Palco de Memórias


ÍNDICE

 

Naufrágio

A Encomenda

A Nogueira

Inesperado

Feliz Desfecho

Adeus Eterno

Teimosia

O Heroísmo de uma Mulher

Uma Lenda

Tristes Lembranças

Narrativa Amorosa

O Penedo da Costureira

Regresso Definitivo

Pobre da Chapa

Regresso à Bonança

Uma Façanha Heróica

A Galinha Teimosa

Os ninhos da minha infância

Rute e o Mansinho

Podia ser Pior!

O Barrasco

A Velhina e Satanás

O Sr. Anselmo

Ajuste de Contas

Garras do Destino

Fraternidade e Amor

Frutificação Tardia

Aleivosias

Entre o Parecer e o Ser

Justo Proceder

Implacável

Um Ato reprovável

Dramas que o Destino tece

 

 


Ao Iniciar

 

 

"Procure ser uma pessoa de valor, em vez de procurar ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é só uma consequência...", escreve Albert Einstein.

Ao trazer à tona as suas memórias, José Fernandes da Silva não procura sucesso. Como homem de valor e valores que é, o sucesso virá ao seu encontro, necessariamente, sem nunca o haver procurado. Poeta e músico já de sobrantes sucessos, e depois do sucesso da sua primeira obra em prosa, "Receptáculo - Um punhado de narrativas" que também me coube prefaciar, traz agora a lume, e também em prosa, este seu "Palco de memórias".

Escreveu Ortega y Gasset que "Um homem nunca é um homem; um homem é um homem e as suas circunstâncias". Ora, como podemos falar das circunstâncias de uma pessoa se não incluirmos nelas as suas memórias? Elas são o seu Bilhete de Identidade que não diz apenas quando e onde nasceu, mas também, e largamente, como foram os tempos, alargados ou curtos, que viveu, desde o nascimento até à atualidade.

Podem as experiências narradas ser do próprio, como, neste caso, o conto "Os ninhos da minha infância" onde o autor desfia peripécias acontecidas antes e depois da tragédia que lhe roubou a luz dos olhos; ou experiências vividas por outrem e de que ele foi apenas ouvinte, como a lenda "O Penedo da Costureira"; algumas carregadas de amargura e tristeza e até dramatismo, como "Naufrágio", "Inesperado" e "O heroísmo de uma mulher"; bucólicas, como "Rute e o Mansinho"; amorosas e apaixonadas, como "Narrativa amorosa"; repletas de ternura, como "A nogueira"; retratando cenas da vida do campo, tão caras e familiares ao autor, como em "Teimosia" e "Um ato reprovável"; com o seu quê de lúdico, como em "A encomenda"; com remates inesperados que vão surpreender o leitor, como em "Ajuste de contas" e "Entre o parecer e o ser"; histórias ligadas à vida de dois dos seus grandes amigos, os padres Dr. António Rodrigues, meu amigo também, e o padre João Oliveira, numa assumida e, estou certa, mais que justa homenagem. Estas e outras, todas as outras. São as suas memórias, já que são pertença do seu passado. E são também, portanto, algumas das "circunstâncias" que o levaram a ser homem, o homem que ele hoje é.

Fechado o livro, resta ao leitor, mesmo que não seja muito propenso à reflexão, pensar no que leu nesta prosa escorreita, clara e limpa de preconceitos, mas limpa também de vocábulos incómodos que poderiam, a existir, ferir sensibilidades: leu a vida a passar, ora lenta, ora mais acelerada, ora risonha como dias primaveris, ora triste, negra, brumosa, como o tempo do mais feio inverno. Mas sempre vida, pois de tudo ela é feita.

Pode o leitor, também, tentar irromper pela mente de quem escreve e interrogar-se: Quem é este homem? Este autor de que nunca ouvi falar? Pois "veja-o", ele está plasmado nas páginas do seu livro: uma alma simples e bondosa, um homem generoso e leal, amigo do seu amigo, da sua família, dedicado à sua atividade de professor e a que vem juntar-se uma boa dose de ingénua puerilidade e profunda crença em Deus Pai Todo-Poderoso.


Braga, 07 de outubro de 2011


Maria do Céu Nogueira


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Naufrágio

Ao Dr. Secundino de Freitas

Decorria o último lustre do século dezanove, quando D'a Guiomar decidiu vender os seus avultados teres e haveres, para ir juntar-se à única irmã que residia em Buenos Aires, viúva e afortunada, também senhora de metade da herança deixada pelos pais.

D'a Mariana era uma bonita rapariga e tinha sido pedida em casamento por um rico comerciante argentino, já quarentão, numa tarde de domingo, quando, integrados num grupo numeroso, desciam os escadórios e visitavam os calvários do Bom Jesus do Monte, em Braga. Corria o ano de 1860.

Tinha casado aos dezassete anos e partido para a América Central onde criou os filhos, dois robustos rapazes, e viu finar-se o esposo amado no dia em que festejavam as bodas de prata de casados.

Emigrada, nunca mais pisou o solo português e viveu, com toda a alma e ternura, para o marido e para os filhos.

D'a Guiomar, oito anos mais velha que D'a Mariana, bem lhe pedia que regressasse, porque possuíam o bastante para levarem uma vida faustosa, mas esta, mesmo viúva e com enormes saudades da irmã, não abdicou do amor aos filhos e à segunda pátria.

Quase trintona, D'a Guiomar também tinha casado, quatro anos após a irmã, com um abastado proprietário vizinho.

Teve uma filha, que não sobreviveu a febres altíssimas e foi a enterrar com três anos de idade.

E o marido, que já estava acamado há uns meses, minado por funda e implacável tuberculose, foi juntar-se à filha, três meses depois, no jazigo de família...

D'a Guiomar, vestindo sempre de luto, viveu na solidão cerca de trinta anos, cedendo, finalmente, aos rogos da emigrante: vendeu todos os bens, atestou uns vinte grandes baús com um fabuloso bragal, inúmeros objetos de estimação, louças, pratas e muito ouro...

Marcou a passagem num navio que estabelecia a ligação entre o Porto e o Rio de Janeiro e embarcou no mês de novembro, para ir consoar com a irmã e com os sobrinhos.

Os primeiros dias de viagem foram decorrendo com bom tempo e mar muito calmo.

Próximo das ilhas de Cabo Verde, começou a nublar-se o céu e a nortada a silvar, agoireira. A noite descia com um denso nevoeiro, que nada deixava enxergar...

Quando despontou a manhã do dia seguinte, acapelado, o mar rugia como um louco e amedrontava. Adensaram-se mais e mais as nuvens e, rapidamente, o sol encobriu-se, dando lugar a espessa escuridão, semelhando uma noite tenebrosa de inverno.

Colheram-se as velas, porque o oceano urrava medonhamente. O piloto não conseguia controlar a embarcação e, esperançado, procurava alcançar terra, antevendo, exausto, outra noite a chegar.

Relampejava intensamente e os trovões eram assustadores.

De repente, naquele balanço furioso e desordenado, escutou-se um estrondo seco e brutal no casco do navio, que, tendo embatido de encontro a um rochedo, encalhou.

Ouviam-se as súplicas aflitivas e os gritos lancinantes da tripulação e dos passageiros.

Mais e mais os relâmpagos azulavam os abismos e os trovões pareciam potentes canhões a digladiarem-se!

Subitamente, a galera, depois daquele choque violento, estacou, ofegante, com as vagas, raivosas, a tentar remover o obstáculo incómodo...

Por fim, com ímpeto, uma força misteriosa inundou todos os compartimentos da embarcação e, num ápice, precipitou-a, a pique, para a profundeza das águas revoltas...

D'a Guiomar, com os cabelos eriçados, aos soluços, tremente e atónita, ocupava um escaler, que a transportava para terra. E, de mãos erguidas, em prece fervorosa, viu desaparecer o derradeiro sinal do navio, que lhe levava, a sepultar, uns vinte grandes baús, atestados de tesouros de riqueza, de saudades e de memórias!...



Novembro de 2005


A Encomenda

Ao Fernando Pinheiro

O Alexandrinho era um abastado lavrador e muito sovina! Não dava esmolas aos pobres que estendiam a mão à caridade, pensando sempre em aferrolhar dinheiro e até, era voz corrente, que às vezes se comia mal em sua casa...

Por isso, quem o conhecia, em jeito de troça, dizia que ele dava uma fraca morcela em troca de um bom presunto!

Ao mesmo tempo, era fanfarrão e convencido, gabando-se de que ninguém lhe entrava em casa, porque estava bem armado, com a caçadeira sempre carregada e à mão de disparar, bem como uma boa pistola, que dormia com ele, debaixo do travesseiro!

Frequentemente, na aldeia e arredores, praticavam-se roubos e morava perto da sua enorme casa de lavoura um refinado larápio, o Manuel, de alcunha "Mão Ladina", pois tinha agilidade para aliviar o seu semelhante de uma carteira, de umas moedas, ou de objetos de estimação e valor, e claro está, não fazia outra coisa senão mexer no que lhe não pertencia!

Assaltava as casas, quer de noite, quer de dia, ou ainda aparecia nos caminhos, saído de locais inesperados, chegando mesmo a atuar em sítios públicos.

Mas era um larápio sociável. Onde se encontrasse com alguém conhecido, delicado e sorridente, confraternizava.

Como sucedera tantas vezes, certo fim de tarde, numa taverna concorrida, famosa por servir bons petiscos e pinguinha de consolar, encontraram-se os dois, de tigela na mão, a molhar a palavra, e também, uma vez mais, o lavrador, como em provocação, a dizer-lhe:

"Em minha casa ninguém entra sem que eu autorize, senão pode trabalhar uma tranca, ou mesmo um gatilho! Além disso, tenho portas bem seguras e bravos cães de guarda..."

"Acredito, acredito, Alexandrinho... De qualquer modo, tenha cuidado, porque o diabo é tendeiro... E como diz o outro '"cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém...'" Numa hora menos feliz e de distração tudo pode acontecer..." "Ah, ah, ah!, m as eu previno-me e sei que posso dormir descansado: seguramente que a minha casa é como uma fortaleza!" - e escorropichava a malga, que pousava no balcão, com força, e esfregava as mãos, forjando um largo sorriso escarninho.

"Assim será, assim será, mas cuide-se: olhe que o diabo tece-as..."

Na manhã seguinte, estava o sol a levantar-se, quando o Alexandrinho ouviu bater a aldraba do grosso portal de castanho e foi espreitar pela janela, voltada para um largo terreiro, asseado com várias moradias.

Ficou assarapantado, porque deu com os olhos no "Mão Ladina", observando que apresentava um ar de boa disposição.

"Madrugaste, homem! Há novidade?"

"Não, não, venho só entregar-lhe uma encomenda, Alexandrinho!" - respondeu prontamente e a sorrir, o visitante. E prosseguiu: "Faz favor chega aqui, só por um instantinho?!"

"Lá vou, lá vou..." - replicou, intrigado. E saiu a remoer: "Que demónio de encomenda vem ele trazer-me? E tão cedo e tão sorridente..."

Desceu as escaleiras de pedra, atravessou o espaçoso quinteiro, abriu o portal e encontrou-se frente a frente com o madrugador.

"Então que é da encomenda, Manuel?"

"Está aqui..." - meteu a mão ao bolso interior do casaco e apresentou-lhe uma pistola que o proprietário, incrédulo, atarantado e com leves tremuras, logo reconheceu ser a sua. - "Tome-a lá e seja mais cauteloso, para que lha não voltem a ir buscar debaixo do travesseiro, enquanto dorme..."

O lavrador, recobrado da surpresa e com palavras mansas, galhofou:

"Ó espertalhão de uma figa, por onde entraste?"

"Pelo telhado, que era o sítio mais seguro e prático, a meio da madrugada..."

"Bem, bem, Manuel, agradecido, muito agradecido. Que isto fique só entre nós... Ninguém precisa de saber da tua habilidade... Agradecido, muito agradecido... E, a partir de agora, tens a minha casa às ordens e não precisas de subir ao telhado para entrar...!"


Setembro de 2005


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A Nogueira

No bem cuidado quintal do venerando ancião é que se encontra uma raríssima nogueira, atendendo ao excecional diâmetro e altura do tronco e ao comprimento dos grossos e verdejantes canos, que bem podiam formar, individualmente, boas e robustas descendentes.

Trata-se, com efeito, de um exemplar colossal, alvo de muitas e curiosas visitas, fazendo pasmar os olhos que o contemplam! E, quanto a frutos, então, apesar da velhice, parece que cada ano produz mais e de melhor qualidade...

Quem se sente lisonjeado e enternecido é o dono, que se não cansa de narrar a sua tão simples e comovente origem:

"Tinha os meus sete anos quando, numa certa tarde de novembro, ao regressar da escola, pela mão de meu pai, no valado de uma propriedade, rodeada por um denso ervaçal, enxerguei uma minúscula planta, não mais que uma vergastinha.

Com jeito, arranquei-a e disse ao pai que a ia plantar no nosso quintal. Ele sorriu, carinhosamente, e não fez comentários.

Chegados a casa, sem perder tempo, peguei num sachinho (uma estimada relíquia, que, amorosamente, ainda conservo, prenda da minha bisavó paterna, cerca dos meus quatro anos, e que, morrendo já tão velhinha, nunca deixou de foçar na terra, como costumava dizer, cheio de ternura e banhado por largo sorriso, o meu avô) e, com todo o cuidado e enorme fé, executei os passos que seguiam os meus ascendentes.

Depois, todos os dias ia visitá-la, não me esquecendo de a regar sempre que achasse necessário.

A meio da primavera imediata nasceu uma folhinha e o meu pai disse-me, meigamente, admirado e feliz:

'"É uma nogueira, Manuel!'"

Este regalo da Natureza tem sido e é a menina dos meus olhos! Não me fatigo nunca de a mirar e, ao vê-la assim tamanha, penso no dia em que a encontrei, tão enfezada e sem nome, recordo o esmero do meu plantio bem como todas as fases do seu crescimento...

E já lá vão quase setenta anos, que os completa no próximo mês!..."


Outubro de 2004


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Inesperado

O Vítor cumpria o seu primeiro ano de docência, depois de ter concluído o curso de Românicas bem como o estágio pedagógico numa escola de Amarante.

Quando foi colocado no estabelecimento onde eu já lecionava há uns anos, travámos uma cordial amizade, que ainda perdura, franca e desinteressada, apesar de estarmos cada um no seu canto, atendendo a que ele foi parar ao Alentejo, à espera de regressar para perto da família.

Naquele fim de tarde de quinta-feira muito chuvosa e fustigada por forte ventania, não passava pela cabeça do meu amigo o atribulado e insólito cenário com que iria confrontar-se.

Natural do Alto Douro e de boa família, era um rapaz simples e simpático e, embora um pouco medroso, com facilidade criava bons amigos.

Sabendo que eu rabiscava umas coisitas confidenciou-me que também compunha versos e que possuía muitos poemas, essencialmente de amor e dedicados à Sandra, jovem que muito amava e que frequentava o derradeiro ano de Farmácia, com o intuito de tomar conta do lugar de técnica da empresa do ramo que os pais possuíam no Peso da Régua.

Prometera que traria esses versos, quais tesouros de ternura, para trocarmos impressões.

Nessa mesma quinta-feira partiu para o seu torrão natal, a fim de passar três dias no seio familiar e uns belos momentos idílicos com a namorada.

Tudo foi sumamente agradável, como suculento aperitivo para a semana de trabalho que se avizinhava.

Havia já uns vinte dias em que a meteorologia, impiedosa, agoirava trovoadas, bátegas intensas, ventos ciclónicos e os leitos dos rios a galgarem montes e vales.

Ele, porém, fez as custosas despedidas e já anoitecia quando se meteu no automóvel e partiu rumo ao Minho.

Cautelosamente, percorreu meia dúzia de léguas de estrada sinuosa. De súbito, perdeu o controlo do veículo. Consciente do perigo que corria, sem perder tempo, abriu a porta e, a muito custo, logrou alcançar terreno firme e salvar-se milagrosamente.

O veículo, todavia, com o motor a trabalhar e com os máximos ligados, viu-o ele a ser arrastado pela medonha intempérie, aos trambolhões, pela íngreme ravina, precipitando-se na corrente vertiginosa do Douro, que lhe abriu a sepultura na profundeza das águas implacáveis, levando consigo os versos que, ternamente, trazia para submeter à minha apreciação...


