Figuras Célebres


APRESENTAÇÃO

Todos nós sentimos um grande apreço e curiosidade pelos homens e mulheres que, ao longo dos tempos, colocaram o seu engenho, talento e arte ao serviço da humanidade. Biografias de pintores, escultores, cientistas e inventores fazem parte do nosso imaginário, quantas vezes de criança, povoado de histórias mais ou menos fantásticas, mas nunca iguais umas das outras, porque cada um dos que se "foram da lei da morte libertando" foi diferente. Sabendo que, muitas vezes, essa diferença começou na infância, quem já não ficou fascinado com o menino prodígio que foi Amadeus Mozart, ou com as histórias mais ou menos rocambolescas de Thomas Edison!

 

Neste espaço vai encontrar biografias de pessoas célebres, factos da vida de quem escreveu para sempre o seu nome na História.

 

            António Silva

 

FIGURAS CÉLEBRES

 

Publicadas no mensário "Jornal da Vila de Prado",

Redigidas e coordenadas por

 

José Fernandes da Silva

 

josfernandes@mail.telepac.pt

 

Principais fontes consultadas:

 

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Larousse

História da Literatura Portuguesa
História da Literatura Universal
Dicionário da Música Ilustrado
Mestres da Música
Vultos da Pintura
Personagens Mundiais de Relevo
Jornais, revistas e outras Obras.

 


 Figuras Célebres

 


António Carlos Gomes

 

Em Campinas, S. Paulo, Brasil, chegou ao mundo em 11 de Julho de 1836. O pai era músico e professor de piano, violino, canto e órgão, além de mestre-de-banda. Precocemente revelou pendores para a  música e já aos dez anos integrava a Banda Marcial.

Aos dezoito anos produziu as primeiras composições: valsas, mazurcas,  romanzas e uma missa. Cinco anos mais tarde compôs uma cantata, que lhe valeu uma medalha de ouro, concedida por D. Pedro II, grande incentivador das artes e da música. No ano imediato compôs outra cantata, de que resultou a sua nomeação como ensaiador e regente da Orquestra da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional.

Com a "Noite do Castelo", a sua primeira ópera, alcançou a condecoração da Ordem da Rosa. E a segunda ópera, "Joana de Flandres", foi também acolhida com muitos aplausos, concedendo-lhe, em seguida, D. Pedro II  a ajuda necessária para que fosse aperfeiçoar-se na Europa. Partiu para Milão, Itália, onde tomou aulas com Lauro Rossi, director do conservatório da cidade. Obteve aprovação nos exames finais, recebendo o diploma de maestro-compositor.

"Guarani", romance de José de Alencar, deu-lhe o argumento que precisava para expressar com música o intenso patriotismo que o inundava. A ópera com o mesmo nome teve a sua estreia em Milão, no ano de 1870, com um êxito retumbante. Por essa razão recebeu do rei de Itália o título de Cavalheiro da Ordem da Coroa.

As suas ideias eram de um puro abolicionista e entre 1888-89 deu a público a ópera "O Escravo".

Além das obras já citadas e de entre uma lista longa salientam-se mais alguns títulos principais: "Fosca", "Salvator Rosa", "Colombo", "Maria Tudor" e "Quem sabe?" (modinha).

A sua música é romântica e grandiosa. Tem um poderoso efeito de vigor, que pode ajudar as pessoas deprimidas, sem esperança, a restaurar o equilíbrio nos campos mental, emocional e físico. É reconfortante e balsâmica, aliviando a angústia.

Em 16 de Setembro de 1896, depois de ter recebido do rei D. Carlos, de Portugal, a Ordem de Santiago, desapareceu do número dos vivos, embora injustiçado pelo País que tanto amou. É  que, fiel e grato a D. Pedro II, viu-se desamparado com o advento da República, sofrendo a partir daí sérias dificuldades profissionais e financeiras.

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ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO

 

António Feliciano de Castilho, primeiro visconde do seu último nome, nasceu em Lisboa no dia 28 de Janeiro de 1800.

Tendo perdido a visão quase completamente quando tinha 6 anos de idade, deveu muito da sua carreira literária ao irmão Augusto, que era sacerdote. Mercê da dedicação deste e da própria vontade invencível, pôde formar-se em Direito. Ele foi, como Herculano e Garrett, um dos renovadores das letras portuguesas, que com eles se libertaram do "muito arraigado pseudoclassicismo arcádico, em cuja monotonia jaziam". Com o advento do romantismo, veio um maior interesse pelo estudo da história pátria e da grei, antes muito descurado.

Castilho deixou uma vasta obra, como poeta, tradutor, exímio prosador, jornalista e impulsionador de iniciativas.

Sabia textos clássicos de cor, foi um tradutor exemplar e dominava Virgílio, Ovídio, Shakespeare, Cervantes, Molière, Goethe, Victor Hugo, W. Scott e Schiller, entre outros.

            Das traduções, destacamos: "Lírica", do grego Anacreonte; "Os fastos", "Metamorfoses" e "Arte de amar", do latino Ovídio; "Geórgicas", do latino Virgílio; "O misantropo", "O avarento", "Tartugo", "O médico à força" e "Doente de cisma", do francês Molière; peças do dramaturgo inglês Shakespeare; "Fausto", do alemão Goethe.

Obras originais compô-las em grande abundância; entre as demais: "Primavera", poesia, 1822; "Tratado de versificação portuguesa", 1851; "Método de leitura repentina" - que deu motivo a uma enorme polémica; "Cartas de Eco (ninfa) a Narciso (filho de um rio)", poesia; "Noite do castelo", "Amor e melancolia" (ao gosto arcádico), "Escavações poéticas" (sobre temas folclóricos), "Outono" (as suas últimas poesias), 1864 - os títulos anteriores também são de cariz poético.

Era um liberal assumido. Viveu na Bairrada, com o irmão, que era pároco em Castanheira de Pêra

e nos Açores. Com Herculano apoiou o "Teatro do Salitre" e foi o redactor do "Agricultor micaelense" e da "Revista Universal Lisbonense". Foi também um grande pedagogo, que influenciou o ensino e a leitura ("Método Castilho").

            As obras completas de Castilho estão editadas em 80 volumes, onde se incluem as traduções.

Não teve muito o dom da criação abundante e individual; todavia, a riqueza de vocabulário e a facilidade de expressão de que dispunha fizeram das suas traduções, versões e adaptações, verdadeiros monumentos.

A morte levou-o no dia 18 de Junho de 1875, na mesma cidade que lhe serviu de berço.

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ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

 

Nortenho de gema, em Avintes, ali pertinho da cidade do Porto, chegou ao mundo em 9 de Abril de 1942. Feitos os estudos obrigatórios, ainda muito jovem, pois contava apenas 17 anos, ingressou na Universidade de Coimbra, para frequentar o curso de Direito, que aliás acabou por não concluir.

Integrou-se, com muita facilidade, no meio académico, onde foi muito estimado e admirado, sobretudo pelos dotes vocais e pelas excelentes interpretações da canção coimbrã. Tornou-se membro do Orfeão Académico e colaborou em múltiplas demonstrações culturais e, activamente, nos movimentos estudantis dos anos sessenta.

Colaborou em inúmeras serenatas, em manifestações musicais e cultivou, por gosto e com muita qualidade, a balada (um género de música que José Afonso traz para o campo artístico, de que é, porventura, o melhor intérprete). Ao mesmo tempo, embrenha-se na recolha, na selecção e gravação de canções populares, desde as ilhas a todos os cantos do continente, onde sobressaem trechos do riquíssimo folclore minhoto, beirão e açoreano.

Gravou variadíssimos álbuns, cantando poemas dos mais variados autores portugueses e melodias que encantaram e prevaleceram como baluartes da canção de intervenção.

 No seu repertório aparecem diversas trovas, (esse tipo de música que na Idade Média os aventureiros da cultura, percorrendo a Europa levavam, de terra em terra, as melodias de origem, vindas, muitas vezes, não se sabia de onde, mas que era uma forma de dar a outras pessoas as tradições, a cultura, as lendas, os costumes, os romances, o estilo de vida, que, desta forma, eram apresentados nas localidades a que chegavam e, posteriormente, também daqui transportados para outras terras).

Gravações feitas no antigo regime são um testemunho do seu profundo amor à causa da Liberdade, para a qual sempre deu o seu melhor, no sentido de levar mensagens e um pouco de conforto aos companheiros exilados, presos ou que tinham de sufocar as ideias democráticas. Ao lado de José Afonso, Manuel Freire, Luísa Bastos, José Jorge Letria, padre Fanhais, José Mário Branco – e outros tantos -, foi, repito, um baluarte na defesa da Liberdade e na implementação da chamada “canção de intervenção, com a tal finalidade de reconfortar e animar os companheiros da vanguarda e da retaguarda e manter bem viva a chama da Esperança e da tão ambicionada Liberdade.

Muito cedo nos deixou, quando estava no auge da sua carreira. Viveu um pouco da música e do seu posto de trabalho na Embaixada de Angola  no Porto. Estava ainda a terminar o curso de Direito. A morte, porém, a 16 de Maio de 1982, com apenas 40 anos, devido a uma doença súbita, surpreendeu-o, na terra que lhe deu a luz, expirando nos braços da mãe.

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AGATHA CHRISTIE

 

Agatha Mary Clarissa Miller nasceu em 1891, em Ashfield, Inglaterra. O pai morreu era ela muito pequena. Embora tendo uma infância feliz o temperamento era o de uma criança tímida e muito unida à família. A sua irmã Magda lia-lhe muitas histórias de Conan Doyle, Poe e Leroux, os grandes génios da intriga e, um dia, incita-a a escrever uma história onde, apenas no final, se descubra o nome do assassino.

Estudou em casa e recebeu uma educação conservadora e tradicional. O perigo e os desportos agradam-lhe imenso e esta combinação marcar-lhe-á o carácter.

Devido a não estar escolarizada não pode frequentar a universidade. Por isso, considerando-se uma pessoa inculta luta por encontrar uma profissão, para impor-se na sociedade. Escolhe a música e decide estudar piano em Paris, para onde vai viver. Torna-se numa extraordinária aluna e profissional do piano.

Era uma linda rapariga, alta, magra e ruiva. Tinha inúmeros pretendentes. De entre todos elegeu aquele por quem nutria grande paixão: Archie Christie, com quem casou próximo do início da I Guerra Mundial. Começa, então, a trabalhar como enfermeira e em farmácia, aprendendo o manejo de drogas e venenos, que se tornaram de enorme utilidade como escritora. Fica separada do marido e sente uma profunda tristeza. Precisa de relaxar e resolve escrever uma novela de mistério.

Ao regressar da guerra o marido não lhe dedica o carinho e a atenção de que ela tanto carece. Têm, entretanto, uma filha. Em 1926 já tinha publicado seis novelas, mas o marido estava enamorado de uma amiga do casal e decide pedir-lhe o divórcio, o que muito a magoou, não lho concedendo. Perante o abandono e porque amava Archie, enlouquece, abandonando a sua roupa interior e o carro junto de uma estrada e desaparece durante onze dias. Um médico certifica que sofreu amnésia. Depois de muitas amarguras recupera o equilíbrio, sobretudo graças ao apoio dos seus amigos e a um tratamento psiquiátrico.

Numa digressão pelo Oriente, em Bagdad, conhece o arqueólogo Max Mallowan, mais novo que ela catorze anos, apaixonando-se mutuamente e com quem acaba por casar e de que resulta um matrimónio repleto de alegrias ao longo do resto da vida.

Principais obras suas: "A primeira investigação de Poirot", 1920; "O assassinato de Roger Ackroyd", 1926; "Um crime no expresso do Oriente", 1933; "Cai o pano", 1975.

Agatha Christie desaparece em 1976, um ano depois de ter publicado a sua derradeira novela.

 

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ALBERT EINSTEIN

 

Génio endiabrado, um dos mais famosos cientistas da primeira metade do século XX, Albert Einstein nasceu em Ulm, Alemanha, em 1879, numa família de origem judaica. Tornou-se o pai da teoria da relatividade, tendo subido aos céus da ciência universal com a mesma rotundância com que desceu aos infernos da pior vida marital, pois tendo casado duas vezes, a sua história esconde duas filhas secretas dadas em adopção. Contrário ao casamento, Armin Hermann, o autor da sua excelente e documentada biografia, afirma que Einstein apenas chorou duas vezes ao longo dos 76 anos de existência.

Foi criado em Munique, embora parte da adolescência fosse passada em Milão, onde adquiriu paixão pela música. Licenciou-se e doutorou-se em Física e Matemática na Universidade de Zurique. Iniciou a sua vida profissional no Ofíco Federal de Patentes, em Berna, naturalizando-se suiço em 1902, altura em que comtraiu matrimónio com a húngara Mileva Maritsch, de quem teve dois filhos.

Nos "Anais da Física", em 1905, publicou cinco artigos. O quarto, intitulado "Sobre a electrodinâmica dos corpos em movimento", revolucionou Física Newtoniana. É a teoria da relatividade especial, que faz a síntese da mecânica clássica, da óptica e da teoria electromagnética de Maxwell. Demonstrou que o espaço e o tempo não são independentes entre si, mas relativos; e que a massa é uma grandeza relativa e não absoluta, variando com o movimento.

O quinto artigo deu-lhe o título de "A inércia de um corpo depende do seu conteúdo em energia?" e é o corolário do precedente. Einstein desenvolve a nova ideia de equivalência entre massa e energia; é aí que se encontra a famosa fórmula E=mc2, sendo E a energia, m a massa e c a velocidade da luz.

Foi professor de Física Teórica das Universidades de Zurique, de Praga e de Berlim (1909-32). Divorcia-se em 1914 e volta a casar-se com a sua prima e confidente, Elsa. No ano seguinte construiu a nova teoria geral da relatividade e em 1921 foi galardoado com o Prémio Nobel da Física.

Naturalizado norte-americano em 1940, país para onde emigrou em 1933, forçado pela ascensão do nazismo e onde passou a leccionar no Institute for Advanced Study de Princeton, em New Jersey, Einstein, que toda a vida se preocupou com os problemas sociais, sendo um pacifista activo e um defensor do judaísmo, em 1952 foi convidado para presidente de Israel, que rejeitou.

Escreveu imenso. Sendo um grande e profundo pensador, deleitava-se no silêncio da reflexão científica e filosófica e, embora conhecido como cientista, é autor de muitos e belos pensamentos.

Morreu em Princeton no ano de 1955.

 

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ALBERTO SAMPAIO

 

Alberto Sampaio nasceu em Guimarães, em 15 de Novembro de 1841, tendo o seu último hálito em Vila Nova de Gaia, em 1 de Dezembro de 1908.

Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicando-se, apaixonadamente, à investigação histórica, onde realizou uma obra bem notável.

Foi amigo e companheiro de Antero de Quental, sobre quem escreveu um estudo, incerto no "In Memoriam" do glorioso poeta, tendo efectuado com ele uma viagem aos Estados Unidos da América. Quando regressou recolheu-se em Guimarães, onde passou os dias entregue aos trabalhos de investigação, nos quais teve quase sempre a prestimosa colaboração do seu grande amigo Martins Sarmento. Muitos desses trabalhos foram publicados em jornais e revistas, de que se destacam os títulos: "As Vilas do Norte de Portugal" – estudo das origens da propriedade nos tempos da dominação romana e visigoda; "Ontem e Hoje" – análise à economia do país desde os primeiros tempos da nacionalidade; "Póvoas Marítimas do Norte de Portugal"; "Praias do Litoral" – estudo das origens da população da costa portuguesa desde Caminha a Vila Nova de Gaia; "A Propriedade e a Cultura do Minho" – valioso estudo da economia rural; "O Norte Marítimo" – introdução ao estudo da origem e êxito das navegações portuguesas; e um valioso "Relatório da Exposição Industrial de Guimarães".

Todas as suas obras foram coligidas, em 1923, em dois volumes: "Estudos Históricos e Económicos", constituídos por três partes – História e Economia Nacional e O Minho Rural e Industrial (que enchem o 1º volume) e Estudos Biográficos e Bibliográficos (que ocupam o 2º volume).

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ALEXANDER GRAHAM BELL

 

Alexander Graham Bell nasceu na Escócia em 1847. O pai era um académico de Edimburgo, cidade onde estudou, assim como em Londres. Seu pai inventou um método para as pessoas surdas se comunicarem (Linguagem visual) e ensinava-o em Edimburgo. O filho aprendeu esse método e também o ministrou na mesma cidade. Mais tarde, após ter emigrado para os Estados Unidos da América, em Boston, fundou uma escola e nela leccionava fisiologia vocal.

Decorria o ano de 1865 quando lhe surgiu a ideia da transmissão da voz por ondas eléctricas, mas apenas registou a patente do telefone em 1876. No ano seguinte formou a empresa "Bell Telephone Company". As suas invenções são imensas e vieram contribuir para um rápido desenvolvimento de muitas ansiedades da Humanidade.

A noite era o momento favorito de Bell. Chegava a passar noites em claro, imerso nas delicadas investigações, quer na electricidade, quer no campo da navegação aérea. Na verdade, para trabalhar à sua vontade, só a partir da meia-noite, altura em que a mente atingia a máxima lucidez. Liberto de interrupções, podia entregar-se de alma e coração às experiências científicas e às invenções, que constituíam a paixão da sua vida. Nunca se deitava antes das quatro da madrugada, dedicando a tarde aos compromissos sociais e negócios, e aproveitava a noite para a leitura e trabalho.

Os hábitos citados manteve-os ao longo de toda a vida e o seu estado de saúde foi sempre excelente. Alto e forte, era também um dos homens mais atractivos e activos de entre os que fazem grandes coisas no mundo.

Como se disse, o telefone foi patenteado em 1876 e, desde então, concebeu muitos outros inventos importantes. Tanto do seu melhor dedicou à ciência que as principais sociedades científicas da Europa o galardoaram com as mais altas honras. Inventar exige imaginação e Graham Bell era dotado dessa faculdade num grau mais que notável. A sua perspectiva, apoiada pelos enormes conhecimentos científicos, era mais ampla que a do pensador comum, e a sua mente criativa estava sempre mergulhada nas análises, perspectivando coisas novas.

Viajava muito por todo o mundo, proferindo conferências sobre o telefone, o gramofone, a electricidade, o hélio, a rádio e a navegação aérea.

Morreu no Canadá em 1922.   

 

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ALFRED NOBEL

 

Alfred Bernhard Nobel, o pai da dinamite, teve o seu berço na capital da Suécia, Estocolmo, no dia 21 de Outubro de 1833, tendo-se celebrado, portanto, em 1996, o centenário do seu falecimento. Trata-se do homem que deu vida aos prémios da paz mas que, por ironia do destino, durante a sua existência se dedicou à investigação e produção em enormes quantidades de explosivos.

Descendente de uma família de industriais, o pai fez carreira como grande inventor de explosivos, na Rússia, para onde tinha ido em 1842. Nesse país, na cidade de S. Petersburgo, o filho estudou e dedicou-se à investigação no sector da química, que mais tarde deu origem à descoberta e confecção de explosivos, de que as empresas do pai precisavam.

Todavia, o mais importante evento de Nobel foi a dinamite, definitivamente registado em 1875. Um oficial de artilharia russo, Petrouchevski, inventou um método prático de produção de nitroglicerina, um dos mais potentes explosivos que a humanidade conheceu. Nobel aproveitou esta componente e, em seguida, descobriu a balestite, onde entrava o composto da nitroglicerina, que mais potência deu aos obuses empregues nos canhões, que eram usados nas muitas guerras que por essa altura existiam por todo o lado.

Pouco antes de morrer, Alfred Nobel, consciente de que as suas invenções na área dos explosivos foram a causa de tantas guerras e destruições, redigiu um testamento onde estipulava os célebres prémios monetários destinados a galardoar aqueles que mais se distinguissem nas áreas da química, medicina, física, literatura e paz. Estes prémios têm o seu nome e os primeiros foram entregues em 1901, cinco anos depois da sua morte, que ocorreu a 10 de Dezembro de 1896.

 

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ALFREDO KEIL

 

A sua chegada ao mundo teve lugar no ano de 1850, na cidade de Lisboa, onde o pai, de origem alemã, trabalhava como alfaiate (mestre de costura de fidalgos da corte e era um homem muito culto e de fino bom gosto). A mãe, por sua vez, era de origem francesa, aliás uma senhora de excelente educação. Dos dois recebeu muito carinho, muito apoio e meios para ter uma esmerada educação, quer moral, quer no domínio intelectual. Tinha 12 anos quando fez imprimir a sua primeira obra, intitulada "Pensée Musicale", que dedicou à mãe. A música sempre o seduziu e nela veio a ocupar um lugar de muito destaque. Mas, ainda adolescente, enveredou pela Pintura e, também aí, deu provas de um génio. Por isso, ao longo da vida manteve e cultivou esses dois grandes amores: Música e Belas-Artes.

Viajou para Nuremberga e para Munique, com o intuito de usufruir do saber de grandes mestres, sem esquecer que os teve de excelente carreira na sua cidade natal. Estudou Pintura com Joaquim Prieto, Miguel Lupi, Kremling e Von Kaulbach. A música foi-lhe ministrada por António Soares, Ernesto Vieira, Óscar da la Cinna. Pupilo de tão talentosos pedagogos, começaram a nascer e a crescer frutos sazonados e de extraordinária qualidade. Pintou cerca de dois mil quadros paisagísticos, românticos e cenas geniais. Na música produziu centenas de trechos sonoros (três óperas, polcas, fados, valsas, melodias para piano e canto e diversos outros géneros musicais). Como pintor, introduziu em Portugal cores e temas germânicos, já que o nosso país era um protector cultural francês.

 Quanto à música, estando a nossa produção muito enfeudada aos italianos, porque quase só as óperas italianas eram aplaudidas e postas em cena, imprimiu à sua música  um cunho e uma componente nacionalista. A ópera "Serrana" dá início a esse grande ciclo de viragem para um género puramente português. As outras duas óperas são: "Irene" e "D. Branca"- esta última foi um verdadeiro sucesso, que quase fez abater o S. Carlos.

Pintou Portugal, quase de uma ponta a outra, mas essencialmente, o vale de Colares, local da sua residência. Percorreu as terras do interior e do litoral e vagueou por zonas longínquas, como a Baviera, a Normandia, Fontainbleau, Babizon e desde o lago de Magrose até Nápoles. Pintou inúmeros roteiros, pelo menos cinquenta álbuns, devidamente equacionados, repletos de impressões. Dominou várias manifestações superiores e distinguiu-se, quer na conversação, quer graficamente, seis idiomas. A sua presença foi sempre muito desejada nos salões de toda a Europa. Os reis obsequiaram-no com vénias, ordens e comendas. Os republicanos conspiraram contra o seu hino, "A Portuguesa", inspirado pela ofensa do ultimato inglês – 1891. Todos, porém, o coroaram: os monárquicos e os republicanos. E ele, com o seu hino (onde se enquadram maravilhosamente as estrofes escritas por Henrique Lopes Mendonça) coroou a República.

Casou-se com Cleyde Cinatty, filha de um arquitecto e cenógrafo italiano. E, para encerrar o ciclo de internacionalizações, no ano de 1907, faleceu em Hamburgo, onde foi conduzido para ser submetido a uma melindrosa operação cirúrgica.

 

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ALMADA NEGREIROS

 

Filho de um alto funcionário ultramarino, José de Almada Negreiros nasceu na ilha de S. Tomé, na fazenda Saudade, no dia 7 de Abril de 1893. A mãe era mestiça e uma pessoa muito simples; o pai era branco.

Ele era um menino triste, de grandes olhos escuros e, no ano de 1900, foi internado, com o irmão mais novo, num colégio de Jesuítas em Campolide, Lisboa. Aí permaneceu durante 10 anos, transferindo-se, em 1911, para o liceu de Coimbra e, dois anos mais tarde, para a Escola Internacional de Lisboa. No colégio de Campolide ocupou salas muito austeras e vigiado por padres vestidos de negro. Não teve historinhas ao deitar, carinho dos pais ou quaisquer laços de ternura familiar. O pai escrevia-lhe, às vezes, mandava prendas, prometia ir buscá-lo, mas nunca aparecia. Por isso, ao longo de dez anos, passou as férias

 no colégio, como se estivesse de castigo.

Sem ligações familiares e afectivas, procurou na Arte o refúgio para o seu extraordinário talento. Experimentou, culturalmente, inúmeros géneros. Deixou uma notável obra como pintor e como escritor. Foi panfletário, ensaísta, dramaturgo, romancista, grande poeta, pintor, desenhador, prosador crítico, novelista, bailarino, conferencista... Desenho, pintura, mosaico, vitral, tapeçaria, gravura com tendência para a expressão abstracta e para o cubismo tornaram-no, sob certos aspectos, numa espécie de Picasso português. Fez-se,

 com efeito, um artista completo e a ele se deve o prestígio e o triunfo do modernismo artístico em Portugal.

A sua vida nunca foi fácil e havia muita falta de trabalho. Como Camões, viveu de amigos, porque o dinheiro lhe faltava. Residiu em Paris e em Madrid. Depois, já quase com 40 anos, casou-se com a pintora Sarah Afonso, de quem nasceram dois filhos.

Começou, então, a vida a melhorar. Foi chamado a colaborar na Grande Exposição do Mundo Português. Desenhou selos do Correio que num concurso internacional deram a vitória a Portugal. Recebeu encomendas de vitrais para a igreja de Fátima. Está presente em imensos locais da cidade de Lisboa, como por exemplo nas pinturas murais das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, no painel de entrada do Hotel Ritz, na cidade Universitária, em quadros que podem ser admirados no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

Ao longo da sua carreira, por trabalhos e exposições, recebeu vários prémios.

Após uma imensa e diversificada actividade, no dia 15 de Junho de 1970, no hospital de S. Luís, no mesmo quarto em que morrera o seu grande amigo Fernando Pessoa, viu a luz pela derradeira vez.

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ALMEIDA GARRETT

 

Decorreu em 1999 o bicentenário do nascimento de João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, ocorrido no dia 4 de Fevereiro de 1799, na cidade do Porto, na antiga Rua do Calvário, agora chamada Barbosa de Castro. Pouco tempo aqui demorou, porque apenas com cinco anos de idade, com os pais fugiu às invasões francesas, indo habitar uma quinta que possuíam em Vila Nova de Gaia. A cidade do Porto, na época em que Garrett veio ao mundo, por assim dizer, era uma terra de cariz medieval, altamente provinciana nos costumes e nas pessoas. O pai, António Bernardo da Silva, era selador da Alfândega portuense e senhor de grandes propriedades nos Açores; a mãe, Ana Augusta de Almeida Leitão, descendia de um brasileiro rico; o apelido Garrett, que pai e filho passaram a usar a partir de 1818, tinha origem na avó paterna do escritor, que o herdara de família irlandesa, de quem descendia.

Aos dez anos foi viver para Angra do Heroísmo, donde, seis anos mais tarde, regressou ao Porto, para frequentar a Universidade de Coimbra.

O insigne escritor sempre exaltou e defendeu a Liberdade, o que lhe acarretaria, ao longo da vida, inúmeros dissabores. Esteve exilado em França e, por pouco tempo esteve na Pátria, já que,  em 1827, juntamente com todos os seus companheiros da Redacção do jornal liberal "O Português" foi preso e metido a ferros na Cadeia  do Limoeiro pelo crime de defender a Liberdade. Os miguelistas faziam-lhe constantes perseguições políticas e, para se livrar delas, emigra para Inglaterra, regressando aos Açores, a fim de se juntar às tropas liberais fiéis  a D. Pedro IV, que ali se reuniam, tendo voltado ao Porto em 1832, fazendo parte do Corpo de Voluntários Académicos e era um dos 7500 Bravos do Mindelo.

Em 1828 estava em Londres e muito activo no jornalismo, quer em jornais portugueses, quer estrangeiros. Em Londres preparou a edição da "Lírica de João Mínimo" e do curto tratado "Da Educação", refazendo e reeditando a tragédia "Catão", estreada em 1821. Em 1830, sob a forma de opúsculo, publica "Portugal na balança da Europa", que desde 1825 tinha saído no jornal londrino "Popular".

Liberal convicto, desempenhou importante papel na vida da Nação e, pelo seu brilhantismo político, mereceu o título de visconde de Almeida Garrett. Foi Encarregado de Negócios na Bélgica, Ministro dos Negócios Estrangeiros e parlamentar, de que ficaram célebres alguns dos seus discursos.

Muito cedo inicia a sua vida literária, escrevendo as tragédias "Mérope" e "Catão", em moldes clássicos. Com os poemas "Camões" e "D. Branca" (1825-1826), marca a abertura da escola romântica em Portugal, tão em moda nos países onde esteve exilado. A narrativa "Viagens na minha terra" é o início da prosa moderna - colorida, com naturalidade e livremente construída. Evidenciou-se, sobremaneira, na poesia e no teatro, mas compôs em todos os géneros. Além dos livros já citados, entre outros, destacam-se: "Flores sem fruto", "Folhas caídas" - poesia; "O arco de Sant'Ana" -

Romance histórico; "Romanceiro" - colecção de lendas e tradições medievais; os dramas: "Um auto de Gil Vicente", "Frei Luís de Sousa", "O alfageme de Santarém", "Filipa de Vilhena"; as comédias: "A sobrinha do marquês", "Um jantar no Dafundo", "Tio Simplício", "Falar verdade a mentir", "As profecias do Bandarra".

O estilo de Almeida Garrett é cheio de elegância, vigor, originalidade, imaginação, graça e sobriedade de linguagem.

O ilustre burilador das Letras portuguesas e intrépido defensor da Liberdade teve o seu derradeiro hálito em 9 de Dezembro de 1854, na cidade de Lisboa.

 

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ALVES REDOL

 

Considerado o primeiro neo-realista português, António Alves Redol veio ao mundo em Vila Franca de Xira, em 29 de Dezembro de 1911, oriundo de uma família muito modesta, condição social que lhe não permitiu prosseguir os estudos, como tanto desejava. Foi obrigado a trabalhar muito jovem, de início como marçano numa mercearia e, seguidamente, como empregado de escritório, vendedor de pneus, encarregado de publicidade e gerente de tipografia. Quando tinha 16 anos, parte para Luanda em busca de melhores condições de vida, aí sobrevivendo como professor de taquigrafia, explicador, empregado dos Serviços da Fazenda e, de novo, como empregado de escritório. Com 19 anos regressou a Vila Franca de Xira, iniciando a sua participação na imprensa. Recomeçou os estudos e completou o curso elementar de comércio.

Influenciado pelo realismo brasileiro, sobretudo pela obra de Jorge Amado, em 1939 escreve o seu primeiro romance "Gaibéus", em que apresenta os problemas sociais e económicos, e mesmo morais, vividos nas regiões transtaganas, ou seja, o dia–a-dia do rancho que procurava a lezíria na época das ceifas – obra que, oficialmente, marca o aparecimento do neo-realismo português, movimento que ajudou a fundar.

O regime de  Salazar nunca lhe facilitou muito a vida como escritor, atendendo a que era um membro muito activo do MUD – Movimento de Unidade Democrática, cuja primeira Comissão central integrou, participando em muitas conferências como orador brilhante. Publicou um número considerável de livros: novelas, contos, romances, teatro, livros para crianças, estudos etnográficos.

Nos seus livros as enormes diferenças sociais e os abusos das classes dominantes, sobretudo as vicissitudes dos pobres e o abuso e a cupidez dos ricos. Também nos livros iniciais abunda a reportagem e até o espírito panfletário. Escrevendo, dentro desta técnica recente, ano a ano, foi apresentando  o drama social dos homens do Ribatejo, do Alentejo e do Alto Douro.

 

Enquanto que em "Gaibéus" fala acerca dos ceifeiros, no romance "Avieiros" apresenta os pobres pescadores na margem do Tejo, no Ribatejo, rio que, muitas vezes, lhes fornece o  peixe, mas ainda lhes arrasta os poucos  e míseros bens que possuem. Na "Fanga" (que representa os alugadores de uma pequena terra), descreve a aflição dos fagueiros, terrenos que cultivam e regam com o amargo suor do rosto e donde não têm compensações. Em " Uma Fenda na Muralha" encaminha os leitores para a Nazaré, fazendo-os viver os dramas dos homens do mar, esforçados e mal remunerados pescadores. Nos três romances do ciclo "Portwine" ergue um monumento à época dos cultivadores do vinho do Porto, que aos vinhateiros custam tragédias e heroísmo.

A partir de "Olhos de Água" e "Barca dos Sete Lemes", melhora a sua arte neo-realista. Debruça-se, mais atenciosamente, sobre as contradições da sociedade provenientes de fundas raízes históricas, evidencia os dramas originados pelo progresso industrial e analisa as condições de vida do operário e do camponês.

O seu livro "Barrancos de Cegos" é considerado, pela maioria  dos historiadores, como o romance mais bem concebido.

No hospital de Santa Maria, em Lisboa, em 29 de Novembro de 1969, teve o dia derradeiro.

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ANDRÉ MALRAUX

  

Em Montmartre, Paris, no dia 3 de Novembro de 1901, chegou ao mundo George‑André Malraux. Filho único e com os pais separados desde os quatro anos, cresceu num ambiente feminino dominado pela mãe, Berthe Lamy, a avó e uma tia solteira, em Bondy, numa casa dos arredores de Paris. O pai, Ferdinand Malraux, uma figura quase sempre ausente na sua infância, era um rico corretor da bolsa que veio a cair em desgraça, suicidando‑se em 1930.

            Antes dos dez anos já tinha lido inúmeros livros, de autores como Victor Hugo, Walter Scott e Balzac. Outra das suas grandes paixões foi a arte e alguns dos seus primeiros textos publicados foram críticas de escultura e de pintura e, no percurso da sua carreira de escritor, viria a destacar‑se quer pelos romances, quer pelos títulos que dedicou ao estudo das grandes obras‑primas da humanidade.

Com 18 anos, depois de terminar o liceu Condorcée em Paris, inscreveu‑se na École des Langues Orientales, descobrindo o exotismo das culturas asiáticas. Aos 21 anos, recém‑casado com a escritora Clara Goldsmith, partiu para o Cambodja e, sem o saber, tinha iniciado uma carreira de aventureiro. Na então colónia francesa foi preso por ter tirado baixos‑relevos de um templo em Bantay Stey, passando três anos na cadeia, de onde saiu transformado num revolucionário comunista.

