumulado,
qual florinha de jardim,
até que um dia, o Destino,
impiedoso, inesperado,
se derrubou sobre mim
e me tornou desgraçado...


Imerso nessa desgraça
sofri um ciclo cruel,
forçado a beber à taça
milhões de goles de fel,
até me ser dada a graça
de chupar favos de mel,
quando larguei o monturo,
começando um viver puro...


Convenci-me que era útil
e o Passado fora fútil,
com vontade de O olvidar:
acenderam no carreiro
um cristalino luzeiro,
para os passos me guiar...
Constatei não ser vedado
atingir o resultado,
que me esforcei por achar!


Por isso, caminho em frente,
a mostrar a muita gente
que quero sossego e paz:
de novo sinto a pujança
de outros tempos de criança
e não voltarei atrás...
Ergo a Deus uma oração,
num brado sentido e forte:
"Sede a minha proteção
e guiai-me até à Morte!"


Outono de 2003


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Toada do Pescador


Ao prof. dr. José Augusto Pacheco e esposa


Durante a vida fora pescador,
por isso, ao mar,
consagrava sentido e grande amor,
sendo impossível suceder um dia,
sem comungar
profunda nostalgia!


A íngreme calçada,
fronteira ao mar,
estava bem coçada
de tanto a palmilhar:


Desembocava num extenso largo,
delimitado
por um grosso e maciço paredão,
onde se debruçava, extasiado,
ou com um pensamento bem amargo,
que se esvaía pela imensidão...


Por longe andou inumeráveis vezes,
semanas, noites, dias,
e até mesmo chegaram a ser meses,
com fundas esperanças,
medonhas tempestades, ventanias
e subtis horas mansas...


Viu-se envolvido
na doce calma
e no tufão:
e, recolhido,
encomendava a alma
em íntima oração...


Sob noites de luar,
em que as águas eram prata,
gostava de interpretar
comovida serenata!


E, sem enfado, repetia
tantas estrofes inventadas
de canções velhas, decoradas
de um terno álbum de poesia...


Trovas para a mulher,
por quem lhe arfava o peito,
eram longas amostras de querer,
de saudade, amor, pranto, enleio e preito!


Embora alimentasse diversas paixões,
nunca casara:
Ser pai de muitos filhos eram ilusões
com que sonhara,
mas que jamais concretizara...


Sob o balanço das ondas,
em marés de calmaria,
desfilava em largas rondas,
repletas de fantasia:


Via na espuma a brilhar
um delicioso leito,
para ficar, peito a peito,
com a que o quisesse amar.
Tudo, porém, sempre em vão,
porque a mais forte paixão
era dedicada ao mar!


O pai tinha morrido nas salgadas águas,
havia vários anos.
A família sofreu indescritíveis mágoas
e irreparáveis danos:
Mesmo assim, todavia,
sempre achava nas águas
momentos de alegria...


Malgrado muita vez a adversidade
o tenha visitado
nas lides piscatórias,
eram doces instantes de saudade
as ímpares histórias
e memórias
do Passado...


Lembrava tudo agora,
embevecido,
e um longo olhar sulcava p'lo mar fora,
enternecido!
O avô também fora
um lobo do mar,
por isso é que mora
na profundidade,
que uma tempestade
o fez naufragar...


O corpo do pai
ainda apar'ceu,
mas o do avô, ai!,
o mar o comeu!


Imensos presságios
sobre ele desceram
em tantos naufrágios
que lhe sucederam.


Mas em suma:
em conta tendo a ruma
de trágicos cadilhos,
havidos e legados pelo mar,
se lhe nascessem filhos
seria a mesma sorte que iriam herdar,


para manter-se a chama sempre acesa,
que há muito iluminava,
com dotes de nobreza,
os membros da família, de coragem brava!...


O mar e sempre o mar,
na mente a fervilhar!


Lençóis de puro linho,
enormes, estendidos,
tapetes do caminho
que havia a percorrer;
regalo dos sentidos,
suave amanhecer...


O sol a despontar,
chamando p'rw labor,
por tudo a derramar
delícias de fulgor.


E o barco, persistente,
desliza, mansamente...


Em todas as rotas,
bandos de gaivotas
fazem companhia:
Adornam o ar
e tanto piar
exprime alegria!


Mas quando o mar estava mesmo bravo,
redobrava a atenção pelo perigo,
porque não se podia ser escravo do falso amigo,


raivoso, a arfar:
feroz, bramindo,
tudo investindo
para os tragar...


Quando eram lançadas
as redes ao mar
e vinham pejadas
de peixe a saltar,


infinda alegria,
com rezas e cantos,
à Virgem Maria
e filho Jesus,
que dão a ventura
de tanta fartura
e secam os prantos
nas ocasiões
que o mar só produz
as desilusões...


Quando as redes vinham cheias
de espécimes variadas,
faziam-se lautas ceias
de gostosas caldeiradas,
com umas pingas regadas
e as estrelas por candeias...


E depois lá vinha a farra,
com canções, um belo fado,
com primor acompanhado
pelo trinar da guitarra
que, por magia, os amarra
ao evento inolvidado...


Mas para ele, o mar
era sempre beleza,
no terno marulhar
e na rude aspereza.