Dezembro de 2004


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Feliz Desfecho

Para a Sandra e para a Bruna

A Marília teria uns sete anos, quando, naquela risonha manhã de Maio, banhada por um sol quente e esplendoroso, deixou a sua humilde casinha e, como habitualmente, a transbordar de alegria, partiu rumo à escola.

A passarada gorjeava, descuidadamente, por entre as ramagens muito verdes e o colorido de incontáveis andores floridos, erguidos aos céus e asseados por toda a casta de pétalas sedosas e perfumadas.

Não era longe o estabelecimento de ensino e, como não tinha quem a fosse levar nem buscar, porque o pai era jornaleiro e trabalhava de sol a sol e a mãe fazia limpezas em diversas casas, a pequena, terminadas as aulas, regressava ao lar, onde, como sucede a milhões de crianças, espalhadas por todo o mundo, passava a maior parte do tempo sem companhia. Naquele dia, contudo, não voltou.

Regressados a casa, mãe e pai admiraram-se da anormal demora da filha.

Já principiava a cair a noite e ninguém dava notícias que conduzissem à sua localização. Apenas os colegas confirmavam que ela estivera nas aulas e passara todos os intervalos pensativa e sem brincar, lá tendo ficado quando se encerrou o portão da escola, junto de um pequeno circo, que no largo frontal ao edifício se tinha montado, exibindo três sessões espetaculares e que naquela tarde partira em busca de outras paragens e de outros espetadores.

Adultos, jovens e crianças irmanaram-se numa busca minuciosa, que resultou infrutífera.

Alertaram-se as autoridades que, nessa mesma noite, deram início a uma rigorosa investigação.

Entrou em ação a Polícia Judiciária, que ajudou na busca e procedeu a interrogatórios, mas não se vislumbrava o encontro da ponta do fio da meada.

Toda a comunicação social se empenhou em noticiar o funesto desaparecimento, exibindo a fotografia da menina nos jornais e até na televisão.

Dois dias depois, próximo do meio-dia, uma rádio, com enorme e justa audiência, interrompia a emissão e o locutor, nervoso, comovido, sensível e satisfeito, anunciava:

"Foi encontrada a menina de sete anos que há dois dias, misteriosamente, não regressou a casa no final das aulas, como sempre costumava fazer.

Num telefonema para a nossa Redação, um empresário de gado bovino e caprino, informou que um seu idoso pastor, ontem, a encontrou num monte, muito cansada, triste e a dormitar.

Pegou nela ao colo e recolheu-a na sua cabana, trazendo-a, hoje, para casa do patrão que, sabedor do episódio, logo procurou contactar-nos.

Para que não restem dúvidas e para satisfação dos familiares e de numerosos estimados ouvintes, encerramos este flache especial e em cima do acontecimento, com as declarações da Marília".

E, entre alegre choraminguice, ouviu-se a vozita da catraia:

"Gostei tanto das pessoas e dos animais do circo que resolvi acompanhá-los, escondendo-me numa das caravanas, sem que alguém me descobrisse. À noite, a companhia parou num local para comer. Como pude, saltei para a rua e comecei a andar, a andar, sem saber onde estava nem para onde ia. Com muito luar a mostrar-me carreiros e montes, até me cansar, fui sempre caminhando. Adormeci e, a meio da manhã, o Sr. José encontrou-me, levou-me para a sua cabana, deu-me de comer e de beber e pediu-me que não chorasse mais, porque me prometia que hoje já voltaria para casa dos meus pais, que era o que eu mais queria..."


Setembro de 2004


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Adeus Eterno

Tânia era uma jovem rapariga que vivia triste e sozinha, sem o calor de um afeto.

O pai, um pescador arrojado, num naufrágio, em certa noite tormentosa, ficou sepultado no fundo do Atlântico.

A mãe não resistiu à paixão e, volvido um ano, foi a enterrar, deixando-a com umas tenras quatro primaveras.

Morava pertinho do mar e habituou-se a respeitá-lo e a ter-lhe amor...

E dele, num inesquecível dia, também lhe chegou a felicidade, trazida por Marco, aquele gentil moço embarcadiço, realizando o seu belo sonho!

Amaram-se com ternura, casaram e desejaram um filho, que se não gerou...

Marco, inúmeras vezes e disfarçando, sentia desejos de voltar ao mar traiçoeiro e sedutor...

Tânia, quando ele, de leve, abordava tal propósito, entristecia-se e, com imensa doçura, rogava-lhe que não partisse.

Também, meigamente, ele foi adiando e prometendo que ficaria. Mas o mar não cessava de chamá-lo!

Na casita onde viviam, ouvia-o, com nitidez, lá ao fundo, quer na procela, quer na bonança...

Era um feitiço de que não conseguia libertar-se...

E uma certa manhã, sem nada dizer, para não magoar a sensível e amada companheira, embarcou...

Ela, porém, desconfiou e foi ao cais, para lhe dizer adeus...

Acenou-lhe com um lenço branco, que também servia para limpar as copiosas lágrimas que lhe lavavam o rosto dolorido...

E ele, mirando-a, cada vez mais afastada, correspondia aos acenos...

O barco foi desaparecendo, vagaroso, sulcando a alva e leve espuma e as ondas inofensivas e silenciosas...

Nos vinte anos seguintes, tantas e tantas vezes, ela tornou ao cais, recordando e vivendo a cena amarga da partida, na expectativa de que Marco regressasse, vendo morrer, lentamente, a esperança, porque ele não mais voltou...

Vezes sem conta, inconsolável e amargurada, culpando o Destino cruel, meditava e fazia conjeturas:

O que teria acontecido ao seu bem amado, santo Deus?!

Morreria como o pai dela, ainda tão novo, tragado pela imensidão e profundeza das águas?! Teria deixado de lhe querer e uma outra mulher, num qualquer porto onde desembarcasse, lho disputara?

Continuou, apesar de tudo, a esperá-lo, indo ao cais, de manhã, pela tarde e até pela noitinha, envolta por subtil manto de saudade...

Marco fora o único e grande amor da sua vida!

Por isso, quando a dor era mais atroz, até ao derradeiro suspiro, parecia-lhe que ainda ouvia a voz dele, a confortá-la, plena de suavidade, repetindo doces e maravilhosas palavras de amor...


Dezembro de 2004


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Teimosia

Para a Tita

Aquele rapaz de catorze anos em nada respeitava as advertências e conselhos dos pais ou de quem quer que fossem: fazia sempre o que lhe apetecia e dava mesmo a impressão de que sentia prazer em contrariar quer os progenitores, quer as demais pessoas que o admoestavam.

Na escola era um mau aluno, com fraco aproveitamento e comportamento e já por quatro vezes retido no percurso escolar.

Gostava de encontrar-se em situações complicadas e de levá-las até às últimas consequências, tendo, na maior parte dos casos, resultados catastróficos. Apesar disso, nunca se lhe vislumbrou um propósito firme de emenda: desconhecia o arrependimento.

Já tinha caído a um poço, porque se pendurou na corda do sarilho e este se destravou, precipitando-o no fundo; por duas ou três vezes rachou a cabeça, ao dar umas furas num tanque e bater no lastro; de skate e de bicicleta não havia conta das vezes que se estendeu ao comprido, rasgando roupas e pele; um certo dia, pendurou-se na traseira de um camião e, quando este já rolava a grande velocidade, desamarrou-se e foi parar ao hospital, com o corpo num frangalho; outra ocasião, subiu a uma velha cerejeira e consolou-se com tanto fruto que comeu. Barriga cheia, pôs-se a balouçar num dos grossos canos e muito comprido, que partiu e deslizou por um penedo abaixo, trazendo-o nele empoleirado; no tempo dos ninhos trepou a um carvalho para ver o que havia num buraco do tronco, para onde viu entrar e sair, diversas vezes, um pica-pau. Meteu a mão e, de súbito, de dentro, ouviu bufar com fúria. Assustou-se, porque julgou tratar-se de uma cobra e quando deu por si estava estatelado no chão, com um pé desmanchado; em certa altura, estando de cama, com gripe e febre altíssima, furtando-se à vigilância dos pais, tomou um banho de chuveiro, com água gelada, o que lhe valeu apanhar uma pneumonia, um internamento hospitalar e ficar às portas da morte; a jogar a bola com companheiros da escola, ou irmãos, ou amigos queria levar sempre a melhor e não olhava a meios para atingir os seus fins, distribuindo cabeçadas, pontapés, murros e caneladas...

Enfim, um rosário infindável de asneiras grossas, de que não admitia repreensões!

Os pais eram remediados agricultores, possuindo boas e produtivas propriedades.

Nos dois últimos dias tinha-se cortado o milho no campo grande e, naquela noite, realizava-se a concorrida e alegre desfolhada, com muita gente e a azáfama própria de uma faina de lavoura.

A espaçosa eira e espigueiro ficavam num terreno elevado, embora com segura vedação, sobre um precipício fundo, cheio de penedos pontiagudos. As carradas de milho foram muitas e as moreias eram altas.

O rapaz andava de pilha em pilha, a correr, aos saltos, às gargalhadas: parecia o demo em figura de gente!

Os pais ralharam; os convivas apontaram o risco de cair no abismo; e ele a ninguém atendeu e até dava a ideia de que redobrava as tropelias, piruetas e aventuras, teimosamente, o que lhe era peculiar...

Deixaram todos de lhe ligar...

Ora, repentinamente, ouviu-se um grito rouco de adolescente, dolorido e aflitivo, abafado por uma restolhada, donde sobressaiu o choque arrepiante de um corpo de encontro a um rijo obstáculo...

E depois, no silêncio que se fez, um vazio indescritível...


setembro de 2008


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O Heroísmo de uma Mulher

Para a Júlia Fernandes e José Manuel

(...) E ali estava ela, como uma árvore que há de morrer de pé, consciente, fresca e ativa apesar das vicissitudes, de todas as terríveis vicissitudes que a vida lhe impusera como se enviadas por algum funesto e insondável destino. E tudo aceitando, como rocha dura onde mar enfurecido não cessa de bater, tudo aceitando, até a idade, já que os anos não cessavam de a visitar, implacavelmente. Já contava noventa e sete...

Amou, foi amada; casou, novinha, aos dezanove anos, e gerou meia dúzia de rebentos: quatro raparigas e dois rapazes...

Depois, depois... Bom, depois passou a viver das e para as lembranças! E que lembranças! E que saudades! E que alegrias! E que amarguras! De tudo é feita a vida...

Com o cérebro povoado de todo um enorme passado, o que agora verdadeiramente lhe inundava a existência era a solidão, uma terrível solidão, já que todos quantos amou, a pouco e pouco, o destino cruel foi levando sem se preocupar com ela, sem querer saber se ela iria aguentar, antes como num desafio, querendo testar as suas capacidades de sofrimento, o seu heroísmo...

A razoável fortuna que desde o berço a bafejou e que estipulara distribuir equitativamente pelos filhos, cresceu, cresceu e, na reta final da sua existência, repleta, agora, de desgostos, ficaria entregue nas mãos de Deus, quando ela um dia partisse também...

Todos os dias e muitas vezes, ela desfiava o rosário das desgraças que foram sucedendo no seio familiar. Todos os dias, heroicamente, as recordava, sem um lamento. As suas desgraças. A ninguém mais pertenciam senão a ela e só a ela cabia aguentar.

As duas filhas mais novas, jovens de catorze anos e gémeas, em certa tarde tórrida de fins de julho, numa albufeira, quando nadavam a par, de súbito, foram atropeladas por uma moto d'água. A uma, ainda acudiram a tempo, retirando-a com vida. Mas a outra, duas horas depois do acidente, encontraram-na a boiar, morta e sangrando por várias feridas.

A que, por milagre, se salvou do afogamento, não teve a mesma sorte aquando do parto do primeiro filho, já que a Morte, sempre impiedosa, sepultou os dois na mesma cova!

No princípio da década de sessenta, o rapaz mais novo, que cumpria o serviço militar obrigatório, foi mobilizado para Angola, na África Ocidental, palco de uma guerra fratricida que ceifou milhares e milhares de vidas inocentes!

Em certa noite de forte tempestade, o pelotão em que seguia caiu numa emboscada. Travou-se renhida peleja e uma granada certeira havia de atingi-lo e retalhá-lo em mil pedaços...

Entretanto, a quarta filha, terminara, brilhantemente, o seu curso de Medicina na Universidade do Porto.

Na cerimónia de entrega dos diplomas estiveram presentes os pais, o irmão e a irmã.

Começava a cair a noite quando regressavam a casa.

O pai era um bom condutor, atento e muito responsável. Rolava devagar e com cautela. A escassos quilómetros de casa, repentinamente, vindo em sentido contrário, um camião despistou-se e abalroou o automóvel. O chefe de família e a filha mais velha não sobreviveram aos gravíssimos ferimentos!...

O filho mais velho, distinto advogado, não quis casar e vivia com e para a mãe. Completara cinquenta anos. Nunca tinha tido quaisquer problemas de saúde. Em certa manhã, ao levantar-se, sentiu uma fortíssima dor de cabeça. Feitos exames imediatos, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral maligno e a Vida apenas o contemplou por mais duas semanas!...

A médica casou, exerceu a medicina, como boa profissional.

Foi muito feliz conjugalmente, mas não teve os filhos que tanto desejava.

De morte natural, com setenta anos, partiu há pouco para a derradeira morada!...

E ela, a mãe, a esposa, a solitária e abnegada, quase secular, aguarda agora que Deus, no qual sempre acreditou e foi seu bastão para se manter em pé, a receba em Sua glória e lhe dê o eterno descanso junto daqueles que sempre amou e que nunca esqueceu, todos os seus entes estremecidos e lhe permita participar com eles no inigualável festim celestial!...


Julho de 2007


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Uma Lenda

Ao Manuel Ribeiro Mendes

Pelas cristalinas noites de luar, sentada nas escadas rústicas da vetusta capelinha de S. Tomé de Lageosa, uma linda e jovem mulher bordava um magnífico vestido de noiva, com toda a agilidade, delicadeza e concentração, sem retirar os formosos olhos do fino tecido, onde iam caindo copiosas lágrimas, que, deslizando para o granito, se transformavam em ricas pérolas, que adornavam uma maviosa tela.

E essa azáfama noturna tinha como candeia o bento manto do luar e como suporte musical o marulhar das águas do rio, ali pertinho, e os trinados dos rouxinóis, que se não cansavam de cantar, escondidos nas frescas ramalhadas dos abundantes salgueiros e amieiros das margens.

No escuro da noite, porém, o que se adivinhava no local tão descampado era um vulto estranho e disforme, que arrepiava os cabelos de quem se afoitava a passar ou a fazer visitas ao badalado evento, com o silêncio dos rouxinóis e o ruído das volumosas águas, que saltavam do leito e corriam revoltosas pelos campos marginais.

A verdade é que, se o primeiro cenário atraía inúmeros curiosos, que gostavam de apreciar e não queriam jurar falso, o segundo era evitado, sobretudo nas noites de trovoada ou tempestades, com as forças da Natureza, ameaçadoras, dando a impressão de que o mundo ia acabar, para os lados de Campelos, da Bugalha, de Castelhão ou de Britelo...

Ora, porquê a razão da existência dos dois cenários, isto é, o da linda bordadeira que se deixava contemplar à luz da lua e o da repugnância do espectro disforme na escuridão? Vou, prosseguindo a minha divagação lendária, tentar esclarecer...

No reinado de D. Afonso Henriques (já lá vão quase nove séculos), o nosso primeiro rei, cognominado "O Conquistador", a todo o momento eram recrutados homens, para ingressarem e reforçarem as fileiras das hostes que havia necessidade de mandar para os campos de batalha.

Um garboso conde, da melhor linhagem de Guimarães, prendeu-se de amores por uma esbelta e nobre fidalga de Lageosa, neta dos senhores da Veiga, herdeira de vastas propriedades de aquém e de além Febras e que habitava o espaçoso e antigo palácio de Santa Cristina, desfrutando de uma panorâmica esplêndida sobre os extensos, verdejantes e produtivos terrenos circundantes, a pouca distância da capelinha de S. Tomé.

