Jardim de Imagens


ÍNDICE

 

 

CARAMANCHEL DAS LEMBRANÇAS
SONHO DE FADAS
MÃE
AZÁFAMA
O MAR
PERSEVERANÇA
RECOLHIMENTO
PRECE DE NATAL
REPÚDIO
REGOZIJO
A ROSA
EMIGRANTES
DIA DE CRISTO-REI
DESAFIO
DESGRAÇAS
O NINHO
PRESSENTIMENTO
ÚLTIMO REPOUSO
TRJECTÓRIA
ABRIL ÚNICO
FELIZ E INFELIZ
ESPARSOS
SAUDADES
JARDIM SORTIDO


CHAFARIZ DAS ILUSÕES
A TEUS PÉS
DESEJO
VAI-E-VEM
...AMOR
AMADA
IDOLATRIA
VELHA HISTÓRIA
O GOSTO DE UM BEIJO
SUSPIROS NA SOLIDÃO
SONHO DESFEITO
CONCLUSÃO
DESENCONTRO
ENTRE O AMOR E O SONHO
BALADA NO OUTONO
DESPIU-SE A ÁRVORE DA ESPERANÇA
REVELAÇÃO
LEMBRANÇA
DEIXA QUE CHEGUE A PRIMAVERA


À minha Mulher e aos meus Filhos
À minha Mãe e à memória de meu Pai
Aos meus Irmãos, com saudade de Maria

Passa a Vida, tudo passa
e a saudade vai ficar
No que resta, peço a graça
de muitas graças herdar...

(24/1/2007)


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CARAMANCHEL DAS LEMBRANÇAS


À Maria Adriana de Jesus Ribeiro






SONHO DE FADAS

À minha Mãe e à memória de meu Pai


Sob a bênção salutar
de uma árvore frondosa,
fatigado, adormeci...
E logo o sonho surgiu:
eu era muito pequeno,
carregado de inocência,
e num bosque me perdi...

Todos à minha procura
e ninguém soube o lugar
onde poder-me encontrar!

De princípio, quis fugir,
p'ra junto dos meus voltar,
mas não sabia o caminho
e, querendo regressar,
uma Fada apareceu:
era uma mulher formosa,
com terno olhar de doçura...
Pedi-lhe que me fadasse
e ela, cheia de candura,
com bela mão de veludo,
aproximou-se de mim!
Colocou-ma sobre a fronte
e principiou assim:

"Filho, de tão tenra idade,
onde ainda prevalecem
lindos sonhos de criança...
Nasceste com a pobreza,
irmanada na esperança
de um dia teres riqueza...

Mas rico nunca serás,
pois o pão que hás-de comer,
dia-a-dia, amassarás...
Serão de muita alegria
os teus tempos de menino:
Com crianças brincarás;
hás-de entrar na escola, um dia,
para se cumprir teu Fado...
E que Fado, filho meu!,
pois apenas com nove anos
o julgo muito pesado...

Será uma vida nova
a que então começarás...
Insiste, que vencerás!
Não te deixes convencer
pelos que te dão conselhos
p'ra de casa não sair:
parte, trabalha, progride,
acredita no Porvir..."

E parou, por um instante,
dizendo mais adiante:

"Um dia, serás amado
e, como um louco, hás-de amar!
Mas, talvez desconfiado,
não decidirás depressa
o teu Destino marcado...

Hás-de, por isso, sofrer
e farás sofrer também,
até vir um dia, enfim..."

E chegou-se mais a mim,
com meiguice, a segredar
o que não pude escutar...

Que pena!, Fada bondosa!:
Despertei e encontrei-me
homem feito, que hoje sou!
O que afinal tinha ouvido
era todo o meu Passado,
que se encontrava cumprido

O que a Fada segredou
bem queria adivinhar...
Mas talvez, um qualquer dia,
eu volte a ir repousar,
sob a bênção salutar
de uma árvore frondosa!
E, como prémio, a sonhar,
me surja a Fada bondosa
p'rò segredo revelar...!


Sobreposta, Março de 1971


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MÃE

À minha Mãe, com um beijo de gratidão


Doce imagem, adorada,
outra igual a Ti não há...
Neste dia e no amanhã
ser-me-ás sempre sonhada,
ó saciável maná
e perfeito talismã!


Pelo que por mim sofreste
e o amor que me of'receste,
grato, meu peito dirá:
Hás-de ser aureolada,
pois deste o que uma Mãe dá
e em troca eu só sei dar nada...


Sobreposta, Maio de 1971


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AZÁFAMA


Ai que alegres gargalhadas
e conversas animadas
se escutam por todo o lado:
É nos caminhos, nas jeiras,
nos campos, montes, nas leiras,
no moinho ou no eirado...


Cantigas e mais cantigas,
quer velhas, quer raparigas
soltam, arrastadamente,
enquanto vão amanhando
e com suores regando
a terra, em tempo bem quente!


Nas lezírias, nas campinas,
nos vales, rios, salinas,
nas charnecas, nas herdades,
nas searas, veigas, prados,
nos locais mais variados
- como aldeias e cidades -,


num constante labutar,
em abnegação total:
é bem a forma de estar
das gentes de Portugal!


Sobreposta, Agosto de 1971


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O MAR

À Maria Ângela da Rocha Peixoto


O mar vai e o mar vem, suavemente,
beijar a terra arfante, com saudade;
e, traiçoeiro, sem sinceridade,
o beijo perde-se na areia ardente...


- "Eu sou um filho teu", tentei gritar.
E as vagas abafaram minha voz:
- "Não sejas, que as escravas somos nós
e também noivas e deusas do mar!"


Subiam ao ar nuvens espumadas,
formando catedrais tão delicadas,
que o vento destroçava a pouco e pouco...


Tentando ainda uma nova façanha,
erguia-se a procela, qual montanha,
e o mar rugia sempre como um louco!


Póvoa de Varzim, Setembro de 1971


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PERSEVERANÇA


Era um amor de criança,
uma sincera paixão,
e com infundada esp'rança
enganava o coração...


Foram decorrendo os anos,
acumulando tormentos,
por ver gorados os planos
dos múltiplos pensamentos...


Um amor perseverante
só poderá ter dois fins:
a anuência do amante,
ou os momentos ruins...


Sorriu-lhe a felicidade,
por isso foi premiada:
Atingindo a meia-idade
soube ser por ele amada!


Braga, Outubro de 1971


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RECOLHIMENTO


Aonde dobram os sinos,
dizendo-me que houve morte?
Fico triste, a meditar
a quem caberia a Sorte...


