Cristais de Natal


ÍNDICE

 

Dedicatórias

Prefácio

Consoada Feliz

Presente de Natal

Uma Noite de Natal

Prenda de Natal

Variedades de Natal

Viandeiro de Natal

Bendito Natal

Ceia de Natal

Consoada Solidária

O Pai Natal

Aventura de Natal

Filme Natalício

Parabéns em Dia de Natal

Surpresa Natalícia

Um Menino para o Presépio

O Pinheiro Manso

Dádiva de Natal

Elegia de Natal

Ternura de Natal

Presépio Carinhoso



Éditos



Consoada

As Prendas

O Presépio

Consoada Diferente

Um Presente no dia de Reis


Dedicatórias




À Júlia Rodrigues Fernandes, com antiga e larga estima


Ao pe. António Rodrigues, o franco amigo de tantos bons momentos


São simples e genuínos
os meus “Cristais de Natal”:
oxalá se tornem hinos
d’invulgar manancial!


 Voltar Índice


Prefácio

Cristais de Natal é o título que agora vem a lume, numa época do ano em que todos os seres humanos estão imbuídos do espírito natalício, e se tornam naturalmente mais propensos ao amor, mais sensíveis e disponíveis para a partilha e para a solidariedade, ou não fosse o Natal “a data que une todo o mundo numa conspiração de amor”. (Hamilton W. Mabi)

Em José Fernandes da Silva persiste uma intenção altamente moralizadora dos costumes e uma ação preponderantemente pedagógica que se vem acentuando de obra para obra. Sentimentos de amor, amizade, generosidade, fraternidade, respeito pela vida e pela condição humana perpassam de forma insistente por esta obra, deixando-nos, muitas vezes, à espera de um verdadeiro milagre. Uma força espiritual apodera-se de toda a obra, denotando-se nela uma crença imensa na vitória do bem sobre o mal e uma vontade hercúlea em demonstrar os mais nobres e verdadeiros sentimentos do ser humano.

Estas narrativas, elaboradas entre 1989 e 2011, são extra-ordinários hinos de Natal que exploram com sapiência as mais nobres atitudes das gentes pobres e humildes, as quais, muitas vezes, nada têm para dar, mas sempre encontram no reconforto da alma uma forma de se aproximarem do divino.

Cristais de Natal “são simples e genuínos” e evocam fantásticos milagres na vida daqueles que nunca perderam a esperança, sejam eles a criança de sete anos que queria o pai como a sua “prenda de Natal especial”, no conto “Prenda de Natal”; a menina de oito anos que é resgatada da morte certa e salva milagrosamente na noite de consoada, em “Uma aventura natalícia”; ou o pobre viúvo que, tendo já perdido a esposa com o terrível flagelo da tuberculose, recebe a feliz notícia de que a sua única filha estava salva e viria passar o Natal a casa, no conto “Ternura de Natal”. Tam-bém não faltam as justas recompensas para os humildes e persistentes que, pelo seu comportamento exemplar, pela sua vivência com retidão e pela observância de princípios morais, veem chegado ao fim o seu sofrimento e privação, como são exemplos os contos “Dádiva de Natal” e “Elegia de Natal”.

Cristais de Natal é um livro inteiramente recheado pelo tradicionalismo da essência cultural minhota, expresso em importantes referências ao património linguístico próprio desta época especial do ano, nomeadamente quando o autor fala das “batatas, olhos de couve, postas de bacalhau, azeite e broa, formigos, aletria, nozes e pinhões…”, e da lareira acesa e “aquecida pela labareda de umas canhotas”. Não podiam deixar de estar presentes em toda a obra as inúmeras referências aos presépios que existem em várias culturas e fazem parte da tradição natalícia de milhões de famílias espalhadas pelo mundo. O autor, além de contex-tualizar historicamente o surgimento dos presépios no conto “Presépio carinhoso”, apresenta na maioria das narrativas os vários tipos de presépio e figuras utilizadas, facto que constitui um importante registo que fica para a posteridade. Assim, ao abrirmos Cristais de Natal encontramos relatos extraordinários sobre vidas humildes, apaixonadas e sinceras. Famílias felizes e unidas que se contentam com pouco porque o amor tudo supera; velhinhos a quem não falta uma mão amiga e solidária nas horas de maior privação e solidão; crianças inocentes que acreditam na magia do Natal e na bondade do coração dos homens e das mulheres que os rodeiam.

Desta forma, José Fernandes da Silva faz-nos acreditar que não se pode perder a esperança na humanidade, que quem acredita e não esmorece sempre alcança o almejado; que quem pratica o bem e segue os princípios elementares da honestidade e retidão vê o seu esforço recompensado e o seu sofrimento atenuado.

Cristais de Natal é, pois, um livro que se lê com emoção e ternura e nos incita a estarmos mais atentos ao próximo, no sentido de, até com pequenos gestos, podermos contribuir para um mundo melhor e mais fraterno, onde a solidariedade não seja só mais uma palavra bonita do nosso dicionário, mas uma atitude e forma de ser e estar na vida.

Bem haja, por tudo isto, José Fernandes da Silva, que na sua humilde simplicidade nos presenteia com mais um volume sugestivamente rico em sensações visuais, em emoções contagiantes e relatos únicos que nos transportam para um mundo em que a magia de Natal transforma todos os sonhos na mais pura realidade!


Vila Verde, 22 de outubro de 2014


Júlia Rodrigues Fernandes


 Voltar Índice


Consoada Feliz

O Rogério aparentava uns vinte e cinco anos quando, nos anos trinta do século que terminou, apareceu na aldeia, vindo não se sabia de onde e talvez fugido não se imaginava de quê.

Pelo sotaque, diziam uns, era transmontano, outros asseveravam tratar-se de um alentejano ou algarvio.

A verdade é que foi bem aceite na comunidade, tendo-se integrado perfeitamente.

Ao fundo da aldeia, num lugar quase desabitado, fixou residência num pequeno e velho coberto, onde, outrora, um lavrador guardava uma junta de bois, sempre que ia estender milho, centeio, feijão e cereais para secarem na extensa laje de pedra, ao lado do rio, gasta pelo tempo e pelas águas na época das enchentes.

Trabalhava a jornal pelas casas abastadas da terra e das redondezas e, a fazer de cama, para repousar o corpo extenuado, ao fim de cada dia de árduo labutar, tinha uma pobre esteira de feno e colmo de centeio, dentro de quatro tábuas toscas. Para cima do canastro atirava um pedaço velho de flanela a servir de lençol e três coçadas mantas, já rotas e sem idade... E assim dormia.

No que diz a respeito, servia e era servido. Portanto, nada a apontar nos autos.

Ora, nesta forma de viver, decorreram três dúzias de anos e viu-se sexagenário, como tantos outros. Sem surpresa. Mas o derradeiro lustre tinha sido cumulado de doenças, fome, privações e muita solidão. Sentia-se muito enfraquecido, pois havia dias em que não ingeria quaisquer alimentos. Quando um dia se viu nessa penúria no dia de Consoada, chegada a noite, futurava que o estômago ficaria vazio, já que a possibilidade de uma ceia natalícia não passava de um sonho vão...

A uns duzentos metros, num casebre térreo, orçando mais de oitenta anos de idade, vivia a Se Laurinda, uma pobre e simpática viúva. Casara cedo e foi mãe de uma menina, que a morte, sempre inclemente, levou, quando estava quase a festejar o primeiro aniversário. O marido nem conhecera a filha, pois, tendo emigrado clandestinamente para França, não sobreviveu às asperezas e privações da jornada. Diversas vezes, do pouco que tinha, partilhava com o vizinho enfermo. E, naquela noite de Consoada, uma vez mais, apenas a generosa velhinha se lembrou da situação de abandono do seu infeliz vizinho.

Ela havia recebido, de famílias caridosas (como dantes era prática nas aldeias, em que alguns mais afortunados se preocupavam com os que viviam com visíveis necessidades), uma abada de batatas, uns olhos de couves, uma caneca de vinho e, do sempre atento merceeiro, uns rabinhos de bacalhau. Confecionou as preciosas dádivas, preparou uma farta travessa, encheu uma garrafinha de vinho, pegou na candeia e partiu para o humilde tugúrio.

Logo que chegou à fria mansarda do Rogério, colou o ouvido às frinchas da porta, que só estava encostada, chamou, com mansidão e doçura, e, depois de entrar, acudiu ao desgraçado:

“Então, seu preguiçoso, nem te lembras que hoje é dia de Consoada?!... Vamos a largar essa palha, enquanto acendo o lume!” Num cantinho do coberto, sobre um pedregulho que servia de lareira, colocou um pouco de caruma e meia dúzia de canhotas. Com o pavio da candeia pegou fogo à caruma e logo brilhou uma ténue chama, que se propagou às canhotas. Daí a instantes, uma suave labareda iluminava o mísero coberto e principiava a aquecê-lo.

Rogério afastou as mantas e, a custo, levantou-se. Instalou-se num rolo de sobreiro, que fazia de banco, colocou a travessa sobre os joelhos, retirou um farrapo limpinho que cobria os alimentos e contemplou o inesperado manjar, como que caído das mãos de Deus!

Batatas e couves! Um molho feito da água do cozido, com uns olhinhos de azeite! E cheirava e sabia a bacalhau!

Ainda incrédulo e enternecido, com um apetite repentino, iniciou a sua ceia de Natal.

Comeu tudo. Bebeu tudo. E estava satisfeito e agradecido.

“Que bem me soube, Se Laurinda! Que o Senhor lhe pague, a cubra de bênçãos e sempre a regale, como, sem eu contar, me regalou nesta noite de Consoada!”

A benfeitora regressou ao seu lar, levando, no canto do olho, uma lágrima fraterna, vertida por amor e alegria.

Ele permaneceu, meditativo, longo tempo, sorvendo o reconfortante calor dos tições a sumirem-se...

Já noite dentro, com lentidão, pôs-se em pé e caminhou para a enxerga. Deitou-se de costas, levantando o olhar para os caibros húmidos, carcomidos e defumados. Duas grossas lágrimas deslizaram-lhe pelas magras faces. E, de súbito, pelos buracos da telha-vã, vislumbrou o céu aberto, exibindo um formidável e lindíssimo presépio, cercado por legiões de corpos celestes, a entoarem inigualáveis cânticos de júbilo, saudando e bendizendo o pequenino Rei, que se fazia Homem para redimir o Mundo...

Ao longe, no campanário da igreja, devagar, começaram a soar as doze badaladas da meia-noite...

Extasiado, instintivamente, ergueu as mãos em prece e adormeceu no derradeiro sono...


Outono de 2006


 Voltar Índice


Presente de Natal

O azevinho, ou azevinheiro, é uma planta arbustiva, ou pequena árvore, cujas folhas apresentam espinhos, sendo os ramos, tradicionalmente, utilizados como decoração na quadra natalícia.

Mas aquele, para contrariar a regra, era enorme e, pela primeira vez, estava carregadíssimo das encantadoras bagas vermelhas... Mas tal abundância tardou a chegar, tanto que havia meia dúzia de anos que a filha e o filho prometiam à mãe que trariam raminhos ornamentados com bolinhas vermelhas, logo que ele frutificasse.

Pelo mês de agosto, sorrateiramente, iam observá-lo, na expetativa de encontrar o fruto tão ambicionado. Depois, a vigilância passou a ser semanal, diária e, às vezes, mais do que uma vez no mesmo dia: e nada! Apenas o andor verde e os picos a ameaçarem as mãos incautas que se atrevessem a tocar-lhes de modo imprevidente.

Para dizer a verdade, volvido tanto tempo, até já nem acreditavam que alguma vez pudesse frutificar. Enfim, “quem espera, desespera”, como diz o rifão, e as duas crianças estavam mesmo fatigadas de aguardar, embora não desistissem da empreitada. Procurariam encontrar uma alternativa, um outro azevinho... Mas onde, santo Deus, mas onde?...

Na aldeia apenas existiam três azevinheiros: um no bem cuidado jardim da casa do fidalgo velho, mesmo em frente à entrada da casa senhorial (de pedra lavrada e com enfeites em granito nas diferentes partes do edifício), muito alto, entroncado e ramalhudo, que todos os anos se vestia de um vermelho vistoso e cobiçado; outro perto de um caminho tortuoso e íngreme, nascido numa parede de pedras toscas e encavalitadas, enfezado, musgoso e que nunca produziu bagas; e o tal, o maior, que teimava em não premiar as crianças com as tão reluzentes bolinhas, que há muito faziam questão de oferecer à mãe.

Tal exemplar descobriram-no numa bouça, longe da residência e já na estrema da freguesia.

E a boa e meiga mãe, a sorrir, cada vez que os filhos falavam do presente desejado, ia-lhes retorquindo:

“Não faz mal, queridos: já me consolam os raminhos sem frutos e a vossa delicada intenção; o resto, claro está, não depende de vós, faz parte da Natureza... Mas a esperança é a derradeira coisa a morrer: se calhar, quando menos cuidardes, regalareis os olhos com o azevinho todo vestido de verde e vermelho... Ficava bem no presépio um arranjo com ramos a exibir as escassas bolinhas, lá isso ficava... Tudo, porém, se remedeia...”

E brindava-os com um suave e repenicado beijo e um largo e caricioso olhar!

Em fins de novembro, como que por milagre e quando já conjeturavam que sucederia como nos demais anos, notaram alterações no arbusto:

sinais de minúsculas bolinhas e em grande quantidade!

Com o mesmo pensamento, extasiados, desabafaram, quase em surdina:

“Não se diz nada à mãe! Ela nem sonha, nem acredita!... Vai ser uma tremenda surpresa!...”

