Narrativas


ÍNDICE


O passeio de Motorizada

Uma Fraterna Reminiscência

Algumas aventuras do Pluto

A Cantarinha Escacada

A Cana do Foguete

Um Rei Obsessivo

Um Fora-de-Lei

A Lavandeira Maria

Um Imbróglio

A Imagem

A Vitelinha Barrosã

Moreninho, o Anãozinho

A Generosidade do Lininho

Barriga D'Água-Pé

Um Tiro por uma Pinga

A Pedra com Inscrições

A Encomenda

A Nogueira

Adeus Eterno

Ajuste de Contas

Garras do Destino

Inesperado

Naufrágio

Um Acto Reprovável

Aleivosias

Fraternidade e Amor



O PASSEIO DA MOTORIZADA

Aos amigos intervenientes desta nostálgica narrativa




Quando na tarde do dia 21, deste mês de dezembro, fui convidado pelos membros da Direção da Associação Social e Cultural de Sobreposta para estar presente no salão da Sede da Junta de Freguesia (honrando-me com uma gratificante homenagem), o Fernando Marques Mendes (Fernando das Eiras) efetuou uma amiga e competente apresentação, quer sobre a minha obra poética, musical e de ficção, quer de cunho pessoal.

Afloraram-me à memória inúmeros episódios em que ambos fomos intervenientes e vou expor, neste desfiar de nostalgias e ternuras, uma curta amostragem, pois mencionar todos os eventos daria um volume de apreciável dimensão...

Quedar-me-ei essencialmente no enfoque de uma das últimas peripécias em que fomos ativos atores, juntando um aperitivozito, que sabe sempre bem degustar, como preâmbulo, ao que me proponho rabiscar...

O Fernando leva-me de avanço, na idade, um ano e alguns meses, mas emparelhámos em diversificados cenários. Ele Frequentava o seminário e eu os colégios especializados na minha deficiência visual (primeiro na cidade do Porto e, posteriormente, na Linha do Estoril), pelo que apenas nos encontrávamos e convivíamos nos períodos de defeso das aulas. Sobretudo nas férias grandes, quase sacramentalmente, na cozinha do rés-do-chão da venda do seu tio Augusto Mendes, jogávamos as cartas forte e feio, até à exaustão; iniciávamos após o simpático merceeiro encerrar as portadas e, às vezes, só desabancávamos quando os primeiros raios de luz, ou mesmo do sol, invadiam o aposento onde nos entretínhamos!

A equipa, invariavelmente, era formada por mim, pelo Fernando, pelo seu primo, também Fernando e filho da casa, e pelo Zeca do Loureiro. O Justino, também um dos dez descendentes do dono do estabelecimento de mercearia, vinhos e petiscos, era o nosso braço apoiante, porque preparava as remessas de champarrion, o vinho do Porto ou uns traçadinhos - uma mistura de bagaço com vinho do Porto (Ah, é verdade: o Fernando das Eiras não ingeria álcool, compensando com umas laranjadas e sumol) -, os amendoins, os figos de seira, as bolachas e rosquilhos, as punhetas de bacalhau, as saladas de atum… E, pelo seguro, também, quase sempre, assentava os jogos e as partidas...

É que (aqui para nós, que ninguém nos ouve) os três comparsas eram uns habilidosos e... uns batoteiros no jogo de primeira apanha, sobretudo os dois Fernandos...

Recordo-me perfeitamente de, numa certa ocasião, o Fernando das Eiras dar cartas e o Zeca, sub-repticiamente, lhe gamar o duque de trunfo, que foi o que lhe coube, devido ao macete que o outro Fernando tinha feito. Houve a primeira puxada de trunfos e, exibindo um semblante de gozão, o Fernando mostrava-se admiradíssimo por não poder servir à pinta e, está claro, por aferir que lhe surripiaram o morgadinho do naipe e lá lhe enfiaram uma outra carta qualquer!

Como referi, o Justino é que providenciava o cumprimento dos contratos que estabelecíamos para cada porrada de partidas, ora à sueca, ora ao king. E ainda hoje, recolhido, sinto vontade de me escangalhar a rir, lembrando uma brincadeirinha inocente:

Fora o caso que, numa já adiantada matina, os dois perdedores tinham que pagar duas latas de atum, uma cebola, os trigos, a indispensável remessa de champarrion e, por acréscimo, o refresco para o Fernando... Cabiam, por regra, duas sanduíches a cada conviva (aqui, o Justino também usufruía de um quinhão do saboroso petisco). A páginas tantas, solícito, provocador e manhoso, o Fernando das Eiras interpelou-me:

"Ó Zezinho (às vezes tratava-me assim, o que significava lixadela ou canelada, está visto!), vai mais uma sanduichezita?!..."

"Então não vai, companheiro!" - que, àquela hora, vinha sempre a calhar...

O Justino, que também pegava bem ao pálio, como se costuma expressar o sábio povo, meteu-me na mão um trigo bem recheado. Gulosinho, dei umas trincadelas e somente me chegavam aos queixos uns bocados de cebola, regadinhos no molho apetitoso... Fui avançando, esperançado de que não tardaria a abocanhar uns nicos do peixe teleósteo! Qual quê?, levei a empreitada até à última migalha e, quanto ao desejado..., nicles!

"É a primeira vez na vida que devoro uma sanduíche de cebola!" - exclamei, pressentindo os abafados risinhos da malta, que então se converteram em uníssona e sonora gargalhada!...

Exposto este aperitivo, lá vai então o conduto.

Uma das peripécias que me visitou a mente durante o aludido discurso do Fernando, foi o convite deste para uma ronda de motorizada, no fim de uma tarde fria, nas férias da Páscoa, creio que de 1968, quando, por coincidência, nos encontrámos no terreiro da venda do snr. Mendes:

"Zezinho, queres ir dar um passeio comigo a Briteiros? O meu pai empresta-me a motorizada e vamos de ‘cu tremido’!..."

Entusiasmado e com agrado, respondi de imediato afirmativamente.

A mãe do Fernando é natural de Santa Leocádia e tinha, em Briteiros, uma família de parentes muito próximos, na casa do prof. Marques, que procriara um rancho de filhos (o que também sucedeu na casa das Eiras, pois o Fernando é irmão de mais três rapazes e dez raparigas!).

O Fernando era visita costumeira dos primos briteirenses. E eu também me entendia com eles como Deus com os anjos...

Prosseguiu, então, o meu amigo interlocutor: "Vai andando até ao se Daniel e espera lá por mim, que eu só vou a casa buscar o veículo.”

Desci os quase duzentos metros da EN 309 e estacionei no passadiço de pedra da entrada para a casa da Figueira. Quase ato contínuo, escutei o ruído de um motor e, com mais uma aceleradela, o meio de transporte postou-se ao meu lado. Satisfeito, o meu parceiro ordenou: "Monta!"

O motor roncou até à curva antes dos antigos e toscos bancos da Citânia, mas a partir daí, como o resto do percurso era sempre a descer, e bastante, rolámos em silêncio, na poupa, como é hábito dizer-se.

Arribados ao almejado destino, preenchemos o tempo com muito paleio, muita música, uns petiscos… Era já madrugada alta quando o condutor se decidiu a realizar a viagem de retorno... Trepámos para o comprido assento do motociclo e, ala moleiro, que já não é nada cedo!

Um meio quilómetro após termos começado a subir, trrrrr... Apagou-se o motor e estacou a motoreta! O timoneiro deu ao “quics”, tornou a dar e repetiu, mas prevaleceu o silêncio noturno e o frio era de regelar os ossos!...

"Acabou-se o combustível! O meu pai avisou-me e eu contava ir abastecer no Cavaca (um garagista vendedor e consertador de bicicletas e motorizadas - por sinal pertíssimo do local onde confraternizáramos), mas descuidei-me... Vamos a butes: eu guio e tu empurras..."

Era um frete medonho, porque até depois dos bancos (um bom pedaço), havia uma subida e peras! Para além de que, para cortar a meta de chegada, tínhamos pela frente uns bem medidos quatro quilómetros! Não havia, contudo, outro remédio...

Contornámos a volta grande (agora alargada, mas que à época era um gancho estreito), ladeámos os fornos crematórios e os bancos e, atingida a primeira fatia plana, o chefe de equipa parou e, com um risinho maroto, anunciou:

"Até à curva antes dos marcos dos Moleiros não precisas de empurrar..."

Ultrapassámos a Bugalha e, antes da dita curva, reiniciei o empurrão. Quando apareceu a retazita plana da Veiga, lá descansei, um pouco mais, o cangalho...

Perto do Penedo da Seara, afeiçoei-me ao derradeiro estirão, que teve o seu término com a chegada ao ponto de partida, por volta das quatro da matina!

Quedámos junto da casa do se Daniel e, antes da despedida, com falas escarninhas, rematou o anfitrião:

"Que belo passeio, Zezinho!"

"À pata! Deixa-me é dar às de vila-diogo, que está um briol de rachar..."

O Fernando apontou a roda dianteira para a íngreme cangosta do lugar da Vinha, apeando, são e salvo, no espaçoso quinteiro da casa paterna...

E eu lá palmilhei a distância que me separava da casa dos meus bons pais, implantada na subida do lugar do Monte, que conduz ao atual Campo de Futebol sobrepostense...




29-30 de dezembro de 2014

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UMA FRATERNA REMINISCÊNCIA

Nas inúmeras romagens nostálgicas que enceto à minha firma identitária, recuei, hoje, meio século atrás, ao tempo tão feliz em que tive o privilégio de conhecer e com quem intensamente convivi durante cerca de um lustre de verões - o consagrado escritor José Manuel de Melo Antunes Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores desde há anos.

Foi, na verdade, um período doirado da minha adolescência, que me marcou para sempre, pois muito do que, presentemente, sei e pratico no campo literário o devo a tantos e tão salutares momentos, vividos na casa do sr. Augusto Mendes (proprietário do espaço comercial "Mercearia e vinhos de Augusto Mendes", desde 1935, altura em que semelhava um verdadeiro hipermercado).

Antes de entrar propriamente no tema que me move nesta gostosa digressão, e ainda como introito, não posso deixar de vincar que, desde quase menino de fraldas, frequentei a residência dos tios do José Manuel. Desde sempre me uniram laços de franca e boa amizade, não apenas ao unido casal, como ao rancho dos dez filhos que foram vindo ao mundo, todos educados com esmero e espírito cristão.

Fui sempre estimado como se de um lorde se tratasse e à simpática Dilinha (Maria Adília), sobretudo, quis-lhe, e lembro-a agora, ternamente como uma segunda mãe.

Na mesma linha de pensamento coloco a mãe do José Manuel, que só conheci em 1961, meses após ter regressado de Angola.

Natural da vila de Póvoa de Lanhoso, oriunda da conhecida família Melo (comerciantes de alfaias e produtos agrícolas), matrimoniou-se com o sr. Joaquim Antunes Mendes (um dos três filhos varões da casa dos Pedreiros), indo residir em Luanda, na rua Serpa Pinto, n.º 9, onde deu ao mundo, em 9 de setembro de 1948, o José Manuel e, menos de dois anos volvidos, o irmão Fernando.

Na década de cinquenta, perante uma foto da Lininha (Maria Adelina) e de um cavalheiro, ouvi os primos apontá-lo como o "tio Joaquim", que estava em África... O estremecido pai do José Manuel deixou, precocemente, a vida terrena e veio a sepultar no Campo Santo sobrepostense, onde repousa em jazigo de família.

Depois de ter eclodido a mortífera e fratricida guerra civil angolana, a extremosa e abalada mãe, muito doente com a dor da morte do marido, quis deixar África, regressar ao seio familiar e prosseguir por cá a educação dos filhos. Desde o momento em que me conheceu (já eu tinha perdido a luz dos meus jovens olhos) e durante os vários anos que com ela convivi, sempre me tratou com afeto e ternura, regalando-me com almoços quer em Lageosa, quer na residência da rua de S. Vicente, em Braga, a par de incontáveis sandes de variadas compotas, que ela confecionava com perícia e fino bom gosto... Não posso pois de deixar de guindá-la ao mesmo patamar a que elevei a irmã e cunhado...

Desfiado este prelúdio, mergulho de imediato no assunto a que me propus...

Foi no início da década de sessenta que, pela primeira vez, estabelecemos contactos pessoais. O José Manuel passava todo o tempo enfiado num dos quartos da espaçosa casa dos tios e, quando não se entretinha com jogos e brincadeiras, escrevia e lia sem parar. E era para lá que, nos períodos de férias, sacramentalmente, todos os dias, de manhã e de tarde, eu me encaminhava para aprender a gostar e a beber cultura...

E era nesse quarto que, na maior parte das ocasiões, a sua boa mãe nos servia um saboroso lanche, sempre acompanhado por uma espirituosa pinga de verdinho, tinto, libertada das leivas da pipa que estivesse a correr, para venda aos imensos e aficionados clientes do bondoso tio Augustinho...

Eu ficava estarrecido com quanto me era dado escutar daquela incomensurável fonte de sabedoria! E, quanto mais imergia nos tesouros que me eram expostos, mais e sempre mais ambicionava saber. E o meu interlocutor nunca se absteve de me brindar com o imenso pecúlio que guardava no seu inesgotável cofre intelectual...

Preparava-me diversificadas sessões de leitura: ora saía à cena um romance, ora um livro de poesia, de contos, de teatro...

E eu, sempre curioso e ignorante, questionava sobre vocabulário, ideias, frases, conteúdos... E, sempre imbuído de enorme paciência e sapiência, sem vaidade nem egoísmo, o José Manuel esclarecia-me todas as dúvidas...

Quando o conheci já ele possuía uma biblioteca apreciável. porém, colocava-me, todos os anos, ao corrente do catálogo das últimas aquisições.

Malogradamente, em 1969, deflagrou um incêndio que lhe devorou a primeira biblioteca e os já muitos "arquivos" dessa época. E guardo bem na memória que, de vez em quando me dizia que tinha que dar um salto a Braga, para arquivar os títulos já devorados e trazer mais uns quantos reforços. E, atrevo-me a revelar uma inconfidenciazita: nessas idas à cidade, de camionete, os livros iam camuflando o desejo de se encontrar com uma certa namorada, que ao tempo lhe incendiava o coração...

Na poesia, brindou-me com a obra de Florbela Espanca, que ele muito apreciava, incutindo-me o mesmo enlevo... Mas, na poética, leu-me igualmente Antero de Quental, João de Deus, Augusto Gil (poesia e ficção), Guerra Junqueiro, Miguel Torga, José Régio, Almeida Garrett (com a leitura de toda a obra dramática e das "Viagens na minha terra”), Fernando Pessoa, Soares de Passos, António Nobre, Bocage, Camões, Geraldo Bessa Vítor (um poeta angolano que eu desconhecia por completo e de quem ouvi, a meu pedido, repetidamente, o título "Cubata abandonada")...

Na prosa, foi-me dado absorver Fernando Namora, Ferreira de Castro, Eça, Júlio Dinis, Aquilino, Camilo, Vergílio Ferreira...

De autores estrangeiros fez-me amostragem de um considerável leque de prodigiosas criações!

Um outro regalo com que me mimava era ditar-me, para eu transcrever para o sistema Braille, as poesias de que eu mais gostava. E guardo-as, em páginas velhinhas e puídas, como preciosas e inestimáveis relíquias!

Quase todos os dias, também, me exercitava na escrita poética, ensinando-me as rimas, a métrica, a acentuação tónica, os diversos tipos de estrofes... E o meu querido Mestre e amigo não se quedava por aí: obrigava-me a treinar! Engendrava um tema e dizia-me: "Vamos criar uma quadra, dizendo cada um, alternadamente, um verso".

Ele principiava, eu prosseguia e, vezes sem conta, ia emendando as minhas prestações. Da quadra passámos para outros tipos de estrofes e, por fim, para o soneto... Os temas, ora eram coisas sérias, ora brincadeiras patuscas e hilariantes, sendo notável a mestria com que me corrigia e aperfeiçoava...

As leituras, em certos momentos de prendimento, prolongavam-se pela noite dentro. E quando eu não pudesse comparecer (o que era raríssimo), o atento e nada invejoso companheirão virava-se para outras empreitadas e apenas com a minha presença se dava seguimento à leitura, partindo do ponto interrompido...

E tão enlevantes tertúlias centuplicaram-se e produziram frutos abundantes e sazonados... Eis uma das principais razões porque hoje, com destreza e particular sensibilidade, manejo a intrincada e subjetiva linguagem da alma!

Nos ciclos díspares e dispersos da vida, cada um vai trilhando o seu percurso e cada um, inevitável e naturalmente, seguiu assim rumos distintos.

Do colégio no Estoril, remetia longas missivas ao José Manuel, que sempre tiveram retorno, não tendo, pois, apesar do afastamento físico, deixado de se reeditar, quando oportuno, uma sucessiva e enriquecedora troca de ideias e pensamentos.

Não posso, também, deixar passar em claro um dos factos mais relevantes da minha existência, em que a intervenção do José Manuel foi fulcral:

Fora o caso que, no início de 1970, numa das salutares permutas de impressões, ele inquirira:

"Sei que fizeste o curso de telefonista na Companhia dos Telefones, no Porto, que estagiaste na Administração dos Portos do Douro e Leixões… e quanto a emprego, como estamos?..."