Ultimavam-se os preparativos para as grandiosas bodas do conde com a bonita lageosense, quando el-rei o chamou, a fim de desempenhar uma missão importantíssima e muito urgente.

Embora imensamente contrariado e entristecido, não podia o conde deixar de servir o soberano, cumprindo, de imediato, não só as ordens recebidas, mas também justificar a honrosa escolha que sobre ele recaiu.

A despedida foi um mar de pranto. Enlaçaram-se, inconsoláveis e com a promessa de um regresso tão breve quanto possível, para jamais se separarem, assim Deus o permitisse...

Partiu o moço, levando o coração despedaçado, a sangrar, deixando a noiva num estado lastimável, mas firmemente persuadido de que a separação seria de curto espaço de tempo...

Mas... (malhas que o cru Destino traça) tornou-se tão longa que ele nunca mais voltou...

Numa longa batalha, travada perto de Beja, demonstrou indesmentível bravura e valentia.

Certa vez, numa peleja renhida, um formidável golpe de lança decepou-lhe a cabeça...

Quando a fidalga recebeu a notícia da tremenda tragédia, aos gritos lancinantes e num choro convulsivo, arrancou cabelos, rasgou as vestes, andou de rojos pelo chão áspero e pedregoso...

Enlouquecera!

Caiu numa profunda morbidez, alheia a quanto se passava em seu redor, vagueando, como um fantasma, pelas Barrocas, por Guisande, pela Veiga, pelo Reguinho d'Água, pelas Cruzes...

Um dia, casualmente, encontrou o tecido que escolhera para o seu vestido de noiva e, ao longo de cinquenta anos, bordou, com ternura e esmero, aquela relíquia tão sonhada e querida!

E cinquenta anos não foram bastantes para bordar tão aprimorada obra!

E morreu septuagenária, porque, com toda a certeza, nem mais um milénio lhe chegaria para a sua conclusão...

Por isso, vagueando pelos sítios adorados, ou sentada nas rústicas escadas da capelinha, de tão gratas saudades, pois era lá que esperava e outrora mantinha os encontros idílicos com o noivo estremecido, ainda aproveitava agora as cândidas noites enluaradas, no intuito de terminar o seu vestido de noivado, com a férrea esperança de que o gentil conde e intrépido guerreiro estava para chegar...

O vulto negro e repelente, que se adivinhava na escuridão e nas tormentas, creio tratar-se do Destino, que, misterioso e implacável, sobre os noivos se abateu, aniquilando as duas vidas tão felizes e tão promissoras...

O palácio de Santa Cristina perdeu-se no rodar dos séculos e não há memória dele, nem das aparições da linda e infeliz herdeira. Mas a capelinha e as velhas escadas permanecem como um marco de profunda nostalgia nas sucessivas gerações.


Novembro de 2005


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Tristes Lembranças

À memória do meu compadre Artur Saldanha

Muitas vezes, e com profunda mágoa, lembro o velho e franco amigo, que a morte, devido a um cancro galopante, numa dúzia de dias, há meia dúzia de anos, chamou para Deus.

Para Deus, sim, creio firmemente, que é misericordioso, compassivo e justo para com todos. Para Deus, em quem dizia não acreditar, embora cumprindo, rigorosamente, os Seus ensinamentos.

Engenheiro orçamentista, de reconhecida competência, desde o berço que comungou os anseios de liberdade do Povo, há tanto tempo oprimido e sacrificado, vindo a ser preso, diversas vezes incomodado e agredido pelo tenaz braço da repressão, como já o tinham sido o pai e o tio. Manteve-se, porém, até ao derradeiro hálito, senhor das convicções políticas e religiosas que professava e que ao longo da vida o nortearam.

Dizia-se ateu, mas, bem no fundo, não o era, porque sempre se pautou por uma conduta irrepreensível e por uma bondade, que não conhecia os destinatários, fruto de um amplo coração de ouro, de que ainda sou um grato devedor.

Pelas citadas qualidades, já tão raras nestes tempos desregrados, acrescidas da franqueza, desprendimento e fraternidade, é que eu confio na infinita clemência de Deus, cujo prato da balança faz pender mais para o prémio do que para o castigo.

Ora, o que vem a propósito contar, porque lho ouvi uma vez, comovidamente, e que evitava lembrar em voz alta, foi um episódio muito triste e que lhe enegreceu a alma para toda a vida...

Ainda novo, a meio da frequência do seu curso, indo dar uma volta de automóvel com uma bonita e jovem namorada, de quem gostava imenso, numa apertada curva e a grande velocidade, a porta do lado da moça abriu-se e esta foi cuspida, violentamente, para a berma da estrada e morreu...

Não se esquecia, recolhido e sinceramente triste, em cada 1'º de novembro, de uma sentida romagem de saudade ao cemitério onde repousava o anjo estremecido e colocar, aos pés da campa, uma coroa de flores e umas lágrimas amargas...


Novembro de 2004


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Narrativa Amorosa

A Cátia nasceu perto da raia de Espanha, no concelho de Melgaço, num risonho dez de junho, fruto de uma adolescente de dezasseis anos, mãe solteira e, por sinal, uma jovial, simpática e linda moça.

Os avós maternos, agricultores remediados, aceitaram mal a gravidez da filha, porque ainda era uma menor e porque a sua tradição religiosa e a dos antepassados lhes impunha severos princípios e deveres, para se manter viva a chama da dignidade familiar.

O pai da criança, mais velho uma dezena de anos que a adolescente e que ocupava um lugar bem remunerado numa grande empresa concelhia, depois de imensas e enganosas promessas de amor e de casamento, desligou-se dela completamente, negando-se mesmo a perfilhar a menina.

Portanto, tendo em conta tanto revés, seis meses após o parto, embora entristecida e conhecedora dos espinhos que havia de trilhar nos caminhos a percorrer, pegou na filhinha ao colo e partiu na automotora, que fazia o percurso Monção-Porto.

Chegada à estação de S. Bento, já quase noite de um dia frio de janeiro, desembarcou.

Procurou um abrigo para pernoitar. Não conhecia a cidade. Então, já cansada de tanto vaguear, sentou-se numas escaleiras, que ficavam dentro de um prédio, sem porta para a rua.

Alguém acendeu uma lâmpada exterior e abriu, cautelosamente, uma porta, dando com mãe e filha lavadas em lágrimas.

Era uma senhora de meia-idade, de aspeto bondoso, que logo quis conhecer, ao pormenor, a sua história de vida.

Ouviu atentamente, fez uma curta pausa, dizendo:

"Entra. Vais jantar, dormir e amanhã, se Deus quiser, veremos o que se pode fazer..."

Mau grado a desgraça que a visitou, uma estrela benfazeja a conduziu ao lugar certo.

Sempre a Providência se compadece dos infortunados e para aquela pobre desamparada estava reservada uma agradável surpresa.

Achou uma família constituída por dois casais, de excelentes recursos financeiros e de excecional sensibilidade.

O chefe de família, o filho e a nora eram médicos e a simpática senhora de meia-idade a dona de casa eficiente e ativa, presidente de uma conhecida e interventiva associação de beneficência.

Havia também um netinho, dois meses mais velho que Cátia.

Parece que por milagre (mas em tudo reinou o amor e a sincera caridade), no dia imediato, entregaram à jovem mãe o governo da casa e a criação do casalinho de bebés. Ela, habituada como estava a trabalhar e porque desde cedo a mãe a exercitou no amanho das terras e da grande casa de lavoura, desempenhou as novas funções com mestria, tendo sempre em consideração as pacientes ordens e conselhos da patroa. Cada dia, ficava mais agradecida àquela santa família, pelo apoio material e moral dispensados e também pela confiança que nela depositavam...

Neste cenário amoroso, as duas crianças foram criadas e educadas como se de dois irmãos se tratasse.

A verdade, porém, é que os dois jovens se queriam muito para além de irmãos: amavam-se ternamente... E todos se apercebiam disso. E todos, delicadamente e confortados, fingiam ignorar...

Chegou a data em que Cátia completava dezoito primaveras.

Tinha-se tornado numa formosa rapariga, com dotes de beleza, meiguice, obediência, gratidão e excelentes resultados nos estudos, o que lhe permitiria, nesse ano, ingressar na Faculdade de Direito.

Mas também o companheiro de todas as ocasiões não desmerecia tais atributos e acompanhou-a como colega do mesmo curso...

Tudo correu muito bem e, ao terminarem, brilhantemente, o percurso universitário e porque tudo havia sido, amorosa e meticulosamente preparado para unirem os corações no infinito beijo que os felizes faz viver, celebraram um bonito e por todos ambicionado casamento...!


Setembro de 2010


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O Penedo da Costureira (lenda)

À memória do querido amigo José Maria Antunes Ribeiro

Quase na extrema da minha aldeia natal com Briteiros, o Moinho Velho era um sítio desabitado e pouco aprazível.

Da estrada nacional entrava-se por um caminho estreito e íngreme, ao fundo com uma pontinha de pedra tosca, sem quaisquer resguardos, sobre o rio Febras, nascido em Pedralva, na serra do Carvalho e que ali corre ao encontro da margem direita do Ave, onde vai desaguar, em S. Cláudio do Barco.

A meio do curto caminho, à esquerda de quem desce, erguia-se um rústico e não muito alto penedo, conhecido por "Penedo da Costureira".

Recebeu esse nome porque se contam algumas histórias relacionadas com aparições de uma bonita mulher, sentada a uma velha máquina de costura, no topo do penedo e, muito atenta e sem parar, a coser não se sabia o quê!

Há quase meio século, pela primeira vez, ouvi falar de tais aparições, numa das muitas agradáveis e extensas conversas com o se Zezinho dos Caniços (um abastado lavrador, venerando e simpático ancião, que me queria como se de um filho se tratasse e que há muito partiu para o Céu, onde creio ter merecido assento, rogando eu ao meu Deus, no qual ele também sempre acreditou e seguiu na vida, que, entre os esplendores da luz perpétua, lhe dê o descanso eterno)!

Depois, no percurso dos anos, escutei mais do que uma versão sobre as estranhas estadias do fantasma no cimo do penedo.

Havia também quem sustentasse que um jovem de uma rica família rural se apaixonou pela costureira e que, num certo dia, a levou para casa, firmemente decidido a recebê-la como esposa. Todavia, à noite, descobriu que se tratava do demónio em figura de gente e, persignando-se repetidas vezes, fez com que a esbelta dama começasse a inchar e a crescer desmesuradamente, acabando por dar um estrondoso estoiro e uma rouca e lúgubre gargalhada, que tiveram intenso eco pelo vão.

Quando mais tarde se me proporcionou a leitura das "Lendas e Narrativas", de Alexandre Herculano, lá encontrei a descrição pormenorizada de "A dama pé de cabra" que, ao fim e ao cabo, é uma das muitas histórias de Satanás, disfarçado nos mais variados géneros e personagens.

Sobre as causas de tais aparições é que nunca ouvi ninguém a argumentar...

O pequeno e rústico penedo ainda lá está, no sítio que continua ermo e pouco aprazível e a figura fantasmagórica da linda costureira também deixou de ser vista no topo da pedra secular...


Abril de 2005


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Regresso Definitivo

Para a Dina Bicas e para o Armando


Decorria o ano de 1830.

No dia onze de novembro, data em que se festeja S. Martinho e é dia dos magustos, por excelência, numa pequena aldeia dos arredores de Braga, numa bouça, com um denso matagal, na berma de um caminho de pouca afluência, pela manhãzinha, foi encontrado um recém-nascido, que ali fora abandonado durante a noite, e que, em homenagem ao santo, batizaram com o seu nome.

Apesar de ser outono, o tempo apresentava-se bastante quente (um verdadeiro verão de S. Martinho, como costuma dizer o povo), mas apesar disso encontraram o enjeitado já roxo e rouquinho de tanto chorar. E todos diagnosticaram que não iria longe. E quantos apareceram se questionavam sobre quem seria a desnaturada mulher que cometera tamanha aberração e qual viria a ser o destino da criança.

Todos davam o seu palpite e apontavam possíveis soluções, mas ninguém se afoitava a comprometer-se. E nem entre aqueles mais abonados de bens se adiantava algum capaz de assumir o compromisso de cuidar da infeliz criança.

A multidão de curiosos foi dispersando e, sozinha, ficou uma pobrezita de Cristo, mãe solteira de quatro filhos, parece que cada um de pai diferente, e que, tendo gerado uma menina há dois meses, pegou no rebento ao colo, aconchegou-o ao peito e, calmamente sentada no chão, pôs-se a dar-lhe de mamar...

Fê-lo até que se calasse, consolado com o leitinho que lhe matava a fome mas, sobretudo, com o aconchego e amor que a criança sentiu como maternos. Assim, finalmente com a segurança de que necessitava, adormeceu e já sorria, o menino, com aquele sorriso que o povo diz ser para os anjos. Ela, a pobrezita de Cristo, olhou-o e consultando apenas a sua consciência de mãe e desafortunada, levantou-se, apertou-o mais ao peito, não pronunciou uma palavra e dirigiu-se para casa, o tugúrio miserável que lhe servia de abrigo.

Era muito nova ainda e ia ganhando a vida de diversos modos... E respondia às interrogações de muitos, afirmando que quem criava quatro também podia criar cinco!

Assim foi, com efeito: Martinho foi crescendo, sadio e tornou-se num robusto e bonito rapaz...

Pelos catorze anos, um mercador, compadecido, levou-o para o Brasil e lançou-o no mundo do trabalho.

Desembaraçou-se sempre bem nas tarefas em que se viu envolvido e, em determinado momento, começou a trabalhar por conta própria.

Graças a Deus e ao seu excelente empenhamento, os lucros aumentaram a olhos vistos.

Passados uns quinze anos era senhor de um considerável património, decidindo trocá-lo em moeda e regressar à Pátria, atendendo a que fundas saudades o apoquentavam.

Chegado, procurou a mãe adotiva, que encontrou com sete filhos, comprou uma quinta, com um casarão luxuoso, para que ela e os três filhos ainda solteiros pudessem viver com ele, oferecendo boas habitações aos outros quatro já casados, passando todos a ter uma existência como nunca haviam imaginado.

Nada faltava à numerosa família e eram obsequiados com tudo o que era bom e do melhor, sobretudo o intenso amor que continuava a uni-los.

Foi então que Martinho começou a realizar imensos passeios, visitando todos os lugares que soubesse famosos, a organizar lautos e concorridos banquetes, dando também esmolas avultadas a quantos o abordavam. E foi assim também que, num abrir e fechar de olhos, desbaratou a imensa fortuna que com tanto esforço tinha acumulado. Quando se deu conta, já nem o casarão lhe pertencia.

Todos os filhos da mãe adotiva viviam desafogadamente, mas perante tantos desperdícios que desaprovavam, deixaram de lhe dar atenção. Apenas o mais velho decidiu tomar conta da mãe para que não voltasse a passar necessidades.

Martinho viu, então, que todos o abandonavam. Apenas a mãe, sem nunca o recriminar, ansiosa e insistentemente o olhava, triste e lacrimejante. Ela sabia, como só as mães sabem, que nunca mais o veria se ele voltasse a partir. Mas foi o que ele fez: pediu dinheiro emprestado, comprou uma passagem das mais baratas para um paquete que zarparia brevemente e assim retornou a terras de Vera Cruz...

Apesar de trabalhar como um negro, a sorte não lhe foi favorável. Encontrou patrões pouco escrupulosos e nunca mais saiu da cepa torta. Sofreu incontáveis humilhações, passou fome, visitaram-no graves doenças e nunca ninguém lhe deitou a mão.

Vinha-lhe então ao pensamento o outrora, em que, em quinze anos, juntara uma fortuna apreciável. Como foi possível um tal esbanjamento? Que insensatez o levou a tanto desperdício, a tanta falta de consciência? Voltarão Deus, os deuses, o Destino ou quem quer que seja, a dar-lhe outra oportunidade? Tal não aconteceu e Martinho ali viveu quase trinta anos, na mais extrema pobreza.

Poderia algum dia voltar à sua Pátria? Devolver o dinheiro que generosamente lhe fora emprestado?

Estava mesmo desanimado, sem saber qual seria o seu futuro, pois envelhecera e não augurava que chegasse a uma idade avançada.