No dia de Ceia, como era tradição, foram ao monte apanhar musgo, para atapetar todo o espaço fora da grutinha; colocaram o Menino Jesus nas palhinhas, Maria e José à cabeceira, o boizinho e o jumentinho a bafejar o Pequenino, que tinha frio, já que o bercinho era uma rústica manjedoura; perfilaram os pastores, carregando gordos cordeirinhos; dispuseram, lado a lado, os três Reis Magos, montados em soberbos camelos e exibindo os ricos presentes, formados por ouro, incenso e mirra; arquitetaram anjos, arcanjos, querubins, serafins e uma legião de outros corpos celestes, a descer do Céu, para adorar o Menino Deus, concebido por infinito amor, e também para entoar, à porfia, cantos harmoniosos de júbilo e de louvor; e, a coroar tão belo presépio, alcandoraram uma fulgente estrelinha no coruto do pinheirinho, onde ficou, suspensa, a indicar a humilde lapinha escura...

Em segredo, pela manhãzinha soalheira e fria, foram cortar os ramos de azevinho, escolhendo os mais ornamentados e frescos.

Num anexo, retirado da casa, prepararam dois farfalhudos arranjos, que acomodaram em dois bonitos jarrões e, ao cair da noite, aproveitando a ausência da mãe que se movimentava numa azáfama com os preparos para a lauta Consoada, o menino e a menina, com orgulho, amor, ternura e simplicidade, colocaram, no lugar certo e mais nobre do presépio, o sumptuoso e invejável presente de Natal.

Honravam assim o Salvador da Humanidade e deleitavam os maviosos olhos daquela que tanto amavam e tanto os enternecia...


Outono de 2009


 Voltar Índice


Presente de Natal

O azevinho, ou azevinheiro, é uma planta arbustiva, ou pequena árvore, cujas folhas apresentam espinhos, sendo os ramos, tradicionalmente, utilizados como decoração na quadra natalícia.

Mas aquele, para contrariar a regra, era enorme e, pela primeira vez, estava carregadíssimo das encantadoras bagas vermelhas... Mas tal abundância tardou a chegar, tanto que havia meia dúzia de anos que a filha e o filho prometiam à mãe que trariam raminhos ornamentados com bolinhas vermelhas, logo que ele frutificasse.

Pelo mês de agosto, sorrateiramente, iam observá-lo, na expetativa de encontrar o fruto tão ambicionado. Depois, a vigilância passou a ser semanal, diária e, às vezes, mais do que uma vez no mesmo dia: e nada! Apenas o andor verde e os picos a ameaçarem as mãos incautas que se atrevessem a tocar-lhes de modo imprevidente.

Para dizer a verdade, volvido tanto tempo, até já nem acreditavam que alguma vez pudesse frutificar. Enfim, “quem espera, desespera”, como diz o rifão, e as duas crianças estavam mesmo fatigadas de aguardar, embora não desistissem da empreitada. Procurariam encontrar uma alternativa, um outro azevinho... Mas onde, santo Deus, mas onde?...

Na aldeia apenas existiam três azevinheiros: um no bem cuidado jardim da casa do fidalgo velho, mesmo em frente à entrada da casa senhorial (de pedra lavrada e com enfeites em granito nas diferentes partes do edifício), muito alto, entroncado e ramalhudo, que todos os anos se vestia de um vermelho vistoso e cobiçado; outro perto de um caminho tortuoso e íngreme, nascido numa parede de pedras toscas e encavalitadas, enfezado, musgoso e que nunca produziu bagas; e o tal, o maior, que teimava em não premiar as crianças com as tão reluzentes bolinhas, que há muito faziam questão de oferecer à mãe.

Tal exemplar descobriram-no numa bouça, longe da residência e já na estrema da freguesia.

E a boa e meiga mãe, a sorrir, cada vez que os filhos falavam do presente desejado, ia-lhes retorquindo:

“Não faz mal, queridos: já me consolam os raminhos sem frutos e a vossa delicada intenção; o resto, claro está, não depende de vós, faz parte da Natureza... Mas a esperança é a derradeira coisa a morrer: se calhar, quando menos cuidardes, regalareis os olhos com o azevinho todo vestido de verde e vermelho... Ficava bem no presépio um arranjo com ramos a exibir as escassas bolinhas, lá isso ficava... Tudo, porém, se remedeia...”

E brindava-os com um suave e repenicado beijo e um largo e caricioso olhar!

Em fins de novembro, como que por milagre e quando já conjeturavam que sucederia como nos demais anos, notaram alterações no arbusto:

sinais de minúsculas bolinhas e em grande quantidade!

Com o mesmo pensamento, extasiados, desabafaram, quase em surdina:

“Não se diz nada à mãe! Ela nem sonha, nem acredita!... Vai ser uma tremenda surpresa!...”

No dia de Ceia, como era tradição, foram ao monte apanhar musgo, para atapetar todo o espaço fora da grutinha; colocaram o Menino Jesus nas palhinhas, Maria e José à cabeceira, o boizinho e o jumentinho a bafejar o Pequenino, que tinha frio, já que o bercinho era uma rústica manjedoura; perfilaram os pastores, carregando gordos cordeirinhos; dispuseram, lado a lado, os três Reis Magos, montados em soberbos camelos e exibindo os ricos presentes, formados por ouro, incenso e mirra; arquitetaram anjos, arcanjos, querubins, serafins e uma legião de outros corpos celestes, a descer do Céu, para adorar o Menino Deus, concebido por infinito amor, e também para entoar, à porfia, cantos harmoniosos de júbilo e de louvor; e, a coroar tão belo presépio, alcandoraram uma fulgente estrelinha no coruto do pinheirinho, onde ficou, suspensa, a indicar a humilde lapinha escura...

Em segredo, pela manhãzinha soalheira e fria, foram cortar os ramos de azevinho, escolhendo os mais ornamentados e frescos.

Num anexo, retirado da casa, prepararam dois farfalhudos arranjos, que acomodaram em dois bonitos jarrões e, ao cair da noite, aproveitando a ausência da mãe que se movimentava numa azáfama com os preparos para a lauta Consoada, o menino e a menina, com orgulho, amor, ternura e simplicidade, colocaram, no lugar certo e mais nobre do presépio, o sumptuoso e invejável presente de Natal.

Honravam assim o Salvador da Humanidade e deleitavam os maviosos olhos daquela que tanto amavam e tanto os enternecia...


Outono de 2009


 Voltar Índice


Uma Noite de Natal

Havia uma órfã, de meia-idade, que vivia tão pobre, tão pobre que, numa noite de Natal, se viu sem um cêntimo no bolso...

Se alguém se apiedasse dela e lhe desse de esmola algumas batatas e couves (já nem lhe aflorava à mente um rabinho de bacalhau, nem que fosse apenas para dar gosto e rescender o ambiente do casebre), ainda poderia consolar-se e tentar uma consoada feliz...

O dia, frio e húmido, porém, ia fenecendo, dando lugar à assustadora escuridão.

Durante o tempo seco, tivera o cuidado de apanhar uns molhinhos de caruma, umas abadas de pinhas e uns braçados de guiços, que, aos poucochinhos, ia colocando sobre uma reduzida e tosca pedra, que servia de lareira. Onde o brasume ia morrendo, soprado por um vento leve e gelado, que verrumava o velho telhado sem uma tábua de forro. E, apesar da leveza, a aragem, ao passar, unia o seu lamento triste à miséria da solitária mulher, que sentia o coração oprimido e uma profunda lassidão a envolvê-la...

Não tinha petróleo para acender a candeia e o ténue borralho ia-se extinguindo mais depressa do que o seu desejo.

Era tarde. Já não havia hipótese de ter uma minúscula ceia. Por isso, sentia-se invadida por uma enorme angústia, regada com lágrimas vagarosas e amargas. E, sempre a causticá-la, a ideia de uma vitualha natalícia, por mais simples que fosse. Talvez só mesmo uma batatinha quente, a fumegar, regada com uns pinguitos de azeite virgem... Um inevitável e poderoso cansaço atirou-a para cima de um rolo de carvalho, já podre, onde meteu a cabeça entre as conchas das mãos magríssimas, e adormeceu. Durante o sono, teve um delicioso e ridente sonho:

Em deslumbrante mansão, como nunca imaginara, pejada de imensa gente, de serviçais alegres e gentis, e cercada por sumptuosos e bem tratados jardins, encontrou lauta refeição, composta por sortidas iguarias.

Numa comprida mesa lacada a ouro e com diversificados arranjos e cristalinas jarras de flores, onde alvejava uma rendilhada toalha de linho, dispunham-se manjares de dar graças infindas a quem os inventou: filhós, pinhões, figos, nozes, avelãs, amêndoas, uvas passas, aletria, pão-de-ló, rabanadas, formigos, compotas, bolos de todas as qualidades, frutas cristalizadas, queijo, salpicão, presunto, bolinhos de bacalhau, croquetes, rissóis, perus assados e recheados, leitões, pudins, rebuçados, marisco variado, licores, vinhos finos, champanhe...

As inumeráveis iguarias eram um regalo para os olhos, mas despertaram-lhe um apetite voraz, que a alucinava!

Na grande e lavrada pedra da lareira crepitava e brilhava uma fulva chama.

O ar estava impregnado de agradáveis odores, libertados de vários potes, que ferviam ruidosamente e por onde se distribuíam hortaliças, legumes, ovos, polvo, bacalhau, batatas...

Numa ampla braseira estavam a assar lindas e apetitosas maçãs.

A um canto, milhares de lâmpadas iluminavam um copado e alto pinheiro, debaixo do qual se estendia um presépio extenso e lindo, onde, numa manjedoura, deitado em duras palhas, com infinita doçura, o Menino Jesus sorria!

Extasiada, a hóspede, de fio a pavio, alimentou o corpo e a alma, conviveu e divertiu-se, até raiar o dia, que se vestiu com um brilhante e convidativo sol, a aureolar, de lés a lés, a Terra-Mãe...

Quando despertou, com o estômago ainda mais vazio do que antes, a infeliz órfã, regelada como nunca, regressou à sua vida terrena de solidão e pobreza.


Natal de 2010


 Voltar Índice


Prenda de Natal

Ainda que aparentemente sem valor, quem não gosta de a receber?!... Dependerá apenas e sempre da proveniência e da pessoa que a recebe já que, em última instância, será ela a valorá-la...

Aquele menino de sete anos, obsessivamente, também queria uma prenda. Uma só e nada mais lhe interessava. Tinha tudo, desde carinhos e mimo até aos mais diversos e sofisticados brinquedos. Não que não apreciasse, mas tudo trocaria pela “Prenda”, a tal única que desejava.

Não conhecia o pai, salvo através do álbum de fotografias do casamento, que a mãe guardava, religiosamente, e que, vezes sem conta, desfolhava para ele, com uma doçura indescritível e banhada em lágrimas, destacando sempre a sua jovialidade, aprumo e franco sorriso...

E o menino amava, idolatradamente, aquele pai, mirando-o, às escondidas, enternecido e orgulhoso, num grande retrato a óleo, de quando tinha vinte primaveras, que se encontrava pendurado na parede da ampla sala de jantar.

Sabia de cor, também, a bela história de amor de seus pais, já que a progenitora lha repetia constantemente.

Conheceram-se na Faculdade de Direito, onde se formaram com elevada classificação. Apaixonaram-se, casaram e amaram-se sempre, com ardor e ternura. A esposa não tardou a engravidar e, quando o segredo foi conhecido, não houve quem não comungasse da grande satisfação.

Mas também, raramente há alegria que não acarrete tristeza: o marido, na semana em que tomou conhecimento de que ia ser pai, foi abordado por homens da polícia política, conduzido para local incerto, interrogado até à exaustão, maltratado e metido numa cela exígua, sem nenhum conforto.

Tinha, com efeito, as suas ideias democráticas, mas jamais as pusera em evidência, embora fosse do domínio público que a família do lado paterno, desde sempre, militava em doutrinas contrárias ao regime vigente. Ele, porém, cometia o único pecado de pensar de modo diferente e, na época, apenas desejava viver para a esposa e para o nascimento do querido fruto do amor de ambos.

Correu muito dinheiro, moveram-se grandes influências e nada se logrou: perdeu-se-lhe o rasto e chegou mesmo a conjeturar-se que tivesse sido liquidado, como já havia sucedido a tantos outros, que só proclamavam e pretendiam a Liberdade...

Desconhecendo-se o seu paradeiro e se era vivo ou morto, passaram quase oito anos, até rebentar o 25 de Abril de 1974, a inesquecível e memorável festa dos cravos, preparada e dirigida com abnegação e fraternidade por um punhado de bravos e solidários capitães, que devolveram alguns dos mais elementares direitos aos seus concidadãos...

(...) E chegara mais uma noite de Natal!

Àquele menino, que obstinadamente queria apenas “uma Prenda”, a ceia daquela noite nada lhe dizia, assim como as inúmeras e ricas prendas que lhe colocavam no presépio, em cada ano exposto ao lado da enorme lareira de granito, mais que nunca a arder em labareda, a crepitar e a aquecer, agradavelmente, o ambiente.

Na mente, sem repouso, desfilavam-lhe muitos e incontidos pensamentos e desejos:

Se pudesse ter a sorte de receber a “Prenda” dos seus constantes devaneios...

Se fosse possível tê-la a seu lado e para sempre...

Se o Pai Natal, que percorria os mais recônditos lugares e contentava milhões de crianças no mundo inteiro, pisando neves, aguentando tempestades e elevadas temperaturas, atravessando montes e vales, navegando por rios, lagos e mares (consoante vira e apreciara em tantas bandas desenhadas), o presenteasse com a única coisa que queria...