"Existem algumas promessas..."

"É que eu tive uma ideia: a direção do Rotary Clube de Braga tem efitivado umas coisas, no sentido de resolver problemas a cidadãos carenciados; vou escrever-lhes uma carta, colocando os teus justos anseios na obtenção de um posto de trabalho como telefonista..."

Desinibido como era e consciente do que o seu nome já representava, fê-lo de imediato.

Ao tempo, era presidente dos rotários bracarenses o snr. Maurício Pires, um dos donos da conceituada Ourivesaria Pires, estabelecimento sediado na rua do Souto, que, por meados do mês de abril, ligou para o então único posto público de telefone que existia pelas minhas bandas, na venda do sr. Augusto Mendes, solicitando a possibilidade de me contactar. Logo o solícito merceeiro me mandou chamar, para atender o esperado telefonema. Era simpático e delicado, e acertou levar-me, no dia seguinte, a uma entrevista.

Conduziu-me à Fábrica de Malas Rodovia, na av. da Imaculada Conceição, onde fui recebido pelo gerente, o snr. José Artur da Rocha Peixoto (primo carnal do meu estimado amigo médico Manuel da Rocha Peixoto). Feitas as costumeiras apresentações, o Zé Artur (como gostava de ser tratado) mostrou-me um primitivo PBX e questionou:

"O Zé Fernandes sabe trabalhar com este equipamento?..."

"Sei, mas é necessário ser retirada esta régua para eu poder tatear os "olhos de boneca”...

"E onde está o problema?!..."

Pediu uma chave de parafusos e ele mesmo realizou a remoção do obstáculo. Efetuada meia dúzia de bem sucedidas demonstrações, logo o, depois, meu excelente amigo e patrão, sentenciou:

"Tem um posto de trabalho à sua espera a partir deste instante. Inicia quando quiser!"

E, no inesquecível dia 22 de abril desse ano, gratíssimo ao atento José Manuel, ao solidário sr. Maurício Pires e à compreensão e bondade do sr. Rocha Peixoto, passei a integrar, como telefonista-rececionista, o mundo laboral, que tantas e tão diversificadas alegrias me tem proporcionado...

Antes de encerrar este intemporal apontamento, é forçoso que expresse um sentido e fraterno reconhecimento, que sempre eclode do meu íntimo aquando destes pensamentos e divagações:

"Bem hajas, caríssimo José Manuel Mendes!"


E agora, com a devida permissão do Autor, reproduzo aqui um poema, datado de há meio cento de anos, que me foi oferecido e composto numa das suas despedidas do gozo remansoso de mais umas férias grandes. Suponho que se trata de um inédito, o que lhe confere um extraordinário valor afetivo, que irradia uma peculiar melancolia e emocionalidade! Sinto-o como um hino ao imaculado bucolismo, às singelas, mas incrivelmente inebriantes sensações que profusamente exalam da remanescente ruralidade do recanto tipicamente minhoto que me viu nascer, tão profunda e genuinamente cantado pelo Mestre! Setembro de 2014



ADEUS A LAGEOSA

A minha alma abre-se para ti, nesta hora,
como uma flor se abre para a noite e para o dia...
A minha alma abre-se para ti,
nesta hora de despedida
em que me abraça a nostalgia...



Recordo agora os teus poentes coloridos,
e a meiga calma da tardinha,
quando os meus versos doloridos,
num silêncio de tempos idos,
eu sonhava e eu compunha...



Recordo agora a tua vida
na suave alacridade da manhã,
quando os socos das mulheres
entoavam uma canção perdida
entre o pez da estrada sobre a pedra vã,
E a vida que aqui vivi
toda ela despreocupada e sã...



Levo comigo os chocalhos dos rebanhos,
os mugidos resignados dos bois,
a alegria das fontes e das noras,
o idílio que passámos nós os dois:
eu a namorar-te, à luz crepuscular,
duma janela deitada sobre videiras,
e tu, mostrando as linhas fagueiras,
abrindo em luz para me encantar,



trazendo no teu seio guardado
o sonho branco dum luar todo amor.
Levo comigo o cheiro agreste do teu gado,
e o aroma do teu campo aberto em flor...



Adeus...
Um adeus que não é o adeus dum filho,
mas que é um adeus sincero e doloroso!
Adeus...
Um adeus que é quase o adeus dum filho,
que parte magoado e saudoso!



Adeus...
A minha alma abre-se para ti,
nesta hora triste de te deixar,
como tu abres ainda hoje para mim,
o beijo mudo do luar...
Como se abrem as pétalas duma flor
para a noite e para o dia...
E diz-te adeus,
com o lenço branco duma alma em flor,
toda ela amor e nostalgia...




Lageosa, 13 de setembro de 1965

José Manuel Mendes

 

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ALGUMAS AVENTURAS DO PLUTO

Para o amo do estimadíssimo canino


(com a minha gratidão ao querido amigo, que, solidário e paciente, me repetiu as verosimilidades insertas neste texto de ternura e de lembranças)

Todos os amigos e conhecidos do sr. pe. António Rodrigues conheceram, ou então ouviram falar, do Pluto, um estimadíssimo pastor alemão, de inteligência extraordinária (como aliás costumam ser os cães que recebem bons tratos no decurso da vida)...

Galhofava o babado dono que a única coisa que ele não conseguia aprender era, escutando a campainha do telefone a tocar, não saber atendê-lo!

"Eu bem o ensino, mas ele não vai lá. E é pena, porque me dava um jeitaço, sobretudo quando não estou em casa..."

E largava uma gargalhada a contento!

Como já se frisou num outro trabalho, "Podia ser pior", e inserto num livro meu de narrativas, intitulado "Palco de memórias", e dado à estampa em 2005, o sr. pe. António Rodrigues é um distinto orador sagrado, com um fluente dom da palavra, bem como um exímio e excelente comunicador, que teatraliza e vive quanto narra, exibindo agradável e patusca expressão facial quando se dirige aos amigos recetores.

Pois o meu preclaro amigo pe. Rodrigues, há dias, a 11 de julho (dia de s. Bento, de quem é confesso devoto) e data em que comemora a sua ordenação sacerdotal, celebrou as bodas de diamante, tendo o povo da sua paróquia de Freiriz (com justiça e deveras reconhecido) mandado esculpir, ao Luís Araújo, (um experto artista da freguesia) uma estátua em granito, que foi inaugurada a 13 de julho, por d. António Moiteiros, bispo auxiliar de Braga, (e agora, bispo titular de Aveiro) sendo colocada no espaço junto à residência paroquial, monumento que se junta ao património de várias e muito úteis obras, mandadas realizar sob a sua administração direta e com indiscutível bom gosto.

Já a propósito da inauguração da referida estátua, (para que não passe ao esquecimento e porque vem a talhe de foice) quando, no dia 14 de julho, para os lados de Ponte de Lima, num restaurante, onde mimou os três convidados (a afilhada Rosa, o Zé Matos e eu) com um estupendo almoço, contou ela que, quando destaparam a escultura, (que estava velada e com o resguardo de uns metros de tecido) com um ar castiço e de gozo, lhe desabafou pe. Rodrigues, apontando a estátua:

"Lá está o gajo!" - prosseguindo: - "Rosinha," - que é como ele a trata - "agora, tens dois padrinhos..."

"O quê?, nem diga isso a brincar, que padrinho apenas tenho um, e basta, porque gosto de si e não quero outro..."

"Pois é, mas tens dois:" - voltou à carga o inteligente e astuto emissor, querendo mostrar-se sério, mas perdidinho de riso - "um, de carne e osso e... outro, de pedra!"

É assim, espontâneo e imprevisível o ilustre companheirão e multifacetado sacerdote...

Pois o Pluto, ao longo dos anos que viveu e proporcionou companhia e fidelidade ao seu amigo dono, foi desfiando um apreciável rosário de peripécias, de que destacaremos algumas, sempre narradas pelo pe. Rodrigues, a escangalhar-se a rir e a rotulá-lo com bonitos predicados e a colocá-lo no lugar cimeiro das suas preferências...

Ora, iniciando: ave de capoeiro que voasse para dentro do espaçoso terreno, (onde se encontra implantada a airosa e confortável vivenda do amo) dificilmente tinha viagem de retorno! E até mesmo qualquer passarinho, ao vê-lo voar ou poisado num qualquer galho, lhe metia confusão... E ensaiava diversas formas de abocanhá-los...

A vizinha Sameiro tinha um garnisé esperto, vestido de linda plumagem, que abusava dos voos para dentro do quintal de fronte. Era um regalo vê-lo esvoaçar pela ramada, agachando-se atrás de um ramo espesso ou aproveitando a sombra de um esteio. Parecia mesmo jogar às escondidas. E o pequerrucho, quando descoberto refugiava-se em sua casa, atravessando o estreito caminho que a separava do terreno da usual diversão. Mas regressava de imediato, logo que visse as costas do dono a retirar-se.

Uma certa manhã, a dona deu pela falta do pintalegrete e desabafou, pesarosa, vendo o vizinho:

"O seu cão chamou um figo ao meu garniso..."

"Ágora!, Sameiro! Ele voa a bom voar e o meu cão não anda com fome, que eu trato-o muito bem!"

"Que o trata muito bem, sei eu, mas foi ele que liquidou o desventurado..."

"Não me parece, mas seria!" - retrocava, um tanto ou quanto incrédulo, mas sorridente, o dono da vedada propriedade...

Numa das salutares borgazinhas de amigos, ao alguém adiantar que o companheiro Jorge Pedrosa era aniversariante em novembro vindouro, o qual, sem reservas, logo declarou oferecer um leitão assadinho à maneira. E, com a franqueza que lhe é peculiar, falou o pe. Rodrigues:

"Se Deus quiser, celebramos o evento na minha casa: degustamos o leitão e, para abrir o apetite, a entrada vão ser uns soberbos taquinhos de bacalhau frito, a saírem a escaldar da Sertã!"

E não houve quem o contrariasse, ajuntando outro compincha, pe. Pires Esteves, oriundo do concelho de Monção:

"Pois eu trago dois '"machos'"!"

("Macho" era o nome que in illo tempore, alguns estudantes seminaristas davam ao garrafão de cinco litros, filosofando que se a garrafa é fêmea, o macho será o garrafão)

E também, sem objeções, recebeu o apoio generalizado dos convivas, porque os "machos" arreados daquelas bandas e trazidos por aquele bom samaritano, era Cepa velha, do vinho Alvarinho!

Ora bem: chegado o dito dia de aniversário, lá nos apresentámos na acolhedora moradia do nosso amigo, que, antes de mais, nos informou, entre o sério e o galhofeiro:

"Não vai haver taquinhos de bacalhau, porque o Pluto mamou a matéria-prima! Deu-se o caso que, há uns três dias, cortei um bacalhau, digno de ser trincado por dentes de amigos, e pus as postas de molho, num balde grande e fundo. O meu cão nunca tinha provado bacalhau demolhado, e, muito menos, cru.

Pois fez do focinho um anzol, enfiou-o no balde e pescou as postas todinhas!" Rematou com uma sonora e gostosa gargalhada.

Mas nós também tínhamos a consciência de que o nosso anfitrião não brincava em serviço!: antes do que foram dois mais pequenos e saborosos leitões mimou-nos com um queijo da serra, umas dúzias de bolinhos de bacalhau "domésticos" (como costuma chamar-lhes o pe. João Alves de Oliveira, por terem muito bacalhau, ao passo que batiza os que só têm batata como "comerciais") e meia perdiz para cada um... E está claríssimo: juntámos as nossas gargalhadas às dele e não nos assistiram motivos para recriminar o fiel companheiro do rev. oleirense...

Ah, é verdade!: quanto aos referidos dois "machos", rapidamente, esvaziaram a carga, tendo o pe. Rodrigues que recorrer ao seu "pipo nove" - sinónimo do melhor filho de Baco residente na sua bem sortida garrafeira!

E também, já agora, explique-se a badalada metáfora do "pipo nove", que é outra narrativa, do vasto leque do reportório do nosso bem disposto anfitrião, que, passo a passo, relembra o episódio, mais ou menos, nestes termos:

"Há bastantes anos atrás, o Américo deixava três filhotes e a mulher para emigrar para o Brasil, que nesse tempo era fonte de fortunas. Nunca mais deu notícias da sua vida. Mas, também, foi esquecido pelos seus e por toda a aldeia, dado que o julgaram perdido. Muitos anos passados, mais de vinte, certamente, sem ser esperado, apareceu em Oleiros, que essa era a sua terra.

Vinha enfeitado com um fato novo, limpinho e bem engomado, de cor muito clara, chapéu de palhinha, como era devido, mas com a carteira vazia de maças e os bolsos recheados de cotão. Possuía uma pequena horta, cercada de um valado, onde crescia um balseiro de vides morangueiras, (videiras americanas, na classificação popular) que não produziria mais do que dois almudes desse vinho.

Sabedores de que o emigrado regressara, uns amigos de peito resolveram visitá-lo. E, após dois dedos de paleio, o nosso homem, convicto, solicitou à filha mais velha:

'"Ó Felizinda, por favor, vai buscar uma pinga para estes amigos; mas olha: tira do pipo nove!'""...

Foi ainda, no decorrer desse inesquecível convívio que o pe. Rodrigues nos pôs ao corrente da façanha anterior à pesca das postas de bacalhau, relacionada com um galináceo, narrando:

"À roda de um mês, num domingo à tardinha, um casal amigo, de abastados agricultores, veio fazer-me uma visita e ofereceu-me um vistoso e enorme galo, que exibia uma crista e umas esporas dignas de invejar! Agradeci penhorado e disse para os meus botões:

'"Que bela arrozada vou oferecer aos meus amigos!'"

E, na minha filosofia de vida, já a sonhar com o desejado pitéu, conjeturei que a data mais provável fosse o dia seguinte... Não pôde ser, porque nesse dia, quando regressei a casa, depois dos meus afazeres eclesiásticos, já de noite e ao clarão de um fagueiro luar, encontrei o frango todo escalpelizado, estrebuchando ainda os últimos momentos de vida e o Pluto, triunfante, junto dele!

Corre na aldeia que se a gente bater com a vítima, por três vezes, no focinho do cão ele não volta a praticar o mesmo crime... Foi o que eu fiz, enquanto lhe recomendava, um tanto zangado:

'"Não voltas a pôr os focinhos em mais aves, ouviste, meu burro...'"

E aprendeu a lição, como se comprova através de outra história de frangos.

E, efetivamente, há bastante tempo que o Pluto não repetiu o atrevimento... Fiquei convencido de que ganhou juízo, embora agora se tenha virado para o bacalhau... Mas quanto a gado de capoeiro parece que está arrependido...

E, uma vez mais, em sonoro coro, rematou-se com um agradado gargalhar...

A restaurada confiança no Pluto foi a razão porque, quase um ano após, no bazar da festa da padroeira, em Freiriz, o pe. Rodrigues rematou três belos galos, a matutar, convicto e guloso:

"Que ricos exemplares! Vão rechear umas quantas paneladas de arroz de pica-no-chão. Vão ser uns consolinhos!"

E já ia lambendo a beiça e engolindo a saliva, porque os galináceos assim o indicavam...

Por isso, expunha o mais tarde arcipreste de Vila Verde, por dez anos:

"Levei-os para casa e, para experimentar o arrependimento do Pluto, meti-os na sua casota. E, de facto, tudo se passou com normalidade. Depois, soltei-os todos e andaram pacificamente no quintal, durante algumas horas, sem se molestarem. O cão sabia que eu estava em casa.

Quando, à tardinha regressei dos meus trabalhos, verifiquei que só existiam dois cristados! Calcorreei o quintal, palmo a palmo, e não encontrei restos de penas. Não podia ter sido o cão.

'"Voou, de certeza, para o quintal vizinho,'" - pensei.

A experiência foi repetida com os outros dois: juntos na casota com o cão, soltos depois no quintal e convivência pacífica durante a minha permanência em casa.

Ao regressar das paróquias, à tardinha, já só existia um. O caso torna-se intrigante, mas o facto da não existência de penas era alibi que jogava a favor do Pluto. Mas as dúvidas começavam a pesar contra ele.

A nova experiência de os juntar deu o mesmo resultado. E enquanto permaneci em casa, nesse dia, tive muito trabalho a realizar e só pude sair à tardinha: houve paz total entre os dois bichos e quando regressei não havia frango nenhum! Mas também não existiam penas no quintal!

Foi no dia seguinte, pela manhã, quando me preparava para sair, que a vizinha Sameiro me interpelou:

"O seu frango?"

Fugiu, respondi.

"Fugiu ou foi comido pelo cão?"

Não atire as culpas ao cão, porque eu já percorri o quintal por três vezes e não encontrei pena alguma...

"Não se importa de me abrir o portão, que eu quero mostrar-lhe o sítio onde ele o comeu?"

Era um local de erva crescida, toda pisada, onde, depois de procurar minuciosamente, encontrei, a custo, umas três pequeníssimas penas, ligadas ainda a um pouco de pele. Eram uns restos quase microscópicos.

Mas verifiquei que o cão tinha aprendido a lição: sabia que eu não queria que me comesse os frangos e também aprendeu que não devia escalpelizá-los, razão porque engoliu penas e tudo...