Viveu por algum tempo no Vietname, onde editou um jornal anticolonialista e em 1925 junta‑se à liga independentista Annan.

Em 1926 é publicado o seu primeiro livro importante, "La Tentation de L.Occident", que tem por palco a China pré‑revolucionária.

De novo em França, Malraux vai trabalhar para a distribuidora Gallimard de Paris como editor de arte. Os seus temas revolucionários estão bem presentes no livro que publicou em 1928, intitulado "Les Conquérants" e noutro de 1930, "La Voye Royale", romance de aventuras passado nas selvas da Indochina.

Em 1933 publicava "La Condition Humaine", uma das suas obras emblemáticas. Dois anos depois, o conto "Le Temps de Mépris" era eleito "Livro do Mês" nos Estados Unidos. Também por essa época funda a Associação Internacional dos Escritores para a Defesa da Cultura e participa em expedições arqueológics no Irão e no Afeganistão. Durante uma exploração aérea dos desertos arábicos localizou a cidade perdida que supostamente serviu de capital ao reino de Sabá.

Na Guerra Civil de Espanha Malraux lutou ao lado dos Republicanos contra as forças fascistas. Foi um importante oficial da Força Aérea das Brigadas Internacionais, sendo ferido duas vezes ao tentar travar o assalto de Franco sobre Madrid. A sua observação do conflito espanhol ficaria patenteada no romance "L.Espoir", saído em 1937. No início da Segunda Guerra Mundial prestou serviço numa unidade de tanques do exército francês. Em 1940 voltou a ser ferido e capturado, conseguindo evadir‑se e juntar‑se à resistência, onde veio a conhecer o general Charles de Gaulle.

 

Com a chegada dos aliados assumiu o comando da Brigade Alsace‑Lorraine, liderando a defesa de Estrasburgo e, em 1945, a sua conquista. Os seus serviços valeram‑lhe a Croix de Guerre e a British Distinguished Service Order. Era um herói nacional quando a guerra terminou.

Entre 1945‑46, como Ministro da Informação, foi a voz e um dos principais cérebros do governo provisório de Charles de Gaulle, com uma influência decisiva para o início da descolonização francesa nos territórios do Norte de África.

Em 1948 casou‑se pela segunda vez, ficando viúvo poucos anos depois, morrendo também os dois filhos do casal num desastre de automóvel em 1961.

Quando em 1958 De Gaulle foi reeleito, durante dez anos, André Malraux desempenhou as funções de Ministro da Cultura.

O seu reencontro com a paixão pela arte seria assinalado por livros como "Les Voix du Silence" e "Le Musée Imaginaire de la Sculpture Mondiale".

Expirou no dia 23 de Novembro de 1973, na cidade de Paris. 

 

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ANTÓNIO NOBRE

 

É considerado um dos mais geniais poetas portugueses e chegou ao mundo no dia 18 de Março de 1867, na cidade do Porto. A sua existência foi muito curta, uma vez que, com apenas 33 primaveras, no ano de 1900, e em virtude de uma tuberculose que o atormentou ao longo de vários anos de vida, partiu para a última morada.

A poesia foi a sua grande paixão e nela se retratou e imprimiu sensações, cenas bucólicas, motivos de simplicidade popular, dores, martírios, ideias, novas rimas: um aglomerado de coisas novas que a sua sensibilidade soube burilar. À sua morte deixou-nos como legado dois magníficos volumes em verso: "Só" e "Despedida".

Frequentou as Faculdades de Direito, quer em Coimbra, quer em Paris; a doença, todavia, não o deixou concluir os estudos, atendendo a que a morte o ceifou em plena floração.

Amou apaixonadamente a vida: Queria viver, ser alguém, lutar por um mundo diferente e melhor, deleitar-se nos prazeres que a vida a todos oferece.

            Os seus versos podem considerar-se do melhor que na nossa língua se escreveu e neles transluz o pressentimento melancólico e cruel da morte.

Foi original em quase tudo o que produziu: nas imagens que empregou, na forma, nos pensamentos, nos ritmos novos, e incutiu nos seus versos uma sonoridade desconhecida, um vigor de expressão rara e  imagens perfeitamente originais.

 O que escreveu é de uma singeleza adorável e é apontado como o poeta da saudade e da tristeza. Pelas qualidades referidas mereceu, após a morte, o título de "Messias da Poesia Moderna".

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  AQUILINO RIBEIRO

 

Natural da aldeia de Carregal da Tabosa, na Beira Alta, Aquilino Ribeiro veio ao mundo no dia 13 de Setembro de 1885.

            Um dos maiores escritores contemporâneos - romancista, novelista e contista -, a sua prosa castiça, de linguagem original e pitoresca, vocabulário exuberante e a correcção extrema da expressão - tudo contribui para o êxito crescente da sua vasta e valiosa obra, com cerca de 60 títulos, iniciada em 1913 - "Jardim das tormentas", um livro de contos, a que, entre outros, se seguiram: "Via sinuosa", "O malhadinhas", "Minas de diamantes", "Terras do demo", "Quando os lobos uivam", "Estrada de Santiago", "A batalha sem fim", "Andam faunos pelos bosques", "S. Banaboeno", "Volfrâmio", "Lápides partidas", "Arcanjo negro", "A casa grande de Romarigães", "Arcas encoiradas", "Maria Benigna".

Entre a juventude incendiária e a velhice polémica, procurou sempre a liberdade para si e para as palavras que imprimia. Deste modo, denuncia os atentados contra a dignidade do seu semelhante. Era senhor de uma vontade indomável e um beirão respeitado e assumido. Quando sente necessidade regressa à terra de origem, para desopilar o fígado e o sangue das impurezas do turbilhão metropolitano.

Aos 9 anos ingressou no Colégio da Senhora da Lapa, perfeita prisão, em Soutosa. No decurso dos estudos vive em Lamego, Viseu e Beja, cursando dois anos de Teologia num Seminário. Expulso deste, vai para Lisboa e aos 23 anos é um estudante revolucionário, um jornalista incipiente e um tradutor ocasional. Esteve preso, mas consegue evadir-se, fugindo para Paris, em Maio de 1908. Diplomado pela Sorbonne, casa-se com Grete Tredemann, de quem enviuvou pouco depois, ficando com um filho pequeno.             Regressa a Portugal e recebe em segundas núpcias Jerónima Dantas Machado. Lecciona no Liceu Camões e assume o breve cargo de conservador da Biblioteca Nacional. Em 1958 tornou-se membro efectivo da Academia das Ciências.

A morte surpreendeu-o no dia 27 de Maio de 1963.

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AUGUSTO GIL

 

O distinto e popularíssimo poeta português Augusto César Ferreira Gil nasceu nos arredores do Porto no ano de 1872 e teve o seu último suspiro em 1929.

Estudou na Guarda, cidade onde passou grande parte da sua existência, e onde desempenhou o cargo de Governador Civil, depois de ter a formatura em Direito pela Universidade de Coimbra.

A sua obra é toda maravilhosa e encontra-se editada nos volumes: "Versos", "Luar de Janeiro" (que inclui a célebre Balada da Neve), "O canto da cigarra", "Alba plena" (sobre Nossa Senhora), "O craveiro da janela", "Avena rústica", "Musa cérula" e "Sombra de fumo". Além destes livros de poesia deixou-nos ainda um volume de contos infantis, em prosa, sob o título "gente de palmo e meio".

Os seus versos estão cheios de ternura, de doçura (e às vezes de malícia), de sonoridade e de harmonia.

Pelo seu estilo simples, pela suavidade dos seus versos e pela linguagem singela, os seus livros tornaram-se muito populares, porque penetram no mais íntimo de quem os lê.

 

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AUGUSTO HILÁRIO

 

Em 7 de Janeiro de 1864, na cidade de Viseu, Augusto Hilário viu a luz do dia pela primeira vez.

Na altura própria ingressou na Universidade de Coimbra no Curso de Medicina que, devido ao seu carácter boémio não terminou, já que, quando a morte o visitou, apenas com trinta e dois anos, ainda frequentava o terceiro ano.

Tornou-se popularíssimo em muitos pontos do País, pela fama criada como exímio cantador de fado de Coimbra e pela sua celebrada boémia. Fez-se ouvir em muitas festas de beneficência, várias delas em Lisboa.

Anterior a ele não há nenhum nome com quem se possa referenciar o aparecimento do fado e da canção tradicional coimbrã. Gozou de profunda admiração em todo o País e foi, como já se frisou, o verdadeiro iniciador de uma tradição musical que perdurará viva através dos tempos.

O Museu Académico de Coimbra é fiel depositário da sua última guitarra que, gentilmente, em 1967, ofereceram familiares seus.

A edilidade viseense decidiu dar o seu nome a uma rua, na parte medieval da cidade.

Cem anos após a sua morte, 1996, foi encontrado, na mão de uma particular, um retrato seu, pintado no ano da sua morte pelo grande artista viseense António de Almeida e Silva. Este retrato foi cedido para uma exposição no Museu Grão-Vasco, bem como para serem feitas cópias.

O seu nome simboliza o melhor de uma tradição boémia coimbrã, feita de aventuras, serenatas, tricanas e pouco estudo. A sua belíssima voz, a contagiante alegria e a capacidade de comunicação (já que também foi insigne actor de teatro, tendo percorrido diversas zonas do País) deram ao final do século uma nova dimensão, que está presente em centenas de páginas, muitas delas escritas por grandes nomes da nossa literatura que viveram e estudaram em Coimbra.

Após a sua morte, que ocorreu no dia 3 de Abril de 1896, alguns dos seus amigos resolveram publicar um semanário com o seu nome e o primeiro número saiu em 12 de Junho do mesmo ano. Também o insigne poeta Gomes Leal escreveu uma fantasia mística, tomando como tema uma das suas quadras, que na época muito se popularizou.

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BEETHOVEN

 

     Compositor alemão de ascendência flamenga, Ludwig van Beethoven nasceu em Bona, a 15/16 de Julho de 1770.            Teve como primeiro professor Neefe, que era segundo mestre de capela na sua cidade natal. Já em Viena, Áustria, a partir de 1792, estudou composição com Haydn, que o não compreendeu, e com Schenk, música dramática e de canto com Salieri e contraponto com Albrechtsberger.

            Nunca desempenhou um cargo, vivendo, por vezes, com dificuldades, do produto das suas composições e de mesadas que lhe estabeleciam fidalgos e príncipes, que o tratavam com o respeito devido ao seu génio, embora ele não ocultasse as suas convicções democráticas e grande simpatia pelos princípios da Revolução Francesa.

            É costume designar Beethoven como o maior dos músicos e, na verdade, como grandeza e profundeza de concepção ainda não foi igualado. A flutuação do estilo, nascida da Escola de Mannheim, prosseguida por Haydn e, principalmente, por Mozart, encontra nele a mais alta expressão: o sentimento feito forma, a estrutura a surgir do conteúdo emotivo da obra musical, em vez de imposta por quadros exteriores.

            As suas obras, que se dividem, geralmente, em três períodos (o da imitação, o do aparecimento da personalidade e o da plena maturidade), são: piano ‑ 32 sonatas, 27 bagatelas, variações, minuetes, valsas, diversas danças, fantasias, polacas, "Último pensamento"; a quatro mãos: sonatas, variações, marchas, fugas. Piano e outros instrumentos ‑ 10 sonatas e 12 temas variados para violino e piano, 5 sonatas e variações, trios, 3 quartetos, sonata para trompa, quarteto para sopro e piano, 5 concertos para piano e orquestra, fantasia para piano, orquestra e coros. Instrumentos de corda ‑ trios, 17 quartetos, 3 quintetos. Diversas composições para sopro e outras combinações. Prelúdios para órgão. Orquestra ‑ 9 sinfonias, a "Batalha de Vitória", duas aberturas, "Bailado de Prometeu", música de cena para o "Egmont", "Leonore Prohaska", "Ruínas de Atenas", "Konig Stephan" e numerosas danças. Música vocal ‑ inúmeros cânones, melodias com piano, coros, cantatas, a oratória "Cristo no Monte Olivete", as missas em dó e em ré e a ópera "Fidelio".

            Compôs algumas das suas mais belas obras completamente surdo, pois a surdez, gradualmente, a partir dos 27 anos, martirizou‑o e fê‑lo sofrer física e psicologicamente.      

Na cidade de Viena, a 26 de Março de 1827, desapareceu do número dos vivos.

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BOCAGE

 

De ascendência francesa, por parte da mãe, o setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage veio ao mundo em 15 de Setembro de 1765. Usou o nome lítero-associativo de "Elmano Sadino" (Manuel do Sado).

Ficou órfão de pai e mãe desde muito criança, não conhecendo suficientemente a educação doméstica, pelo que teve uma juventude desregrada. Aos 14 anos é militar e aos 16 elemento discente (aprendiz) da Academia Real da Marinha, cujo curso não seguiu seriamente. Cinco anos mais tarde parte para Goa, com breve permanência no Rio de Janeiro. Entretanto, já lugar-tenente de infantaria, é transferido para Damão. Daqui deserta para Macau; nesta viagem é surpreendido por um grande ciclone, que lha alonga e, nestes transes, ele mesmo se equiparou a Luís de Camões, seu modelo espiritual, que pretende imitar.

            Em 1790 regressa a Portugal, muito nostálgico, instalando-se em Lisboa, onde, de imediato, o visitou a fama, quer como jovem mordaz, quer como poeta lírico. Quando saiu a primeira edição das "Rimas", foi convidado para ingressar na Academia Literária "Nova Arcádia". Pouco tempo depois insurge-se contra os demais árcades e não mais frequenta a Academia. Ei-lo, assim, uma vez mais, no seio da vagabundagem, da rebeldia, do inconformismo; todavia, Bocage nunca foi aquele abjecto, vil, lascivo e repugnante impudente que, injustamente, a fama popular aponta.

Em 1797 é conduzido à penitenciária de Lisboa, por ordem de Pina Manique, sob o pretexto de ter escrito a sátira intitulada "Pavorosa Ilusão da Eternidade", onde negava o carácter eterno das penas do Inferno. Depois esteve na eminência de ser deportado para Angola, valendo-lhe a protecção de um amigo influente. Acusado de subversor político, de ímpio e de libertino, do Limoeiro é transferido para o cárcere do Santo Ofício e inclausurado no Mosteiro de S. Bento da Saúde, a seu pedido. Finalmente, transita para a congregação de S. Filipe de Nery, de onde sai completamente regenerado e espiritualmente equilibrado - salvo em alguns ápices em que a muito custo se retrai a acenos de desespero. Passa a trabalhar honrada e perseverantemente na tradução de clássicos latinos e de autores, principalmente seus contemporâneos, como o poeta clérigo Tiago Delille e

 Saint-Pierre. Deste modo ganhava o sustento para si e para uma irmã.

O grande génio prima sobretudo nos sonetos, embora no seu tempo o apreciassem mais no género da censura, do cinismo e da ridicularização, na verdade engenhoso e cheio de graça - sobretudo nos epigramas. Usou todas as modalidades líricas e a sua produção é superabundante, embora, frequentemente, a qualidade desminta o talento do grande mestre, atendendo a que a maior parte da obra é fruto da necessidade de improvisar, que o ambiente lhe impunha.

            DE qualquer forma possuía as mais generosas faculdades: imaginação, viveza, génio, inspiração, propriedade, vibração, sensibilidade. Os seus versos, por vezes, elevam-se à sublimidade, mas quase sempre o seu poder criador é suplantado por meras exigências ocasionais e a poesia desce mesmo à banalidade, em algumas circunstâncias.

            Partiu do mundo dos vivos no dia 21 de Dezembro de 1805.

 

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BUDA

 

O budismo, que conta com 300 a 400 milhões de adeptos, dos quais 90% vivem numa dúzia de países da Ásia, foi difundido por um sábio da Índia antiga, conhecido pelo nome de Buda. Asceta e pregador a sua vida carece de uma certeza histórica, no que diz respeito à cronologia e a todos os acontecimentos que são referidos. Se exceptuarmos as alusões biográficas dispersas nos "Vinaya" e os "Suttaa-pitaka", a fonte mais recente é o "Buddhacarita", de Asvaghosa (séc. I da era cristã).

Diferentes tradições situam a vida de Buda entre 560 e 480 a.C. Gautama nasceu no bosque Lumbini, nas ladeiras do Himalaia. Seu pai era chefe de Kapilavastu; a mãe perdeu-a quando apenas contava sete dias de existência. Gozou uma infância fácil e protegida. Gautama, entretanto, casou-se e nasceu-lhe um filho. Profundamente comovido pelo espectáculo dos sofrimentos de toda a espécie que o rodeavam, renunciou à sua família, com a idade de 29 anos e entregou-se às mais severas práticas ascetas, das quais, evidentemente, não tirou nenhum proveito espiritual. Num dia de lua-cheia, de "Uesakha", em Maio de 523, sentou-se numa atitude de meditação junto da árvore "bodhi", Uruvela, perto do rio Naranjara, afluente do Ganges. Foi ali que teve uma iluminação e se converteu em Buda. Principiou, então, a pregar o "Dharma"

(lei das coisas). No bosque de Mrigadaya, nos arrabaldes de Benalès, pronunciou o seu primeiro sermão, conhecido como "Discurso sobre o movimento da queda do Dharma".

Progressivamente, formou-se à sua volta uma comunidade (sangha). Durante os próximos vinte anos, a sua pregação teve lugar junto das águas do Ganges, no Nordeste da Índia, onde a comunidade passava os três meses de monção em retiro, deslocando-se, depois, a pregar o resto do ano. A cronologia é mais imprecisa em relação aos anos seguintes. Após a sua cremação, as relíquias repartiram-se entre oito pessoas.

Ensinamento de Buda - Buda ensinou a lei à maior parte dos membros da classe comerciante, não em sânscrito, mas na sua língua local (prackrita). A doutrina que se lhe atribui, transmitida, oralmente, aos seus discípulos, precedida da frase "evam maya

srutam" (assim ouvi), que pode resumir-se no seguinte:

Tudo é impermanente e a realidade é mutável, quer os objectos exteriores, quer a totalidade psíquica e física do indivíduo. Não há nada que no indivíduo seja realidade metafísica; nada indestrutível. Um ser está submetido ao ciclo de nascimentos e mortes até que o efeito da acção se não detenha. A existência está sujeita à infelicidade, que se manifesta no sofrimento, na doença e na morte.

De tudo isto surgem as quatro verdades excelentes:

1. A existência humana é sofrimento;

2. o sofrimento é causado pelo desejo;

3. o sofrimento pode ser superado pela vitória sobre o desejo;

4. esta vitória pode conseguir-se seguindo o caminho das oito etapas: Visão justa; justa resolução; palavra justa, verdadeira e boa; comportamento correcto; trabalho correcto; esforço correcto; memória ou atenção correctas; contemplação, em quatro etapas: isolamento, que se converte em alegria; meditação, que proporciona a paz interior; concentração, que provoca o bem-estar do corpo; contemplação, recompensada pela indiferença, ante a felicidade ou a desgraça.

A existência fundamenta-se na lei da produção condicionada, segundo a qual uma condição é produzida por outra, que, por sua vez, provém de condições anteriores, etc. A condição inicial é a ignorância e a condição final a desdita (a velhice e a morte).

O seu primo Devadatta tentou assassiná-lo oito anos antes da sua morte, que ocorreu em Kusioagara, quando Buda tinha 80 anos.

 

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CAMILO CASTELO BRANCO

 

Talvez o maior romancista português de sempre, Camilo nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1825. Foi registado como filho de pais incógnitos, mas é, de facto, filho de Manuel Botelho e de Jacinta Rosa. A mãe morre-lhe em 1827 e o pai em 1835.

Órfão, vai viver para Vila Real de Trás-os-Montes, para a casa de uma tia. Em 1839 encontrámo-lo a residir com uma irmã, em Vilarinho da Samardã, também Vila Real, onde recebe uma educação religiosa e literária.

Em 1841 Camilo habita em Ribeira de Pena, casando-se com Joaquina Pereira de França, de quem, dois anos mais tarde, nasce uma filha, que apenas vive cinco anos. Um ano antes tinha também morrido Joaquina.

No ano em que nasce a filha, o escritor abandona a família e é admitido à frequência do curso da Escola Médica do Porto, que abandona no ano seguinte. Em 1845 pensa ingressar na Faculdade de Direito, em Coimbra, desistindo, porém, do projecto, para se dedicar à vida literária.

Em 1846 volta para Vila Real e foge com Patrícia Emília, por quem se apaixona e é preso na cadeia da Relação do Porto. Destes amores, em 1848, nasce a filha Patrícia do Carmo.

O escritor vai viver para o Porto, onde levará uma vida de boémio.

Em 1850 passa algum tempo em Lisboa, mas regressa ao Porto e ingressa num seminário, que abandona dois anos depois.

Em 1856 surgem os primeiros sintomas da sua doença - falta de visão. Contudo, continua a escrever intensamente e a colaborar em jornais.

No ano imediato resolve ir viver para S. Jorge de Agra, Viana do Castelo,

voltando, pouco depois, ao Porto.

Em 1858, as suas relações com Ana Plácido causam escândalo. No ano seguinte nasce o primeiro de três filhos desta paixão, sendo o segundo louco. Decidem morar em Lisboa, mas, em 1860, Camilo e Ana Plácido são acusados de adultério, o que os leva à prisão, de novo à cadeia da Relação do Porto. Absolvidos, votam para Lisboa.

Em 1864 a família instala-se, definitivamente, em S. Miguel de Ceide, no concelho de Vila Nova de Famalicão.

Com Ana Plácido, em 1868, Camilo funda a Gazeta Literária do Porto.

No ano seguinte é nomeado sócio correspondente do Instituto Arqueológico de Portugal e em 1871 sócio honorário da Academia Dramática de Coimbra. Um ano depois, recebe a Comenda da Ordem da Rosa, dada por D. Pedro II do Brasil e é nomeado sócio do Instituto Vasco da Gama.

Em 1877 morre-lhe o primeiro filho. Em 1881 ajuda o terceiro filho, Nuno, a raptar a mulher com quem virá a casar-se.

Entretanto, Camilo escreve para sobreviver, mas tem graves preocupações económicas, que o levam a pensar fazer um leilão de parte da sua riquíssima biblioteca.

O título de Visconde de Correia Botelho é-lhe atribuído em 1885.

Em 1888 o escritor casa-se com Ana Plácido, após a morte do marido.

            A sua vida foi aventurosa, dramática, e mesmo trágica ‑ trágica sobretudo nos seus últimos anos: foi impelido ao golpe final pela perda da visão, que o privaria de escrever mais, e por insucessos da sua intimidade, depois de ter legado à posteridade um tesouro de cerca de 280 títulos, o mais vasto legado de todos os dos escritores portugueses.

Acima de tudo novelista, o magistral homem de letras foi também grande polemista (as questões que discute são por ele banhadas de formas burlescas, caricatas e penetrantemente zombeteiras, muitas vezes), foi também eminente, ainda que com mais moderação, como dramaturgo, poeta e historiador ‑ ao longo dos seus romances descreve usos, tradições e tipos da nossa gente, sobretudo do norte, sempre acompanhados dos seus comentários pessoais, parecendo ao leitor estar em conversa e em presença.

            Eis, de uma imensidade, alguns nomes de produções do ilustre escritor:

            "Amor de perdição" (o seu título de glória por excelência, escrito numa quinzena, em meio de grande exaltação febril, quando estava retido na Cadeia da Relação do Porto), "Amor de salvação", "A filha do arcediago", "A enjeitada", "O retrato de Ricardina", "Os brilhantes do brasileiro", "O esqueleto", "O bem e o mal", "A sereia", "Agulha em palheiro", "Novelas do Minho", "A brasileira de Prazins", "Eusébio Macário", "A corja", "Mistérios de Lisboa", "Anátema", "Livro negro do padre Dinis", "Mistérios de Fafe", "O sangue", "Doze casamentos felizes", "Vinte horas de liteira", "Cinco filhas para casar", "O regicida", "A filha do regicida", "Carlota Ângela", "O que fazem mulheres", "A doida do Candal", "Cenas contemporâneas", "A filha do doutor negro", "Onde esqá a felicidade?", "Memórias do cárcere", "A bruxa do Monte Córdova" (povoação do concelho de Santo Tirso, região do rio Ave), "A queda de um anjo", "Luta de gigantes" (um bom romance histórico), "Cavar em ruínas", "Noites de insónias" (pequenos contos, curiosos artigos de crítica, anedotas históricas), "A caveira da mártir". De teatro: "Agostinho de Ceuta", "O morgado de Fafe em Lisboa", "O morgado de Fafe amoroso". De poesia: "Duas épocas da vida", "Ao anoitecer da vida". Traduções: "O génio do Cristianismo", pelo visconde François René de Chateaubriand; "Romance de um rapaz pobre", por Octave Feuillet.

 Além das citadas, muitas mais obras tem o insigne autor, umas de pura imaginação, outras fruto de aturadas pesquisas, outras vividas ou conhecidas muito de perto por ele.

            Nos romances de Camilo, e particularmente nos muitos realistas, é frequentíssimo existir uma atmosfera enervante, quase sempre causada por cenas como actos de violência, lances dolorosos, situações difíceis, procedimentos extremamente baixos...

            O estilo camiliano é irregular, agitado, muito vivo e de expressão justa, ao mesmo tempo que pitoresco e impressionante. A linguagem é simples, interessante e de uma amplitude de recursos ímpar.

Completamente cego, Camilo suicida-se com um tiro de revólver, em S. Miguel de Ceide, no dia 1 de Junho de 1890.

 

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 CARLOS AMARANTE

 

         Carlos Luís Ferreira da Cruz Amarante deu-lhe o berço a vetusta cidade de Braga, onde veio ao mundo a 30 de Outubro de 1748, sendo criado no Paço dos Arcebispos.

Começou por seguir a carreira eclesiástica, interrompendo-a para se casar. Formou-se, entretanto, em Engenharia e Arquitectura, o que lhe possibilitou a concretização de algumas obras notáveis nesses domínios.

Dirigiu a reconstrução do santuário do Bom Jesus do Monte; traçou o "escadório" das Virtudes e da capela do Descimento da Cruz; concebeu o Convento do Pópulo e o Hospital de S. Marcos, em Braga; a ponte sobre o rio, em Amarante; e o templo da S. S. Trindade, a Igreja das Almas (às Taipas), a Academia e a antiga Ponte das Barcas, tudo na cidade do Porto.

Sob a sua direcção repararam- se as fortificações na praça de Valença do Minho.

Projectou, audaciosamente, uma ponte sobre o Douro, dum só arco de pedra apoiado nos rochedos das Fontainhas e na Serra do Pilar, bem como do Arsenal Real do Exército, a edificar no Porto.

Em Lisboa leccionou a cadeira de Desenho, por nomeação da Regência do Reino.

Em Janeiro de 1815, no Porto, teve o seu derradeiro hálito.

 

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CARLOS CARNEIRO

 

 

Filho do mestre António Carneiro, o ilustre pintor Carlos Carneiro nasceu no Porto a 20 de Setembro de 1900.

Foi um dos maiores pintores portugueses, celebrizando‑se as inúmeras e diversificadas aguarelas e óleos que idealizou sobre o Porto. Não se ficou somente pela paisagem, porque são igualmente conhecidos os retratos a carvão, sanguínea ou a óleo, que executou sobre gente famosa e anónima, atendendo a que se relacionava muito bem com os outros.

            Como ilustrador também se tornou muito conhecido, colaborando em livros escolares, revistas e jornais, expondo pela primeira vez em 1919, desenhos, no "Salão dos Humoristas", ao lado de, entre outros, Almada Negreiros, Jorge Barradas e Eduardo Viana.

            Em 1928, no Porto, realizou a sua primeira exposição individual e, três anos mais tarde, uma aguarela sua foi admitida no "Salon de Paris" e elogiada pela crítica. Aliás, Carlos Carneiro acabou por visitar Paris diversas vezes, chegando mesmo a lá viver e trabalhar.

            Era um homem bom e amigo do seu amigo, segundo confirma quem o conheceu.

 Expôs regularmente em diversos locais, como Lisboa, Vigo, Berlim, Londres, Paris, Porto e S. Paulo.

 No dia 11 de Outubro de 1971, na sua cidade natal, que tanto exaltou e de que tanto gostava, morreria devido a problemas cardíacos.

 

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CARLOS GARDEL

 

Filho de um casal de imigrantes franceses, apenas com dois anos viajou para Buenos Aires, capital da Argentina. A data do seu nascimento (11 de Dezembro de 1890) foi escolhida como o Dia Nacional do Tango.

Cantou pela primeira vez um tango em 1917, "Mi noche triste", porque até à data o tango era apenas instrumental. Converte-se a partir daí toda a sua vida artística no estereótipo do homem latino, passando a ser adorado pelas mulheres e imitado e também invejado pelos homens. A sua fama, num repente, atinge profundamente as populações rurais, já que inúmeras vezes fazia as actuações vestido de gaúcho, à moda dos camponeses. Era ainda muito conhecido como "El Zorzal Criollo" (ave canora das "Pampas").

O seu desaparecimento repentino, no auge da carreira, transformou-se  num mito sem precedentes na Argentina.

Em 1935, num acidente de aviação em Medellin, no percurso de uma “tournée” pela América Latina, no dia 24 de Junho, desapareceu fisicamente do número dos vivos. Estava então no pináculo da carreira, pois entre outras coisas acabava de assinar um contrato como actor com a Paramount Pictures.

A mais notável lenda que sobre ele se conta é, sem dúvida, aquela que nega a sua morte no referido acidente de avião. Reza a lenda que "El Norocho" (o dos cabelos pretos) não teria morrido, conseguindo fugir de entre as chamas, ocultando-se nalguma cidade da América Central. Assim teria continuado a cantar, encapuçado, em cabarés de baixa categoria.

Mesmo sendo o mito inquestionável, às vezes criam-se polémicas referentes à sua criatividade, porque não tinha formação musical, mas possuía um dom natural para o canto. O seu método de composição consistia em assobiar ou cantar as melodias, conforme lhe iam surgindo na cabeça, acompanhando-se à guitarra.

A 60 anos da sua morte, não passa um 24 de Junho no cemitério da Chacarita em que o seu túmulo não fique coberto de flores nem um dia em que alguém lhe não coloque um cigarro entre os dedos da mão, na estátua de bronze que lhe perpetua a memória.

 

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CARLOS SEIXAS

 

José António Carlos Seixas foi um dos mais notáveis compositores portugueses, magnífico executante de órgão e de cravo (instrumento que antecedeu o piano) e nasceu em Coimbra a 11 de Junho de 1704. O pai era organista da Sé de Coimbra e deu-lhe uma esmerada educação musical, que ele aproveitou muito bem. Aos 16 anos partiu para Lisboa, a fim de tomar ordens eclesiásticas, mas como já lá tinha chegado a fama de excelente organista foi convidado para exercer esse cargo na Sé Patriarcal.

            Como notável compositor de estilo "Rococo" (designativo da ornamentação em voga no tempo de Luís XV, de França, caracterizada pelo abuso de curvas caprichosas, conchas, troféus, nós, palmas, etc. - quer dizer com muitos enfeites), foi considerado como um dos produtos da estadia em Portugal do grande músico italiano Doménico Scarlatti, que ocupou o lugar de mestre de capela e professor da Casa Real em Lisboa, no reinado de D. João V.

            O seu estilo musical é muito influenciado por Scarlatti, possuindo a sua música uma qualidade e uma elevação que o colocam num plano internacional. A sua obra é quase exclusivamente cravística, legando para a posterioridade, apesar do pouco tempo que  viveu - 38 anos -, mais de 700 tocatas e sonatas; um excelente concerto para cravo e orquestra; uma abertura de forma italiana, para orquestra de arcos, isto é: para violinos, violas, violoncelos, contrabaixos; várias obras de música religiosa, como: 10 missas a 4 e a 8 vozes com orquestra; um Te Deum a 4 coros; vários motetes; etc...

            Há nas Bibliotecas Nacionais da Ajuda e da Universidade de Coimbra livros seus manuscritos de inestimável valor.

Em 25 de Agosto de 1742, na cidade de Lisboa, teve o seu derradeiro hálito.

 

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CAROLINA MICHAELIS

 

Carolina Michaelis Wilhelme (de Vasconcelos pelo casamento com o historiador, arqueólogo e crítico de arte Joaquim de Vasconcelos), filha do professor universitário Gustavo Michaelis, teve o seu berço na cidade de Berlim a 15 de Março de 1851.

        Em 1876, em Berlim, realizou o seu casamento e veio para o Porto, onde passou a viver até ao fim da vida. Embora muito nova, era já uma reputada filóloga, com imensos trabalhos de investigação publicados nas principais revistas internacionais da especialidade. Ao longo de quase meio século prosseguiu uma notável e prodigiosa actividade intelectual, sobretudo dirigida para a literatura e para a história portuguesas.

Dos 7 aos 16 anos estudou numa escola feminina de Berlim. Aluna excepcional, desde 1865 dedicou-se ao estudo das línguas e literaturas clássicas, românicas, eslavas e semíticas. Para além das principais línguas vivas, dominava, de entre outras, o latim, o grego, o árabe, o sânscrito e o hebraico, bem como os antigos dialectos anglo-germânicos e celtas.

Investigadora metódica, paciente e exaustiva, a ela deve a cultura portuguesa uma vastíssima bibliografia, em áreas tão dispersas como a história, a literatura, a linguística, a etnografia e os folclores (especialmente os dos períodos arcaico e quinhentista). Da enorme lista, destacam-se as seguintes obras: "Studien zur Romanischen Vortschoepfung" (1876); "Studien zur Hispanischen Wortsdeutung" (1885); "Portugiesische Sprache" (1891-94); "Fragmentos Etimológicos" (1894) e "Cancioneiro da Ajuda" (1904-21).

        Espírito liberal e tolerante, Carolina Michaelis foi sócia honorária das principais instituições científicas internacionais do seu tempo e professora "honoris causa" das universidades de Friburgo (1893) e de Hamburgo (1922). O seu prestígio científico a nível internacional ficou bem patente na "Miscelânea de Estudos em Louvor de Carolina Michaelis", publicada pela Universidade de Coimbra em 1930, onde colaboraram alguns dos maiores nomes da cultura europeia.