Se o Menino Jesus, esse inigualável amigo dos pequeninos, a quem tanto orava e suplicava a concessão de um milagre, acabasse com as habituais lágrimas e saudades da mãe...

Se algo pudesse suceder num qualquer dia, em qualquer Natal e, de preferência, no que estava a comemorar-se...

Aproximava-se a hora de consoarem.

O pequeno estava sentado à mesa, com os cotovelos apoiados, o queixo metido na concha das mãos e os olhos pregados no amplo vitral da porta de entrada, que deixava banhar tudo com suave e prateado luar.

De súbito, ouviu-se parar um automóvel e, pouco depois, soar a campainha.

Levantou-se a criança. Num pulo ansioso, galgou a curta distância que o separava da entrada.

Não perguntou quem era, apenas abriu a porta...

E, de repente, sem pasmos nem espantos, como se tudo estivesse previsto, o menino refugia-se nos braços abertos de um cavalheiro ainda jovem e de boa aparência que o aperta com um calor incomum...

A “Prenda”, exaustivamente ambicionada, acabava de chegar!


Outono de 2008


 Voltar Índice


Variedades de Natal

Era dia de Natal, ou de Nascimento.

Depois de uma noite passada em confraternização familiar, à tarde, no salão paroquial, ia realizar-se um programa de variedades, que, meticulosamente, tinha sido preparado com inúmeros ensaios, grande empenho de todos os participantes e com o apoio de toda a gente.

O recheado evento fora organizado apenas com temas alusivos à solene quadra natalícia. E havia um pouco de tudo (e de tudo o que mais a gente simples aprecia e aplaude): teatro, monólogos, trechos musicais, poesia, discursos...

O espaçoso salão tornou-se exíguo para uma assistência tão numerosa.

Mas tudo correu bem e saiu às mil maravilhas.

A abertura coube ao idoso e venerando pároco, que elogiou o trabalho de todos quantos se empenharam para que resultasse num produto final de qualidade e do agrado de todas as faixas etárias. Incentivando ensaiadores e protagonistas a não baixarem os braços e a proporcionarem mais e diversificados momentos de lazer.

Na mesma linha discorreu o presidente da Junta de Freguesia, que terminou o discurso com uma surpresa: no ano seguinte, a autarquia ofertaria uma aparelhagem sonora de qualidade, a fim de haver uma melhor audição.

Frenéticas e prolongadas ovações premiavam os intervenientes. Era um regalo ver tudo quanto se passava na sala: as atuações, a assistência...

Assim, a sessão prolongou-se por quase três deliciosas horas, e o seu termo aproximava-se, com visível pena dos acalorados assistentes, que davam por bem aplicado o tempo ali passado.

“Aproximamo-nos do fim da nossa tarde de variedades.” - anunciou, sorridente, a apresentadora, prosseguindo - “Agradecemos a presença de todos, com a promessa de que, para o ano e até, possivelmente, antes desta quadra festiva, se Jesus Menino quiser e nos não retirar o ânimo de trabalhar, aqui estaremos para vos oferecer outros instantes de boa disposição e bem-estar.”

“E, para terminar,” - concluiu o companheiro de apresentação - “a Ana Raquel vai declamar uma simples, mas sugestiva poesia de Natal.

Obrigado a todos os presentes e continuação de santas e felizes festas, repletas de muita harmonia, fraternidade e amor.”

A menina entrou no palco e foi recebida com uma ensurdecedora salva de palmas. Agradeceu, risonha, e, com simplicidade, mas muito concentrada, rematou aquele salutar convívio, recitando:


Noite santa

Noite feliz e tão fria,
Jesus nasceu em Belém:
inundada de alegria,
exulta a Virgem Maria,
pois acaba de ser Mãe!



Chora o Menino com dores,
na manjedoura, a tremer:
a mais singela das flores,
tão repleta de primores,
só por amor quis nascer!



Cantam anjos, homens, santos,
rejubila a terra e céus:
nos mais ínfimos recantos
se realçam os encantos
do recém-chegado Deus!



Tudo, enfim, p’la Natureza,
entoa, em raro coral:
“Que doravante a riqueza,
fraterna, abrace a pobreza
e haja amoroso Natal!”


Outono de 2010


 Voltar Índice


Viandeiro de Natal

Naquele ano o outono fora muito rigoroso e o inverno, há dois dias chegado, prometia continuar com as mesmas ou piores condições climatéricas, de modo que, aquela família, já por si carenciada, não tinha um vintém para valer à mais ínfima despesa.

O pai, humilde lenhador, havia meses que não tinha trabalho por causa do intenso frio e intempéries sucessivas. Bem se ralava para ter o estritamente necessário para sustentar a mulher e os quatro filhos (crianças cujas idades orçavam entre os seis meses e os sete anos), mas não havia onde ir buscar fosse o que fosse.

A escassez de trabalho e o tempo eram os causadores de tal situação, pois, no que dizia respeito à vontade de trabalhar, ninguém podia apontar-lhe uma unha que fosse.

Mas a noite de Consoada chegou e o pobre casebre estava despido de tudo o que pudesse matar a fome a uma formiga. Que desgosto tamanho avassalava aquele chefe de família!...

E como remediar tal situação?

Não se importava de mendigar. Todavia, mendigar onde, a quem e o quê, se os vizinhos, por assim dizer, eram quase tão pobres como ele e as carências se igualavam?...

As poucas casas abastadas fechavam as portas, já que a miséria que grassava na região era incomensurável.

O que fazer, então, o que fazer, santo Deus!?...

Com tantas contrariedades a fustigá-lo, nunca esmorecera: sempre se apoiava na sua fé e num Deus misericordioso que, nas horas mais difíceis, não esquecia os retos seguidores.

E acreditava na bondade do Pai Natal, que, certamente, numa situação de apuros, também premiaria os adultos, além de que ele bem sabia que naquela família havia quatro criancinhas!

Desta forma, uma esperança, que é sempre a última a morrer, salientava-se dentre o turbilhão dos seus pensamentos.

Só Deus tem em Suas mãos o poder de castigar ou de absolver; de retirar ou cumular de bens...

E o simples lenhador acreditava que Deus, na Sua infinita autoridade, olhando os dois pratos da balança, o mesmo é dizer, pesando o bem e o mal, optava sempre por premiar o prato da bondade.

Fechou-se, de todo, a noite. Ladravam, ao longe, uns cães vadios. O vento, não muito forte, corria, gelado. Começaram a nascer as primeiras estrelas no céu...

De súbito, pareceu-lhe escutar um ténue barulho...

Saltaram todos para fora da habitação. Mais que ninguém, o chefe de família apurou o ouvido e afigurou-se-lhe ouvir o aproximar de uma carruagem.

Expectante, prestou ainda mais atenção, para não perder a localização do ruído.

E não é que o trote de cavalos e o rodar da carruagem cada vez mais se dirigiam no rumo da sua casa!

“Deus seja louvado!” - exclamou, com as mãos erguidas em prece de contentamento e fervor - “Se Jesus Menino atendesse as minhas súplicas!...”

Com efeito, rapidamente, a carruagem aproximou-se, parou à entrada do casebre e dela se apeou um homem, com ar de visível bondade e nada semelhante à figura do Pai Natal, que os saudou, com gestos subtis e colocou, a seus pés, dois enormes caixotes, abarrotados de géneros alimentares e seis vistosos embrulhinhos, que eram as lembranças de Natal para os seis membros da família...

“Excelente consoada e um santo e feliz Natal para todos!” - proferiu o cavalheiro, amável e sorridente.

Subiu para a carruagem e partiu em direção a outras paragens...


Outono de 2010


 Voltar Índice


Bendito Natal

João e Sara tinham casado havia dez anos e eram progenitores de duas bonitas e adoráveis crianças: uma menina, mais velha, e um menino.

Fora um casamento por amor. Tinham vivido muito felizes, até um dia parecer a João que a esposa lhe mostrava um semblante diferente e que não o tratava como dantes.

Começou então a cismar que ela o traía, que mantinha clandestinas relações com outro homem.

Certezas, porém, não existiam. Mesmo não passando de suposições, o certo é que o cérebro começou a pensar fora da lei e o terrível bichinho do ciúme a trabalhar, incessantemente.

E, na sua honradez, João sentia-se magoado e sofria atrozmente com os espinhos de tamanha desconfiança, que, dia e noite, o não abandonava um só instante. Embora também não tivesse quaisquer provas que confirmassem tão angustiante dúvida.

Mas a sua desorientação era de tal ordem que começou a urdir um plano diabólico, para castigar a mais que certa infratora, pois tinha de limpar a sua honra e a dos filhos...

Seria mesmo nesse Natal. Não podia suportar por mais tempo as suspeitas, a vergonha e os ultrajes que a sua delirante fantasia adivinhava por toda a parte por onde passava...

Seria nessa noite. Morreriam todos, tinha disso bem a noção, mas a família ficaria purificada. Certamente, pelos tempos fora, comentariam o seu cruel gesto, mas prevaleceria a ideia de que o brio suplantou a tragédia provocada, a carnificina, o horror de semelhante loucura...

Aquele dia de Consoada calhou numa quinta-feira. Havia três semanas que se encontrava a trabalhar perto da fronteira de Espanha com a França. De modo que chegou à sua aldeia de origem pelo meio da tarde desse mesmo dia.

Entrou em casa, escondendo numa pequena mochila o objeto letal: uma bomba artesanal de potência suficiente para reduzir tudo a escombros.

Mal deu o primeiro passo dentro de portas, a menina correu, lançou-lhe os braços ao pescoço, beijou-o com sofreguidão e ternura, dizendo:

“Feliz Natal, querido pai!”

Sem estar recomposto da espontaneidade da filha mais velha, logo foi surpreendido com a correria do filhinho de cinco anos. Também ele se abraçou a ele e gritou, repleto de júbilo:

“Bom Natal, papá!”

Todo o seu projeto assassino foi caindo por terra.

Mas ela, a causadora de tudo, a mulher que amava intensamente, não aparecia; ela certamente sabia que era a culpada e que ele não merecia tão vil humilhação...

O ciúme teimava em não o deixar. A razão fervilhava-lhe no sentido oposto do desejável. Não era capaz de discernir e de dar uma oportunidade a Sara, questionando-a, para lhe permitir a defesa e a exposição dos seus argumentos, se é que os havia...

Deus seja louvado!, atrás dos filhos, com serenidade, humilde e exibindo um sorriso meigo e diferente dos inúmeros que, ultimamente, semelhava mostrar ao marido, ela surgiu e, resoluta, dirigiu-se-lhe, pronunciando:

“Boas-vindas, João, e feliz Natal.” - e esperou a réplica.

Só a Deus pertence a fórmula de fazer milagres, e Ele, neste caso, decidiu acudir também a esta alma aflita: inesperadamente, uma hecatombe de bons sentimentos jorrou no peito do chefe de família, que, cuidadosamente, poisou a mochila no chão. Puxou para o braço direito as duas crianças e sentiu que, do lado esquerdo, bem junto ao coração, alguém chorava e se encostava, de uma forma há muito por ele não sentida.

“Feliz Natal, meus amores!” - balbuciou João, por fim, emocionado e profundamente aliviado. Depois concluiu, entre dentes: “Obrigado, Menino Jesus!...”


Outono de 2010


 Voltar Índice


Ceia de Natal

Com perto de oitenta anos de idade, a simpática senhora que casara tarde, sentia-se plenamente realizada. Foi mãe de duas raparigas que, devido às profissões que exerciam, tiveram de ir habitar para bem longe da terra que as viu nascer.

Em certo momento, havia quase um ano, adoeceu com gravidade e ficou acamada.

As filhas bem tentaram levá-la para junto delas, mas a senhora mostrou sempre vontade de permanecer na antiga e confortável casa que herdara do seu bisavô paterno.

A seu pedido, veio, então, viver com ela uma neta de quinze anos, a Joana, que, manda a verdade que se diga, era a menina dos seus olhos!... Para além de que, embora tendo uma idosa e fiel empregada, a velha senhora apreciava imenso os petiscos e carinhos da jovem neta, que muito lhe agradecia os elogios e a ternura com que a mimoseava.

Mas a anciã comia pouquíssimo, afetada que estava por uma inexplicável falta de apetite. E nesse estado de fastio, chegou à noite de Natal, cujo dezembro corria bastante ameno.

Joana não queria sair de junto da simpática e terna avó, mas desejava, de todo o coração, preparar-lhe uma refeição natalícia que pudesse consolá-la. Por isso, ia e vinha, vinha e ia, não descurando quer as iguarias que estava a confecionar, quer o conforto da sua doente... Havia já algum tempo que nenhum alimento descia ao estômago da enferma, mas a menina tinha quase a certeza de que, em noite tão santa e festiva, a avó se desjejuaria...

A lareira crepitava e aspergia feixes de luz e de calor. Imensas lâmpadas, no verde pinheirinho, semelhavam pirilampos...

Tudo, enfim, preparado, logo que chegou a hora de consoarem, a pequena armou uma mesinha para a avó, dispôs nela alguns alimentos e sentou-se no leito a seu lado. Até parecia incrível, mas, graças a Deus, a velhinha começou a comer e comeu bem, dando a impressão de que o fazia com inesperado e ávido apetite...

Pertinho da meia-noite, inesperadamente, chamou a neta, tomou-lhe, delicadamente, as mãos e começou uma lengalenga, quase cantarolada:

“Glória a Deus no alto dos Céus; paz e bem-estar para todas as criaturas!