Os meus sentidos perfilo,
tentando localizar
a torre, donde me chega
o dolente badalar...
Descobrir não foi difícil:
Sobreposta, tão pertinho...
Duas lágrimas sentidas
verto com pena e carinho...


'Inda não sei quem partiu,
mas sei que menos ou mais
um defunto conterrâneo
merece sempre os meus ais!


Sobreposta, Novembro de 1971


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PRECE DE NATAL

À Teresa Maia da Cunha


Meu Menino pequenino,
perdido em sono profundo:
acorda e vem dar a paz,
tão desejada no mundo!


De tal poder Te revestes,
meu delicado Jesus,
que és o Rei do Universo
e coroado de luz!


Cada fim-de-ano se espera
esse dia de alegrias
e o Natal devia ser
um dia em todos os dias...


Porque se o Deus Pequenino
é feito de paz, de amor,
de ternura e de esperança,
encerra o que de melhor


nos faz falta sobre a Terra:
em vez de amor só há ódio,
mentiras e falsidade...
E em troca da paz há guerra!


Só existe o desespero,
em lugar da esperança,
'squecendo que à tempestade
sucede sempre a bonança...


Porque é feita de rudeza,
a ternura, ninguém vê
e, com estas controvérsias,
quem for um crente, descrê!


Se podes tudo mudar,
Jesus, em prece final:
rogo que todos os dias
sejam dias de Natal!


Sobreposta, Natal de 1971


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REPÚDIO


'Stava um dia um passarinho,
num ramo verde, a cantar.
E, com o fim de o matar,
apar'ceu um rapazinho!


Sobre a ave, com vigor,
com a fisga, a pedra atira:
e jamais alguém ouvira
o trilado encantador...


"Que má acção cometeste,
imprudente criancinha!:
Deste a morte à avezinha,
que lucro nisso tiveste?"


Só por capricho actuou,
o miúdo, entristecido:
repudia o sucedido
e, com franqueza, chorou...


Sobreposta, Março de 1972


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REGOZIJO


Começa o tempo a aquecer
e os campos a verdejar;
com mil flores a pesar
'stão os ramos a pender.


São os rios a correr,
as fontes a marulhar;
as aves a chilrear,
mais cedo, o dia, a nascer.


Aspira-se ar perfumado
e ouvem-se lindas canções
p'la Natureza acordada...


E eu exclamo, alvoroçado:
- Alegrai-vos, corações,
que a Primavera é chegada!!!


Sobreposta, Abril de 1972


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A ROSA


A Rosa passava o tempo
num carcomido tear,
feito de tosca madeira,
essa boa rapariga
e expansiva tecedeira.


Soltava lindas cantigas,
de sabor bem popular,
que se ouviam com agrado
e muitas vezes serviam
p'ra chamar um namorado.


Era muito pretendida
pelos rapazes que vinham,
de perto e longe, saudá-la:
alegre e namoradeira,
com todos chegava à fala!


Com o Destino marcado,
a Rosa apenas gozou
umas vinte Primaveras:
uma tarde de tragédia
ceifou-lhe as muitas quimeras...


Num mês de Junho, quentíssimo,
vésperas de S. João,
uma forte trovoada,
com relâmpagos tremendos
e medonha ribombada,


abateu-se, de repente,
sobre a minha Lageosa,
com a sesta a decorrer:
a moça pegou no terço,
abandonou o tecer


e fugiu para a varanda,
amedrontada, a rezar,
julgando estar mais segura:
uma das muitas faíscas
lhe cavou a sepultura...


Estava sozinha em casa
e já acudiram tarde
aos gritos e ao chorar:
um fumo denso acabou
assim por a asfixiar...


Sobreposta, Junho de 1972


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EMIGRANTES

Aos meus familiares e amigos, que longe buscam melhores condições de vida


Nunca me esqueço de Ti,
ó minha terra querida,
e quando p'ra longe parto
sinto abrir-se uma ferida.


Imensas vezes recordo
que, um dia, me deste o berço
e uma grande nostalgia
é o meu constante universo.


Por isso, bons Emigrantes,
não ficais por recordar:
tendes sempre, neste peito,
um destacado lugar!


Lutadores, abnegados,
que a aldeia amada deixais,
a fim de irdes amassar
o amargo pão, que ganhais!


Que trabalhos, sacrifícios,
sofrimento e privações
não passais e que saudade
sempre em vossos corações!


Nada, porém, vós sentis,
pois tendes um só pensar:
o pecúlio p'rà velhice
e o conforto para o lar!


É por isso que lutais,
alagados em suor.
A Deus vos recomendais
e O quereis por protector...


Sobreposta, Agosto de 1972


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DIA DE CRISTO-REI

(Escrito para uma récita)


É dia de Cristo-Rei,
dia alegre do Senhor:
Com devoção Lhe entregamos
nossas vidas, nosso amor!


É o soberano de tudo
quanto existe sobre a Terra
e tem estado presente
quando nos assola a guerra!


Apareceu nas batalhas
a animar-nos os soldados,
defendendo-os da morte
os cumulou de cuidados!


Hoje, ó glorioso Rei,
em prece, Te vou rogar:
protege todos aqueles
que a Sorte fez abalar!


Faz com que impere a justiça
e finde no mundo a guerra,
que de sangue e injustiça
está bem regada a terra!


Todos, enfim, suplicamos
Tuas bênçãos salutares:
reina em nossos corações
e também nos nossos lares...


Vós todos, que me escutais,
reconhecidos, dizei,
com amor puro e sincero:
- Viva!, viva Cristo-Rei!!


Sobreposta, Novembro de 1971


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DESAFIO

Ao José Augusto Mendes


Reparai nas cerejeiras,
tão altas, a convidar
um assalto, a toda a pressa!
Mas ai que mágoa, ai que azar,
por não as poder trepar!


E então, dizem que são lindos
os frutos alcandorados
e que exibem várias cores:
pretos, ou brancos, rosados,
vermelhos e perfumados!


Alguém, afoito, contudo,
a subir se aventurou
e ricos brincos, gostosos,
satisfeito, oferendou
e a gula me saciou...


O roubar para comer
sempre ouvi não ser pecado:
é por isso que eu exulto,
já que fiquei consolado
e 'squeci que era azarado...


Sobreposta, Maio de 1973


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DESGRAÇAS


Os três morreram, coitados,
filho, mulher e marido:
Imitaram a cigarra,
após se consorciarem,
passando a viver da farra!