Embora apreciasse bem mais a bonança,
que em tudo lhe trazia raios de esperança,


deslumbrava-o também
a medonha procela,
onde podia ver inimitável tela!


E sempre, sempre o mar,
em todos os momentos,
com o melhor lugar
nos longos pensamentos!


Também na hora alegre ou inquieta,
glosando qualquer tema do Universo,
sentia-se na pele de um Poeta,
compondo e declamando subtil verso.


Para qualquer assunto fazia um esquema
e consagrava tempo nele a trabalhar:
Sem querer, o tema
visava sempre o mar...


Num leve sorriso,
depois declamava,
ou então cantava,
como este improviso:


"Ó mar, ai, ó mar,
suave e bendito,
tapete infinito
de espuma a brilhar!
Ó mar, ai, ó mar,
rebelde e maldito,
que esqueces o grito
de quem naufragar!


"Ó mar, ai, ó mar,
amigo e traidor,
mas que o pescador
sempre há de lembrar,
pois é só amor
que tem para dar!


"Ó mar, ai, ó mar,
das grandes tormentas:
agora, és de amar,
logo, desalentas!
Revoltas que inventas,
em qualquer lugar;
espumas que ensaias,
de dia, ao luar,
com bailes nas praias


de rara brancura:
Só mesmo quem te ama
mantém viva a chama
de eterna doçura..."


E sobre o paredão,
o velho tecelão
de espuma inigualável
fazia fina malha
p'rà confeção de afável
e límpida mortalha!


E o mar gemia,
serenamente,
porque perdia
um bom cliente,
que a vida lhe doou
e os males perdoou,
e o conhecia
como ninguém,
ou como poucos:
No dia a dia
viveu com loucos
e com alguém


que partilhava
da mesma opinião.
Não se ralava
com o quinhão
que usufruísse
um companheiro:
Não era useiro
do disse-disse...


Eis a razão
da consideração
que nunca lhe negaram,
e até o premiaram


por tal desprendimento,
pois bem reconheciam
que nos outros não viam
tão belo sentimento...


Pensava muito na sorte,
n'alegria e n'amargura:
Possuir, após a morte,
o mar como sepultura...


Para o castigar,
ou recompensar,
não teve bondade,
também desta vez,
o imprevisto mar,
porque lhe não fez
tamanha vontade...


Em uma certa noite, regelada,
coberto de luar,
já fim d'outono,
de bruços, sobre as pedras da calçada,
ficou a repousar
no derradeiro sono!...


Outono de 2003


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Cantigas


Ao pe. João Alves de Oliveira

Canta, lindo passarinho,
um canto de enfeitiçar,
em trilados, de mansinho,
que tudo faça alegrar!


Ai saudoso rouxinol
que nas noites de luar,
até ao nascer do sol
não paravas de trinar!


Seria bom, quem me dera,
ser sempre moço e contente,
como a fresca primavera
tão colorida e ridente!


Deixai cantar a cigarra,
que é o que sabe bem fazer:
desde que lhe cheire a farra,
outra vida já não quer!


A previdente formiga
aproveita o dia inteiro,
sem nunca sentir fadiga
de acarretar p'rò celeiro!


Tamborilas, mansamente,
ó chuva, sobre o telhado
e o espírito, dormente,
repousa, deliciado!
Improvisava tão bem
o pequeno mandrião,
a ver se lhe dava alguém
qualquer coisa para a mão...


Ó Sol forte e deslumbrante
inunda-me o coração
com um banho fulgurante,
repleto de mansidão!


Rios que cantarolais,
em busca do largo mar:
levai lágrimas e ais
de quem está a penar!


Ventos todos que passais
fazei-me um favor apenas:
vede se me transportais
para muito longe as penas!


Avezinha canta, canta,
que bem gosto de escutar:
quem me dera uma garganta
que te pudesse imitar!


Ó cintilantes estrelas,
que iluminais Céus e Terra:
destruí-me as sequelas,
herdadas de injusta guerra!


Sei bem que é triste o fadário,
por 'star preso na gaiola,
daquele belo canário,
que em gorjeios me consola!


Lua pura, véu da noite,
derrama bento luar,
num local onde me acoite
e passe o tempo a sonhar...


Se possível, Natureza,
até ao fim dos meus dias,
leva o manto da tristeza
e traz outro d'alegrias...


Maio de 2004


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Vira Minhoto


Ao Arlindo Fagundes


Ai vira que vira
e torna a virar:
todo o mundo gira
até se cansar!


Depois recomeça,
de novo, o girar:
dos pés à cabeça
é tudo a virar...


Nas terras do lindo Minho
há sempre que festejar:
no mais distante cantinho
não falta gente a bailar.


Minhoto digno do nome
na farra é um campeão:
barriga cheia ou com fome
aposta na diversão.


Mal ouve uma concertina,
na chula, vira ou malhão,
a voz bem típica afina
e salta-lhe o coração.


Tambor, flauta, cavaquinho,
viola a repenicar:
nas rusgas deste cantinho,
quem quer de fora ficar?


Repete, com alegria,
modinhas e bom bailar:
de noite, até vir o dia;
de dia, até ao luar...


Primavera de 2009


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Sobreposta


Aos meus conterrâneos


Sobreposta, linda terra,
onde um dia ao mundo vim,
berço que hoje ainda encerra
recordações para mim
e lembro vezes sem-fim,
pois não esqueço os momentos
outorgados em criança:
sorrisos e sofrimentos,
tempestades e bonança,
ambições e esperança...