Em dia de S. Martinho, quando completava setenta anos, foi a um grande magusto e, com o pouco dinheiro que tinha, comprou um bilhete num sorteio, cujo primeiro prémio era um soberbo cavalo.

A sorte bafejou-o: saiu-lhe o excelente quadrúpede!

Foi logo rodeado por vários possíveis compradores e acabou por efetuar um ótimo negócio.

"Bem, bem, parece que a sorte me quer voltar a sorrir". - desabafou, sorridente e mais animado.

No dia seguinte entrou numa loja de venda de lotaria e empregou todo o capital em cautelas.

No fim de semana andou a roda e ele possuía dez vigésimos do primeiro prémio: uma pilha de dinheiro, uns largos milhares de cruzados em ouro!

"Regresso a Portugal, para lá ocupar, e não faltará muito, sete palmos de terra..." - meditou com seriedade, prosseguindo - "Desta vez, porém, serei cauteloso, pagarei a minha dívida e viverei com modéstia e decência..."

Levantou o produto dos dez vigésimos da lotaria, guardou o dinheiro numa grande e segura mala, indo levá-la ao quarto que tinha alugado numa pensão, que ficava próxima do cais de embarque e saiu para comprar o bilhete para o primeiro navio que partisse rumo à Europa...

Para seu contentamento e feliz sorte, o transatlântico deixava o porto na manhã imediata e bem cedinho...

Bilhete no bolso, resolveu cear ali no cais, num luxuoso restaurante.

Comeu e bebeu do que achava que era melhor e que havia muito tempo não comia senão com os olhos.

Já escuro, deixou o restaurante e entrou em dois ou três botequins e continuou a beber, sem medida.

Era a última noite, a derradeira vez que frequentava aqueles sítios, porque tinha a certeza de que não mais voltaria a sair do seu País...

Já de madrugada, a cambalear, voltou para a rua. Sentia-se fatigado e sentou-se num banco junto do local onde, em breve, iria embarcar...

E cada vez se sentia mais cansado e tonto.

Deitou-se no tal banco e adormeceu profundamente...

Chegou a hora do embarque e ele dormia e ressonava ruidosamente...

Os agentes da autoridade que patrulhavam a zona e mantinham a ordem para a entrada dos passageiros no vapor, tentaram identificá-lo e, como não dava por burro nem por albarda, revistando-o, encontraram a identificação e o bilhete da passagem para aquele cruzeiro e, com pena dele e com boas intenções, diligenciaram para que o transportassem a bordo e o deitassem no beliche que lhe estava destinado...

Procedeu-se de acordo com o estipulado, usando a delicadeza e a solidariedade...

Desamarrou-se o barco, que se fez ao mar alto...

O senhor Martinho, ainda atordoado devido à excessiva ingestão de álcool, despertou, já bem dentro da noite e em pleno oceano.

Conforme havia vaticinado, não voltou ao Brasil e no seu torrão natal foi ocupar os sete palmos de terra, tão pobre e desafortunado como quando nascera.

echapa

O pagar da dívida, isso é que se ficou pela intenção...


Setembro de 2010


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O Pobre da Chapa

Aos meus conterrâneos


Era muita a miséria que existia em meados do século passado, levando a que muitos homens, mulheres e crianças calcorreassem grandes distâncias a estender a mão à fraternidade dos bons corações, pedindo um tostão, uma malga de caldo, ou um naco de pão para matar a sua fome e a dos seus familiares que os aguardavam em humildes e desconfortáveis casebres, na esperança de que não regressassem com o puído saco vazio...

Tempos difíceis esses, que, ciclicamente, por infelicidade, se vão repetindo, sendo que, quem mais sofre é o que pouco ou nada possui e, se possível, ainda há de vir a ter menos... Enquanto alguns se vangloriam com vacas gordas, a muitos outros nem as magras lhes sorriem!

Entre os pobres, havia-os rebeldes, orgulhosos, inconformados e incontidos; havia-os moderados e compreensivos; e havia-os também simples e resignados...

Quanto a dadores, também se poderia enumerar uma listagem bem distinta, pois havia os soberbos, que sempre negavam a esmola; havia os que, resmungando, iam abrindo os cordões à bolsa, para retirar um ou dois tostões e, raramente, um cruzado ou uma coroa (quatro e cinco tostões, respetivamente), ou os que levantavam a tampa da masseira, para entregar uma fatia ou uma côdea de broa; os que desciam à loja, para extrair das tulhas um punhado de milho, de centeio ou de feijão; e havia os generosos, que sempre davam um pouco do que tinham, e faziam-no por amor ao próximo...

E as súplicas das esmolas eram, comummente, as mesmas cantarolices, "por amor de Deus" e "pelas alminhas de quem lá tinham"!

E rezavam, rezavam, ave-marias, Padre-nossos, glórias, e até salve-rainhas, quer antes de chegarem ao lugar do pedido, quer quando batiam a aldraba do portal, quer ainda quando já se iam retirando (quantas vezes de mãos vazias), dirigindo-se para um novo benfeitor, mesmo que nada lhe tivesse sido dado...

De alguns, a canalhada não gostava e, sem pensar no que fazia, arremessava pedras e chamava nomes feios...

Toda esta lengalenga me fez recuar, nostalgicamente, à minha airosa, bonita, asseada e querida Lageosa e aos bons tempos de criança, ao encontro de um velhinho simpático que por lá peregrinava faz longo, longo tempo...

Já lá vão perto de sessenta anos, pois decorria a década de cinquenta, do século passado, quando se espalhou a notícia da morte do "Pobre da Chapa", alcunha por que era conhecido esse pobrezinho bondoso, vindo não me lembro de onde, e com a dita alcunha creio que por usar sempre, no coçado e, quem sabe, no quase secular casaco, um pedacito de uma velha chapa.

Caminhava várias léguas, percorrendo algumas aldeias, a estender a mão à caridade.

Se aos outros da mesma condição a miudagem, por vezes irreverente, apupava ou jogava pedras, àquele, que há largos anos cumpria um roteiro doloroso, não me recordo de terem feito mal. O que me ressalta à memória, comovido, é a imagem do pobrezinho, quer de o ver na estrada ou em caminhos tortuosos da minha aldeia, ou, sobretudo, quando se consolava com uma tigela de caldo, na velha e comprida varanda, que existia na saudosa casa da minha carinhosa avó materna!

O "Pobre da Chapa" já palmilhava aqueles sítios há imenso tempo, porque as gerações mais velhas a ele se referiam com ternura. Uma vez por semana, pontualmente, era certa a visita do bom homem que, em determinadas casas, além da esperada esmolinha, ainda era brindado com uma malga de caldo, ou um prato de qualquer conduto, conforme a hora de chegada fosse ao almoço (8-10 horas da manhã), ao jantar (1-2 horas da tarde), ou à merenda (5-6 horas, também da tarde).

Quando passava em locais onde houvesse gente, o "Pobre da Chapa" descobria-se, isto é, tirava o chapéu, saudando quem encontrava e todos lhe correspondiam, notando-se nele afabilidade e visível agrado...

Ora, sucedeu que, num belo dia, pela tardinha, jogávamos ao botão, junto à venda do Sr. Mendes, usando, de preferência, os patacos (moedas antigas, sobretudo do tempo da monarquia, já em desuso e que algumas pessoas ainda retinham em casa como recordação), a que se atribuía um determinado valor, trocados por botões, consoante o tamanho e a grossura do pataco, quando ia a passar o bondoso velhinho, de saco às costas e amarrado ao seu lódão de marmeleiro, que parou e se pôs a olhar a rapaziada com um sorriso de paternal doçura e a dirigir-lhe palavras simples e repletas de amabilidade.

Decidiu-se, então, por unanimidade, oferecer-lhe os patacos que ali havia, pois pensávamos que ele os poderia trocar por escudos! E ele, sempre sorridente e com gestos de agradecimento, recusou, recusou e, com delicadeza, não aceitou, entrando no caminho de Espinheiro, certamente rumo a Pedralva, para prosseguir o seu peregrinar até nascerem as estrelas no firmamento...


22 de dezembro de 2010


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O Regresso à Bonança

Quando, no fim daquele ano letivo os pais se divorciaram, a Virgínia, que era filha única, tinha completado, em abril, sete primaveras.

Os progenitores sempre se entenderam bem, até ao último Natal, que já não foi nada do que era costume: houve troca de palavras azedas, as fisionomias carregadas, lágrimas, muitas vezes, nos olhos da mãe, uma ceia de mudos, confeção de quase nada, no que diz respeito a iguarias e somente um insignificante presente para a menina...

No verão passado, ainda em maré de bonança, haviam projetado as próximas férias, no estrangeiro e de arromba, comentava-se! Agora, já em tempo de tempestade, tudo era anulado e o tribunal, contrariando a justificada e testemunhada argumentação da mãe, deliberara que a garota ficaria ao cuidado do pai, passando a viver com ele.

Foi um rude golpe para ambas, mas não existia outra alternativa.

A mãe, afogada num mar de pranto, abandonou a casa e, volvidos dois dias, uma outra mulher deu entrada nela...

A nova companheira do pai, de início, fingiu desfazer-se em mimos e atenções com Virgínia. Diante do companheiro não havia imposturices que ela não ensaiasse, mas, na sua ausência, tornava-se carrancuda, agressiva, chegando mesmo a mostrar-lhe uma vergasta, com a ameaça de que, se a pequena algo revelasse ao pai, tinham o caldo entornado e castigos garantidos...

Este suplício durou três anos.

A mãe recorreu da sentença e teve de aguentar a morosidade da justiça portuguesa. Felizmente, porém, ganhou a questão e a filha foi-lhe confiada.

Apesar da falta de atenção do pai, que nunca se apercebeu do mau relacionamento das duas, a verdade é que a menina sentiu pena dele quando, na despedida, notou o seu rosto molhado à mistura com o beijo que lhe depositou no dela.

Contudo, Virgínia sentiu imensa satisfação por aquela bonança que vinha ao seu encontro trazendo-lhe a companhia, a proteção e o carinho daquela mulher que, depois de a carregar no seu ventre durante nove custosos meses, a depositou neste mundo, o mesmo mundo que, por bizarrias do destino, a iria sujeitar a tempos difíceis, mas que, arrependido, lhe devolvia agora a segurança, o amor e a tranquilidade de que ela tanto necessitava para crescer e ser feliz.


15 de janeiro de 2011


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Uma Façanha Heróica

Ao meu amigo de infância José Manuel Mendes

Quando ouvi contar a façanha heroica do que podia ter sido uma enorme tragédia, nem queria acreditar, mas o respeitável narrador conseguiu vencer-me e convencer-me...

O episódio teve lugar, pelas contas que fiz, há uns oitenta anos, isto é, cerca dos anos trinta do século que findou.

Fora o caso que, numa freguesia do concelho de Vila Verde, um jornaleiro abria uma funda vala para fazer um aqueduto que conduzisse uma água nascida no alto de um monte para a quinta de abastado lavrador.

O jornaleiro, um homem de meia-idade, ou descuidando-se, ou apanhado em hora de azar, no fundo do buraco, já com dois metros de profundidade, apercebeu-se de que a terra que havia extraído começava a aluir e apressou-se a sair do perigo. Quando estava a meio metro da superfície, veio uma quantidade mais pesada de entulho que o desequilibrou e fez cair de cabeça para baixo...

Foi isto pelo meio de uma manhã soalheira de fins de julho. O Alfredo, sétimo filho de um casal muito carenciado, com onze anos de idade, quando corria por um caminho fora, a tanger, com um arame, um enferrujado arco de ferro, ao passar junto da vala viu alguém apenas com as pernas de fora, dos joelhos para os pés e com o resto do corpo soterrado na vala. Perante o insólito da situação que ele não entendia, desatou aos gritos aflitivos e agarrou-se às pernas do homem, que sentiu mexerem-se, levemente. Voltou a gritar com mais força ainda, se é que era possível, e lavou-se em sinceras lágrimas.

Pegou numa enxada que estava na berma da vala, e começou a retirar terra de um lado, jogando-a para onde as suas débeis forças permitiam.

E não aparecia vivalma, apesar dos seus continuados gritos. Com indescritível afã continuava o pequeno a sua dura tarefa, parando apenas alguns instantes para respirar mais profundamente e poder continuar a gritar.

Com muito cuidado prosseguia a luta contra o tempo e já desanimava quando enxergou a correia do cinto do operário. Puxou, puxou, mas em vão. Era preciso retirar mais terra. Estava, agora, perto dos ombros, mas os braços e a cabeça ainda não se viam.

Extenuado, chorou com mais abundância e gritava, rouco, quase sem voz.

Atentou bem na posição da boca, pegou num comprido barrote de madeira e espetou-o, com a ajuda de uma marreta.

Depois, desceu ao buraco aberto.

Fez do barrote uma alavanca e logrou desaterrar um braço e puxá-lo para si.

A mão do aflito agarrou-se-lhe às pernas. Alfredo firmou-se no barrote e o soterrado, num esforço hercúleo e, se calhar, extremo, conseguiu retirar a cabeça e o outro braço da prisão que os sustinha.

O miúdo, como pôde, agora quase feliz, foi-lhe retirando a terra dos olhos e da boca. E logo que o padecente pôde abrir um poucochinho os olhos, sem saber ainda quem era o seu salvador, lançou-lhe um olhar de infinito agradecimento, marejado de lágrimas sinceras...

E só então começou a surgir uma multidão de homens, mulheres e crianças, perguntando o que tinha sucedido e onde...


28 de janeiro de 2011


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A Galinha Teimosa

Ao caríssimo Pe. João

O meu caro amigo Padre João Alves de Oliveira nasceu em Santa Maria de Souto, no concelho de Guimarães, em 29 de março de 1934.

No segundo ano após a sua ordenação sacerdotal, assentou praça no concelho de Vila Verde, onde tem paroquiado algumas freguesias, e por cá permanece há mais de meio século, distribuindo solidariedade, protagonizando diversificadas e castiças peripécias, confraternizando com a boa gastronomia e despejando umas tigelas ou copos de bom vinho verde ou maduro, branco ou tinto e, para acompanhar o café, uns tragos de uísque e, claro está, de preferência do velho e do melhor!

Não admira que ainda hoje seja vedeta em alguns episódios, pois a fama e proveito já o mimavam na infância e juventude.

Das várias situações em que se viu envolvido e que narra repleto de bom humor, me veio à memória uma, que remonta à sua risonha infância...

Fora o caso que, sendo filho de uma família de agricultores que possuía boas propriedades, quando ele contava uns seis anos de idade, destinou-lhe o pai a tarefa de olhar por um bando de galináceos, num campo distante de casa, a fim de que a bicharada não destruísse as sementeiras e, mais tarde, o fruto delas.

Era muita a bicharada e o João também gostava imenso de brincar. E nesse bando, para o atormentar, havia uma galinha grande e gorda e muito teimosa: andava sempre fora da lei, a meter o bico onde não lhe era permitido. Tresmalhava-se do bando amiudadas vezes e saltava na eira, com milho ou feijão a secar, nas hortaliças, ou no milheiral. Bem o menino a enxotava, mas ela não ganhava juízo, estragando-lhe, permanentemente, os momentos de diversão...

Um belo dia, cansado de tantas vezes ser chamado a intervir, resolveu castigar a galinha teimosa e desobediente: agarrou-a e enfiou-a dentro da barrica do cevadouro!

A desventurada, que pelos vistos não sabia nadar e para mais em águas tão turvas e malcheirosas, afogou-se!

Ora, o pai estava sempre a malhar na mesma tecla, recomendando-lhe que não deixasse a bicharada pisar o risco. E quando, à tardinha, ia meter as aves no capoeiro, contava-as: logo deu pela falta do belo exemplar, tendo o filho que confessar o crime, e, sabedor de que o pai não era para graças, à cautela, foi-se desviando, a caminho de casa, senão quando deu com os olhos no velho avô, metido no seu clássico capote e marchando nos cardados tamancos de pau de amieiro. Correu para ele, a choramingar.

"O que foi, Joãozinho?" - quis logo saber o terno e amigo avô.

"É o pai que me quer bater!"

"Por quê?"

"A galinha grande não deixava de me dar trabalho, sempre a fugir para onde não devia, e eu atirei-a dentro da barrica do cevadouro e ela afogou-se; agora o pai quer-me bater!"

