Cofre de Ternuras


 

INDICE

Dedicatória

Balanço bendito

À memória de meu Pai

Reflexão

Romance

Barcarola

Desvelo

Esperança e resignação

Tempos de ouro

Estrela malfazeja

Tortura e bálsamo

Balada e desejo

Alvoroço

Vento do Outono

Amém!

Consolação

O meu rio

Velho castanheiro

Aquele pinheiro manso

Cartão de boas-festas

Santos Reis

Improviso

O pastor

Amigo fiel

Renovação

O melro

A borboleta

Aleluia, aleluia!

A árvore

Ser criança

Decepção

Vira-vira

Eu fui ao jardim

Submerso

Democracia

Tirania

Nostalgia

Sinfonia

 


 

À minha Mulher

Aos meus três filhos

 

 

Sois as quatro jóias belas
do meu "Cofre de Ternuras":
vou ter cuidado com elas
e mantê-las sempre puras!

 

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BALANÇO BENDITO

 

Um dia, num Outubro já distante,
segredei‑te, sorrindo, confiante:

 

- Unidos, à procura da bonança,
Vamos, Amor, na "Barca de Esperança"?!

 

As velas desfraldámos, de mãos dadas,
contrariando as ondas alteradas,

 

em busca de um seguro porto amigo,
que fosse, vida fora, o nosso abrigo...

 

Tomaste o leme, firme, e decidimos
na vida não vogar ao Deus‑dará,
mas sermos um do outro o forte arrimo
nas lutas que o Destino nos trará...

 

E muitas têm sido as arrelias!
E tantas têm sido as alegrias!:

As primeiras tentamos afastá-las;
contudo, as outras, faz‑nos bem lembrá-las
com cânticos solenes de aleluias...

 

Ao fazer o balanço do Passado
bendigo a ventura
de ter-te encontrado,
pois me trouxeste a alegria

e a desejada ternura,
que em meu peito não havia...

 

Tu és, com nossos filhos, o mais doce enleio
e ter-vos junto a mim é sempre o grande anseio...

 

Bendito, pois, seja Deus,
por me ter dado o ensejo
de unir num único beijo

os quatro tesouros meus!...

 

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À MEMÓRIA DE MEU PAI

 (Desaparecido em 1/2/90)

 

Como é que hei‑de exprimir, querido Pai,
o que, nesta hora amarga, de pranto,

em minh'alma contrita e pobre vai?
Apenas afirmar, sincero, o quanto

 

significaste para mim na vida:
Sou sangue do teu sangue. Sou semente
do teu amor e incansável lida.

'Stou triste, pois p'ra sempre estás ausente.

 

Todavia, meu Pai, p'ra sempre não,
que existe uma certeza que me guia
e eu acredito na Ressurreição:

 

Por isso, em paz descansa até ao dia
em que me terás junto ao coração
num infinito abraço de alegria!

 

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REFLEXÃO

  

Se a gente sempre tiver
saúde, paz e amor,

suceda o que suceder,
não há que sentir temor,
já que a Vida só é bela
quando soubermos vivê‑la!

 

Se a doença, todavia,
a saúde vem roubar;
se a atroz guerra, que arrepia,

a santa paz vem toldar;
e se o ódio, que é rancor,
retira a vez ao amor:

 

A Vida não será bela,
nem vale a pena vivê‑la!

 

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ROMANCE

  

Oiço o sussurro da fonte
que, levemente, desliza,
a pedir‑me que não conte,
nem ao vento, nem à brisa,

 

o delicado segredo
de uns jovens que se encontraram
e felizes, muito a medo,
um par de beijos trocaram...

 

A mim não se retraiu
de contar, bem sorridente,
a terna cena que viu,
porque eu sempre fui cliente

 

da sua água fresca e pura.
Ao vento e brisa, porém,
rogou‑me p'ra não contar,
não fossem ter a loucura
de o revelarem a alguém
no constante cirandar!

 

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BARCAROLA

  

Procelas do Oceano,
por que sufocais o grito,
com vosso poder tirano,
a tanto náufrago aflito?