Salve, meu torrão bendito,
o roteiro de saudade:
braga, conselho e distrito,
rumo ao alto, sem idade
e, subindo aquela encosta, -
paisagem deliciosa,
outrora rude e agreste, -
surge a linda Sobreposta,
terra asseada e airosa,
ao cimo do rio Este...


Saudades da freguesia,
onde há muito ao mundo vim:
botão frágil de jardim,
regado com alegria,
em permanente festim,
por mãos hábeis, delicadas:
o mais maternal carinho,
são e puro como o linho,
tecido para as jornadas
abertas em meu caminho...


Sou filho de Sobreposta,
o Regueiro meu lugar,
batizado, fraca aposta, -
ressalto aqui meu pesar -
em Rua de S. Tomé:
para muitos não diz nada,
ou meditarão até
ser minha pura vaidade:
tanta vez sinto cravada
a lembrança e a saudade...


28 de janeiro de 2009


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CONTEMPLAÇÃO






A Senhora do Sameiro


(Que se venera no monte do mesmo nome,da freguesia de Espinho, Braga)

Ao pe. Artur V. Marques


A Senhora do Sameiro,
da freguesia de Espinho:
de Braga, belo roteiro
para quem visita o Minho.


A Senhora do Sameiro
habita linda basílica,
num lugar bem altaneiro
e de paisagem idílica!


A Senhora do Sameiro
está no topo de um monte
e o devotado romeiro
busca a paz da Sua fronte!


A Senhora do Sameiro
numa imagem primorosa:
as mãos hábeis de um canteiro
lavraram tão linda rosa!


A Senhora do Sameiro
por tudo derrama luz:
é o foco mensageiro
do amado filho Jesus!


A Senhora do Sameiro
larga fitas pelo ar,
que caem no mundo inteiro,
ternas mãos a abençoar!


A Senhora do Sameiro,
envolta em brilhante manto,
onde o crente forasteiro
seca as lágrimas do pranto...


A Senhora do Sameiro
no mavioso sorriso
tem estampado o letreiro,
que nos mostra o Paraíso!


A Senhora do Sameiro,
terna e santa Mãe de Deus,
é referente luzeiro,
que nos guia para os Céus!


A Senhora do Sameiro
tem piedoso coração:
no momento derradeiro
seja a nossa proteção!


18 de janeiro de 2004


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Junto à Cruz


Ao pe. António Rodrigues


Junto à Cruz que me redime,
deveras arrependido,
confesso um oculto crime,
para que seja absolvido.


Não sei, porém, se mereço
a pedida absolvição:
insisto, Jesus, e peço
a divinal compaixão.


És clemente, compassivo,
cheio de misericórdia
e p'rò momento que vivo
faz com que reine a concórdia.


Os maus ímpetos acalma
da Vida, Teu bom presente:
atende os rogos da alma,
que imensas precisões sente.


Tanta vez e a muito custo
procuro achar a razão
de, sendo Jesus tão justo,
por que sofreu tal Paixão?!


E sofreu-A por amor,
amarrado num madeiro,
para ser o Redentor
do mundano cativeiro.


Por entre sentidos ais,
sequioso, bebeu fel,
para doar aos mortais
colmeias de puro mel!


Ao ver o filho Jesus
com injustos padeceres,
soluçou aos pés da Cruz
a mais santa das Mulheres!


Também soluço, contrito,
na busca do Teu perdão,
p'ra que um bálsamo bendito
me conforte o coração.


Vale-me, Jesus, depressa,
que na luta desanimo
e concede-me a promessa
de seres o meu arrimo.


Se cumprir a Tua Lei
sei que cuidarás de mim
e então, participarei
no Teu eterno festim...


Páscoa de 2004


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Cântico mariano


À memória do pe. Luís Alberto Gavina


Ó Senhora d'Alegria,
Te peço p'ra interceder
por mim à irmã d'Agonia,
para a paz me devolver!


Senhora, sob o Teu manto
gostaria de esconder
as horas de dor, de pranto
e as agruras do viver!


Quantas lágrimas vertidas,
por amor, aos pés da Cruz,
ao veres as despedidas
do amado filho Jesus!


Mais do que nunca preciso
da Tua bênção de Mãe:
asperge-ma, num sorriso,
pois só ternura contém!


Hoje e sempre me protege,
firme "torre de marfim",
e os incertos passos rege,
seguros, até ao Fim...


Não cesso de dar-Te graças,
doce Mãe, Senhora minha,
que pela vida perpassas
como maternal Rainha...


Maio de 2004


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Epitáfio


À memória de meus Pais


Verto lágrimas de pranto,
saudoso, queridos Pais,
pois na paz do Campo Santo,
para sempre repousais!


Sei que estais (por isso choro)
debaixo da pedra fria:
cheio de angústias, oro,
em ardente litania!


Sob o gemer dos ciprestes,
grande tristeza me invade
e o terno amor que me destes
vai avivando a saudade!


Muitas palmas de ternura
eu desejo colocar,
para esquecer a amargura,
que a ausência teima em lembrar!


esse frio labirinto
quero derramar a dor,
pois parece que lá sinto
a bênção do vosso amor...