O resto da história não se devia contar, pela maldade que pratiquei ao castigar o canino e pela enorme lição que me deu no remate deste episódio.

Na verdade, conduzi-o ao local do crime e depois de o obrigar a farejar o chão prendi-o com uma trela e bati-lhe severamente. Estava irritado, mas não era minha intenção fazer ali vingança; pretendia apenas que ele se arrependesse e, no futuro, se viesse a lembrar de que era perigoso comer frangos desse jeito...

E saí incomodado, para só voltar a casa pela tardinha.

Era primavera. As nuvens, porém, deixavam cair uma chuva miudinha e persistente, aquela que torna o dia soturno e o ambiente de luto. Mas vinha ansioso por me encontrar com o meu cão. Onde estaria ele agora? Certamente anichado num daqueles abrigos que esgravata debaixo das árvores, para se abrigar do calor no estio e da chuva nos dias de humidade. Não procura nunca a casota. Devia estar amuado e tinha razão para isso; fora mal tratado nesse dia. Transpus, vagarosamente, o portão do meu quintal e abri, pesaroso, a porta do carro. Apanhei um susto: o guardião esperava-me, certamente, com o mesmo desejo que eu tinha de o encontrar. Atirou-se, freneticamente, para dentro do automóvel (nunca assim tinha procedido) sem me deixar sair, e lambeu-me, demoradamente, as mãos e a cara...

Vinha-me pedir desculpa; queria a minha amizade... Duas lágrimas de dor e de arrependimento começaram a brotar dos meus olhos. Não ouviu o meu lamento, mas sei que gemi, tremendo de arrependido, pois tinha dado uma tareia tão grande naquele bicho e ele era tão meu amigo!

E aprendi que a culpa era minha, porque não lhe respeitei o instinto...

E saiu vencedor o Pluto, já que, por sua causa, nunca mais entraram na minha casa frangos vivos, que lhe pudessem acirrar o apetite...

Durou mais alguns anos o meu companheiro, tratado desde então com o carinho de sempre, mas agora com o respeito que ele tinha conquistado...

Envelheceu naturalmente. Era penoso vê-lo, nos últimos tempos da sua vida, arrastando as patas traseiras e a olhar, tristonho, para mim, como a pedir socorro. Tornou-se num farrapo aquele que era um leão de força. Não deixei que sofresse muito. Mandei chamar o veterinário, sem ter coragem para assistir à aplicação da injeção letal...

Perdi um verdadeiro amigo, mas dele me ficou a grata lembrança das suas traquinices e a enorme saudade da sua companhia...!"


3-4 de setembro de 2014

 

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A CANTARINHA ESCACADA

O Quim Murta tinha dez anos de idade e era um miúdo rebelde e cheio de defeitos. Entre os progenitores, a mãe, de vez em quando, enxotava-lhe as moscas com uma vergastinha, mas não havia forma de ele se emendar. O pai dizia que fugia de lhe pôr as mãos para não cometer uma asneira. Os avós, mansamente, admoestavam-no amiúde e faziam ver-lhe que aquilo que ele fazia era feio e, muitas vezes, causava danos irreparáveis. A todas as advertências fazia orelhas moucas!

Pode, pois, dizer-se que existia um comprido rosário de malandrices perpetradas pelo Quim Murta.

A título de exemplo, vamos apenas apontar a derradeira, que teve lugar há uns dois dias....

A Zildinha, que era a filha mais nova do sr. Regedor da freguesia, e que contava oito ridentes primaveras, a pedido do pai, que andava com uma malhada na eira de granito, foi à fonte da Moura buscar uma cantarinha de água fresquinha, para ser feito um refresco com açúcar, um pouco de aguardente e o sumo de um limão espremido...

Chegou à fonte, encheu a cantarinha, pousou-a num murito próximo e foi refrescar os pés na poça de consortes que ali existia. De repente, escutou um barulho, voltou-se e deu com a cantarinha escacada e com o Quim Murta a dar às de vila-diogo...

Desatou a chorar e regressou à eira de mãos vazias... Contou a peripécia e ficou a aguardar, da boca do pai, uma sentença punitiva para a má ação do maroto do rapazito...

Primeiro, o pai mostrou um semblante de pessoa muito zangada, mas depois, pausadamente e fazendo uma carícia nos cabelos da filhinha, desabafou em voz alta:

"Merecia um bom puxão de orelhas, lá isso merecia!, mas o avô do Quim é muito amigo da nossa casa e está sempre disponível para ajudar… É como diz o outro: "Respeita-se o burro, por causa da albarda!"...


19 de abril de 2014

 

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A CANA DO FOGUETE

O avô Silvestre já tinha enviuvado há muitos anos e, embora possuindo alguns bens e uma grande casa de lavoura, aceitou a sugestão dos cinco filhos, sobretudo a da filha mais velha, a Gracinda, que morava na mesma aldeia, ali próximo, e foi viver com esta.

Pois o avô Silvestre era um afeiçoado de bandas de música e de sessões de fogo de artifício, não perdendo, sempre que possível, um destes eventos. Por isso, como conhecia as datas de inúmeras festas, quer na terra, quer nas aldeias vizinhas e mesmo distantes, lá começava a arrastar a asa a um dos netos para que lhe desse uma boleia e o acompanhasse a determinada missa solene, procissão ou arraial, tanto diurno como noturno... E os netos não se faziam rogados, porque gostavam de acompanhar o avô, que sempre lhes fora dedicado, tanto mais que as despesas corriam a expensas da sua carteira, sempre razoavelmente abonada...

De entre os dez netos, aquele que mais se assemelhava ao avô Silvestre era precisamente o terceiro filho da Gracinda, batizado com o nome do avô paterno - Domingos.

O rapaz ainda só contava catorze aniversários, mas desde a meia dúzia que acompanhava o avô Silvestre. E, se assim se pode dizer, estava a tornar-se mais fanático do que ele... Quase todas as semanas e, às vezes, até todos os dias, sondava o avô e lembrava-lhe:

"Ó avozinho, no próximo fim de semana temos o S. Torcato e o S. Bentinho... Como vai ser?..."

"Já conversei com o teu primo Ricardo; vamos aos dois lados, menino..." - e cofiava o comprido e grisalho bigode.

O Domingos era um neto obediente, exceto numa coisita: apreciava imenso correr atrás das canas dos foguetes.

"Não deves apanhar as canas dos foguetes, menino, porque é perigoso..."

"Perigoso porquê, avozinho?!"

"Porque há ocasiões em que as bombas não estoiram todas e tornam-se um perigo, pois podem explodir e provocar sequelas em quem lhes põe as mãos..."

(...) E uma vez, numa das sessões da noite do arraial da festa do padroeiro S. Romão, de repente, caiu uma grossa cana junto do Domingos. Foi como um choque que lhe deu: saltou e procurou ser o primeiro a deitar a mão à cana. O avô Silvestre, atento, correu também, arrancou-lhe a cana das mãos e jogou-a para um campo de milho, que existia ao lado... E, ato contínuo, ao cair no chão, ouviu-se uma estrondosa explosão...

"Ouviste, menino, e viste o perigo que te aguardava?!..."

17 de abril de 2014

 

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UM REI OBSESSIVO

Há muito, muito tempo já, num reino longínquo, governava um rei obsessivo, que não gostava das crianças.

Casou, ainda jovem, com uma princesa lindíssima, e, mafioso, apenas na noite nupcial lhe revelou que era avesso a crianças e lhe impôs a vontade de não querer descendência...

"Mas, querido, o reino não pode ficar sem um herdeiro, pois, quando não puderes governar ou partires para o outro mundo, te suceda no trono..." - desabafava, meigamente, a esposa.

"Não quero e nem transijo: as crianças enervam-me, são inconvenientes, teimosas, desastradas, inoportunas, querem tudo, choram por tudo e por nada, gritam, vivem a fazer birras; não quero, não; é que não tenho paciência para as suportar..." - redarguiu, sem evasivas.

"Olha que não é assim, meu amado marido; não é mesmo nada assim!" - retrucava e tornava a retrucar a rainha.

"Mas eu é que não estou nadinha virado para isso; não quero, palavra de rei! E a senhora fica terminantemente proibida de engravidar." - prosseguia, exibindo um tom de voz já de poucos amigos.

"Mas eu adoro crianças e sempre imaginei vir a ter um pelotão de filhos..." - acrescentava a rainha, acariciando-o e ajuntando - "E um filho teu deve ser um anjo, uma beldade..." - e beijava o esposo, repleta de meiguice e sensualidade.

"Oh, por favor, pensa noutra coisa, porque, em ter filhos e modificar os meus propósitos, não vale a pena..." - rematava sempre o monarca.

Por isso, desde que iniciou o seu reinado, começou a não autorizar os seus ministros a concederem subsídios às parturientes, fosse qual fosse o teor; abonos pelos nascimentos, nem por sombras; cuidados especiais com os recém-nascidos era capital deitado ao vento; assim como o apoio nos percursos escolares e nas doenças... Uma obsessão sem nexo e de que não existia memória! Mas era a vontade de um rei, sumo senhor do que se podia fazer no seu reino...

Promulgou leis em que cingia os nascimentos, ao ponto de, ao invés de outras nações, até estabelecia recompensas pecuniárias aos casais que abdicassem de procriar. E àqueles que não recusavam tê-los, impunha que apenas tivessem um, ou, no máximo, dois, sendo que, na segunda hipótese, eram obrigados a pagar uma pesada multa!

Claro está que toda a gente barafustava, mas era escusado, porque quem vingava era a régia vontade.

As conspirações há muito que haviam começado e aumentavam, de dia para dia, clandestinamente, é claro, sendo os focos de rebelião detetados reprimidos e com bárbaras punições...

E a belíssima rainha estava a atingir os quarenta anos de vida, idade nada recomendável para ser mãe; ainda assim, em amiudadas ocasiões, voltava a avisar e a desdobrar-se em súplicas:

"Meu querido esposo, é necessário dares um herdeiro ao nosso povo, que te obedece cegamente... A população tem envelhecido a olhos vistos e, no futuro, não haverá quem amanhe as terras, nem profissionais para diversificados ofícios; tudo vai estagnar e a nossa terra acabará por cair em mãos de outros soberanos... Ainda estás a tempo de mudar, embora as consequências já se comecem a notar e a agudizar-se cada vez mais..."

"Não quero saber de nada disso; o tempo não me sobeja para pensar nessas ninharias."

"Mas é que não se trata de ninharias, meu esposo..."

"Não vale a pena martelar na mesma tecla, senhora: já dei a minha palavra de rei e daqui não arredo pé... Quando eu desaparecer que façam o que quiserem.

Até lá, porém, e penso que ainda vai decorrer muito tempo, mantenho a minha vontade soberana inalterada. Não gosto de crianças, não gosto, e termos filhos, nem pensar é bom... Tenho que dar o exemplo..." - rematava, outra vez, o monarca, já num discurso um tanto ou quanto azedo, que a afeiçoada e inteligente rainha não merecia...

E, até sigilosamente, se murmurava que, apreciando umas fugas ao respeito conjugal, logo prevenia as amásias de que se se deixassem engravidar as deportava para outro reino, ou até as mandava para a forca!

E, escutando tais ameaças, as súbditas tudo empenhavam para não engravidarem, ou, numa azarenta conceção, envidavam todos os esforços para provocarem os abortos, e bico calado!

Grande tirano e insensível era aquele monarca desse reino longínquo...

Num certo dia, um seu chefe da guarda privada, fiel servidor e que já lhe tinha valido em várias situações embaraçosas, se lhe dirigiu para solicitar-lhe uma graça. Esse militar era um dos seus mais próximos ordenanças, que podia entrar em quase todos os aposentos, onde o monarca se achasse... E existia mesmo uma certa intimidade entre ambos...

Ora, o chefe da guarda real, apesar de já avançadote na idade, caiu na ratoeira do amor, prendendo-se por uma jovem e atraente rapariga.

O passo seguinte era consorciar-se com ela. Eis a razão porque resolveu sondar sua majestade, pois estava vivamente apaixonado, e a moça colocava uma séria exigência: somente casaria com ele se lhe garantisse que ela podia ter filhos.

Ora, veja-se o cúmulo dos cúmulos: um decreto há anos publicado dizia que os seus militares não podiam casar-se e, muito menos, serem pais. Só assim poderiam dedicar-se inteiramente ao serviço da nação e do monarca.

"Majestade," - quase tartamudeou o chefe da sua guarda pessoal e confidente - "estou ardentemente preso a uma mulher e desejo, custe o que custar, unir o meu destino ao dela. É por isso que estou a rogar essa mercê a vossa alteza..."

"Mas tu, quando aceitaste servir-me, conhecias bem as regras que terias de cumprir e aceitaste pô-las em prática..."

"Bem sei, majestade, bem sei, mas a vida, muitas vezes, prega-nos umas partidas e eu fui apanhado no laço do amor e não sou capaz de desenvencilhar-me deste sarilho..."

"É que, se te faço essa concessão a ti, virá um ou mais esquadrões de soldados solicitar o mesmo; as leis foram feitas para serem cumpridas. Vê se te passa essa loucura e continua a servir-me como até aqui."

"Mas eu não posso sair desta enredosa teia, senhor. Estou loucamente apaixonado. Já não posso viver sem a companhia desse anjo idolatrado..."

"Esquece, esquece. Como frisei, se te permitir tal loucura, todos os meus servidores vão exigir as mesmas regalias e eu não estou disposto a ceder nem um milímetro..."

"Senhor, senhor, mas a chama que me devora é um suplício. Usai do vosso real poder e autorizai-me, por amor de Deus! De outra forma, com imensa mágoa, terei de pedir-vos que me dispenseis do meu cargo..."

"Nem pensar nisso é bom: se teimares em levar essa tolice avante terei de mandar-te encarcerar numa masmorra..."

"Meu senhor, por piedade, valei-me, que só vós o podeis fazer. Permiti que eu possa ser feliz com a mulher que elegi para me acompanhar na minha existência e para me suavizar a velhice..." - batalhava, insanamente, o brioso e enamorado militar.

"E por que não te juntas com a namorada e viveis uma vida a dois, sem usurpar a minha augusta vontade?"

"Porque a minha amada não admite sequer essa possibilidade: o sacramento do Matrimónio é o que ela exige. E, não sendo dessa forma, nada feito, senhor. Tende compaixão de mim e dela!"

"Se te autorizar o casamento terá que ser muito em segredo e, perante os demais camaradas, estás amantizado e não és esposo... É a minha derradeira palavra..." - contrargumentava, impassível, o teimoso soberano.

"Não, senhor, não, a minha jovem amada não aceita essa situação. E... e ela impõe-me outra condição: quer ser mãe e, se possível, ter muitos filhos, alteza!" - desabafou, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces abatidas.

"Devias ter começado por aí: nem vale a pena trocarmos mais uma palavra que seja sobre este imbróglio: não abdico da minha vontade e poder. Podes retirar-te..."

O fiel e apaixonado chefe da guarda privada do rei tremia como varas verdes e ficou só, especado, pois o tirano deixou-o sozinho com o seu problema e atroz sofrimento. Como se referenciou já, ele era o agente que mais de perto lidava com o rei e já lhe tinha presado finezas impagáveis. Era-lhe fiel e o monarca estivera sempre acima de tudo. Agora, porém, a situação era diferente: ele amava e o seu existir apenas fazia sentido se pudesse usufruir dos gozos que o amor comporta.

Lentamente, entristecido e como que embriagado foi-se afastando do local... Não diria nada à jovem namorada... E sobre a conversa com o tirano, autor dos seus infortúnios, nem sonhar...

E, de repente, um turbilhão de ideias lhe assaltou o cérebro, sobressaindo uma questão que nunca havia admitido: teria o rei o direito de vedar a liberdade ao seu povo? O povo não podia ser feliz e escolher o que melhor lhe conviesse? E ele, um fiel servo, que nunca regateou uma vontade do monarca, a primeira vez que precisava de um obséquio, ouvia, repetidamente, a negação?...

E continuava a refletir: o povo que se revoltava tinha razão, pois apenas era forçado a obedecer e a cumprir as ordens dimanadas de sua alteza...

Desejos, vontades, liberdade, enfim, não eram compatíveis com o seu viver...

Sim, sim, no fim de contas, as subversões e o contínuo descontentamento do povo era justo...

Por que é que os vassalos não podiam ter filhos? Qual a razão de os seus guardas e soldados do exército, ainda por cima, nem casar podiam?...

O rei estava a mais. O povo devia destituí-lo do trono. Homens daquele calibre deveriam ser eliminados... Só assim o povo readquiria os seus direitos e a Liberdade...

(...) E, poucos dias depois das reflexões do chefe da guarda privada, a ainda belíssima e compreensiva rainha ocupava a cadeira do trono e assumia as rédeas do poder, porque o teimoso e convencido esposo, sem ninguém entender as razões, tinha aparecido, num aposento do palácio, onde pouquíssimas pessoas podiam aceder, trespassado pela sua própria espada...

14 de julho de 2014

 

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UM FORA-DE-LEI

Estava eu a ouvir um noticiário de supostos assuntos sérios e escutei um caso de polícia, que me fez decidir-me a pôr no papel um episódio, que, quando um velho amigo, já aposentado das brigadas da Viação e Trânsito, me asseverou ter-se passado com ele e que era verosímil e matutando eu que o não devia ser...