Nasce depressa, Jesus Menino, enche de coragem e mansidão o peito deste anjo, que não me abandonou num só instante no percurso de incontáveis dias e noites... Que a vida lhe sorria com o calor e harmonia desta noite santa... Que sinta na alma o mais consolador bálsamo e jamais os seus cândidos olhos vertam lágrimas de agrura... Ou que, a vertê-las, tenham a doçura das que agora brotam dos meus, inundando-a aquela alegria que me visita ao celebrar-se o nascimento de quem se oferece simplesmente por amor...”

Os olhos, húmidos, vagueavam da neta para o teto, e vice-versa. E, com um largo sorriso, suavemente, adormeceu para sempre!...


Outono de 2010


 Voltar Índice


Consoada Solidária

Naquela santa missa, no dia do Nascimento, foi comovente, singela e expressiva a homilia proferida pelo reverendo Padre Artur Marques, na igreja de Sobreposta, concelho de Braga, onde é pároco, embora sendo natural de Donim, Guimarães, onde chegou ao mundo em 2 de janeiro de 1944.

Depois de breve alusão ao Evangelho e demais leituras, exemplificou o sentido do Natal com uma vivência da sua infância. E porque também era um homem bom, sensível e amigo de praticar o bem, aquela bonita ação, de um autêntico samaritano, ficou-lhe intensamente gravada no coração.

Fora o caso que, numa noite de Consoada, quando a sua família se preparava para cear, o seu pai, discretamente, saiu de casa, levando um pouco de tudo o que estava destinado para a confraternização dessa noite.

“Eu venho já!” - disse o bondoso chefe de família.

E partiu...

Não longe dali havia um casal muito pobre, com um rancho de filhos. O trabalho escasseava e aquele inverno decorria rigoroso. O pai sabia que tudo faltava naquela casa e que não iriam ter ceia nessa data tão importante...

Levou batatas, couves, bacalhau, vinho, broa, cozida nessa manhã, e azeite - o mais que suficiente para uma família numerosa, com a certeza de que, no dia santo, também teriam direito à “roupa-velha” (esse pitéu sublime, feito dos restos da ceia, e que os minhotos, sobretudo, tanto apreciam e mantêm como tradição).

Chegado a casa da humilde família, entregou as iguarias, desejou boas-festas e regressou ao convívio dos seus, comovido e imensamente feliz.

Só então confessou a razão daquela saída imprevista e todos comungaram da sincera alegria daquele pai - afinal, também ele, um autêntico Pai Natal...

Deram início, então, à sua deliciosa e ambicionada ceia natalícia. E todos tinham a convicção de que no outro lar, aquecidos pela labareda de umas canhotas, os convivas se regalavam com um repasto inesperado. Como se fora um lauto banquete oferecido pelo Menino Jesus que, dentro em pouco, nasceria numa humilde gruta, em puídas palhinhas e que, dando-se por amor, aspergiria ternura por toda a Humanidade!

Que haja muitas Consoadas assim, proporcionadas por homens bons e solidários, como o cristão que não se esqueceu da miséria do seu semelhante.


Outono de 2007


 Voltar Índice


O Pai Natal

“Natal é sempre que o Homem quiser...”

Na verdade, porém, uma grande parte das vezes, o Homem não quer, nem se esforça por querer...

E é pena, porque a quadra natalícia é um dos momentos mais suaves e preferidos na existência de muita gente... No que diz respeito às prendas, quer miúdos, quer graúdos saboreiam as inesperadas e carinhosas oferendas, fingindo acreditar que também foi concessão do generoso Pai Natal...

Num certo 25 de dezembro, por sinal um formoso dia cheio de sol, embora brando, soprava uma leve e fresca brisa e a passarada chilreava nas árvores despidas e tristonhas: tudo era ou parecia ser tempo de Natal...

O Porfírio apenas contava oito anos de idade, mas já sabia que o Pai Natal era um sonho de muitos sonhos lindos.

Havia surpreendido e apreciado algumas conversas entre adultos, que comentavam a tradição da vinda do velhinho bondoso que palmilhava montes e vales, mares e desertos, zonas geladas e tórridas, enfrentando toda a espécie de condições atmosféricas, a fim de chegar ao mais recôndito lugar e satisfazer os incontáveis pedidos, formulados por milhões e milhões de crianças de todas as idades e condições sociais...

Subtilmente, abraçado ao pescoço da mãe, o garoto pediu-lhe a narração da verdade dos factos e fixou os olhos na sua boca sorridente, pois tinha a certeza de que ela não lhe mentiria...

Então a senhora, apertando-o mais nos braços, com mimos e palavras escolhidas, resumidamente, falou ao pequeno sobre o lendário distribuidor de prendas natalícias:

“Sabes, filho, desde sempre, por toda a parte, existiu e existe muita pobreza. Apenas um reduzido número de pais pode dar aos filhos os brinquedos por eles desejados e que tão importantes se tornam para os seus divertimentos; quanto às crianças pobres... nada de brinquedos..

Um dia, não se sabe quando nem onde, um cavalheiro sensível e com largos recursos económicos resolveu, ao longo do ano, comprar e recolher todo o tipo de coisas, para presentear, na noite de Natal, os mais necessitados. Depois, a pouco e pouco, foi alargando a dádiva a todos, sem ter em conta a pobreza ou a riqueza, a raça ou a cor...

Vários países atribuíram um nome à figura do venerando cavalheiro, adaptando o ritual, consoante os seus costumes e tradições... Mas o que acima de tudo interessa sublinhar é o sentido do gesto de fraternidade e de amor, que é apanágio do simpático, caridoso e compreensivo viandeiro dessa noite tão sublime e santa...”

O Porfírio não podia ter tido melhor ensinamento. A quadra do Natal, se para si já era mágica, ganhou ainda mais encanto. E de tal forma que guardou todos esses bens herdados do amor no sagrado escrínio do peito, para sempre.


Outono de 2009


 Voltar Índice


Aventura de Natal

Do tempo de infância, da juventude e da adultidade, vezes sem conta, me vêm à lembrança os “Contos de fadas”, dos irmãos Grimm e de outros muitos autores que escreveram para crianças, que não deixam de ser um elixir leve, agradável e salutar em todos os momentos para qualquer faixa etária da vida.

Quem é que se não delicia quando algo de perigoso está a decorrer e, no derradeiro instante, aparece mão amiga e redentora?!...

Creio que todos, mesmo quem se diz insensível. E então, sobretudo quando o interveniente é uma criança que, inocente, cai nas malhas da maldade, da desgraça ou do perigo, muito mais nos sensibilizamos e desejamos um fim feliz para o enredo...

A Lucília, oito anos, filha única de um casal que vivia bem financeiramente, era dotada de excelentes qualidades. Moravam junto de um bonito e denso bosque, onde, frequentemente, a menina entrava e se divertia.

Num 24 de dezembro, pelo meio da tarde, entrou nele, a fim de apanhar musgo, azevinho e outras coisas para adornar o presépio, que estava praticamente pronto, na cozinha, debaixo do pinheirinho tradicional, que o pai tinha cortado na sua chamada Bouça Nova.

Nos últimos dias tinha nevado intensamente, embora para aquela tarde não se previsse a queda de neve. Corria, porém, um vento desagradável e fazia muito frio. Agasalhou-se, é verdade, mas, se calhar, não o suficiente para evitar desconfortos.

Caminhou, pois, no bosque, buscando os materiais que imaginara e de que precisava, entranhando-se no bosque um pouco mais do que era habitual. Já tinha recolhido tudo o que necessitava, quando, inesperadamente, a neve recomeçou a cair, em grandes flocos e a formar um espesso manto branco, que crescia em extensão e em altura...

Lucília encostou-se ao tronco de um carvalho secular, tentando localizar a direção da sua casa. Apenas enxergava brancura e mais brancura e...

caminhos ou carreiros, nada.

Apreciava o belo cenário, mas, desta vez, estava assustada, porque pensava nos pais e nas suas preocupações ao notarem que não aparecia. O tempo tornara-se horrível para quem é apanhado desprevenido, sobretudo num descampado.

E ela tinha razão para estar apreensiva, pois mal começaram a tombar os primeiros farrapos brancos, logo os pais, aflitíssimos, tentaram ir em socorro da garota. Impossível: não se podia sair de casa; a visibilidade era quase nula; o chão, as árvores e as poucas casas vizinhas brilhavam sob infinito manto de neve, que hora a hora adensava mais e mais.

Entraram em pânico: soluçavam, porque já se convenciam de que jamais a menina se salvaria...

Entretanto, o tempo ia passando e, imensamente fatigada e a tiritar com frio, Lucília adormeceu...

De repente, sentiu que lhe tocavam e despertou.

Agora, só divisava escuridão: devia ser já bem noite.

Voltaram a tocar-lhe, com leveza. Olhou e deu com os olhos numa linda senhora, que a tomou nos braços e a meteu no seu trenó, sentando-a confortavelmente.

Não lhe dirigiu a palavra, mas cobria-a com um longo sorriso de ternura.

O trenó recomeçou a andar e, pouco tempo depois, a bonita dama tomava-a, de novo, nos braços e descia-a, à porta da casa dos pais...

“Boas-festas e santa noite de Natal!”

Foram as únicas palavras proferidas pela amável protetora, que lhe depositou na face um meigo beijo e prosseguiu viagem, deslizando sobre o imenso tapete branco, que a neve, tombando de um céu baixo e fosco, tornava mais macio e resplandecente.


Outono de 2010


 Voltar Índice


Filme Natalício

O Cristóvão era filho único e, em dezembro daquele ano, completava dezasseis primaveras.

Os pais eram bons industriais, possuindo uma grande e lucrativa fábrica de calçado.

Se os negócios corriam às mil maravilhas, o mesmo não se podia dizer do relacionamento conjugal, posto que o marido era um assumido adulador de saias, usando e abusando da fama e do proveito...

A esposa ainda aguentou a situação ao longo de uma dezena de anos, mas, a certo momento, viver em conjunto tornou-se insuportável.

Correu o processo de um demorado divórcio e ela teve direito a ficar com o filho, com o casarão onde moravam e com meios financeiros mais do que suficientes para uma vida desafogada.

Cristóvão, habituado aos mimos e às regalias que o pai lhe proporcionava, temeu um futuro diferente com aquela separação. Na verdade, a mãe começou por lhe contrariar certos vícios, pois queria dar-lhe uma educação esmerada que o preparasse para uma vida de trabalho e honradez.

Por isso, principiou a fazer chantagem e a exigir que a progenitora lhe satisfizesse todas as vontades. Que, quase sempre, colidiam com os bons princípios praticados e comungados por ela.

Mas o rapaz tanto insistia, e tanto usava agressões verbais e até corporais, que a mãe não encontrava forma de não lhe satisfazer os caprichos.

E, depois, o filho, concluindo que o que a mãe tinha feito não era o melhor para ele, fustigava-a com palavras agressivas, reprovando aquilo que ele considerava serem tolas exigências.

Naquele dia de Consoada impôs à mãe a compra de um filme pornográfico.

Protestou a senhora, tentou dissuadi-lo, mas, como sempre, em vão.

Então, embora discordando, entrou no estabelecimento comercial que o rapaz lhe indicou e, envergonhada, solicitou a respetiva cassete de vídeo. Como o filho estava à espera, deu um salto a casa, entregou-lhe a encomenda e voltou ao mesmo estabelecimento, a fim de fazer as compras para as festas natalícias.

Cristóvão, de imediato, desembrulhou a cassete e colocou-a no leitor de vídeo, sem reparar no título impresso na mesma.

Iniciada a reprodução, surpreendido, constatou que se tratava de um filme de Natal. Não queria acreditar que a mãe o ludibriara. Pensou logo em destruir a cassete, ou atirá-la para o lixo, mas, por uma razão que jamais pôde explicar, acabou por ver a película até ao fim...

Tratava-se de uma bonita e expressiva história de Natal, com crianças a solicitarem e a receberem presentes do Pai Natal, revelando, todas, comportamentos irrepreensíveis.

Eis que, de súbito, esbaforida, a mãe entra em casa, chama-o e pede-lhe que lhe dê a cassete, pois tinha que a devolver, uma vez que, por engano, no meio de grande confusão, a funcionária da loja trocara as embalagens e só agora lhe trazia o filme pretendido. E estendeu-lhe o embrulho...

“Não quero, mãe. Fico com o que trouxeste por engano e, a partir deste dia de Consoada, nunca mais te atormentarei com desejos e caprichos inconvenientes e indignos...”

E abraçou a mãe com imensa ternura, cobrindo-lhe as faces com beijos calorosos...


Outono de 2010


 Voltar Índice


Parabéns em Dia de Natal

Em cada dia de Consoada, na antiga casa senhorial dos fidalgos da Bouça, havia uma azáfama indescritível, muito mais intensa que em quaisquer outras famílias. Uns oito dias antes e, às vezes, até mais cedo, já se iniciavam os preparativos.

Quem coordenava todo o movimento, ainda que já entrada na idade (andava perto dos noventa) era a D.ª Carolina, que todos conheciam por “Fidalga Velha”.

Procuravam-se pinhas mansas, musgo, pedrinhas escolhidas, um pinheirinho verde e ramalhudo, enfim, tudo o que ficasse bem no presépio, cuja montagem principiava com uma semana de antecedência, tendo que estar pronto, pelo menos, três dias antes da noite da ceia.

Azevinho havia-o em quantidade na extensa quinta que habitavam, assim como diversificadas plantas, somente para adorno. A verdade é que resultava sempre num presépio enorme e soberbo, construído nos moldes de há um século atrás... E depois, no que dizia respeito a iguarias, nem vale a pena referenciar, porque existia de tudo aquilo que era bom e do melhor...