Fevereiro de 2010


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Rubis


Ao Fernando Pinheiro


Os rubis do meu anel,
só por desleixo, caíram,
tal como os favos de mel,
que do peito me fugiram!


Com Deus, sempre muitas graças,
mas, sem Deus, graças nenhumas:
com elas, enchem-se as taças;
sem elas, são tudo espumas!


Os meus filhos são três lírios
de um canteiro sem igual:
nunca padeçam martírios
até à hora final!


O nome tão pequenino,
pronunciar sabe bem,
ao jovem, velho ou menino:
apenas três letras - MÃE!


Vem-me às vezes à lembrança,
quando trilhava caminhos,
com os pés nus, em criança,
a ver se encontrava ninhos...


Capela de S. Tomé,
no lugar onde nasci:
bem de longe, a minha fé,
muita vez me leva aí!


Tornou-se medonha a noite,
chuva, vento e trovejar:
não existe quem se afoite
a nela peregrinar!


Há muito que pretendia
achar esse rico fruto:
uma efusiva alegria
que tinha quando era puto!


Metia dó escutar,
nas noites de intenso frio,
tão arrepiante uivar
de um mísero cão vadio!


Em vez do lento batel,
que sulca as águas do mar,
prefiro um lesto corcel,
sem rédeas, a galopar!


Lágrimas de sentimento
por quem vai para o Além
são mais densas no momento
da morte do pai ou mãe!


Encostei-me ao paredão
que delimitava o mar
e metia-me impressão
as ondas nele a estalar!


Minh'aldeia é Lageosa,
que pertence a Sobreposta:
singela e sempre saudosa,
de que um filho tanto gosta!


"Quem tudo quer, tudo perde"
(diz um provérbio tão belo):
sempre procuro a cor verde
e me calha o amarelo!


As vindimas e pisadas
sempre gosto de lembrar,
assim como as desfolhadas
pelas noites de luar!


O riacho, alegre, corre,
pelo leito, a marulhar,
mesmo sabendo que morre,
no encontro com o mar!


Vila Verde é um concelho
com tradições de lembrar
e a paisagem é o espelho,
que tanto agrada mirar!


À terra que me foi berço
e trago no coração
dedico o mais puro verso
de filial afeição!


O coitado era maluco,
ou estava a delirar,
pois teimava que era eunuco,
querendo-se devorar!


A cada instante procuro
que a Vida só me dê gostos:
mas dá-me mais um monturo
de insucessos e desgostos!


Era um bonito cachorro,
atirado ao abandono,
latindo a pedir socorro,
para arranjar novo dono!


Aproxima-se o verão,
pois findou a primavera:
as aves de arribação,
sempre o calor, quem lhes dera!


Que indescritível espinho,
a dor daquela mulher,
por ver chorar o filhinho
sem saber o que ele quer!


Morre o pai, depois a mãe,
chora-se com sentimento:
os descendentes também
herdarão esse momento...


Se me sinto enfraquecido,
preciso tomar remédio,
mas fico persuadido
que o que me dói é o tédio!


Partem cedo, tarde voltam,
no tempo de trabalhar:
os filhos, as asas soltam,
noutras bandas vão morar!


Já não existe o loureiro
do meu tempo de menino,
onde um rouxinol fagueiro
trinava um invulgar hino!


Digo a verdade, não minto,
nem tão-pouco fantasio:
o que muitas vezes sinto
é um profundo vazio!


Muitas vezes me lambia,
um desconhecido cão,
para levar a fatia
do tão desejado pão!


Gostamos sempre dos filhos
e neles temos prazer,
mesmo perante os cadilhos
que possam aparecer!


Custa-me a arrastar a Vida,
não sei onde vou parar,
porque é íngreme a subida
que tenho p'ra desbravar!


São delicadas prendinhas
os beijinhos e abraços
das alegres criancinhas,
que as mães apertam nos braços!


Pai é um nome pequeno
(só três letras, como Mãe):
no coração, de amor pleno,
os seus filhos sempre tem!


Os sonhos imorredouros,
do tempo em que era inocente
muita vez são os tesouros,
que me confortam a mente...


Senhor, vencido, ajoelho,
com a firme convicção,
que és o cristalino espelho
de esperança e de perdão!


Eram ovações e brados,
da mãe, sob intenso brilho,
com os olhos marejados,
ao ver o gerado filho!


Apaguem-me o grande círio
que a Jornada me ilumina,
porque é feito do martírio,
que me coube como sina!


É noite, escutam-se os ralos;
vão nascer milhões de estrelas;
de manhã, cantam os galos
e o Sol pinta imensas telas!


Nunca cheguei a partir
para um almejado rumo,
pois após o refletir
achei amargoso o sumo!


Trepei ao alto carvalho
a ver o que tinha o ninho:
depois de tanto trabalho
dó tive do passarinho!


Há um moinho de vento
no cimo daquele outeiro:
dantes, dava rendimento
ao afanoso moleiro!


Quando me aperta o calor,
na fralda daquele monte
vou procurar o frescor
na tosca bica da fonte!


O mocho, agoirento, pia,
nas bouças da redondeza:
aonde existe alegria
desce um manto de tristeza!


Batem Trindades na torre,
a gente põe-se a rezar:
vem a noite, o dia morre,
o corpo quer repousar...