Deu-se o caso que, pelos finais da década de setenta, do acabado século, num certo fim de tarde, já próximo do lusco-fusco, uma brigada de trânsito, que se fazia transportar numa carrinha à civil, que, como era costumeiro, os dois agentes vinham de saborear uma demorada merendola e dessedentar as secas goelas, na antiga Pensão Águeda, no Bom Jesus do Monte, entrando, vagarosamente, na rodovia. Ao fundo dos escadórios, quando passaram junto de uma famosa taverna, que primava na confeção de excelentes petiscos e sempre apresentava um verdinho de indesmentível qualidade, observaram que um cavalheiro estava a montar para o assento de uma moto de alta cilindrada. Uns minutos após, deram-se conta de uma ultrapassagem pela sua direita e rolando a grande velocidade e sem capacete, e, de imediato, reconheceram o condutor.

Aparecendo uma rotunda, não a contornou, nem obedeceu à sinalização, sem abrandar a marcha, gozando uma prioridade que lhe não era devida.

Logo soou um buzinão infernal, tendo a autoridade, que se colou atrás do motociclo, dado sinal de luzes.

O veículo transgressor, acelerou e, uns duzentos metros volvidos, atravessou uns semáforos vermelhos, sendo brindado com mais uma chusma de ruidosas apitadelas, a que se juntou a sirene do carro da brigada...

E continuou a fazer vista grossa e ouvidos de mercador, acelerando, acelerando... A carrinha da brigada, de imediato, lançou-se, decidida, no seu encalço...

Como o prevaricador acelerava cada vez mais, transgredindo sempre nos obstáculos que se lhe deparavam, a carrinha perseguidora não logrou passar-lhe à frente.

Os dois agentes, atónitos, ao longo dos cerca de trinta quilómetros em que perseguiram o desobediente motociclista, apenas o viram a querer esgueirar-se e a cometer asneiras e infrações às regras rodoviárias: rolou contramão, ultrapassou pela direita dos outros veículos, não afrouxou nem parou nos stops, nem nos semáforos que lhe surgiram no percurso; nem uma só vez o viram ligar os piscas, fosse para o que fosse; não reduziu a desenfreada correria, pelo contrário, acelerava a torto e a direito...

Desenvencilhou-se da cidade de Braga, saiu dela, rumando na direção de Vila Verde, atravessou-a e, já na saída do Pico de Regalados, onde estava uma camioneta de passageiros estacionada, numa paragem, a largar e a carregar utentes, vindo, em sentido oposto um grande camião, carregado de vigas de betão e de tijoleiras, o fugitivo ia provocando um acidente de enormes proporções e funestas consequências; o veículo da brigada conseguiu, finalmente, ultrapassá-lo e barrou-lhe a estrada, forçando-o a encostar à berma.

Os agentes da autoridade saíram da carrinha, a correr, agitados, aos berros, fora de si e nervosos, colocando-se na frente do motão, que o exímio condutor guiava. E, sem mais delongas, mandaram desligar a chave da ignição e, ainda, como já começava a escurecer e não enxergavam um simples foco luminoso, solicitaram-lhe que ligasse as luzes: quer os farolins, quer os faróis tinham as lâmpadas fundidas, não funcionando, portanto, os piscas; o pneu da frente encontrava-se completamente careca; a chapa de matrícula tinha voado e nem vestígios dela; o seguro não existia e os documentos da moto de alta cilindrada eram falsos; impelido a soprar ao balão, acusou uma taxa de quase 3 de alcoolémia no sangue...

De facto, aquela fiscalização a um transgressor era levada da breca, quase incrível!

E apenas neste momento, um pouco mais serenos, solicitaram a identificação daquele cavalheiro que aparentava uns cinquenta anos de idade...

E..., ao identificá-lo, assarapantados, não é que constataram tratar-se, nem mais nem menos, do que um seu camarada de ofício, agente da brigada de trânsito do distrito de Viana do Castelo e residente na vila da Ponte da Barca?...!

5 de julho de 2014

 

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A LAVANDEIRA MARIA


Ao João Lobo


Do Pico de Regalados, um asseado rincão minhoto, do concelho de Vila Verde, nos finais dos anos sessenta, do século passado, pagando uma pesada maquia de maça a um passador, o Francisco Camarinhas partiu a caminho de França. Foi dar à cidade de Grenoble e encaixou-se numa fábrica de pneus e principiou a usufruir de uns razoáveis francos, pelo que pôde, um ano volvido, vir passar um mês de férias e consorciar-se com a Genoveva, uma moçoila jeitosinha e engraçada, filha da vizinha e airosa aldeia de Santa Maria de Mós.

Desse enlace nasceram dois rapazes e uma rapariga, sendo esta batizada com o nome Maria, porque o pai exigiu que a bebé, embora nascida e batizada em terras gaulesas, recebesse um nome genuinamente português.

Pois a Maria, terminado o percurso escolar obrigatório, que incluiu um curso profissional, ingressou na indústria da lavandaria, tornando-se numa exímia e destra operativa.

Pelos vinte e três anos, tendo-lhe surgido uma soberana ocasião, resolveu montar um negócio seu, ocupando um pavilhãozito bem situado numa das principais ruas da cidade.

Muita clientela, que bem conhecia a sua competência, acompanhou-a e, quando se deu conta, tinha trabalho de sobra para ela e mais três empregadas. E, graças a Deus e à seriedade com que laborava, o negócio florescia a olhos vistos.

Foi então que, pelo quarteirão de primaveras, achou ser o momento ideal para viver uma vida a dois, casando-se com um moço francês. Dessa união vieram ao mundo, em cinco anos, três meninas...

A Maria tinha sempre o cuidado de recomendar aos fregueses que revistassem e esvaziassem os bolsos das peças de roupa que entregavam, porque não tinha tempo para realizá-lo no seu estabelecimento e nem queria aborrecer-se com eventuais descuidos. É que não desejava mesmo responsabilidades.

De toda a maneira, apesar de se desdobrar em recomendações e dizer que não verificava as peças entregues, quase sempre o ia implementando. E também, inumeráveis ocasiões, lá encontrava objetos, papelada, moedas, notas, e sabe-se lá que variedade de coisas!

E ainda: não era também a primeira nem a centésima vez que vinham ao estabelecimento perguntar se não detetaram isto ou aquilo, nos bolsos...

Até, de uma das vezes, (e nunca mais se lhe varreu da memória) um antigo cliente, já de certa idade, procurou-a para indagar se não havia achado num seu par de calças duas moedas de coleção, em prata, uma de dez francos e outra de cinquenta. É que as tinha negociado com um numismata e perdera-lhes completamente o rasto... Bem se recordava de que trazia vestido um par de calças que deitou para lavar e que, portanto, dado que sucedeu numa tarde tórrida, do mês de junho, não vestia casaco... E não deixava de lamentar-se, embora soubesse que a Maria era a honestidade em carne e osso. E até porque já diversas vezes lhe devolvera algumas ninharias, encontradas nos bolsos...

Não, senhor, nas peças de roupa que foram entregues na lavandaria não estava coisa alguma, porque, por um acaso, e lembrava-se perfeitamente, fora ela quem passou uma revista atenta ao material que lhe foi trazido...

Noutra altura, um ano após ter começado a circular o euro, (e foi uma situação desagradável para ela e que também não esqueceu) um rapazola veio reclamar duas notas de duzentos euros, que, por desleixo, não retirou de um bolsinho, da frente, da calça azul-escura... E, perante a resposta negativa de Maria, azedou o tom de voz e insistia que tinha as notas no bolsinho...

E Maria, aborrecida, mas extremamente calma, retrucou-lhe:

"Mas tu julgas que a minha lavandaria é um banco?! Duas notas de duzentos euros e no bolsinho da frente?! Será que te esqueceste do feitio dos algarismos?! Até parece que és um capitalista... De facto, encontrei duas notas, mas ambas de cinco euros, que estão ali guardadas num envelope, com o teu nome..."

O mariola tomou consciência de que batera à porta errada e arrepiou caminho... Pegou no par de calças, pagou com as notas de cinco euros e esqueceu os dois bilhetes de duzentos!

Mas a peripécia mais lembrada prendia-se com uma boa freguesa, dentista de profissão e casada com um engenheiro. O marido andava quase sempre em congressos, quer pelo país, quer pelo estrangeiro. Por isso, amiudadas vezes, ela vinha trazer peças de roupa à lavandaria. E Maria não tinha presente uma única ocasião em que a dentista não viesse cheia de pressa: chegava, estacionava o automóvel junto da porta de entrada do estabelecimento, deixando o motor a trabalhar, dava uma curta saudação, largava a trouxa de roupa, recebia a etiqueta para depois levantar e, com ligeireza, já estava no olho da rua, a entrar para o veículo, e ala moleiro, que está na hora!

E, para não fugir à regra, foi assim naquela última remessa: entrou, esbaforida, colocou a trouxa sobre o balcão, recebeu a etiqueta e disse:

"Tenho pressa disso, que o Guy (que era o marido) chega sábado..."

"Pode vir depois de amanhã, minha senhora." - respondeu Maria.

E a dentista já mal escutou as palavras da proprietária...

Por vezes, Maria fazia-se acompanhar das três filhitas, sobretudo quando não tinham aulas, ou aos sábados, pela manhã.

Casualmente, no dia seguinte à entrega da encomenda da citada cliente, Maria levou as meninas para o estabelecimento. A primeira encomenda que preparou, nessa manhã, foi a roupa do sr. Engenheiro, que colocou sobre uma comprida mesa.

De repente, a filhinha mais nova apercebeu-se de uns papéis a quererem sair do bolso de um dos pares de calças e alertou a mãe, que, olhando, perplexa, reparou que se tratava de notas de banco... Curiosa, aproximou-se e mais perplexa ficou quando desdobrou duas notas de quinhentos euros, duas de duzentos, uma de cem, e mais algumas de cinquenta, vinte e dez, num total de 1790 euros!

Séria e cautelosa como Maria era ficou, de certeza, mais preocupada do que a própria dentista! Não pensou duas vezes: meteu-se na carrinha comercial e voou para a casa da cliente, onde ela, no rés-do-chão da sua residência, tinha o consultório e trabalhava.

Entrou no consultório, pediu à empregada para falar com a dentista, aguardou um pouco e encontraram-se frente a frente. E Maria disparou logo:

"Como vai a senhora? Está tudo bem?!"

E reparou que ela apresentava um ar de preocupação...

"Venho trazer-lhe a encomenda, porque pude adiantar as coisas..." - prosseguiu, com a pulga a saltar-lhe na orelha e aguardando uma confissão, ou um lamento da parte da cliente...

A clínica ficou calada, absorta...

"Revistou bem a roupa que me levou? Não lhe falta nada?+" - disparou, de novo, e esperou.

"Não, não revistei e não posso afirmar que algo estava nos bolsos... O que me aflorou depois à memória foi ter-me o meu marido dito que tinha recebido uma apreciável quantia de um projeto que elaborou e que, com a pressa de ir para o aeroporto, deixou o dinheiro no bolso de uma das calças..."

"E quanto era, minha senhora?"

"Não sei, porque além de não ter perguntado ao meu marido, também ainda não tive coragem de o informar do que se passa..."

A honrada descendente de gentes de Santa Maria de Mós e do Pico de Regalados, rapou do maço das várias notas de banco e entregou-as à dentista, acrescentando, convicta:

"Estes foram os bilhetes que eu encontrei e que me apressei a devolver-lhe..."

Maria somente escutou um frouxo "obrigada", como que tivesse obrigação de ter agido daquela forma corretíssima...

Não se lhe vislumbrou um sorriso, o desejo de uma gratificação, um agradecimento sincero e efusivo, pela seriedade, simpatia e profissionalismo da lavandeira Maria!


22 de junho de 2014

 

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UM IMBRÓGLIO

No período de maior fluxo migratório para França, na segunda metade da década de cinquenta até finais da de sessenta, o Domingos Larpum, vilaverdense de gema, do ridente Baixo Minho, que em maio findo havia celebrado os dezoito aniversários, entendeu-se com um passador em julho de 1964, desembolsou uns largos contos de réis (que a mãe teve que pedir emprestados a um contratador de gado conhecido e amigo da família) e, volvidos nem dois meses, lá foi dar a Toulouse, ingressando numa singrante empresa de construção civil.

Três anos após ter-se fixado em terras gaulesas, engatou uma bonita rapariga francesa, apaixonou-se por ela e casou.

Nasceram, com um intervalo de dois anos, duas meninas e um rapaz, sendo este batizado com o nome de Jean Michel e registado como cidadão francês.

Pois o Jean Michel cresceu e transformou-se num bonitaço rapaz, cobiçado por solteiras e por casadas, por novas e até por mulheres de certa idade... Por isso, como costuma dizer-se, tinha bem por onde escolher...

Na altura certa, conheceu e entendeu-se bem com Monique, uma jovem de origem belga (a mãe tinha emigrado para França e ocupava um lugar de chefia numa repartição pública) com a sua idade (dezassete anos), apaixonando-se verdadeiramente por ela.

E Monique, supostamente, também estava enamorada...

Decorridas umas duas semanas, resolveram juntar-se e viver uma vida a dois.

Saíam à noite, frequentando boates e cinemas, comiam fora amiúde, em recíproco entendimento...

"Gostava muito de ter um filho teu, minha querida!" - dizia, quase num ciciar, o companheiro.

"Também eu gostava de tê-lo, mas vamos dar tempo ao tempo, filho..." - e derretia-se toda, aos beijos e aos abraços.

Após quase três anos de junção, Monique deixou-se engravidar e, imbuída de mistério, participou a novidade a Jean Michel, que ficou num cuco!

Ora, Monique era como uma boneca telecomandada pela sua progenitora, que era uma sabidona e oportunista...

A gestação decorreu sem percalços e, poucos dias antes do nascimento da bebé (porque veio a ser uma encantadora menina), por entre incontáveis carícias e beijocas de Judas (como se verá), Monique, com palavrinhas mansas e num tom de voz pianinho, declarou:

"Jean Michel, a pequerrucha vai nascer, é tua filha, mas eu pretendo que ela seja registada como filha de mãe solteira..." - e calou-se.

O companheiro, ao ouvir semelhante enormidade, reagiu de imediato, confuso e perplexo:

"O quê, Monique?!, registar uma filha minha sem o meu nome?!... Mas por quê?!" - estava atarantado e as palavras saíam-lhe aos molhos, sarcásticas, doloridas, incrédulas - "O que queres dizer com isso? Não entendo... Acabas por dar uma no cravo, outra na ferradura, pois começas por afirmar tratar-se de uma filha minha e logo após que a queres registar sem o meu nome... Isso é uma incongruência, Monique! Por favor, troca lá isso em miúdos e explica-te..." - e já arfava, com os nervos à flor da pele, desconsolado e sem perceber patavina.

Monique remeteu-se ao silêncio, por largo espaço de tempo. O companheiro, impaciente, insistiu:

"Explica-te, Monique, pelo amor de Deus!... Qual a razão de quereres ser mãe, solteira?..."

A custo, a futura parturiente falou:

"Foi a minha mãe que me aconselhou e, pelas razões que evocou, diz ser melhor para mim e para ela..."

"Mas a tua mãe não é quem vai gerar a nossa filha, Monique! E porque é que há de ser melhor para ti e para ela registares a minha filha com pai incógnito?!..." - e cada vez ficava mais assarapantado o companheiro.

"Mas eu posso continuar a residir contigo, Jean Michel..." - frisou, mais macia e na tentativa de convencê-lo.

"E continuaríamos a viver juntos com uma filha que, para o mundo é minha mas, perante a Lei, não o é!... Há aqui qualquer coisa, ou muita coisa, que eu não entendo, Monique. Vê se pões tudo em pratos limpos, porque eu discordo dos teus propósitos e dos conselhos e conveniências que apregoa a tua mãe..." - não desarmava o pobre do Jean Michel.

Monique amuou...

As razões que expunha eram, no mínimo, estrambólicas. O futuro pai adivinhava ali um imbróglio sem pés nem cabeça, que o estava a magoar e a entristecer... E rebatia o desejo da companheira e da mãe, sem atinar com nada: então ele era o pai, como Monique atestava, e não queriam que ele perfilhasse a menina?!...

De súbito, após um prolongado silêncio, Monique começou a choramingar e, entre molestada e impulsiva, desabafou:

"Vou-me embora; vou para a casa da minha mãe!"

E, com efeito, nessa mesma noite, deixou o suave ninho, onde amou durante quase quatro anos...

Por linhas travessas, Jean Michel, que procurou manter-se ao corrente do que se passava com Monique, soube, uma semana volvida, que a parturiente tinha dado entrada na maternidade do hospital central de Toulouse.

Dirigiu-se para aí e foi informado que Monique já havia dado à luz uma linda pimpolha... Identificou-se como pai e pediu licença para entrar no quarto de Monique. Não tardou muito que não surgisse a sagaz progenitora de Monique, dizendo-lhe, com ar de preocupada:

"O parto foi complicado e a minha filha não está a passar muito bem. Volte amanhã, ou depois, e ver-se-á se já é possível visitá-la. Bom dia, passe bem!" - e esgueirou-se, apressada.