"Não devias ter feito isso, maroto! Mas não chores, que o pai não te põe as mãos!"

O avô deu-lhe a mão e encaminhou-se para o genro que vinha em perseguição do filho e que estacou mal viu o sogro, a quem guardava muito respeito, ouvindo-o proferir, com seriedade:

"Não tocas no pequeno, Luís, nem agora, nem depois; que me não chegue aos ouvidos que lhe bateste por causa de uma galinha!"

E, sem largar a mão do neto, lá tomou o rumo de uma das suas três vendas, governada pela filha Deolinda, a "santa mãe" do Padre João, como ele tantas vezes refere, repleto de ternura e de saudade...


27 de fevereiro de 20AA


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Os Ninhos da minha infância

Ao Manuel J. Cardoso Gomes



Lembro-me imensas vezes de quando os meus olhos eram povoados de intensa luz e tudo enxergavam e do alegre tempo dos ninhos!

Sucederam-me inúmeras peripécias, mas, principalmente três, afloram-me, de vez em quando, à memória...

Numa dessas vezes, recordo-me perfeitamente daquela manhã bonita de maio, quando, criança de sete anos, saí em busca de ninhos, nas bouças vizinhas da casa onde nasci, no lugar do Regueiro.

Palmilhei muito terreno, até ter a sorte de descobrir um ninho de gaio, feito na coroa de um pinheiro bastante alto, mas muito delgado.

Aproximei-me, mirei bem o precioso achado, tive inúmeros pensamentos e decidi-me a trepar à árvore, para verificar o conteúdo da nidificação.

Subi rapidamente, como um gato, leve e ágil como eu era aos sete anos de idade...

Chegado à coroa do pinheiro, segurei-me bem ao tronco com o braço esquerdo e estendi o direito para apalpar o que existia naquele ninho.

Não sei porquê, assustei-me, tremeliquei, o pinheiro partiu-se e eu vim agarrado à coroa, aterrando numa verdinha, grande e fofa moita de mato!

A verdade é que, apesar do tombo ainda ser razoável, não me magoei.

O que, porém, me magoou profundamente, foi ver, ao levantar-me, a meu lado, o ninho desfeito, com umas três ovas esborrachadas...

Numa outra ocasião, no Loural de Entre-Casas, já no extremo de Santa Leocádia de Briteiros, tendo ido aos ninhos com o meu tio Inácio, dei com um buraco redondinho, no meio do tronco de uma velha cerejeira.

"É um ninho de peto!" - disse o meu tio. - "Trepa e vê se tem novinhos"...

Eu tinha uns oito anos. Não me fiz rogado: trepei, com incrível agilidade, até chegar ao ponto onde estava aberto o buraco redondinho. Segurei-me ao tronco com o braço esquerdo e introduzi a mão direita no orifício: do interior da cerejeira saiu um bufar ruidoso e assustador e ouvi umas bicadas agressivas...

Julguei tratar-se de uma cobra e, desequilibrando-me, estendi-me ao comprido no quase maduro centeio, semeado naquela leira, numa das margens do riacho, chamado Rio Torto, que, nascido na serra de Espinho, ali corre ao encontro do Ave...

Ainda noutra maré, já os meus olhos eram habitados por densa escuridão, teria uns onze ou doze anos, fui também à procura de ninhos, com um dos grandes companheiros de infância, o João Raposo. No Pedregal, numa bouça da casa da Figueira, na coroa de um pinheiro muito alto, havia um ninho de tordeia...

Mesmo cego, não sei porquê, gostava imenso de subir às árvores. E fui incumbido de trepar ao altíssimo pinheiro, recebendo, cá de baixo, todas as instruções do meu amigalhão, que se não aventurou a ir sondar a morada daquela ave rara...

Subi, subi e cheguei ao galho onde estava edificado o ninho, que, por azar, ou para meu castigo, não tinha rigorosamente nada! Iniciei, então, a viagem de regresso, já cansado de ter permanecido tanto tempo empoleirado.

"Ainda falta muito?" - ia perguntando.

"Ainda!" - respondia o João.

Não sei quantas vezes perguntei, sendo a resposta sempre a mesma:

"Ainda falta muito, Zé!"

Devo ter pensado que o companheiro me estava a enganar e, então, depois de mais um questionar e do mesmo responder, desamarrei-me e atirei-me abaixo...

Caí de pé, num tojo seco e bravo.

"Não me aleijei!" - proferi, ufano e satisfeito.

"Vamos embora." - falou o João.

Mal dei as primeiras passadas, ai, Jesus! Doía-me terrivelmente o tornozelo do pé esquerdo. Foi o diabo para chegar a casa.

Na manhã seguinte, com a minha santa mãe, montado num jumento do meu tio Joaquim Moleiro, lá fui a Pedralva, ao se Manezinho do Hermenegildo, que era um homem simpático e habilidoso "endireita" ossos, a fim de me observar o pé. Disse que estava "desmanchado", mimou-me com umas torcidelas e esticões, que me provocaram umas dores danadas e lá regressei a Lageosa, para não sair de casa durante uma quinzena: mas fiquei ótimo, porque o se Manezinho era mesmo um excelente curandeiro...


28 de fevereiro de 2011


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Rute e o Mansinho

O "Mansinho" era um cabrito com meia dúzia de meses, que estava mesmo gordinho e era bem bonito!

A velha cabra quase sempre paria dois filhotes, em cada ninhada, mas, todos se questionavam porquê, apenas vingava um e até, numa das pariduras, morreram as duas crias, por sinal um casalinho vistoso.

A Rute tinha seis anos e, para o próximo dia do Corpo de Deus, estava marcada a sua Primeira Comunhão.

Apesar da tenra idade, apreciava muito qualquer assado, mas, sendo de cabrito ou de anho, toda se lambia...

A mãe costumava acender o forno de lenha para cozer a broa e, no fim, colocava as assadeiras com batatas e carne, resultando um petisco de se lhe tirar o chapéu!

Ao contrário, porém, do que era habitual, quando lhe aguçaram o apetite com o assado de cabrito para a sua tão desejada festinha, a menina empalideceu e, categoricamente, disse que não queria que matassem o seu "Mansinho" (como o batizara) e que, de outro modo, até preferia não aparecer na cerimónia...

Os avós, os pais, amigos e outros membros da família tentaram convencê-la, sendo que a resposta e vontade eram de poupar a vida ao inseparável amigo, pois com ele brincava todos os dias, em correrias, dando-lhe coisinhas que ele gostava muito de comer, fazendo-o com delicadeza e com largos sorrisos, ao vê-lo retirar os alimentos das suas mãozinhas; pegava nele ao colo, aos ombros, às cavalitas, chegando mesmo a levá-lo muitas vezes para dentro de casa...

A verdade é que o "Mansinho" estava mesmo um exemplar raro e apetitoso! Além disso, os pais já tinham promulgado a sentença do caprino: era para assar no dia da Primeira Comunhão de Rute...

O dia do Corpo de Deus, nesse ano, calhou na última quinta-feira de maio.

A menina, na terça-feira anterior, como sempre, foi para a escola, de que, aliás, muito gostava. Aproveitando a sua ausência, pelo meio da tarde, veio o Sr. Saraiva, conforme tinha sido aprazado, matou o bichinho, esfolou-o, limpou-o e pendurou-o numa das traves da adega, para escorrer e secar...

Entretanto, a pequena chegou da escola e, como de costume, procurou o seu companheiro de diversões. Não o viu na bouça, ao lado da mãe, não o viu no campinho, contíguo à casa, e não o achou na corte...

Entrou em todos os sítios de arrumos da casa e também o não encontrou... A loja do vinho estava fechada à chave... Procurou esta, topou-a e, ansiosa, correu para abrir a porta...

Mal a porta se escancarou, deparou-se-lhe um espetáculo que a arrepiou dos pés à cabeça. Ficou perplexa, com os olhos marejados de abundantes e sentidas lágrimas...

A mãe, procurando a filha em vários locais, não a viu e, instintivamente, apercebeu-se de que ela devia estar na adega...

Correu para lá e... aflita... juntou as suas lágrimas às da criança, que desenganchara o frio amigo, tomara-o nos braços e o embalava com ternura de mãe!...


22 de março de 2011


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Podia ser Pior!

Ao caríssimo Pe. Rodrigues


O meu venerando amigo, Padre António Rodrigues, atual pároco de Freiriz e arcipreste de Vila Verde, seu concelho natal, teve o berço na freguesia de Oleiros, no dia 17 de outubro de 1928, e é um excelente comunicador, quer no altar, quer na roda de amigos e costuma deliciar-nos com diversificadas narrativas.

Muitas vezes lhe tenho ouvido referenciar uma, que aponta um rosário de desgraças e que um ouvinte, a cada episódio mais insólito, zombeteiro, ia rematando com a frase monocórdica:

"Podia ser pior!"

Lembrei-me, então, de pegar no tema e escrever a minha própria versão...

Estava uma aprazível manhã, banhada por muito sol e cheia de alegres aves a pipilar.

A professora, uma senhora de meia-idade, que lecionava uma vintena de alunos do 4'o ano de escolaridade, decidiu sair da sala para o amplo, arborizado e bem tratado recreio, e lançar um interessante repto à turma: quem é que desejava inscrever-se para expor algo que entendesse tratar-se de um episódio extraordinário e difícil de ser ultrapassado.

Com entusiasmo, a miudagem aceitou o desafio. Levantaram o dedo seis interessados e coube ao Torcato a primeira intervenção. Eis o que referiu:

"Certa vez, em pleno e frigidíssimo inverno, um lavrador foi a uma feira de gado e comprou uma junta de bois para o amanho das suas terras, fazendo-se acompanhar por dois fiéis cães de guarda.

Fez-se noite e ele tinha de atravessar um pedaço de serra.

Meteu-se à jornada e, quando faltava cerca de uma légua para chegar a casa, saltou-lhe ao caminho um lobo, que foi repelido pelos valentes caninos, que lhe deram renhida luta, obrigando-o a retroceder e a embrenhar-se nas urzes e fragas, uivando raivosamente..." "Podia ser pior!" - disse, prontamente, a professora.

Foi dada a palavra à Noémia, que explanou:

"Um menino, no ano passado, contrariando os conselhos paternos, aventurou-se a circular de bicicleta na estrada que lhe passava junto da residência; numa descida, rolava a grande velocidade, quando, em sentido contrário, avistou um camião que se aproximava;

atrapalhou-se, guinou o guiador para a direita e entrou por um silvado dentro, sofrendo várias arranhadelas e crivando-se com dolorosos espinhos..."

"Podia ser pior!" - reforçou a mestra.

O Sancho apresentou o seu episódio:

"Dois irmãos, ao regressarem da escola, miraram, pela vigésima vez, as excelentes maçãs do bem tratado pomar, existente na berma do caminho; conferenciaram e chegaram a acordo para saltar o muro e encher as barriguinhas à medida.

De facto, comeram-lhe bem no local e ainda encheram os bolsos com os frutos mais vistosos, para entreterem os dentes e a caminhada até casa.

Nisto, ao fundo do pomar ouviram ladrar um cão, que corria para eles. O mais velho, com ligeireza, saltou para cima do muro e estendeu os braços para ajudar o irmão, não o safando, todavia, de ficar sem um razoável pedaço de pano do cu das calças..."

"Podia ser pior!" - sorriu a atenta ouvinte.

Há tempos que a Rebeca aguardava, um pouco nervosa, o momento para narrar o seu caso. E falou:

"Havia um homem que se embebedava todos os dias e, em certas ocasiões, duas ou mesmo três vezes!

A mulher bem lhe pedia que deixasse o maldito vício. Ele ia prometendo que sim, mas falhava sempre.

Um dia, saiu no fim de almoçar e, altas horas da noite, ainda não tinha regressado ao lar.

Decidiu-se, então, a boa esposa e foi procurá-lo, seguindo o trilho das três tavernas que por ali existiam.

Não foi necessário andar muito, felizmente, porque, são e salvo e a roncar como um porco, estava deitado na berma do caminho, sobre um tapete de silvas e de fetos, onde caiu, desequilibrado, ao não ser capaz de desfazer uma curva bastante apertada..."

"Podia ser pior!" - prosseguiu quem propôs a atividade.

Era, agora, a altura do Lourenço se pronunciar:

"Há uns anos, numa escola, tinha sido marcada uma visita de estudo de duas turmas a um parque zoológico.

Viajaram para o local e, a meio do percurso, o autocarro que os transportava avariou-se, não se realizando a programada visita.

Na berma da estrada, num lugar arborizado, as crianças entretinham-se a contar anedotas enquanto esperavam a chegada de outro transporte que as levaria de volta a casa.

Nisto, de repente, surgem na estrada dois javalis, que um lavrador escorraçara do seu campo de milho, à força de um grande pau.

Furiosos e desaustinados, os animais atiraram-se às crianças, distribuindo focinhadas a torto e a direito, deixando alguns feridos..."

"Podia ser pior!" - sentenciou a docente.

Apenas faltava a prestação da Delfina. A professora fez-lhe sinal para que iniciasse a sua narrativa, o que, de imediato, concretizou:

"Li há dias num antigo jornal que, há alguns anos atrás, um grande avião, superlotado, descolou de Lisboa, rumo à Ilha da Madeira, em pleno Atlântico, e, ao fazer-se à pista para aterrar, se precipitou no fundo do mar e não houve um único sobrevivente..."

"Podia ser pior!" - apressou-se a evidenciar a professora.

Os alunos estavam estupefactos, por verem que nenhum dos casos anómalos apresentados tinha convencido a interlocutora.

Neste ponto do diálogo, quase em simultâneo, formulou-se esta questão pertinente:

"Sr'a Professora! Depois dos factos que narrámos e, acima de tudo, a queda do grande avião, que enlutou tantas famílias, pelas mortes que provocou, ainda podia ser pior?!"

"Podia..." - replicou, séria e convicta, a interpelada, rematando - "Eu tinha lugar marcado para essa viagem. Os transportes que deviam levar-me ao aeroporto atrasaram-se e eu não consegui chegar a tempo de embarcar. Se tivesse apanhado esse voo..."


22 de março de 2011


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O Barrasco


O Barrasco era um porco garboso e saudável, e de se ter gosto nele, pois tratava-se de um exemplar raro da suinicultura! Olhava-se para ele e ficava-se a mirá-lo com enorme agrado: pelo luzidio, nem gordo nem magro e, mesmo já com quase cinco anos de idade, não deixara de ser um verdadeiro brincalhão.

Todos os membros da família, ao longo do seu tempo de existência, adoravam brincar com ele e mimá-lo com certas guloseimas, de que era inveterado apreciador...

Os primeiros dias de vida, porém, não tinham sido os mais famosos e, por um triz, escapou da morte.

Fora o caso que a mãe pariu dez bacorinhos, o que aliás já era costume, pois em três anteriores paridelas, na primeira teve oito, na segunda, onze e na terceira, nove.

No ano em que nasceu o Barrasco grassava na região uma devastadora epidemia, conhecida por peste suína, que vitimou um exército de semelhantes seus, quer recém-nascidos, quer médios e crescidos.

Os nove irmãos apenas sobreviveram quinze dias, já que, um após outro, foram morrendo. E até a mãe, uma porca de respeito, não só pelo tamanho, como pela saúde que sempre gozou, uma semana depois do desaparecimento do nono filho, com febres altíssimas, também não resistiu ao flagelo.

E somente ficou o Barrasco, que teve de ser criado à força do biberão.

E, para o despejar, era necessário fazer-lhe muitas carícias, porque se enojava e o leite não passava do focinho.

Depois, felizmente, começou a comer, a alimentar-se e a crescer e a engordar, mas nunca foi porco de muito comer: apreciava mais uns restinhos da mesa dos amos, do que a lavadura ou mesmo as landes...

De modo que, protegido, mimado e benquisto chegou àquela idade...

Tornou-se num porco de cobrição, tendo acasalado muitas vezes e dado origem a uma legião de filhotes...

Mas, tudo o que nasce, um dia, morre, e a vez do Barrasco também chegou, quando, em meados de um certo mês de dezembro, os amos, embora com pena, deliberaram que ele estava ótimo para a matança e que chegara o momento de espetar-lhe a comprida e aguçada faca no coração...