Sem suspeitar que a minava
ingrata tuberculose,
se deixou engravidar:
gerou um filho sadio,
que não pôde sustentar,


pela falta de recursos.
Sobreviveu, todavia,
por mais um ano que a mãe.
Com um cancro no estômago,
morre o marido também...


Sobreposta, Novembro de 1973


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O NINHO

Ao meu irmão


O facto sucedeu num mês de Maio,
que ornamentava a minha linda infância,
quando trepei à c'roa de um pinheiro,
para um ninho alcançar, do esperto gaio,
e me satisfazer aquela ânsia
de ter chegado no lugar primeiro.


O pinheiro, porém, era delgado.
E, quando ao cimo havia já chegado,
ao procurar introduzir a mão,
me aguardava uma insólita surpresa:
apesar de eu ser feito de leveza,
partiu-se o tronco e eu vim parar no chão!


Não me apartou o tombo da alegria:
eu não me magoei, pois me estendi
numa moita de mato bem macia!
Mas, o que, com tristeza, lembro aqui,


e me inundou de compaixão o peito,
foi olhar mais que um ovo esborrachado,
junto daquele ninho desejado,
agora ao meu alcance, mas desfeito...


Sobreposta, Primavera de 1974


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PRESSENTIMENTO

Aos meus tios maternos


Foi mesmo pela tardinha
(como tantas vezes fiz)
que, jovial e feliz,
visitei minha mãezinha!


Sem pressa, atiçava o lume,
que teimava em não arder:
as conversas do costume
fui, aos poucos, desfiando,
mas aquele pobre ser
a falar se ia escusando...


Percebi que estava triste
e em profundo meditar:
quem entende, não insiste,
a fim de não magoar!


E fiquei com a impressão
que dos olhos lhe saltaram
lágrimas de desalento
e de grande comoção:
pela vida me ficaram
a habitar o pensamento!


Entrando em casa narrei
à minha mãe, comovido,
o que se tinha passado
e, convicto, acrescentei
que estava persuadido
ter o fim da avó chegado,
pois me causou muita pena
assistir àquela cena...


Na mesma noite chegou
o vulto negro, implacável,
com o cutelo na mão,
reluzente, inexpugnável,
e, só de um golpe, logrou
destroçar-lhe o coração!


Sobreposta, Abril de 1971


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ÚLTIMO REPOUSO


Ao Joaquim Vieira de Macedo


A permanente alegria
levou-lha o filho ao partir
p'rà Guerra do Ultramar:
não mais esqueceu o dia,
em sentido soluçar,
pois lhe roubaram o sonho
de um Futuro bem risonho...


Que estivesse, ao menos, bem,
nos lugares de perigo:
eram as preces da mãe,
cobrindo de ternos beijos
o retrato pequenino,
que sempre tinha consigo!


Mas o tempo não parava
e tardavam as notícias
para acalmar o sofrer,
pois seriam as carícias
do atribulado viver...


Quando já desanimava
chegou-lhe às mãos uma carta,
exibindo negra tarja:
o filho iria chegar,
em breve, a bordo de um barco,
num caixão, a repousar...!


Sobreposta, Novembro de 1971


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TRAJECTÓRIA


Ao Claudino Pinto


É límpida e fresca a água
que jorra daquela fonte
e se desloca, veloz,
descendo ao sopé do monte!


Engrossou pela planície
e transformou-se em ribeiro,
que afluiu num grande rio
e p'rò mar seguiu, certeiro...


No seu longo caminhar
nunca mais lembrou a fonte
de água tão límpida e fresca,
a jorrar no alto monte!


Esqueceu-se das origens
e tempo em que foi crescendo:
ao fluir no rio e mar,
pouco a pouco, foi morrendo...


Sobreposta, Fevereiro de 1974


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ABRIL ÚNICO


Aos bravos Capitães


Cá chegou o mês de Abril,
há muito tempo esperado:
com um gesto tão gentil,
o Povo, sacrificado,
do jugo foi libertado!


É com sincera alegria
que ouço tanta e tanta gente,
por longos anos silente,
festejar tão belo dia,
com o cravo bem presente!


Aos amigos de verdade,
que trouxeram ao País
a bendita Liberdade,
ergo o hino mais feliz
desde toda a eternidade!!


Braga, Abril de 1974


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FELIZ E INFELIZ


Era feliz aquela minha amiga,
até ao dia em que lhe foi provado
que o seu querido e lindo namorado
se prendia por outra rapariga!


De início, acreditara ser intriga,
ou argumento mal fundamentado,
p'ra roubar-lhe o terreno conquistado
e provocar-lhe incontrolável briga...


Contudo, agora, já não duvidava:
provaram-lhe que tinha uma rival,
a quem ele carinhos dispensava.


Deixou de ser feliz, porque a tristeza
e uma desilusão, como um punhal,
o peito lhe feriu, com aspereza!