Para a ceia de Natal eram convidados os familiares vizinhos e os de longe, bem como os amigos mais estimados, que pernoitavam e ficavam para o lauto banquete, que era o almoço do dia seguinte. Não admira a azáfama e o bom gosto que em tudo se colocava, porque, desde os mais humildes aos mais bafejados pela sorte, todos procuram celebrar o Natal com a maior dignidade possível.

Na casa dos fidalgos da Bouça, porém, havia mais do que razão para que assim se procedesse:

Um avoengo, D. Natalino, havia recebido tal nome por ter vindo ao mundo na primeira hora de 25 de dezembro, já lá iam uns cento e sessenta anos.

D.ª Carolina, bisneta de D. Natalino, gerara o primogénito, que, em homenagem ao trisavô e também por ter nascido pelo meio-dia da solene data, foi batizado com o mesmo nome.

Uma neta deste, uns vinte e poucos anos volvidos, dera à luz uma menina aos cinco minutos da madrugada do dia de Natal, e tinha-lhe sido posto o nome de Natalina.

E, muito recentemente, ainda ao começo do dia vinte e cinco, a Natalina foi mãe de uma segunda filha, que recebeu o nome de Natália!...

Portanto, desde D. Natalino até à hexaneta Natália, já tinham acontecido na respeitável família quatro nascimentos no dia de Natal.

Daí que houvesse mais do que razões para uma imponente e faustosa confraternização, até porque, ao cantarem os parabéns aos aniversariantes, por inerência, estava incluído Jesus Menino!...


Outono de 2010


 Voltar Índice


Surpresa Natalícia

Inácio, prestes a completar vinte e cinco anos, solteiro, andava desgostoso por não ter trabalho, e não menos por, quando o angariava, ser mal remunerado.

Num belo dia, sem dizer água-vai, levado por um “passador”, emigrou para França, fixando-se em Paris. Aí arranjaram-lhe que fazer, na construção civil, e nunca mais regressou a Portugal, nem deu notícias aos familiares e amigos do seu poiso.

Portanto, com natural justeza, foi julgado morto...

De qualquer modo, embora nem sempre navegando num mar de rosas, a vida foi-lhe sorrindo, pelo que, volvidos uns quarenta e cinco anos de canseiras, atingiu a idade da reforma. Naquele ano, já a 20 de dezembro, pensou fazer uma visita à família e surpreendê-la com uma inesperada aparição...

Como não tinha experiência na organização de viagens, quando consultou as agências da especialidade, a fim de obter informações e um bilhete de comboio ou de autocarro, já não havia lugares disponíveis.

Não sabia como poderia viajar, mas estava firmemente decidido a passar a quadra festiva na terra natal e a confraternizar com a família e com os amigos, prevendo que certamente muitos já teriam falecido.

Aguardou, arquitetando inumeráveis planos, até à noite anterior ao dia de ceia, não achando a solução para poder viajar. A derradeira e única forma de realizar o ambicionado propósito era meter-se no seu automóvel e pôr-se a caminho.

Embora conduzisse há uns dez anos, jamais efetuara longas distâncias.

O sonho e a vontade, porém, sobrepunham-se a todas as previsíveis dificuldades e contrariedades.

Estava-se no final da década de sessenta, do século passado. A sua aldeia de origem situava-se bem no interior de um concelho minhoto e as vias de acesso eram péssimas, assim como o percurso a seguir em certas zonas de França, de Espanha e, sobretudo, de Portugal, o que não facilitava a ansiada rapidez da chegada...

Pensou e repensou, mas acabou por decidir-se pela utilização do único recurso.

Sem mais delongas, meteu-se à estrada...

Sucederam-se diversificadas peripécias ao longo da extensa e penosa jornada, mas, pelas nove horas da noite do dia de Consoada, atendendo às informações que recolhera, apenas meia dúzia de quilómetros o separavam da casa de uma velha irmã, que devia andar pelos setenta e oito anos de idade e a quem muito desejava fazer uma surpresa...

Nas proximidades de uma casa antiga, Inácio ouviu frases e gargalhadas alegres, destacando-se o tinir dos talheres na louça...

Com leveza, apesar da ansiedade, bateu à porta...

Se calhar, por ter batido ao de leve, ninguém se apercebeu do seu chamamento, porque a animação prosseguiu como se nada tivesse acontecido.

Mais afoito, estropeou com grandes pancadas contra o portal e, desta vez, a polirritmia e o falatório ficaram suspensos e uma voz de mulher, que aparentava ser idosa, falou:

“Quem é?... Já lá vou...”

E caminhou para a porta, escancarando-a.

O recém-chegado reconheceu logo a irmã e, sem lhe dar tempo para se retrair, abraçou-a, exclamando:

“Gracinda!, ó minha querida irmã!”

E as grossas lágrimas de alegria e comoção saltaram-lhe dos olhos. A dona da casa, atónita, mirou-o muito atenta e incrédula, retrucando:

“O meu irmão?!... Só tive um, que eu saiba, que saiu de casa há uma data de anos e nunca mais deu sinal de vida...”

“Sim, sim, sou esse irmão, o Inácio; sou eu mesmo, que venho matar saudades, trazer-te as prendas de Natal e, se me deixarem, participar nesta ceia...”

Uma grande fogueira crepitava, aquecendo e iluminando a espaçosa cozinha, onde uma comprida mesa estava posta, com alguidares de batatas, couves, bacalhau e, a um canto, cobrindo a tampa de uma carcomida masseira, havia almofias, travessas e pratos de formigos, aletria e rabanadas..., para deleite de filhos e filhas, noras e genros, netos e bisnetos, tudo transpirando a harmonia e a confraternização naturais naquela noite santa!...


Outono de 2010


 Voltar Índice


Um Menino para o Presépio

Naquela bonita e asseada aldeia minhota habitava uma família simpática e muito unida: uma menina de seis anos, a Zilda, os pais e os avós maternos. Há bastante tempo que a Zilda não escondia o desejo de ter um irmãozinho. Os avós apoiavam e os pais iam prometendo, mas lá passaram uns três anos... Até que, num belo dia, à noite, quando a pequena se ia deitar, a mãe, abrindo um largo e meigo sorriso, lhe segredou:

“Vem aí um bebé, Zilda, para satisfazer o teu pedido... E, se Deus quiser, vai nascer pelo Natal!...”

“Que bom, mãe, que bom!” - E, abraçando-a, repenicou-lhe uma enchente de carinhosos beijos.

Deitou-se e, durante o sono, sonhou com a companhia desde há muito ambicionada. Claro que, depois, a toda a hora e instante, a pequena Zilda montava cenários com brincadeiras e jogos até então nunca imaginados...

A gestação foi decorrendo com toda a normalidade. Em meados de dezembro, porém, já no fim da gravidez, a mãe começou a sentir-se maldisposta e a ter muitas dores.

Consultado o obstetra que a acompanhava, de imediato lhe foi imposto um rigoroso repouso, pois corria sérios riscos de abortar. Desceu uma enorme cortina de tristeza naquela casa e quem, aparentemente, mais sentiu o problema foi a menina... Chegou, entretanto, o dia de Consoada. A grávida estava na cama. Bem tentavam levantar o ânimo uns aos outros, mas uma sincera mágoa em tudo se fazia notar...

Todos os anos arquitetavam um vistoso presépio. Desta vez, contudo, apenas se tinha rascunhado a estrutura e, diga-se em abono da verdade, de forma desmazelada.

Na desmontagem do ano anterior, num acidentado descuido, algumas imagens haviam quebrado, inclusive a do Menino Jesus... E ninguém se lembrou, ou foi adiando, a compra do que fazia falta.

Ao cair da noite, a avó pôs os potes ao lume para cozinhar a ceia... Já durante a manhã e a tarde havia preparado umas guloseimas, ainda que meditasse, de si para si, se alguém ia ter vontade, em tão solene noite, de levar algo à boca...

Neste entremeio, a parturiente começou a sentir fortíssimas dores e, sem perda de tempo, foi contactada a parteira por telefone, que estava ao corrente da situação, para que fizesse o favor de comparecer com brevidade. Chegou um quarto de hora depois, enfiou-se no quarto da aflita senhora e iniciou o delicado trabalho do parto, porque o tempo urgia... Ficou tudo numa enorme expetativa. Ninguém se lembrou que eram mais do que horas de cear.

Na lareira, a lenha crepitava, estrepitosamente, e o lume fazia uma alta e fulva labareda.

Pertinho, o presépio inacabado...

Dada a meia-noite, a parteira saiu do quarto, atravessou a sala e entrou na cozinha com um ar de vitoriosa, exibindo um bebé gorducho e nu, dizendo, entre séria e a sorrir:

“Já têm o Menino para colocar no presépio...”


Outono de 2010


 Voltar Índice


O Pinheiro Manso

Havia, no descampado, num terreno baldio, um enorme pinheiro manso, que dava muitas pinhas para as noites de Consoada de miúdos e graúdos.

Assavam-se nessa mesma noite, ou na véspera, de forma a serem obtidos os pinhões que abasteceriam cada jogador na infinita, pacífica e, dantes, tão desejada noite...

Apesar de não ser de ninguém, todos (salvo um ou outro mais atrevido) respeitavam a copada e alta árvore, de que se não sabia a idade e à qual quase todas as famílias se iam abastecer de pinhas (principalmente as que não possuíam pinheiros mansos, porque havia mais uma meia dúzia deles na aldeia), que contribuíam para inundar o ar da santa noite com um rescender divinal!

Colhiam-se as pinhas, deixavam-se secar e, próximo da noite de ceia, ou no seu decurso, colocavam-se na lareira, com cuidado, para não arderem, até abrirem e começarem a saltar os pinhões. Lavavam-se estes muito bem, até ficarem limpinhos e corados, para serem usados diversificadamente na quadra natalícia em jogos como o rapa, o par-e-pernão, em partidas de cartas, ou para serem partidos com um martelo, uma pedra, ou um quebra-nozes, saboreando-se o minúsculo e agradável fruto seco contido no seu seio...

E todo este prazer graças ao generoso amigo de todos, o estimado e respeitável habitante arborícola do descampado, que apenas era procurado pelo Natal...

Tudo o que nasce, porém, morre: é a lei da vida e da morte!

Num certo outono, orgulhosamente, o raro exemplar ainda forneceu aos devotados clientes muitas e magníficas pinhas... Mas, por meados de dezembro, levantou-se um tremendo temporal, com rajadas de vento ciclónico. Desamparado, o velho e generoso pinheiro partiu-se em pedaços, da coroa quase ao pé e já não chegou com vida ao Natal que se avizinhava...


Natal de 2010


 Voltar Índice


Dádiva de Natal

Era noite de Consoada, uma santa noite da família, do amor, da fraternidade...

A escuridão há umas horas que cobrira o local e corria uma aragem muito fria, que congelava quem estivesse longo tempo a ela exposto. Era por isso que os caminhos estavam desertos e não se ouvia um rumor, nem se vislumbrava vivalma.

Na distante torre da antiga igreja, lá ao cimo, acabavam de soar nove badaladas, arrastadamente, graças ao mecanismo ligado ao badalo do sino grande...

Começaram, por fim, a tremeluzir umas estrelinhas, que já ninguém esperava que nascessem...

Junto de um caminho, logo ao começar a acolhedora aldeia, estava implantada uma casita, alugada, modesta, mas asseada e limpa. Onde habitava um casal de jornaleiros, que labutava de sol a sol para sobreviver e sustentar quatro crianças, três meninos e uma rapariguinha, de tenras idades, contando o mais pequenino dois anos, ao passo que a menina, a mais velha, completara sete...

E contudo, na casita, implantada junto ao caminho do começo da acolhedora aldeia, malgrado tantas dificuldades, respirava-se paz e amor...

Durante a tarde fora uma azáfama, em que todos colaboraram o melhor que puderam e sabiam, com a ainda jovem e jovial mãe a ser o motor que engrenava todas as tarefas...

Sobre a tampa da velha masseira de pinho já estavam uns pratos de formigos e de rabanadas a arrefecer - e que bem que rescendiam, irmanando-se ao odor das batatas com olhos de couve galega e postinhas de bacalhau, a acabar de cozer, num médio pote de ferro, de três pernas, que, na reduzida lareira, fervia, ruidosamente, sobre umas canhotas de um raizeiro de carvalho já podre, que ardiam em viva labareda, aquecendo e iluminando o pequeno mas brioso compartimento...

Era costume fazerem as refeições no carcomido tampo da masseira. Para essa noite especial, porém, foi trazida a mesa retangular que estava na salinha. Um móvel de feira, que uma convidada amiga, no dia do casamento dos jornaleiros, havia oferecido como prenda...

Enfim, graças a Deus: tudo estava pronto para consoarem!

Dispuseram-se nos lugares da mesa, ordeiramente. A mãe colocou parte do conteúdo do pote numa gamela de madeira e poisou-a no centro da mesa. Ela e o marido prepararam os pratinhos dos filhos, depois os seus e, parecendo combinados, ao mesmo tempo, proferiram:

“Boa consoada e feliz Natal, queridos filhos!”

Muito de leve, bateram à porta. Todos quedaram de comer e até de respirar. O chefe de família ergueu-se, entreabriu a porta e deu com os olhos num mendigo, velhinho, alquebrado, roupa coçada, chapéu negro numa das mãos, cabelo e barba grandes e cor de arminho, saco de zarapilheira às costas, a tremelicar e apoiado a um bordão de pau preto...

“Saia do frio, alma do Senhor!” - disse o anfitrião, ajudando-o a transpor a soleira de pedra.

E, sem consultar ninguém, obrigou-o a sentar-se no lugar que lhe coube para a ceia daquela noite santíssima...