2 de abril de 2011


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A Velhinha e Satanás


À memória de minha Mãe


Quando eu era criança apreciava imenso ouvir contar histórias, sem olhar ao género do enredo, mas as doutrinais e de fadas eram as que mais me encantavam.

A esse tempo, eu era um privilegiado de memória, pois decorava tudo com extraordinária facilidade. Por isso, acabei por assimilar um vastíssimo reportório, transmitindo-o aos meus companheiros de infância e juventude, que muitas vezes me solicitavam e se dispunham ao meu redor, para eu repetir algumas e narrar uma ou mais que fossem novidade...

Belos tempos, tempos de ouro que não voltam... E quanto eu investiria para que pudessem voltar, santo Deus!

São montes de saudades que em inumeráveis ocasiões me povoam a mente e me embevecem por curtos instantes...

A minha querida e saudosa mãe era muito religiosa e manteve-se fiel à sua crença ao longo dos quase noventa anos de vida.

Nem era maldosa, nem gostava de dizer ou de ouvir palavrões.

Também ela armazenou um grosso leque de histórias, as quais, acima de tudo, tinham um cunho moral, em linguagem e enredo sempre suaves...

Também sabia um infinito rosário de orações, que, em qualquer momento do dia, ou então ao levantar e deitar, rezava, devotadamente. Uma, lembro-me bem, rezava-a à noite e incutiu-me o hábito de fazer o mesmo.

Essa oração era parte de uma história antiga, ouvida da boca da sua avozinha.

A minha mãe dava-lhe muitas voltas, mas eu relembro aqui o essencial:

Havia uma velhinha muito temente a Deus e que se não fatigava de O bendizer e louvar com rezas e orações.

Satanás bem queria mudar a sua crença e usava todas as artimanhas para a virar para o seu lado.

Disfarçava-se em personagens e, numa tardinha, apareceu montado num belo cavalo, bem vestido e apessoado, dirigindo palavras bonitas e mansas à boa cristã e mostrando-lhe presentes encantadores e valiosos.

"Se deixar de andar pelos cantos a rezar e a dizer orações, quanto desejar e quiser, no mesmo instante, lhe vem ter a casa". - proferiu, sorridente, o afidalgado diabrete.

Ela, porém, como cristã avisada, logo se apercebeu que era paleio infernal...

Pela força do hábito, começou, então, a benzer-se e a dizer a oração que, infalivelmente, todas as noites, era a despedida do Deus que tanto adorava:


"Eu me encomendo à luz,
à santa e bela Cruz,
ao Rei da virgindade,
às pessoas da Santíssima Trindade,
aos doze querubins,
aos doze serafins,
ao Senhor de S. Marcos,
que nos marque e desmarque,
e livre a nossa alminha
de quantos demónios há no Inferno..."

O quadrúpede e o montador começaram a crescer, a crescer e, quanto mais ela se persignava, mais eles cresciam para o ar...

De súbito, lá muito nas alturas, ecoou uma lúgubre gargalhada, seguida de um estouro colossal, começando a circular um incrível cheiro a enxofre...


16 de abril de 2011


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O Sr. Anselmo


Para o Carlos Costa e para a Custódia


Quando há pouco lia (não sei pela quanta vez) a elucidativa fábula, "Temendo a velhice", elaborada, de uma forma brilhante, por Léon Tolstoi, me veio à lembrança um episódio ainda recente, de que fui testemunha, que, em quase todos os passos, cruza com a narrativa do insigne autor russo, exceto no final...

Todas as peripécias descritas aconteceram a um simpático e bondoso cavalheiro, acrescidas de mais umas tantas patifarias, que a toda a hora se praticam nos tempos que correm...

O Sr. Anselmo, que conheci já quase octogenário, teve o seu berço numa freguesia do concelho de Vila Verde, em finais dos anos vinte, do século passado.

Os pais deixaram-no órfão, cerca das suas quinze primaveras, bem como um irmão, dois anos mais velho.

Herdou alguns haveres dos progenitores, que lhe foram entregues ao atingir a maioridade.

Aplicou esse pecúlio em diversificados negócios o que lhe proporcionou um extraordinário aumento do seu capital.

Entretanto, resolveu casar-se e, desse enlace, de que gozou merecida felicidade, nasceu um casal de gémeos. E, como a felicidade nem sempre abrange quanto se deseja, após vinte e seis anos de consorciados, a boa esposa faleceu.

O Sr. Anselmo prosseguiu, sabiamente, o seu empenho na meticulosa gerência das empresas que foi constituindo, resultando daí, progressivamente, excelentes resultados e uma fortuna invejável...

Pelos setenta anos, cansado de tanto labutar, decidiu doar tudo ao filho e à filha, pedindo somente um quarto na casa de cada um, onde pudesse usufruir de uma velhice sossegada, dividindo o resto dos seus dias, faseadamente, pelas duas famílias constituídas.

Quer o filho, quer a filha, fruto da sorte e dos bons dotes de administração das heranças, tinham auferido lucros fantásticos, dando lugar a um património colossal. Mas inebriados pela opulência e bem-estar, deixaram de prestar atenção ao pai viúvo. Nem companhia, nem amor ou carinho e, por último, nem a alimentação lhe facultavam.

Cansado da solidão e da falta de atenção, cansado de sofrer, pois até maus tratos recebia do filho, filha, nora, genro, netos e bisnetos, certa madrugada, discretamente, saiu de casa e meteu-se ao caminho. Assim, tentava libertar-se das garras do cruel Destino, que tanto o castigava, imerecidamente, e começou mendigando uns cêntimos, para sobreviver!

A família não se ralou com o seu desaparecimento.

A palmilhar léguas e léguas passou o ancião quase dois anos...

Numa certa tardinha de fim de verão, quando passava junto de um lago, feito artificialmente na bela estância turística do Bom Jesus do Monte, dá com os olhos numa moeda de dois euros!

A estância estava muito concorrida; ali, porém, não havia vivalma.

Agachou-se e apanhou o súbito achado e meteu-o no bolsinho das calças.

De imediato, com um leve e malicioso sorriso, meditou qual o fim a dar àquela dádiva, que podia tornar-se promissora...

Era domingo. Entrou num café-bar e pediu um boletim do euro milhões. Preencheu-o e registou-o, inundado de fé e de uma enorme esperança!

No fim de semana imediato, houve o escrutínio: o Sr. Anselmo foi um dos contemplados com o 1º prémio, uma meia dúzia de milhões de euros!

De propósito, não quis permanecer incógnito: soube-se que ele tinha sido um dos felizes apostadores premiados...

Ato contínuo, toda a família tentou aproximar-se dele, felicitando-o, acenando com gestos e palavras de ternura; lamentando que ele tivesse desaparecido sem deixar qualquer rasto e que não regressasse às casas que o acolhiam; que voltasse para o seio familiar, pois nada lhe faltaria; que todos o estimavam imenso; e, por onde não iam, mandavam recados a todo o instante, no intuito de o seduzir...

O Sr. Anselmo ouvia, adivinhava e ia sorrindo, afavelmente, aos hipócritas acenos de quem não soube agradecer o seu nobre gesto, quando lhes confiou o avultado produto dos negócios que efetuou, sem nada exigir em troca, senão uma velhice sossegada e carinhosa. E o desprendido gesto tinha resultado no que já se viu...

Com o cérebro povoado de imagens do tempo de empresário, dos anos de tortura que viveu nas casas dos familiares, das incontáveis léguas que calcorreou a estender a mão à caridade e com novos propósitos, dirigiu-se a um lar de idosos, como um desconhecido, onde lhe não exigiram qualquer joia de entrada, estabelecendo com ele uma prestação pequena, justa e séria.

Deus não lhe deu muito tempo de vida. Todavia, nos quinze meses que lá viveu, o Sr. Anselmo foi mimado com um tratamento carinhoso e amado como Jesus amou...

Teve, há pouco, um fechar de olhos suave, assistido com verdadeiro espírito cristão...

Constatou-se, então, que o Sr. Anselmo tinha aprendido a lição da segunda e terceira fases da sua vida, já que, quando a família se habilitou como herdeira da segunda razoável fortuna, deu-se conta de que tudo tinha sido legado em testamento ao lar que tão bem o acolheu e soube estimar...


27 de agosto de 2011


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Ajuste de Contas

No princípio da década de 1860, Tomé Fernandes, que há uns quinze anos havia emigrado para o Brasil, regressava na posse de um avultado pecúlio, porque lá mourejara honestamente e a vida lhe correra de feição.

Numa aldeia vizinha do seu torrão natal adquiriu uma extensa e bonita quinta, restaurando uma ampla mansão, que ornamentou com fino bom gosto, não descurando o conforto e o bem-estar, para residir com uma jovem e simpática rapariga, que escolheu numa conceituada família dos arrabaldes.

Casaram e, um ano depois, Deus povoou-lhes o lar com uma robusta e linda menina, batizada com o nome de Margarida e que foi criada com desvelos e ternuras sem-fim.

Pelos dez anos, inesperadamente, uma terrível peste viria roubar à menina, num curto espaço de duas semanas, mãe e pai.

Foi, então, entregue à tutela de um tio paterno, pai de quatro filhos, que orçava os cinquenta anos e que passou a administrar, a seu bel-prazer, os fartos haveres herdados pela pequena.

Margarida, entretanto, bafejada por dotes de beleza da alma e do corpo, atingira as vinte primaveras e tornara-se numa invejável e cobiçada figura.

Surgiam, em catadupa e das mais ilustres casas limítrofes e afastadas, inúmeras e aliciantes propostas de casamento. Ela, porém, delicadamente, ia rejeitando, sem revelar as fundas razões de tal procedimento.

Até que, num certo dia, perante o aparecimento de um galante e sincero pretendente que teve pronta recetividade no seu virginal coração, confessou, pedindo-lhe grande sigilo, ter sido violada pelo tio e que, se mesmo naquelas condições a aceitasse por esposa, se uniriam para gozar a felicidade a que tinham direito. Aconteceu que o tio não aceitou, de ânimo leve, a decisão da sobrinha e, enquanto esta, a todo o custo, escondia o segredo e se envergonhava do sucedido, ele, zombeteiro, na roda de amigos e até na presença dela, sobretudo quando emborcava uns largos copos de álcool, o que era usual, por certo com ciúmes e com despeito, costumava proferir:

"Bebo à saúde do primeiro!..."

Ao fim e ao cabo, saudava-se a ele próprio e à vileza cometida, de que, aliás, jamais sentira remorsos, rindo-se com visível malícia.

Margarida, com o tempo e com o amor-próprio ferido, decifrara o repetido piropo... Aconteceu também que desde a noite nupcial que ela se foi apercebendo de que o tio, pela calada da noite, como um abutre, lhe espiava a intimidade da casa.

Amava o homem a quem se entregara com todo o ardor, porque a aceitara com a sentida desgraça e odiava aquele que, além de a ter maltratado no passado, continuava a flagelar-lhe o presente sem vislumbres de qualquer mudança.

Com toda a coragem e sem nada revelar ao companheiro, foi arquitetando um plano para o punir e, certo dia, tomou uma inabalável decisão...

Depois disto, no silêncio da já batida meia-noite, vigilante, enquanto o marido dormia despreocupadamente, pressentiu a odiosa presença de quem tanto a humilhara e continuava a fazer sofrer.

Abriu, com mil e uma cautelas, a janela do quarto, voltada para uma parte privada do jardim, disparando um bacamarte, que atroou os ares e largou uma densa nuvem de pólvora e um potente chuveiro de grãos de chumbo, que acertaram em cheio no vulto intruso, especado a uma dúzia de metros e iluminado por um claríssimo luar de janeiro...

Um grito, uma queda, silêncio.

Mas o malvado não morreu. Todavia, a grande quantidade de chumbo que lhe atingiu as partes baixas, quer dianteiras, quer traseiras, inutilizou-o como homem: não só ficou impotente, como passou o resto da vida agarrado a uma bengala, de que não podia prescindir para se mover. E, claro, a prosápia, essa, morreu mesmo.


setembro de 2005


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Garras do Destino


Ao Arlindo Fagundes


Na margem direita do rio Cávado é que o abastado lavrador possuía a sua melhor quinta. Nela fixara residência, porque lá tivera o berço e se criara. De tudo e em abundância se produzia naquela imensa e bem cultivada veiga, que dava trabalho diário a cerca de uma vintena de pessoas:

algumas nativas da freguesia e outras vindas das aldeias limítrofes.

Estávamos na derradeira década do século dezanove.

O morgado da Veiga, boa figura e com um quarteirão de anos de idade, desposou uma jovem esbelta e também muito rica, de uma terra próxima.

Só ao fim de meia dúzia de anos é que o casal viu concretizar-se um sonho, que a cada hora enleava e entristecia as permanentes e intermináveis conversas.

Mas o prémio atribuído foi compensador: a mãe deu à luz uma menina bonita, qual serafim jamais visto!

Nela depositaram as mais ardentes esperanças, porque, baldadas todas as tentativas, Deus não lhes concedeu mais filhos. E eles tanto os desejavam e tinham posses para manter um rancho...

Cresceu a Raquel, assim se chamava a benquista criança, bafejada pelos mais finos tesouros de mimo, de ternura, de beleza e de graça.

Em 1916, inesperadamente, o estremecido pai foi chamado para ir combater em França. Estremeceu, afligiu-se e abraçou-se à filha, tomou-lhe, com doçura, a mimosa cabeça e, olhando-a bem no fundo dos olhos, sob um fluxo de amargas lágrimas, gemeu e balbuciou:

"Minha querida Raquel, que não te voltarei a ver... A minha partida vai separar-nos para sempre..."

Apesar da avultada fortuna e de múltiplos e influentes pedidos, não logrou alterar a terrível sentença: forçaram-no a seguir para as trincheiras da morte... Contudo, não morreu na feroz guerra, regressando dois anos depois...

E, na realidade, bem melhor fora ter perecido numa renhida fuzilaria do que acabar os dias, desconsolado, no tremendo vazio e sofrimento, que o aguardavam no seu antigo paraíso de felicidade...

Entretanto, Raquel completara dezoito anos e, quase sem dar por isso, amava ardentemente e da mesma forma era correspondida por um garboso moço, filho de uma família vizinha e respeitável, que terminara, brilhantemente, um curso de Direito, na Universidade de Coimbra.

À luz do dia e pelo luar ou escuridão da noite, sucederam-se imensos e idílicos encontros e era cada vez maior a chama que os iluminava e sustinha.

Em uma certa noite, alvoroçada, mas convicta e enternecida, Raquel tinha uma feliz notícia para confidenciar ao seu bem-amado: estava grávida!

Esperou toda a noite e todo o dia, mas ele não apareceu... E nunca mais apareceria...

Por linhas travessas ouvira que o filho do Sr. Arturinho das Levadas, como era alcunhado, misteriosamente, havia desaparecido, sem deixar uma pista que lhe seguisse o rasto.

Cismava na hipótese de ele se ter cansado dela, ou até entregar-se a outra e, covarde ou delicadamente, ausentar-se, nada lhe revelando...

Empalideceu e começou a definhar, alarmantemente. Deixou de se alimentar e de sair do quarto. Visitaram-na febres e alucinações. Ninguém a consolava.

E, numa noite ventosa e gelada de um frio janeiro, furtando-se à vigilância apertada da mãe e dos serviçais, saiu de casa, alucinada, em louca correria e, soltando um grito lancinante, precipitou-se na forte corrente das volumosas águas do Cávado, que passava a uns duzentos metros da casa solarenga...

Quando se aperceberam do seu desaparecimento já era tarde: no dia seguinte, aureolado pelo sol do meio-dia, percorridas três léguas, o cadáver, a boiar, foi recolhido perto da Vila de Prado...

Esta comovente história foi-me narrada há uns vinte anos por um septuagenário muito amigo e a propósito de uma ossada humana que aparecera em maio de 1936, na já referida quinta, quando se abria uma extensa vala, para entubar a água duma nascente, explorada numa bouça mais alta da propriedade.

"Feitas as devidas averiguações" - prosseguiu o venerando ancião - "concluiu-se que se tratava do esqueleto do filho do Sr. Arturinho das Levadas, de quem há dezanove anos se ignorava o destino. Embora o esqueleto estivesse ainda muito uniforme, o que levou à imediata identificação foi o ter-se encontrado ao peito um medalhão de oiro com o retrato dos pais..."