Braga, Junho de 1974


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ESPARSOS

À Maria Amélia Macedo


1
A bater de porta em porta
o pobrezinho mendiga,
a ver se alguém o conforta
com uma dádiva amiga.


2
Lembro, em diversos momentos,
e torno-me solidário
com quem padece tormentos
e tem um longo calvário!


3
Sempre preso na gaiola,
o pequenino canário
tem um trilar que consola,
apesar do seu fadário!


4
Oiço-te sempre a gemer,
delicado pequenino:
oxalá não vás sofrer
as agruras do Destino...


5
Regresso aos meus tenros anos
e fico-me a meditar
nos arquitectados planos,
que não pude executar...


6
Ontem foi a despedida
de um velho e sincero amigo
que, no decorrer da vida,
muito conversou comigo.


7
Muito tempo já lá vai,
mas relembro, com carinho,
as noites que, com meu pai,
passei num velho moinho!


8
Foi em cobertos, nas eiras,
que, às vezes, fui pernoitar,
para alegres brincadeiras
e pelo grão seco olhar...


9
As uvas que os teus netinhos
comiam e estragavam,
sob olhares de carinhos,
que grande prazer nos davam...


10
Frutos silvestres colhidos,
com ternura, nos valados:
hoje, tão apetecidos,
mas com os gostos trocados...


11
Fiquei muito alvoroçado,
quando ela pôs a questão,
se eu estava apaixonado:
menti, pois disse que não...


12
Meus ais são tiros certeiros
que a cada momento vão
para os lados de Briteiros,
onde tenho uma paixão!


13
Não sei bem o que se passa,
mas qualquer coisa me ilude:
ou os teus jeitos de graça,
ou a tua juventude...


14
Mando p'ra longe suspiros
de enorme significar:
são inocentes vampiros
que doce amor vão sugar!


15
Ouço os sinos a dobrar:
quem seria que morreu?
Os doridos vão chorar
- eles, hoje; amanhã, eu...


16
Dou asas ao pensamento,
mas ele não quer voar,
pois receia o desalento
que alguém lhe possa causar!


17
Lá vem o "Pobre da Chapa",
a quem nunca se quis mal:
nenhum benfeitor escapa
à visita semanal!


18
Ao portal, batendo as palmas,
ai com que sofreguidão
pede o pobre, pelas almas,
uma fatia de pão!


19
Cada soldado que chega
da Guerra do Ultramar,
nem um momento sossega
sem na igreja graças dar...


20
A pobre mãe nunca cessa
de sofrer e soluçar,
porque o filho não regressa
donde teve que imigrar!


21
Logo que ao longe se ouvia
a concertina e tambor,
de qualquer lado, surgia
um bom desafiador!


22
Regressei de uma pisada,
ainda me cheira a mosto
e me lembra a patuscada
com amigos, de bom gosto!


23
Costumo, desde pequeno,
umas noitadas passar
para um cavaqueio ameno,
no alambique, em Bacelar!


24
Relembro da minh'aldeia,
nos tempos de tenra idade,
à frouxa luz da candeia
serões de eterna saudade...


25
Tenho bens amealhados,
ao longo de tantos anos,
principalmente, formados
por ilusões, por enganos...


26
Sempre que na vida houver
a reconciliação
sabe muito bem verter
lágrimas de gratidão...


27
Ninguém pode acorrentar
o meu livre pensamento:
por isso, pode voar
na companhia do vento...


Sobreposta, 1971-74


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SAUDADES


Para o velho amigo padre Artur Vieira Marques


Quem começa a percorrer
esta minha linda aldeia,
não precisa, p'ra bem ver,
usar a luz da candeia,


pois as naturais belezas,
que de topo a topo encerra,
brilham logo aos nossos olhos,
como brilha o sol na Terra!


Mas quem não acreditar
nas belezas naturais
poderei enunciar,
das muitas, as principais.


E tenho que confessar
que a conheço um pouco mal;
por isso, só vou citar
o que eu sei bem ser real:


Ao fundo, sempre a girar,
lá estão as mós, serenas,
com a água a marulhar
lamentações sobre as penas!


É um lugar que confina
com a aldeia de Briteiros,
sítio de rio e moinhos,
conhecido por Moleiros!


Há uma ponte pequena,
p'ra atravessar o ribeiro
e, seguindo estrada acima,
encontramos o Regueiro...


Eis o lugar tão saudoso,
onde ao mundo, um dia, vim:
Como eu me lembro de ti,
jamais te esqueças de mim...


Mas não, não posso ficar,
eternamente, a sonhar:
em ti, meu lírio florido,
há muito que recordar...


cá 'stás, mas já tão velhinha!
Que anos terás? Cem? Duzentos?
Quem sabe, quem sabe?... Quantos
e que serões barulhentos,


aí se fizeram? Quanto
pão se não secou em ti?
Quantas fomes não mataste?
És um livro que não li,


recheado de belezas...
Aí passei calmos dias,
velha Eira dos Caniços,
álbum de sãs fantasias!


E as alegres desfolhadas,
que recordo, com saudade,
onde, com satisfação,
passava uma ou outra tarde...


E, também, nas outras eiras
há cantigas animadas,
quando vem caindo a noite
e seguem as desfolhadas!


Moças e moços, felizes,
conversam, alegremente:
É este mesmo o feitio
da nossa tão boa gente!


No meio da confusão
ouvem-se vozes gritar:
"Para atar não falta palha!,
espigas para malhar!,


há medas para fazer!,
grão, também, p'ra arrecadar!..."
E lá pela noite fora
só se pensa em trabalhar!


A gente da minha terra
labuta, sem descansar,
desde que o dia desponta,
até a noite chegar...


E encontro, também, na eira,
um velhinho castanheiro,
que nem sua idade sabe,
mesmo pegado ao caleiro,


de pedra rija formado,
que é ponte sobre o caminho,
não lhe adivinho a idade...
Pergunto ao tempo, apressado,


e ele diz que não tem tempo
de lembrar a mocidade
que há longos anos tiveste
e que choras, com saudade!


De qualquer modo, eu afirmo,
e o tempo não vai negar:
Já viste muitos Invernos,
tua idade é secular...


Com ternura, aqui relembro
a capelinha, saudosa,
que evoca, através dos tempos,
S. Tomé de Lageosa!


Quem dirá que eu não amei
este meu lugar natal?
Amei-o, sim, como fez
D. Nuno ao seu Portugal!


Ó meu Regueiro velhinho,
se eu fosse Nobre, ou Camões,
faria de ti um canto,
que todas as gerações,


que em ti nasceram, viveram,
nascem e vivem ainda,
espalhariam, ditosas,
por essa abóbada infinda...


O lugar de Bacelares
aparece, com vaidade,
e eu oiço os seus habitantes,
quando chega ao fim a tarde,


conversar, alegremente,
sobre coisas passageiras...
E lá eu gostava de ir
colher figos nas figueiras!


Na casa do mesmo nome
existia um alambique,
onde sempre ia provar
aguardente, com bom pique...


Ah!, é verdade, Domingos:
E quando íamos buscar
a assadeira, belo vinho
e castanhas para assar?!


Era bom saborear
aquele doce calor,
que saía da fornalha,
atiçada, com vigor!


Saudosas noites passadas
a sorrir e a conversar,
no seio de uma família,
que sempre hei-de recordar...


belos serões de Novembro
que nesta casa passei,
com as moças a fiar
e a lareira a crepitar!


E líamos, e cantávamos,
e contávamos histórias;
e lembrávamos, também,
belas, passadas memórias!


Querido amigo, não posso
esquecê-lo nunca, não:
reservo-lhe, no meu peito,
sincera recordação!


Falou-me do que sabia,
desde a sua ida infância,
e até o que se dizia
mesmo antes de ser criança...


Amou-me como a um filho
e me estimou como tal:
Que Deus lhe dê, rogo em prece,
o gozo celestial...


Já não te lembras, Zequinha,
tu não gostavas de mim...
Fôra eu como tu eras
e era rei do meu jardim!


Gostavas, sim, da varinha,
que eu trazia a cada passo,
para guiar os meus passos
na incerteza do espaço...


Foi no lugar de Entre-Casas
que se passou o citado
e eu gostava de ir beber
água fresca, no Tapado...


Loureiro, à beira da estrada,
casa vistosa, altaneira,
mesmo em frente, como um par,
fica a casa da Figueira!