Amargurado e cheio de vontade de conhecer a sua descendente, Jean Michel recolheu a casa e, na manhã imediata, bem cedo, deu entrada na maternidade. E quase como se tivesse adivinhado, a belga já o aguardava, informando-o:

"A Monique passou muito mal a noite e não está autorizada nem a levantar-se da cama, nem a receber seja quem for. E mesmo a bebé não se encontra com ela..." - posto o que virou costas e deixou o infeliz pai a falar sozinho.

Jean Michel era fácil de convencer, mas tinha uma irmã que era decidida e boa conselheira. Foi ter com ela e narrou-lhe todos os acontecimentos a partir da altura em que Monique lhe fez aquela proposta esquisita...

"Eu sempre te disse que te acautelasses, porque a Monique nunca me inspirou confiança e a mãe dela foi sempre uma metediça, que tem a mania de que só ela é que sabe e que os outros são uns parvos que vagueiam pela Terra... À tarde, vou contigo à secretaria do hospital..."

Ali mesmo, desenrascada como sempre foi, a protetora de Jean Michel disse à funcionária:

"O meu irmão é um deixa-correr. Gosta da Monique e, embora desejando perfilhar a filha, deixa-se levar pelas palavras e enredos da mãe dela, que é quem está a urdir toda esta trama... O meu irmão é cidadão francês e tem provas de coabitar com a Monique há perto de quatro anos..."

"Mas nós não tínhamos dúvida de que o sr. Jean Michel tem razão e estamos a fazer tudo para regularizar a situação. Temos aqui o original do registo da criança, mas apenas com o nome da mãe. Vamos elaborar outra certidão. O sr. Jean Michel vai assiná-la já e depois, a sra. Monique fará o mesmo..."

O assumido pai assinou o documento e quis, uma vez mais, conhecer a recém-nascida. Dirigiram-se à maternidade e, uma vez mais, foi a madame Leane quem os recebeu...

"A Monique continua a passar mal; não pode receber visitas e a menina nem está com ela..."

"Mas a senhora é que manda no hospital e toma as decisões?!..." - reagiu a irmã de Jean Michel, num tom de voz bastante alterado.

Ainda assim não viram a bebé, porque a mafiosa dona Leane trazia tudo controlado ao seu jeito...

Os irmãos conferenciaram entre si e decidiram voltar no dia seguinte e proceder de outra forma.

Logo pela manhãzinha do dia imediato, dirigiram-se à polícia e constataram que a autoridade também estava envenenada e que até já tinham uma queixa, supostamente de Monique, afirmando que estava a ser perseguida pelo ex-companheiro e pela irmã e que ele já a tinha ameaçado fisicamente.

Dona Leane era marca diabólica e lograva resolver as coisas com a mentira e com outras artimanhas em que era especialista e que os dotes femininos ainda lhe permitiam...

Chegados à maternidade, foram informados de que a parturiente já lá não estava...

Não perderam nem mais um segundo. Dirigiram-se à repartição do Registo Civil, onde a irmã de Jean Michel tinha um excelente relacionamento com a chefe de secção. Pô-la ao corrente, apresentou-lhe as duas certidões do hospital, cada uma assinada por um dos progenitores da menina.

"Vamos notificar a sra. Monique e intimá-la a, com urgência, desfazer este imbróglio e regularizar a insólita situação, pois, ao contrário do que é costume, em lugar de sentir-se feliz por a filha não ser de pai incógnito, pretende registá-la como mãe solteira... Mas eu bem sei a razão de tal proceder..." - ajuntou a competente funcionária.

E, na verdade, três dias após a ida do Jean Michel e da irmã à repartição do Registo Civil, Monique comparecia, acompanhada da mãe, claro está...

Depois de argumentos e contra-argumentos, a funcionária, com firmeza e apoiada na Lei, rematou o assunto, de modo perentório, com o seguinte discurso:

"A sra. Monique tem o prazo de cinco dias para regularizar a situação, legalizando a criança com o nome do pai. E é bom que não esqueça que se trata de uma cidadã belga e que o sr. Jean Michel é naturalizado francês e, portanto, com todos os direitos de cidadania... Além disso, minha senhora, eu sei muito bem qual a razão porque teima em querer registar a menina como mãe solteira: é porque está informada que é a única forma de receber, mensalmente, um subsídio governamental de cerca de dois mil euros!..."


18-20 de junho de 2014

 

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A IMAGEM

A tia Ilda completara, em meados de novembro de 1998, 52 anos.

Casou pouco mais do que adolescente e, pelos dezoito outonos, na companhia do marido, emigrou para França.

Deu-se bem com os ares e as gentes das terras gaulesas. Encaixou-se em três patroas e passou a fazer a limpeza das respetivas casas.

Pelo 23.º aniversário, dispensado o marido, encostou-se a um argelino e com ele esteve junta uma dúzia de anos. Quer do marido, quer do argelino não procriou, pelo que decidiu experimentar um francês, chamado Gérard, mais velho do que ela uns três lustres. Entendeu-se muito bem com ele, porque Gérard era simpático, jeitoso, e não só possuía capital como ia ganhando uns consideráveis francos! Mas também desta feita, porém, não logrou ser mãe...

Eram donos de uma confortável mansão, nos arredores de Marselha e, por assim dizer, todos os anos gozavam um merecido descanso em casa de uma irmã mais nova, progenitora de duas bonitas raparigas: Mónica, a mais velha, e Cacilda, três verões mais nova.

Ora, Cacilda, por volta dos doze anos, principiou a perder a visão, até cegar por completo, pelos quinze. Deu, então, entrada num colégio especializado para deficientes visuais e, através de um método adequado, o Sistema Braille, realizou todo o seu percurso escolar, transformando-se numa estudante aplicada e bem-sucedida...

Aprendera e punha em prática todas as habilidades e regras da educação, da etiqueta e do saber viver em sociedade. Por isso, era extremamente cautelosa em tudo o que fazia, procurando nada estragar e ser o mais possível semelhante àqueles que veem...

A irmã Mónica ajudava-a muito e ambas mantinham um magnífico relacionamento.

Sempre que a tia Ilda aparecia para passar férias, batia na mesma tecla, quase exigindo, ou suplicando:

"Meninas, quero ver-vos em Marselha; vamos lá a decidirem-se e a aparecer..."

E o "tio" Gérard reforçava o convite e o desejo de tê-las em terras da formosa Provença...

Pois no ano de 1998, Cacilda pôde fazer o acesso à universidade e ingressou no curso de Filologia Românica - era a altura ideal para dar um gostinho à tia. Pôs-se em acordo com a irmã, apanharam um expresso na central de camionagem de Braga e rumaram a Marselha, tendo sido aprazado que nos primeiros dias de agosto regressariam na cómoda viatura do "tio" Gérard...

Foram recebidas com pompa e circunstância, com efusiva alegria e com enorme satisfação por parte do casal.

As moças ocuparam o segundo melhor quarto dos quatro da vivenda. Todo o imóvel estava mobilado e decorado com bom gosto. Por toda a parte proliferavam diversificados bibelôs e, sobre uma das mesinhas da cabeceira desse quarto encontrava-se uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, uma escultura trivial, em barro pintado, que fora pertença da mãe de Gérard e que ele guardou como lembrança carinhosa.

Essa imagem já tinha sofrido vários acidentes, ora porque tivesse tombado de lado, ora porque pinchasse para a alcatifa do chão, por qualquer encontrão que levasse... De três vezes tinham ficado sequelas: de uma, partiu-se a mão direita; da segunda, um pedaço do manto; da terceira, metade da coroa! Tinha sido tudo reparado com boa cola, embora não com muita perfeição, e como dois dedos da mão se tinham estilhaçado, foi usada fita adesiva como disfarce...

A pintura estava péssima e, aqui e ali, faltava barro...

Resumindo e concluindo: o aspeto da estatueta era desolador! Mas como era uma recordação da mãe do "tio" Gérard, a tia Ilda fazia questão de tê-la sempre limpinha, esmerando-se para que não surgisse mais nenhum percalço...

Mónica preveniu a irmã e esta, cuidadosa como era, primava na atenção... Mas... Há sempre um mas: numa certa manhã, Mónica andou a limpar o pó e, distraída, colocou a imagem na berma do tampo, à frente... Cacilda julgava-a na parte traseira da mesinha e, ao retirar um casaco de malha, do bengaleiro que se achava pegado à mesinha-de-cabeceira, uma das mangas andou mais ligeira e o tecido roçou na auréola da estimada imagem, que voou, de cabeça para baixo, para a fofa alcatifa. Cacilda debruçou-se, recolheu a estatuazinha e verificou que a cabeça se tinha partido! Ajoelhou-se na alcatifa e tateou até localizar a parte decepada, que tinha rolado para debaixo do bengaleiro...

Ficou como a noite! E logo havia de lhe suceder a ela, que sempre se acautelava dos perigos! E agora como enfrentar a tia Ilda, que trazia a Nossa Senhora de Lourdes num brinco, para com tal zelo demonstrar ao "tio" Gérard que as suas pertenças eram motivo de mil cuidados e atenções?

Não lhe restava outro remédio senão contar o desastre à tia Ilda... Muito retraída, chamou-a ao quarto. E nem foi preciso dizer nada, pois a tia desatou logo num infinito rosário de lamúrias, evidenciando, acima de tudo, o prazer que o "tio" Gérard tinha naquela herançazinha. E logo se pôs a antever a reação dele... Pelo que começou a fazer admoestações a Cacilda, que, a dado momento, atingiram a cólera mais desabrida.

"Mas não foi por querer, tia, tratou-se mesmo de um acidente!..."

Cacilda justificava-se, enquanto as lágrimas lhe saltavam das pupilas e banhavam-lhe o rosto angelical e inocente...

Neste entremeio, deram-se conta de que o "tio" Gérard tinha chegado, pois escutaram o ruído do motor do moderno Peugeot, na ampla garagem. Daí a pouco, o já quase septuagenário francês, com passos firmes, atravessava o salão. Sem perder tempo, a tia Ilda chamou-o ao local da desagradável ocorrência (para ela, do crime)... As palavras saíam-lhe como explosões de bombas de foguete, apressadas, mordazes, rancorosas:

"Foi uma boa chatice, Gérard! Vamos ter que dar um jeito nisto! É uma pena e um tremendo desgosto para ti!..."

"Desculpe, por favor, "tio", que eu não o fiz por querer!..." - aditava Cacilda e, de novo, a torrente lacrimejante voltava a jorrar...

Gérard, calmo, escutou a companheira e não proferiu um monossílabo, mas, ao olhar a expressão dolorosa de Cacilda e o caudal de lágrimas a lavar-lhe a cara, apressado, meigo e sorridente, fazendo-lhe, compreensivo, uma festinha no queixo, que tremia, expressou-se nos seguintes termos:

"As velharias também passam; trata-se de uma imagem que não tem qualquer valor pecuniário, mas tão-somente estimativo; já estava num caos, com falta de bocadinhos de barro, nada se parecendo com o original; é que calhou mesmo bem, porque andava a pensar jogá-la numa lixeira!"

A tia Ilda abria a boca, atarantada, incrédula, e deixou de pronunciar palavra. Estava, deveras, estarrecida e já não podia engolir o pesado sermão que havia pregado à inconsolável e prudente sobrinha, preparando-se para fazer marcha atrás e escapulir-se do cenário do acidente, com uma batalha de brio perdida... Mas ainda pôde escutar o fim do pausado e manso discurso de Gérard:

"Não te preocupes, menina, porque ainda há dias vi uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes mais bem concebida do que esta e que custava uma bagatela de oito ou dez francos..."


11-12 de maio de 2014

 

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A VITELINHA BARROSÃ

O Jacinto da Sobreira habitava numa enorme casa, num planalto povoado de sobreiros, já no extremo de uma asseada aldeia minhota. Tinha chegado ao mundo cerca do ano de 1901 da era de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Herdara do avô e do pai a habilidade de negociar em gado bovino, tornando-se num conceituado contratador, que efetuava vastas aquisições e, de seguida, lucrativas vendas. Por isso, como um ferrinho, frequentava todas as feiras de gado, tanto as próximas, como as bem distantes, montando um soberbo e alentado cavalo.

Saía inúmeras vezes ainda com as estrelas a brilhar e, noutras tantas, regressava ao lar já batida a meia-noite. Para dissuadir os forasteiros que gostavam de deitar a luva às carteiras alheias, sempre bem recheadas de notas graúdas, como a sua, fazia-se acompanhar de uma pistola de alto calibre, carregadinha de munições e de um pente suplementar, por via das dúvidas.

É que já não era a primeira nem a décima vez que o abordavam e queriam conversa fiada... Não perdia tempo: rapava da arma que, por cautela andava sempre com uma bala na câmara e com a corrediça puxada atrás, empunhava-a, resoluto, apontava-a com firmeza e pronunciava ameaças com voz altiva e ameaçadora...

Numa certa sexta-feira, já bem dentro da noite, vindo de uma feira afastada com uma estupenda junta de bois, uma vaca galega e uma vitelinha de raça barrosã, presas ao cavalo por compridas e seguras cordas, ao atravessar um outeiro desértico escutou, de súbito, uma restolhada. Ato contínuo, uma rija paulada atingiu-o, com violência, nas ilhargas, fazendo-o tombar, meio sem sentidos, para a frente, sobre o pescoço do cavalo, que, domesticado como estava, estacou.

Quando voltou completamente a si, premiu o gatilho e despejou todo o carregador, disparando em todas as direções. Não ouviu rumores de vivalma, desmontou e, já no chão, contorcendo-se com dores, acendeu um foco a pilhas, inspecionou o gado e verificou que a vitelinha, de raça barrosã, já não fazia parte das suas compras, tendo ido corda e tudo...

"Raios partam os que bolem no que lhes não pertence e andam por aí de costas direitas, sem levantar uma palha do chão!... Raios os partam e que lhes não passe mais uma sede de água pela garganta, enquanto me não restituírem a vitelinha, que paguei bem paga e que já tinha comprador garantido!!" - e continuou, furibundo, naquele descampado, a berrar e a semear imprecações.

O Jacinto da Sobreira estava fora de si, mas precisava de chegar à sua residência, que ainda distava quase duas léguas de fraco piso. Cada vez sentia mais dores e mais ferradas e foi o diacho para subir para o selim. Ao colocar o pé direito no estribo do mesmo lado do quadrúpede e ao levantar a perna esquerda para montar, experimentou umas dores de morrer, e foi gemendo até ao final da jornada, que apenas findou volvidas umas quase três horas de marcha.

Não se deitou, deu um salto à casa do compadre Faustino, um experto e muito conhecido endireita, que, sem se fazer de rogado, lhe aplicou emplastros de linhaça, para retirar as pisaduras, não obstante estar-se a meio da madrugada...

Do mal o menos, o contratador de gado não tinha nada partido, nem deslocado, apesar dos hematomas serem de monta e bem visíveis...

No domingo, conforme pôde, arrimado ao seu rijo lódão de marmeleiro, foi à missa do cedo, (sobretudo porque era preciso auscultar as conversas no final da missa, entre os vários grupos de curiosos que se reuniam no amplo adro da igreja)...

Logo que a missa acabou, o regedor da freguesia, um velho e sincero amigo da sua família, veio cumprimentá-lo e indagar do resultado das bordoadas com que o mimaram.

"Dêmos louvores ao Altíssimo, amigo, podia ter sido bem pior! Umas dores danadas e muitas nódoas pretas, mas o tempo tudo cura, uma vez que não tenho ossos partidos, nem estalados..."

"Isso já eu sei, que o Faustino, ontem, na Feira dos Treze, onde não compareceste, informou-me de tudo..."

"Pois não fui à feira, não, e bem contava e necessitava de lá ter ido, para conversar com o Nelinho das Ínsuas, a quem se destinava a vitelinha barrosã..."

"E a toura que te roubaram era de raça barrosã, Jacinto?!" - questionou, com a pulga na orelha, o sério regedor da freguesia.

"Era, sim, e por sinal linda como uma rosa..."

"Malhada, com uns cornos pequenos e uma lista na testa?!" - falou, meio atarantado, o regedor.

"Nem mais nem menos... E..."

Mas o regedor interrompeu-o de imediato e, num misto de aborrecimento e satisfação, afirmou:

"Ontem, na Feira dos Treze, comprei eu a tourinha a um sujeito que disse ser de cascos-de-rolha..."

"Maldito larápio!, que pena não poder ter ido à feira e ser eu o comprador, que o havia de pôr preparado para entrar num caixão e enterrado no cemitério... Que sorte ele teve, que sorte!..."

"Afinal, Jacinto, tiveram sorte os dois, porque tu mandava-lo para o Campo Santo e eu tinha de te prender e levar para a cadeia!"

"Mas não é capaz de o tirar pela pinta?..." - insistia Jacinto da Sobreira, gesticulando e gemendo, sempre que as dores lhe lembravam que devia estar estirado na cama e muito quieto. E prosseguiu: "E, se não ofendo, quanto deu pelo animal, sr. Regedor?"

"Quarenta mil réis, Jacinto."

"Eu dobro a quantia, sr. Regedor..."