Em 1901, D. Carlos condecorou-a com a comenda da Ordem de Santiago e, após a proclamação da República, foi nomeada professora, "por distinção", da Faculdade de Letras de  Lisboa e mais tarde da Faculdade de Letras de Coimbra, como catedrática de Filologia Germânica.

Morreu em 16 de Novembro de 1925 e está sepultada no Cemitério de Agramonte.

 

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CATARINA DE ARAGÃO

 

Filha mais nova dos Reis Católicos era a que mais se parecia com a mãe, de rara beleza, graciosa e inteligente. Foi uma jovem excelentemente educada, que lia e falava o Latim. Dos cinco irmãos sobreviventes era, sem dúvida, a de melhores prendas intelectuais e morais, mas faltou-lhe a ambição política para ser mais feliz.

Nasceu em Alcalá de Henares, em Dezembro de 1485. Aos cinco anos contemplou a emocionante e vistosa tomada de Granada. Ali ficou a viver com os pais, porque Isabel e Fernando sempre consideraram que a capital da Espanha só podia ser a cidade por eles conquistada para o cristianismo. Chegou, porém, a altura de abandonar os lugares que tanto adorava, a fim de partir para Inglaterra, pois ainda menina tinha sido prometida em casamento ao futuro rei inglês. Ao completar os 15 anos, Catarina embarcou até Plymouth, donde empreendeu um trajecto a cavalo até Londres. Henrique VII, o monarca no poder, ficou mais impressionado com a presença da recém-chegada, do que o noivo, o jovem príncipe herdeiro, Artur. Foram viver para Gales, onde alastrou uma epedemia, a que chamaram febre do suor, que os prostrou na cama, tendo morrido o príncipe e sobrevivido Catarina, que ainda não tinha completado dezasseis anos. Viúva, foi prometida ao novo príncipe de Gales, o robusto e alegre Henrique, que somente contava onze anos. O próprio rei pai, ao enviuvar, pretendeu casar-se com ela, mas os Reis Católicos opuseram-se. O rei morreu em 1509 e o novo herdeiro, futuro Henrique VIII, mostrou desejos de possuir, quanto antes, a princesa espanhola. Catarina tinha 23 anos e Henrique 18.

Nos anos que a deixaram, Catarina foi uma rainha adorada pelo povo e respeitada na corte. Cavalgou à frente das tropas de reserva que derrotaram e deram morte ao rei da Escócia, em 1513. Entretanto, deu à luz uma menina morta; viu morrer, quase recém-nascido, o herdeiro ao trono; e na guerra sofreu um aborto. Tinha muitos precauços na gravidez e, afinal, apenas sobreviveria uma menina, a futura Maria Tudor, rainha de Inglaterra e de Espanha, que morreu sem deixar descendentes.

A sua infecundidade obrigou-a a aceitar os devaneios crescentes do rei, que reconheceu um filho bastardo de Bessie Blum e que acabou por se apaixonar pela irmã mais nova da sua amante, Maria Boleyn, a Ana Bolena Fatídica. A astuta Ana negou os seus favores ao rei, porque ele não era livre. Mais ele se enamorou dela e tentou divorciar-se de Catarina de Aragão. Esta sempre se negou a pactuar com os intentos de Henrique VIII e manteve a sua religião e dignidade até ao fim dos seus dias.

Com o divórcio como obsessão real, Ana Bolena acedeu a juntar-se ao monarca e engravidou. Então, animou o rei a colocar-se à cabeça de uma igreja nacional, que lhe facilitasse o divórcio. Mas precisavam que Catarina consentisse e ela nunca o quis. Obrigaram-na a viver em casas cada vez mais pobres e impróprias, prenderam-na com a sua filha Maria, ameaçaram-na com a justiça por alta traição e com a morte.

Os últimos anos de Catarina foram os do envelhecimento do Parlamento Inglês, a miséria da sua igreja e a imposição do terror às mãos de Cromwell. Por fim, a 7 de Janeiro de 1536, Catarina morreu de dor ou, o que é mais provável, envenenada por Ana Bolena, com a supervisão de Cromwell.

 

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CHARLES DE GAULLE

 

O mais jovem general francês, duas vezes eleito presidente da República e símbolo da Resistência francesa aquando da ocupação da França pelos nazis, Charles André Marie Joseph De Gaulle nasceu em Lille, França, no dia 22 de Novembro de 1890, tendo estudado no colégio dos jesuítas da Imaculada Conceição, em Paris.

Aos 49 anos de idade foi promovido a general e em 1947 fundou o Movimento "Rassemblement Français".

Senhor de uma inteligência e personalidade raras, apenas com 16 anos de idade, escreveu um texto singular, onde imaginava uma invasão dos alemães, antecipando‑se 35 anos à tentação totalitária assumida por Adolfo Hitler.

Em cerca de 20 páginas, De Gaulle, que se imaginava com as estrelas de general, salva a cidade de Nancy, marcha sobre Estrasburgo e aproxima‑se de Metz.

Quando o terror nazi percorre a Europa e o exército hitleriano invade a França, De Gaulle torna‑se o símbolo da Resistência, tendo‑se refugiado em Londres, de onde, através de uma rádio captada em França, incitava os seus conterrâneos, para não se deixarem abater. Tal discurso anima os franceses, que criam uma Resistência que acabaria por sabotar a fixação dos alemães.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, De Gaulle é considerado um herói e símbolo da Resistência.

Nas eleições de 2 de Dezembro de 1958 é eleito presidente da República, façanha que repete sete anos mais tarde.

Quase ao completar os 80 anos de idade, morreu no dia 9 de Novembro de 1970.

 

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CHARLIE CHAPLIN

 

Mundialmente conhecido por Charlot, Charlie Chaplin nasceu no dia 16 de Abril de 1889, em Londres, filho de artistas de uma pobreza extrema. A infância passou-a em quartos de prédios miseráveis, em orfanatos e em asilos. Não conheceu o pai, que abandonou o lar quando ele era muito pequeno, morrendo pouco depois, alcoólico. A mãe era uma actriz de segunda categoria e tinha graves problemas de saúde, o que a obrigava a passar longas temporadas internada em hospitais psiquiátricos. Por isso, aos dez anos, Charlie foi obrigado a deixar a escola, a fim de ir trabalhar como moço de recados. A infância deixou-lhe profundas sequelas no seu carácter.

Aos 5 anos estreou-se no teatro e aos 8 fazia parte de um grupo infantil de sapateadores. Só muito mais tarde regressou aos estudos. Mesmo no casamento teve inúmeros problemas, acabando por casar-se três vezes.

Tinha o aspecto de vagabundo, era um homem baixinho, calças largas, casaco cintado, sapatos excessivamente grandes e velhos, chapéu de coco, bengala flexível na mão, um bigodinho e um andar à pato.

Há quem afirme que o personagem Charlot     simboliza a ambiguidade da condição humana, devido a mostrar-se honesto, verdadeiro, simples, embora com certo cinismo e ambição que, com o seu ar cómico, conseguia comover profundamente. E a verdade é que numa mesma cena lograva fazer rir e chorar.

Trabalhava incessantemente e fazia tudo: escrevia os textos, produzia os filmes, dirigia os actores, compunha as músicas, realizava, montava os filmes e ainda era o actor principal. Graças a ele a indústria cinematográfica tornou-se numa arte.

Em 1910 foi para os Estados Unidos da América e, quatro anos depois, realiza o seu primeiro filme "Charlot e a Sonâmbula ou Charlot e o Guarda-chuva". Em 1915 criou o vagabundo Charlot. No ano seguinte tornou-se no actor mais bem pago do mundo.

Produziu inúmeros filmes mudos.

No filme "Luzes da Ribalta" (1952) conta a vida de um palhaço que já não conseguia fazer rir o público, mas que conseguiu salvar           uma bailarina do suicídio e levá-la ao sucesso. Trata-se de uma película comovente, com música muito bonita, em que Charlie Chaplin valoriza um homem que parecia não ter nada mais a fazer na vida. Nesse mesmo ano, convencido de que tinha perdido o afecto do público americano, não sentiu coragem para regressar à América e instalou-se com a família na Suíça.

Em 1972 a Academia de Hollywood galardoou-o com um Óscar especial, que lhe foi entregue entre as mais calorosas ovações.

Na Suíça teve o seu derradeiro suspiro, no Natal de 1977. 

   

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CHIQUINHA GONZAGA

 

Francisca Edwiges Gonzaga - conhecida no mundo da música por Chiquinha Gonzaga - nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1847. A mãe era uma mulata solteira, que engravidou de um militar de alta patente, que mais tarde ascenderia a chefe de gabinete de um ministro. Era, portanto, filha bastarda, todavia, a família do pai tomou conta dela e educou-a esmeradamente, tendo aprendido línguas e piano. Aos 13 anos o pai decidiu casá-la com um oficial da marinha mercante e também armador, que tinha o dobro da sua idade, por julgar que era um excelente partido para a filha. O marido obrigava-a a viajar com ele e não permitia que se relacionasse com ninguém, sobretudo com o sexo masculino e dele gerou cinco filhos. O marido não gostava de música e detestava o piano, que ela tocava primorosamente e acabou mesmo por vendê--lo. As discussões eram frequentes e cada vez mais incontornáveis, o que a levou a abandoná-lo, levando consigo os filhos e fixado residência na sua cidade natal.

Apaixona-se por um engenheiro e com ele parte para desertos, onde este dirigia a construção de estradas. Também tal degredo a exaspera e decide abandoná-lo, juntando-se a um flautista, com um enorme ardor, que foi sol de pouca dura.

Sensual e atrevida entregou-se a inúmeras paixões, sem se ralar com os comentários da sociedade e esquecendo o seu grande valor artístico.

Por fim, já com 52 anos, junta-se com um adolescente de dezasseis anos, com quem vive até à morte.

Ainda criança, vezes sem conta, na casa da família do pai, culta e abastada, refugiava-se nos aposentos dos serviçais e deleitava-se com as músicas e danças africanas, fazendo-lhe ferver o sangue das origens, que lhe corria nas veias. Ela é considerada a primeira compositora de música popular para o Carnaval do Brasil.

Por isso, ao longo de gerações, era a compositora com mais sucessos musicais no famoso Carnaval brasileiro.

Em 1899 escreveu uma música que alcançou um êxito retumbante, "Ô, Abre Alas".

Muito cedo iniciou a sua longa carreira como compositora, já que aos 11 anos escreveu "Canção dos pastores".

De início era a música clássica que ela cultivava, mas, ao sentir-se desamparada e com os filhos para criar, dedica-se à música popular, quer compondo, quer tocando, quer mesmo ensinando e dá explicações de todas as disciplinas que lhe foram ministradas.

Em 1877 publica a 1ª polca, intitulada "Atraente".

O teatro musicado estava na moda e Chiquinha Gonzaga descobriu esse palco e tornou-se uma insigne actriz com as imensas composições que lhe brotavam em catadupa, naturalmente. Praticamente compunha todos os géneros de música: tangos, lundus, polcas, maxixes, fados, valsas, barcarolas, mazurcas, gavotas, quadrilhas, choros, serenatas, habaneras...  

Não se notabilizou apenas como compositora. Foi a primeira maestrina a dirigir uma orquestra e chegou a dirigir a banda da Polícia Militar. Ainda, como mulher de forte sentido cívico e nacionalista apoiou os movimentos abolicionistas e pró-republicanos.

Toda a sua vida está cheia de romances, aventura e desventura, muita criatividade, alguns escândalos pelo seu comportamento social e, acima de tudo, muitíssima música. Musicou diversos libretos para peças portuguesas, de entre as quais, "As Três Graças" e "A Bota do Diabo". Em 1911 compõe a peça "Lua Branca", seguida, em 1915, de "Sertaneja". O seu maior sucesso foi a opereta "Forrobodó", em 1912, que atingiu as 1500 representações.

Aos 87 anos escreveu a partitura "Maria", para a peça de Viriato Correia.

A morte levou Chiquinha Gonzaga no dia 28 de Fevereiro de 1935.

 

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D. DIOGO DE SOUSA

 

Nasceu em Figueiró dos Vinhos em 1460 e foi prelado notável, bispo do Porto e arcebispo de Braga. Os seus estudos preparatórios tiveram lugar em Évora e frequentou as Universidades de Salamanca e de Paris, onde se doutorou. Quando voltou a Portugal foi nomeado deão da Capela Real. Foi enviado a Roma para prestar homenagem ao papa Júlio II e tratar de outros assuntos do Estado. Pelas bulas Orthdoxoe Fidei e Militans Eclesia, de 12 de Junho de 1505, respectivamente, concede o papa a D. Manuel I por dois anos a Cruzada para a guerra contra os infiéis do Norte de África e aprova os novos estatutos da Ordem de Cristo... Regressou a Portugal em Outubro desse ano e em Novembro entrou no arcebispado bracarense, já que por letras apostólicas de Julho D. Manuel havia obtido do pontífice a sua confirmação como titular da arquidiocese.

Com esta nomeação iria começar o período mais importante da sua vida, com uma série de altas e vultuosas realizações em Braga, tantas e de tal relevo, que o consideram um segundo fundador desta cidade. Escreve  J. Ferreira «...Veio de Roma, onde encontrara a Renascença no mais elevado apogeu de seu desenvolvimento, trouxe para Braga os fulgores desse movimento artístico e literário, e empreendeu mudar a face da velha cidade: e foi ainda mais longe, porque, não podendo quebrar as muralhas de pedra que a cintavam  e apertavam, constituiu em volta dela uma cidade nova, mais ampla, mais iluminada e mais arejada».

Logo que chegou a Braga reuniu o sínodo nos paços arquiepiscopais, deliberando-se nele conceder o clero ao arcebispo, para remissão das dívidas em que se encontrava a sé catedral, principiando por pagar dívidas avultadas.


 

Os seus bens pessoais, que eram numerosos, foram colocados ao serviço da igreja para a realização das obras notáveis que se propôs levar a cabo. Destacam-se a abertura  de várias novas ruas; a construção de fontes públicas; a edificação dos Paços do Concelho; o levantamento da ermida de Santa Ana; a reconstrução da igreja de Nossa Senhora-a-Branca; a reedificação da Capela de Santa Marta do Monte; a compra de  prédios rústicos, para converter em rocios públicos; a fundação de “alfândegas” ou hospícios para alojamento dos almocreves ou negociantes que abasteciam de fora, a cidade, onde não havia ao tempo estalagens ou albergues; a iniciação das obras do Hospital de S. Marcos, de que se encarregou até ao final, dotando-a de estatutos e de bens suficientes para se manter; procedeu aos trabalhos da instituição da Misericórdia, anteriormente a 1514, instalando-a na capela do claustro da Sé, que hoje tem o seu nome e que data de 1513; em 1509 mandou levantar a capela-mor da Sé por artistas biscainhos, adornando-a de um valioso retábulo de pedra de Ançã, toda da mesma cor e retocada de ouro que, apesar da preciosidade escultural, foi demolido em 1780.

Os reis D. Manuel I e D. João III tinham-no em grande estima, o que não evitou ter de lutar com eles na grave questão sobre jurisdição da cidade de Braga e seus coutos, de que a Sé primacial era senhora havia largos séculos. Com o primeiro daqueles monarcas resolveu a contenda a seu favor em fins de 1519, mas já no fim dos seus dias teve sérios desgostos com D. João III, que prejudicou gravemente os habitantes bracarenses. Vitimado por ataque apopléctico faleceu em 19 de Junho de 1532, na cidade por que tanto trabalhou, lutou e rejuvenesceu, sendo sepultado num sarcófago de pedra de Ançã, com estátua jacente, na sua capela.

 

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D. PEDRO V

 

Neto de D. Pedro IV, o rei-soldado, e filho de D. Maria II e de seu marido, o rei D. Fernando II, o futuro rei D. Pedro V, cognominado o "Esperançoso", chegou ao mundo no dia 16 de Setembro de 1837, para um curto reinado, já que não atingiu os 7 anos.

Sob a regência do pai, quando contava apenas 16 anos, subiu ao trono e, dois anos mais tarde, no dia em que completava 18 anos - isto é, a maioridade -, foi proclamado rei. Aos 20 anos casa com a jovem princesa Estefânia Frederica, da casa Hohenzollern-Sigmerigen que, infelizmente, morreu passado pouco mais de um ano de noivado. A cidade do Porto honrou a memória da amada rainha, dando o seu nome a uma das suas artérias (Rua Rainha D. Estefânia, localizada muito próxima de uma outra que lembra o esposo).

Tinha um coração que transbordava de humanidade e lembrava sempre os desprotegidos. Por essa razão, com grande frequência, visitava hospitais, asilos, irmandades, prisões (é de recordar o encontro que teve com Camilo Castelo Branco, ao visitá-lo na Cadeia da Relação do Porto, onde o ilustre escritor se encontrava preso, devido à ilícita ligação que mantinha com Ana Plácido). Os trabalhadores eram, também, constantemente referenciados pelo monarca, que lhes dedicava um carinho muito especial. Aliás, uma das formas que tiveram para mostrar ao rei a sua gratidão, foi quotizar-se e trabalhar, com enorme ânimo e prazer, na construção de magnífico monumento, que a cidade do Porto lhe erigiu, logo após a sua morte.

Um seu biógrafo escreveu que "coube a este jovem rei o exemplo e a força moral de uma revolução nos costumes da Corte e do País".

Durante o curto reinado de D. Pedro V ocorreram algumas mudanças significativas, sempre no sentido de favorecer os humildes. Aboliu os castigos corporais e a escravatura, dispensou o beija-mão ao rei e demonstrou independência diante de todos os súbditos, participando, activamente, nas actividades públicas. Contribuiu para que o termo “liberal” se aplicasse a todas as esferas da estrutura política e social do País. Pode mesmo afirmar-se que foi o primeiro rei moderno que apareceu nas ruas, a fim de contactar com a vida do seu povo e para atender aqueles que nunca tinham voz. Sempre mostrou um carinho imenso pelos trabalhadores e, por certo, foi uma das razões que contribuiu para a enorme afeição que estes lhe dedicaram, quer ao longo da vida, quer na morte prematura, que o ceifou apenas com 24 anos de idade.

Viajou por diversas zonas de Portugal e procedeu a numerosas inaugurações, de que se destacam, entre outras, o caminho de ferro, o telégrafo e o sistema métrico.

A causa da sua morte dramática e com pouca idade, foi a febre tifóide, que aliás também vitimou os seus irmãos D. Fernando e D. João. O desaparecimento do número dos vivos ocorreu no dia 11 de Novembro de 1861.

 

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Diego Velázquez

 

Diego Rodríguez de Silva Velázquez veio ao mundo na cidade de Sevilha no ano de 1599, completando-se, portanto, há pouco, o quarto centenário do seu nascimento. A sua vida e obra são, uma vez mais, objecto de revisão. A sua arte, redescoberta nos tempos modernos, continua a suscitar tantas interrogações como fascinação. Para situar-se no centro do universo artístico moderno, Velázquez pintou cerca de cem quadros, alguns extraordinárias obras de grande valor. O seu naturalismo barroco permitiu-lhe captar, como ninguém, o que via. Era dotado de uma portentosa capacidade para traçar as pinceladas exactas, com as quantidades de pigmentos justas, a fim de produzir o efeito pretendido. Assim, atingiu um conjunto de conquistas que não encontraria eco até ao século Xix. Após a sua morte, nenhum colaborador ou pintor conseguiram aprofundar as suas técnicas ou propostas.

Altivo, distante, fleumático, inteligente em supremo grau, o retratista de Filipe IV e família real, o perfilador da arte oficial da monarquia do século XVII, o conhecedor insaciável da história da arte, o homem que alcançou as honras de cavaleiro da Ordem de Santiago pela sua fidelidade à Coroa, sentiu o grande prazer de possuir um talento sem igual na sua época. Embora isso lhe abrisse as portas da corte, também lhe dificultou o acesso à nobreza - única aspiração que não pôde concretizar -, porque era considerado como um trabalhador manual. Só Rubens enteneu bem o pintor sevilhano, que atingiu o cume da arte espanhola aos 25 anos, para mais não a abandonar até à sua morte.

Seus pais aparecem em Sevilha nos finais do século XVI, envoltos em mistério e lenda. Em 1610 entra para o atelier de Francisco Pacheco, familiar do Santo Ofício e censor de pinturas sagradas. Ali permaneceu por muitos anos, obtendo, em 1617, o diploma de pintor para exercer e, no ano seguinte, desposa Joana, filha de Francisco Pacheco.

Em 1623 é chamado a Madrid para pintar o monarca Filipe IV, pois já eram famosas, entre outras, as obras "Vieja friendo huevos", "Adoración de los Reyes", "El Aguador", assim como o retrato de Góngora, que tinha pintado um ano antes, aquando de uma visita a Madrid às colecções reais.

Quando Rubens chega à corte madrilena para negociar acordos clandestinos entre Espanha, Inglaterra e Holanda e pintar com a sumptuosidade de um artista barroco num espectáculo público, o único pintor espanhol que desejou conhecer foi Velázquez. Conviveram imenso, foram bons amigos e chegaram a viajar juntos ao Escorial. Rubens persuade-o mesmo a viajar até a Itália, onde pinta "La fragua de Vulcano" e onde voltará 20 anos mais tarde, para retratar o papa Inocêncio X.

Em 1627 ganha o concurso de pintores reais com o tema da expulsão mourisca.

Dois anos depois aparece o famoso quadro "Borrachos". Mais dois anos e pinta "Cristo" para o convento de S. Plácido. Surge em 1635 "La rendición de Breda". Sete anos mais tarde acompanha Filipe IV no cerco de Barcelona. Em 1656 dá a público "Las meninas".

Destacam-se, ainda, mais as seguintes obras: "Las hilanderas", "Mercurio e Argos", retrato equestre de "Baltasar Carlos", "La Venus del espejo", "La dama del abanico", "La infanta María Teresa", "Figura de mujer", "El triunfo de Baco", "La fábula de Aracne", "Retrato de joven caballero".

Faleceu no dia 6 de Agosto de 1660, quando regressava a Madrid, desde Fuenterrabía, onde dispôs o sumptuoso cenário para a entrga da infanta Maria Teresa de Áustria a Luís XIV, Rei Cristianíssimo de França.

 

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SHOSTAKOvICH

 

Dmitri Dmitrievich Shostakovich teve o seu berço em S. Petersburgo, Rússia, a 25 de Setembro de 1906, imperava o czar Nicolau II.

Manteve-se na Pátria durante a revolução e ao longo da vida, comentando que o Ocidente permanecia como um mundo desconhecido e quase hostil. Ao contrário, outros grandes compositores russos do século XX, como Rachmaninov - que jamais regressaria à Patria -, Stravinsky - que apenas o faria no fim da vida e como turista - e Prokofiev - que, tendo ido para os Estados Unidos em 1918, regressou para conhecer o último período do stalinismo.

Filho de uma professora de piano e de um engenheiro, iniciou as aulas com a mãe, cerca dos 9 anos, sem que a arte musical lhe despertasse grande interesse. Contudo, depressa demonstrou ter um ouvido perfeito, uma extraordinária memória e enorme facilidade para ler as notas e dominar a técnica.

Em 1919, quando estala a guerra civil, ingressa no Conservatório de Leningrado. Três anos depois o pai morre e ele tem de trabalhar para sobreviver, acompanhando, como pianista, películas mudas nos cinemas de Liningrado.

Em 1 de Maio de 1926 estreia-se a sua primeira sinfonia, na Grande Sala da Filarmónica e pela Filarmónica de Liningrado, que se torna num triunfo para o compositor.

A música de Shostakovich deste período inscrevia-se na corrente renovadora e experimental do seu tempo. As novidades formais unem-se aos temas revolucionários e à sátira da burocracia. Não era um futurista nem estava filiado no Partido Comunista (muito embora se viesse a filiar mais tarde),  mas dedicou a segunda sinfonia (1927) ao décimo aniversário da Revolução de Outubro e a terceira (1930) ao Primeiro de Maio e escrevia a sua primeira ópera "O nariz".

            Em 1934, a aparição da sua segunda ópera, "Lady Macbeth do distrito de Mtsensk", confirmava o seu génio teatral. Durante dois anos a obra triunfou nos palcos de Moscovo e Leningrado, até que, de uma forma tão inevitável quanto inesperada, o compositor caiu em desgraça.

            Em 1937, Shostakovich apresenta a sua quinta sinfonia, depois de ter retirado a partitura da quarta, ante os comentários desfavoráveis que suscitou entre as autoridades assistentes ao ensaio para a sua estreia. A quinta sinfonia define-se como "a resposta creativa de um artista soviético a uma crítica justa".

Obteve muitos êxitos com as suas sinfonias de guerra, particularmente, a sétima, baptizada "Leningrado", que veio a público em 1942 e logo proclamada como um símbolo da luta do povo russo contra o invasor alemão.

Era total a clandestinidade de Shostakovich. Escondidas tinha as obras mais pessoais, como o "Concerto para violino nº 1", as "Canções da lírica judaica", o "Quarteto nº 4", pagando, entretanto, o seu tributo ao regime, com composições laudatórias, como o "Canto dos bosques" ou "O sol brilha sobre a nossa Pátria".

Compôs música bastante diversificada, mas onde foi grande, foi na sinfonia, deixando-nos quinze.

A 9 de Agosto de 1975, na cidade de Moscovo, exalou o seu derradeiro suspiro.


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DUKE ELLINGTON

 

Duke Ellington nasceu no dia 29 de Abril de 1899, em Washington, um dos músicos mais completos neste século.

Era um concertista por excelência, um maestro invejável, um pianista fabuloso, um compositor de reconhecido mérito, autor de uma obra torrencial em quantidade (cerca de três mil peças escritas) e de uma qualidade excepcional.

A música de jazz foi a sua bandeira ao longo da vida e lhe dedicou o seu melhor, dividindo-se, de qualquer forma, por outros géneros, tendo mostrado o seu fino gosto na escolha, arranjos e direcção de obras dos grandes clássicos, como Mozart, Schubert, Bach, Brahms, Elgar, etc. A verdade é que foi vendo passar o bebop, o free, o jazz-rock e outras tendências, mas sempre certo de que nenhuma inovação iria deixá-lo antiquado, não mudando, formalmente, o seu estilo.

            Apresentava sempre umas tremendas olheiras, fruto de longas vigílias voluntárias. Certamente a sua imaginação apenas lhe permitia dormir o necessário, como quem teme que o sonho lhe venha retirar alguma das preciosas ideias. Compunha a qualquer hora           e em qualquer circunstância.

            Há quem veja na música de Ellington a complexa crónica social dos Estados Unidos. Nesse particular, teve a delicadeza de realçar as virtudes e dissimular os defeitos dos seus compatriotas.

Ressaltamos aqui as suas obras mais importantes, quer composições da sua autoria, quer estupendas gravações que dirigiu, com trechos seus ou de outros autores: "The Blanton -Webster Band", "Black, Brwon and Beige", "The Duke.s Men" (quatro álbuns protagonizados por pequenos grupos com a colaboração dos mais ilustres solistas da orquestra), "Ellington at Newport" (1956), "Such Sweet Thunder" (1956-57), "Back to Back", "Side by Side", "The Far East Suite", "And this Mother Called him Bill", "New Orleans Suite", "The Afro-Eurasian Eclipse", "The Cosmic Scene" (1958), "Unknown Session" (1960), "The Clothed Woman", "Piano Reflections", "Piano in the Foreaground", "The Pianist".

            Na opinião de Federico González "em qualquer das suas facetas, pianista, compositor ou guia conceptual - artista soberano, em resumo -, Ellington foi uma inesperada e generosa oferta caída do jazz, uma trégua na mediocridade da norma que deu razões para sonhar uma música melhor".

No dia 24 de Maio de 1974, em Nova York, Duke Ellington teve o seu derradeiro suspiro.

 

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DULCE LOYNAS

 

A última aparição em público de Dulce Maria Loynas teve lugar no dia 15 de Abril de 1996, quando se celebrava uma festa no jardim da sua casa, em Havana, Cuba, organizada pelo Centro Cultural da Embaixada de Espanha, para a homenagear e recordar o 45º aniversário da publicação da novela "Jardim". A sua presença durou apenas escassos minutos, devido à tão debilitada saúde que, pouco depois, aos 94 anos de idade e de intensa actividade a levou deste mundo.

Nasceu na capital de Cuba, Havana, em 10 de Dezembro de 1902. De ascendência basca, o pai era comandante do exército libertador e, pela sua destacada actuação, após a guerra da independência, ascendeu a general. Foi criada num ambiente artístico, pois o pai compunha música, a mãe pintava, cantava e tocava maravilhosamente piano e os três irmãos escreviam poesia. Na adolescência formou uma orquestra com os irmãos e com os primos. Foi esta uma das razões porque Alejo Carpentier se inspirou nos dotes da sua família, para escrever "O Século das Luzes". Em 1927 doutorou-se em Direito Civil, pela Universidade de Havana, com uma óptima classificação. Exerceu algum tempo, mas sempre a tratar de assuntos familiares. A carreira de advogada não a seduzia, ao invés das viagens. Conheceu a Líbia, a Turquia, a Palestina, o Egipto e, em certo momento, decidiu casar com o seu primo Enrique.

A personalidade de Frederico Garcia Lorca impressionou-a vivamente, sobretudo a partir do seu encontro em Havana, quando ele se tinha tornado um verdadeiro amigo dos seus irmãos, a quem aliás, dedicou obras suas. A sua casa em El Dorado, no coração da capital, converteu-se no centro cultural dos artistas da época e era visita obrigatória dos intelectuais e grandes personalidades que visitavam Cuba.

Em 1947 recebeu o símbolo da Ordem Carlos Manuel de Céspedes e, quatro anos mais tarde, ingressou na Academia Nacional de Artes e Letras, com um discurso intitulado "Poetisas da América".

Desde muito jovem sentiu grande vocação para a literatura, mas, principalmente, para a poesia. Aos dezassete anos escreveu os primeiros versos, que constituíam poemas de uma vida entregue por inteiro à criação poética. Não pertenceu, todavia, a nenhum grupo literário. Mestra do poema em prosa, a sua obra é a recriação da pureza dos jardins, dos arvoredos, das fontes e jogos de água, onde são visíveis as influências de Juan Ramon Jimènez e Rabindranath Tagore.

Em 1959 foi eleita presidente da Academia Cubana de Língua e em 1983 agraciada com a medalha Alejo Carpentier. Atribuíram-lhe o título de “honoris causa” pela Universidade de Havana, e também, em 1988, o prémio Nacional de Literatura. Como articulista é de destacar a sua colaboração no ABC. Em 1991 foi galardoada com o prémio Isabel Católica de Periodismo. E ainda, em 1992, consensualmente, o júri lhe atribui o prémio Cervantes.

Obras mais importantes: Poesia – "Canto à mulher estéril", 1938; "Versos", 1938; "Jogos de água", 1946; "Poemas sem nome", 1953; "Cartas de amor a Tut-Ank-Amen", 1953; "Obra Lírica", 1965; "Últimos dias de uma casa", 1958; "Poesias escolhidas", 1985; "A noiva de Lázaro", 1991; "Poemas náufragos", 1992; "Novela-jardim", 1951. Viagens – "Um Verão em Tenerife", 1958.

 

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EÇA DE QUEIRÓS

 

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa do Varzim (Douro Litoral), a 25 de Novembro de 1845. Filho natural de um magistrado e de uma senhora de boa reputação, que apenas casam 4 anos após o seu nascimento, é educado nos avós paternos. Vai para Vila do Conde e, mais tarde, para um vilarejo de Aveiro. Aos 10 anos de idade, residindo no Porto, matricula-se no Colégio da Lapa, onde tem Ramalho Ortigão como professor e grande estimulador na arte de escrever. Aí completa os estudos secundários, ingressando, em 1861, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Em 1866 está licenciado e inicia uma breve carreira como advogado, em Lisboa. No final desse ano encontramo-lo em Évora, dirigindo o bi-semanário político "Distrito de Évora". Em meados de 1867 regressa a Lisboa e colabora na fundação do "Cenáculo", tertúlia literária, ao lado de, entre outros, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis, Ramalho Ortigão e Simão Saragga. Dois anos mais tarde, por altura da inauguração do Canal de Suez, viaja pelo Egipto, com o conde de Resende, que viria a tornar-se seu cunhado. No "Diário de Notícias" publica o relato dessa viagem, bem como o folhetim "O mistério da estrada de Sintra". Baseado na sua passagem por Leiria, como administrador do concelho, escreve "O crime do padre Amaro", em que toma posição contra o celibato dos padres, classificando-o de anti-natural. Em 1872 inicia uma carreira consular, que o leva a Havana, Cuba, Newcastle e Bristol, na Grã-Bretanha e Paris.

Eça de Queirós é autor de uma vastíssima colaboração, dividida por jornais e revistas, de carácter político e crítico.

Os textos que escreveu com Ramalho Ortigão, em "As farpas", ficaram célebres, tendo reunido a sua parte sob o título "Uma campanha alegre", (1890-1891).

Na "Gazeta de Portugal", em 1866, publica os seus primeiros textos de carácter literário, com uma inspiração ainda romântica e em que se vislumbra certa influência de Victor Hugo. Postumamente, em 1903, estes textos foram reunidos num volume intitulado "Prosas bárbaras".   

Os seus romances seguem a estética do realismo-naturalismo. Os escritos são o retrato da sociedade portuguesa, em variadas nuances. O tema do adultério surge-nos em "O primo Basílio", (1878); sobre a crença beata na religião, (1887), escreve "A Relíquia"; n'"Os Maias", (1888), a sua obra-prima, relata um caso de incesto numa família aristocrática de Lisboa.

Muitas das suas obras foram editadas depois da sua morte, como: "A ilustre casa de Ramires", (1900), "A cidade e as serras", que ele redigiu a partir do magnífico conto "Civilização", (1901), em que a sua visão do mundo se apresenta mais amena. Ficaram também obras inacabadas, como "A capital", saída em 1925; "A tragédia da rua das Flores", vinda a público em 1980.

A sua obra inclui ainda, entre outros títulos: "Cartas de Inglaterra", "Cartas de Paris", "A correspondência de Fradique Mendes", "Últimas páginas", "Notas contemporâneas", "Contos", "Lendas de santos", "O mandarim", "As minas de Salomão" (tradução), "O Egipto", "O conde de Abranhos", "Alves & companhia", "Crónicas de Londres", etc.