E faz frio, muito frio,
entre as casas marginais:
parecem formar um vale,
que é bem fresco, até demais!


Vá, vá!, deixem-me passar...
Tenho pressa! Lá andavam
os rapazes a jogar!
Mas, para eu seguir, paravam...


Coitados dos jogadores,
não tinham campo nenhum!:
Há muito lhes prometeram
e sonham vir a ter um...


Que vozes desafinadas
atraem os meus ouvidos?!
É quem gosta de cantar,
mas que não tem bons sentidos!


Não importa, são alegres
e assim é que deve ser...
Cantai, com a voz que tendes,
sempre, sempre, até morrer...


"Senhor, tende piedade..."
É a malta a ensaiar
para a missa, em português,
p'ra no domingo cantar.


Cantam bem. O Zé do Muro
é que está a ensinar
e dá as indicações,
p'ra ninguém desafinar!


A Vinha é lugar pequeno,
ocupando pouco espaço
e fica a fazer fronteira
com o bom lugar do Paço...


De novo, lugar do Monte,
contigo vou conversar,
embalado pelo canto,
feito de belo arrulhar!


Neste lugar há um tasco,
onde se vende bom vinho
e alguns homens, muitas vezes,
vêem dobrado o caminho!...


E subindo até ao Souto
há os tanques p'ra lavar
e as mulheres aproveitam
da vida alheia falar....


De ser mais um filho teu,
até gosto, meu lugar,
e pelas noites de insónias
passo o tempo a meditar


em coisas que já lá vão...
Afinal, recordações,
que me enternecem a alma
e alegram o coração...


Lá no alto, como um tecto,
fica o nosso Pedregal:
é o mastro desta aldeia,
tão simples, mas sem rival!


Em tempos já em ti houve
bastantes costureirinhas:
quantos anjos não vestiram
roupas das suas mãozinhas?!


Delicadas costureiras
cantai, se sabeis cantar,
melodias de ternura,
fruto do vosso inventar!


E a época das pisadas
também não posso esquecer,
porque havia gargalhadas,
bons petiscos p'ra comer,


adivinhas e histórias,
muitas outras coisas mais,
que nem agora me lembram,
mas que vós acreditais!


Soldados que, longe, honrais
a Bandeira Nacional:
sede fortes, tornai grande
o nome de Portugal!


Com olhos postos em Deus
esperamos, confiantes,
que regresseis bem depressa
e de ânimos triunfantes!


Tende fé, muita coragem,
perante as adversidades
e tenhais, um dia, a sorte
de virdes matar saudades...


Não é por vontade própria
que deixais a vossa terra
para, longe, irdes expor
a vida, em tão feroz guerra.


Ansioso, 'spero o dia
em que contais regressar
para, com grande alegria,
nos voltarmos a abraçar...


Não posso, com pena minha,
de, um por um, aqui falar,
mas sei que sois meus amigos
e isso faz-me alegrar!


...Sois vós, amigos? Entrai!
Vinde, também vós, amadas
raparigas que conheço...
Todos, sem-fim, em jornadas,


vinde ver a minh'aldeia:
É muito linda, não é?!
Vocês não acreditavam
ser tão bela, como é...


Desejava falar mais
desta singeleza, amada,
mas, com receio de errar,
não quero dizer mais nada!


E por fim, terra querida,
em súplica, de fervor,
faz com que sempre, na vida,
te conserve tanto amor!


Alminhas da minha terra
que velais de noite e dia:
protegei-me e socorrei-me,
que eu rezo uma ave-Maria!


Ave-Maria sentida,
de lágrimas e de amor,
pelas penas tão medonhas
que cumpris e só de dor!


E em morrendo, cemitério,
o meu repouso final:
De ti se eleve a minh'alma
para o assento imortal!...


Sobreposta, Janeiro-Abril de 1971


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JARDIM SORTIDO


Cultivo um jardim
ao longo da vida
sempre bem sortido:
o bom, o ruim,
a esp'rança perdida,
o riso, o gemido,


margaridas, lírios,
jasmins, cravos, rosas,
tristeza, alegria,
saúde, martírios,
azáleas, mimosas,
paixões, nostalgia,


tulipas, estrelas,
luar, chuva, sol,
vento, tempestades,
valiosas telas,
manhã, arrebol,
amor, amizades...


Espero que um dia
colha dois amores
a nada igualáveis:
serão harmonia,
as humanas flores,
subtis, adoráveis...


Que flores serão,
assim tão dilectas?:
Um filho e mulher,
que ao meu coração
(com penas bem pretas)
paz venham trazer...


Éden de ternuras,
espaço querido
de raras miragens...
Iguarias puras
é que dão sentido
ao "JARDIM DE IMAGENS"...


Braga, Outubro de 1974


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CHAFARIZ DAS ILUSÕES


A TEUS PÉS


Já não posso mais guardar
o mal que me faz sofrer
e já não sei explicar
a causa de tanto qu'rer!


Há tempos que a tua imagem
me acompanha em todo o lado
e eu sinto a louca voragem
de um fogo não costumado!


Teu sorriso de encantar
e o lindo porte, singelo,
em mim fez desabrochar
esse sentimento belo,


que todos chamam Amor,
inundado de ternura,
desejo, afecto, fulgor
e, por vezes, de amargura...


Não queria confessar
os anseios da minh'alma,
mas talvez desabafar
lhe devolva a doce calma!


Não posso nada exigir
de ti, Criança querida,
mas gostava de fruir
o que me falta na vida:


esse adorado pedaço
que comigo sofreria
as agruras, passo a passo,
e, por certo, gozaria


os bons momentos, também...
E é que a Sorte repartida
por dois, menos custos tem,
quer na queda, ou na subida...


Amo-te, assim, deste jeito,
mas saberei respeitar
o segredo do teu peito,
que ainda sangra ao lembrar


quem o não compreendeu!...
Sofre, então, a grande dor
mas tem a certeza que eu
por ti suspiro de amor...


Braga, Outono de 1971


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DESEJO


Quero-te, Amor,
com tal ardor,
que só te adoro
e por ti choro
com minh'alma apaixonada!


E flor mais linda
não vi ainda
noutro jardim,
pois és p'ra mim
a mulher ambicionada!


Braga, Outono de 1971


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VAI-E-VEM


Só de amor te mando um beijo,
linda Boneca, adorada,
e nele vai o desejo
de fazer-te a minh'amada!


De ti recebi um beijo,
linda Boneca, adorada,
e nele vinha o desejo
de seres o Tudo e o Nada...