Partiu há muito o marido
e nunca mais disse nada:
foi motivo de um gemido,
de preto, a carta tarjada...


Lembro-me que era engraçada
a ladina moleirinha,
apesar de andar caiada
do fino pó da farinha!


Regressou à sua terra,
mas deitado num caixão,
selado co'a Cruz de Guerra,
como condecoração!


Em certa noite, num sonho,
de pérolas fui à pesca:
pregou-me um susto medonho
uma vaga gigantesca!


Escondi-me num porão
de um barco que ia largar,
buscando a libertação
que a Vida não me quer dar!


Sobre as lajes, junto ao cais,
quase ao findar o outono,
o pobre não sofre mais:
já dorme o último sono...


Em cada dia que passa
morrem tantas esperanças
e não se afasta a ameaça
de não existir mudanças...


Perdera a mãe. A madrasta,
dava, aos poucos, cabo dele,
porque o peso da vergasta,
sem dó, sentia na pele...


Ao olhar a trepadeira,
o jovem qu'ria partir
com a folha derradeira,
que teimava em não cair...


Não lhe importava morrer,
o tão fiel guardião,
porque ao longo do viver
cumpriu sua obrigação!


Queridos sítios que lembro
d'Aldeia onde ao mundo vim,
que, de janeiro a dezembro,
é acolhedor jardim!


Tão miserável, coitado,
e não tem onde se acoite:
repousa num leito armado
pelas mudanças da noite...


Não é tão grande o suporte
do meu gosto pela Vida:
qualquer dia chega a Morte,
pois comecei a descida!


É falha do ser humano
esquecer quem lhe fez bem,
mas recorda sempre o dano
que lhe provocou alguém!


Tudo quanto chega à Terra,
a Ela há de regressar:
eis a verdade que encerra
o nosso peregrinar...


Quando existe entendimento
é muito belo o Amor,
senão causa sofrimento
como os cardos de uma flor!


Ele dizia à mulher,
naquele passo da Vida:
"Quem me dera reaver
a confiança perdida"...


Já tudo teve e perdeu,
como também coube a Job:
repleto de amor viveu,
mas agora é ódio só...


Desço o caminho da Morte,
como o subi para a Vida.
Tudo tem a mesma sorte:
a chegada e a partida...


Muitos verdes, tantas flores,
anunciam nova era,
pois repleta de esplendores
regressou a primavera!


Fui parar ao mar profundo,
fortifiquei-me nos medos:
mesmo assim, do cruel Mundo,
me arremessaram torpedos!


Parti nas asas do vento,
não sei onde fui parar:
apenas resta o lamento
de lá não poder ficar...


Se têm queixas de mim,
não fiz nada por maldade:
não tenho instinto ruim,
'squeço com facilidade...


Já tive o mundo a meus pés,
mas deixei que se escapasse:
merecia que às galés
a Vida me condenasse...


Tinha um filho p'ra nascer
e de colo, outro, também:
jovem, veio a falecer,
com eles, a pobre mãe!


Não cessarei de dar graças,
enquanto durar a lida,
ingerindo finas taças
do puro licor da Vida...


Estou tão longe e tão perto
da Lageosa querida,
com o peito sempre aberto
por nostálgica ferida!


Sinto a falta, tanta vez,
do teu maternal cajado,
para afugentar a rês,
que me tem martirizado!


Velozmente, o tempo corre,
sem que o consiga deter:
passa tudo, tudo morre,
e então acaba o sofrer...


Tristes, badalam os sinos
no alto de alguma torre,
soltando fúnebres hinos
por mais um cristão que morre...


Sem desejar fico mudo,
na calma de um arvoredo:
quero despir-me de tudo,
contando horrível segredo!


Foi passando a multidão
a caminho do festim
e, por entre a confusão,
ninguém se lembrou de mim!


Habituei-me a contar,
muitas vezes, só comigo,
p'ra me poder desviar
da má sina e do perigo...


Acordado ou a sonhar,
ainda, com esta idade,
dou comigo a meditar
se existe felicidade!


Sou um pobre como Job,
sobretudo nos momentos
em que me sinto tão só,
visitado por tormentos!


Ergo as mãos em oração,
quando comungo alegrias,
já que chego à conclusão
que acontece raros dias...


Senti a Morte a rondar,
tanta vez, a minha porta:
como tem de me levar,
o momento pouco importa...


Se acho, às vezes, que é verdade,
outras, acho que é mentira:
é a Sorte que me invade,
ou a Ilusão que me inspira?!


Que virá a ser de mim,
no dia a dia da Vida,
até alcançar o fim
da jornada percorrida?!


um certo contrabandista
partia para a jornada,
confiado na conquista
do Tudo e trazia Nada...


É difícil desviar-me
dos venenosos espinhos,
que andaram a semear-me
na passagem dos caminhos.


Travo uma nova batalha,
p'ra chegar mais longe um pouco.
Suplico a Deus que me valha:
se não venço, fico louco...


A Vida é guerra constante
e traz muitos dissabores:
morram os beligerantes
e tudo serão primores!


A noite é tão longa, às vezes,
e não raia o novo dia:
é como quem passa meses
e não encontra alegria!


Não sei se decida e siga
um Destino desejado,
porque talvez não consiga
chegar só a nenhum lado...