O hóspede não queria aceitar tanta amabilidade, mas foi petiscando e, depois, comeu com inesperado apetite do prato que fora destinado ao jornaleiro...

Não houve uma palavra de reprovação. Tudo continuou como se apenas a meia dúzia de membros da casa estivesse presente...

Era idoso, com efeito, o recém-chegado, porque, após a sobremesa, sem alguém o questionar, começou a narrar a sua vida, resumidamente:

“Já tenho mais de oitenta anos. Parti para a África muito novo. Trabalhei muito, mas a vida correu-me de feição. Granjeei, honestamente, algum dinheiro, que fui cambiando em libras de ouro, que me davam prazer possuir e contemplar, já que me faziam recuar à minha infância e olhar a peça de meia libra, encastoada, que minha mãe usava ao pescoço, pendurada num cordãozinho também de ouro. Não constituí família... Há dois anos adoeci com gravidade. Fui tratado, fraternal e cristãmente, por um venerando missionário. Entretanto, rebentou uma cruel guerra fratricida e eu fui forçado a fugir e, para chegar cá, tive de transformar-me num mendigo... Cheguei há pouco, a bordo de um navio... Esta é a aldeiazinha que me serviu de berço... A pouca família que tinha já partiu...

Sou um romeiro sem eira nem beira e sinto-me no limite das minhas poucas forças.” - concluiu, já extenuado.

Lá ao cimo, na antiga igreja, distante, o sino grande da torre iniciou o bater, vagaroso, das doze badaladas...

O velhinho, a custo, baixou-se, pegou, do chão, no puído saco de zarapilheira, colocou-o sobre a mesa, abriu-o com delicadeza e principiou, como quem dá num jogo as cartas de um baralho, a distribuir pelos convivas uns embrulhinhos disfarçados em pedaços de papel de desbotado jornal.

Sentiu o saco vazio. Estava mais tremelicante e mais fatigado, mas raiava-lhe, no bondoso semblante, um sorriso de inefável doçura e visível satisfação...

“Obrigado e santo Natal para todos! Que Jesus Menino os cubra de bênçãos, de harmonia e bem-estar!...” - ainda balbuciou.

E começou a tombar do tosco banquito...

O anfitrião, instantaneamente e a tempo, levantou-se, tomou-o nos braços e sentiu que o coração dele tinha parado para sempre...

(...) E os embrulhinhos, disfarçados em pedaços de papel de desbotado jornal, continham as ainda muitas libras de ouro que o viandeiro juntara e pudera salvar!


10 de janeiro de 2011


 Voltar Índice


Elegia de Natal

A pobre mãe, coitada, não se fatigava de velar pelo bem-estar do seu menino, de três anos de idade, filho primeiro e único, que há tempos estava retido na caminha, com inúmeras convulsões, devido às febres altíssimas que o assaltavam.

Vezes sem-fim, a incansável mulher vislumbrava a entrada da Morte, sempre disfarçada e com o cutelo ainda a sangrar, da última vítima ceifada.

Reconhecia-A em tudo, sentindo calafrios, como se uma brisa regelada a tolhesse nas suas roupas de cotio.

Depois, afigurava-se-lhe que Ela estava sentada à cabeceira da caminha, esperando a melhor ocasião para atuar.

O pequenino, febril, há muito que, noite e dia, arfava num grande sofrimento...

Eram incontáveis as vezes que a zelosa progenitora se inclinava sobre a criança, a ver se o frágil coração ainda batia, enquanto as lágrimas lhe escorriam, silenciosamente...

E sempre a terrível visão do vulto descarnado, com o cutelo apontado e a pingar vivas gotas de sangue...

A extremosa vigilante tinha a noção de que somente um milagre lhe poderia salvar o ente tão estremecido...

E, fervorosa, desfazia-se em súplicas, ao Deus em que acreditava, rogando a cura do seu anjinho...

O prognóstico era muito reservado e o médico, tanto na primeira como na derradeira visita, havia franzido a testa e, pelo semblante carregado, deu a entender que a sentença estava pronta a ser pronunciada e que a Morte venceria a Vida...

Chegou, entretanto, a noite de Natal...

A mãe, apesar de ter adivinhado o fim do filho, continuava de olhos postos nele e orava, sem cessar...

O pêndulo do antigo relógio de sala, devagar, principiou a anunciar as vinte e quatro horas...

Jesus Menino, nesse preciso instante, chegara ao mundo para salvar a Humanidade e para reinar em todos os corações...

Então, a crédula mulher, cheia de fé, formulou esta prece ardente:

“Meu Menino Jesus, que agora ao mundo chegaste, como há uns dois mil anos já, nascendo em Belém de Judá, numa fria lapinha, lança um olhar sobre este padecente e restitui-o à Vida... Tu, que foste criança e que tanto delas gostaste e gostas, sopra uma bênção e devolve-lhe a saúde e a alegria!...”

E de súbito, como que por grande milagre, o menino serenou, deixou de suar e de tremer, entreabrindo os olhinhos, de mansinho, e, tenuemente, sorriu para a mãe!...


2 de fevereiro de 2011


 Voltar Índice


Ternura de Natal

O pai, homem de meia-idade, estava fatigado de viver, pois sentia muito a falta da amorosa companheira e da querida filha. Tinha casado, por volta dos vinte anos, com a primeira mulher que amou e que, da mesma idade, lhe correspondeu de igual modo.

Só passada uma década do enlace é que Deus lhes povoou o lar com uma linda rapariga, a quem puseram o nome de Juliana.

Cresceu a menina, sempre rodeada de muitos mimos e indesmentível amor.

Decorria uma época em que a tuberculose grassava pelo país, sobretudo nas classes mais desfavorecidas.

Em certo momento, orçava então pelos quarenta e quatro anos, a esposa e mãe principiou a sentir-se enfraquecida, sem apetite para comer ou realizar quaisquer tarefas e, consultado um médico, foi-lhe diagnosticado, já em fase muito adiantada, o terrível flagelo...

Não partilhou muito mais tempo a companhia dos dois entes queridos, pois, volvida meia dúzia de meses, partiu a enterrar no cemitério local.

Foi um golpe indescritível: pai e filha não sabiam como podiam consolar-se e sair daquela situação embaraçosa...

Por precaução, o mesmo médico aconselhou exames à filha e ao pai e... Juliana estava contaminada pela doença que vitimara a sua progenitora!

Para o pai, ainda a braços com o recente desenlace, foi um choque tremendo. A filha, porém, com muitos carinhos, tentou serená-lo e fazê-lo crer que já havia grandes avanços na medicina e que a sua cura era uma questão de tempo... Mas o pai recusava-se a acreditar nas veleidades de quem unicamente o prendia à vida...

Foi isto num começo de primavera e Juliana foi internada num sanatório, a fim de se tratar convenientemente.

Passou o verão e chegava ao fim o outono, sem uma data prevista para o regresso da moça à casa paterna.

E, dezembro já avançado, aproximava-se o Natal.

No ano anterior, dada a proximidade do falecimento da dona de casa, pai e filha nem deram pela passagem da solene data. Agora, sozinho, triste e desanimado, somente lhe dava vontade de chorar...

Dois dias antes da noite de Ceia, alvoroçado, recebeu o pai uma carta do sanatório a dizer que podia ir buscar a filha: estava autorizada a passar a quadra festiva no seu lar...

Diversificados pensamentos lhe percorreram o espírito, mas, acima de tudo, um dava-lhe enorme satisfação: passaria o Natal com a filha e, fosse qual fosse o futuro dela, regozijava-se, porque o Menino Jesus oferecia a prenda mais desejada e querida pelo coração de um pobre viúvo!...


13 de fevereiro de 2011


 Voltar Índice


Presépio Carinhoso

O presépio é uma referência do cristianismo, reportando-se ao nascimento de Jesus, numa manjedoura, na gruta de Belém, na companhia de Maria e José. Em várias culturas tornou-se costume montar um presépio quando chega a quadra natalícia, variando na medida, pois existem em miniatura e em tamanho real.

O primeiro presépio do mundo teria sido montado, em argila, por S. Francisco de Assis, em 1223.

Na Europa, durante a Idade Média, o costume espalhou-se pelas principais catedrais, igrejas e mosteiros.

No Renascimento também começou a ser montado nas casas de reis e de nobres.

No século dezoito disseminou-se pela Europa, e depois por todo o mundo, o costume de montar o presépio nas casas comuns.

Há pouco mais de meio século, os ascendentes de Josefina Noronha ainda eram muito ricos em teres e haveres. Devido, porém, a muitas e variadas circunstâncias, ela era a última descendente dos antigos fidalgos, de quem herdara o apelido e a pobreza!

Não esmoreceu e, no momento em que se sentiu apta para o mundo laboral, sem preconceitos, na tremenda crise da falta de trabalho, aceitou a primeira oportunidade que lhe ofereceram, mesmo que mal remunerada.

No emprego conheceu um rapaz, que logo destinou para marido.

Casaram e, ambos com cerca de vinte e cinco anos de idade, procriaram dois meninos gémeos. Os meninos, agora, já tinham completado sete primaveras. O dinheiro mal chegava para o dia a dia, pelo que sobreviviam com enormes dificuldades financeiras.

Os filhos não eram alheios à precária situação familiar, mas eram bons alunos e evidenciavam uma educação irrepreensível.

Josefina sabia que, na família, desde remotos tempos, se cultivava a tradição de, pelo Natal, fazer um soberbo presépio, onde nada faltasse. E por cada Natividade, se possível, o novo presépio devia ultrapassar em esmero os exemplares dos anos anteriores.

Tudo era levado ao pormenor, resultando num retábulo que todos afirmavam jamais terem observado.

No entanto, agora, mudaram-se os tempos e, como sabiamente reza a tradição popular, era necessário “coserem-se com as linhas que tinham”...

Os gémeos bem sabiam que, pelo mundo fora, se montavam presépios sumptuosos, ricamente ornamentados...

Mesmo assim, não desistiram de montar o seu e, se calhar, quem o visse tão pequenino, julgá-lo-ia o mais representativo e também o mais agradável aos olhos de Deus, porque era um presépio tirado do coração e da ternura de duas crianças humildes e grandemente carenciadas...

Na casta arquitetura infantil, haveria de ser feito sobre um tapete de musgo, com muitas pedrinhas, a significar ovelhas, camelos, pastores, Reis Magos... O problema é que não tinham figuras, por falta de dinheiro para as adquirir.

Apenas possuíam três: o Menino Jesus, Nossa Senhora e S. José, que já remontavam ao tempo dos avós, ou bisavós, dado o seu estado de deterioração (a pintura descascara e somente apareciam algumas manchas da tinta antiga); a S. José faltava a mão direita e o bordão; a Nossa Senhora faltava o manto e a cabeça já tinha sido colada mais do que uma vez e ficara torta; o Menino Jesus, apesar de lhe faltar, num dos pés, o dedo polegar e metade do mindinho e, no outro, parte do calcanhar, era, assim mesmo, a imagem mais bem conservada, sobretudo quanto à bonita cor da pintura...

Simples e tão pobre, sim, mas feito com infinito carinho e esmero por duas crianças que não queriam deixar morrer a secular tradição. E, repita-se, o presépio era singelo e paupérrimo, tendo em consideração os valiosos e monumentais eventos, mas para os miúdos era majestoso, espetacular, bonito, único...Mirando-o e remirando-o, embevecidos, achavam-no uma inigualável maravilha!

Na noite de Consoada, os gémeos cearam uma refeição escassa, mas que os saciou. Deitaram-se. Adormeceram, felizes... Então, tiveram um sonho lindo e igual, e isso mesmo concluíram ao despertar, quando já com o sol a inundar-lhes o quarto se puseram a descrevê-lo e, à vez, constatavam que havia sido um sonho a dois:

(...) O seu pequenino presépio tinha-se transformado num maravilhoso jardim, onde nada faltava, quer para se divertirem, quer para admirarem... E apareceu um menino muito sorridente e brincalhão, que se juntou a eles e os não deixou sossegar um segundo; experimentaram todas as diversões e, antes de despertarem, o invulgar companheiro de jardim, despediu-se, dizendo:

“Obrigado pelo belíssimo presépio de ternura e de amor que idealizaram. Não esquecerei o vosso gesto. Hei de premiar-vos largamente. Haveis de ser muito felizes, assim como os vossos pais, que bem o merecem. Boas-festas, boas-festas e feliz Natal!”

E ainda retinham nos olhos e na mente a imagem encantatória do Menino Jesus...


13 de fevereiro e 10 de abril de 2011


 Voltar Índice


ÉDITOS




(Textos insertos em RECEPTÁCULO - Um punhado de narrativas, publicado em 2005, com o sub-título “Ares de Natal”)




Consoada



Ao José Pedro Pinto


Era uma humilde e pequena aldeia serrana, onde a civilização não tinha ainda chegado com os nefastos ruídos e a destruição do que de mais belo e repousante constitui a verdadeira existência das criaturas, plena de simplicidade, de paz, de harmonia, de fraternidade e de amor... Num tosco casebre de ruim acesso, pois apenas se podia ir a pé ou a cavalo, com quatro paredes levantadas a suportar um telhado, que no período de calor tornava os cubículos num forno e, nos rudes meses de intempérie, deixava que a chuva tudo alagasse e que o vento ululante verrumasse os mais ínfimos buracos, vivia uma pobre proprietária, orçando os oitenta anos, há longo tempo em funda solidão e férrea esperança...