.....


Dou amor sem te pedir
que nada me dês em troca,
mas gostava ver sair
um "quero" da tua boca...


Sem prometer, nem pedir,
soube qual seria a troca:
Em vez de amor, um sorrir
de indif'rença em tua boca...


Braga, Dezembro de 1971


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...AMOR


Boneca, muito querida,
dona do meu pensamento:
preciso da tua vida,
para à minha dar alento!


Sempre que sonho contigo
te julgo bem presa a mim!
Mas, com amargura, digo:
desperto e nada é assim...


Oh, diz-me o que é, por favor,
isto que sinto abrasar
o meu sacrário de dor
e tanto me faz penar?!


Braga, Janeiro de 1972


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AMADA


Meiga, ó minha doce Amada,
aqui tens meu coração!:
ri dele e não digas nada,
'inda que toda a paixão
a ti seja dedicada...


Gravado, sublime, em mim,
o teu nome delicado
reinará na minha mente...
eterno lírio, adorado,
tu serás, p'ra todo o sempre,
imagem no meu jardim!


Braga, Primavera de 1972


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IDOLATRIA


Meu Amor dá-me um sorriso
e mata a sede de um beijo:
eis o feliz paraíso,
que a cada instante desejo!


Põe teus lábios sobre os meus
e esquece o que diz o mundo,
que eu creio não deve haver
assim amor tão profundo!


Dá-me os teus olhos de sonho,
p'ra com eles te sonhar;
enlaça-me em forte abraço
e deixa o povo falar!


Amada, se duas vidas
tivesse para te dar,
fá-lo-ia, jubiloso,
qual fiel noiva, ante o altar!


Tanto amor que dizes ter-me
conforta-me o coração:
mas queira Deus que a loucura
não seja nova ilusão...


Morreria de pesar,
se perdesse o teu amor,
que por esse mundo além
não terás paixão maior!


E podem amar-te muito,
e tu nisso acreditar,
que tanto afecto como eu
ninguém mais to pode dar!


Braga, Verão de 1972


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VELHA HISTÓRIA


Amada, meu doce encanto,
ventura dos olhos meus,
desfaz-se-me o peito em pranto,
por não ter os beijos teus...


Eu quero-te, flor mimosa,
com sublime devoção,
mas se tu és espinhosa
vais ferir-me o coração!


Encontrei-te, finalmente,
perdida entre rosas bravas:
caiu em mim a semente
e logo desabrochavas!


Que pecado cometi,
p'ra ter um castigo assim?:
apaixonar-me por ti
e qu'rer-te no meu jardim!


Não posso reclamar nada,
nem roubar o teu amor,
mas chamo-te "minh'Amada"
e por ti morro de dor!


Melhor a Morte, a saber
que por mim sofres também,
pois não desejo viver
com a angústia de ninguém...


E se a Sorte me castiga,
não me dando o teu amor,
qualquer caminho que siga
não terei paixão maior!


Para longe partirá
este coração vazio
e, distante, então, será
desventurado vadio!


Este segredo de amar
e não ser correspondido
vai para o fundo do mar
e lá ficará 'scondido.


Terei que sofrer sozinho
a loucura de te amar
e guardo n'alma um cantinho
p'rà mágoa que hei-de chorar...


Grinalda, muito adorada,
não chores, nem penes mais:
eu sei que não és culpada
dos meus loucos ideais...


Braga, Verão de 1972


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O GOSTO DE UM BEIJO


Meu Amor tiveste medo
de ontem um beijo me dar:
não temas, pois que o segredo
só entre nós vai ficar!


Foi a medo, mas tão terno,
com teus lábios a tremer,
que fica em mim para eterno,
um tão sublime prazer!


E o ósculo que te dei,
pleno de agradecimento,
provocou-me, bem não sei,
por ti maior prendimento.


Esse teu beijo, querida,
de celestial ternura,
deu ânimo à minha vida,
tornou mais leve a amargura...


Foram mil pétalas belas,
transformadas num sorriso,
e um brilhar de mil estrelas
fez p'ra nós um paraíso!


E a tua boca, em botão,
floriu, então, sobre mim...
Oxalá teu coração
pudesse abrir-se-me assim...


Amada, muito saudosa,
baixinho, vou segredar:
Foste a mulher mais formosa,
que nasceu p'ra me matar!


Braga, Verão de 1972


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SUSPIROS NA SOLIDÃO


Trago uma angústia comigo,
que muito me faz sofrer;
Amor, porém, não ta digo,
que a não podes entender.


É um segredo profundo,
de dores e penas feito,
e não há outro no mundo,
nem assim tão triste peito!


Decidido, a mim jurei,
nada, pois, te revelar:
A Razão, porquê não sei,
me obriga a desabafar!:


Tenho no peito a sangrar
um coração infeliz,
que por tanto, tanto amar,
não sabe o que quer e diz!


Tinha prometido, um dia,
não mais fazê-lo sofrer
e inundá-lo de alegria,
p'ra ter um calmo viver...


E, com esta convicção,
quis cumprir o juramento,
mas, depressa, uma ilusão
me invadiu o pensamento:


Conversei contigo e achei-te
uma mulher ideal...
No momento, confessei-te
que eras excepcional:


Quer pela simplicidade,
pelo sorriso tão belo,
pela naturalidade
de um porte e pensar singelo!


E notei a dor, também,
que invadia a tua mente,
quando sabias que alguém
sofria, de descontente!


E por toda essa jornada,
se acendeu, de novo, em mim
aquela chama apagada,
feita de um fogo ruim...


..........


Quero, bem alto, bradar:
Amo-te, adoro-te, Amor!,
desejo-te, a cada instante,
sofro, choro: é tudo dor!


Cismo, penso, sonho sempre,
mas com fantasmas, somente;
protesto, tudo maldigo:
nem assim fico contente!


O que é isto? Que castigo
para mim tão doloroso!
Isto o que é? Qual o nome?
Eu sei... Caminho espinhoso,


igual a este, não há...
Muitas vezes passei nele
e sempre nele tropeço,
e quanto mais fujo dele,


tanto mais ele me enreda.
Não sei o que te chamar,
se bendito, se maldito,
pois posso não acertar...


Ah, Amor!, Amor!! Suplico
que não me atormentes mais,
porque com o meu sofrer
faço sofrer os demais!


Deixa-me ficar na sombra,
esquece-te que eu existo:
A minha Cruz é pesada
e eu não posso, como Cristo!


E tu, querida, repito:
não ligues a este louco,
que te dava a vida inteira,
em troca, pedindo pouco...