Eça de Queirós foi discípulo e sectário do grande romancista gaulês Gustavo Flaubert, um dos pioneiros do realismo, circunstância que muito pesou nos géneros escolhidos pelo exímio observador, que tão bem soube conduzir os seus rasgos de delicada ironia e de humorismo.

Em 1886 casa-se e em 1888 instala-se em Paris, como cônsul de Portugal. No mesmo ano integra o grupo dos "vencidos da vida", e, sob a sua direcção, em 1889, sai o primeiro número da "Revista de Portugal".

Após uma doença, de origem intestinal, diagnosticada como tuberculose, mas que também poderia ter origem tropical (amebíase), que o levou a internamentos em sanatórios, teve o seu derradeiro hálito, em Neully, Paris, no dia 16 de Agosto de 1900.

 

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EGAS MONIZ

  

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz faleceu em Lisboa a 13 de Dezembro de 1955, seis anos

 após ter sido laureado com o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia.

É natural de Avanca, Aveiro, onde nasceu a 29 de Setembro de 1874.

 Pela Faculdade de Medicina de Coimbra doutorou-se em 1899, entrando em 1902 para o quadro docente da mesma como professor substituto. Em 1911 transferiu-se como professor catedrático para a Faculdade de Lisboa, onde regeu a recém-criada cadeira de Neurologia.

Pelos seus notáveis trabalhos sobre angiografia cerebral, tornou-se um

 clínico de renome mundial, pois abriu novos horizontes no domínio da neurologia e cirurgia nos centros nervosos. No hospital de Santa Marta criou uma verdadeira escola de neurologia e neuro-cirurgia.

Foi deputado em várias legislaturas, ministro de Portugal em Madrid, ministro dos negócios Estrangeiros – e nesta qualidade presidiu à primeira delegação portuguesa à conferência de Paz, em Paris (1918).

Foi agraciado com dezenas de títulos honoríficos e das mais de 300

 espécies bibliográficas da sua autoria ou com a sua colaboração destacam-se: "Alterações anatomopatológicas na diferia", "A vida sexual", "Curso de neurolo-

gia", "A neurologia na guerra", "Clínica neurológica", "O Padre Faria na

 história do hipnotismo", "Conferência da arte", "Um ano de política", "Papa João XXI", "Do valor e da saudade", "Júlio Dinis e a sua obra", "Ao lado da Medicina",

 "Sobre a história das cartas de jogar".

 

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ERNEST HEMINGWAY

 

Ernest Hemingway era um dos seis filhos de uma família de um médico de Oak Park, Ellinois, Estados Unidos, e veio ao mundo no dia 21 de Julho de 1899. Os pais pretendiam que ele seguisse a carreira médica, todavia, ao terminar os estudos secundários, ainda muito jovem, começou a escrever para o jornal "Star".

Quando deflagrou a I Guerra Mundial, quis alistar-se na Marinha norte-americana. Depois de rejeitado diversas vezes, aceitaram-no como motorista de ambulância da Cruz Vermelha, em Itália, onde foi ferido.

Terminada a guerra resolveu fixar-se no Canadá, na cidade de Toronto. Lá prossegue a sua carreira de repórter. Na mesma qualidade, em 1921, foi trabalhar para Paris.

É na Europa que escreve as suas primeiras obras: em 1923, "Tree short stories and ten poems"; em 1924, "In our time"; em 1926, "The torrents of Spring".

Todavia, a obra que o celebrizou e lançou no mundo da fama foi, por essa época, "O sol também se levanta".

Em 1927 publica "Men: Without Womens". Em 1928 viajou para a Florida, onde permaneceu dez anos. Ali escreveu, em 1929, "Adeus às armas", romance inspirado na sua experiência na I Guerra Mundial.

Em 1932 saiu "Death in the afternoon", obra onde expressou a sua grande paixão pelas touradas, o que aliás sucedeu em numerosos outros escritos seus.

Efectuou muitas viagens pelo continente africano e lá recolheu vivências, que inseriu nas obras: "The green hills of Africa", 1935; "The snows of Kilimanjaro" e "The short happy life of Francis Macomber", 1938.

Com o início da Guerra Civil espanhola, em 1936, Ernest Hemingway viajou para Espanha. A primeira ideia era juntar argumentos para um filme, "The Spanish Earth", acabando por se envolver no sangrento conflito, a combater ao lado dos republicanos. Destas vivências concebeu a peça "The fifth column", 1938 e o seu mais longo e mediático romance "Por quem os sinos dobram", 1940.

Acabada a Guerra Civil em Espanha vai residir em Cuba, onde viveu até 1959. Em 1952 escreveu "O velho e o mar", sendo-lhe atribuído o Prémio Pulitzer e chama as atenções da Academia Sueca que, em 1954, lhe concede o Prémio Nobel da Literatura.

A escrita de Ernest Hemingway está cheia de vivacidade, de sangue e também de muito amor. Simples, sem retórica, directo, fixou quer as emoções visíveis, quer as mais recônditas. Acima de tudo, porém, revelou o humanismo dos anónimos e do povo com que ele se identificava.

A partir de 1951 a doença ia-o minando e enfraquecendo de ano para ano. Fiel à frase impressa no seu livro "O Velho e o Mar": "Um homem pode ser destruído; nunca derrotado", em 1961 suicida-se com um tiro na cabeça.

 

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FERNANDO PESSOA

 

Nasceu em Lisboa  a 13 de Junho de 1888 e ocultou-se a maior parte dos 47 anos de vida sob as identidades de Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Para cada um destes heterónimos forjou uma identidade: médico, poeta, engenheiro naval e guarda-livros, respectivamente.

Considerado um dos maiores escritores portugueses, poeta intelectualista, de arte profunda e humana, dedicou-se a fecundas experiências poéticas, tendo sido o mais imitado dos poetas modernos. A toda a sua obra investiu o seu talento, que permeou as cerca de 300 poesias e de 132 textos em prosa publicados em jornais e revistas da época. Com o seu próprio nome apenas lançou um livro, "Mensagem", em 1934, poesias em que faz a subtil apreensão de um mundo inconsciente e a um da e 2.662 mistos.

Foi como jornalista que começou a escrever. Com 14 anos editou o jornal "A Palavra", nos Açores. Dez anos mais tarde, fez a sua estreia literária na revista "A Águia", do Porto, como crítico. A sua ferocidade e irreverência deixavam-no desempregado, mas nunca desistiu de escrever.

Além do livro "Desassossego", com a prosa do heterónimo Bernardo Soares, foram editadas diversas colectâneas dos seus escritos.

Viveu muitos anos na África do Sul, onde aprendeu tão bem a língua inglesa que nela compôs quatro livros de versos. Regressado a Portugal, foi co-fundador da revista "Orpheu", 1915, e colaborou noutras: "Centauro", "Portugal Futurista", "Exílio", "Contemporânea", "Athena", "Presença", etc.

Faleceu em 1935, um ano depois de lhe ter sido atribuído um prémio oficial à sua "Mensagem". Só começou a ser conhecido do grande público a partir de 1943, altura em que o seu amigo Luís de Montalvor iniciou a publicação das suas obras completas, colecção "Poesias" das edições Ática, de que estão publicados os volumes: Poesias de Álvaro de Campos; Poemas de Alberto Caeiro; Odes de Ricardo Reis; Mensagem; Poesias Dramáticas e Poesias Inéditas (1930-35).

 

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FIALHO DE ALMEIDA

 

     Nasceu em Vila de Frades no ano de 1857 e formou‑se em Medicina, pela Universidade de Lisboa.

A sua vida foi cheia de dissabores e agruras, porque parece que o destino se decidiu a lutar contra ele. No meio de tudo que lhe foi sucedendo, nunca deixou de trabalhar e, no papel, imprimiu páginas de deslumbramento. Os vultos da literatura deram‑lhe um lugar de destaque na hoste dos grandes contistas portugueses.

Desta forma, é muito vasta a sua obra e, claro está, essencialmente constituída por contos: "Contos", 1881; "A cidade do vício", 1882; "Lisboa galante", 1890; "O país das uvas", 1893; "Os gatos", 1889‑94 ‑ uma publicação periódica do folheto, constituído por seis volumes, onde aparecem notas mordentes e sarcásticas (que aliás é uma qualidade muito peculiar ao longo dos seus escritos).

Escreveu também uma grande série de crónicas e impressões e comentários diversos, que se distribuem por vários volumes: "Jornal de um vagabundo" ‑ "Pas quina das", 1890; "Vida irónica", 1892; "À esquina", 1903; "Barbear, pentear", 1910.

Após a sua morte, ocorrida em 1911, foram editados os títulos: "Saibam quantos..." - Cartas e artigos políticos ‑, 1912; "Estâncias de arte e de saudade", 1921; "Figuras de destaque", 1924; "Actores e autores" ‑ impressões de teatro ‑, 1925.

Os seus contos procuram apreender o lado mais impressionante da miséria ou do sofrimento, e o assunto, muitas vezes, são casos mórbidos. As inúmeras crónicas que escreveu são muitíssimo irregulares quanto ao mérito. Não podem, de forma alguma, ser comparadas com "As farpas", de Ramalho Ortigão.

Embora a sua escrita se paute pelo mordaz, ele era muito sensível à ternura: deixava‑se embalar por sentimentos que se reflectem na sua obra, que é de uma beleza extraordinária. Tinha um conhecimento profundo da nossa língua; por isso, a enriqueceu grandemente, introduzindo‑lhe novos e arrojados meios de construção, neologismos e nacionalização de termos expressivos.

Caracteriza‑o um estilo vigoroso, muito exuberante e colorido.

 

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FILIPE II

 

Considerado o monarca mais poderoso do mundo, Filipe II de Espanha nasceu em 1527. Em 1543, apenas com 16 anos, começou a reinar no seu país, em nome do pai, Carlos I, ausente por ser o grande imperador de mais do que uma nação. Cerca de 11 anos mais tarde converteu-se, formalmente, no governador de meia Itália, através de matrimónio, no governador de Inglaterra. Por fim, em 1556, tornou-se governador de todas as possessões de seu pai fora da Alemanha.

Durante mais de meio século de reinado teve problemas de guerra, contra a França católica, a Inglaterra protestante e o império otomano islâmico, problemas de rebelião nos Países Baixos - uma luta cruel que se saldou por muitos milhares de vidas, quer de espanhóis, quer de neerlandeses -, problemas de dinheiro, porque o Estado sofria bancarrotas regulares e problemas da própria sucessão ao trono - a triste história que Verdi tomou como tema da sua famosa ópera, versando o filho D. Carlos.

Um dos aspectos mais impressionantes do seu reinado é a imensa carga posta nos ombros do governante com a maior monarquia que o mundo jamais conheceu. Herdou do pai quase todos os problemas, mas enfrentou-os com firmeza. Viajou muito, atingiu um elevado grau de cultura e tornou-se num experimentado governante.

Casou-se quatro vezes: a primeira esposa (1543-45) foi Maria, princesa de Portugal, que morreu jovem, ao dar à luz D. Carlos; a segunda foi Maria Tudor, rainha de Inglaterra (1554-58); a terceira foi Isabel de Valois (1560-68); a quarta foi com a sua sobrinha, vinte anos mais nova que ele, Anna de Áustria, filha da sua irmã, a imperatriz Maria. Com ela se casou em 1570, sendo a mãe do futuro rei, Filipe III, e o marido declara que este foi o verdadeiro amor da sua vida e lhe quis como a ninguém. Anna morreu em 1580, vítima de uma terrível epedemia, que existiu por essa época. Filipe II não quis voltar a casar-se e os últimos 18 anos da sua vida foram de solidão. Vivia na companhia das duas filhas que tivera de Isabel de Valois, Isabel e Catalina. Em 1585, a segunda partiu para Itália, ao casar-se com o duque de Sabóia. O único consolo que restava ao rei era Isabel, que até à morte do pai nunca se casou e se manteve, carinhosamente, a seu lado.

Quando, em 10 de Junho de 1580, conseguiu a anexação de

Portugal, experimentou uma grande satisfação com a unidade da Península. Era ele que tinha mais direito à sucessão portuguesa, após a morte do anterior rei, o malogrado D. Sebastião, em 1578, na fracassada batalha de Alcácer-Quibir. Também recebeu o apoio das Cortes de Portugal e que garantiu as liberdades aos portugueses, que respeitou.

Deve-se-lhe a construção do mosteiro de "El Escorial", que foi o maior evento cultural do seu reinado: iniciou-se a construção em 1562 e pôde residir nele, parcialmente, a partir de 1567; apenas em 1571 se tornou a sua habitação por inteiro, tendo-se o edifício finalizado em 1586, ano em que inaugurou a igreja.

Comemoraram-se há pouco os quatro séculos da sua morte, já que desapareceu do número dos vivos em 1598.

 

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FRANCISCO JOSÉ GOYA

 

Foi um dos mais célebres pintores de Espanha e ainda hoje é considerado um dos primeiros vultos da pintura moderna. Nasceu em Fuendetodos, Saragoça, no dia 30 de Março de 1746. O pai era dourador e os meios para viver eram muito escassos.

Aos 14 anos foi trabalhar para a oficina do pintor Lúzan y Martinez, onde trabalhou durante seis anos. Depois, devido a complicações amorosas, fugiu para Madrid, encontrando trabalho na oficina de Francisco Bayeu, onde estudou alguns anos e também daí teve de fugir pelos motivos que o haviam obrigado a deixar Saragoça. Nunca conseguiu entrar na Escola de Belas-Artes e foi sempre pouco comunicativo e briguento. Saído de Madrid, pôs-se a caminho de Itália, contudo, como não tinha recursos, fez a viagem a tourear de praça em praça, até chegar a Roma. Nessa cidade estudou livremente, pintou imensos quadrinhos vivos de cor, anti-académicos, que entusiasmaram o embaixador russo a tentar levá-lo para a corte da imperatriz Catarina.

Em 1771 regressou a Saragoça para pintar a abóboda da Basílica Del Pilar. Quatro anos depois, instala-se em Madrid, onde casa, vindo a ser pai de vinte filhos, tendo apenas um sobrevivido. As responsabilidades da família obrigaram-no a um grande esforço de trabalho. Em 1777-80 ganhou, com pinturas e gravuras, uma bela quantia que na época era uma pequena fortuna.

O infante D. Luís, irmão de Carlos III, foi um dos mais poderosos clientes que teve. Em 1786 foi nomeado pintor da Real Fábrica de Tapetes e, pouco depois, pintor da corte, cargo que anteriormente lhe tinha sido negado e lhe permitiu melhorar sensivelmente a vida.

Em 1792 sofreu uma grave enfermidade, que lhe provocou a surdez completa. Começou, então, a dar uma visão dramática à sua pintura. Aparecem, por isso, as obras carregadas de aspectos tristes, sombrios, onde se vê dor e sofrimento por todo o lado. Durante a Guerra da Independência, ia completar o espectáculo de horror, violência, miséria, morte e fome que serviria de inspiração para os seus quadros.

Todavia, a beleza da cor, a riqueza da inspiração e o realismo da sua obra são percursores da arte espanhola dos séculos XIX e XX.

As suas obras mais importantes são: os "Caprichos", as "Majas", os "Frescos de Santo António de Florida", a "Família de Carlos IV", o "Levantamento de Madrid contra os Franceses", os "Fuzilamentos de 3 de Maio", os "Desastres de Guerra" e os "Disparates".

Pintou centenas de quadros numa prodigiosa fúria criadora, que vão desde o retrato às cenas de fantasia e de macabro. Desenhou cartões para tapetes, gravou séries de desenhos e deixou um sem-fim de esboços e apontamentos.

Já velho, sentiu-se descontente com o ambiente político e exilou-se em França, na cidade de Bordéus, onde teve o derradeiro hálito, no dia 16 de Abril de 1828.

 

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FRANCISCO QUEVEDO

 

Francisco de Quevedo y Villegas nasceu em fins de Setembro de 1580, em Espanha. Descendia de nobre linhagem, pois era filho único do morgado Pedro Gomez de Quevedo, senhor do solar dos Quevedos, secretário da princesa Maria e, depois, da rainha Ana de Áustria e de Maria de Santibañez. Aos seis anos perdeu o pai, fidalgo pobre, embora homem de vasta cultura, que lhe deixou por herança apenas a educação recebida. Sua avó, Filipa de Espinosa, tinha servido a rainha. A mãe, levou-o para a corte, onde se entranhou no ambiente cortesão e adquiriu larga cultura. Mais tarde frequentou a universidade de Alcalá, tendo-se formado com distinção.

Nunca esteve a favor de causas perdidas, escolhia os assuntos que pensava iriam sair ganhadores. Caiu em desgraça duas vezes: a primeira com o declive do duque de Osuna e a morte de Filipe III (1621) e a segunda devido aos ataques dirigidos ao conde-duque de Olivares (1639). Ferviam nele duas grandes ambições: a política, que na época recebia o nome de filosofia moral e a literária. Ele utilizava as duas em simultâneo.

Quevedo foi polígrafo, poeta e político, um dos grandes génios de Espanha e um dos maiores escritores de todas as épocas do mundo.

O papel público que desempenhava era ode intelectual do regime. Encarregavam-no de denunciar os incluídos e os excluídos da comunidade da pura raça espanhola. Era, por assim dizer, um conservador profundamente reaccionário.

            Literariamente, Quevedo foi extraordinário: a par dos seus textos políticos, satíricos e periodísticos, escreveu poemas de grande beleza metafísica, em que verteu os seus instantes de depressão e os seus sentimentos mais íntimos. Não os publicou em vida, porque na altura, período barroco, era preciso esconder a intimidade.

Quando se casou já tinha 52 anos, escolhendo para esposa Esperança Mendonza, nobre de segundo grau, viúva de 55 anos, e fê-lo por interesse. O matrimónio durou duas semanas e ela morreu dez anos depois. Quevedo levava uma vida escandalosa. Foi protagonista de muitas aventuras e vivia amancebado com duas mulheres, as Ladesmas, de quem teve filhos.

As suas obras em prosa dividem-se em ascéticas, filosóficas, políticas, de crítica literária, satírico-morais, de novela e festivas.

Obras ascéticas: "La cuna y la sepultura", 1613, 1630, 1632 e 1635; "Vida de frei Tomás de Villanueva", 1620; "Vida de S. Paulo", 1643, 1644; "Providência de Deus", 1641.

Obras filosóficas: "Dos remédios de qualquer sorte", 1632, 1638; "As quatro pestes do mundo", 1634.

Obras políticas: "Política de Deus, governo de Cristo e tirania de satanás", 1617; "Mundo caduco e desvarios da idade", 1621; "Grandes anais de 15 dias", 1621; "Memorial pelo patronato de Santiago", 1627; "Lince de Itália e Zahori Espanhol", 1628; "El chiton de las Taravillas", 1630; "Marco   Bruto", 1632; "Carta a Luís XIII, rei de França", 1635.

Obras de crítica literária: "Conto de contos", 1626; "La culta latiniparla", 1629; "La perinola", 1633; "Prololo de las ediciones de fray Luís de Leon, Francisco de la Torre", 1629-31.

Obras satírico-morais: "O sonho das caveiras" (O sonho do juízo final), 1606-27; "O aguacil endemoniado", 1607; "Las Zahurdas de Platon", 1608; "O mundo por dentro", 1610; "Visita de los Chistes" (Sonho da morte), 1622; "O intrometido, a Dona e o Soplon" (Discurso de todos os diabos, inferno emendado), 1627; "La hora de todos y la fortuna con seso" (esta "fantasia moral" não figura, normalmente, entre os Sonhos, mas parece-se com eles pela forma); "A casa de loucos de amor", 1608 (duvida-se que seja de Quevedo).

Obras de novela: "História da vida do Buscon", 1603.

Obras festivas: "Premáticas contra las cotorreras", 1609; "Cartas de outras muitas mais", 1631; "Cartas".

Obras em Verso: "O parnaso espanhol", 1648; "As três musas últimas castelhanas", 1670; outros versos, não incluídos na "Musas", de diferentes épocas, e entremeses.

Abandonado e em condições precárias, Francisco Quevedo morreu numa pequena localidade, Villanueva dos Infantes, no dia 8 de Setembro de 1645.

 

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FRANCISCO SANCHES

 

Embora de formação francesa e italiana, Francisco Sanches nasceu na Península Ibérica (in civitate tudensi), pertencente à diocese de Braga, em 1550 e foi baptizado na igreja paroquial de S. João do Souto, da mesma cidade, em 25 de Julho de 1551.

Na meninice, no que toca à sua educação, muito ficou a dever ao pai.

            Com 12 anos saiu de Portugal e foi para Bordéus, onde se matriculou e frequentou o famoso colégio de Guiana, que era um foco intenso de renovação intelectual, em que influíam o Renascimento italiano e o reformismo religioso.

Em 1569 abalou de Bordéus para a Itália. Seguiu ali estudos de medicina, aprendendo a investigar em cadáveres. Mais tarde, de novo em França, prosseguiu essa prática no hospital de Toulouse, onde foi director dos serviços médicos durante mais de trinta anos.

Em 1573 matriculou-se na Faculdade de Medicina de Mompilher e, dois anos depois, fixou residência em Toulouse, onde permaneceu até ao fim da vida, ensinando medicina, tendo sido considerado nesta universidade um dos mestres mais ilustres. Como homenagem póstuma foi colocado o seu retrato num dos ângulos da sala dos Actos e lá permanece. Também Braga não o esqueceu, levantando-lhe uma estátua e dando o seu nome a uma escola.

Além de médico foi também um eminente filósofo: contestou a filosofia de Aristóteles e o pretenso saber da escolástica, mostrando o falível do testemunho dos sentidos, denunciando a ineficácia dos métodos tradicionais e tentou definir o seu próprio ideal de conhecimento.

A sua obra principal saiu na I edição (Lião, 1581), com o título "Quod nihil scitur" (Que nada se sabe), mas a II edição (Francforte, 1518), trouxe o título mais condicente com o seu pensamento: "De multum nobili et prima universali scientia quod nihil scitur".

 Além deste e de muitos outros trabalhos filosóficos, que constituem a magnífica "Opera médica".

Desapareceu do número dos vivos em 1622.

 

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FRANZ SCHUBERT

 

        Franz Peter Schubert, o compositor e músico que dotaria o mundo musical da Viena dessa época inigualável, com melodias liederísticas e com ritmos de valsa, que permaneceriam até ao tempo de Mahler, nasceu a 31 de Janeiro de 1797 em Liechtenthal, nos arredores de Viena. Seu pai era um respeitado mestre de escola e não teve dificuldades em fazer o filho ingressar no Seminário da Capela Imperial, onde receberia uma educação musical da máxima qualidade das mãos de António Salieri. A orquestra e coro do Seminário interpretavam música sagrada e profana de grandes compositores, como Joseph Haydn, Mozart, Cherubini, Beethoven; e de compositores menos importantes, embora muito conhecidos na altura, como Michael Haydn, Eybler, Winter, Sussmayr, Albrechtsberger, Hummel, Weigle, evidentemente, Salieri.

        Nos seus primeiros anos de formação exerceu sobre ele a tendência tradicionalista e nela criou páginas incontáveis, onde predominava a música religiosa, a sonata e a sinfonia, aliás o protótipo dos mestres vienenses de tendências pós-clássicas. E a verdade é que a forma-sonata da tradição de Viena encontra em Schubert um fiel guardião. Esta situação dará motivos a muitos para o criticar abertamente como cultivador das grandes formas, sem ter em conta a maneira como estas formas nasciam das suas mãos, inocentes, mas destruidoras.

        Schubert foi ao longo da vida um contestatário da situação política e social e o seu viver foi o de um perfeito boémio, não se interessando com o dia de amanhã. Procurou conhecer bem a sua Áustria, cuja beleza descreveu com grande sentimento nas cartas aos amigos e admirava a Hungria, cujo folclore, em versão livre, se pode apreciar nos ritmos, nas harmonias e nas melodias de muitas das obras instrumentais da sua última época.          Ao longo de alguns anos exerceu a profissão do pai, mas, em 1816, abandonou a escola para sempre e decidiu viver do que ganhava como compositor. Vivia quase sempre na casa dos amigos e de quem lhe dava trabalho, como os condes Eszterhazy, parentes da família princepesca que tinha ajudado Haydn, de cujas filhas foi professor de música durante uma época. Trabalhava, dormia e comia em qualquer sítio, representante fiel de uma existência boémia e uma obstinação da sua outra personalidade, onde repousava o espírito de bom rapaz, do filho de um funcionário do Estado, do discípulo predilecto de Salieri, do candidato desamparado aos lugares oficiais de mestre de capela, que nunca obteve. Maltratado e enganado pelos editores, produzia música como uma grande força da natureza, acumulando uma enorme quantidade de manuscritos, mais tarde descubertos, após a sua morte, pelo emocionado Schumann que, entre outras obras, desenterrou a grande "Sinfonia em dó maior". Apenas pouco tempo antes de morrer (de uma febre tifóide), consegue organizar um concerto público com música sua. Com a magra receita compra o seu primeiro e último piano, no qual compõe as três derradeiras sonatas.

            A sua vida como homem e artista, desenvolveu-se no meio de um reduzido círculo de amigos cultos e entusiastas. Era um ambiente de homens independentes, que hoje definiríamos de esquerda, mais ou menos contrários ao regime da restauração austríaca, mas mais ou menos integrados. Este leque era formado por homens de leis, como Joseph Spaun e Franz von Schber; poetas, como Johann Mayrhofer e Eduard von Bauernfeld; pintores, como Moritz von Schwind e Leopold Kupelwieser; músicos, como Huttenbrenner...

Cultivou muitos géneros de música: valsas, marchas, variações para piano a quatro mãos - a música de salão, que era a forma ideal de compor em casa com e para os amigos; corais, centenas de lieder, duetos e tercetos para voz e piano; sonatas, sinfonias, imensa música religiosa; trios, quartetos, quintetos, sonatas para piano solo ou com outro instrumento.

Apenas com 32 anos de idade e solteiro, Schubert morreu a 19 de Novembro de 1828, no distrito de Wieder, na casa de seu irmão Fernando, nos subúrbios de Viena e foi enterrado no cemitério de Friedort.

 

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GALILEU

 

A Itália foi o país onde nasceu Galileu Galilei, no ano de 1564. No seu tempo foi considerado, e é-o ainda na actualidade, dos melhores e mais sábio no campo da Ciência, sobretudo como astrónomo, físico e matemático.

Foi o fundador do método experimental. Construiu um telescópio e observou o céu, descobrindo os montes da Lua, os satélites de Júpiter, as fases de Vénus, as estrelas da Via Láctea.

Pelas inúmeras observações verificou que a tese de Copérnico sobre o movimento de translacção da Terra em volta do Sol estava correcta.

Acusaram‑no de heresia, pelo Santo Ofício e obrigaram‑no a retratar‑se, desdizendo as suas ideias; doutra forma o seu destino seria a fogueira. Passou, todavia, de geração em geração, o que à saída do Tribunal ainda afirmou:

                        "...E no entanto, a Terra move‑se!"

            E, afinal, tinha razão: só passados mais de três séculos é que a Igreja o reabilitaria, em 1992.

Depois de uma vida consagrada à Ciência e enormemente agitada, viu chegar o seu derradeiro dia no ano de 1642.

 

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GARCÍA LORCA

 

            Federico del Sagrado Corazón de Jesús García Lorca teve o seu berço em Fuente Vaqueros, a 18 quilómetros de Granada, no dia 5 de Junho de 1898, na província espanhola de Andaluzia. Seu pai era um abastado lavrador e sua mãe professora das primeiras letras, de família modesta e leccionava em Granada. O futuro poeta passa os seus primeiros 11 anos mergulhado na vida agrícola. Trata-se de um rapazinho vivo, inventivo, observador e pouco ágil fisicamente, contribuindo bastante para isso a circunstância de ter os pés rasos.

            Federico possuía uma enorme sensibilidade, que herdara da família, uma vez que nela havia verdadeiros artistas, de que eram exemplo um tio e uma tia avós: o primeiro como pianista e declamador de poesia popular e a tia uma mestra e cantora de canto - e estes dotes incutiram e ministraram ao sobrinho. Ao longo de toda a vida nunca esquecerá a sua infância, escrevendo: "As minhas primeiras emoções estão ligadas à terra e aos trabalhos do campo. Por isso, há na minha vida um complexo agrário. Toda a minha infância é povo, pastores, campos, céu, saudade. Tenho um grande arquivo nas recordações da minha meninice de ouvir a gente falar. É a memória poética e a ela me atenho. As emoções da infância estão em mim. De contrário, não teria escrito "Bodas de Sangue", porque as recordações são em mim um apaixonado tempo presente."

            Os pais querem para os filhos o que de melhor existir na formação para a vida e Federico,em 1909, termina o seu primeiro grande sonho, uma vez que tem que  residir na cidade de Granada, num ambiente bem diferente daquele que tanto adorava. Começa por estudar piano e, em pouco tempo, é verdadeiramente um artista, interpretando e compondo estupenda música folclórica. Parecia destinado a uma carreira profissional. Em simultâneo estudava Filosofia e Letras e Direito na Universidade de Granada. É nesta época que inicia a grande defesa dos desprotegidos, sobretudo ciganos, negros, judeus.

            Os companheiros de Lorca, que se reuniam na tertúlia "Rinconcillo", no café Alameda, assombravam-se ao verificar que Federico se vai transformando não só num bom poeta, como também num dramaturgo e ensaísta, sem esquecer a sua paixão pela música.

            O seu primeiro título sai em 1918, após ter escrito inúmeros poemas, "Impressões e paisagens". A vasta produção de Lorca só é dada a conhecer em 1993, expressa num erotismo profundamente inquietante: o criador de centenas de trabalhos em poesia e em prosa revela-se com uma obsessão por um amor irrecuperavelmente perdido e convencido de que será impossível a felicidade no futuro.

            Em 1919 transfere-se para a Universidade de Madrid. Na capital, o impacto da personalidade do granadino é imediata. Pouco tempo após ter chegado põe em palco a peça "O malefício da mariposa". Em 1921 publica "Livro de poemas" - porventura a colecção dos seus melhores escritos poéticos - e escreve "Suites" - que não foi publicado durante a sua vida.

            Ao longo de sete ou oito anos a sua existência divide-se por Granada e Madrid, época em que escreve, apoiado por Manuel de Falla, o "Cancioneiro cigano". Entretanto, termina o curso de Direito, mas nunca exercerá advocacia. Em 1927 representa-se "Mariana Pineda" e "A sapateira prodigiosa".

Sobre a sua vida madrilena nos anos 20, há inúmeros testemunhos que demonstram a prática do homossexualismo, que, para a época e na sociedade em que se inseria, era um verdadeiro atentado aos princípios morais vigentes. De entre várias citam-se as suas ligações amorosas - com troca de abundante correspondência e alusões na sua obra -, a Salvador Dalí e ao escultor Emilio Aladrèn.

            No livro de poesia saído em 1927, "Canções", há um poema, "Canção do mariquita", onde está presente o seu espírito gay.

        Em 1929-30 vai até Nova York e Cuba, onde é recebido de braços abertos e com admiração pela grande quantidade de espanhóis aí residentes, conhecedores do seu talento e fama. Por lá escreve "Viagem à Lua" e exprime o seu sentimento político, adverso à situação que se vive em Espanha e que lhe acarreta muitos inimigos. Já em Granada, em 1930, escreve e publica "O público". Com a chegada da II república a vida espanhola excita-se e Lorca identifica-se plenamente com as aspirações culturais do novo regime e o Governo confia-lhe a direcção do teatro estudantil, "A Barraca", cuja missão é levar obras clássicas à província. A ela dará generosamente o seu melhor. Mas, logo ao inaugurá-la, a direita a ataca violentamente. De qualquer forma, durante cinco anos, "A Barraca" foi um êxito inolvidável, sob a sua direcção.

        Em 1933-34 viaja pela Argentina e Uruguai e alcança ovações e dinheiro a rodos. Entretanto, a direita em Espanha ganha as eleições, o que vivamente o preocupa. Em Dezembro de 1934 representa-se mais uma obra sua, "Yerma" e, em 1935, em Barcelona, com um êxito retumbante, "Dona Rosita, a solteira".

Lorca apoia publicamente a Frente Popular durante a campanha eleitoral. Ao longo de vários meses escreve e assina diversos manifestos antifascistas e participa em numerosas manifestações esquerdistas ao lado do povo. As eleições de Granada deram a vitória à direita, que são anuladas pelas Cortes, devido a irregularidades. Nova consulta e a esquerda leva a melhor. Lorca pronuncia-se vivamente numa entrevista ao jornal "O Sol" e exacerba ainda mais os adversários. E propaga-se que o poeta acaba de escrever uma obra mordaz, criticando a forma como o povo é tratado - "A casa de Bernarda Alba". Volta-se ainda mais o furor contra ele e é apelidado de "O maricão" (paneleiro). As tropas falangistas apoderam-se de Granada e Federico esconde-se na casa de uns amigos, mas vão lá buscá-lo, possivelmente por denúncia, e na madrugada de 18 de Agosto de 1936 é barbaramente assassinado. O crime consumou-se perto da Fuente Grande, no término municipal de Alfacar, junto de um olival. Umas horas depois do sucedido, um dos assassinos, Juan Luis Trescastro, gabava-se, em Granada, de ter torturado o poeta, metendo-lhe "dos tiros en el culo por maricón".

         Assim, aos 38 anos, na Granada que tanto amou e exaltou, desaparecia Federico García Lorca.

 

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CASANOVA

 

Giacomo Casanova nasceu em Veneza em 1725. É o único entre os grandes libertinos da época, classificado como aventureiro‑filósofo, característica que o distingue em relação a todos os outros.

Eis um retrato fiel dessa personagem incrível que foi Casanova em pleno século XVIII: filósofo, advogado, poeta, abade, viajante, matemático, novelista, ensaísta, diplomata, ocultista, comediógrafo, violinista, aventureiro galante e libertino desenfreado, espia, maçónico, protegido e recomendado por príncipes e monarcas, bom espadachim, jugador viciado e sedutor por excelência. Percorreu infatigavelmente ao longo de muitos anos diversos lugares do mundo, mas principalmente da Europa, coleccionando conflitos, aventuras amorosas, duelos e fugas novelescas: de Londres a Constantinopla e de Moscovo a Madrid.