É pena que nas famílias
os membros se entendam mal,
alimentando quezílias,
que são um fraco sinal.


Por que se zangam irmãos
por dá cá aquela palha,
não querendo dar as mãos
e reconhecer a gralha?!


Graças a Deus que alcancei
o cimo do meu Calvário
e nem sempre desfiei
os mistérios do Rosário.


Quanto pena o coração,
imerso no agro fel,
buscando a transformação
em favos de doce mel...


Já não posso escrever trovas,
que o texto não sai fiel,
pois imprimi tantas provas
e só estraguei papel...


Passou-se uma noite inteira,
já raia a nova manhã;
julgo tê-la à minha beira
mas é esperança vã...


Lembro, às vezes, satisfeito,
essa condoída mão,
que me consolava o peito,
qual farta esmola de pão...


Dou-me a refletir comigo,
inundado de ilusões,
pois não passo de um mendigo
em muitas ocasiões...


Quando se ganha afeição
a qualquer coisa na vida,
não há remediação
se se abrir uma ferida...


Se eu tivesse um cavalinho
para feliz diversão
só lhe daria carinho
como remuneração!


Gostava de adivinhar
a hora mais oportuna,
para no jogo acertar
e usufruir da fortuna.


Sempre e em qualquer momento
balsamizam as carícias:
oposição ao tormento
existente nas sevícias...


Houve lágrimas no cais,
imenso lenço a acenar,
gemidos, gritos e ais
por quem tinha que embarcar!


A Vida é grande deserto,
difícil de palmilhar:
é quase sempre o incerto
que temos para explorar.


Aquele ser está triste,
definha sem esperança,
pois solução não existe
para operar-se a mudança.


Todo se abre num sorriso,
com a presença da mãe:
é a paz do Paraíso
que lhe chega do Além!


Alguns felizes momentos
têm vindo visitar-me:
tenho medo que os tormentos
voltem a martirizar-me..


Em calma meditação,
a cada passo, revejo
a ímpar ocasião
do casto primeiro beijo!


Quero fazer a promessa
de a ninguém arreliar,
que o tempo passa depressa
a caminho do findar...


Considero-me feliz
quando revejo o total
do bem que ao próximo fiz
e não pratiquei o mal.


'Stá doente minha Mãe
(prognóstico reservado):
que depressa fique bem
e longo tempo a meu lado.


Não sei bem como explicar,
mas em tempo de bonança,
como em épocas de azar,
morreu-me muita esperança...


Desde a noite à madrugada,
em rodopiar intenso,
o gume de longa espada
sobre o pescoço suspenso!


Quando, Amor, desabrochavas
em ternuras para mim
não havia rosas bravas
a povoar-me o jardim!


Já conheci a saudade,
a dor, a desilusão;
já tive amor, amizade,
que hoje, não sei onde estão...


Não me canso de buscar
valiosos diamantes,
que pudessem amimar
o viver alguns instantes!


Tinha um cordão de rubis
que, aos poucos, fui esbanjando
e o tempo de ser feliz
perdeu-se já não sei quando...


Fevereiro de 2001/junho de 2004


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CANDELABRO

À memória de minha Mãe, que partiu a 2 de fevereiro de 2010


Gratidão


Mil vezes, obrigado, Mãe querida,
por me ensinares os primeiros passos,
para alcançar a cerca dos teus braços,
a mais segura e eficaz guarida...


Continuamente foste a preferida
e a santa protetora nos fracassos,
ao desfazer-me os incontáveis laços,
que me prendiam no rolar da vida...


Só hoje compreendo as atitudes,
por ti tomadas no momento certo,
tendo sempre presentes as virtudes,


a transbordar do coração aberto,
pois desejo lembrar-te em horas rudes
e sentir-te o espírito bem perto!


Partida


Há tempos que aguardavas a partida,
para deixar o mundo quezilento,
onde bem conheceste o sofrimento,
a pobreza, o cansaço, o choro, a lida...


Andaste sempre de cabeça erguida,
dizendo não ao mal, ao fingimento
e procuraste o mais frugal momento
para seres a Deus agradecida...


Acredito que estás no Paraíso,
pois investiste para O alcançar,
pondo nas horas negras um sorriso!


Também espero, nesse Reino, um dia,
contigo, finalmente, me encontrar
e viver infindável alegria!


Morte


O vulto, descarnado, com a lança,
do gume, fresco sangue a borbotar,
apontou, desta vez para acertar,
implacável, repleto de pujança,


ceifando a ténue, dolorosa esp'rança,
ainda no ardente peito a arfar...
Então, a alma, sôfrega, a adejar,
partiu, ligeira, como pomba mansa...


Tive a noção de não mais ser possível
usufruir daquele cru ensejo:
pus a maior ternura no desejo,


mas me aguardava uma impressão terrível,
pois foi na face gélida, insensível,
que coloquei o derradeiro beijo!

Na hora do adeus


Quando, Mãe, nessa tarde, dois de fevereiro,
chegaste à casa mortuária, num caixão,
depositei, com ardor e franca devoção,
na face regelada, o beijo derradeiro...


No cemitério, antes da faina do coveiro,
quis repetir e ao tatear-te com a mão,
senti dor agudíssima no coração
e o pranto transformou-se em amargo chuveiro...