"E qual foi a causa da sua morte e porque se manteve assim tão sigilosa?" - perguntei, a fervilhar de curiosidade.

"Era uma época de grande fome e de muito roubo. Na última noite em que se encontrara com a moça, ao regressar a casa, com mil cautelas, dois criados, de longe, não o reconheceram, julgando tratar-se de um larápio. Dispararam dois tiros de caçadeira e deram-lhe morte repentina. Chegados junto da vítima inocente, arrepiados, reconheceram o namorado da sua jovem e estimada ama. Atónitos, envergonhados e cheios de remorsos, concordaram que a única e melhor solução era enterrar o defunto, destruir todos os vestígios e guardar inviolável segredo do funesto acontecimento..."


setembro de 2004


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Fraternidade e Amor


(...) E agora, no cemitério, sempre que lhe era possível, comida pela saudade, visitava o irmão, desfolhando as pétalas de uma qualquer flor, na desbotada tampa de granito do velho e imponente jazigo, que remontava um século atrás, mandado ali colocar pelo bisavô, que não conheceu, embora ele tivesse morrido octogenário.

Eram filhos de uma boa e abastada família rural, cristã e muito respeitada pela vizinhança e aldeias limítrofes.

Os pais há muito que já tinham falecido.

Ele, primeiro filho varão, era senhor dos terços dos avultados haveres. A irmã, dois anos mais velha, não casou e sempre dirigiu toda a parte doméstica da grande casa de lavoura. Dedicou a sua vida ao serviço de Deus e da Igreja, tendo sido componente das associações paroquiais e dedicada catequista desde os quinze anos de idade.

Era bem-parecida, cumpridora e tão apegada a tudo o que à religião dissesse respeito, que se dizia, à boca cheia, tratar-se de um modelo de santidade e exemplo de castidade a ser seguido.

Entendia-se às mil maravilhas com a cunhada e ajudara a criar os filhos do casal, aos quais queria como se fosse mãe...

As aparências, todavia, inúmeras vezes, iludem: desde criança que mantivera uma secreta relação amorosa e sexual com o irmão.

Jamais alguém desconfiou, porque tudo era natural aos olhos de quem com eles convivia. No entanto, no percurso de perto de cinco dúzias de anos a intimidade incestuosa foi bem acautelada e passou despercebida...

Ele fizera o serviço militar obrigatório e aos vinte e cinco anos casara com uma rapariga simples, muito dedicada a ele e aos sete filhos que gerou, tendo sobrevivido quatro, que receberam educação esmerada e exemplar.

Na vida conjugal, aparentemente, foram sempre muito felizes.

Ele foi sempre um excelente trabalhador, nunca se recusando a fazer fosse o que fosse, essencialmente em tarefas agrícolas, na sua extensa e bem produtiva quinta. Ao longo dos setenta anos de existência praticou o bem que pôde. Militou nas associações, coletividades e confrarias da paróquia, ocupando todos os cargos de direção previstos estatutariamente.

Pautava-se por uma invejável postura, sendo um bom homem, respeitador e respeitado, amigo de fazer bem, largamente acarinhado por todos e sensível a tudo o que o rodeava.

Foi sempre muito equilibrado no percurso do viver, quer na alimentação, nas bebidas, nas decisões que tomava, procurando ser justo, quer mesmo nas diversões, nutrindo um fraquinho por arraiais e cerimónias de cariz religioso.

Retirando algumas constipações e leves gripes gozou sempre de ótima saúde e disposição.

Cerca dos sessenta e nove anos, porém, começou a sentir-se indisposto, com dores, urinando amiudadas vezes e, em algumas, sangue. Após breves exames clínicos detetaram-lhe um cancro na próstata e já não se justificava uma intervenção cirúrgica.

Aceitou a sentença com pura resignação cristã e apenas viveu mais uns cinco meses.

Uma semana decorrida sobre o seu septuagésimo aniversário, num 13 de maio, data que ele comemorava fervorosamente, pelo grande amor que dedicava à santíssima Mãe de Deus, sem um queixume e sem um ai partiu para a última Morada, com a firme esperança de que o aguardava um glorioso Reino de bem-estar, paz e justiça...

Familiares, amigos e conhecidos foram muitos no velório.

Pela meia-noite, extenuada, a irmã recolheu ao quarto. Sentia-se imensamente debilitada. As emoções tinham sido excessivas. Quis dormir um pouco.

Aguardou largo espaço e não conseguiu. Turbilhões de imagens e de pensamentos não lhe libertavam o cérebro.

Era já madrugada alta quando pressentiu que todos tinham partido, vencidos pela fadiga e pelo sono. No silêncio, tremente e enfraquecida, percorreu a longa distância que a separava da salinha do oratório.

Devagar, empurrou a porta, entrou e encostou-a de novo. A lamparina de azeite e duas velas de estearina iluminavam, tenuemente, o compartimento. Meditou, rezou, gemeu baixinho, sempre com os olhos fixos naquele corpo imobilizado.

Depois, volvidas umas duas horas, quando os primeiros raios de luz espreitavam pelas frinchas da janela, abeirou-se da cabeceira da urna, verteu algumas grossas lágrimas, inclinou-se sobre o rosto pálido e gélido e nele depositou o derradeiro beijo de fraternidade e de amor...


setembro de 2008


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Frutificação Tardia


Conheceram-se na escola, com a bonita idade dos catorze anos, dois troncos primaveris prenhes de seiva, de ramos floridos e vigorosos. Foi um amor à primeira vista, que se solidificou e teve concretização, porque, após cinco anos de apaixonado namoro, se realizou um solene e concorrido casamento no bonito santuário, ex-líbris do seu concelho natal.

Chegados de uma prolongada e deliciosa lua de mel reassumiram os seus postos de trabalho, na firma onde ambos laboravam e auferiam remunerações muito satisfatórias para a época, já que se tratava de uma empresa desafogada, sobretudo porque apostava quase exclusivamente na exportação.

O tempo foi decorrendo e não havia sinais de descendência. Nasceram as mútuas suspeitas e acusações sobre a infertilidade. E nem um nem outro dava a mão à palmatória, nem se decidia a consultar um especialista e seguir os conselhos e terapia adequada. Nesta indecisão consumiram dez anos e tentaram aceitar a pesada sentença, que tão injustamente os punia, não os deixando gozar a felicidade da grande maioria dos casais.

Por alturas do 25 de abril de 1974 (essa maravilhosa festa de cravos vermelhos e sonhos, saudável revolução que muitos, maldosamente, desviaram dos nobres fins que a nortearam, baldando a perseverança e generosidade dos bravos capitães que a sonharam, delinearam e garbosamente promoveram), entrou a firma numa grave crise laboral, acabando por abrir falência e encerrar, lançando no desemprego cerca de duas centenas e meia de trabalhadores.

O ainda jovem e infértil casal, de repente, achara-se numa posição extremamente delicada e desconfortável. Bateram às portas de inumeráveis empresas e sempre os esperou a mesma resposta negativa. Então, como extremo recurso, surgiu a hipótese do marido poder emigrar. Muitas e sentidas lágrimas de parte a parte, rogando a esposa que a não deixasse sozinha, porque não resistiria a tão cruel separação.

"Mas não existe outra forma de resolvermos a nossa vida." - contrapunha ele, afetuosamente, acrescentando - "O mais breve quanto possível estarás junto de mim, pois é doloroso viver sem a tua amorosa companhia. Vou escrever-te e telefonar-te bastas vezes e ter-te-ei sempre bem presente no meu coração."

"Depressa te esquecerás das promessas e de mim." - retorquiu-lhe ela, profundamente triste e desconsolada.

No fim do verão ele partiu. A correspondência foi constante ao longo dos primeiros seis meses. Chegou o Natal e passaram-no cada um no seu canto. Festejou-se a Páscoa e permaneceram longe um do outro. Regressou o verão... e ele não veio...

Os espinhos, que já há tempos a feriam como gumes de aguçadas lanças, afundavam-se mais e mais e dilaceravam-lhe o despeitado coração...

Soube que ele tinha outra mulher e esperavam já um filho!

Ainda pensou surpreendê-lo em Paris e esmagá-lo com ódio e desprezo. Mas para quê, se ele se dera a outra? Se a esquecera tão depressa? Se lhe não podia dar um filho, porque agora tinha a prova de que era apenas sua a culpa... A inexistência de filhos fazia com que faltasse entre ambos um sólido e terno elo de união.

Também há muito que um outro homem lhe fazia a corte, perseguindo-a com promessas e juras de verdadeiro amor: eis a forma de vingar-se. E vingou-se, pois aceitou viver com o persistente e apaixonado solteirão...

E coisa extraordinária e milagrosa: engravidou de imediato e, cumprida a gestação, recebeu o prémio de uma gorducha, perfeita e encantadora menina! Louvado seja Deus, pelo mistério insondável!...

Como pode explicar-se que dez anos de paixão e mútuo desejo de povoarem o lar com a ternura e os alegres chilreios dos filhos, se concretizasse apenas agora e depois de tanto sofrimento! Insondáveis, os caminhos da Natureza!


agosto de 2004


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Aleivosias


O fidalgo da Casa Grande, quando a morte o levou, contava quarenta e poucos anos.

Na juventude, galopando num soberbo cavalo de raça pura, (não entendia porquê, pois era um excelente cavaleiro), foi cuspido para o meio de um silvado, ferindo, com gravidade, o membro inferior direito, que teve de ser totalmente amputado. E a partir de então, sobretudo psicologicamente, nunca mais se sentiu bem.

Como primogénito da casa, tornou-se herdeiro de uma enorme fortuna.

Era já trintão quando desposou uma rica e bonita lavradeira, de uma freguesia vizinha, uma dúzia de anos mais nova.

Nasceram três filhos, dois rapazes e uma rapariga, que eram o enlevo do pai.

Nada lhes faltava, quer mimos, quer bem-estar.

Na altura em que o fidalgo faleceu, o menino mais novo tinha completado sete aninhos.

Ora, louvado seja Deus, decorridos nove meses exatos, a bonita fidalga, agora trintona, gerava mais um rapaz!

Bichanavam as más-línguas que o menino era filho de um criado-capataz, que tinha a mesma idade da patroa, que era um homem garboso e funcionou sempre como quase senhor de tudo...

Aliás, mais tarde, foi olhando pela menina herdeira, diz-se que desde os seus catorze anos, vindo a casar-se com ela, embora contra a vontade dos dois irmãos mais velhos, que nunca lhe perdoaram a aleivosia!

Pobre como era, com tal casamento, passou a ser um bom proprietário.

Em lugar de tratar a mulher como uma fidalga, tratou-a sempre com altivez e humilhações e apenas lhe soube fazer filhos.

Quanto a ser pai do cunhado mais novo, só ele e a patroa eram detentores do segredo. Mas a verdade é que sempre se entendeu com ele como Deus com os anjos, ao invés do péssimo relacionamento com os outros dois, que não esqueceram o facto de ter seduzido e casado com a irmã e, pior ainda, os maus tratos com que a mimou até à morte, já que ela ainda por cá ficou por mais uma década...


julho de 2007


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Entre o Parecer e o Ser


A Daniela e o Flávio eram ainda jovens quando decidiram casar. Viveram felizes ao longo de uns vinte anos. Criaram um filho, que se tornou num rapaz robusto, bem-parecido e dinâmico, tendo bom aproveitamento como aluno do curso de Economia, na Universidade de Lisboa e que ajudava o pai sempre que possível.

Muito trabalhador e responsável, Flávio constituiu uma pequena empresa, da qual auferia razoáveis lucros, permitindo que a família vivesse desafogadamente.

Por razões da sua atividade profissional, inúmeras vezes, era obrigado a ausentar-se do lar, demorando-se por lá, no máximo, uma semana.

Comprara uma bela propriedade e nela erguera uma vivenda airosa e confortável.

Após dez anos de casado e arrecadadas suficientes economias, adquiriu uma casa à beira-mar, sossegada, onde passavam uns fins de semana e alguns outros dias que ele pudesse disponibilizar.

E, na lufa-lufa do dia a dia, foram passando os anos.

Talvez pelas suas ausências, bichanava-se que a esposa não lhe era tão fiel quanto aparentava... Por isso, discretamente, o marido, entristecido com os zunzuns, embora sem ter a menor razão de queixa da esposa, decidiu começar a espiá-la para tirar a coisa a limpo.

Neste jogo do gato e do rato gastou dois anos, porque os prevaricadores, se os havia, mediam os perigos do escândalo e do respetivo ajuste de contas e nunca se mostraram...

Numa certa segunda-feira de um bonito maio, quente e florido, como era habitual, Flávio saiu de casa, dizendo que tinha um compromisso no Algarve e que apenas regressaria na sexta.

Mas não foi para o local referido: ocultou-se por Braga e arredores, magicando e arquitetando uma forma de punir os amantes, caso os surpreendesse em flagrante delito.

No primeiro dia e noite, com número privado, ligou para casa diversas vezes e, ao ser atendido por Daniela, permaneceu mudo. No segundo dia, já à boca da noite, por mais que o telemóvel chamasse, incessantemente, do outro lado da linha ninguém respondeu.

O primeiro impulso levou-o à orla marítima e, de imediato, com uma condução a alta velocidade, dirigiu-se a Esposende, à casa da praia, pois tinha fortes suspeitas de que, a haver encontro pecaminoso, não havia melhor lugar. Embora perto, estacionou a carrinha de trabalho em lugar oculto. Dirigiu-se para a casa e, cautelosamente, abriu a porta e entrou. Às escuras, apurando os ouvidos e os olhos, descobriu a ténue luz de um candeeiro de mesinha de cabeceira, no quarto de casal!

Estava atónito, mas procurava controlar-se.

Um turbilhão de ideias desfilava-lhe no cérebro, ferido pela desonra, louco de ciúmes e sequioso de vingança! Que fazer? Que fazer?

Entrar de mansinho na alcova? Surpreendê-los no crime e abatê-los com meia dúzia de balas? Lançar uma bomba no compartimento e reduzi-los a cinzas? Deixar o amante ir em paz e ajustar contas com a esposa infiel, cravando-lhe um punhal no peito? Desprezá-la e eliminar o causador da sua desgraça? Gritar e publicar o escândalo? Incendiar o prédio e impedi-los de escaparem às chamas, ou fazê-lo explodir com a dinamite que usava nos seus trabalhos?...

Delirava e a cabeça parecia querer rebentar-lhe!

Apesar de tantos e tão diversificados cenários, concluía que nenhum servia os seus intentos. Era preciso castigar o malvado, fosse quem fosse, bem como aquela adúltera que ele sempre amara e que nunca julgou capaz de traição. Sim, disso tinha a certeza e estava decidido a fazê-lo. Mas quanto ao como, era preciso pensar.

Deixou que um quarto de hora passasse, encostado à parede do corredor, muito próximo do quarto. Precisava que o coração se acalmasse e o ritmo cardíaco voltasse ao seu normal. Barulho para quê? E por que se haveria de comprometer, quando, afinal, praticava um ato da mais elementar justiça? Ato que o transformava num assassino, perseguido pela justiça, se viesse a ser descoberto? Por que não fazer tudo pela calada, sem alarde, cravando-lhes, ali na cama, dois tiros de pistola? Podia até dar uma remexida nos objetos da casa, dando a ideia de um assalto...

Encostou uma orelha à fechadura e tanto lhe parecia ouvir conversa, como risos, como até ressonar despreocupadamente. Com todas as cautelas, rodou o fecho com a mão esquerda, enquanto apertava a pistola com a direita e penetrou no aposento. O espetáculo, à luz fraca do candeeiro, deixou-o petrificado, sem pinga de sangue. Cego e cambaleante, tropeçou na cama e quase caiu sobre os corpos adormecidos que a ocupavam. Ouviu-se um grito uníssono logo seguido da voz da mulher:

"Flávio, meu irmão, que fazes aqui? A Daniela não te disse da nossa chegada?"

"Desculpem, não falei com ela... Não tenho estado cá..."

"Pois, ela disse-nos que tinhas ido para o Algarve, em trabalho, mas que iria telefonar-te e que tu ficarias contente por ficarmos aqui..."