Em quase tudo a ambiguidde dominou a sua vida e pensamento. Estava convencido de que todas as religiões reveladas são fruto de impostura, que a matéria é eterna e, por isso, não precisa de um deus criador. Mas também estava persuadido da superioridade do cristianismo, em relação ao qual, por conveniência, manifestou um respeito prudente.

Em 1745, durante a estadia em Constantinopla, Casanova participou numa série de "disputas filosóficas", nas quais se criticavam os costumes europeus.

Era ainda muito novo quando pregou nas igrejas e, entre as generosas ofertas da assistência, encontrou vários bilhetes de ardente amor que lhe dedicavam muitas das mulheres presentes. A verdade é que o futuro grande sedutor iniciou as suas aventuras como seduzido precocemente aos onze anos por uma jovem de quinze. Depois, aos dezassete anos, começou a carreira como amante adulto. Excluídas as incontáveis aventuras ocasionais, o libertino teve mais de um cento de amantes e a quase todas as que não estavam casadas lhes propôs casamento. A sua vida sentimental esteve cheia de matrimónios prometidos e consumados antecipadamente, mas, na hora da verdade, conseguiu sempre escapar‑se. Todavia, nenhuma das burladas lhe guardou rancor: a doçura da lembrança prevalecia sobre o amargo da decepção.

Fisicamente era construído como um Hércules: estatura imponente, cerca de 1,90 m. de altura, um olhar vivo e penetrante, uma pele africana, que lhe dava um aspecto feroz quando se zangava. Ria‑se pouco, mas tinha graça quando contava alguma coisa. Era um poço de ciência, citando Homero e Horácio com perfeito à‑vontade. No meio das grandes desordens demonstrava ter honra, sensibilidade e valentia. Tinha uma imaginação prodigiosa e era um homem digno de estima e muita amizade.

Escreveu um extenso e extraordinário livro das suas memórias.

O príncipe Charles de Ligne, amigo que muito o acompanhou, conta que, momentos antes de morrer ‑ a 4 de Junho de 1798 ‑, Casanova pronunciou umas palavras certamente surpreendentes: "Vivi como filósofo e morro como cristão".

 

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GIL EANES

 

Muito pouco se sabe a respeito da sua vida pessoal e não há certezas sobre a data e local do seu nascimento, embora Lagos seja apontada como provável. Ignora-se também a que família pertenceu, se casou ou não, se deixou descendentes...

Todavia, o que é certo, é que ele foi escudeiro do Infante D. Henrique e armado cavaleiro depois de dobrado o Cabo Bojador. Efectuou muitas viagens através dos mares, mas duas ficaram também célebres: em 1435 com Afonso Baldaia até Angra dos Ruivos; em 1443-44 com Lançarote até ao golfo de Arquim.

No livro "Crónica dos Feitos da Guiné", o cronista Zurara refere-se a uma grande  discussão que teria havido entre os navegadores nesta última viagem e apresenta-o como homem particularmente sensato e capaz de impor a sua vontade, porque gozava de grande prestígio junto dos companheiros.

Foi em 1435 que o Infante D. Henrique mandou equipar uma barca, escolhendo-o para capitão e ordenando-lhe que dobrasse o Cabo Bojador. Esta primeira tentativa falhou. No ano imediato o Infante chamou-o à sua presença, conversou demoradamente com ele, minimizou os riscos, incentivou-o com argumentos que o convenceram. Tinha de dobrar o terrível Cabo Bojador. Partiu, pois, e desta vez não desistiu. Infelizmente, para a posteridade, não ficaram relatos que contenham as peripécias da viagem, mas o que  se afirma é que foi precisa muita coragem, determinação, ousadia e perícia para conseguir o que ninguém antes conseguira: passar além do Cabo Bojador e regressar a casa são e salvo. Esta proeza desfez o mistério. A partir da sua gloriosa façanha os navegadores portugueses puderam lançar-se "por mares nunca dantes navegados".

 

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GIUSEPPE VERDI

 

Compositor dedicado quase exclusivamente à ópera Giuseppe Verdi nasceu a 10 de Outubro de 1813, em Le Roncole, uma aldeia perto de Busseto, meio perdida no ducado de Parma. Devido às anexações e conquistas napoleónicas, Verdi chegou ao mundo como cidadão francês, registado com o nome de Joseph François Fortunin Verdi. Os pais eram estalajadeiros mas, a partir dos 4 anos, proporcionaram-lhe uma boa educação.

 Revelou-se um menino-prodígio,pois aos 9 anos já era capaz de substituir o organista na igreja e aos 14 compunha peças suficientemente boas para serem tocadas pela filarmónica local.

Aos 17 anos, o jovem músico foi viver para casa dos Barezzi, cujo chefe de família, Antonio Barezzi, que era um músico amador notável, e apesar da sua timidez apaixonou-se pela sua filha Margherita, com quem casou em 1836. Neste mesmo ano sucedeu ao seu antigo professor, Ferdinando Provesi, como mestre de música de Busseto.

A sua primeira ópera, que sofreu inúmeras alterações, intitulou-se "Oberton, Conte di San Bonifacio", que se estreou no Scala de Milão a 17 de Novembro de 1839 e teve um sucesso estimável.

"Nabucodonosor", uma ópera sacra, na esteira do "Mosè in Egitto" (1818), de Rossini, teve uma estreia retumbante no mesmo teatro.

Nos 15 anos que se seguiram a "Nabuco", como a ópera passou a ser conhecida, Verdi escreveu cerca de 20 óperas, mas nas últimas quatro décadas da sua vida, somente mais 5.

Baseou as suas composições em peças de todos os seus ídolos literários: "Ernani" (1844, Victor Hugo); "I Due Foscari" (1844, Lord Byron); "Giovanna d'Arco" (1845, Schiller); "Alzira" (1845, Voltaire); "I Masnadieri" (1847, Schiller); "Il Corsaro" (1848, Byron);

"Luisa Miller" (1849, Schiller); "Rigoletto" (1851, Victor Hugo); "Don Carlos" (1867, Schiller); "Otello" e "Falstaff" (1887 e 1893, Shakespeare).

Outros bons títulos do ilustre compositor são: "Il Trovatore", com texto de Antonio Gutièrrez; "La Traviata", da obra de Alexandre Dumas filho; "As Vésperas Sicilianas", 1855; "Baile de Máscaras", 1859 e "Aida". 

Em honra do poeta Manzoni, em 1874, escreve o seu monumental "Requiem".

Verdi era um sujeito solitário, taciturno, autocrático e de mau feitio.

O muito dinheiro que ganhava com a representação das suas obras era investido na compra de terras em Sant'Agata e na exploração agrícola, onde utilizava maquinaria moderna, com propulsão a vapor.

Os dois filhos que teve do casamento com Margherita morreram pequeninos e a própria mãe, muito nova, morreu também, supõe-se de meningite. Em Paris o músico trava relações com uma cantora, Giuseppina Strepponi, que se torna sua amante e com quem acaba por casar e viver até ao fim da vida.

A 19 de Jameiro de 1901, Giuseppe Verdi sofreu uma trombose. Nunca mais ganhou consciência e a vigília durou uma longa semana. A 27 do mesmo mês o coração deixou de bater.


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GRÃO VASCO

 

Grão Vasco, cujo o nome de baptismo era Vasco Fernandes, foi um célebre pintor, essencialmente de cariz religioso, quer no seu tempo, quer na actualidade. Não há a certeza da data do seu nascimento e morte. Nasceu em Viseu, ou nos arredores, e a primeira obra de que se encarregou, com cerca de 25 a 30 anos de idade, foi em 1506. Ignora-se como e onde estudou. José de Figueiredo sugere que ele tivesse sido discípulo de Jorge Afonso, enquanto Virgílio Correia opina que, em virtude de documentos por ele encontrados, poderia ter sido, de preferência a um discípulo, um companheiro do pintor real.

Pintou os retábulos da Sé de Lamego, como fazem referência alguns autores antigos e de que há vestígios no museu da mesma cidade, com as obras: "Circuncisão" e "A Criação dos Animais".

Em 1512 residia em Viseu, onde tinha a oficina na rua da Regueira (conforme documentos válidos que encontrou Maximiano de Aragão).

A sua grande actividade artística decorreu entre 1512 e 1542. Durante esse período trabalhou para as igrejas de Viseu, mas também para as terras distantes, como Tarouca e Coimbra, com o testemunho dos quatro retábulos do Mosteiro de Sta. Cruz.

Devido à qualidade das suas obras, até à última metade do séc. XIX, o seu nome era considerado como autor de toda a pintura portuguesa antiga, que aparecia ou de que se tinha notícia. Hoje faz-se uma ideia exacta das suas qualidades como artista, do valor e da concepção técnica, porque foi um executante de largos recursos, quer na facilidade e segurança da composição, quer na riqueza e qualidade da pintura. A obra de maior nomeada é, incontestavelmente, o "S. Pedro” de Viseu", que pertence à colecção do museu dessa cidade e que tem o seu nome artístico. Existem aí ainda as seguintes obras principais: "O Calvário", "O Baptismo de Cristo", "S. Sebastião", "Pentecostes", "Desposórios da Virgem", "Anunciação" e "Descimento da Cruz".

 

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GUERRA JUNQUEIRO

 

O ilustre poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro viu pela primeira vez a luz no dia 15 de Setembro de 1850, na vila transmontana de Freixo de Espada-à-Cinta. Os seus escritos foram simplesmente assinados com os dois apelidos: Guerra Junqueiro.

Perdeu a mãe aos 3 anos e tinha 10 quando o pai, que voltou a casar com uma cunhada, o mandou para casa de pessoas de família, no Porto, matriculando-o no Colégio Instituto Portuense, fazendo, no ano imediato, exame de instrução primária. Mais tarde, matriculou-se no curso de Direito, em Coimbra, onde veio a formar-se em 1873. Em Coimbra ainda conviveu com parte da geração que acompanhava Antero de Quental. Em seguida foi companheiro de lutas e amigo da maioria desses mesmos homens, que formam uma das mais brilhantes gerações de intelectuais e escritores que constituem a história das ideias e da literatura portuguesa.

            Começou por ser umfuncionário público, sendo chamado, em 1878, para o Parlamento como deputado, cumprindo várias legislaturas por Macedo de Cavaleiros, Viana do Castelo e pelo círculo da África Oriental. Militou no Partido Progressista, aderindo, depois do Ultimatum Inglês, ao Partido Republicano. Tendo-se retirado para a sua quinta do Douro, após a implantação da República em 1910, é nomeado ministro de Portugal em Berna, Suíça (1911-1914).

Podemos observar várias fases na sua poesia. Às vezes, como na "Morte de D. João" (1876), condena e castiga a libertagem; em 1879 sai a público "A musa em férias"; agora, mais contente com os homens, esquece as antíteses relampejantes e estridentes, à Victor Hugo. Todavia, seis anos depois, surge "A velhice do padre eterno", colecção de algumas sátiras anticlericais; logo após, com o Ultimatum de 1891, revive nele a ambição de ser republicano; escreve, então, uma sátira violentíssima contra a monarquia e contra a Inglaterra, intitulada "Finis Patriae"; em 1896 surge "Pátria".

Tendo-se recolhido na paz da sua quinta         do Douro, começa a sentir uma certa piedade pelos humildes, deixando o colorido realista dos primeiros tempos, os requintes e entrega-se ao poder da variedade, escrevendo "Os simples" (1892), "Oração ao pão" (1902), "Oração à luz" (1904). 

Guerra Junqueiro tinha uma grande facilidade de improvisação e gosto pelos rasgos oratórios; a sua imaginação poética era viva e ardente, criadora de formas e de imagens, um raro poder de assimilação, destreza magnífica no manejo da métrica e do ritmo. Mas, uma das suas grandes qualidades, era a admirável veia satírica.

O seu estilo ora é singelo e meigo, ora é arrogante e pesado. No entanto, em qualquer dos casos, a sua poesia é muito rítmica e dotada de uma orquestração rara.

Forçado pela doença acolheu-se, em 1923, na casa da filha Maria Isabel, em Lisboa, onde viria a morrer a 4 de Maio desse ano.

 

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GUSTAV MAHLER

 

Considerado o maior director de orquestra do seu tempo, Gustav Mahler chegou ao mundo em 1860, em Kaliùte, Boémia, do seio de uma família humilde, de origem judaica. Fez os seeus estudos musicais em Praga e Viena, onde conheceu Bruckner, compositor que viria a influenciá-lo decisivamente.

A partir de 1880 principiou a sua carreira como director de orquestra em pequenos teatros provincianos, onde foi adquirindo e treinando a sua técnica pessoal como director. Em 1886 tornou--se assistente do prestigiado Arthur Nikisch em Leipzig; dois anos depois, director da Ópera de Budapeste e em 1891 dirigiu a de Hamburgo. Todavia, a sua maior oportunidade, visitou-o em 1897, quando, sob a promessa de que abraçaria o catolicismo, lhe ofertaram a direcção da Hofoper de Viena. Mahler abdicou do seu judaísmo e, ao longo de dez anos, esteve à frente deste emblemático coliseu, aliás, dez anos muito ricos de experiências artísticas, implementando o nível musical da companhia e aumentando o reportório, dando a público novas obras.

Em 1902 contraiu matrimónio com Alma Schindler, a sua musa a partir daquele momento. Em 1907, devido ao diagnóstico de uma doença cardíaca e à morte de uma das filhas, Mahler abandona o cargo que desempenhava e aceita a titularidade da Metropolitan Opera House e da Sociedade Filarmónica de Nova Iorque.

Como compositor, Mahler ocupou uma posição única na Viena do seu tempo.

Escreveu dez sinfonias e, a partir da quinta, deixa espraiar-se uma fantasia sonora, que revela conteúdos autobiográficos. Aliás, sobre o conjunto das suas obras, ele exprime: "As minhas sinfonias tratam a fundo o conteúdo de toda a minha vida; nela coloquei experiências e dores, verdade e fantasia em sons... Criar e viver estão intimamente unidos no meu interior..."

Escreveu lindas canções, inúmeras marchas, valsas e outros géneros musicais. 

Enfermo e muito cansado, em 1911 regressou a Viena, onde teve o derradeiro suspiro a 18 de Maio.

 

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HUMBERTO DELGADO

 

Humberto Delgado chegou ao mundo no dia 15 de Maio de 1906, em S. Simão da Brogueira, Torres Novas, e foi, no seu tempo, o mais novo e um dos mais brilhantes generais das Forças Armadas Portuguesas. No seu percurso militar teve uma magnífica carreira, cheia de incidentes e coberta de muita glória. Conviveu, quer com a chefia de Sidónio Pais, quer com a ditadura salazarista que, mais tarde, o demitira das Forças Armadas.

Foi um extraordinário militar, astuto e exímio político e escritor. Frequentou o Colégio Militar, cujo curso concluiu em 1922, ingressando na Escola Militar, onde tirou os cursos de Artilharia de Campanha, em 1925;

de Piloto-Aviador, em 1928 e de Estado-Maior, em 1936. Foi promovido ao posto de brigadeiro em 1946 e ao de general em 1947.

Foi um escritor de génio, dentro da sua convicção e no gosto que tinha na verdade e no perfeito cumprimento dos deveres como cidadão e como político. De entre os seus escritos, destacam-se os livros tão polémicos "Da pulhice do Homo Sapiens" e o "Manual da Legião Portuguesa".

            Embora tivesse servido a Ditadura em alguns cargos, vindo da América, onde desempenhou o lugar de adido militar, opôs-se corajosamente à Ditadura e a Salazar, já que pela vivência e pelas fortes convicções se converteu à Democracia política e, nas eleições presidenciais de 1958, sendo general da aeronáutica se candidatou, pela oposição, tendo contestado os resultados eleitorais que, fraudulentamente, deram a vitória ao almirante Américo Thomaz.

Demitido das Forças Armadas encabeçou, no estrangeiro, o movimento de oposição ao governo português. Trabalhou muito no estrangeiro, no campo político e na tentativa de modificar as coisas no seu País. O exílio, porém, é do mais dramático  que se pode viver e foi uma vítima de privações, de intolerâncias, de perseguições e, finalmente, de uma armadilha sabiamente montada pela PIDE, que o conduziu à fronteira  portuguesa, perto de Badajoz, em Villanueva del Fresno, onde, em 1965, foi assassinado, por ordem da Ditadura, assim como a sua fiel secretária, a brasileira Arajaryr Moreira Campos.

 

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INFANTE D. HENRIQUE

 

Obcecado pelo mar, até ao fim da vida, desempenhou um relevante papel na expansão ultramarina portuguesa. E, apesar das sombras que por vezes escurecem a sua existência, como mentor dos Descobrimentos, é considerado um dos grandes heróis da História de Portugal.

Filho de D. Filipa de Lencastre e de D. João I, veio ao mundo a 4 de Março de 1394, no Porto.  Os seus irmãos, D. Duarte, D. Pedro, D. Fernando e D. João formam, consigo, a "Ínclita Geração".

Era vagaroso e lento de maneiras e muito fleumático, à maneira inglesa, mas aos 21 anos, em África, na conquista de Ceuta (1415), foi valente e desenvolto como um guerreiro luso. Defendeu essa empresa com todo o ardor e entusiasmo. Seu pai, indeciso, depois de ouvir-lhe a opinião, acabou por se decidir, dizendo-lhe: "Filho digno e merecedor do meu afecto, nascido do meu espírito e do meu sangue, a tua opinião merece ser louvada e louvo-a eu, aprovando a empresa." Não cabia no seu coração o alvoroço de tanta alegria. Agradeceu e beijou a mão do pai. Num total de cinquenta mil homens, a Armada seguiu para sul, ao longo da costa de Portugal. Aguardava o raiar da alvorada para atacar. Os mouros ofereceram tenaz resistência. A cidade foi finalmente tomada. A vitória estava completa e as tropas encheram-se de tesouros. No domingo de manhã celebrou-se missa pela primeira vez na mesquita já purificada. Ele e os irmãos foram armados cavaleiros pelo pai. Mal podiam adivinhar que a conquista de Ceuta viria a ser um marco importante na História da Europa e do Mundo.

Em jovem nunca desdenhou o galanteio, perseguindo e beliscando damas mas, no entanto, não chegou a casar.

Católico convicto, crente quanto baste, cruzado piedoso, empenhou a vida, alguns sonhos e muitas aventuras a impulsionar navegadores na descoberta de outras terras. Foi nos penhascos de Sagres que se instalou e aprendeu os mistérios do mar. A Índia ocupava o centro da sua esfera de projectos. Pretendia romper a lenda tenebrosa do Cabo Não, navegando ao longo da costa africana até achar a passagem do extremo sul do desconhecido continente, da Costa de África para o Oriente, e fazer a ligação marítima para a Índia.

Foi nesse promontório de Sagres que mandou edificar o primeiro observatório astronómico, o primeiro conhecido na Europa, sendo tão grande a fama deste centro marítimo que Veneza mandou emissários a Portugal para negociarem a sua compra.

Sob a sua orientação novos mundos    foram descobertos, como os arquipélagos da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde, a costa ocidental africana, após Gil Eanes, em 1434, ter gloriosamente dobrado o Cabo Bojador, onde, segundo se dizia, o mar era tão bravo que nenhuma nau poderia resistir.

Em 13 de Novembro de 1460, um mês depois de fazer o seu testamento, morreu, com 66 anos de idade, afastado da corte, ausente de amigos e nos braços da solidão.

Sepultado em Santa Maria de Lagos, foi trasladado para o Mosteiro da Batalha, para a capela do Fundador. Na fachada do sarcófago foi esculpida a sua esfinge. Ao longo do friso lê-se a divisa que sempre fez questão de cumprir: "Talent de bien faire" (Vontade de bem-fazer).

            Juntamente com Nuno Álvares Pereira e Camões, é considerado um dos maiores construtores dos sentimentos da Nacionalidade.

 

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ISAC ALBèNIZ

 

Em 9 de Maio de 1860, em Capródon (Girona, Espanha), vê a luz pela primeira vez. Teve uma existência relativamente curta, já que a morte o surpreendeu quase ao completar 49 anos, a 18 do mês de Maio de 1909, em Cambo Les Bains, França. Um retrato da adolescência revela já a intensidade da sua breve existência. Nesse retrato aparece como um rapaz gordo, de aspecto raramente maduro e cara de homem. Desde início que os seus progenitores viram nele dotes excepcionais para a música e incitam-no a ser um menino prodígio.

Com um ano apenas já gostava de correr os dedos pelo piano e interpretar melodias muito simples e, aos quatro anos, com êxito, dá o primeiro concerto no teatro Romea, em Barcelona. Depois, aos oito anos compõe a sua primeira obra musical.

A família muda-se para Madrid e conhece uma crise económica muito grave e ele, ao ver que nada podia contra o destino adverso, aos 10 anos, apanhou um comboio a caminho do Escorial, para ganhar a vida. Viajou sozinho e ofereceu-se para dar um concerto. Actuou no Teatro Carlos III, obtendo efusivos aplausos e dinheiro. Não regressou a casa, iniciando uma viagem por diversas cidades de Castela. Seguidamente aventurou-se num percurso longo que o levou a outras localidades de Espanha, da Europa e da América, desde a Argentina, Cuba, até aos Estados Unidos.

Com a restauração, sob os auspícios de Afonso XII, consegue finalmente  a educação há tanto ambicionada. Fez os seus estudos em Bruxelas e percorreu a Europa em busca do grande Liszt, encontrando-o em Budapest e juntos partiram para Roma. De Liszt e de muitos outros mestres aprendeu imensas coisas, fez numerosos amigos e trocaram ideias, mas manteve a própria identidade e o seu génio em nada se alterou.

Compôs muita e excelente música: mais de quatrocentas peças para piano, quatro óperas e um sem-fim de outros géneros musicais. Leccionou durante algum tempo, mas reconheceu que  a sua vida deveria ser ocupada pela composição e pelos concertos em público.

Aos vinte anos era um pianista de fama mundial, mas a saúde nunca o abonou ao longo de toda a vida.

            Levou uma vida de boémio, onde nunca faltava o excesso de cognac, bebida que muito apreciava e lhe fazia esquecer muitas vezes as agruras nos momentos de infortúnio. Mas, quando conheceu a mulher que o enamorou e com quem casou ao fim de um mês de namoro, mudou por completo a forma de viver e tornou-se verdadeiramente num cavalheiro de linha e de porte nobre.

O piano foi a verdadeira paixão de Albèniz e, dedicando-se definitivamente à composição, no fim da vida brilhou como uma grande estrela do pianismo espanhol. A "Suite Ibéria" é uma série unitária de doze peças curtas, verdadeiros quadros de paisagens espanholas evocadas com nostalgia, a partir do estrangeiro.

Esta obra, qualificada como acontecimento musical mais importante, depois da sonata de Liszt, consome-lhe todas as energias, uma vez que a doença o minava sem tréguas. Surpreendido, na plenitude do seu talento, compôs febrilmente e depressa, temendo o fim breve da vida. A série ficou completa e distribuída por quatro cadernos, agrupada em trilogias, entre 1905 e 1909.

Quando a morte o surpreendeu, em 18 de Maio de 1909, encontrava-se no seu melhor momento artístico.

 

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J. S. BACH

 

Johann Sebastian Bach nasceu em Eisenach, Turíngia, Alemanha, no dia 21 de Março de 1685, no seio de uma família de músicos, que se estendeu por seis gerações. Um dos maiores criadores de sempre, escreveu com igual qualidade e perfeição nos géneros contrapontal e harmónico. Fruto de dois casamentos, o primeiro com sua prima Maria Bárbara e o segundo com Anna Magdalena, trouxe ao mundo 20 filhos.

O pai era músico da cidade de Eisenach e ministrou-lhe os primeiros ensinamentos musicais. Fica órfão aos dez anos, passando a receber a educação de seu tio Johann Christoph, organista e discípulo de Pachelbel.

Em 1700 empregou-se como músico da igreja de S. Miguel em Lünburg. Depois foi organista em Arnstadt (1703-7) e Mühlhausen (1707-8), aos quais se seguiram os de organista e mestre de capela do Duque de Weimar (1708-17) e director musical da corte de Kothen (1717-23). Finalmente, desde 1723 a 1750, foi Kantor da escola de S. Tomás de Leipzig e director musical da cidade. Das funções que desempenhou resultaram cinco períodos criativos bem definidos, fruto das suas obrigações profissionais.

A obra de Bach é muito numerosa e são abordados todos os géneros, excepto a ópera. Em música religiosa protestante escreveu cinco anos completos de cantatas para os domingos e dias santos, de que restam mais de duzentas. Das cinco paixões que escreveu apenas há duas verdadeiramente autenticadas: a "Paixão segundo S. Mateus" e a "Paixão segundo S. João". Em música católica: "Missa em si menor" e "Magnificat" a cinco vozes. Em obras instrumentais escreveu para todos os géneros da época: prelúdios e fugas, fantasias, sonatas, tocatas, partitas, suítes, variações, concertos, corais, etc.

Os títulos mais nomeados, entre muitos, são: as duas paixões, as Suítes francesas e inglesas, O Cravo bem temperado (dois volumes), os Concertos Grandeburgueses, as Suítes para violoncelo, as Sonatas e Partitas para violino solo, as Variações Goldberg, a Oferenda Musical e A Arte da Fuga.

No fim da vida vivia um período de grande debilidade física. Estava quase cego, devido às cataratas, sendo objecto de uma mal sucedida operação cirúrgica aos olhos. Vítima de uma apoplexia faleceu em Leipzig a 28 de Julho de 1750.

             

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JOÃO DE BARROS

 

Fora do âmbito da Renascença portuguesa, mas cultivando a poesia de inspiração nacional, encontram-se três grandes poetas: Afonso Lopes Vieira, António Correia de Oliveira e João de Barros.

Nasceu na Figueira da Foz em 4 de Fevereiro de 1881; formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra; dedicou-se ao ensino secundário, onde foi professor sabedor e um grande educador.

A fé nos destinos do nosso povo, o amor a tudo o que é português, um optimismo sadio, fazem dele um poeta de raiz essencialmente portuguesa. Tudo  nele é entusiasmo e vibração. Em 1925 desempenhou o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi membro ilustre da Academia das Ciências de Lisboa, desde 1913, e sócio da Academia Brasileira, desde 1920, e legou à posteridade uma obra literária extensa e valiosa.

O primeiro livro publicou-o aos dezoito anos, intitulado "Algas", um pouco ao gosto parnasiano. Depois surgiram muitos, dos quais se salientam: "Poema dos Sonhos" (1900), "Anteu" (1912, "Oração à Pátria", "O ritmo de exaltação", "D. João", "Císifo", "Títulos de Vida Vitoriosa" (1944), "Humilde Plenitude" (1951), "A Caminho da Atlântida", "Sentido do Atlântico", "Portugal, Terra do Atlântico", "Terra Florida", "Ansiedade", "Odes à Bélgica", etc.

            Adaptou para prosa a "Odisseia" do grego Homeroe "Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo" (adaptação prosada do imortal monumento camoniano).Escreveu também muito para jornais e revistas.

A poesia de João de Barros traduz um estado de alma que nunca negou a sinceridade e as virtudes do espírito de um verdadeiro homem que soube revestir a sua verdade ideal de humanidade, de fraternidade e de portuguesismo.

Em 1960 a morte veio buscar este laborioso escritor da terra lusitana.

 

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JOÃO DE DEUS

 

João de Deus Ramos foi o mais popular dos poetas oitocentistas portugueses, sendo S. Bartolomeu de Messines, próximo da cidade algarvia de Silves, o seu berço. Veio ao mundo no ano de 1830 e acabou os seus dias em Lisboa, em 1897.

Em Coimbra tirou o curso de Direito e lá começou ainda a estudar advocacia  e jornalismo, prosseguindo em Beja, em Évora e por fim em Lisboa, onde assentou morada. Granjeou grande estima em todos os lugares onde esteve, tendo sido considerado um espontâneo dominador da poesia, conseguindo que o povo tivesse gosto pelo romantismo, o que até então ninguém alcançara e nessa altura já o sentimentalismo romântico decaía sensivelmente, enquanto crescia o realismo. Foi o poeta do amor. A sua alma ingénua, terna espelha-se no cristal dos seus versos, os mais espontâneos que em língua portuguesa se têm escrito. Meses antes do seu fim foi alvo de uma carinhosa homenagem dos estudantes, a que aderiu todo o País.

A maioria da sua obra poética encontra-se nos livros: "Flores do Campo", "Folhas Soltas" e "Campo de Flores". Este último, saído em 1893, contém, entre o mais, os dois livros anteriores. Escreveu também as suas "Prosas" e ainda a "Cartilha Maternal", método de leitura para crianças, que apareceu em 1876 e que continua a ter uso nos jardins-escola da presente época.

Foi senhor de uma linguagem encantadoramente singela, não obstante ser profunda e perfeita.

 

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JOÃO LIMA CRUZ

 

Filho de António Maria Rodrigues, natural de Valdreu, e de Maria Sousa Lima, natural de Escariz S. Martinho, ambos do concelho de Vila Verde, distrito de Braga, João Rodrigues de Sousa Lima Cruz nasceu na terra natal da mãe a 21 de Dezembro de 1905.

Os pais eram professores primários, cargo de distinção naquele tempo, embora sem a remuneração justa e a importância relativa actual, sem grandes recursos pecuniários, partiu para Lisboa, a fim de frequentar a Faculdade de Medicina onde, em 1935, recebeu o diploma de médico. Depois de se diplomar continuou a viver na capital, aprendendo bastante com os mestres Drs. Francisco Gentil e Polido Valente, com quem manteve uma relação de mútua estima.

Montou consultório na Vila de Prado, a meia dúzia de km. de Braga, onde já havia dois médicos, razão porque foi recebido com uma certa animosidade por parte de algumas pessoas. Chegou mesmo a receber cartas anónimas a ameaçá‑lo. Foram tempos difíceis, mas tantas peripécias aumentaram a sua vontade de ficar e conseguir vencer.

Zona rural e pobre, a clientela era escassa. Também na época a profissão era bastante ingrata, grassando muitas e diversificadas doenças, hoje praticamente inexistentes, mas que então eram mortais, como a tuberculose, a pneumonia ou até uma simles diarreia, especialmente nas crianças. Nos meses mais quentes, mais ou menos a partir de Junho, chegava a passar duas certidões de óbito por dia.

O Dr. Lima Cruz era um homem bondoso, de excelente coração, que pensava mais nos outros do que em si, razão porque as suas consultas eram muito baratas e, parte das vezes, nem se cobrava delas, atendendo às enormes dificuldades dos doentes.

Era um idealista e talvez um pouco ingénuo, pois se nunca esteve filiado em algum partido também nunca escondeu o facto de ser contra o regime vigente, nem nunca se furtou a dar a sua firme e franca opinião.

Quando trabalhou na Casa do Povo de Sampaio, tinha a preferência para o posto de médico do partido, um cargo que havia na altura pago pelo Estado; foi, então, denunciado à PIDE como comunista e também por, supostamente, ter bombas em casa. Conseguiu provar a sua inocência, graças a sinceros e fundamentados testemunhos de pessoas que o defenderam, livrando‑o assim de ser preso, mas perdeu o lugar e quaisquer hipóteses de algum dia o conseguir.

O trabalho, a competência, a bondade, a dedicação e o samaritanismo do Dr. Lima Cruz foram atributos muito apreciados por quem o rodeava, reconhecimento bem patente, aliás, na sentida homenagem que lhe foi prestada na Vila de Prado a 26 de Março de 1988, que muito o sensibilizou e deixou feliz.

Sempre gostou da carreira que seguiu e, apesar de exigir imenso dele, sentia‑se compensado pelo que recebeu em troca.

Deixou de praticar a medicina, unicamente por causa da vista. Mais tarde, um acidente cardiovascular retirou‑lhe grande parte da visão do olho direito e, com enorme mágoa, foi forçado a encerrar o consultório.

Amargurado, afirmava que apenas se arrependia de, por vezes, devido ao cansaço e excesso de trabalho, não ter talvez feito tudo, mas mesmo tudo o que estava ao seu alcance para salvar uma vida.

Em Braga, a 15 de Setembro de 1996, no seio da família que sempre amou e que tanto lhe queria, teve o derradeiro hálito.

 

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BRAHMS

 

No dia 7 de Maio de 1833, na cidade de Hamburgo, Alemanha, nasceu Johannes Brahms, compositor que não ficou limitado pela fronteira territorial  alemã, mas que, num século de nacionalismos, criou uma vasta obra musical que em tudo traduz a alma e o sentimento germânico e se pauta por um carácter universal.

As obras de Brahms são das mais tocadas nas grandes salas de concertos em toda a parte, sendo dos compositores que mais obras gravadas tem em todas as etiquetas discográficas. Em países com tradições musicais tão diversificadas, como na Inglaterra, Itália, Estados Unidos e França, as suas composições tiveram estreias calorosas, ao longo da sua vida e, um século volvido, ainda fazem parte dos repertórios de qualquer solista que se preze, dos melhores grupos de câmara e das mais prestigiadas orquestras mundiais, sempre com enorme sucesso.

O carácter universal da obra de Johannes Brahms resulta do seu grande interesse pela tradição musical europeia e pelas composições de Bach e de Beethoven, não faltando um apurado gosto pela sua época. Devido à expressão emotiva, as obras de Brahms inserem-se no mais puro sentido da estética romântica e nunca escreveu uma nota de música com intenção de revolucionar a linguagem musical. Esta forma de actuar valeu-lhe severas críticas de musicólogos e críticos que o consideravam um académico tardio.

De facto, as suas primeiras obras revelam a influência dos românticos Mendelssohn e Schumann, progredindo no sentido do classicismo, sendo considerado defensor da música pura, contrária à música de programa.

O grande público com as magistrais obras de Brahms: as quatro sinfonias; os dois concertos para piano; o concerto para violino; as aberturas orquestrais e as “Danças húngaras; as sonatas, as baladas, as variações, os "intermezzi" e os caprichos para piano; o "Requiem alemão" e a rapsódia para contralto; a numerosa música de câmara, entre a qual se destacam as sonatas para violino e piano, os três quartetos de cordas, os dois sextetos, o quinteto com clarinete, o quinteto com piano, entre tantas outras sonatas, trios e quartetos,

 além das extraordinárias canções – "Lieder" – que nos legou.