Nesse momento, pareceu-me ter tocado
no mais compacto e frio pedaço de gelo,
que o existir, alguma vez, fosse possível...


Tão doloroso instante me ficou gravado,
mas faço a Deus, humilde, um incessante apelo:
que nunca mais me calhe evento assim terrível...


Sempre presente


O teu lugar era insubstituível
no mais íntimo e nobre do meu peito,
onde existiu e haverá o preito
ao generoso afeto, bem sensível...


O vazio que sinto é impossível,
por mais que queira decifrar o jeito
que possa transformar-me no efeito
de, por fim, libertar-me do terrível...


Hás de permanecer sempre tão viva,
no percurso dos dias que tiver,
pois foste a pura e mais gentil Mulher,


que soube conservar plena e ativa
a chama que me coube da ternura,
dada ao nascer e que 'inda em mim perdura...

Canto final


Ó Mãe querida que me deste, um dia, o ser
e me criaste com desvelos e carinhos,
desbravando-me os ímpios e cruéis caminhos,
que pela vida deveria percorrer.


Acho que não retribuí tanto querer,
nem os afagos nos momentos mais daninhos,
para longe arredando os pérfidos espinhos,
que desde pequenino não deixei de ter...


Sempre tive presentes os conselhos sábios,
que brotavam da alvura dos sensíveis lábios
e da ternura de tão magno coração.


Com essa viva fé que ainda me sustém,
aqui expresso, muito humilde, a oração:
"Descansa, eternamente, em paz. Amém!, amém!..."


Fevereiro-março de 2010


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ROSÁRIO


Ao Jorge Emanuel Pedrosa
Ao Manuel José Miranda
Ao Abel O. Correia

Inútil


Esmorecido, triste e infeliz me pus
a examinar os maus momentos já passados,
que de cruéis espinhos foram povoados,
depois de há longos anos ter perdido a luz!


Então, aos ombros carreguei aquela Cruz,
que não julgava ser de troncos tão pesados,
nem de grandes martírios diversificados,
que unicamente os conseguiu sofrer Jesus...


Por mais voltas que desse não achei a forma
de, alguma vez, poder modificar a norma
da Sorte que me foi, ao nascer, cometida:


Também me deram para as mãos um lampadário
(mas só de escuridão), o meu cruel Fadário
e estrela-guia na constelação da Vida!


29 de janeiro de 2002


Amargor


São amargas as contas do rosário
que desfio no curso do viver:
vacilo, sob o peso do sofrer,
embora não me espere outro Fadário!


É tortuoso e longo o meu Calvário
e o cimo creio que não vou vencer,
porque a força e vontade de querer
se têm transformado em adversário...


Desanimo, lutando p'ra alcançar
a meta desde há muito definida:
mas sem um braço amigo a me amparar


e calma p'ra que possa discernir,
não passarei do meio da subida,
com corpo e ânimo a genufletir...


30 de janeiro de 2002


Escolhos


Se agora me levanto, caio além:
tanta vez vergo ao peso da desgraça,
bebendo até ao fim o fel da taça
que, a cada instante, vai enchendo alguém!


Uma agonia enorme que me vem
do íntimo do ser e me perpassa
e que deixa vincada uma ameaça
de que acabar não pode tudo em bem...


Escoa-se-me a Vida, gota a gota,
na íngreme subida do Calvário,
a desfiar as contas do rosário,


que recomeço e findo cada dia:
dezena após dezena, sigo a rota
da pouquíssima Fé, que 'inda me guia!


30 de janeiro de 2002


Canto íntimo


Escrevo num dos trágicos momentos
em que bem desejava não viver,
ou ter a sorte de desapar'cer
nas asas de irrecuperáveis ventos!


Desgostos caem sobre mim aos centos
e eu tenho tido a força p'ra esconder
as lágrimas e dores do sofrer,
assim como os macabros pensamentos...


Ais e gemidos brotam-me do peito,
no meio da revolta e da aflição,
porque, aos poucos, começo a ver desfeito


o meu sonho de vida, esse quinhão,
que só a mim pertence por direito,
pois fui amealhando grão a grão!


31 de janeiro de 2002


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Anseio longínquo


Por toda a parte procurei carinhos,
que me pudessem retirar da mente
o duro sofrimento do Presente,
constituído por cruéis espinhos,


que me infestaram todos os caminhos,
onde eu tinha uma rota permanente...
Tornei-me, assim, num fraco e impotente,
incapaz de zelar meus pergaminhos...


Mas nunca desisti de procurá-los,
com a esperança de poder achá-los
nas variadas incursões que fiz:


Contudo, sempre alguém mos tem negado
e eu sinto cada vez mais afastado
o sonho de voltar a ser feliz!


31 de janeiro de 2002


Cinco lustres


Uma vez mais, Amor, se eleva um hino,
ao celebrarmos a bonita data,
que há cinco lustres se exarou em ata
e ao meu acrescentou o teu Destino...


Se houve o brilho de um sol diamantino,
com felizes momentos de ouro e prata,
também imensa vez a hora ingrata
tentou levar-nos a perder o tino...


Bem sei que és tu a que mais tem sofrido
n'alma e corpo no trilho percorrido...
Peço p'rò nosso lar um são convívio


e chegue, meigo, ao fim, esse Calvário,
começado a subir no Santuário,
em que se honra a Senhora do Alívio!