E metendo a mão no bolso direito de trás das calças, retirou a carteira e dispunha-se a abri-la, quando o honesto e bom ancião colocou as mãos nas dele e disse-lhe, com um certo ar de gozo:

"Homessa, nem pensar! Já te bastam o susto, as rijas pauladas e as negras espalhadas pelo corpo!" - e depois, com um sorriso jocoso, aberto de orelha a orelha, prosseguiu: - "Pagas-me os quarenta paus, e viva o alho! O resto, que to agradeça o espertalhão que te surripiou e vendeu a vitelinha de raça barrosã, que te brindou com um enxerto de lostras e a quem pagaste, seguramente, um regalado almoço, bons petiscos e, pela aragem, uma grande carraspana!..."


24-25 de abril de 2014

 

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MORENINHO, O ANÃOZINHO

O Moreninho era, se assim se pode dizer, um minúsculo anão, inteligente, subversivo, acérrimo defensor do direito à Liberdade e cheio de boas intenções, sobretudo para ajudar o seu semelhante. Chamavam-lhe Moreninho devido à pequenez do seu corpo, à sua pele corada e semblante sempre muito expressivo... O Moreninho habitava num reino distante, onde governava um poderoso monarca, rigoroso, cruel e implacável, que não permitia desobediências.

O real senhor mandou cavar um profundo e enorme subterrâneo, para servir de prisão de segurança, onde mandava encarcerar gigantes, homens de estatura média e anões.

O desconfortável espaço foi dividido em três comparti-mentos: no primeiro, à entrada e o mais amplo, alojavam-se os gigantes; no segundo, ao centro e um pouco mais reduzido, permaneciam os homens de estatura mediana; e no mais interior, exíguo e com menos claridade, ficavam os anões.

Como a comida e a bebida eram racionadas, a quantidade destinada a cada refeição vinha controlada e, obrigatoriamente, tinha que chegar para abastecer os três compartimentos.

Os primeiros a serem servidos eram os gigantes, que se saciavam à tripa-forra. Na zona intermédia, os homens de altura mediana também eram bem servidos, embora não ficassem plenamente satisfeitos como os seus antecedentes. Na divisão mais pequena e afastada da entrada, os anões tinham que se contentar com a comida que sobejava, que mal chegava para mantê-los vivos, tal era a escassez dos condutos.

Ao longo de muitos anos fora este, repetitivamente, o regime alimentar prisional.

Ora, num dado momento, deu entrada no subterrâneo um prisioneiro especial, o já mencionado Moreninho, condenado por sua Alteza Real por suposta espionagem em favor de uma potência inimiga... Por isso, as autoridades recomendaram que não se desviasse o olho daquele traidor e que lhe fossem infligidos castigos, quer corporais, quer psicológicos, quer "os mimos" da fome...

Os carcereiros passaram assim a atuar em consonância com as ordens superiores. O anãozinho, porém, era efetivamente muito dotado, comedido e inteligente, obedecia a tudo e não colocava o pé em ramo verde, pelo que deixaram de o massacrar e perseguir amiúde. Nele não havia nada a corrigir.

Na verdade, ele fazia um esforço sobre-humano para patentear tão exemplar comportamento, já que, intimamente, astuciava uma forma de ver-se livre daquela injusta sentença...

Vivendo num reinado de repressão, apregoava valores como a Liberdade e a Justiça, pelo que lhe excediam razões para se não conformar com aquela situação de recluso...

Foi então que, certa vez, num ponto mais recôndito e onde parecia nada mais existir, descobriu uma tampa bem dissimulada, que rematava um tubo de razoável diâmetro...

Onde iria dar aquele buraco tão disfarçado?! Ali estava um mistério para ele desvendar, para exercitar a sua inteligência e inventar, quem sabe, qualquer nova técnica subversiva...

Guardou o segredo a sete chaves e iniciou aturadas explorações...

Sempre que podia, com o máximo de discrição, retirava a tampa e entrava no buraco: o tubo desembocava numa extensa galeria, que findava numa segura portinha de ferro, bem trancada por dentro, e que ia ter a um rochedo, em pleno mar... Logo o investigador deduziu que se tratava de um caminho secreto, destinado a levar para o extermínio os presos mais perigosos e indesejáveis - uma forma de, com facilidade, se verem livres deles...

O Moreninho era um ótimo nadador e escalava, na perfeição, qualquer rochedo... Engendrou vários cenários e concluiu que não era difícil a sua fuga, assim como a dos seus companheiros de clausura.

Foi congeminando as diversas possibilidades de uma evasão... A fuga do seu compartimento apresentava-se simples, já que os anões se podiam movimentar à vontade na galeria... Outro tanto não acontecia com os moradores da repartição do meio e, sobretudo, com os gigantes... Qual a melhor solução para tal contratempo?

A primeira ideia que lhe aflorou à cabeça foi sensibilizar os inquilinos dos dois outros compartimentos para que passassem a comer menos, de modo a que emagrecidos pudessem entrar e deslocar-se no labirinto... E até nisto, com uma reflexão luminosa, viu a maneira de os seus camaradas anões passarem a ter melhor alimentação, deixando de comer apenas os restos da comida oriundos das duas alas que os precediam na prisão.

O Moreninho, em sigilo, é claro, principiou a reunir com a malta: primeiro com um grupinho representativo dos gigantes, depois com um do compartimento intermédio e, por fim, reuniu com os demais anões...

A primeira reação dos convivas não poderia ter sido mais favorável, revelando todos a ambição de serem livres e de respirarem ar puro...

Aquela sugestão do emagrecimento é que não lhes caiu no goto:

"O Moreninho deseja é alimentar os seus pares e fazer com que os demais passem fome!..." - pensavam os residentes dos dois compartimentos maiores.

Ambicionavam a Liberdade, com efeito, mas deixar de ter a comidinha em abundância era óbice que lhes tolhia o entusiasmo... E depois, o Moreninho, com discursos inflamados, assegurava-lhes ter um plano redentor; porém, somente no dia da fuga o revelaria, adiantando apenas que funcionaria por fases...

Organizaram-se, clandestinamente, dois partidos: um, reduzido, e unanimemente formado por anões, concordava com as diretrizes e com os planos do camarada anãozinho; outro, mais numeroso, e integrado pela quase totalidade dos gigantes e dos homens de estatura mediana, duvidava da eficácia e dos projetos arrojados do Moreninho...

E, como sucede quando há muita gente envolvida num assunto e muitas cabeças a pensar, começaram a haver umas fugazitas de informação...

O Moreninho principiou a ser espiado e controlado nos passos que dava...

(...) Numa certa noitinha em que palmilhava o labirinto, para dar os últimos retoques na minuciosa planificação, o Moreninho foi surpreendido, em pleno giro, por uma patrulha de severos agentes da autoridade, que, sem apelo nem agravo, o meteram numa masmorra e o obrigaram a "vomitar" o plano da evasão...

Nunca mais apareceu nos compartimentos do subterrâneo!...

Por isso, os laivos de Liberdade que animavam todos os reféns, esvaíram-se... E como ninguém estava por dentro dos planos do Moreninho...


17 de março de 2014

 

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A GENEROSIDADE DO LININHO

Cerca dos anos trinta, da última centúria, a Celeste Melra era uma mulheraça, jeitosa, asseada e atraente, rondando pelas vinte e oito primaveras. Casou antes de atingir a maioridade e já procriara quatro filhinhos.

Era muito expansiva, ótima tecedeira de teias de algodão, mas apontava-se-lhe um defeitozito: gostava de deitar a mão ao que lhe não pertencia. Embora os furtos não fossem coisas de monta, da fama e do proveito é que ninguém a ilibava, até porque, pelo menos por umas três ocasiões, tinha sido apanhada com a boca na botija: uma vez, na eira do Zezinho Quintães, a encher um cesto de espigas, através de uma ripa de madeira que partiu no espigueiro; de outra vez, no moinho do se João Moleiro, com uma taleiga de farinha milha, que a mó estava a moer; e ainda em outra situação, na vinha da Emilinha dos Prados, com uma abada de cachos de uvas brancas, da Senhora da Abadia...

É claro que se falava de outras visitas a locais que lhe estavam vedados, mas certezas, certezas eram aquelas três interceções...

Ora, havia nessa aldeia minhota, um abastado agricultor que tinha um filho, conhecido por Lininho, ainda solteiro, com um quarteirão de aniversários, que se gabava de fazer umas valentes conquistas e que há muito andava a arrastar a asa à Celeste Melra, que, por um acaso, era inquilina dos seus pais, numa das três casas que tinham alugadas.

O Lininho, com efeito, por variadíssimas vezes lançou o anzol, mas o peixe nunca lhe pegou...

Num certo fim de dezembro, um domingo ainda de noite, sucedeu que, quando todos tinham ido à missa do cedo, ficando apenas o Lininho em casa, se lhe afigurou que escutou um barulhito de uma porta, no rés-do-chão... Lesto e com imensa cautela, em ceroulas e descalço, empunhou um revólver (arma que sempre o acompanhava em toda a parte) abriu o alçapão, que dava para as escaleiras interiores da espaçosa loja do vinho, onde se acomodavam, também, as amplas tulhas do milho, do centeio, do feijão, das farinhas e farelo e duas salgadeiras. Desceu os degraus e acendeu uma candeia, que sempre existia por ali, para qualquer eventualidade. E não é que bate com os olhos em cheio na Celeste Melra, em saiote, com a tampa da salgadeira grande aberta?...

Não se ouviu um pio de parte a parte. Nunca ninguém soube desta incursão matinal à espaçosa loja dos pais do Lininho. A intrusa não roubou, mas regressou a casa, mais consolada do que um sardão a apanhar sol, carregando meia rasa de milho, um quarto de feijão manteigueiro, uma cabaça de vinho e um belo naco de carne entremeada, de porco...!


5 de janeiro de 2014

 

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BARRIGA D'ÁGUA PÉ

O Quinzinho das Sortes era um abastado agricultor, (um pouco velhaco) muito estimado na sua aldeia natal e nas da redondeza, de estatura mediana e largo de carnes, como a roda de um carro de bois...

Mas o que mais nele sobressaía era a barriga, que semelhava um adiantado do corpo... E este assinalável pormenor resultou que lhe atribuíssem uma alcunha, "Barriga d'água-pé", a qual ele detestava e, se possível, punia com uns puxões de orelhas, umas vergastadas, uns sopapos, ou mesmo uns dançados e cómicos pontapés!

E a verdade seja dita: também já se contavam por muitas as punições efetuadas.

Uma, todavia, era sempre bastante badalada...

Deu-se o caso que, numa bela manhã do começo do mês de setembro, o Berto Bugalho, ao passar junto do extenso campo da Sobreira, (propriedade do Quinzinho) deu com os olhos a mirar uma ramada de uvas, com cachos apinhados de bagos já próprios para consumo e para satisfazer a gula. Empoleirou-se numa parede, escolheu o melhor local, amarrou-se a um esteio de pedra e começou a trepar. Quase ato contínuo, escutou a grossa voz do Quinzinho das Sortes, que se ia aproximando, aos gritos:

"Larápio!, deixa que eu já te dou uvas, seu malandro!" - e, de sachola ao ombro e num correr lento e desajeitado, caminhava para o sítio onde o Berto Bugalho, (sem haver provado o fruto proibido) à cautela, já se ia esgueirando, retorquindo:

"Larápio, não, que eu não furtei nada e só ia apanhar um cachito para comer; e sempre ouvi dizer que quem pega para comer, não é considerado roubo, nem pecado, seu "Barriga d'água-pé!" - e continuou a dar às de vila-diogo...

"Tu hás de pagar-mas, maroto!" - berrou o Quinzinho, mais furibundo.

Doravante, o Berto Bugalho, sempre que enxergava o Quinzinho, punha-se ao fresco, ou mantinha uma distância considerável, não fosse o Demónio tecê-las! Passado um ano, pouco mais ou menos, o Quinzinho estava junto de uma regueira, (que passava perto da berma da estrada) consertando um pejeiro, que estava esbandalhado e deixava fugir a água. Subitamente, desequilibrou-se e tombou para a regueira (que, por sinal, era baixinha e com reduzido caudal), mas ficou numa posição caricata e estava com dificuldades para libertar-se da armadilha... Casualmente, por essa altura, o Berto Bugalho ia a passar, a correr, tangendo, com um arame, o seu ferrugento aro, de bicicleta. Bem se lembrou da ameaça há tempos proferida, mas, ao vê-lo naquela situação embaraçosa, aproximou-se, apanhou a sachola e colocou-lha nas mãos...

Valeu a pena, porque o Quinzinho apoiou-se no cabo e arranjou jeito de levantar-se...

O miúdo mostrava um ar feliz...

De repente, e por um acaso, repara que o Quinzinho das Sortes levantava a perna direita e que se preparava para brindá-lo com um agradecido pontapé...

Mais lesto que uma lebre, e a tempo de ainda sentir o vento da movimentação da galocha do Quinzinho, a arejar e a roçar-lhe o cu das calças, voou para terreno seguro e, a distância conveniente, voltou-se para trás, observando o olhar colérico e desapontado do lavrador, desfechando, escarninho e molestado, a plenos pulmões:

"Barriga d'água-pé!, Barriga d'água-pé!"...


3 de novembro de 2013

 

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UM TIRO POR UMA PINGA

Ao pe. João Alves de Oliveira


O sr. Jaime Laranjeiro, carinhosamente chamado Jaiminho, era um digno representante minhoto e chegou ao mundo no começo do século passado, numa pequena, airosa e bonita aldeia, nas cercanias de Braga. De estatura elevada e boa figura, era um abastado proprietário, excelente pessoa e amigo de fazer bem. Como aficionado caçador, sempre que lhe era propício, praticava o alegre e salutar desporto, que lhe enchia as medidas da satisfação e do prazer. Era muito respeitado por todos, correspondendo na mesma moeda, e também gostava imenso de receber em sua casa os familiares e os amigos, tratando-os galhardamente e como lordes!

De algumas peripécias que dele se conheciam, havia uma que era a mais badalada...

Fora o caso que, à tardinha de um certo dia da época de caça, o Jaiminho, vindo dos montes e dos campos, com outros companheiros do mesmo ofício, ao passarem junto da moradia de um lavrador amigo, que, por um acaso, no momento, estava ao portal, meteram conversa e acabaram por fazer da loja do vinho a sala de visitas do anfitrião.

Paleio puxa paleio – que as palavras são como as cerejas –, secaram-se as bocas! Mas o visitado não mostrava indícios de querer dessedentar as gargantas dos forasteiros...

Observando, porém, os olhares apaixonados e gulosos dos convivas, direcionados para as pipas, entre pesaroso e sovina, desculpou-se o lavrador:

"Dava-lhes uma pinga do bom, mas o Demo é que os cascos não têm torneira, nem espicho e o vinho que corre está na borra..."

Prosseguiu, entretanto, animadamente, o amistoso cavaqueio e, uma ou duas vezes mais, o dono da casa se lamentava, quer por o vinho que andava a gastar-se estar na borra e o demais vasilhame não ter torneira, quer por não ter à mão uma verruma, para abrirem um furo no tampo e tirar um bom pingato...

O Jaiminho é que já não estava a achar nenhuma graça ao cenário, porque sabia bem o gado que tangia, isto é, conhecia as palavrinhas mansas e a sovinice do agricultor. Por isso, mentalmente, pôs-se a cozinhar o modo de não saírem da adega a seco, aliviando a conversa estragada e as repetidas desculpas do farsante interlocutor...

Foi então que, entre sério e gozão, se dirigiu ao amigo da onça:

"Ó homem de Deus!, mas tu afinal tens mesmo vontade de dar-nos uma pinga, ou não?!" – inquiriu, com artimanha e já com a solução pensada e pronta a executar.

"Homessa, Jaiminho, isso nem se pergunta: está claro que quero e faço muito gosto nisso. O diacho é que as pipas não têm torneira, nem um espicho e nem vejo por aqui uma verruma..."

"Então pega, depressinha, na caneca!" – concluiu, resoluto e eufórico, o estimado cabecilha do grupo dos visitantes.

E, rapando da pistola, que costumava acompanhá-lo, empunhou-a, apontou o cano ao tampo de uma das vasilhas, disparou uma bala e..., louvado seja Deus!, abriu um espicho, cuja ausência servia de desculpa ao astuto residente...

Viu-se um jato vermelhinho e sentiu-se um cheiro agradável, fruto da esguichadela que provocou o espirituoso prisioneiro da pipa, após a oportuna espichadela, que, em tão boa hora, engendrou o Jaiminho Laranjeiro!



6 de março de 2012

 

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A PEDRA COM INSCRIÇÕES

Num descampado, no topo de um outeiro, havia uma enorme pedra, em forma de prisma retangular, deitada sobre uma das faces de maior superfície, que, na parte superior, numa linguagem que algum perito tinha decifrado, esculpida e em pequenas letras, continha a seguinte inscrição:


"Quem me virar,
debaixo de mim alguma coisa há de encontrar..."

Não faltava quem fosse ao inóspito sítio, para tentar virar o pedregulho: em vão. Todavia, todos tentavam, com a gula de acharem algo valioso debaixo dele! E lá foram homens, mulheres e até crianças, individualmente ou aos pares, ou em pequenos e grandes grupos, ou mesmo famílias inteiras, a fim de tentar a sua sorte: o bloco de granito, porém, mantinha-se impávido e sereno, isto é, não se mexia!

Secretamente, formou-se uma reduzida comissão, que principiou a organizar um grupo de muitos homens, quer residentes, quer de aldeias vizinhas.