Há 101 anos, mais precisamente no dia 3 de Abril de 1897, na cidade de Viena, morria um dos compositores mais proeminentes do século XIX. A cidade onde Brahms passou a segunda metade da sua vida, chorou a sua morte com profundo pesar.

 

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HAENDEL

 

            Jorge Frederico Haendel, em Halle, no reino de Hanover, Alemanha, teve o seu berço, a 23 de Fevereiro de 1685. Embora de origem alemã é considerado um compositor inglês. Foi um grande autor de óperas em Hamburgo, em seguida viveu na Itália e, por fim, instalou-se em Londres onde trabalhou como empresário, organista e principal músico da corte.

Compôs para órgão, piano, violino e orquestra. Escreveu música muito variada e nos géneros mais diversos para a época. Todavia, onde se tornou verdadeiramente conhecido e onde, com efeito, se mostrou um grande mestre, foi na oratória, um género dramático, acompanhado por música, representando, essencialmente, cenas religiosas. São títulos de renome as oratórias: "Saul", "Israel", "Messias", "Sansão", "Sexel", "Heracles", "Besaszar", "Judas Macabeu", "José", "Joshua", "Alexandre Balus", "Theodora", "Salomão" e "Jezhta".

É considerado um dos grandes virtuosos do órgão, ao lado do seu contemporâneo João Sebastião Bach. Ambos reconstruíram, em maiores proporções, a polifonia vocal, tendo como essência a polifonia instrumental para órgãos.

A sua música, grandiosa e triunfante, é considerada a máxima realização do ideal barroco. Empolgante e estimulante, é uma música universal, construída com poderoso sentimento, acção e movimento ordenados, fundindo elementos de várias nacionalidades.

A sua composição tinha o intuito e preocupação primordial de elevar a consciência humana, no sentido da percepção do lado divino da existência.

"O Messias" – apontada por quase todos os críticos como a sua obra prima – é um documento polifónico de grande envergadura, composta em 1742. Dessa oratória faz parte o "Aleluia", que se celebrizou e que é um momento musical de rara beleza, de grande religiosidade e elevação. Haendel declara que esta obra brotou na sala onde trabalhava e que a inspiração foi tão intensa que se tornou difícil acompanhar para escrever o que ouvia. Viu a Hoste dos Anjos que imergiu nos sons dessa música, iluminados pelo Cristo. Foi para ele tão nítida a sensação de que não era sua aquela música, que nunca cobrou nada por nenhuma das apresentações de "O Messias". Destinou todos os lucros para obras de caridade.

Os ingleses consideram-no um verdadeiro ídolo da sua música clássica.

            Na Abadia de Westminster encontram-se os seus restos mortais, delicadamente venerados por todos os visitantes que, numa digressão por Londres, não o esquecem.

A morte levou-o, na cidade onde repousa, a 14 de Abril de 1759.

 

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JOSÉ RÉGIO

 

José Régio é o pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira. Filho de um ourives, é natural de Vila do Conde, onde chegou ao mundo em 17 de Setembro de 1901.          Em 1920 ingressou na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Letras, licenciando‑se, em 1925, em Filologia Românica. É aí que dá início à sua actividade literária e adopta o pseudónimo com que ficaria conhecido.

            Poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta e crítico, é autor de obras muito consagradas na nossa literatura. Poesia ‑ "Poemas de Deus e do diabo" (1925, em que se estreia na literatura), "Biografia", "As encruzilhadas de Deus", "Fado", "Mas Deus é grande", "A chaga do lado"; romance e novela ‑ "O príncipe com orelhas de burro", "Jogo da cabra cega", "Davam grandes passeios aos domingos", "Gosto de mulheres", "A velha casa"; teatro ‑ "Benilde ou a Virgem‑Mãe" (peça adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira), "El‑rei Sebastião", "A salvação do mundo"; crítica e ensaio ‑ "Críticos e criticados", "António Botto e o amor", "Em torno da expressão artística", "Pequena história da moderna poesia portuguesa"; acrescem ainda diversas antologias.

            Leccionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e, a partir de 1929, em Portalegre, tendo aí permanecido até 1962, altura em que se reforma e regressa definitivamente à terra natal.

            Ao longo da vida, a par das ocupações profissionais e do intenso labor literário, dedicou‑se à recolha de peças de arte sacra, colecção que agora constitui o recheio de um museu, que o tem como patrono.

            Em 1927, juntamente com Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, fundou a revista "Presença".

            Em 1970, a título póstumo, foi‑lhe atribuído o Prémio Nacional de Poesia, galardoando o conjunto da sua obra poética.

            Portalegre e Vila do Conde, cidades onde passou a vida, homenagearam‑no, transformando as suas residências em museus.            Na terra que lhe foi berço, de que muito gostava e tanto exaltou, teve o derradeiro suspiro em 22 de Dezembro de 1969.

 

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JÚLIO DANTAS

 

É um ilustre filho da cidade de Faro, onde pela primeira vez viu a luz no ano de 1876. Formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa, depois de ter feito os estudos secundários no Colégio Militar. Terminada a formatura foi nomeado Oficial-Médico do exército.

Ao longo da vida desempenhou inúmeros cargos públicos, de que se destacam: Presidente da Academia das Ciências - o lugar mais importante e que ocupou ao longo de muitos anos.

Foi muito notável nas Letras e escreveu imenso ao longo da existência. Evidenciou-se na poesia, no conto e no drama, embora tenha cultivado outros géneros literários.

Em poesia escreveu os volumes "Nada" e "Sonetos". Mas foi no teatro que a sua actividade foi grande. De entre outros sobressaem os títulos das peças: "O que morreu de amor", "Viriato trágico", "A Severa", "A ceia dos cardeais" (em verso), "Um serão nas laranjeiras", "Outono em flor", "Frei António das Chagas", D. Beltrão de Figueiroa", 2Rosas de todo o ano2, 2O último beijo", "Mater dolorose", etc. Em "Rosas de todo o ano" afirmou notáveis dotes de homem de teatro e um vigoroso talento literário.

Como contista e cronista apareceram os volumes: "Pátria portuguesa", "O amor em Portugal no século XVIII", "Eles e elas", "Mulheres", "Marcha triunfal.

No campo da oratória escreveu um livro que intitulou "Tribuna".

            Deixou também para a posteridade uma tese de medicina, muito curiosa, aliás, subordinada ao título: "Poetas e pintores de Rilhafoles2.           

Após uma vida longa e uma vastíssima obra, teve o derradeiro hálito em 1962.

 

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JÚLIO DINIS

 

Júlio Dinis não é o nome verdadeiro do ilustre literato portuense que, apenas com 32 anos, deixou de fazer parte do número dos vivos.

Com este pseudónimo assinou as suas obras, que foram largamente lidas e apreciadas pelos seus contemporâneos e pelas gerações futuras.

Teve o seu berço no Porto no dia 14 de Novembro de 1839 e foi baptizado com o nome de Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

fDepois da instrução primária em Miragaia, formou-se em Medicina em 1861 (aos 22 anos) na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Quatro anos mais tarde foi nomeado professor, mas a actividade literária ocupou-lhe os melhores anos de vida.

A tuberculose, que abundava por essa época, atingiu-o e ele refugiou-se nos salutares céus dos campos durienses, onde viveu por bastante tempo, tendo sabido sempre ser superior à calamidade que lhe tolhia a vida. Assim, demonstrou sempre uma sã disposição de espírito e de elevação moral.

O romance campesino em Portugal deve-se à sua simplicidade e bom gosto, a par de uma viva naturalidade e a perfeita verosimilidade de extensos trechos dos seus romances, factores que levam a considerá-lo meio realista, meio romântico.

Pelo grande carácter e conformismo, ao longo da vida viu o mundo por uma face de surpreendente optimismo, de esperança e de sadio ardor.

Era ainda muito jovem quando começou a rabiscar umas poesias líricas de contemplação, que em 1873 formaram o seu livro, "Poesias", onde se encontram versos muito simples, de muita candura e agradáveis, para todos os paladares. Três anos antes, 1870, os muitos contos que até então escrevera formaram a obra, "Serões na Província". Alguns dos seus romances publicados em folhetos que rapidamente atingiram o cume da

popularidade e têm sido considerados do melhor que se produziu em língua portuguesa. O estilo delicado e bucólico está bem patente nas obras: "Os fidalgos da casa mourisca"; "Uma família inglesa"; "As pupilas do senhor reitor" e "A morgadinha dos canaviais", volumes que ainda hoje são a delícia dos que apreciam a boa leitura.

Após a morte, ocorrida no dia 12 de Setembro de 1871, juntaram variados trabalhos de Júlio Dinis e editaram o Livro: "Inéditos e esparsos".

 

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LA FONTAINE

 

É natural de Chateau- Thierry, na região francesa da Champagne, onde veio ao mundo no ano de 1621.

É autor de uma vasta obra, como contos, poemas, máximas e pensamentos, mas ficou celebremente conhecido pelas suas fábulas. Essas histórias atravessaram os séculos e continuam em voga. Estão na boca do povo e muitas pessoas as repetem sem dar-se conta da sua origem. Quem não conhece a fábula da "Raposa e das Uvas", do "Lobo e do Cordeiro", e muitas outras tão famosas quanto estas que circulam por todo o mundo?

Os primeiros seis volumes das suas fábulas vieram à luz em 1668. Entre 1678 e 1679 lançou outros cinco. Foi um escritor, mas também um grande filósofo e extraordinário compilador. Na verdade, boa parte da sua produção deve-a a Esopo, o fabulista grego que viveu no século VI  a. C e que, por essa altura, tinha caído no esquecimento. Com graça e arte traduziu e recondicionou a obra de Esopo e com esse trabalho obteve umm enorme sucesso.

"Pérolas para os porcos", por exemplo, é uma expressão retirada da sua obra.

            Afirmam alguns biógrafos que a familiaridade com os animais, que são as suas personagens predilectas, lhe vinha das suas origens. La Fontaine era filho de um director de reserva florestal, cargo que herdou do pai.

            Depois de um casamento infeliz, em 1647, saiu de Chateau-Thierry e passou a frequentar os meios literários parisienses.

            Morreu, famoso e consagrado, aos 73 anos, no dia 13 de Abril de 1695.

 

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LEONARDO da VINCI

 

     Leonardo da Vinci (o nome por que é conhecido é fruto de uma alcunha, por ter nascido na cidade italiana de Vinci - apelido que lhe ficou para a posteridade), nasceu em 1452. Homem de um extraordinário talento, foi grande em tudo a que emprestou as suas quase inesgotáveis capacidades. Por isso, se notabilizou como pintor, arquitecto, escultor, engenheiro, músico, cientista brilhante, bem como um dos maiores inventores da História.

Fez os seus estudos sob a orientação de um artista de fama, chamado Andrea del Verrochio, que, ao olhar um anjo que Leonardo pintou, o achou de tal forma superior às suas próprias obras, que nunca mais teve vontade de pintar.

Por volta do ano de 1477, da Vinci estabeleceu-se como artista por conta própria e, cerca de cinco anos depois, era engenheiro em Milão e tinha inventado um sistema de irrigação para levar água para as planícies da Lombardia. Como era canhoto habituou-se a escrever de trás para a frente para se ler como num espelho. Deixou-nos inúmeros esboços dos seus inventos, que incluíam várias armas secretas, uma espécie de planador, um submarino e um género de helicóptero. Não passaram, porém, do papel, muitas destas ideias.

            Apesar de toda esta azáfama, ainda arranjou tempo para pintar verdadeiras obras de arte, de que se destaca "Mona Lisa", uma das pinturas mais famosas do mundo. Interessouu-se, também, pelo funcionamento interno do corpo humano. Fez alguns esboços incrivelmente pormenorizados do esqueleto humano, dos órgãos e do sistema nervoso.

É considerado um dos criadores da hidrodinâmica e o precursor da ciência moderna.

Faleceu no ano de 1519.

 

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LOUIS BRAILLE

  

Louis Braille nasceu na pequena  aldeia francesa de Coupvray, no distrito de Seine-et-Marne, a cerca de 45 km. de Paris, no dia 4 de Janeiro de 1809. O pai, homem de certo prestígio na região, era seleiro ou correeiro. Aos três anos, quando brincava na oficina de trabalho do pai, ao tentar perfurar um pedaço de couro com uma sovela, aproximou-a do rosto, acabando por ferir o olho esquerdo. A infecção produzida pelo acidente expandiu-se e atingiu o outro olho. O menino ficou completamente cego.

Contando com o amor e fiel apoio dos pais, Louis acostumou-se logo à nova situação. Com o auxílio de uma bengalinha, ia à escola, onde demonstrou em pouco tempo inteligência superior aos meninos da sua idade, pois decorava e recitava as lições que ouvia, espantando os professores com a sua inteligência brilhante.

            Aos sete anos consegue ingressar na instituição de Valentin Haüy, um homem culto e de nobre coração, que, em 1784, fundara em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para a vida. Haüy, apologista das filosofias sensistas - defensoras de que tudo depende dos sentidos -, adapta o alfabeto vulgar, traçado em relevo, a fim de que as letras fossem perceptíveis pelos dedos dos destinatários.

Também, por essa época, Charles Barbier de la Serre, um capitão de artilharia, aperfeiçoava um código através de pontos, que podia ler-se com os dedos e que era usado para velar os segredos das mensagens militares e diplomáticas, a que chamou "escrita nocturna" ou "sonografia".

            Um encontro com Teresa von Paradise, concertista cega, foi decisivo na sua vida. Teresa idealizara um engenhoso aparelho para ler e compor ao piano, que fascinou Braille. Aprendendo música com ela, tornou-se rapidamente organista e violoncelista. Aos quinze anos foi admitido como organista da Igreja de Santa Ana, em Paris.

Nessa altura seus pais já tinham morrido, assim como o seu grande amigo Haüy, director do Instituto que se transformara no seu lar. Como dedicasse grande parte do seu tempo à educação dos novos alunos, aceitaram-no como professor do Instituto.

Rapaz educado e agradável, era recebido nos melhores salões da época. E foi num desses salões que Braille conheceu Alphonse Thibaud, então conselheiro comercial do governo francês. No meio de uma conversa Thibaud perguntou-lhe porque não tentava criar um método que possibilitasse aos cegos não apenas ler, mas também escrever.

A princípio, Braille irritou-se com a sugestão, pois achava que a tarefa devia caber aos que viam e não a ele. Reconsiderando, começou a admitir a possibilidade de realizá-la, mesmo sendo cego.

Foi então que começou a trabalhar no código de Barbier. Após três anos, o jovem estudioso conseguiu o que queria: o sistema dos pontos em relevo representando letras. A ponta de uma sovela, o mesmo instrumento que lhe tirara a visão, passara a ser o seu instrumento de trabalho.

Geralmente, aponta-se 1825 como o momento em que o jovem aluno inventa o sistema (que mais tarde veio a ter o seu nome).

            Todavia, apenas em 1829 publica a primeira edição do trabalho, intitulado "Processo para escrever as palavras, a música e o canto-chão, por meio de pontos, para uso dos cegos e dispostos para eles". Deu-lhe forma definitiva na segunda edição, vinda a lume em 1837.

Este sistema é constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 sinais.

Este processo de leitura e escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na música, matemática, física, etc.

            Uma desilusão o aguardava: dificilmente o seu sistema seria aceite. O capital empregado pelas escolas nos enormes livros para cegos não permitia que lhes fossem deixados de lado de uma hora para a outra.

            Braille, então com vinte anos, começou a ser procurado pelos alunos do Instituto que lhe pediam lições do novo sistema. Estas aulas tinham que ser realizadas às escondidas, mas serviriam - pensava ele - para difundir o método e provar a sua funcionalidade. Braille tentava, ao mesmo tempo, exibir o sistema nos lugares que frequentava. O máximo que conseguiu foi um ofício, no qual o governo francês agradecia a sua contribuição à Ciência.

De entre os alunos a quem ensinava música havia uma pequena cega, Teresa von Kleinert. O seu talento ao piano era extraordinário, o que animou Braille a ensinar-lhe o seu sistema de pontinhos. Em pouco tempo, Teresa tornou-se concertista de sucesso. Recebida com agrado nos salões da Europa, Teresa difundia, a cada apresentação, o sistema Braille e pela primeira vez os jornais falavam no seu nome, até então desconhecido. A 6 de Janeiro de 1852 Braille morreu, sem chegar a ver reconhecido o seu trabalho. Só dois anos após a sua morte o sistema foi reconhecido oficialmente na França, depois que Teresa se exibiu na Exposição Internacional de Paris. Ao piano, pôde mostrar ao mundo como é que um cego podia aprender a ler e a escrever. Isso tudo, graças a um sistema criado por outro cego.

 

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CAMÕES

 

A Luís Vaz de Camões há quem lhe atribua o berço em Lisboa e há quem afirme que a sua naturalidade é Coimbra. Todavia, a primeira hipótese é a mais consistente e parece corresponder mesmo à verdade. O ano que o viu chegar ao mundo foi o de 1524 e, na cidade de Lisboa, completamente na miséria, no dia 10 de Junho de 1580 desapareceu do número dos vivos – por ironia da sorte no mesmo ano da queda da Pátria, que tanto engrandeceu nos seus versos.

Descendente de família fidalga estudou na Universidade de Coimbra, cidade onde viveu durante muito tempo. Frequentou, por curto espaço o paço lisboeta – corte de D. João  III . Como era hábito entre  os gentis-moços do seu tempo, pugnou nas posições militares lusas norte-africanas. Em 1547, numa escaramuça junto à praça forte de Ceuta, ficou vítima de cegueira unilateral – deixou de ver do lado direito. Carácter impetuoso e aventureiro envolveu-se, frequentemente, em duelos e rixas, em que sempre deu provas de grande valentia e destreza. Em 1550, de novo na Metrópole, feriu um servo real, feito que lhe valeu um ano de reclusão, durante o qual compôs o primeiro canto d’ "Os Lusíadas". Em 1553 seguiu voluntariamente para o Oriente, onde o seu ânimo guerreiro o leva a tomar parte muito activa em várias expedições militares, incursões e actos de defesa, muitas e notáveis proezas na área de Goa. Da Índia partiu para Macau em missão pública; aí escreveu mais seis cantos do seu mais célebre Poema. De regresso  a Goa naufragou nas águas litorais do Camboja, junto à foz do Mekong. Neste acidente se perde grande parte da sua obra – entre outros, o livro de título "Parnaso"(nome da fonte mitológica da inspiração poética), quiçá o seu segundo melhor livro, parcialmente reconstituído mais tarde.

Nesse naufrágio conseguiu, dificilmente, salvar-se e salvar, nadando a um braço só, o manuscrito d'"Os Lusíadas". Em Goa foi, injustamente, acusado e novamente preso; conseguiu, porém, justificar-se e recuperar a liberdade.

 Após várias outras peripécias partiu para Lisboa, mas afinal deteve-se em Moçambique, em 1567; dois anos volvidos ali o vai encontrar, em pobreza absoluta, Diogo Couto. Seguiram juntos para a Europa, onde el-rei D. Sebastião lhe concede uma tença anual de 15000 réis – uma insignificância.

É em 1572 que vem a lume a primeira edição da grande Epopeia.

Exclusive a sua obra máxima, "Os Lusíadas" (poema épico em dez divisões ou cantos, altamente influenciado pela "Eneida", do clássico Virgílio, latino dos séculos II e I  antes da era cristã), predominantemente em oitava rima, legou ainda vasta obra lírica – quer nas rimas tradicionais (sobretudo redondilhas), quer na medida nova italiana (dolce stilo nuovo); sonetos, canções, elegias, odes (composições em estâncias simétricas para cantar), éclogas e outras campestres, sátiras (censuras jocosas).

No género dramático, em que foi cultor menos brilhante, deixou três autos, em versos heptassilábicos; intitulam-se: "El-rei Seleuco" (os Selêucidas foi uma dinastia síria), os "Anfitriões" (sobre velhos temas da comediografia da antiguidade clássica) e "Filodemo" (de enredo novelesco, ao gosto peninsular).

Foi senhor de um estilo novo e original. Deve-se-lhe a introdução na língua pátria de muitos vocábulos, expressões e  formas, que a enriqueceram elegante e sabiamente. Segundo Jaime de Séguier “ o seu poema espelha a alma portuguesa com a sua feição sonhadora e amorosa, o seu entusiasmo, o seu espírito de aventura, o seu belicoso ardor.”

Foi também um erudito cientista em História, Geografia, Humanidades clássicas (estudo das Belas-Artes) e Literatura geral.

Ao expirar, enfermo e desolado, sem recursos, tinha por único companheiro António – um escravo jau, ou javanês, natural da ilha de Java, arquipélago Índico de Sonda, que ele libertou e se lhe afeiçoou com uma amizade ímpar e que também catequizou.

 

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LUÍS PASTEUR

 

Em 27 de Dezembro de 1822, em Dale, no Leste de França, terceiro filho de um industrial de peles, Luís Pasteur chegou ao mundo. Frequentou a escola de Arbois e em 1839 ingressou no Colégio Real de Besançon para cursar Letras e Ciências, mas não obteve uma boa classificação a Química, a disciplina que o tornaria admirado e famoso. Frequentou depois a Escola Normal Superior, em 1843, distinguindo-se nas cadeiras de Física, Matemática e Química. A 23 de Agosto de 1847, com apenas 25 anos, fez o seu doutoramento em Ciências.

Um dos fundadores da Química orgânica foi Jean-Baptiste Dumas, que ele sempre considerou o seu pai espiritual, a cujas aulas assistiu na Sorbonne e que foram o incentivo para que se sentisse atraído para prosseguir os estudos da química do sangue. Seguidamente, entre 1844 e 1847 estudou os ácidos contidos nos frutos, observando-os ao microscópio e expondo-os à luz polarizada, até chegar a conclusões inéditas, aliás foi o seu primeiro triunfo científico, que apresentou publicamente na  Academia das Ciências de Paris.

Aos 27 anos era professor de Química em Estrasburgo, quando casou com Marie Laurent, filha do reitor da Universidade dessa cidade, de quem teve cinco filhos, chegando apenas dois a adultos. A morte de dois filhos muito pequenos com febre tifóide afectaram-no bastante e contribuiu significativamente para o prosseguimento dos seus estudos a investigação sobre as doenças causadas por micróbios. Todavia, o que o tornou verdadeiramente famoso foi a descoberta da vacina contra a raiva, em particular por estar em perigo  a vida de uma criança. Embora tenha sido com esta descoberta que entrou na história da ciência, houve muitas outras a que se dedicou.

Os agricultores do seu país viam tantas vezes o vinho transformar-se em vinagre, o que era uma enorme perda para eles e para a economia francesa. O Imperador Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte) pediu-lhe que investigasse o porquê dessa fermentação, proporcionando-lhee as melhores condições de trabalho, e, nesse sentido, em 1867, é criado o Laboratório de Físico-Química, expressamente para ele, na Escola Normal Superior.

Depois de aturados estudos descobriu que, submetendo o vinho a um aquecimento elevado durante alguns segundos e, logo de seguida, a um abaixamento repentino a menos de dez graus  (depois esse método passa a ser utilizado também na cerveja e no leite), matando os germes que alteravam os líquidos. Estava descoberta a operação de esterilização, generalizada em todo o mundo, a que se dá o nome de pasteurização. Lançou as bases da microbiologia (1858-64), ao verificar a disseminação de germes no ar. Estudou também a doença que atacava os bichos-da-seda ainda no casulo. Descobriu a vacina contra o carbúnculo, que até à época dizimava os carneiros da África do Sul.

Aos 46 anos teve uma trombose que lhe paralisou parcialmente o lado esquerdo. Sofreu um segundo ataque de paralisia em 1887.

Na passagem dos 70 anos, em 1892, recebeu da III República Francesa uma grande homenagem, na Sorbonne.

A morte visitou-o e arrancou-o do mundo em 27 de Setembro de 1885, mas a sua mulher opôs-se a que fosse para o Pantéon, onde repousam os notáveis de França. Decidiu-se que ficaria numa cripta mandada fazer no Instituto que tem o seu nome.

 

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MAHATMA GANDHI

 

Mohandas Karamchand Gandhi veio ao mundo no dia 2 de Outubro de 1869, filho do primeiro-ministro de Rajkot, um dos muitos estados autónomos da Índia, onde a família gozava do privilégio de encarar os colonizadores como seus iguais. Teve uma infância sem preocupações, não sujeito à miséria sentida por milhões de outros indianos. A morte inesperada do pai, porém, alterou esta realidade. Aos treze anos abandonou as aulas e casou-se com uma jovem mais nova ainda. Cumpria, assim, a tradição hindu, embora, intimamente, soubesse que o seu rumo ainda não estava definido.

Em 1888 viaja para Londres, à procura de uma licenciatura em Direito, cumprindo a promessa feita à mãe de que não tocaria em mulheres, carne e vinho, ao longo da estadia no estrangeiro. Apenas pretendia alimentar o espírito. Por isso, deixava o primeiro filho Harilal, com alguns meses de idade.

A liberdade de pensamento que encontrou em Londres não era permitida nas colónias da coroa. Relacionou-se com políticos, religiosos, diferentes correntes que partilhavam a revolta contra o "pensamento iluminado" da Inglaterra vitoriana. Tinha um grande interesse pela religião e lá conheceu "Bhagavad Gita", que viria a ter enorme influência na sua própria filosofia de vida.

Regressado a casa não enveredou por uma carreira de advocacia, aceitando a oferta de um homem de negócios na África do Sul. Ali começou a sentir na pele a discriminação racial praticada pelos colonos europeus e em poucos anos converteu-se no líder político e espiritual da comunidade indiana lá residente. Nessa terra estabeleceu os princípios da sua filosofia de resistência pacífica. Acreditava que através da verdade e da não-violência opressor e oprimido acabariam por reconhecer-se mutuamente como seres humanos iguais em direitos e deveres.

            Numa viagem à Índia, em 1909, publicou um livro intitulado "Hind Swaraj" (Governo Interno da Índia), criticando a civilização ocidental. Seis anos depois regressou definitivamente ao país, sendo já uma figura bastante conhecida na comunidade hindu. Começa, então, a participar em acções de resistência contra o domínio britânico, pondo em evidência os seus dotes

de orador, aliados à imagem de santidade que cultivava pela prática do celibato. O mais popular escritor indiano da época, Rabindranath Tagore, pôs-lhe a alcunha por que ficaria conhecido para a posteridade: Mahatma, A Grande Alma.

            Em princípios de 1930, o Congresso Nacional Indiano declarou que a única solução que aceitava era a independência, sendo Gandhi escolhido para passar da ameaça à prática. A 2 de Março remeteu uma carta ao vice-rei da Índia, Lord Irwin, dizendo que se as exigências indianas não fossem aceites, seria forçado a não cumprir as leis que regiam o mercado do sal, uma importante fonte de receitas para a coroa britânica.

Após diversas peripécias, em 1931, Gandhi partiu para Londres, recolhendo imensos apoios, embora as negociações acabassem por não ter resultados práticos.

Quando em 1939 rebentou a Segunda Guerra Mundial, o Congresso Nacional Indiano optou pela neutralidade. Em Agosto de 1942, num discurso histórico, o líder político e espiritual dos hindus pediu a todos os indianos que lutassem ou morressem pela independência do país.

            Gandhi passou os derradeiros meses de vida em Deli. Poucos dias após a assinatura do acordo de independência, explodiu uma bomba na casa onde estava hospedado. Desvalorizou, contudo, o incidente, recusando o reforço da segurança.

Em 30 de Janeiro de 1948, Gandhi recebeu em sua casa o grande amigo e vice-primeiro-ministro indiano Vallabhai Patel. No final da conversa saiu para o jardim, onde era aguardado por uma enorme multidão. Do meio da confusão, surgiu um rapaz, chamado Nathuram  Godse, que caminhou até ele, curvando-se em sinal de respeito. Depois, Puxando de um revólver, deu três tiros no peito do ancião, que caiu fulminado.

 

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MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO

 

A cidade de Lisboa deu o berço e viu nascer Maria Amália Vaz de Carvalho, a 1 de Fevereiro de 1847. Não frequentou o liceu, tendo tido como educadores a mãe e os livros, estes, companheiros inseparáveis ao longo de toda a vida e onde buscou e encontrou o alimento para a sua saciedade. Na sua casa teve lugar o primeiro salão literário de Lisboa. Recebeu todas as grandes figuras cultas do seu tempo e dividiu por múltiplas actividades o seu génio de autodidacta: foi poetisa, tradutora, jornalista, ensaísta e educadora. Casou-se com o poeta Gonçalves Crespo, de quem teve dois filhos e foi apelidada de "a Staeel portuguesa", devido às semelhanças com a literatura francesa do século XVIII. A sua estreia nas letras aconteceu aos dezoito anos com um livro de poesia, sob o título "Primavera de Mulher". Em 1878, pelo nascimento do primeiro filho, profissionalizou-se nas letras, escrevendo para o "Jornal do Comércio", do Rio de Janeiro, colaboração que durou mais de trinta anos. Aliás, o jornalismo tornou-se o seu ganha-pão, tendo trabalhado para diversos periódicos portugueses e brasileiros, de que se destacam, de Lisboa, "Diário Popular", "Jornal do Comércio", "Repórter" e "Artes e Letras"; do Porto, "Actualidades" e "Comércio do Porto".

            A sua sobrevivência e a dos filhos foi, assim, assegurada, após a morte do marido, ocorrida em 1883 - o melhor dos homens e o companheiro por excelência, com quem apenas viveu nove anos.

            Manteve, com determinação, uma independência económica num exemplo prático e pessoal do que preconizou para o seu sexo. num mundo em crescente industrialização, mais do que regras de boas maneiras (que também versou com muita perícia - "Arte de viver na Sociedade ou Manual da Vida Elegante", 1895), era urgente que as raparigas fossem preparadas não só para o casamento, mas também para se bastarem como cidadãs de pleno direito. Assumiu-se sempre como feminista e nos seus livros não deixa de abordar o assunto. Apostou sempre no ensino e reconheceu, com tristeza, que "a mulher portuguesa não tem boas escolas primárias, não tem liceus capazes, ("As nossas filhas. Cartas às Mães", 1905).

            Toda a vida a animou uma grande vontade de intervenção cultural e política, que manifesta em quase todos os seus livros, quer se trate de história, biografia, impressões de viagem, poesia, ensaio ou textos de educação.

            De entre a sua imensa actividade, que se desenvolveu até 1920, destaque para "Arabescos", "Mulheres e crianças", 1880; "Contos para os nos sos Filhos", 1886; em colaboração com Gonçalves Crespo, "Pelo Mundo Fora", "Vida do Duque de Palmela", "D. Pedro de Sousa Holstein", 1896; "Em Portugal e no Estrangeiro", 1899; "Figuras de Hoje e de Ontem", "Cérebros e Corações",1903; "Ao correr do Tempo", 1906; Impressões de História", 1910; "Coisas de agora": Li as obras, entre as quais as "Obras completas de Gonçalves Crespo", 1897

 e "O Fumo do meu Cigarro", de Augusto de Castro, 1917.

            Depois de uma vida toda dedicada à política e à cultura, visitou-a a morte e com ela partiu, na cidade que lhe foi berço, a 24 de Março de 1921.

 

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MARIA CALLAS

 

Maria Kalogheropulos, conhecida por Maria Callas, extraordinário soprano, filha de um casal grego emigrado, que, embora vivendo com modéstia, não tinha grandes dificuldades económicas, teve o seu berço em Nova Iorque, em 1923.

Foi muito importante para o seu futuro ter começado a aprender piano. Em 1937 os pais separam-se e ela regressa à Grécia, juntamente com a irmã e com a mãe. Entrou para o Conservatório Nacional de Atenas, somente com 15 anos. Nesse mesmo ano, ganha um prémio, que lhe é atribuído pela interpretação de "Santuzza", - "Cavalari Rusticana". Apesar de ter uma voz grave consegue atingir, brilhantemente e com facilidade, o registo agudo. Disto se apercebeu Elvira Hidalgo, famosa professora espanhola, que aconselha Maria a estudar a técnica da coloratura  e a empenhar-se na disciplina do canto.

De 1942 a 1944 cumpre um contrato na Ópera de Atenas, devido a várias provas interpretativas, o que a iam consagrando. Regressa aos Estados Unidos, para viver com o pai, recebendo um convite para cantar "A Gioconda", no anfiteatro de Verona, com o maestro Túlio Serafim, que se apercebeu das enormes qualidades da artista e a havia de acompanhar ao longo de muitos anos.

Com 23 anos casa com o riquíssimo Meneghini. Pisava já e  dominava os palcos dos maiores teatros líricos do mundo. Tinha-se tornado imensamente rica,  muito bela e sensual. Vestia-se nos grandes costureiros e tinha um guarda-roupa deslumbrante.

Após uma fase de enorme trabalho e cansaço aceita uma viagem de duas semanas com Onassis, no seu iate "Christina" e, acabado este cruzeiro, deixou partir o marido e ficou a viver com o magnata grego durante 9 anos.

Possuía uma voz potente e moldável. As suas interpretações sempre arrastaram e encantaram as multidões. Impôs uma personalidade vocal e teatral que influenciou a sua geração. Abandonou o palco em 1965. Dos muitos papéis que interpretou no género lírico e dramático e de inúmeros compositores, destacam-se: "Norma", de Bellini; do mesmo autor "Os puritanos da  Escócia", no papel de Elvira; representou o personagem de Violetta em "La Traviata", de Verdi; "Medeia", de Cherubini; "Tosca", de Puccini; "Lucia de Lammermore", de Donizetti.

Isolada, no seu apartamento de Paris, Maria Callas morreu em 1977, deixando perpetuado o eco de uma voz única, que soube transmitir, como nenhuma outra, toda a gama de emoções de que o ser humano é capaz.

 

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MARIE CURIE

 

Física francesa, de origem polaca, Maria Salomé Sklodowska nasceu em Varsóvia em 7 de Novembro de 1867, última dos cinco filhos de um casal de professores. Era muito inteligente e culta, com a grande ambição de estudar na Sorbonne, em Paris. Aos 25 anos abandonou o lar e a terra natal, para realizar o grande sonho da sua vida, na Cidade Luz.