Casara, nasceram dois rapazes e gozou, por cerca de vinte primaveras, uma felicidade que muitos invejaram. Depois, por intrigas e calúnias, prenderam-lhe o companheiro que, sem julgamento, por vergonha e saudade da família, morreu atrás das grades de uma cadeia. Os filhos, então, porque as condições de vida eram precárias, resolveram deixar o rincão natal em busca de melhor sorte noutras paragens, prometendo à progenitora que, tão cedo quanto possível, lhe viriam fazer companhia e proporcionar dias mais alegres e mais fartos. A verdade, todavia, é que nunca mais deles ouviu referências!

A cada hora os tinha no pensamento e nas sinceras e intermináveis orações. Assim foi o tempo decorrendo e mais ela se habituou à solidão e à ideia de que, se calhar, morreria com a esperança de um reencontro com os dois entes queridos. No meio deste viver havia uma data que ela, por excelência, nunca esquecia e em que adotava, ano após ano, meticulosamente, a mesma prática: era a noite de Natal!

Nessa noite, sim, recordava o nascimento de Jesus em Belém, numa mísera gruta, e acreditava que o Pequenino viera ao Mundo, das entranhas de uma jovem Virgem, para salvar a Humanidade, para a todos trazer santa paz, para reconciliar as famílias, para que houvesse confraternização entre os povos, para que reinasse o Amor, muito Amor...

Lembrava-se sempre de que os filhos faziam um reduzido presépio de musgo, com algumas figurinhas de barro, e que era o enlevo, ali pertinho da lareira crepitante, na noite de Consoada. E as batatas com bacalhau e couves. E as rabanadas e formigos. Mau grado tanta miséria e o peso dos anos, em cada 24 de dezembro ela repetia o cerimonial e ficava horas esquecidas a mirar as iguarias, o presépio, o canhoto a arder e os três pratos sobre a carcomida masseira, onde alvejava uma puída toalha de estopas de linho.

Três lugares postos, para quê? Ela ceava sempre sozinha e muito pouco! É que, bem no fundo do seu coração de mãe, fantasiava que, talvez numa qualquer noite de Natal, por entre coros de pastores e anjos, os seus rapazes aparecessem, para juntos consoarem e comemorarem a solene data, como prémio e delícia dos tempos idos, que lhe povoavam o espírito cansado!

Quem poderá dizer que um dia?!


Dezembro de 1989


 Voltar Índice


As prendas



Ao João Ricardo Pinto


A Natália e o Natalino eram duas crianças gémeas e nesse dia de Natal completavam doze anos. Viviam com os avós e eram amimados e queridos, talvez mais do que de filhos se tratasse. A mãe apenas a conheciam e veneravam através de fotografias, que se encontravam expostas nos lugares de maior destaque na casa.

Filha única, não conheceu privações, porque os pais viviam bem, procurando fazer-lhe todas as vontades e dar-lhe uma educação esmerada, que a preparasse para a vida. Ela, todavia, foi-se desviando desse trilho e levava uma vida desregrada, sem preconceitos e de contínuas noitadas até à exaustão.

Certa manhã, ainda sob a ressaca de mais uma noite de boémia e de prazer, acordou, nervosa, lívida, cabelos desalinhados e fundas olheiras. Parecia um pesadelo, mas era uma realidade: estava grávida! Raivosa, contorceu-se no leito. Um turbilhão de pensamentos e de contradições lhe fervilhavam na cabeça estonteada. Era impossível, aquilo não lhe podia acontecer, porque estava no auge da juventude, com uns tenros dezassete anos. Precisava de fazer qualquer coisa, pois não desejava gerar um fruto de sensualidade, de amores ilícitos e de quem desconhecia o pai! Enclausurou-se no quarto, gemendo e chorando, copiosamente. A mãe, posta ao corrente, lamentou aquela situação embaraçosa, embora a compreendesse, já que, ao fim e ao cabo, também se sentia culpada por pactuar com os desvarios da filha.

Por isso, senhora de uma profunda educação cristã, foi explicando à jovem os perigos a que se sujeitava e, docilmente, aos poucos, convenceu-a a deixar vir ao mundo quem não tinha culpa dos erros cometidos.

Decorrido o tempo de gestação, na madrugada do dia 25 de dezembro nasceu um casalinho, que os avós batizaram com nomes alusivos à solenidade da data. A jovem progenitora, por vergonha, desgosto ou leviandade, um mês depois do parto, saiu de casa e nunca mais deu notícias. Envidaram-se todos os esforços para a localizar, mas perdeu-se-lhe o rasto.

Ficaram bem entregues, portanto, as crianças, ao cuidado e sincero afeto dos avós.

Nessa noite de Consoada, à volta da lareira, perto da qual colocaram um pequeno, mas bonito presépio e um pinheirinho com lâmpadas multicores, muitos enfeites e prendas penduradas, enquanto a avó dispunha na ampla mesa (onde se exibia uma antiga toalha bordada e de finas rendas, de alvo linho e que era uma relíquia herdada dos antepassados), os formigos, a aletria, as rabanadas, o bolo-rei, as nozes, os pinhões, as uvas passas e tantas outras iguarias que são um regalo para os olhos e para o paladar, dava-se início à narrativa do nascimento de Jesus que, agora, merecia os comentários dos netos. Estabeleciam-se diálogos e ficava-se com a impressão de se estar em presença de uma peça de teatro.

Desta vez foi o avô quem principiou:

“Há dois mil anos já, na cidade de Belém, veio ao mundo um Menino, a quem puseram o nome de Jesus. A Mãe era ainda muito jovem. O pai adotivo, um humilde carpinteiro e homem bom, era bastante mais velho. Ela chamava-se Maria e ele José. Tiveram de efetuar uma longa viagem e Maria sentiu as dores do parto. O esposo procurou uma hospedaria por toda a parte, mas não arranjou lugar. Por isso, foram forçados a entrar numa gruta fria e escura, onde costumavam recolher os animais e, nesse desconforto, aproveitando uma manjedoura como berço e umas palhinhas para colchão, Maria deu à luz.

Entretanto, os pastores, que nos arredores guardavam os rebanhos, chegaram para visitar e adorar Jesus, enquanto uma multidão de corpos celestes entoava hinos de júbilo e de contentamento.

Mais tarde, guiados por uma miraculosa e fulgente estrela, três Reis Magos, vindos do Oriente, vieram prostrar-se aos pés do Pequenino e, reverentes, renderam-Lhe homenagem e ofertaram ouro, incenso e mirra.

Esta Criança, que teve um nascimento e um berço tão pobres, é que veio a tornar-se num grande e nobre Rei espiritual...”

Atentamente, embora todos a soubessem ao pequeno pormenor, a história foi ouvida em silêncio.

“Nessa narrativa há tantos factos semelhantes ao percurso da nossa existência!”, comentaram, comovidos, os pequenos.

“Mas o mundo é mesmo assim, meus queridos”, acrescentou a avó.

“A nossa mãe também era muito jovem; nascemos a 25 de dezembro; temos pais adotivos, que são os queridos avós, que tanto nos amam e tudo fazem para que nada nos falte; estão sempre a oferecer-nos magníficos presentes, como os Reis Magos ao Menino; não sentimos a pobreza de Jesus, pois nascemos em boa casa e tivemos o conforto de uma cama; somos uns reis felizes, uma vez que habitamos num reino de ternura, dedicação e bem-estar...”

“Graças a Deus, graças a Deus!”, balbuciou a avó, sensibilizada.

“Por tudo o que foi dito e de todo o coração, aquilo que mais desejamos e hoje pedimos a Jesus Menino é que ampare os nossos avós e lhes proporcione muita saúde e longos anos de vida, para prosseguirem e levarem até ao fim a obra que há doze anos começaram. E também que, por caridade, um dia, como grata e rica prenda, faça com que a vossa filha e nossa mãe, que há muito partiu e de quem nada sabemos, regresse ao lar e preencha o seu lugar vazio e tão triste...”

Já perto da meia-noite, de repente, devagarinho, quase a medo, alguém bateu à porta.

“Não contamos com ninguém. A esta hora, rasgando o cerrado negrume e divino silêncio da noite e a suportar tamanho gelo, quem será que nos vem visitar?”, observou a avó, bastante admirada.

“Deve ser o Pai Natal, que se atrasou e nos vem trazer a consoada!”, retorquiram, em coro, sorridentes, os netos.

Curiosos, todos se encaminharam para a entrada e, sem perguntar quem batia, o avô escancarou a porta...

Na frente deles, banhada pela luz intensa que irradiava do interior da casa, destacava-se uma mulher alta e magra, bem parecida, imóvel e com os olhos a jorrar lágrimas de comoção e de alegria, que, de imediato e estupefactos, todos reconheceram.

Ela, medrosa e tremente, mas decidida e quase inaudível, tartamudeou:

“Contava chegar mais cedo e cear convosco, mas não consegui, porque tive que realizar uma longa e cansativa viagem e os transportes não ajudaram. Venho trazer as prendas de Natal e de aniversário, pedir-lhes perdão e licença para ficar na vossa companhia, com a promessa de que jamais vos abandonarei!...”


Outono de 2000


 Voltar Índice


O Presépio



Ao António Pedro Capela


O Ricardo tinha onze anos, frequentava o 6.º ano de escolaridade e morava num lugar de uma bonita aldeia minhota, habitando, com os pais, uma irmã de oito anos e os avós, uma casa soalheira e confortável, construída numa pequena e bela quinta, que o pai adquiriu com as economias de alguns anos de emigração.

Excelente aluno, bom companheiro, disciplinado, atento, respeitador e solidário, por todos era estimado. Sabia conciliar as diversões com os deveres a cumprir e o tempo chegava-lhe para tudo.

Ao invés, os amigos mais chegados, esqueciam as obrigações elementares, preferindo os jogos, as agradáveis brincadeiras, o comodismo e o descanso.

Certa vez, nos fins de novembro, por uma tarde bastante fria, soprada por um leve gemer do vento outonal, quando brincavam, alegres e despreocupados, o Ricardo deu com os olhos num grande caixote de papelão, abandonado, ali perto, numa pequena e improvisada lixeira.

Alertou os colegas e, sem demora, ávidos de curiosidade, precipitaram-se para o local e abriram-no. Depararam com um amontoado de cacos, tabuinhas, troncos mutilados, cabeças degoladas, braços, pernas, detritos de vária ordem, concluindo que se tratava dos restos de um presépio que, depois de desfeito, deitaram fora.

De imediato, o Ricardo foi assaltado por uma luminosa ideia: aproveitar os destroços, restaurar o que fosse possível e fazer ressurgir o antigo cenário. Revelou aos amigos os seus intentos, pedindo-lhes a opinião e ajuda para empreender o projeto que lhe fervilhava na mente:

- Encontra-se aqui quase tudo o que é preciso para realizarmos um lindo sonho. E se levássemos isto para o sequeiro da minha casa e aproveitássemos o que se puder, devolvendo as figuras ao fim para que foram criadas?...

Todos, a uma só voz, excitados e decididos, votaram e aplaudiram a proposta.

- Boa ideia!, vamos a isso!...

- Quando tudo estiver pronto - prosseguiu o Ricardo - pedimos licença para montar o presépio na sede da Junta de Freguesia, a fim de que todos o possam visitar.

- Boa!, boa! Toda a gente vai ficar espantada com essa surpresa maravilhosa! - reforçaram os convivas.

Apoiado e contente, o líder inquiriu:

- Então quem vai ajudar-me a levar a cabo esta tarefa, aproveitando o que for possível deste monte de desperdícios?

Todos ficaram mudos. A intenção era muito nobre e extraordinária, mas trocar as sadias e reconfortantes diversões pelo trabalho não agradava a nenhum deles.

O Ricardo, dececionado, mas resoluto, pediu ajuda à irmãzita e ao avô, lançando mãos à obra.

Colaram-se pernas, pés, braços, mãos, dedos, cabeças, orelhas, narizes, lábios, com pacientes e minuciosos retoques de barro e tinta; recuperou-se a manjedoura, o burrinho, o boizinho, os três Reis Magos, os pastores, um pequeno rebanho, os anjos, a estrela...

Só da Sagrada Família (Nossa Senhora, S. José e o Menino Jesus) não apareceram vestígios.

O avô alvitrou que talvez se tratasse de imagens de estimação, tendo-as os donos guardado para figurar noutros presépios. Portanto, a solução era moldá-las ou procurá-las nas casas da especialidade, a condizer com o material recuperado.

Delicadamente, o Ricardo informou os companheiros do andamento dos trabalhos e aludiu à recomendação do avô, para obterem as três figuras indispensáveis.

Cada um se foi desculpando com muitos afazeres. Por isso, mais uma vez, sem desânimo, o Ricardo ultrapassou o contratempo, arranjando o barro, amassando-o, moldando-o, cozendo-o, até surgirem os exemplares pretendidos que, depois de pintados, ficaram um primor e completaram o sortido de figuras necessárias para a ornamentação desejada.

Chegaram as férias e o Ricardo comunicou aos amigos que tudo estava pronto para iniciarem a montagem e que, como já só faltava uma semana para o dia do Nascimento, era urgente procurar e trazer serrim, musgo, ramos de azevinho, escolher pedrinhas para levantar a gruta, além de outras pequenas ninharias.

Ora, de novo, os colegas fingiram nada ouvir e, manhosos, em silêncio e devagarinho, foram-se retirando. Sem esmorecer, o persistente menino executou todos os trabalhos, de maneira que, ao fim da tarde do dia de Consoada, na sala nobre da sede da autarquia, era digno de se contemplar um cenário incomparável, fruto de delicadeza, perseverança, ternura, esforço, dedicação, amor, muito amor...

Terminada a tradicional Missa do Galo, o pároco e toda a multidão dirigiram-se para o sítio onde estava implantado o evento.