E também, e ainda muito em sigilo, foi aprazada uma tentativa de remoção da enorme pedra para um domingo, no final da missa da manhã.

Assim, muito cedinho, começou a juntar-se o grupo no respetivo local.

Muniram-se de grossas e compridas alavancas de ferro e de madeira, de picaretas, enxadas, sacholas, guilhos, ponteiros, brocas, pás, alviões, marretas e de outros muitos apetrechos, para levarem a bom termo a tão projetada e importante tarefa. Colocaram-se de um dos lados do pedregulho, escolheu-se uma voz de comando e iniciou-se a empreitada: gemia-se, suava-se abundantemente, ouviam-se exclamações de desânimo e de fadiga e palavrões de descontentamento e de raiva...

E o pesado bloco não mostrava sinais de se mexer!

Passado, porém, longo tempo e fruto de imenso esforço e perseverança, mexeu-se um poucochinho!

O ânimo, já esmorecido, avivou-se e a esperança renasceu...

Implementaram-se outras técnicas e puxou-se com mais convicção e dinâmica...

E, de repente, por fim, a pedra levantou-se, subiu, subiu e, dando dois tombos, imobilizou-se de novo...

Sem examinarem a pedra, com sofreguidão e ganância, escavou-se o chão. O solo não estava removido, nem se viam indícios de terem escondido ali fosse o que fosse...

Foi então que um dos convivas descobriu, na parte que esteve para baixo e que agora ficara para cima, uma outra inscrição e até, por um acaso, em letras garrafais...

Era preciso chamar quem pudesse decifrar e traduzir as palavras gravadas.

Foram buscar um arqueólogo, que residia numa vila próxima, habituado e experto na matéria, que, chegado ao outeiro, estudou os carateres, calmamente, e, decorrido algum tempo de suspensão geral, leu em voz alta e com ênfase:


"Deus dê saúde a quem me virou,
que, deste lado, há muito que estou!"



27 de dezembro de 2011

 

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A ENCOMENDA

O Alexandrinho era um abastado lavrador e muito sovina! Não dava esmolas aos pobres que estendiam a mão à caridade, pensando sempre em aferrolhar dinheiro e até, era voz corrente, que às vezes, se comia mal em casa dele, só para não gastar... Por isso, quem o conhecia, em jeito de troça, dizia que ele dava uma fraca morcela em troca de um bom presunto!

Ao mesmo tempo era fanfarrão e convencido, gabando-se de que ninguém lhe entrava em casa, porque estava bem armado, com a caçadeira sempre carregada e   mão de disparar, bem como uma boa pistola, que dormia com ele, debaixo do travesseiro!

Frequentemente, na aldeia e arredores, praticavam-se roubos e morava perto da sua enorme casa de lavoura um refinado larápio, o Manuel, de alcunha *Mão Ladina*, pois tinha agilidade para aliviar o seu semelhante de uma carteira, de umas moedas, ou de objectos de estimação e valor, e claro está, não fazia outra coisa senão mexer no que lhe não pertencia!

Assaltava as casas, quer de noite, quer de dia, ou ainda aparecia nos caminhos, saído de locais inesperados, chegando mesmo a actuar em sítios públicos.

Mas era um larápio sociável. Onde se encontrasse com alguém conhecido, delicado e sorridente, confraternizava.

Como sucedera tantas vezes, certo fim-de-tarde, numa taberna concorrida, famosa por servir bons petiscos e pinguinha de consolar, encontraram-se os dois, de tigela na mão, a molhar a palavra, e também, uma vez mais, o lavrador, como em provocação, a dizer-lhe:

"Em minha casa ninguém entra sem que eu autorize, senão pode trabalhar uma tranca, ou mesmo um gatilho! Além disso, tenho portas bem seguras e bravos cães de guarda..."

"Acredito, acredito, Alexandrinho... De qualquer modo, tenha cuidado, porque o diabo é tendeiro... E como diz o outro «cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém...» Numa hora menos feliz e de distracção tudo pode acontecer..."

"Ah, ah, ah!, mas eu previno-me e sei que posso dormir descansado: seguramente que a minha casa é como uma fortaleza!" - e escorripichava a malga, que pousava no balcão, com força, e esfregava as mãos, forjando um largo sorriso escarninho.

"Assim será, assim será, mas cuide-se: olhe que o diabo tece-as..."

 

 

Na manhã seguinte, estava o sol a levanter-se, o Alexandrinho ouviu bater a aldraba do grosso portal de castanho e foi espreitar pela janela, voltada para um largo terreiro, asseado com várias moradias. Ficou assarapantado, porque deu com os olhos no *Mão Ladina*, observando que apresentava um ar de boa disposição.

"Madrugaste, homem! Há novidade?"


 

"Não, não, Venho só entregar-lhe uma encomenda, Alexandrinho! - respondeu prontamente e a sorrir, o visitante. E prosseguiu - Faz favor chega aqui, só por um instantinho?!"

"Lá vou, lá vou... - respondeu, intrigado e saiu a remoer - Que demónio de encomenda vem ele trazer-me? E tão cedo e tão sorridente..."

Desceu as escadas de pedra, atravessou o espaçoso quinteiro, abriu o portal e estava frente-a-frente com o madrugador.

"Então que é da encomenda, Manuel?"

"Está aqui... - Meteu a mão ao bolso interior do casaco e apresentou-lhe uma pistola, que o proprietário, incrédulo, atarantado e com leves tremuras, logo reconheceu ser a sua – Tome-a lá e seja mais cauteloso, para que lha não voltem a ir buscar debaixo do travesseiro, enquanto dorme..."

O lavrador, recobrado da surpresa e com palavras mansas, galhofou:

"Ó espertalhão de uma figa, por onde entraste?"

"Pelo telhado, a meio da madrugada, que era o sítio mais seguro e prático..."

"Bem, bem, Manuel, agradecido, muito agradecido. Que isto fique só entre nós... Ninguém precisa de saber da tua habilidade... Agradecido, muito agradecido... E, a partir de agora, tens a minha casa às ordens e não precisas de subir ao telhado para entrar..."

 

Setembro de2005

 

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A NOGUEIRA

No bem cuidado quintal do venerando ancião é que se encontra uma raríssima nogueira, atendendo ao excepcional diâmetro e altura do tronco e ao comprimento dos grossos e verdejantes ramos, que bem podiam formar, individualmente, uma robusta descendente.

Trata-se, com efeito, de um exemplar colossal, alvo de muitas e curiosas visitas, fazendo pasmar os olhos que o contemplam!

 E, quanto a frutos, então, apesar da velhice, parece que cada ano produz mais e de melhor qualidade...

Quem se sente lisonjeado e enternecido é o dono, que se não cansa de narrar a sua tão simples e comovente origem:

"Tinha os meus sete anos quando, numa certa tarde de Novembro, ao regressar da escola, pela mão de meu pai, no valado de uma propriedade, rodeada por um denso herbanário, enxerguei uma minúscula planta, isto é, uma vergastinha. Com jeito, arranquei-a e disse ao meu pai que a ia plantar no nosso quintal. Ele sorriu, carinhosamente, e não fez comentários.

"Chegados a casa, sem perder tempo, peguei num sachinho (uma estimada relíquia, que, amorosamente, ainda conservo, prenda da minha bisavó paterna, cerca dos meus quatro anos, e que, morrendo já tão velhinha, nunca deixou de /"foçar na terra/", como costumava dizer, cheio de ternura e banhado por largo sorriso, o meu avô) e, com todo o cuidado e enorme fé, executei os passos que seguiam os meus ascendentes.

"Depois, todos os dias a ia visitar, não me esquecendo de regá-la sempre que achasse necessário.

"A meio da Primavera imediata nasceu uma folhinha e o meu pai disse-me, meigamente, admirado e feliz: /"É uma nogueira, Manuel!/"

"Este regalo da natureza tem sido e é a menina dos meus olhos! Não me fatigo nunca de a mirar e, ao vê-la assim tamanha, penso no dia em que a encontrei, arrancando-a tão enfezada e sem lhe saber o nome, do esmero no plantio, bem como todas as fases do seu crescimento...

"E já lá vão quase setenta anos, que os completa no próximo mês!..."

 

Outubro de 2004

 

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ADEUS ETERNO

A Tânia era uma jovem, que vivia triste e sozinha, sem o calor de um afecto. O pai, pescador arrojado, num naufrágio, em certa noite tormentosa, ficou sepultado no fundo do Atlântico. A mãe não resistiu à paixão e, volvido um ano, foi a enterrar, deixando-a com umas tenras quatro Primaveras.

Morava pertinho do mar e habituou-se a respeitá-lo e a ter-lhe amor... E dele, num inesquecível dia, também lhe chegou a felicidade, trazida por aquele gentil moço embarcadiço, realizando o seu belo sonho!

Amaram-se, casaram e desejaram um filho, que se não gerou...

Marco, inúmeras vezes e disfarçando, sentia desejos de voltar ao mar traiçoeiro e sedutor... Tânia, quando ele, de leve, abordava o doloroso propósito, entristecia-se e, com imensa ternura, rogava-lhe que não partisse. Também, meigamente, ele foi adiando e prometendo que ficaria.

Mas o mar não cessava de o chamar!

Na casita onde viviam, ouvia-o, lá ao fundo, quer na procela, quer na calma... Era um feitiço de que não conseguia libertar-se...

E uma certa manhã, sem nada dizer, para não magoar a sensível e amada companheira, embarcou...

Ela, porém, desconfiou e foi ao cais, para dizer-lhe adeus...

Acenou-lhe com um lenço branco, que também servia para limpar as copiosas lágrimas que lhe lavavam o rosto dolorido... E ele, mirando-a, cada vez mais afastada, correspondia aos acenos...

O barco foi desaparecendo, vagaroso, sulcando a alva e leve espuma e as ondas inofensivas e silenciosas...

Nos vinte anos seguintes, tantas e tantas vezes, tornou ao cais, recordando e vivendo a cena amarga da partida, na expectativa de que Marco regressasse, vendo morrer, lentamente, a esperança, porque não mais voltou...

O que teria acontecido, santo Deus?! Morreria como o pai, tragado pela imensidão e profundeza das águas?! Deixaria de a amar e esquecê-la-ia?! Ter-lho-ia disputado uma outra mulher num qualquer porto onde desembarcasse?!

Continuou, apesar de tudo, a esperá-lo, indo ao cais, de manhã, pela tarde e até pela noitinha, envolta por subtil manto de saudde...

Marco fôra o único e grande amor da sua vida!

Por isso, quando a dor era mais atroz, até ao fim da vida, parecia-lhe que ainda ouvia a voz dele, a confortá-la, plena de suavidade, repetindo doces e maravilhosas palavras de amor...

 

Dezembro de 2004

 

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AJUSTE DE CONTAS

No princípio da década de 1860, Tomé Fernandes, que há uns 15 anos havia emigrado para o Brasil, regressava na posse de um avultado pecúleo, porque lá mourejara honestamente e a vida lhe correra de feição.

Numa aldeia vizinha do seu torrão natal adquiriu uma extensa e bonita quinta, restaurando uma ampla mansão, que ornamentou com fino bom-gosto, não descurando o conforto e o bem-estar, para residir com uma jovem e simpática rapariga, que escolheu numa conceituada família dos arrabaldes.

Casaram e, um ano depois, Deus povoou-lhes o lar com uma robusta e linda menina, baptizada com o nome de Margarida e que foi criada com desvelos e ternuras sem-fim.

Pelos dez anos, inesperadamente, uma terrível peste lhe arebatou, num curto espaço de duas semanas, mãe e pai.

Foi, então, entregue à tutela de um tio paterno, pai de quatro filhos, que orçava os cinquenta anos e que passou a administrar, ao seu belprazer, os fartos haveres herdados pela pequena.

Margarida, entretanto, bafejada por dotes de beleza da alma e do corpo, atingira as vinte Primaveras e tornara-se numa invejável e cobiçada figura.

Surgiam, em catadupa e das mais ilustres casas limítrofes e afastadas, inúmeras e aliciantes propostas de casamento. Ela, porém, delicadamente, ia rejeitando, sem revelar as fundas razões de tal procedimento. Até que, num certo dia, perante o aparecimento de um galante e sincero pretendente, que teve pronta receptividade no seu virginal coração, confessou, pedindo-lhe grande sigilo, ter sido violada pelo tio e que, se mesmo naquelas condições a aceitasse por esposa, se uniriam para gozar a felicidade a que tinham direito.

Aconteceu que o tio não aceitou, de ânimo leve, a decisão da sobrinha e, enquanto esta, a todo o custo, escondia o segredo e se envergonhava do sucedido, ele, zombeteiro, na roda de amigos e até na presença dela, sobretudo quando emborcava uns largos copos de álcool, o que era usual, por certo com ciúmes e com despeito, costumava proferir:

"Bebo à saúde do primeiro!..."

Ao fim e ao cabo saudava-se a ele próprio e a vileza cometida, de que, aliás, jamais sentira remorsos, rindo-se com visível malícia.

Margarida, com o tempo e com o amor-próprio ferido, decifrara o repetido piropo...

Desde a noite nupcial que Margarida se apercebeu de que o tio, pela calada da noite, como um abutre, espiava a intimidade do casal.

Amava o homem a quem se entregara com todo o ardor, porque a aceitara com a sentida desgraça e odiava aquele que a vilipendiara e perdera.

 Com toda a energia e sem nada revelar ao companheiro tomou uma inabalável decisão...

Dias volvidos, no silêncio da já batida meia-noite, vigilante, enquanto o marido dormia despreocupadamente, pressentiu a odiosa presença de quem tanto a humilhara e fazia sofrer.

 Abriu, com mil e uma cautelas, a janela do quarto, voltada para uma parte privada do jardim, disparando um bacamarte, que atroou os ares e largou uma densa nuvem de pólvora e um potente chuveiro de grãos de chumbo, que acertaram em cheio no vulto intruso, especado a uma dúzia de metros e iluminado por um claríssimo luar de Janeiro...

 

Setembro de 2005

 

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GARRAS DO DESTINO

Na margem direita do rio Cávado é que o abastado lavrador possuía a sua melhor quinta. Nela fixara residência, porque lá tivera o berço e se criara. De tudo e em abundância se produzia naquela imensa e bem cultivada veiga, que dava trabalho diário a cerca de uma vintena de pessoas: algumas nativas da freguesia e outras vindas das aldeias limítrofes.

Estávamos na derradeira década do século XIX. O morgado da Veiga, boa figura e com um quarteirão de anos de idade, desposou uma jovem esbelta e também muito rica, de uma terra próxima. Só ao fim de meia dúzia de anos é que o casal viu concretizar-se um sonho, que a cada hora enleava e entristecia as permanentes e intermináveis conversas. Mas o prémio atribuído foi compensador: a mãe deu à luz uma menina bonita, qual serafim jamais visto! Nela depositaram as mais ardentes esperanças, porque, baldadas todas as tentativas, Deus não lhes concedeu mais filhos. E eles tanto os desejavam e tinham posses para manter um rancho...

Cresceu a Raquel, assim se chamava a benquista criança, bafejada pelos mais finos tesouros de mimo, de ternura, de beleza e de graça.

Em 1916, inesperadamente, o estremecido pai foi chamado para ir combater em França. Estremeceu, afligiu-se e abraçou-se à filha, tomou-lhe, com doçura, a mimosa cabeça e, olhando-a bem no fundo dos olhos, sob um fluxo de amargas lágrimas, gemeu e balbuciou:

"Minha querida Raquel, que não te voltarei a ver... A minha partida vai separar-nos para sempre"...

Apesar da avultada fortuna e de múltiplos e influentes pedidos, não logrou alterar a terrível sentença: forçaram-no a seguir para as trincheiras da morte... Contudo, não morreu na feroz guerra, regressando dois anos depois... E, na realidade, bem melhor fôra ter perecido numa renhida fuzilaria do que acabar os dias, desconsolado, no tremendo vazio e sofrimento, que o aguardavam no seu antigo paraíso de felicidade...

Entretanto, Raquel completara 18 anos e, quase sem dar por isso, amava ardentemente e da mesma forma era correspondida por um garboso moço, filho de uma família vizinha e respeitável, que terminara, brilhantemente, um curso de Direito, na universidade de Coimbra.

À luz do dia e e pelo luar ou escuridão da noite, sucederam-se imensos e idílicos encontros e era cada vez maior a chama que os iluminava e sustinha.

Em certa noite, alvoroçada, mas convicta e enternecida, Raquel tinha uma feliz notícia para confidenciar ao seu bem amado: estava grávida!

Esperou toda a noite e todo o dia, mas ele não apareceu... e nunca mais apareceria...

Por linhas travessas ouvira que o filho do sr. Arturinho das Levadas, como era o alcunhado, misteriosamente, havia desaparecido, sem deixar uma pista que lhe seguisse o rasto.

Cismava na hipótese de ele se ter cansadodela, ou até entregar-se a outra e, covarde ou delicadamente, ausentar-se, nada lhe revelando... Empalideceu e começou a definhar, alarmantemente. Deixou de se alimentar e de sair do quarto. Visitaram-na febres e alucinações. Ninguém a consolava. E, numa noite ventosa e gelada de um frio Janeiro, furtando-se à vigilância apertada da mãe e dos serviçais, saiu de casa, alucinada, em louca correria e, soltando um grito lancinante, precipitou-se na forte corrente das volumosas águas do Cávado, que passava a uns duzentos metros da casa solarenga...