3 de outubro de 2001


Sinceridade


Cruzámo-nos, um dia, meu Amor,
na grande encruzilhada que é a Vida
e logo decidimos que a subida
do agradável momento e do pior


seria sempre fruto do suor
de mútua, persistente e franca lida,
na busca dessa meta já varrida
de cruéis cardos, mal-estar e dor...


Muitas vezes, porém, não foi assim,
pois nos desabrocharam no jardim
inumeráveis pomos de discórdia:


Se o Presente puder ser bem vivido
e o Passado malévolo esquecido,
faremos um Futuro de concórdia!


Março de 2002


Raios de Esperança


Parece que, de novo, o Sol desponta,
embora ainda com medrosa chama,
e, aos poucochinhos, sobre nós derrama
resquícios de prazer, que são de monta!


Ao que ficou p'ra trás não se faz conta,
pois o Presente amigo, nos reclama
que transportemos, só do bom, a gama,
que para um límpido Futuro aponta...


Tremeluzem instantes de bonança,
porque me sabe bem sentir-te assim,
com brilho de alguns raios de esperança:


Se for possível dissolver o fel,
será a nossa Vida até ao fim
colmeia donde escorre o loiro mel!


Abril de 2002


Meninice


Alegre, divertia-se a ninhada
dos netinhos, em roda viva, terna,
numa camaradagem sã, fraterna,
debaixo da frescura da latada,


por roxos cachos de uvas decorada,
no quinteiro da minha Avó materna:
Ai que recordação querida, eterna,
que me transporta à época encantada!


Sob atento e constante meigo olhar
e de infinita bênção salutar,
dos dias não se desejava o fim...


Nas rotas que p'la Vida palmilhei,
por mais que procurasse não achei
gratas lembranças de um valor assim!


Março de 2002


Calmante


Vagueia-me o espírito, saudoso,
pela casa que foi da minha Avó,
onde mais uns vinte anos viveu só,
carente do convívio do esposo,


que o Destino, tão cedo e impiedoso,
amortalhado, transportou, sem dó,
ao local em que tudo fica em pó,
mas a aguardar um ressurgir gozoso...


Regressei aos bons tempos de criança,
repletos do folguedo que não cansa
e se aloja, feliz, no coração.


Nas horas negras e lesões da Vida,
um grande bálsamo para a ferida
é esta salutar recordação!


Abril de 2002


Miradouro


Aquele rapazinho, extasiado,
passava horas a fio a contemplar
um bando de gaivotas a voar,
na janela do quarto debruçado...


Por um brilhante sol aureolado,
na areia ardente e húmida a poisar;
e depois, levantando-se, no mar,
sem pressa, se perdia já cansado...


Repetia-se a cena em cada dia,
o coração lhe enchendo de alegria:
jamais se fatigara um só momento


a remirar a formidável tela,
embevecido e sempre muito atento,
no calmo miradouro da janela...


Fevereiro de 2001


Indiscriminação


Vivia, desfiando o seu rosário,
um sábio monge, algures, num mosteiro,
que era samaritano verdadeiro.
Tivera sempre como corolário


que não faltasse a alguém o necessário
e não visse na Vida um cativeiro.
Nunca demonstrou ser interesseiro
nem preferência p'lo destinatário...


Amealhou no decorrer dos anos
recursos de invulgar significado,
cujo valor não é quantificado,


ao ter em conta os cálculos humanos:
sentia-se feliz pela fortuna
dada na ocasião mais oportuna...


Dezembro de 2001


Coincidência


No longo abraço que os irmãos trocaram
só tiveram em conta os muitos anos,
repletos de saudades e dos danos,
que após o nascimento os separaram.


Nas longínquas paragens que habitaram
coube-lhes uma vida de ciganos,
em inóspitos sítios, desumanos,
onde o pão bem amargo fabricaram...


Percorreram inúmeros caminhos,
um do outro ignorando a existência,
porque foram doados pelos pais...


Mas, depois desta cena de carinhos
e da bela e feliz coincidência,
não queriam deixar-se nunca mais!


Março de 2002


Enleio e prece


Ó Senhor!, que me deste três rebentos,
dessa flor que levei ao santo altar,
que um vazio vieram ocupar,
de inolvidáveis frémitos sedentos!


Tornaste indescritíveis tais momentos,
repletos de ternura e bem-estar,
que na sensível alma vão ficar
como os mais gratos acontecimentos...


Ó Senhor!, por me teres cumulado
dos preciosos bens e tão queridos,
Te rogo, num muitíssimo obrigado,


que sempre gozem um feliz Fadário
de incontáveis mistérios, imbuídos
das mais suaves contas de um rosário...


Maio de 2002


Caminhada


Muita vez tenho sido signatário
dos sofrimentos que me traz a Vida,
ao fazer o percurso da subida,
que me conduz ao cimo do Calvário.


Jamais me programaram um horário,
para na ordem pôr a minha lida,
co'a necessária cura da ferida,
que tem sido os mistérios do Rosário...


Senhor!, que doravante, ao desfiá-los,
a pouco e pouco, possa transformá-los
em justos e balsâmicos carinhos


e sejam o remédio para os talos,
provenientes dos cruéis espinhos,
que p'la Vida infestaram meus caminhos!


Maio de 2002


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