Mas... talvez não fosse assim...
Que agora eu sei que a Razão
está toda do teu lado
e a dor da minha ilusão


se redobra e multiplica,
porque te amo, com loucura,
e não sei como explicar
o porquê desta ternura!


Quero-te mais do que à Vida
e d'Ela não 'spero nada,
senão 'spinhos e martírios,
perdidos na minha estrada...


E de ti, mulher amada,
nada, também, eu espero
e, porque sou o culpado,
com isso me desespero.


Tudo isto é um desvario,
tenho que pedir perdão:
Desculpa e tem piedade,
que o erro é do coração!


Sei que nunca serás minha,
porque deste o teu amor:
E eu choro pleno de mágoas
e suporto a infame dor!


Eu fui-me prendendo a ti
e acordei o coração,
que dormia há muito tempo,
perdido na solidão.


E o tal beijo que me deste,
feito todo de doçura,
embriagou-me o espírito
e renasceu a loucura...


Foi o beijo mais gostoso
de quantos me têm dado
e só mais tarde senti
que esse beijo foi roubado.


E é que eu não tinha o direito
de tal tesouro roubar,
já que pertencia a outro
e não mo querias dar.


Foi esse beijo enganoso
que mais me prendeu a ti:
Num momento, tudo tive
e noutro, tudo perdi...


Braga, Outono de 1972


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SONHO DESFEITO


Surgiste na minha vida
naquele tempo em que os sonhos
procuram desabrochar...
Não dei p'la tua chegada,
senão quando me encontrei
a braços com a paixão,
que, mais tarde, fez sangrar
o peito que deu pousada...


Chegaste. Não te esperava.
Mas, do modo que vieste,
recebi-te, alegremente,
porque vinhas, de mansinho,
porventura iluminar
o meu escuro caminho,
impossível de trilhar...


Sorriste-me, com doçura,
e disseste-me a palavra
que fundou a minha esp'rança...
O embrião germinou
e deu abundante fruto!
E os meus sonhos de criança,
criados naquela idade,
iam ser realidade...


Quisera perpetuar-te
em quimera nunca tida!
Quisera fazer de ti
a vida da minha vida!
Quisera, também, tornar-te
na rosa mais delicada
e, bem alto, apregoar-te
como a minha eterna amada!


E o meu sonho ganhou forma,
pois comecei a erguer
o jamais visto castelo,
p'ra habitar o nosso amor.
Mas alguém se intrometeu
e tu não quiseste ouvir
os meus gemidos de dor...
E decidiste partir...


Sobreposta, Agosto de 1973


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CONCLUSÃO


Há tanto tempo, Deus meu,
Que Ela já tinha partido!
Procurei, pois, esquecê-la,
porque sustentar a chama
que dentro em mim acendeu
já não fazia sentido...


Um dia, porém, voltou.
Vinha como dantes: meiga,
cheia de amor p'ra dar-me...
Trazia consigo o ramo
para entre nós haver paz.
Meditei, profundamente,
e a penosa conclusão
foi dizer-lhe, honestamente,
que já não havia amor
p'ra dar-lhe em meu coração!


Sobreposta, Agosto de 1973


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DESENCONTRO


Teus gemidos de paixão
sinto-os dentro de mim...
Sei que sofres e eu sofro,
por não dar satisfação
aos anseios que palpitam
em teu pobre coração...


Crê, porém: não sou culpado
das voltas que o mundo dá!
Teu fardo é muito pesado
e eu bem quisera ajudar-te,
mas a lei das coisas diz
que tens que cumprir teu Fado!


Confesso que foste amada
e julguei sempre que um dia
uníssemos nosso amor...
Nesse tempo não quiseste
e deixaste, que sozinho,
suportasse a amarga dor...


O tempo foi decorrendo
e eu sentia, a pouco e pouco,
amaciar os espinhos
que me feriram tão fundo...
Por fim, já não eram cardos,
mas ternuras e carinhos...


É que, na realidade,
o melhor Mestre que tive,
o Tempo, bondoso amigo,
ia curando a paixão
que tinha feito sangrar,
por ti, o meu coração...


Agora, és tu quem suspira
por um pouco só de amor...
Mas eu não amo ninguém
e não desejo enganar
aquela a quem já quis bem
e, com isso, me vingar...


Gelou-me, por certo, o peito,
dantes fonte de calor:
Amei muito e fui amado;
muito sofri; fiz sofrer;
sei, porém, não ser culpado
do que está a suceder.


Meu Deus!, humilde, Te peço
me concedas o favor
de nunca mais - se mereço -,
me queixar do mal de amor!


Sobreposta, Agosto de 1973


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ENTRE O AMOR E O SONHO

Foi naquela chuvosa e fria noite,
de um Janeiro bem frio, não longínquo...
Lá fora, o vento gemia
com uivos próprios de Inverno...
Tu chegaste, saída do negrume,
e vieste sentar-te no meu leito,
com a naturalidade
de quem bem se conhece e muito se ama!


Docemente, eu dormitava,
aproveitando o calor
das mantas, que me cobriam...
Na saudação trocámos ternos beijos
e afaguei-te os cabelos, tão macios,
e a boca, que queimava, num sorriso...


Fomos dizendo um ao outro
do muito que nos queríamos.
Segredámos muitas coisas,
mas outras adivinhámo-las
nos beijos prolongados,
que uniam nossos lábios,
num frémito de loucos!


Que coisas, santo Deus, fizemos e dissemos!
Quantos projectos surgiram
em nossas mentes confusas!
Quantos sonhos nasceram e morreram!
E quantas ilusões nos assaltaram!
E como nos enganou
um rosário de promessas!?


Mas eu confesso que te amava muito:
Era a paixão que me arrastava para ti
e fazia sentir-me escravo teu!
Era o desejo de te possuir
que sempre me impelia a te abraçar,
a estreitar-te nos meus braços,
com frenesim, a morder-te
e a reclamar-te beijos, muitos beijos...


E a ternura dos sonhos, bem despertos,
dava-te encantos e te hipnotizava...
Tinha a certeza de que me querias,
com um amor ingénuo, mas robusto,
e uma vontade férrea de lutares,
sozinha, contra todos, por não aceitarem
os sentimentos que p'ra mim te compeliam...


Murmurei, com deleite, o teu bonito nome,
imbuído de feitiço,
e tacteei a maciez da pele
do teu corpo sensual!


Mas tudo se consumou,
quando, ao meu lado, te senti deitada,
compartilhando o calor
sob as roupas do meu leito!
Que sensação!... Quase nua
e, voluptuosamente,
os nossos corpos tocavam-se...