Quando se aperceberam do seu desaparecimento já era tarde: no dia seguinte, aureolado pelo sol do meio-dia, percorridas três léguas, o cadáver, a boiar, foi recolhido perto da vila de Prado...

Esta comovente história foi-me narrada há uns vinte anos por um septuagenário muito amigo e a propósito de uma ossada humana que aparecera em Maio de 1936, na já referida quinta, quando se abria uma extensa vala, para entubar a água duma nascente, explorada numa bouça mais alta da propriedade.

"Feitas as devidas averiguações" - prosseguiu o venerando ancião - "concluiu-se que se tratava do esqueleto do filho do sr. Arturinho das Levadas, de quem há 19 anos se ignorava o destino. Embora o esqueleto estivesse ainda muito uniforme, o que levou à imediata identificação foi o encontrar-se-lhe ao peito um medalhão de oiro com o retrato dos pais"...

"E qual foi a causa da sua morte e porque se manteve assim tão sigilosa"? - Perguntei, a fervilhar de curiosidade.

"Era uma época de grande fome e de muito roubo. Na última noite em que se encontrara com a moça, ao regressar a casa, com mil cautelas, dois criados, de longe, não o reconheceram, julgando tratar-se de um larápio. dispararam dois tiros de caçadeira e deram-lhe morte repentina. Chegados junto da vítima inocente, arrepiados, reconheceram o namorado da sua jovem e estimada ama. Atónitos, envergonhados e cheios de remorsos, concordaram que a única e melhor solução era enterrar o defunto, destruir todos os vestígios e guardar inviolável segredo do funesto acontecimento..."

 

  Setembro de 2004

 

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INESPERADO

O Vítor cumpria o seu primeiro ano de docência, depois de ter concluído o curso de Românicas e concretizado o estágio numa escola de Amarante.

Quando foi colocado no estabelecimento onde eu já leccioãava há uns anos, travámos uma cordial amizade, que ainda perdura, franca e desinteressada, apesar de estarmos cada um no seu canto, atendendo a que ele foi parar ao Alentejo, à espera de regressar para perto da família.

Naquele fim de tarde de quinta-feira muito chuvosa e fustigada por forte ventania, ao Vítor não lhe passava pela cabeça o atribulado e insólito cenário que, tão brevemente, o aguardava.

Natural do Alto Douro e de boa fmília, era um rapaz simples e simpático e, embora um pruco medroso, com facilidade criava boãs amigos.

Sabendo que eu rabisacva umas coisas confidenciou-me que também compunha e possuía muitos poemas, essencialmente de amor e dedicados à Sandra, jovem que muito amava e que frequentava o derradeiro ano de Farmácias, com o intuito de tomar conta do lugar de técnica da empresa do ramo que os pais possuíam na Régua. Prometera que traria esses versos, quais tesouros de ternura, para trocarmos impressões.

Nessa mesma quinta-feira partiu para o seu torrão natal, a fim de passar três dias no seio familiar e uns belos momentos idílicos com a namorada.

Tudo foi sumamente agradável, como suculento aperitivo para a semana de trabalho que se avizinhava.

Havia já uns vinte dias em que a meteorologia estava péssima, com trovoadas, bátegas intensas, ventos ciclónicos e os leitos dos rios a galgarem montes e vales. Ele, porém, fez as custosas despedidas e já anoitecia quando se meteu no automóvel e partiu rumo ao Minho.

Cautelosamente, percorreu meia dúzia de léguas de estrada sinuosa.

De súbito, perdeu o controle do veículo. Consciente do perigo, sem perder tempo, abriu a porta e, a muito custo, logrou alcançar terreno firme e salvar-se milagrosamente.

O veículo, todavia, a trabalhar e com os máximos ligados, viu-o a ser arrastado pela medonha intempérie, aos trambolhões, pela íngreme ravina, precipitando-se na corrente vertiginosa do Douro, que lhe abriu a sepultura na profundeza das águas implacáveis, levando consigo os versos que, ternamente, trazia para submeter à minha apreciação...

 

Dezembro de 2004

 

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NAUFRÁGIO

Decorria o último lustre do século dezanove quando d. Guiomar se decidiu a vender os seus avultados haveres, para ir juntar-se à única irmã, que residia em Buenos Aires, viúva e afortunada, também senhora de metade da herança deixada pelos pais.

D. Mariana era uma bonita rapariga e foi pedida em casamento por um rico comerciante argentino, que a conheceu no Bom Jesus do Monte, em 1860, já quarentão, num domingo à tarde, quando, integrados num numeroso grupo, desciam os escadórios e visitavam os calvários.

Casou aos dezassete anos e partiu para a América Central. Criou os filhos, dois robustos rapazes, e viu finar-se o esposo amado no dia em que festejavam as bodas de prata de casados.

Nunca mais pisou solo pátrio e vivia, com toda a alma e ternura, para o marido e para os filhos.

D. Guiomar, oito anos mais velha, bem lhe pedia que regressasse, porque possuíam o bastante para levarem uma vida faustosa, mas ela, mesmo viúva e com enormes saudades da irmã, não abdicou do amor aos filhos e à segunda pátria.

Quase trintona, d. Guiomar casou quatro anos após a irmã, com um abastado proprietário vizinho.

Teve uma filha, que não sobreviveu a febres altíssimas e foi a enterrar com três aninhos!

E o marido, que já estava acamado há uns meses, minado por funda e implacável tuberculose, foi juntar-se à filha, três meses depois, no jazigo de família...

D. Guiomar, vestindo sempre de luto, viveu na solidão cerca de trinta anos, cedendo, então, aos rogos da emigrante: vendeu todos os bens, atestou uns vinte grandes baús com um fabuloso bragal, inúmeros objectos de estimação, louças, pratas e muito ouro...

Marcou a passagem num navio que estabelecia a ligação entre o Porto e o Rio de Janeiro e embarcou no mês de Novembro, para ir consoar com a irmã e com os sobrinhos...

Os primeiros dias de viagem foram decorrendo com bom tempo e mar muito calmo.

Próximo das ilhas de Cabo Verde, começou a nublar-se o céu e a nortada a silvar agoirentamente. A noite descia com um denso nevoeiro, que nada deixava enxergar...

Quando despontou a manhã do dia seguinte, acapelado, o mar rugia como um louco e amedrontava. Adensaram-se cada vez mais as nuvens e, rapidamente, o sol encobriu-se, dando lugar a espessa escuridão, semelhando uma noite tenebrosa de Inverno.

Colheram-se as velas, porque o oceano desatou a urrar medonhamente. O piloto não conseguia controlar a embarcação e, esperançado, procurava alcançar terra, antevendo, exausto, outra noite a cair.

Relampejava intensamente e os trovões eram assustadores.

De repente, naquele balanço furioso e desordenado, escutou-se um estrondo seco e brutal no casco do navio, que embateu de encontro a um rochedo e encalhou!...

Ouviam-se as súplicas aflitivas e os gritos lancinantes da tripulação e dos passageiros.

Mais e mais os relâmpagos azulavam os abismos e os trovões pareciam potentes canhões a digladiarem-se!

Subitamente, a galera, depois daquele choque violento, estacou, ofegante, com as vagas, raivosas, a tentar remover o obstáculo incómodo...

Por fim, com ímpeto, uma força misteriosa inundou todos os compartimentos da embarcação e, num ápice, precipitou-a, a pique, para a profundeza das águas revoltas...

D. Guiomar, com os cabelos eriçados, aos soluços, tremente e atónita, ocupava um escaler, que a transportava para a areia...

E, de mãos erguidas, em prece fervorosa, viu desaparecer o derradeiro sinal do navio, que lhe levava, a sepultar, uns vinte grandes baús, atestados de tesouros de riqueza, de saudades e de memórias!...


Dezembro de 2005

 

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UM ACTO REPROVÁVEL


(...) A mãe, como sempre, não abriu a boca...

O pai, porém, com as faces marejadas por grossas lágrimas e com a voz rouca e embargada, fitando Elton, bem de frente, com um olhar incrédulo, duro e reprovativo, segurando-lhe, com firmeza, o pulso ensanguentado, proferiu: "Por que foste tão cruel? Não há perdão para um acto destes: terás o castigo que mereces, porque, embora muito triste e magoado, não sinto por ti pena alguma. Vou fazer o que deveria ter feito há muito tempo, entregar-te às autoridades competentes, a fim de seres julgado e severamente punido, por tão horrendo crime... Sempre reprovei as tuas más acções, mas estava longe de pensar que serias capaz de praticar esta monstruosidade!..."

É bem recente (e infelizmente igual a tantos) o episódio que me proponho narrar.

Numa aldeia minhota, nos arrabaldes de Braga, vivia um casal de meia-idade, com um filho de catorze anos.

Agricultores remediados e trabalhadores, praticavam uma lavoura activa e mecanizada, auferindo excelentes frutos da sua perseverança.

Albano era um bom homem, muito religioso e pacato, que pensava mais nas lides agrícolas do que naquilo que se desenrolava à sua volta. Queria ser um bom pai, mas esbarrava sempre com o feitio de Joana, que em tudo defendia o filho.

Neste clima foi a criança crescendo, bafejada com todos os mimos, vícios e vontades satisfeitas.

A mãe, portanto, permitia que Elton cometesse toda a espécie de infracções, rindo sempre das suas tropelias e pagando, sem regatear, às escondidas do marido, os prejuízos que ele causava, não havendo lugar para admoestações ou castigos.

Muita gente se queixava e dizia que ele era um maroto e malcriado, mas em vão, pois a atitude da mãe não se alterava.

Por uma linda tardinha estavam os três no amplo e mimoso quintal, contíguo à bonita e confortável vivenda. Preso à corrente estava um corpulento e estimado mastim, que ladrava e fazia rompidas, para afastar Um bando de galinhas que, à procura de bicharada, se aproximava do seu território. O adolescente, colérico, munindo-se de um fueiro, ali ao seu alcance, inesperadamente, bradou: "Está quieto e calado, estafermo, que te racho essa cabeçorra!"

"Deixa lá, rapaz: o bicho está a cumprir o seu dever; assim cumprisses tu os teus". - falou brandamente Albano.

"Ele já sabe que come a valer". - e deu a primeira fueirada no inocente canino.

"Já te disse que não bulas com o pobre animal". - prosseguiu Albano, agora mais azedo e surripiando-lhe o pau, que descia para novas agressões.

A verdade seja dita: o fiel guardião não gostava do moço que, a propósito de tudo e de nada, lhe fazia judiarias; por isso lhe rosnou, pêlo eriçado, ficando de pé, firme nas patas traseiras.

Despojado da arma de madeira, o agressor, com extraordináoia agilidade, meteu a mão ao bolso direito das calças; ouviu-se um estalido metálico e enterrou a longa e afiada lâmina de uma navalha de ponta e mola no esófago do possante acorrentado, que soltou um uivo estridente, espumou de raiva, esbugalhou os olhos, contorceu-se no chão com dores, gemeu, gemeu e expirou nos braços de Albano, que o levantou, na tentativa de o salvar...


Abril de 2006


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ALEIVOSIAS


O fidalgo da Casa Grande, quando a morte o levou, contava quarenta e poucos anos. Na juventude, galopando num soberbo cavalo de raça pura, (não entendia porquê, pois era um excelente cavaleiro), foi cuspido para o meio de um silvado, ferindo, com gravidade, o membro inferior direito, que teve de ser totalmente amputado. E a partir de então, sobretudo psicologicamente, nunca mais se sentiu bem.

Como primogénito da casa, tornou-se herdeiro de uma enorme fortuna.

Nasceram três filhos, dois rapazes e uma rapariga, que eram o enlevo do pai.

Nada lhes faltava, quer mimos, quer bem-estar.

Na altura em que o fidalgo faleceu, o menino mais novo tinha completado sete aninhos.

Ora, louvado seja Deus, decorridos nove meses exactos, a bonita fidalga, agora trintona, gerava mais um rapaz!

Bichanavam as más línguas que o menino era filho de um criado-capataz, que tinha a mesma idade da patroa, era um homem garboso e funcionou sempre como quase senhor de tudo...

Pobre como era, com tal casamento, passou a ser um bom proprietário.

Em lugar de tratar a mulher como uma fidalga, tratou-a sempre com altivez e humilhações e apenas lhe soube fazer filhos.

Quanto a ser pai do cunhado mais novo, só ele e a patroa eram detentores do segredo. Mas a verdade é que sempre se entendeu com ele como Deus com os anjos, ao invés do péssimo relacionamento com os outros dois, que não esqueceram o facto de ter seduzido e casado com a irmã e, pior ainda, os maus tratos com que a mimou até à morte, já que ela ainda por cá ficou por mais uma década de Primaveras...


Julho de 2007


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FRATERNIDADE E AMOR

(...) E agora, no cemitério, sempre que lhe era possível, comida pela saudade, visitava o irmão, desfolhando as pétalas de uma qualquel flor, na desbotada tampa de granito do velho e imponente jazigo, que remontava um século atrás, mandado ali colocar pelo visavô, que não conheceu, embora ele tivesse morrido octagenário.

Eram filhos de uma boa e abastada família rural, cristã e muito respeitada pela vizinhança e aldeias limítrofes.

Os pais há muito que já tinham falecido.

Ele, primeiro filho varão, era senhor dos terços dos avultados haveres. A irmã, dois anos mais velha, não casou e sempre dirigiu toda a parte doméstica da grande casa de lavoura. Dedicou a sua vida ao serviço de Deus e da igreja, tendo sido componente das associações paroquiais e dedicada catequista desde os quinze anos de idade.

Era bem parecida, cumpridora e tão apegada a tudo o que à religião dissesse respeito, que se dizia, à boca cheia, tratar-se de um modelo de santidade e exemplo de castidade a ser seguido. Entendia-se às mil maravilhas com a cunhada e ajudara a criar os filhos do casal, aos quais queria como se fosse mãe...

As aparências, todavia, inúmeras vezes, iludem: Desde criança que mantivera uma secreta relação amorosa e sexual com o irmão.

Jamais alguém desconfiou, porque tudo era natural aos olhos de quem com eles convivia. No entanto, no percurso de perto de cinco dúzias de anos a intimidade incestuosa foi bem acautelada e passou despercebida...

Ele fez o serviço militar obrigatório e aos 25 anos casou com uma rapariga simples, muito dedicada a ele e aos sete filhos que gerou, tendo sobrevivido quatro, que receberam educação esmerada e exemplar.

Na vida conjugal, aparentemente, foram sempre muito felizes.

Ele foi sempre um excelente trabalhador, nunca se recusando a fazer fosse o que fosse, essencialmente em tarefas agrícolas, na sua extensa e bem produtiva quinta.

Ao longo dos setenta anos de existência praticou o bem que pôde. Militou nas associações, colectividades e confrarias da paróquia, ocupando todos os cargos de dircção previstos estatutariamente.

Pautava-se por uma invejável postura, sendo um bom homem, respeitador e respeitado, amigo de fazer bem, largamente acarinhado por todos e sensível a tudo o que o rodeava.

Foi sempre muito equilibrado no percurso do viver, quer na alimentação, nas bebidas, nas decisões que tomava, procurando ser justo, quer mesmo nas diversões, nutrindo um fraquinho por arraiais e cerimónias de cariz religioso.

Retirando algumas constipações e leves gripes gozou sempre de óptima saúde e disposição. Cerca dos 69 anos, porém, começou a sentir-se indisposto, com dores, urinando amiudadas vezes e, algumas, sangue. Após breves exames clínicos detectaram-lhe um cancro na próstata e já não se justificava uma intervenção cirúrgica.

Aceitou a sentença com pura resignação cristã e apenas viveu mais uns cinco meses.

Uma semana decorrida sobre o seu septuagésimo aniversário, num treze de Maio, data que ele comemorava fervorosamente, pelo grande amor que dedicava à santíssima Mãe de Deus, sem um queixume e sem um ai partiu para a última Morada, com a firme esperança de que o aguardava um glorioso Reino de bem-estar, paz e justiça...

Familiares, amigos e conhecidos foram muitos no velório.

Pela meia-noite, extenuada, a irmã recolheu ao quarto. Sentia-se imensamente debilitada. As emoções tinham sido excessivas. Quis dormir um pouco. Aguardou largo espaço e não conseguiu. Turbilhões de imagens e de pensamentos não lhe libertavam o cérebro.

Era já madrugada alta quando pressentiu que todos tinham partido, vencidos pela fadiga e pelo sono. No silêncio, tremente e enfraquecida, percorreu a longa distância que a separava da salinha do oratório.

Devagar, empurrou a porta, entrou e encostou-a de novo. A lamparina de azeite e duas velas de estearina iluminavam, tenuemente, o compartimento.

Meditou, rezou, gemeu baixinho, sempre com os olhos fixos naquele corpo imobilizado.

Depois, volvidas umas duas horas, quando os primeiros raios de luz espreitavam pelas frinchas da janela, abeirou-se da cabeceira da urna, verteu algumas grossas lágrimas, inclinou-se sobre o rosto pálido e gélido e nele depositou o derradeiro beijo de fraternidade e de amor...


Setembro de 2008


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