"Claro, tudo bem, claro que fico contente... Desculpem, eu é que vim aqui buscar umas coisas de que precisava... Vi luz e até me assustei..., julgando que fossem ladrões... De facto, a Daniela tinha-me falado que a vossa casa ia entrar em obras..."

"Não estás aborrecido, não, Flávio?" - era agora a voz do cunhado - "Rolámos todo o santo dia, de Paris, apenas com breves paragens e chegámos tão cansados que nem quisemos comer. A Daniela, que é o anjo que tu conheces, veio trazer-nos..."

"Trazer-vos? E então o vosso carro?" - argumentava já Flávio com o bicho do ciúme, de novo, a atormentá-lo.

"Está à tua porta. A Daniela achou que estávamos cansados, ainda nos fez a cama e, para te dizer a verdade, já não conhecíamos muito bem o caminho." - dizia a irmã. - "Tu também me pareces cansado, meu irmão. Vai, vai deitar-te. A tua mulher deixou-nos aqui nem há meia hora, ainda a vais encontrar a pé."

"Sim, estou mesmo cansado... Amanhã falámos, fiquem com Deus e desculpem a invasão... Desculpem..."

Flávio fechou a porta do quarto e alcançou a rua, rapidamente, como se voasse. Com efeito, sentia-se leve e de coração tão liberto que, de repente, deu consigo a assobiar uma conhecida melodia, enquanto rodava a chave para abrir a carrinha...


outubro de 2007


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Justo Proceder


Vilaverdense de gema, bom homem e simpático, o Luís Filipe orçava pelos quarenta e dois anos, quando resolveu deixar a Suíça de vez, para onde havia emigrado aos dezassete.

Vindo passar férias, no arraial da festa de Santo António, conheceu Leonor que habitava numa freguesia próxima e, no ano seguinte, ele com vinte anos e ela com dezasseis contraíram matrimónio.

Leonor era uma bonita rapariga e Luís Filipe ambicionava proporcionar à esposa e aos possíveis descendentes melhores condições de vida.

Contava que a companheira se lhe fosse juntar, logo que tivesse alojamento condigno, objetivo não concretizado, sobretudo porque ela nunca mostrou vontade de o acompanhar, nem de renunciar ao aprazível viver e despreocupações que desfrutava no torrão natal, donde (e ninguém sabia bem porquê) não desejava sair.

Assim, ele vinha matar as saudades, no mínimo, uma vez por ano.

Leonor não parecia muito disposta a ter filhos. Decorrida, porém, meia dúzia de anos deu à luz uma gorducha e bem-parecida menina.

Marido cá, marido lá, a criança foi educada pela mãe sem quaisquer bons princípios: não a acarinhava; desmazelava-se com tudo o que lhe dissesse respeito; não se importava com o que ela fazia; não lhe corrigia os maus hábitos e birras. E, à medida que a menina crescia, não a vigiava nem se ralava com as companhias por ela escolhidas.

Muito cedo começou a frequentar discotecas e outros locais nada aconselháveis para a sua idade, adquirindo sequelas e vícios difíceis de curar.

Era voz corrente que Leonor jamais fora uma esposa fiel, já que, desde os bancos da escola, se entendia com um primo, da mesma idade.

Por isso se bichanava que a Vânia em nada se parecia com Luís Filipe e que era fruto das ilícitas e nunca interrompidas relações amorosas.

As más-línguas badalavam, mas, diga-se em abono da verdade, no tocante a não ser Vânia legítima filha do emigrante, era mentira.

Parece que o primo alimentava tal esperança, tendo ambos chegado à conclusão de que um deles era estéril.

Passada, então, cerca de uma vintena de anos, senhor de um belo pé-de-meia, que juntara com esforçado e sério trabalho, Luís Filipe regressou definitivamente ao lar, para gozar, com a família, um fim de vida calmo e sem preocupações...

E, estupefacto, encontra grávida a jovem filha de quinze anos, viciada na droga e desamparada pela mãe.

Amava verdadeiramente Vânia e decidiu protegê-la e remediar o que ainda fosse possível.

Leonor continuava abstraída da grave situação a que chegara Vânia e, em lugar de apoiar os propósitos do marido, contrapôs que o melhor era expulsá-la de casa, que ela fosse viver com quem a engravidara ou com quem partilhava dos seus muitos vícios.

Encolerizou-se o marido, sensível ao estado dramático da adolescente e ao menosprezo que a mãe ostentava, proferindo:

"Foste e és uma mãe degenerada, Leonor, porque, na minha ausência, deixaste a nossa filha crescer no vício, carente de amor e sem um acompanhamento sensato. Filha que andou ao deus-dará e a quem negaste conselhos e proteção nos momentos cruciais da sua infância. A Vânia fica. Quem deixa a casa, já e para sempre, és tu..."


agosto de 2007


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Implacável


O Vieirinha, como lhe chamávamos, era um excelente amigo. Apreciava os convívios e umas boas merendolas, tendo em conta que era obrigatório e salutar estas serem bem regadas e até, de preferência, com o melhor verdasco!

Funcionário público, caçador desde os vinte anos, gostava e patrocinava muitas confraternizações, ora contribuindo com uns pombos, perdizes, coelhos ou lebres, produtos do seu passatempo predileto, ora com uns salpicões, chouriços, lombos de porco, galos caseiros ou bifes de boi, géneros comprados ou que lhe ofereciam, como reconhecimento de muitos jeitos que praticava dentro e fora do seu emprego.

A verdade é que sempre aparecia com qualquer coisa para comemorar o que quer que fosse...

Diversas vezes participei nesses amigáveis e prolongados encontros, de que guardo boas recordações.

Ora, o Vieirinha era, efetivamente, um parceirão, mas, quando os vapores das abundantes pingas ingeridas lhe subiam à cabeça (e ele fazia questão de que isso fosse sacramental no fim de qualquer borguinha), tínhamos o caldo entornado, porque ficava impertinente, pegajoso, insolente e intratável, mesmo com os amigos que, na maior parte dos casos, fingiam que tudo estava bem e iam engolindo sapos e farrapos...

Para a caça, os companheiros de ofício, a fim de se não aborrecerem, evitavam fazer parte da sua equipa, já que não havia conta das ocasiões em que armou forte briga!

Tentavam os comparsas sempre deitar água na fervura e sanar os desacatos, sendo que muitos deles aconteciam com pessoas desconhecidas e que, permanentemente, em nada contribuíram para a situação e, muito menos, eram culpados.

Num fim de semana de um novembro de há uns vinte anos, integrado num grupo de mais seis, foi caçar para perto de Bragança. Na noite de sábado para domingo cearam e pernoitaram numa pensão onde, aliás, já era tradicional fazerem-no.

Como de costume, comeram bem, regaram melhor e, confortados pelo calor da grande lareira crepitante, que fazia esquecer o intenso frio que lá fora exigia adequados agasalhos, formavam mesadas e jogava-se, barulhentamente, a sueca, sem que a noite tivesse cancelas.

Era uma ótima forma de gastar o tempo, de conviver e de emborcar mais uns largos tragos, para contento das canecas que não tinham sossego, estabelecendo o circuito entre a adega e os convivas animados!

De repente, e visto isso sem razão, destacou-se a voz do Vieirinha, nervoso e malcriado, discutindo com o dono da casa. Palavra puxava palavra e o vinho do hóspede ofendia o brio e dignidade do anfitrião, chegando mesmo o primeiro a oferecer porrada e ameaças de morte...

Como os presentes interviessem com rogos de pacificação, os ânimos arrefeceram e tudo pareceu ficar apaziguado...

Todos recolheram aos respetivos aposentos para um merecido descanso.

Pela madrugada, no silêncio que habitava a pensão, ouviram-se, no espaçoso corredor, dois tiros de espingarda, desconexas imprecações, um urro atroador, um gemido rouco e o som da queda de um corpo desamparado, no velho soalho de castanho: e o Vieirinha já era um cadáver...

Chamada a autoridade, e sem uma hesitação, declarou o proprietário que o hóspede, com uma navalha, procurava abrir-lhe a porta do quarto, onde descansava com a esposa e onde permanecera de ouvido alerta, devido às sérias ameaças proferidas no fim da ceia e que a única solução, para não ser liquidado, fora tomar aquela atitude momentânea e extrema, crivando-o com dois chuveiros de zagalotes...


novembro de 2004


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Um Ato Reprovável


(...) A mãe, como sempre, não abriu a boca...

O pai, porém, com as faces marejadas por grossas lágrimas e com a voz rouca e embargada, fitando Elton, bem de frente, com um olhar incrédulo, duro e reprovativo, segurando-lhe, com firmeza, o pulso ensanguentado, proferiu:

"Porque foste tão cruel? Não há perdão para um ato destes: terás o castigo que mereces, porque, embora muito triste e magoado, não sinto por ti pena alguma. Vou fazer o que deveria ter feito há muito tempo: entregar-te às autoridades competentes, a fim de seres julgado e severamente punido, por tão horrendo crime... Sempre reprovei as tuas más ações, mas estava longe de pensar que serias capaz de praticar esta monstruosidade!..."

É bem recente (e infelizmente igual a tantos) o episódio que me proponho narrar.

Numa aldeia minhota, nos arrabaldes de Braga, vivia um casal de meia-idade, com um filho de catorze anos.

Agricultores remediados e trabalhadores, praticavam uma lavoura ativa e mecanizada, auferindo excelentes frutos da sua perseverança.

Albano era um bom homem, muito religioso e pacato, que pensava mais nas lides agrícolas do que naquilo que se desenrolava à sua volta. Queria ser um bom pai, mas esbarrava sempre com o feitio de Joana, que em tudo defendia o filho.

Neste clima foi a criança crescendo, bafejada com todos os mimos, vícios e vontades satisfeitas.

A mãe achava imensa piada às asneiras praticadas a toda a hora e instante. E, se Albano o repreendia, por achar que eram ultrapassados os limites do razoável, filho e esposa uniam-se para o desautorizar e não ouvir os justos reparos.

A mãe, portanto, permitia que Elton cometesse toda a espécie de infrações, rindo sempre das suas tropelias e pagando, sem regatear, às escondidas do marido, os prejuízos que ele causava, não havendo lugar para admoestações ou castigos.

Muita gente se queixava e dizia que ele era um maroto e malcriado, mas em vão, pois a atitude da mãe não se alterava.

Quando lhe era dado assistir às birras do pequeno, Albano discordava daquela forma de agir. A mãe, todavia, teimosamente, argumentava e levava sempre avante as suas condescendências.

Por uma linda tardinha estavam os três no amplo e mimoso quintal, contíguo à bonita e confortável vivenda. Preso à corrente estava um corpulento e estimado mastim, que ladrava e fazia rompidas, para afastar um bando de galinhas que, à procura de bicharada, se aproximava do seu território. O adolescente, colérico, munindo-se de um fueiro, ali ao seu alcance, inesperadamente, bradou:

"Está quieto e calado, estafermo, que te racho essa cabeçorra!"

"Deixa lá, rapaz: o bicho está a cumprir o seu dever; assim cumprisses tu os teus." - falou brandamente Albano.

"Ele já sabe que come a valer." - e deu a primeira fueirada no inocente canino.

"Já te disse que não bulas com o pobre animal." - prosseguiu Albano, agora mais azedo e surripiando-lhe o pau, que descia para novas agressões.

A verdade seja dita: o fiel guardião não gostava do moço que, a propósito de tudo e de nada, lhe fazia judiarias; por isso lhe rosnou, pelo eriçado, ficando de pé, firme nas patas traseiras.

Despojado da arma de madeira, o agressor, com extraordinária agilidade, meteu a mão ao bolso direito das calças; ouviu-se um estalido metálico e enterrou a longa e afiada lâmina de uma navalha de ponta e mola no esófago do possante acorrentado, que soltou um uivo estridente, espumou de raiva, esbugalhou os olhos, contorceu-se no chão com dores, gemeu, gemeu e expirou nos braços de Albano, que o levantou, na tentativa de o salvar...


abril de 2006


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Dramas que o Destino Tece


Lúcia e André conheceram-se no liceu e caminharam, lado a lado, até à conclusão do curso de Filosofia, na respetiva faculdade. Amaram-se, ardorosamente e, a meio do curso, resolveram consorciar-se.

Diplomados, cada um conseguiu um posto de trabalho e desfrutavam de uma vida folgada, financeiramente, frequentando o teatro, o cinema, as casas de fado e de dança, bem como outros eventos culturais e de diversão.

Amavam-se, com efeito. Lúcia, porém, ao invés do marido, não desejava ter filhos, porque dizia serem um estorvo para os agradáveis passatempos e até mesmo para a felicidade de ambos.

Amavam-se, mas ao fim de meia dúzia de anos de casados, de quando em vez, e depois, com frequência, começaram a ter quezílias.

A verdade seja dita: Lúcia era meiga e afeiçoada ao marido, mas principiou a desconfiar que o mesmo não sucedia da parte dele.

E isto porque André começou, às vezes, a sair sozinho à noite; depois, mais amiudadamente e, a partir de determinada altura, noites a fio...

O ciúme não se calou e fervilhava, atordoadamente, na cabeça de Lúcia.

Humilde e apaixonada rogou-lhe que a tratasse com a ternura e delicadeza de outros tempos.

André ia prometendo que sim, que sim, que eram afazeres profissionais, aliás para benefício do casal, que o obrigavam àquelas noitadas e que nunca deixou de a amar...

Prometeu-lhe ela, suplicante, deixar-se engravidar, para lhe mostrar o quanto lhe queria...

Que sim, que sim, que tudo iria voltar ao antigamente, retorquia-lhe o marido.

E cada noite entrava em casa mais tarde...

Lúcia sentia que estava a ser traída e decidiu espiá-lo.

Descobriu, então, que André tinha uma amante ainda jovem e que já tinham um filho que há pouco completara um ano de idade...

Foi um golpe terrível, um enorme balde de água gelada, mas ainda lhe perdoaria se ele se arrependesse e lhe devolvesse o carinho e companhia de outrora...

É que, apesar dos espinhos que tanto a feriam, ainda sentia amor por ele...

Em vão, todavia, aguardou, santo Deus, mas André não largava as saídas noturnas.

Lúcia, amesquinhada, soluçou, carpiu, disse mal do viver vazio que, cada vez mais, a arrastava para o abismo e tomou uma decisão inabalável...

Acontecia, porém, que o marido estava prestes a voltar para ela definitivamente, já que, nos últimos tempos, o relacionamento entre ele e a amante era péssimo e o que ainda o levava a visitá-la era o filhinho que muito amava.

Naquela noite, que iria ser a última, dado o rumo que as coisas, de repente, tomaram, com os ânimos exaltados ao rubro, tiveram uma acesa e séria discussão, trocaram acusações e ofensas gravíssimas, forçando-o a dizer que a detestava e que nunca mais ali voltaria.

Abeirou-se da caminha da criança, que dormia um sono sossegado, beijou-o e entregou à mãe a chave que possuía do apartamento, saiu, bateu a porta com estrondo e foi vaguear pela rua deserta, não conseguindo coordenar o turbilhão de ideias que o afrontava...

Era madrugada alta quando chegou à sua residência, a fim de repousar um pouco, até chegar a hora de levantar-se para ir trabalhar. Depois, nesse dia, quando regressasse do emprego, despido da arrogância e da falsidade que tentava impingir no reto coração da esposa, teria uma conversa franca com ela, até poder convencê-la de que o seu firme propósito de emenda era sincero e, sabia, bondosa como era, seria perdoado, voltariam a ser felizes e ele readquiriria a paz.

Introduziu a chave na fechadura, como habitualmente, mas ela não rodava.

Por diversas vezes repetiu o ato, mas em vão, porque o resultado não se alterou...

Bateu, com leveza, na robusta porta e, em seguida, já nervoso e descontrolado, bateu mais fortemente. Esforços baldados.

Pegou no telemóvel, ligou para o número fixo de casa e para o celular de Lúcia. Ninguém atendeu...

A fiel e dedicada esposa, finalmente, tinha tomado uma drástica decisão, porque concluíra que nada mais havia a esperar de André e se certificou que ele, no futuro, não abandonaria o estilo de vida que há tempos levava...

Nessa noite, resoluta, mudou o canhão da fechadura da porta de entrada, com a decisão inabalável de jamais permitir que o marido pusesse os pés naquele lar de sofrimento e de respeito...


setembro de 2010


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