Era apenas bem nosso aquele instante!
Saboreei o teu sexo,
frágil e tenro, como a tua tenra idade...
Adivinhei o trémulo sussurro,


por entre as dores que te contorciam:
"Sabes o que fazemos, meu Amor?..."


Só então regressei da louca orgia,
francamente, arrependido
do reles trapo que de ti fizera...
Senti-me envergonhado da minha vileza:
não havia, porém, qualquer remédio...


Jurei que te pertencia
e pedi que me quisesses
com o ardor daquele instante inesquecível!
Disseste-me que sim,
beijando-nos com mais sofreguidão...


Depois, partiste,
com a naturalidade
de quem bem se conhece e muito se ama
e com a mesma alegria
que trazias na chegada,
naquela fria noite e tão chuvosa,
de um Janeiro bem frio, não longínquo...


Sobreposta, Março de 1973


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BALADA NO OUTONO

Um Outono começava,
tranquilo e morno,
todo feito de paz e de serenidade...
Caíam frutos e flores,
desordenadamente,
formando um belo manto de saudade...


E nós, sentados na parede,
à beira do caminho,
alheados de tudo,
falávamos de amor,
trocando longos beijos,
que incendiavam desejos...


Pedia-te muitas vezes
que dissesses e provasses
o muito que me querias:
desfazias-te em ternura,
beijavas-me ainda mais
e com a minha dúvida sofrias...


Chegava-me a certeza, desse jeito,
do sentimento forte
que pulsava em teu peito,
infantil e muito ingénuo,
mas arrojado e capaz
de lutar até à morte!


Por isso me envaidecia
possuir-te a juventude
e de saber que era amado...


Ambicionava-te, então,
com a força irresistível
de uma sublime união...


Despia-se a Natureza,
mas cada vez, mais e mais,
tanto amor que nos unia
raiz ganhava e firmeza...


E foi assim que o Inverno
nos encontrou,
quando chegou
com a chuva, o frio, a neve...
Nada, porém, perturbou
o sentimento que nos enlaçou!,


a não ser a Primavera,
que, ao contrário do que é hábito,
destruiu nossa quimera...
E por ali se ficou,
em hibernação bem curta,
o Amor que em nós operou...


Sobreposta, Junho de 1974


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DESPIU-SE A ÁRVORE DA ESPERANÇA

Depois de ter expiado
a culpa que me doía,
achei-te nesse domingo
e julguei sempre que iria


colher o prémio
do silêncio, que há meses, entre nós havia!
Ao sentir-te a meu lado,
embora ausente e fria,
tive a sensação
de que esquecerias
os maus momentos passados
e regressarias


aos meus braços, como outrora...
Tudo esperei, mas em vão...
Como estavas diferente!:
Palavras, era preciso
arrancar-tas, uma a uma;
em teus lábios, não se via
a existência de um sorriso...


Tuas mãos, sempre tão quentes,
quedavam-se no regaço,
regeladas, sem vigor,
como o teu suave rosto,
dantes, fonte de rubor...


E os teus grandes, ternos olhos,
que tantas vezes beijei,
'stavam pregados no chão,
pois não me qu'riam olhar...


E, se acaso me olhavam,
tenho a impressão
que apenas pretendiam
minha presença fulminar...


E, como antigamente, eu suspirava
com a esperança de um beijo...
Depressa, desesperei,
sufocando um tal desejo...


Por isso, assim se esvaía
a nesga de esperança,
que ainda alimentava
o meu pobre coração...


Partiste, sempre tão fria,
indiferente à vontade
de reconciliação
que dentro em mim fervilhava...


Contigo foi a certeza
de que havia muito amor
p'ra dar-te em meu coração...
Mas eu, mais pobre fiquei
na já tão grande pobreza!
Mais frio no meu ardor
e bem mais desiludido
na triste ilusão...


Sobreposta, Agosto de 1974


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REVELAÇÃO


Aqui me tens, meu Amor,
p'ra fazer-te a confissão
de culpas não cometidas...
Mas, quem poderá dizer
se terei culpas, ou não,
uma vez que tu me acusas
sem me deixar defender?


Nada, pois, vou revelar,
senão que 'inda te amo muito
e que és a mulher querida,
por quem suspiro e preciso
que dê luz à minha vida!


Esta paixão que me abrasa
há já muito que arde em mim
e eu bem quisera esquecer
que a ousadia que me anima
só me tem feito sofrer...


Contudo, se desejar
que toda, enfim, me pertenças,
se considera um pecado,
então, sim, querido Amor,
sou um grande pecador!!


Sobreposta, Setembro de 1974


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LEMBRANÇA


Meu Amor, adoeceste
e o não ouvir tua voz
traz-me saudades imensas...
Sabes: o sentir-te ausente,
não falar-te, a cada instante,
põe-me triste e descontente!


És frágil, doce Boneca,
por quem há tanto suspiro
e sempre me tem negado
o sentimento mais belo,
não sei por quem inventado!


Amo-te, apesar de tudo,
e peno ao saber que penas...
Que depressa fiques bem,
lembrando-te, que em silêncio,
eu por ti sofro também...


Sobreposta, Outubro de 1974


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DEIXA QUE CHEGUE A PRIMAVERA


Deixa que chegue a Primavera
e com ela a alegria de uma nova vida!
Quem espera, sempre alcança,
se, de facto, o esperar
é feito só de esperança!


Entre nós, tudo, um dia, começou...
Começou na Primavera
e no Outono terminou.
E a Primavera,
como é costume em cada ano,
bem florida, regressou...,


mas, desta vez,
era mais tua que minha!:
Tínhamo-nos cruzado no mesmo caminho
e tu chegaste sozinha!


Quando te achaste, a sós contigo,
chamaste, desesperada!
Eu não te ouvi, embora sentisse vibrar-me
os ais e gemidos
da tua voz, magoada!


Por muito tempo, ainda,
com dolorosa ansiedade,
aguardaste uma resposta:
Nos teus ouvidos, atentos,
essa resposta soou,
contudo, não aquela que o teu peito,
com mil ilusões, criou...


E do modo que vieste,
decidiste retirar-te,
com o coração desfeito.
O teu Outono tinha já chegado
e, afinal, destruído as mesmas esperanças,
que eu tivera no Passado!


Hoje, mais calmo,
digo, com sinceridade:
Mulher querida, a quem quis,
que agora tanto me quer,
quem ama não desespera,
pois após mais este Inverno
surgirá a Primavera!


Sobreposta, Dezembro de 1974


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