Forma-se, então, em Física, e, passados dois anos, também em Matemática. Em Julho de 1895 casou-se, civilmente, com Pierre Curie, que tinha conhecido uns meses antes e donde lhe vem o sobrenome por que é universalmente conhecida. Pierre, bastante mais velho que ela, era também um físico francês e destacado cientista.

O primeiro contacto de Marie Curie com o rádio teve lugar em 1896, nos laboratórios da Sorbonne e à descoberta ela chamou "radioactividade".

Com o marido desenvolveu uma investigação extraordinariamente árdua e perigosa, que os levou a isolar uma misteriosa substância de um mineral, o que sucedeu em 1898, a que chamaram "polónio".

Trabalhou sempre com muita intensidade e, em 1910, conseguiu obter rádio puro. No ano seguinte é-lhe atribuído o Prémio Nobel da Química.

Todavia, em 1903, de parceria com o marido, tinha obtido o Nobel da Física, devido às suas investigações pioneiras sobre a radioactividade.

Nos finais dos anos 20, Marie Curie foi vítima de uma leucemia, devido à exposição aos raios mortíferos. Acabou por sucumbir aos seus efeitos, morrendo no dia 4 de Julho de 1934, num hospital francês.

 

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MARQUÊS DE POMBAL

 

Oriundo de uma família da pequena nobreza, Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu a 13 de Maio de 1699.

            Parece que frequentou a Universidade de Coimbra, dado que os registos da sua frequência nunca tenham sido encontrados.    Casou‑se, em primeiras núpcias, com uma filha do conde de Arcos, dez anos mais velha que ele; herda de um tio abastado uma grande fortuna, que lhe permite enveredar pela política.   Em 1739 é representante de Portugal em Londres, e, quatro anos mais tarde, é enviado a Viena, para sanar um conflito entre Maria Teresa de Áustria, imperatriz da Alemanha e rainha da Hungria e da Boémia, mãe da malograda Maria Antonieta, e a Santa Sé.

            Em Viena, estando já viúvo, casa com uma jovem nobre.        Regressa a Lisboa em 1749. Morre D. João V e sobe ao trono D. José que, conhecedor da sua experiência no estrangeiro, assim como o seu combate aos outros poderes que não o do Estado, o chama, tornando‑se, rapidamente, a figura mais notada do Governo. O projecto é claro, o rei aprova‑o, e Sebastião José de Melo não é pessoa para se prender com demasiados escrúpulos: pretende limitar as influências do clero e da nobreza em relação ao Estado, em especial as da ordem dos Jesuítas e da nobreza ultramarina, reforçar as alfândegas, criar novos órgãos administrativos fiscais, etc. Para o conseguir apoia‑se no funcionalismo judicial, na nobreza da corte, nos grandes mercadores e na lavoura, em especial a vinícola do Douro ‑ dos grandes monopólios que vai criar. A sua política gera enorme descontentamento, porque os preços sobem e os pequenos comerciantes de Lisboa e do Porto agitam‑se. O mesmo sucede com a nobreza de solar e com os jesuítas.             Todavia, o poder e credibilidade de que tanto necessitava no seu combate pelo reforço do despotismo absolutista de D. José, chega‑lhe com o terramoto de 1755, ao lidar com o rescaldo da catástrofe.

            A 15 de Julho de 1759, como recompensa pelo seu papel na criação do clima de prepotência e brutalidade que marcou o reinado de D. José, recebe o título de conde de Oeiras.       Dois meses após este acontecimento, expulsa de Portugal a Companhia de Jesus.

            Entretanto, a situação económica e social do País tinha‑se deteriorado. O ouro estava em crise e o mesmo sucedia aos rendimentos do Estado. Modifica o regime da Inquisição, retirando‑lhe o poder e terminando com as distinções entre cristãos velhos e novos, cria a Junta da Providência Literária, alarga a Real Mesa Censória e reforça a intervenção estatal no ensino.

            A 16 de Setembro de 1769 é‑lhe concedido o título de marquês de Pombal.

            Devido à sua inqualificável prepotência cria inúmeros e poderosos inimigos, sendo alvo, em 1772, de um atentado.

            Em 24 de Fevereiro de 1777 morre D. José e sobe ao trono D. Maria I, que concede o perdão e reabilitação da nobreza e, a 4 de Março, defere o pedido de exoneração do marquês, que é obrigado a exilar‑se na vila de Pombal.

            Morreu no exílio a 8 de Maio de 1782 e, em 1856, os seus restos mortais foram transladados para Lisboa e depositados na igreja da Memória.     

 

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MARTINHO LUTERO

 

Quando Martinho Lutero chegou ao mundo, na aldeia de Saxónia de Eislebeu, no dia 10 de Novembro de 1483, ninguém supunha que ele iria ser um dos maiores interventores no campo da religião.

No início do século XVI, todos os cristãos da Europa Ocidental e Central eram membros da Igreja Católica Romana, com obediência ao papa, que residia em Roma. A religião popular criara muitas superstições que não tinham cabimento nas doutrinas dos padres de outros tempos. Os papas pareciam mais príncipes italianos do que líderes religiosos. Foi por estas e por muitas outras circunstâncias que, nos princípios do século XVI, iniciou um movimento para tentar corrigir essas corrupções.

Era filho de um mineiro e um estudioso brilhante. Depois de se ter sentido atraído por uma visão, foi para um mosteiro, com o intuito de tornar-se num monge. Era propenso a graves crises de depressão, quando se desesperava por pensar que se não salvaria. Todo o conjunto de procedimentos da Igreja não conseguia apagar o seu sentimento de indignidade e pecado.

Pôs em questão muitas das práticas e cerimónias da Igreja, que o não satisfaziam, por achar que não estavam fundamentadas na Bíblia. Escreveu, então, as suas conclusões nas "95 Teses" e afixou-as à porta da Catedral de Vitemberga. Com os novos métodos de impressão fê-los circular, rapidamente, por toda a Europa e obtiveram a resposta de muitas pessoas com tendências religiosas e preocupadas com a situação da Igreja.

Em seguida começou a distribuir muitos panfletos e livros. Negou a autoridade absoluta do Papa, atacou a riqueza e a corrupção da Igreja e o papel privilegiado dos padres na sociedade. Proclamou o sacerdócio de todos os crentes. Defendeu que os padres deviam ser livres de poder casar e ele próprio abandonou os hábitos de monge e casou-se. Insurgiu-se contra as "indulgências" - documentos vendidos pela Igreja que se supunha possibilitarem a entrada no Céu a troco do pagamento de dinheiro.

Por todas essas posições que tomou foi excomungado pelo Papa e proscrito pelo imperador sacro-romano. Protegeu-o o Duque Frederico, da Saxónia, que partilhava das suas ideias. Este movimento, que ele encetou, foi chamado de "Reforma" e os seus seguidores foram apelidados de "Protestantes", devido ao inconciliável conflito que se travou com os católicos.

Tudo começou após as ineficácias do Concílio de Latrão, que nada modificou nos costumes e abusos da Igreja. E, o cálice extravassou, quando Leão X se empenhou na construção da Basílica de S. Pedro do Vaticano - ainda existente -, propondo aos fiéis as já citadas "indulgências", para a obtenção de fundos para a edificação da sumptuosa Basílica. A verdade é que muitos padres e muitos pregadores usaram esta possibilidade para abusar do seu poder sobre os fiéis. E da parte do Vaticano nada foi implementado para alterar esta situação.

Quando em 1517 decidiu publicar as "95 Teses", é porque já não aguentava mais com tão escandalosa vivência de algum clero e a opulência e ineficácia do papado.

Foi em 1520 que, através da bula "Exsurge Domine" que o papa Leão X o condenou, queimando a carta quando a recebeu. No ano seguinte foi excomungado. Acendia-se, com mais fervor, a fogueira da revolta, culminada com a "guerra dos camponeses" (1524-25), e esta sina político-religiosa durou décadas.

 Do lado do catolicismo é rotulado de: animal feroz e furioso, blasfemo, sacrílego, profanador, inventor de "874 mentiras e mais de mil traições do texto da Bíblia", como titulava um livro contestando as suas teses. Traduziu o "Novo Testamento", tornando

 acessível a Bíblia a todos os fiéis. Em 1529 publicou o Grande e o Pequeno Catecismo. No Concílio de Trento Roma seguiu-lhe os passos, publicando o primeiro catecismo da Igreja Católica.

Inúmeros fiéis seguiram o seu movimento de Reforma: Melanchton foi o seu principal discípulo e sucessor, que redigiu em 1530, a "Confissão de Augsburgo", uma espécie de carta das igrejas luteranas; Utich Zwingli e Calvino foram outros grandes continuadores do protestantismo.

Na madrugada de 18 de Fevereiro de 1546 desapareceu da face da Terra, mas o seu movimento estava bem implantado em diversas regiões do mundo. Mesmo na morte conseguiu dividir os que o rodeavam: o diagnóstico de angina de peito, que supostamente o matou, com 62 anos, não colheu a unanimidade dos médicos que o assistiam. Tão pouco foi pacificamente aceite a sua morte natural. Muitos contaram para a lenda que se tinha suicidado, outros que foi estrangulado pelo diabo. O seu testemunho, perante os que o assistiam nos derradeiros momentos de vida, depois de lhe perguntarem: "Padre deseja morrer apoiado em Jesus Cristo, confessando a doutrina que ensinou?" Respondeu, convicto: "Sim"!

 

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MARTINS SARMENTO

 

Francisco Martins Sarmento é filho de Guimarães, onde nasceu em 1833.

 Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, com a idade de 20 anos. Proprietário rural e possuidor de bens de fortuna, nunca se dedicou à política partidária, interessando-se pelos assuntos locais e por questões de âmbito nacional.

Em 1855 fez uma tentativa poética, mas o seu nome, como notável arqueólogo e erudito, ir-se-ia lustrar alguns anos mais tarde como uma das figuras mais representativas da cultura nacional, graças aos seus trabalhos de notáveis pesquisas arqueológicas a que procedeu, com recursos próprios, nas Citânias de Briteiros e de Sabroso, assim como a identificação de mais de 60 castros, a exploração de mamoas e o estudo de vários achados arqueológicos. Com 40 anos iniciou as escavações na Citânia de Briteiros, vizinha da sua Quinta da Ponte.

 E, em 1876, convocou para ali uma Conferência Arqueológica Portuguesa, iniciando no ano seguinte as explorações no castro de Sabroso. Uma das excursões do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-histórica, reunido em Lisboa, em 1880, veio a Briteiros e Sabroso, tendo os seus trabalhos suscitado a atenção e o louvor gerais. Outro congresso internacional das mesmas ciências, reunido meio século depois em Coimbra e Porto, efectuou também uma excursão às duas estações minhotas.

Em 1882 fundou-se na cidade-berço, sob o seu patronato, uma sociedade, que tem o seu nome e ficou herdeira de uma parte da sua fortuna, da excelente biblioteca e das importantes colecções arqueológicas, depois reunidas e ampliadas no Museu, ainda existente, que também mantém o seu nome.

Os seus estudos repartem-se pela Geografia Antiga, pela Pré-história, pela Arqueologia, pela Epigrafia, pela Etnologia e pelo Folclore.

            A morte levou-o em 1899.

 

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MIGUEL TORGA

 

Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha, que nasceu em 1907, na aldeia de S. Martinho de Anta, distrito de Vila Real. Nessa mesma aldeia fez a sua instrução primária e parte do ensino secundário no seminário de Lamego.

Era filho de gente humilde e, devido às muitas carências, ainda muito pequeno foi servir para o Porto, de onde partiu para o Brasil, como emigrante, aos 13 anos. Lá trabalhou duramente ao longo de cinco anos. Sob a protecção de um tio não quis perder tempo e prosseguiu os seus estudos, vindo a concluir o curso secundário na cidade de Coimbra, onde, mais tarde, veio a licenciar-se em Medicina, no ano de 1933. Exerceu clínica geral na sua terra natal; em Vila Nova (concelho de Miranda do Corvo) e em Leiria. Tirou a especialidade em otorrinolaringologia, abrindo consultório em Coimbra, tendo residido nesta cidade mais de cinquenta anos. Durante muito tempo fez clínica e cirurgia no hospital de Arganil. Era um excelente profissional, muito estudioso e competente.

A sua obra é muito extensa e de excelente qualidade. Foi distinto em múltiplos géneros: poeta, contista, diarista, dramaturgo, cronista, ensaista, ficcionista. Os seus escritos estão impregnados de sensibilidade, autênticos poemas feitos perante as dores físicas e morais que também conhecia da sua experiência clínica e até da sua raiz rural.

Miguel Torga é autor de uma vasta e apreciada obra, de que se destacam, entre muitos, os seguintes títulos: "Ansiedade" - o seu primeiro livro publicado, apenas com vinte e um anos e ainda estudante -, "Rampa", "Tributo", "Pão ázimo" - numa época em que colaborava com a revista "Presença", - de que depois se afastou -, "O outro livro de Job", "Libertação", "Nihil sibil", "Odes", "Alguns poemas ibéricos", "Penas do purgatório", "Bichos", "Contos da montanha", "Novos contos da montanha", "Rua", "Vindima", "A criação do Mundo" - série que começou a publicar-se em 1937 -, "Cântico do homem", "A terceira voz" - saída em 1938 e onde pela primeira vez usou o pseudónimo que o imortalizou - e alguns livros de teatro.

Em 1941 publicou o primeiro dos dezasseis volumes do seu "Diário" - uma miscelânea de temas, desde a magnífica poesia, à crítica literária, comentário político, impressões sobre coisas, sobre a natureza - enfim, muitas obras, ideias e pensamentos dentro de uma obra.

A sua obra adquiriu uma dimensão universal, sendo editada em muitos países e muitas vezes premiada, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

            Deixou-nos em 1994, com a bonita idade de 87 anos.

 

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MONTEIRO LOBATO

 

José Bento Monteiro Lobato foi o criador da literatura infantil brasileira e no romance «Ideias de Jeca Tatu», saído em 1919, criou uma figura paradigmática do homem rural desamparado e pobre. Numa fazenda de Taubaté, no Estado de S. Paulo, Brasil, veio ao mundo em 18 de Abril de 1882. Formou-se em Direito e tornou-se promotor público, cargo que abandonou em 1911, para administrar a fazenda que herdou do avô. Com um artigo publicado no jornal «O Estado de S. Paulo» começou a sua carreira literária, 1918.

            Ao longo da vida envolveu-se em muitas lutas pelo interesse público, que culminaram com a defesa da tese da existência de petróleo no país, luta pela qual passou seis meses de prisão, em 1941.

A sua obra mais importante, porém, é a série de histórias que escreveu para crianças, iniciada com a publicação de «Reinações de Narizinho», em 1921. Foi o primeiro escritor brasileiro a tratar a literatura infanto-juvenil com seriedade. Os seus livros não são apenas divertidos, porque procuram sempre informar e educar os jovens leitores.

Escreveu vária literatura também para adultos, mas os seus escritos para crianças, actualmente, estão reunidos em 21 volumes, entre os quais se destacam: «Fábulas», 1922; «Emília no País da Gramática», 1934; «Geografia de Dona Benta», 1937; «O Pica-pau Amarelo», 1939; «Reforma da Natureza», 1941 e «Os doze trabalhos de Hércules», 1944.

Em 1948 a morte surpreendeu-o e deixou vazio um lugar que, possivelmente, jamais será preenchido com tanta dedicação e empenhamento pela cultura dos mais pequenos.

 

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NATÁLIA CORREIA

 

Natural da ilha de S. Miguel, Arquipélago dos Açores, Natália Correia nasceu a 3 de Setembro de 1923. Os pais pertenciam à média burguesia rural, sendo a mãe professora. O pai, homem rico, abandonou o lar, fugindo para o Brasil, cavando profundas marcas em Natália, que pela vida fora muito se manifestariam.

Veio muito jovem para Lisboa, onde fez o liceu, dedicando os seus tempos livres, durante algum tempo, à patinagem, tendo também despertado para a pintura. Por influência da mãe, porém, começou a sentir um precoce gosto pela política. Discordava do regime vigente, razão porque fez ouvir a sua voz na oposição democrática, que repudiava a doutrina salazarista. Após o 25 de Abril de 1974 foi eleita deputada pelo Partido Social Democrata e, a partir de 1987, ocupou o lugar como deputada independente pelo PRD.

Natália Correia soube conciliar a escrita com a política. Entregou‑se de alma e corpo a dois géneros literários: poesia e ficção. Tinha por hábito passar as tardes na cama a escrever. Imensos títulos nasceram da sua inspiração, de que se destacam: em poesia ‑  "Rio de nuvens", "Passaporte, o vinho e a lira", "Mátria", "Poemas", "O dilúvio e a pomba", "O armistício" e "Poemas a rebate". Em prosa ‑ "Anoiteceu no bairro", "Onde está o Menino Jesus", "A madona", "A ilha de circo" e "Grandes aventuras de um pequeno herói".

Teve uma vida amorosa conturbada, realizando quatro casamentos, o primeiro apenas com 19 anos. Também com o primo José António Correia, vinte e cinco anos mais novo do que ela, viveu uma paixão proibida.

A morte levou‑a na madrugada do dia 16 de Março de 1993.

 

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NORTON DE MATOS

 

José Maria Mendes Norton de Matos era filho de um comerciante, cônsul de Inglaterra em Viana do Castelo. Nasceu em Ponte de Lima, a 23 de Março de 1867 e lá terminou os seus dias em 3 de Janeiro de 1955.

            Frequentou um colégio em Braga, indo, em 1880, para a Escola Académica, em Lisboa. Em Outubro de 1884 iniciou o curso na Faculdade de Matemática, em Coimbra. Fez o curso da Escola do Exército e iniciou os seus tirocínios do corpo do Estado – maior.

Em meados de 1898 chegou à Índia como director dos serviços de agrimensura, organizando o cadastro das terras, trabalho que foi apreciado e posto a par ou acima de outros semelhantes e posteriores de alguns países europeus.

Em 1912 partiu para Angola como governador – geral e lutou, com entusiasmo, pelo desenvolvimento daquela grande terra africana.

Por duas vezes desempenhou o cargo de ministro: primeiro das colónias e depois da guerra, exilando-se em Londres, em 1917, por divergências com o governo recém-eleito.

Regressou à pátria e foi delegado de Portugal à conferência da Paz, em 1919.

Promoveram-no a general pelos grandes serviços prestados à nação e foi nomeado altocomissário da república em Angola e, em 1924, seguiu para Londres como embaixador de Portugal, cargo de que o afastaram pelo movimento de 1926. Organizou, então, a Sociedade portuguesa de levantamentos aéreos.

Desempenhou o lugar de grão-mestre da maçonaria portuguesa, o de professor do Instituto Superior Técnico e foi condecorado inúmeras vezes, quer no país, quer no estrangeiro. Em 1948, algumas centenas de eleitores, apresentaram a sua candidatura à presidência da república.

Colaborou profusamente na imprensa portuguesa e publicou, entre outros, os seguintes trabalhos: "Os serviços de agrimensura e cadastro da Índia Portuguesa", "A geologia da Índia Portuguesa", "A província de Angola", "Memória e trabalhos da minha vida" (4 volumes).

 

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OSCAR WILDE

 

Na cidade de Dublin, Irlanda, chegou ao mundo no dia 16 de Outubro de 1854. O pai era um conceituado cirurgião e foi o fundador do primeiro hospital na Grã-Bretanha, vocacionado para doenças dos ouvidos e dos olhos. A mãe, que era uma irlandesa ferozmente nacionalista, escrevia e organizava animados salões literários. Era dada à exploração de poderes ocultos, dizendo-se descendente de Dante e afirmara que fora uma águia numa outra vida. A ele, que ela tanto adorava, ao longo da infância dizia-lhe frases confusas, como esta: "Quando chegares à minha idade, compreenderás que só há uma coisa para a qual vale a pena viver que é o pecado."

Foi criado num ambiente de escândalo, quer do lado da mãe, quer da parte do pai.

A sua ascendência, quer materna, quer paterna era de famílias abastadas e, portanto, eram herdeiros de vastos recursos. Nunca lhe faltou nada, a não ser, talvez, uma educação diferente, mais austera e mais voltada para as realidades da vida. Desde muito cedo que a mania da celebridade o embriagava. Quando tinha vinte anos frequentava o Magdalen College, em Oxford, e escrevia o seguinte: "Serei poeta, romancista, dramaturgo. De uma maneira ou de outra serei famoso. Se o não conseguir, serei, pelo menos, uma figura pública notória."

E, de facto, o seu desejo tornou-se em realidade, indo além daquilo que ambicionava. Ao longo da estadia em Oxford foi vivamente influenciado pelas ideias sobre estética de John Ruskin e de Walter Pater, entusiasmando-o a obra deste último sobre Leonardo Da Vinci, que classificou de "Sagrada Escritura do Belo", debatendo-se entre o catolicismo e as ideias maçónicas, entre a heterosexualidade e a homosexualidade.

Assim, para dar nas vistas, foi coleccionando coisas exóticas e adorava vestir-se diferente de toda a gente. Era uma forma de chamar a atenção dos outros. A sua produção literária, os seus ditos espirituosos e a vida escandalosa que levou perpetuaram o seu nome.

Em 1878 ganhou um prémio de muito prestígio, o Newdigate Prize com o poema "Ravenna". Por tão grande sucesso foi convidado para ir aos Estados Unidos, onde produziu a primeira peça de teatro e deu cinferências que atraíram muito público.

Em 1895, no dia de S. Valentim, foi a vez da estreia da sua obra "The Importance of Being Earnest", que resultou num retumbante triunfo.

A vida pautou-se-lhe por uma conduta que, para o seu tempo, era punida com o escárnio e com o desprezo.

            Casou-se com uma mulher muito abastada de bens, filha de um eminente advogado e dela nasceram dois filhos.

            Frequentou os lugares de boémia e onde se praticava a homosexualidade e até a heterosexualidade. Assumiu-se como praticante e teve como companheiros membros da alta sociedade. Foi esta prática assumida que fez com que a mulher pedisse o divórcio, que foi aceite, e ele nunca mais a viu, assim como os filhos. E, para maior desgraça, foi acusado de provocar o escândalo público que, por acções devidamente comprovadas, o levaram a tribunal, tendo sido condenado a dois anos de trabalhos forçados, 1895-97. E foi na prisão que escreveu algumas das obras mais importantes e significativas.

Em 1891 tinha saído "The Portrait of Dorian Gray", que se tornou uma espécie de manifestação do decadentismo.

Apesar de tudo o que fez, foi considerado um precursor do modernismo do início do século XX e influenciou Joyce, Gide, Yeats e Borges.

Quando na manhã de 19 de Maio de 1897 saiu da prisão, muitos dos amigos aconselharam-no a emigrar. Foi, então, para Paris e ali prosseguiu a sua vida escandalosa, mas agora sem recursos e cada vez mais atacado pela doença.

Com a falta de dinheiro e com a sífilis que o corroía de novo (que herdou do relacionamento com uma prostituta em Oxford), apenas com 46 anos, devido a uma meningite encefálica, chegou o seu fim. Mesmo adivinhando o dia fatal, continuou a fazer a vida de sempre: a beber, a comer, a conversar e a procurar a companhia de rapazes. Nos últimos dias, as injecções de morfina já não faziam efeito e ele tratava-se com doses de ópio e colorato anídrico, enquanto ingeria champagne com absinto, uma bebida que, depois do primeiro copo, se vêem as coisas como se desejaria que elas fossem; após o segundo, vêem-se como elas não são e, bebido o terceiro, vêem-se como são na realidade, o que é o pior de tudo.

            Expirou às 14 horas do dia 30 de Novembro de 1900, na cidade de Paris.

 

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PABLO PICASSO

 

Pablo Picasso foi pintor, escultor e ceramista, compôs novas dimensões estéticas, renovando o gosto de tal modo que influenciou, no campo artístico, todas as camadas da população  mundial deste século.

Rapidamente o identificam ao olhar esse quadro genial do "Arlequim", que é o retrato do seu filho Pablo com um fato de pobre. Esta figura aparece inúmeras vezes na sua obra e a tradição sugere que "Arlequim" era um rapaz pobre que desejava muito ir a um baile mas não tinha roupa própria. Então, os seus amigos, e eram muitos, deram, cada um, um pedacinho de tecido com que a mãe lhe fez esse belo fato com losangos de várias cores.

Em Espanha, na cidade de Málaga, em Outubro de 1881, filho de um pintor e professor da Escola de Belas-Artes, teve o seu primeiro hálito. A sua carreira iniciou-se muito cedo, mostrando ideias originais, apelidando-o de "Rei da Quinquilharia", por gostar de reconstruir objectos velhos, ou deitados fora.

            É costume dividir a sua obra em várias fases ou períodos: o período azul, em que pintou figuras de pobres, deserdados, misérias, em tons de azul; no período rosa encarou os homens com mais ternura e alegria - é o circo, os saltimbancos -    retratados com um desenho elegante e flexível. Depois vem a fase negra em que desenhou figuras geométricas - o cubismo.

            O seu quadro mais conhecido chama-se "Guernica". Foi pintado em 1937, inspirando-se na Guerra Civil Espanhola.

A fase verde é dominada pelas paisagens. O cubismo sintético foi um período em que usou colagens com pedaços de jornais, etiquetas, cartas de jogar...

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) casou-se com a bailarina russa Olga Khoklova e com o muito dinheiro que ganhou com o seu trabalho comprou o Castelo de Boisgeloup, onde dispunha de várias e vastas oficinas, o que lhe permitiu dedicar-se também à escultura.

            Com 92 anos de idade, conhecido mundialmente, morreu em Abril de 1973.

 

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PADRE AMÉRICO 

 

Para uma obra muito notável e meritória, pois o apelidaram de bondoso apóstolo das «Casas do Gaiato» e do «Património dos Pobres», chegou ao mundo no ano de 1887, no Paço de Sousa, no distrito do Porto. No dia 16 de Julho de 1956, no regresso à sua terra natal, foi vítima de um brutal acidente de automóvel, sendo internado no hospital de Santo António, onde, pouco depois, teve o derradeiro hálito.

Ordenou-se padre e, ao seu sacerdócio activo, eficiente e realizador, se deve a criação de inúmeras «Casas», destinadas a recuperar os rapazes da rua, abandonados à miséria e aos vícios.

Todos consideram que ele foi um Homem grande, porque tornou grande a vida dos outros. Reconheceu essa grandeza em todos aqueles que são postos à margem da sociedade e que não têm do seu mais do que a dignidade de serem pessoas e filhos de Deus.

Deixou intermináveis textos, plenos de uma transbordante solidariedade humana e de um fluente e rico Português. Ali desfilam casos tocantes, que, cinquenta anos decorridos, continuam actuais – casos de gente que vive a pobreza no mais desesperado limite, condenam a máscara das aparências, colocando-os diante de pessoas despojadas de tudo, a quem se deve o respeito pelo seu direito de propriedade, para serem pessoas em toda a sua total dimensão.

Visitou os bairros de lata; conduziu desesperados, presos, vagabundos, muitos seres que julgavam que nada valiam e eram o escárnio dos outros – quantos encontrou e pôde encaminhar para as suas casas, onde receberam (mais do que pão) o amor, a fraternidade, a compreensão, um abrigo, uma palavra sempre muito amiga e a preparação e o incentivo para singrar na vida.

A sua obra estendeu-se a todos os necessitados a quem podia acudir. Preocuparam-no as crianças, os idosos e os doentes e, tantas e tantas vezes com o perigo do contágio de enfermidades mortíferas, nunca deixou de visitar e apoiar os que dele esperavam o bálsamo para o seu sofrimento.

Viveu com a pobreza à sua volta, razão porque todos muito gostavam dele. Amou ricos e pobres, mas estes inundaram-lhe sempre o coração:

            - "Senhor, a bênção dos Pobres à hora da minha morte»!

 

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JOSÉ DE ANCHIETA

 

Veio ao mundo em La Laguna de Tenerife, nas Ilhas Canárias, a 19 de Março de 1534, ordenando-se sacerdote na Ordem dos Jesuítas e, em 1553, partiu para o Brasil, integrando a comitiva do segundo governador-geral, D. Duarte da Costa.

Empenhou-se sempre no cumprimento do lema missionário "ide e ensinai o Evangelho a todos", esforçando-se por aprender a língua dos nativos, de que resultou, em 1595, a publicação de "A Arte da gramática da Língua Mais Usada na costa do Brasil". Afinal, como comunicar-se com um povo sem conhecer o seu idioma?

Apelidaram-no de "O Apóstolo do Brasil", como ainda hoje é conhecido e, além da catequese dos índios, preparou outros inúmeros serviços, entre eles, a fundação do Colégio dos Jesuítas, na Baía, e a missão pacificadora junto aos tomoios em 1563. Por esta ocasião escreveu o seu famoso "Poema em louvor à Virgem Maria".

Foi um religioso à frente do seu tempo, porque enquanto a Igreja separava a evolução espiritual do homem da sua realidade, ele via a catequese como um serviço ao ser humano como um todo, e não apenas à sua alma. Não era suficiente ensinar o Evangelho aos índios, era preciso também defender os seus direitos, ajudando-os no seu desenvolvimento humano e social.

Somente vários séculos depois, após o Concílio Vaticano II, a igreja admitiu a realidade total do homem e a interdependência das suas dimensões espirituais e materiais.

Inovou também na pedagogia, valorizando o processo de aprendizado, e usou o teatro na educação das crianças e dos jovens indígenas.

Morreu em Reritiba (actual Anchieta-ES) em Junho de 1597. Os índios carregaram o seu corpo e marcharam durante cerca de cinquenta quilómetros, para o depositar na Capela de S. Tiago da Igreja dos Jesuítas. De acordo com os cronistas da Companhia de Jesus, depois da sua morte, "começou a realizar muitos milagres em todas as capitanias do Brasil".

  

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JOÃO XXI

 

O nome de baptismo era Pedro Julião, embora correntemente seja conhecido por Pedro Hispano. Adquiriu no seu tempo autoridade de fama mundial, quer como médico, quer como filósofo. Todavia, o que mais o celebrizou, foi ter sido eleito papa em Setembro de 1276, por morte de Adriano V. Foi brilhante a sua curta vida de pontífice, já que em Maio de 1277, devido à derrocada dos aposentos em que se encontrava, poucos dias sobreviveu aos ferimentos sofridos.

Natural de Lisboa, onde teve o berço na freguesia de S. Julião, nos primeiros anos do século XIII, partiu muito jovem para França e em Paris aplicou-se no estudo das várias ciências durante muitos anos.

Na universidade de Siena, Itália, foi professor de medicina desde 1245 a 1250.

Depois desta data esteve presente em Portugal e por benefícios obtidos o constituíram  deão e mestre-escola em Lisboa, arcediago bracarense e prior de Santa Maria de Guimarães. Eleito arcebispo de Braga, não chegou a ser confirmado, uma vez que, por essa altura, o chamaram para arquiatra de Gregório X, que mais tarde o elevou a cardeal-bispo de Tusculum.

Como papa empenhou-se para que os cristãos dissidentes do Oriente regressassem à união de Roma; procurou solucionar as desavenças entre a Santa Sé e o nosso rei Afonso III; a favor dos lugares santos promoveu colectas;

 nas contendas entre Filipe de França e Afonso de Castela interveio pacificadoramente...

Deixou uma obra vasta sobre medicina, história natural, lógica e psicologia.

  

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PEDRO ÁLVARES CABRAL

 

No castelo de Belmonte, onde seu pai, Fernão Cabral, era alcaide-mor, o que aliás já havia sucedido com os seus avô e bisavô, em 1468 veio ao mundo Pedro Álvares Cabral.

Supõe-se, que a partir dos dez anos, viveu na corte do rei D. João II, tendo-se aí desenrolado a sua adolescência e juventude, vindo a casar com Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque.

Em Fevereiro de 1500, quando já contava 32 anos, D. Manuel I nomeou-o capitão-mor de uma poderosa frota, com a finalidade de rumar à Índia e firmar acordos comerciais convenientes ao Reino e desviar para a rota do Cabo, sob o domínio dos portugueses, o tráfico das especiarias.

A sua escolha deve-se à grande consideração que por ele tinha o rei, porque era um fidalgo notável, já que se lhe não conhece nenhuma experiência marítima anterior a esta designação.

Para submeter o Samorim de Calecut à obediência de D. Manuel, a frota era formada por cerca de mil e quinhentos homens

de armas, distribuídos pelas treze naus. Levava também vários marinheiros e religiosos.

Iniciaram a viagem no dia 9 de Março e avistaram a "Terra de Santa Cruz" a 22 de Abril, apenas com 12 embarcações, já que uma havia desaparecido ao largo de Cabo Verde. No dia seguinte à chegada contactou, pela primeira vez, com os nativos. O descobrimento oficial daquela terra e o contacto com as suas gentes deu-se por esta altura, porque a nível do conhecimento da sua existência o tinham feito Duarte Pacheco Pereira, em 1498 e o castelhano Hojeda em 1499.

Pedro Álvares Cabral gostou dos nativos e não fez prisioneiros e aquela terra de imensa floresta tropical foi muito atraente para toda a armada, tendo alguns fugido das naus e nunca mais regressaram, pois devem ter sido bem acolhidos. O capitãomor mandou regressar a Portugal um pequeno navio, para informar o rei do descobrimento.

A 2 de Maio a armada partiu rumo a Calecut - grande porto de cruzamento das linhas comerciais do Índico -, onde só arribariam em Setembro e com a frota reduzida a metade, pois quatro navios afundaram-se num violento temporal e um outro andou à deriva, tendo-se encontrado com o que restava da frota a meio da viagem de regresso. Em Janeiro de 1501 partiram do Oriente, tendo chegado a Lisboa em Julho.

Álvares Cabral foi razoavelmente recebido no seu regresso, mas retirou-se da corte e fixou residência em Santarém. Era um fidalgo de personalidade forte, arrojado, muito ponderado e com qualidades de liderança. Desenvolveu algumas acções militares, mas  nunca foi um marinheiro, antes um comandante de armada.

Faleceu em 1520, antes, portanto, de qualquer exaltação pública do descobrimento do Brasil.

 

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PEDRO NUNES

 

Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal, antiga Salácia, em 1502, aditando ao seu nome o toponímico "Salaciense". Embora descendente de israelitas, testemunhou sempre a fé cristã.