Foi um espanto geral ao depararem com tão amorosa obra de arte. O padre António, dotado de requintado bom gosto, embevecido e com uma leve expressão de propositada malícia, inquiriu:

- Quem é que arquitetou e produziu este cenário de harmonia e de encanto?...

Bem na frente destacava-se o grupo de amigos e o Ricardo, humilde, com um olhar cândido e imensamente feliz, respondeu:

- Fomos nós! - e apontava os companheiros que, ainda daquela vez, se acovardaram e nada retorquiram.

Sabedor de toda a história, num misto de solene seriedade e brando sorriso, o sacerdote proferiu:

- Eu sei que o único mentor deste admirável espetáculo é o Ricardo, porque os colegas, embora se tivessem comprometido, em nada contribuíram para a execução de tão delicado projeto. Por isso, o esmerado Ricardo é que é o merecedor dos nossos aplausos, agradecimentos e admiração.

Estalou uma frenética salva de palmas, a premiar o laborioso trabalho do pequeno herói, inundado por um manto de serenidade...

Ao som de uma suave e apropriada música de fundo (lembrando as legiões, inumeráveis, de todos os espíritos celestes, que entoaram oratórias magníficas, em harmonias nunca ouvidas, propagadas de um extremo ao outro, glorificando o Reizinho que acabava de chegar ao Mundo), como os pastores e os Reis Magos, reverentes, os visitantes desfilavam, a contemplar aquele presépio, repleto de uma afável doçura, com a fulgente estrelinha a descer sobre a gruta, onde o Menino Jesus sorria, deitado em loiras palhinhas, sob o terno olhar da ditosa Mãe e de S. José...


Novembro de 2001


 Voltar Índice


Consoada Diferente



À Ana Miguel Capela


Há muito, muito tempo (contou-me a minha avó materna, que da boca da sua, por certo, o ouvira já), um estudante de Medicina da Universidade de Coimbra, filho de uma nobre e abastada família minhota, resolveu fazer uma surpresa aos entes queridos, vindo passar com eles a quadra natalícia.

Já ao fim da tardinha do dia de Consoada, desembarcou da diligência. Mas, para chegar a casa, sem transportes, tinha pela frente uns quilómetros para palmilhar, desbravando caminhos sinuosos, desérticos e cobertos por extensos matagais e denso arvoredo.

O vento verrumava o mais ínfimo recanto, frio e gemente, soprado das alturas da serra, em cuja fralda estava implantada a ampla, soberba e confortável moradia.

Como não avisara, ninguém o aguardava e nunca imaginara deparar-se-lhe uma meteorologia assim. Se por um lado o cenário próprio da época o embevecia, por outro vedava-lhe a realização do projetado, uma vez que dificilmente chegaria a horas de confraternizar e trocar os presentes, que não se esquecera de comprar.

O breu da noite e leves flocos de branca neve principiavam a tombar.

Olhava em todas as direções e não vislumbrava o itinerário certo a percorrer. Vieram-lhe à lembrança narrados episódios da aparição de lobos esfaimados que, diversas vezes, provocaram apreciáveis estragos. E, bem no fundo, refletia na hipótese de, solitário por aquelas veredas, ser também ele atacado por uma alcateia, servindo assim de consoada aos eleitos de S. Francisco de Assis que, como a todos os animais, ferozes ou não, considerava irmãos (e que pena os Homens não copiarem tão maravilhosa e humilde fraternidade!). Ele também meditou na possibilidade de se lembrar dele o Menino Jesus, que se preparava para nascer em milhões de presépios e de puros corações. No medo que o arrepiava da cabeça aos pés, ressurgia a esperança de um desfecho a seu contento.

A verdade é que não podia desperdiçar mais tempo: urgia prosseguir, ainda com a perspetiva, conquanto remota, de atingir a almejada mansão. E o escuro da noite e o tapete de neve alvacenta, que se adensavam cada vez mais assustadoramente? E sempre os maus presságios a lutar com a fé de que tudo acabaria da melhor forma!

Todavia, já começava a sentir-se fatigado física e moralmente, porque o caminho e distância andados tinham sido extenuantes... Entretanto, cerrara-se de todo a noite e o manto de neve reluzia, servindo de alcatifa aos seus pés pisados pela dura marcha. Não queria desistir e não desistiria.

Num descampado, ao longe e quase em surdina, ouviu um rumor de chocalhos e enxergou, a tremeluzir, num determinado ponto não longínquo, uma ténue claridade. Inundou-o, de novo, a confiança e a vontade férrea de vencer o surgido e prolongado contratempo. Tomou a direção da luminosidade promissora, mais convicto do que nunca de obter um abrigo, ao menos para pernoitar.

Por fim, imensamente débil mas radiante, alcançou o local redentor: chegara a uma pequena gruta, que servia de guarida a um velho pegureiro, responsável por um numeroso redil. Dois cães fiéis ladraram e irromperam no seu encalço. De imediato, o dono se apercebeu e saiu a auscultar o que se passava. Ao ver que se tratava de um peregrino desorientado, assobiou pelos caninos e partiu ao encontro do pacífico intruso. Levou-o para dentro da cabana e, paciente, acolhedor, benévolo (e se calhar agradecido aos Céus pela divina dádiva da inesperada e consoladora companhia para mais uma solitária noite de Consoada), fê-lo sentar bem perto do raizeiro de carvalho que, a um canto, crepitava, tudo iluminando e aquecendo. - Ainda não ceei. - falou, em voz baixa, mas serena e alegre, o bondoso hospedeiro. - Vai consoar comigo e, quando amanhecer e assim o pretenda, recomeça a viagem, para abraçar os seus e comungar com eles o dia de Nascimento, pois depressa lá chegará, atendendo a que o separa uma escassa légua de caminho.

- Muito lhe agradeço, santo homem, pela magnífica receção e agasalho que me oferece!

Sobre uma tosca pedra, a servir de mesa, o pastor estendeu um pedaço de briosa zarapilheira, onde, meticulosamente, foi depondo um prato, duas malgas, um pote de batatas cozidas com a tona, uma garrafa com vinho, broa, presunto, chouriço, queijo, nozes, figos e maçãs vermelhas pequeninas.

Ambos comeram com redobrado apetite, reconhecendo o hóspede que jamais lhe soubera tão bem uma refeição e muito menos uma Ceia de Natal!

Não faltou um copo de cevada quentinha e um gole de bagaço para brindar. Depois, cerca da meia-noite, o venerando ancião desejou as boas-festas ao forasteiro e este, num nobre gesto, sincero e comovido, ofertou-lhe e obrigou-o a aceitar as prendas que destinava aos familiares, formulando, também, francos votos de um amoroso e feliz Natal...

Conversou por largo espaço e animadamente, reconfortado pelas delícias dos manjares ingeridos e pelo suave calor, aspergido pelo canhoto, transformado em brasa viva, sem lamentar a ausência na lauta Consoada familiar e rememorando as peripécias experimentadas naquela noite, que jamais se lhe varreria dos sentidos!

Finalmente, estendido numa puída enxerga de palha e coberto por grossas mantas de lã, adormeceu resignado e satisfeito. E, durante o sono reparador, teve um belo e fantástico sonho: sonhou com um enorme e bonito presépio, onde as figuras se movimentavam, com uma fulgente estrela a descer sobre a lapinha escura, que albergava a sagrada Família de Nazaré, e viu aproximarem-se os pastores e os Reis Magos, carregados de ricas prendas, para oferendar e, prostrados por terra, adorarem o Menino Jesus que, sorridente e indescritivelmente afável, o olhava, ao som da harmonia de um coro angélico de vozes argentinas que, de lés a lés e incessantemente, entoava:

“Glória a Deus, glória a Deus, lá nas Alturas e reine a Paz por entre as Criaturas!!!”


Outubro de 2003


 Voltar Índice


Um Presente no dia de Reis



Para a Maria Eugénia Capela e marido e para a Marta Maria Mimoso


Era um rapaz bem parecido e muito pobre, sem eira nem beira, embora com boas habilitações académicas e de fina educação. Não conhecera o pai, pois era filho de mãe solteira, tendo escutado rumores de que se tratara de um cavalheiro garboso e de muitos haveres, cuja família se opusera ao seu casamento e que sucumbiu de paixão pela mulher que o enternecia.

A mãe, que tanto amava e de quem recebia igual e idolatrada correspondência, perdera-a quando adolescente, vítima de prolongada e dolorosa tuberculose. Órfão, com a sorte de Jó, na miséria e na desgraça foi sobrevivendo, prosseguindo e completando os estudos numa instituição de caridade. Apesar de simples, bem comportado e educado, não havia jeito de arranjar quem lhe desse trabalho. Nunca, porém, esmoreceu. Ia gastando o interminável tempo a vaguear de lado para lado, procurando sempre não fazer mal e arranjar quem lhe fosse matando a fome. Quando se lhe deparava uma oportunidade para executar quaisquer tarefas, não se eximia e empenhava-se para ser agradável. Por isso, sempre ia aparecendo quem dele se compadecia.

Certa vez, por uma manhã bastante fria de janeiro (dia de Reis, por sinal), ao atravessar um monte desértico, a reluzir com o gelo formado durante a noite e que o sol nascente de inverno ainda não lograra derreter, encontrou uma velhinha, muito corcovada e de longos cabelos de arminho, que carregava um feixe de lenha. Aproximou-se dela, gentilmente, e, pegando-lhe no feixe, indagou onde desejava que lho levasse.

- Ainda moro um pouco distante, bom moço, mas muito te agradeço a preciosa ajuda.

E puseram-se a caminho. Ela tomou a dianteira e ele seguia-a, contente por poder ser-lhe útil.

De facto, percorreram estreitos carreiros, tortuosos e rodeados por imenso arvoredo e denso matagal.

Nunca deixou de falar a bondosa anciã, até que, por fim, chegaram a um casebre pequeno, bem conservado e acolhedor. Descarregou a lenha e ambos entraram.

A um canto, uma rude pedra a servir de lareira e uma panela, sobre uma trempe, no brasume, fervia e exalava um cheirinho apetitoso.

- Deixei a preparar uma água com cebola e um pedacinho de unto, para agora fazer umas migas e matar o jejum. Vais também petiscar comigo, porque bem noto que trazes a barriga colada às costas!

Ele aceitou de boa mente e, numa masseira velha e carcomida pelo bicho, sobre uma toalha puída, mas limpinha, foram colocadas duas malgas a transbordar, fumegantes. Partiu duas boas fatias de broa, esmigalhando o miolo no caldo, mexido com perícia, servindo as côdeas de acompanhamento ao saboroso manjar.

- Graças a Deus, soube-me muito bem! - declarou o hóspede, consolado e aquecido por aquela dádiva inesperada e que, desde o desaparecimento da mãe, jamais tinha ingerido.

- Sinto enorme alegria por ver-te com essa disposição e contentamento. Almoçarás comigo e com a minha neta, que ficou de por cá aparecer, sobretudo atendendo a que hoje é um dia especial: dia dos santos Reis Magos e dela completar vinte e cinco anos.

O rapaz ficou atónito, porque julgava que àquela solidão não chegava vivalma para uns momentos de felicidade.

- A minha neta é órfã de pai e mãe como tu. Os entes que tanto adorávamos (os pais dela, cuja mãe era minha filha, assim como um irmão, também meu filho, de vinte anos, duas joias estremecidas, que me roubaram, e o meu próprio marido, companheiro extremoso e a cada instante lembrado com profunda saudade) foram feitos prisioneiros de guerra, trucidados e mortos. Consegui evadir-me com a netinha e alguns bens, salvos da enorme fortuna que possuíamos. Retirei-me para este ermo por causa das perseguições que me moveram e apenas há escassos anos quedaram. Internei a menina num colégio da cidade, com uma mágoa infinita, mas consciente de que agia em seu abono, visitando-a sempre que as condições o permitiam e que hoje, felizmente, possui um curso superior e uma boa e desafogada empresa, tendo ainda recuperado bastante dos antigos bens.

Cada vez mais o moço ficava estupefacto.

- E a senhora isolou-se neste inóspito local e sente-se com coragem para viver aqui, separada da familiar mais chegada?!...

- Assim teve que ser até há pouco. Agora, todavia, já se não justifica tão penoso sacrifício e tenho tudo preparado para alterar a situação.

Ao fim da manhã saíram a esperar a visita tão desejada pelos dois.

Apareceu montada num soberbo cavalo, ao lado de outro que puxava uma vistosa e confortável sege. Dentro, uma senhora risonha e de meia-idade: era a dama de companhia.

Foi um momento patético, digno de ser observado, com lágrimas comovidas de sincero júbilo, quer da avó, quer da bonita rapariga, cenário que se repetia sempre que se viam, mesmo que os encontros sucedessem amiudadamente.

Seguiram-se as apresentações e os olhares dos dois desconhecidos cruzaram-se, fulminantemente, e entenderam-se para um enlace inevitável.

Regressados à casinha, usufruíram de um almoço principesco, suculento e animado, onde, mais e mais, se foi consolidando a doce atração mútua, que os tornaria, muito em breve, imensamente ditosos.

Pela noitinha, partiram todos, de volta à cidade, para festejarem a tradicional ceia de Reis, celebrada numa magnífica vivenda, propriedade e residência da neta. Os presentes para ele dessa data foram excecionais, talvez com maior significado que os simbólicos ouro, incenso e mirra, e tinham de permanecer imorredouros o resto da vida, pelo valor estimativo, qualidade, consolo e merecido prémio.

O casebre foi, a partir de então, não só mais estimado pela bondosa velhinha, mas também pelos recém-casados, que o conservaram, tornando-o num ninho de encantamento e de felizes lembranças amorosas!


Outubro de 2003


 Voltar Índice