Da meninice nada se sabe e da escolaridade são mais as dúvidas que as certezas. É de crer que tivesse aprendido em Portugal as primeiras letras, o latim e as disciplinas do curso de Artes, fazendo em Salamanca os estudos universitários, ainda com pouca idade. Casou-se aos 21 anos, após se ter licenciado em Artes. Estudou Matemáticas e frequentou algumas cadeiras de Medicina.

Em Novembro de 1529 foi nomeado cosmógrafo do Reino e, um mês mais tarde, através de concurso foi reger a cadeira de Filosofia Moral na Universidade de Lisboa. Em 1544 era lente de Matemática na Universidade de Coimbra e em 1547 nomearam-no cosmógrafo-mor do Reino. Por vontade de D. João III foi mestre dos Infantes D. Luís e D. Henrique, o futuro cardeal-rei.

Inventou diversos instrumentos para a arte de navegar, como o Nónio, e escreveu muitos livros, focando temas variados, como a natureza, geografia, matemática, de que se destacam alguns títulos de obras que se tornaram célebres: "Livro de álgebra em aritmética e geometria", "Tratado em defesa da carta de marear", "De crepusculis", "Tábuas do movimento do sol",  "Primeiro livro de Geografia – tradução comentada" e "Tratado da Esfera - teoria do sol e da lua".

Em 11 de Agosto de 1578 desapareceu do número dos vivos e o seu nome continuou célebre como um dos maiores matemáticos de sempre.

 

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PETRARCA

 

O pai, Petrarco de Parenzo, que era tabelião, foi expulso de Florença, refugiando-se primeiro em Arrezo, onde Petrarca veio ao mundo em 1304, e sete anos depois, transfere-se com a família para a Provença, passando por Avignon, mas fixa-se em Carpentras, a 30 km da sede pontifícia. Desde muito jovem começou a ser conhecido e a frequentar a corte, que seduzia vivamente com os seus versos e inteligência brilhante. Embora contrariado seguiu o conselho paterno e foi estudar Direito em Montpellier e, mais tarde, em Bolonha.

Em 1326 regressou a Avignon, a esse tempo, centro político e religioso da Europa. A sede pontifícia era, então, uma terra de exílio. Em clima de tolerância conviviam aventureiros, cabeças coroadas, príncipes da igreja, judeus e cristãos heréticos, comerciantes e jovens de vida alegre. Todos se encontravam em Avignon, onde o papa Bento XII iniciava a construção do Palácio dos Papas, magnífico castelo e fortaleza, em estilo gótico, junto ao rochedo dos Doms.

Em Sexta-Feira Santa (6 de Abril de 1327), viu uma mulher esplendorosa, Laura de Noves, pela primeira vez. Ela era casada e o casamento impunha-lhe uma barreira intransponível. A partir desse dia e até ao fim da vida, tomado de um amor incurável, vai dedicar-lhe os versos dolorosos do seu "Cancioneiro":

"Se amor não é, que é pois que

                                            /experimento?

Mas se é amor, por Deus, que coisa é tal?

Se é um  bem,  de  onde tira  seu  amargo

                                            /gosto mortal?

Se  é  mal, de  onde vêm  tão doces esses

                  /tormentos?"

Amargurado, refugiou-se em Vaucluse, para acalmar a infinita dor e, nesses lugares, recreio da sua meninice, relembrou os passeios à Fontaine de Vaucluse, onde emerge o rio Sorgue, de águas verdes-esmeraldas, a meio caminho entre Carpentras e Cavaillon, na Provença central.

Em 1341 foi chamado a Roma, para receber, no Capitólio, a coroa de louros, reservada aos poetas. No ano imediato regressa a Avignon, porque foi nomeado embaixador do Papa, viajando muito, confortado por uma vida mundana.

Em 1348 encontrava-se em Itália, quando lhe é anunciada a morte de Laura, em Avignon, vítima da peste que vitimava a cidade. Em 1351 voltou a Vaucluse e, dois anos depois, troca a França por Milão e em seguida Veneza.

As suas obras encontram-se escritas em latim e em língua vulgar. Devido ao seu pensamento e arte não pertence ao século em que viveu. Retomou a lírica provençal dos trovadores de dois séculos antes, cantando o amor galante. Ao mesmo tempo, e apesar de profundamente religioso (chegou mesmo a tomar Ordens Menores), afirmou o domínio do humano, subjugando-se a uma paixão terrena e, desse modo, antecipou em quase um século e meio o gosto e o espírito da Renascença. As suas principais obras são, em latim: "África" – em hexâmetros - que refere as façanhas de Cipião, o Africano e as suas façanhas, bem como cartas. "Carmen Bucolicum" e as "Epistolae Metricae", que contém inúmeras referências e acontecimentos da sua vida e época.

 Italiano, que intitulou, depreciativamente, "Ineptiae", preferindo-lhes um título em latim "Rerum Vulgarium Fragmenta" que, mais tarde, os editores tornaram em "Canzoniere" e também em  "Rime". A sua obra-prima é uma colecção de líricas, cerca de 366 composições (sonetos – chamando-lhe a posteridade o pai desta rima engenhosa -, canções, sextinas, baladas, madrigais, embora em quantidade menor que os sonetos, muitos deles, dedicados a Laura, focando alguns assuntos políticos e doutras espécies).

Depois de uma vida agitada e profundamente amorosa, perto da cidade de Pádua, em 1374, viu pela derradeira vez a luz do dia.

 

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RAFAEL BORDALO PINHEIRO

 

O ilustre caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em Lisboa no dia 21 de Março de 1846. O pai iniciou-o no desenho e não apoiava a inclinação do filho para a caricatura. Todavia, contrariou o pai, trocando os pincéis pelo lápis. Desta forma alcançou a fama internacional como caricaturista exímio, genial ceramista e decorador.

Matriculou-se na Academia de Belas-Artes, apresentando, nas exposições, trabalhos muito aplaudidos pela crítica. Continuamente rejeitou propostas aliciantes de jornais estrangeiros, por gostar muito do seu País. Colaborou com várias publicações espanholas, inglesas e francesas.

Com a criação da "Lanterna Mágica" quebrou a monotonia portuguesa, ligando-se a Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo e Lino de Andrade.

Em 1870 publica um álbum de caricaturas gravadas a água-forte, sob o título de "Calcanhar de Aquiles", onde figuravam os homens mais notáveis do seu tempo, como Júlio César Machado, Alexandre Herculano, Manuel Pinheiro Chagas, Bulhão Pato, Ramalho Ortigão, Manuel de Arriaga e outros.

Em 1871 cria "O Binóculo", sendo o primeiro jornal que se vendeu dentro dos teatros. De imediato, faz sair o "Mapa de Portugal", vendendo mais de 4000 exemplares no espaço de um mês.

Dirige o jornal "O Mosquito", no Rio de Janeiro, onde deixa críticas mordazes e momentos de grande saudade por Portugal. Em 1879 voltou para Lisboa e funda a folha humorística "António Maria", seguindo-se "Álbum de Glórias" e "Pontos nos ii".

Em Janeiro de 1885 resolve terminar com o "António Maria" e abandonar o jornalismo. A partir de então, dedica-se à cerâmica, dando todo o seu esforço à Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, levando-lhe uma lufada de ar fresco, cheia de imaginação e criatividade. De imediato, apareceram obras como a famosa "Jarra Beethoven".

Caricaturista também no barro, deu forma a essas notáveis figuras como o sacristão, o padre, o polícia, a ama de leite, a alcoviteira e o genial "Zé Povinho".

Dirigiu a construção do pavilhão português na Exposição de Paris de 1889.

Nas Caldas da Rainha existe um museu com o seu nome.

     Em Lisboa, no ano de 1905, desapareceu do número dos vivos.

 

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RODIN

 

René François Auguste Rodin, considerado um dos notáveis escultores franceses, teve o seu berço em Paris, no ano de 1840. Filho de operários começou os estudos artísticos aos 14 anos, numa escola profissional, trabalhando ao mesmo tempo como aprendiz, já que a família vivia em circunstâncias muito precárias.

O seu temperamento não se conformava com a mesquinhez do seu ofício. Tornou-se discípulo do escultor animalista Barye e Carrier-Belleuse.

Os seus mestres procuraram estimular-lhe o talento precoce. Em 1870 teve de esperar que terminasse a guerra e transferiu-se para Bruxelas, onde executou o seu trabalho mais importante nesta fase da vida, trabalhando com o artista belga Van Rasbourg nas esculturas interiores e exteriores do Palácio da Bolsa e na decoração do Palácio da Academia. Ao fim de sete anos de trabalho com aquele artista regressou a Paris, para executar umas figuras alegóricas do Trocadero. Desde esse momento a sua vida foi de intenso e árduo trabalho, em que dominou a sua forte personalidade.

Os seus últimos meses de vida foram obscurecidos por um estado de inconsciência, muitas vezes aproveitado por cobiçosos das suas obras. Julgaram-no milionário, mas morreu de frio, aniquilado por uma congestão pulmonar, na sua casa de dois compartimentos desconfortáveis.

Foi um mestre em retratar os movimentos do corpo e até da alma humana. Chegou a ser acusado de moldar esculturas directamente nos seus modelos vivos, tal a expressividade e detalhismo de algumas delas, como por exemplo, "O Pensador", criado para representar o poeta Dante Alighieri, na "Divina Comédia", que mostra apenas numa pose o conflito íntimo da personagem.

Outras obras suas mais importantes foram: "O homem do nariz quebrado", "João Baptista a pregar", "O beijo", "Mulher chorando" e "Os burgueses de Calais".

Ficou famoso o romance com a sua ex-aluna Camile Claudel, que morreu louca, obsecada pelo amor do mestre.

Em Meudon-le-Flury teve o derradeiro suspiro, no ano de 1917.

 

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SAINT-EXUPÉRY

 

Piloto-aviador, combatente da Segunda Grande Guerra Mundial, escritor e aventureiro incorrigível, Antoine de Saint-Exupéry nasceu na cidade de Lião, França, no dia 29 de Junho de 1900.

Era descendente de uma antiga família lionesa e, após ter feito a sua preparação para entrar na Escola Naval, acabou por fazer o serviço militar na aviação, no ano de 1920, o que lhe alterou o futuro. Logo que termina o serviço militar ingressa na aviação comercial, em Toulouse.

No Rio do Ouro foi nomeado chefe de escala de Juby, depois de ter começado como mecânico e piloto na Linha de Espanha.

Em 1931 regressou a França, na altura em que Mermoz estabeleceu a ligação Dacar-Natal.

Piloto de provas em S. Rafael, caiu no mar com o seu hidroavião, livrando-se da morte por muita felicidade. Em 1935 realizou o "ride" Saigão-Paris, sendo forçado a fazer uma aterragem em pleno deserto egípcio.

Como enviado especial de um grande periódico parisiense, em 1937, esteve na guerra civil de Espanha e, por engano, ia sendo fuzilado pelos republicanos.

Tentou a ligação Nova Iorque-Terra do Fogo. Todavia, com o seu avião excessivamente carregado, despedaçou-se num aeródromo da América Central.

Em 1939, a combater na Segunda Grande Guerra Mundial, recusou a sua inclusão nos serviços de informação e incorporou-se num grupo de grande reconhecimento aéreo, onde fez a campanha até à queda da França.

Pouco depois, conduziu o aparelho para a Argélia e seguiu para a América.

Em 1943 encontrava-se no Norte de África, a tentar a sua admissão na aviação americana como piloto de reconhecimento.

            Numa nova missão, que o devia levar acima dos Alpes, onde combatiam os elementos da resistência e para os quais marchavam as tropas das Nações Unidas desembarcadas na Provença, o radar que lhe seguia o voo perdeu-lhe o rasto. Nesse dia 31 de Julho de 1944 o avião caiu e, desta vez, Saint-Exupéry encontrou a morte, embora haja quem suspeite que se tratou de um suicídio.

Como escritor, além dessa pérola magnífica, intitulada "O Principezinho", saída em 1943, salientam-se: "Correio do Sul" (1929), "Voo da noite" (1931), "Terra dos homens" (1939), "Piloto de guerra" (1942), "Carta a um refém" (1943). Depois da sua morte veio a lume "Citabelle".

 

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SIGMUND FREUD

 

            Filho de uma familia judaico-alemã, Sigmund Freud veio ao mundo no dia 6 de Maio de 1856, em Freiberg (Morávia, actual Checoslováquia). O pai, Jacob, um pequeno comerciante, não era praticante do judaísmo, pelo que não educou o filho naquela religião. A mãe, Amália, era bonita, atraente e vinte anos mais nova que o pai. Desta união nasceram sete filhos e, em 1860, a família transferiu-se para Viena, cidade que Freud amou e odiou ao longo de toda a vida.

Desde menino era o favorito do lar, porque era um jovem inteligente e prometedor. Como irmão mais velho era atento e um pouco autoritário, ajudando os irmãos a fazer os deveres e, às vezes, os seus conselhos convertiam-se em curtas conferências.

Cresceu rodeado pelas ideias do liberalismo. Era pessimista em relação à natureza humana, mas não conservador. Brilhante na escola e leitor voraz, era ambicioso e confiava em si próprio, adivinhando na sua frente um futuro distinto. Um dia, decidiu-se a estudar Medicina. Interessava-se pela política e pelo direito, mas as recentes teorias de Darwin atraíam-no para o campo da ciência.

Aos 25 anos termina a carreira e vai trabalhar para um laboratório de fisiologia, onde conhece Josef Breuer, médico culto, com quem estabelece grande amizade e que seria decisiva para chegar e entranhar-se no psicoanalismo.

Em 1882 conheceu Martha Bernays, de quem se enamorou e com quem veio a casar-se. Contradizendo as suas posteriores teorias sobre os traumas profundos provocados pela repressão sexual, Freud comportou-se durante o seu noivado com Martha, como um perfeito cavalheiro. Beijos e abraços era tudo que o par se permitia. Casados, por fim, em 1886, tiveram seis filhos e o casamento resultou sólido, mais ou menos feliz e tão convencional como outro qualquer. Martha foi uma esposa afectuosa e eficiente, trabalhadora e hábil para criar uma atmosfera de paz no lar. Para ela, porém, as ideias psicoanalíticas do marido eram uma forma de pronografia.

Com a estabilidade familiar, a actividade profissional de Freud tornou-se incessante, conjugando a prática médica com a investigação. Em 1884 havia iniciado experiências com a cocaína, uma droga, então, pouco conhecida, no alívio de problemas cardíacos e nervosos. Ele mesmo principiou a tomá-la como estimulante para melhorar o seu estado de ânimo.

A mente de Freud trabalhava incansavelmente, desbravando caminhos até então desconhecidos. Praticou experiências traumáticas infantis, como chave para explicar os sintomas histéricos e nervosos, convencendo-se de que a origem de muitos problemas psicológicos estavam nos conflitos sexuais, desconhecidos pelas próprias pessoas que os padecem.

Em 1897 começou, de modo sistemático, a sua própria autoanálise.

Em 1899 publicou "A interpretação dos sonhos", cujo enunciado básico é de que os sonhos não são senão realizações de desejos.

Em 1938 a Áustria é invadida pelos nazis. Octagenário, Freud, de origem judaica, ajudado por amigos, consegue mudar-se com a mulher e filhos para Londres, onde foi recebido com grande satisfação.

No Verão de 1939 o seu estado de saúde agravou-se e já não podia trabalhar. Em 1 de Agosto, consciente de que as forças o abandonavam, decide encerrar o consultório. Não querendo prolongar a sua agonia pediu ao seu médico que lhe abreviasse a vida, para poder "morrer com as botas calçadas". Respeitando a sua decisão, em 23 de Setembro o seu médico de cabeceira administrou-lhe uma dose letal de morfina. Sigmond Freud morreu em paz, tendo controlado a sua vida até ao derradeiro momento.

 

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SOARES DOS REIS

 

António Soares dos Reis, no concelho de Vila Nova de Gaia, na freguesia de Mafamude, veio ao mundo em 14 de Outubro de 1847. Foi um genial escultor, tendo-se manifestado muito cedo as suas aptidões artísticas. Matriculou-se na Academia portuense de Belas-Artes em 1861, ingressando no primeiro ano dos cursos de Escultura, Desenho e Arquitectura. Terminados em 1867, como pensionista do Estado, seguiu para França. Em Paris entrou na escola Imperial e Especial de Belas-Artes, onde foi admitido com alta classificação, alcançando entre vários concorrentes estrangeiros o número 1 nessa honrosa competição.

Em 1870, quando rebentou a guerra com a Alemanha, partiu para Roma, onde principiou os estudos para a sua obra-prima: "O Desterrado" - estátua que ali executou como prova final do seu pensionato e cujo mármore se encontra no Museu do Porto e é a consequência directa do gesso arrecadado no Museu de Arte Contemporânea e serviu de base para a realização do "bronze".

Da Itália regressou a Portugal, em 1872, e, nove anos mais tarde, foi convidado para reger a cadeira de Escultura na Academia de Belas-Artes do Porto, onde teve de suportar viva oposição dos colegas, contrariando o seu empenho de reformar o sistema usado na Academia.

Além da magnífica obra acima citada, executou: uma estátua do Conde de Ferreira, que está no cemitério de Agramonte; a estátua de D. Afonso Henriques, no monumento de Guimarães; a estátua de Félix de Avelar Brotero, no Jardim Botânico de Coimbra; a imagem de Nossa Senhora da Vitória; o célebre Busto da Inglesa, entre outras.

Em 1878 expôs em Paris: o Artista na Infância; a Saudade e o Abandonado, obras repassadas de doloroso sentimento.

A inveja pela qualidade da sua obra provocou-lhe uma série de desgostos, que lhe tornou amarga a vida e o levou ao suicídio em 16 de Novembro de 1889.

 

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Tomás Alcaide

 

    Tomás de Aquino Carmelo Alcaide,  uma das figuras máximas do canto lírico português e mundial, veio ao mundo na cidade de Estremoz, Alentejo, no dia 16 de  Fevereiro de 1901.

      Iniciou os seus estudos em Lisboa, no Colégio Militar, onde lhe foi ministrada educação completa em diversas áreas, dedicando especial atenção ao desporto e às Artes. De seguida, passou para a Faculdade de Medicina de Lisboa, embora nunca chegasse a efectuar um exame final.

            Vivia com um tio, que gostava muito de música e que o incentivou a cultivá‑la. Inicia, então, lições de canto com o professor Alberto Sarti e, mais tarde, com Eugénia Mantelli. Passando para Coimbra, desejava adquirir conhecimentos de Química, participando em inúmeras serenatas nocturnas, que lhe deram grande popularidade. Inicia‑se na ópera, embora como amador, cantando "La Bohème", no Clube Estefânia. Depois, no S. Carlos, numa festa artística do barítono Luís Macieira, interpreta o "Rigoletto".

            Devido a uma crise familiar, ocorrida em 1925, de repente, acha‑se sem dinheiro e sem recomendação, mas parte para Itália, imbuído de uma enorme vontade de vencer. Em Milão encontra‑se com o professor Fernando Ferrara, que se tornou seu verdadeiro protector e amigo. Decorridos oito meses estreia‑se no Teatro Carcano, no papel de Wilhelm Meister, na ópera "Mignon", de Ambroise Thomas, recolhendo as mais favoráveis críticas. Em 1927 consegue um contrato para cantar na Ópera de Boston e realiza uma esplêndida digressão pelos Estados Unidos, vindo a casar‑se com uma milionária americana.    Como todos os cantores, Tomás Alcaide tinha um sonho: apresentar‑se no Scala de Milão, o que teve lugar a 8 de Março de 1930, como primeiro tenor em "Preciosas Ridículas", de Molière, texto musicado por Latuada. De tal ordem foi o êxito, que logo o contrataram por três anos e a crítica italiana considerou‑o, então, como o melhor intérprete de "Fausto". Ainda em 1930 cantou brilhantemente no Porto e em Lisboa, efectuando a gravação dos seus primeiros discos para a etiqueta Culumbia.

            Em 1931 participou pela primeira vez no Festival de Salzburgo. No ano seguinte, em Lisboa, cantou "Tosca" e "Rigoletto", sendo condecorado com os graus de Cavaleiro da Ordem de Cristo e de Oficial da Ordem de Santiago da Espada.           Em 1933 intensificou a sua carreira em França, Monte Carlo, Praga e Bruxelas.

            Em 1935 encontrava‑se em Itália e foi informado de que, para cantar naquele país, teria de naturalizar‑se italiano. Recusou‑se terminantemente a renegar a identidade portuguesa, transferindo‑se para França, onde prosseguiu uma carreira invejável.

            Deflagra a II Grande Guerra Mundial e Tomás Alcaide vê interrompida a sua carreira. Embarca para o Brasil e lá se relaciona com a bailarina Asta‑Rose, vinte anos mais nova, que veio a ser a sua companheira até ao fim da vida.

            Em 1942 volta a Portugal e mantém‑se inactivo até 1947, ano em que efectua mais uma digressão pela França, Bélgica, Brasil e Amyrica do Norte. Entretanto, adoece gravemente e regressa para sempre a Lisboa, onde, durante dez anos, permanece num quase silêncio.

  Em 1958 é admitido na Emissora Nacional como Encarregado do Serviço de Intercâmbio. Três anos mais tarde dá à luz o livro "Um Ccantor no Palco e na Vida".

            Em 1962 assume a direcção da Escola de Canto do Teatro da Trindade, cargo que acumulou com as funções de Mestre de Canto e Encenador da Companhia Portuguesa de Ópera.

            Tomás Alcaide cantava em português, espanhol, italiano, francês, inglês e alemão, línguas que falava fluentemente. Nunca interpretou papéis secundários, tendo a capacidade da aderência do canto ao texto poético. Possuía a vibração interior e era senhor de uma sóbria, mas perfeita musicalidade de interpretação. Recorria a estudos e a pesquisas para ser rigoroso em todo o contexto do espectáculo: guarda‑roupa, adereços e caracterização.

            No dia anterior ao da sua morte, que ocorreu no ano de 1967, trabalhou nas maquetas da ópera "Manon", que ia ser posta em cena.

 

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TRINDADE COELHO

 

José Francisco Trindade Coelho veio ao mundo no dia 18 de Junho de 1861, em Mogadouro, distrito de Bragança, uma vilinha de origem árabe, tendo-se suicidado em 9 de Junho de 1908.

Fez os primeiros estudos na terra natal e depois em Travanca.

 Seguidamente, passou para um colégio do Porto, onde esteve seis anos, ao fim dos quais se matriculou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e lá se licenciou.

Como magistrado foi lúcido, íntegro, publicando obras da especialidade: "Recursos em processo criminal", "Código penal anotado", "Incidentes em processo civil", "Revista de Direito e Jurisprudência", etc. Foi delegado do Procurador Régio no Sabugal, Portalegre, Ovar e Lisboa.

Exerceu a profissão de jornalista, colaborando em muitos jornais a esse tempo existentes, tendo mesmo fundado alguns, como: "Porta Férrea" e "Panorama Contemporâneo" (em Coimbra); "Gazeta de Portalegre" e "Comércio de Portalegre" (em Portalegre).

Mas foi como escritor que se projectou e alcançou fama no seu tempo e para sempre. Pretendeu ser um educador do povo e a esse projecto e ideal consagrou dinheiro, forças e actividade incansável, tendo escrito folhetos: "Remédio contra a usura", "Pão nosso" (leituras elementares e enciclopédias para uso do povo) e "o meu livrinho" (lições para crianças).

Consideram-no um fino burilador do famoso livro, bem patente nesse título ímpar "Os meus amores" (baladas e contos), duma candura inexcedível, de perfeição, de estilo de finura de sentimento, de graça, de gentileza, que dá ao livro um lugar primacial na história da novela portuguesa...

Da sua obra destacam-se ainda os volumes: "In illo tempore" (recordações de Coimbra, – estudantes, lentes e futricas); "Dezoito anos em África"; "O senhor Sete" (dispersos folclóricos e de doutrina literária).

 

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VICENZO LUNARDI

 

 Era natural de Lucca, uma terra situada na zona do Golfo de Génova, um pouco ao norte de Pisa, entre Riviera do Levante e o Apenino toscano, onde chegou ao mundo a 11 de Janeiro de 1759.

Aos 24 anos estava em Londres, como secretário do príncipe de Caramanico, embaixador do reino de Nápoles na capital inglesa. Desafortunado e sem meios materiais, mas senhor de um espírito irrequieto e vivo, personificou a alegria inocente e curiosa dos finais do século XVIII.

Influenciado pelos feitos de Pilare de Rozier e cativado pela magia da ascensão, que ao homem permitia voar, abandonou a carreira diplomática, começando, pouco depois, com o apoio mecenático de um milionário inglês, a carreira de aeronauta, na qual alcançou notoriedade em pouco tempo, o que, para o tempo, não era difícil, pois o balão era  uma novidade e qualquer pessoa que se atrevesse a meter-se num destes engenhos estava irremediavelmente condenada à fama, ainda que efémera.

A sua estreia como aeronauta deu-se, após diversos contratempos, na grande praça do Artillery Ground, em Londres, a 15 de Setembro de 1784, menos de um ano depois da ascensão de Rozier, tendo sido esta, simultaneamente, a primeira ascensão tripulada realizada em Inglaterra. Por tal façanha recebeu da coroa inglesa a patente de capitão, com o direito a usar uniforme. A esta primeira experiência seguiram-se onze ascensões em várias cidades britânicas. Regressando à terra natal, efectuou mais duas ascensões, a primeira em Nápoles, na presença do Rei, e a segunda na Sicília, em Palermo. Em Agosto de 1792 rea-

lizou nova ascensão, mas agora em Madrid, na presença do príncipe herdeiro.

No Outono de 1793, proveniente de Madrid, com o propósito de prosseguir as suas proezas, chegou a Portugal. Pouco tempo depois de se instalar em Lisboa pediu autorização para se exibir; como a resposta ao pedido, porém, tardou, fez anunciar uma futura ascensão, mandando colocar cartazes nas ruas por sua conta e risco. O facto de ter publicitado a intenção sem ter licença para o efeito não agradou à Intendência e valeu-lhe uns dias de prisão no Limoeiro, para onde foi levado de imediato e sem cerimónias como se de um vulgar ladrão se tratasse.

Para sair de tal incomodidade valeu-lhe a intervenção pessoal do príncipe herdeiro, futuro rei D. João VI, que na época apenas contava 27 anos e ainda não havia assumido a regência do reino. Restituído à liberdade começou logo a procurar apoios que lhe permitissem levar a cabo o projecto de uma ascensão na cidade de Lisboa, o que apenas aconteceria no Verão de 1794, a 24 de Agosto. Nesse dia, elevou-se do Terreiro do Paço, em apoteose e perante uma multidão em delírio. Pouco depois de ter descolado, o balão foi arrastado mansamente pelo vento que vinha da barra e o empurrava para Leste. Aliás, este era o vento que mais lhe convinha, pois, se o vento soprasse do quadrante contrário, a experiência não se teria realizado e o engenho seria arrastado para Oeste, onde o mar lhe punha em risco a vida.

O seu acto, considerado na época enorme façanha, levou-o  pela pena dos poetas ao Olimpo, e o seu nome foi inscrito pelos seus contemporâneos na galeria dos imortais, tendo a sua proeza sido motivo de conversa por muitos anos. Apesar  de todo o seu passado foi rapidamente esquecido e, doze  anos depois, a 1 de Agosto de 1806, morria com apenas 47 anos num catre no Hospício dos Capuchinhos Italianos, em Lisboa, na mais negra miséria, como um simples desconhecido.

 

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MOZART

 

Wolfgang Amadeus Mozart, genial compositor austríaco, senhor de uma cultura musical verdadeiramente universal, grande em todos os géneros de composição: música sinfónica, música religiosa, ópera e música de câmara, nasceu em Salzburgo a 27 de Janeiro de 1756, vindo a falecer, apenas com 35 anos de idade, a 5 de Dezembro de 1791, na cidade de Viena, completamente na miséria.

            O pai, Leopoldo Mozart, era um violinista e pedagogo notável, que cedo descobriu as maravilhosas capacidades artísticas do filho e as orientou de uma maneira inteligente. Assim, quando aos 4 anos a criança tocava no cravo pequenos minuetes, que compunha, o pai escrevia‑os.

            Como o pequeno compunha e tocava com uma correcção surpreendente, quando atingiu os 6 anos, o pai empreendeu com ele e com a irmã mais velha, também muito dotada para a música, a primeira excursão artística a Munique, seguindo‑se outras a várias cidades, não só da Alemanha, como de outros países, e por toda a parte o talento do miúdo deixava um rasto de admiração, que se transformou mesmo em lenda.

            Um dos géneros musicais que Mozart cultivou com mestria foi a sonata, que é uma peça de música instrumental composta geralmente de três ou quatro partes de carácter diferente.

            Nas diversas digressões que fez encantou quantos o ouviam. Assim, foi tomando contacto com outras culturas musicais, o que representou uma enorme importância na formação da sua personalidade de compositor. Quando adulto e porque o público tinha perdido o interesse pela criança prodígio, teve que procurar uma situação estável, enqrando ao serviço do arcebispo de Salzburgo, que o conservou numa posição de perfeita subalternidade, vexando‑o constantemente e sentando‑o à mesa dos criados.

Mozart casou, aos 26 anos, com Constance Weber, de quem teve seis filhos, passando a viver em Viena, onde compôs algumas das suas obras mais célebres.

Mestre da melodia, procurou a pureza e a elegância, atingindo a grandeza através da simplicidade e do equilíbrio. 

            Principais obras suas: "Requiem" (1891, a sua última obra, terminada pelo seu discípulo Sussmayer); 15 missas; 4 ladainhas; 3 Regina Caeli; 1 Te Deum; 2 Tantum Ergo; 9 ofertórios; "Cantata da paixão" e "Cantata David penitente"; "O rapto do serralho"; "Bodas de Fígaro" (1786); "Flauta mágica" (1791); "D. João" (1787); "Zaide"; "O rei pastor"; "A clemência de Tito"; 27 árias; 6 tercetos; 40 sinfonias; 31 divertimentos; serenatas; 9 marchas; 25 danças; 7 concertos para violino; 6 solos para violino e orquestra; 2 concertos para flauta; sonatas para piano e vários concertos...

            Em Viena foi compositor de música de câmara do imperador de Áustria. Viveu quase sempre com muitas dificuldades, mas o seu nome começa a ser respeitado como compositor de óperas.

            Morreu em Viena, na mais completa miséria, vítima de febre tifóide e foi enterrado na vala comum.  

 

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WINSTON CHURCHIL

 

            Teve o seu primeiro hálito no Palácio de Blenheim, no seio da aristocrática família dos Malboroughs, em 30 de Novembro de 1874, demonstrando, precocemente, raras qualidades de liderança, principalmente nos primeiros anos colegiais, mas onde, ironicamente, não foi um académico brilhante.

            Transitou para a Academia Militar e ingressou no Exército em 1895 e teve “Cuba” como baptismo de guerra, durante o conflito hispano-americano, integrado nas forças espanholas. Foi a partir desse período e até 1902 que, como oficial, aprendeu e demonstrou grandes qualidades de guerreiro em recontros sucessivos noutros continentes: primeiro na Índia e no Egipto e, mais tarde, na Guerra dos Boers, na África do Sul, onde também assumiu uma nova profissão - a de correspondente de guerra para o "Morning Post".

Capturado, conseguiu fugir. Regressou a Inglaterra e decidiu-se pela política, primeiro como conservador. O seu primeiro círculo foi Manchester Noroeste, que ganhou em 1906. Em 1908, principiou a desempenhar cargos ministeriais, de início como subsecretário de Estado das Colónias e em seguida do Comércio. Assumiu ao longo de anos vários postos, que culminaram com o do Ministério da Marinha, onde desenvolveu um papel importante no reforço do equipamento e preparação naval para a que viria a ser a I Guerra Mundial e, mais tarde, primeiro-ministro.

Homem com ideias muito claras e possuidor de raro vigor para implementá-las, o seu estilo tende a criar-lhe problemas. O primeiro da sua carreira política foi os Dardanelos (invasão do território turco durante a I Guerra, que se saldou numa tragédia, com a morte de 200 mil soldados aliados). Depois de breve serviço como comandante do 6º Regimento dos Fuzileiros Reais na Bélgica, regressa ao Governo, chefiado por Lloyd George, assumindo a pasta de ministro de Munições com enorme sucesso.

De novo em dificuldades e depois de vários insucessos como deputado, o que brevemente o afasta dos Comuns e dos governos, a eles volta em Outubro de 1924, onde toma posse de um dos mais prestigiados postos da política britânica - o de Ministro das Finanças.

Mais uma vez fora do Governo, até 1939, assume, finalmente, o posto cimeiro do seu já comprovado brilhantismo político - o de primeiro-ministro. Foi nesse posto que mais se distinguiu e pelo qual é lembrado, sobretudo quando o país não estava preparado para a guerra e, muito menos, para a II Grande Guerra.

Finda a guerra e a euforia da vitória, com ela cai também a coligação com os trabalhistas, provocando novas eleições, avassaladoramente ganhas por um “Labour” chefiado por Atlee. Desiludido, afasta-se da política, mas sem dela estar completamente afastado. Foi nesse interregno que escreveu a sua aclamada obra da "História da Segunda Guerra Mundial", se concentrou na pintura e efectuou diversas visitas aos Estados Unidos, onde foi largamnte aclamado.


 

Em 1951 assume de novo as rédeas do poder até 1955, quando, após novas eleições, em que viu aumentada a maioria, aos 80 anos resolve ceder o mando a Anthony Eden, continuando, todavia, na Câmara dos Comuns como deputado por Woodford até à dissolução do Parlamento, em 1964. Sendo considerado como um dos maiores estadistas mundiais, pouco depois a morte surpreende-o, levando a rainha Isabel II e altas dignidades da Commonwealth e do Mundo às exéquias em câmara-ardente, na Catedral de São Paulo, o que foi seguido por sentida procissão pelas ruas de Londres como o derradeiro “obrigado” da população.

Foi sepultado numa humilde campa, na pequena aldeia de Bladon, no condado de Oxford. A sua figura e a sua imponente estátua, no interior da Câmara dos Comuns (cujo pé esquerdo, bem polido, é esfregado pelos deputados estreantes na busca da boa sorte), continua a ser profundamente respeitada e admirada.

 

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