 

O abundante e largo mar
ao ousado pescador,
que de noite e dia lida,
lhe dá o pão a ganhar,
pedindo, como penhor,
a oferta da sua vida.

 

Nada, afinal, dás em troca,
ó mar salgado e profundo,
já que deixas muita boca
esfomeada no mundo!

 

...Dás a tantos o sustento,
mas lhes roubas o alento!

 

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DESVELO

  

Adormeceu o pequeno
e de noite a mãe foi ver
se dormia sossegado:
Sim, ressonava, sereno,
e p'lo rosto iluminado
lindo sonho estava a ter...

 

A mãe baixou‑se, feliz,
nada mais vendo em redor,
e nos lábios do petiz
poisou um beijo de amor!

 

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ESPERANÇA E RESIGNAÇÃO

 

Tão jovem que era e já se aproximava
a hora ambicionada de ser mãe:
Desde há muito que estava convencida
das dores que haveria a suportar
ao rasgar‑lhe as entranhas e gerar
o fruto mais querido em sua vida.

 

Ele encerrava tantos bons momentos
vividos, dia-a-dia, com aquele
que a seduzira e prometera amor:
Foi sem reservas que se deu, contente,
pois sentia‑se presa na corrente,
que era tecida pelo seu ardor...

 

E assim passou um ano de conforto:
Ele era amável, terno, dedicado,
até ao dia em que ela revelou,
num êxtase, feliz, uma certeza,
que par'ceu apanhá‑lo de surpresa
e um azedume forte o transtornou...

 

Todavia, esquecera aquele transe
e começou a amá‑lo duplamente,
na convicção de que viriam dias
mais calmos, mais alegres, e a ventura
de reaver os tempos de ternura,
enterrando sentidas agonias...

 

Ali tinha nos braços, frágil, meigo,
o resultado do seu louco amor.
Abriu os olhos, tonta, e procurou
o companheiro, o pai do novo ser.
E não o viu. Contudo, não quis crer
e por mais tempo ainda o esperou...

 

Resignou‑se, mas sentiu no seu mais íntimo,
por instantes, um ódio pelos dois...
Depois, reagiu: Ao peito aconchegou,
num frémito, o bálsamo p'rà dor
que a alucinava e, cheia de vigor,
decidiu esquecer quem a enganou...

 

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TEMPOS DE OURO

  

Por mais que queira esquecer
Não me abandona a lembrança,
dos momentos de prazer
vividos quando criança...

 

Quem me dera hoje poder
gozar a feliz bonança
daquele antigo viver,
onde tudo era esperança!

 

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ESTRELA MALFAZEJA

  

Há muito, num Janeiro, foi a vida
que das entranhas me chegou (daquela
mulher feliz, embora dolorida)
e me disseram que seguisse a estrela

 

que me foi, por sorteio, cometida
No céu, a cintilar, achei‑a bela
e nunca imaginei a atroz ferida
que, apenas com nove anos, herdei dela!

 

Com essa tenra idade não se sente
que o caminho que se há‑de percorrer
pejado está de fraca e má semente.

 

Por isso, ao retirar‑me a luz dos olhos,
o que tenho na vida de vencer
é a praga ‑ que fim não tem ‑ de abrolhos...

 

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TORTURA E BÁLSAMO

 

Numa noite pejada de milhões de estrelas
um filho perguntou se eu não queria vê-las!

 

Ele, porém, sabia que há muito em meus olhos,
em vez de luz, reinava uma nuvem de escolhos...

 

Aquela frase simples tocou‑me bem fundo:
Que me interessam as belezas que há no mundo,

 

se os tesouros queridos, que me dão prazer,
na dor que me tortura, jamais posso ver?

 

E só Deus sabe o quanto adoro esse pedaço
de carne, e sangue, e vida, que beijo e que abraço:

 

Três filhos e a mãe são quatro jóias raras
e pelo preço do amor me são tão caras!!

 

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BALADA E DESEJO

 

Faz tanto frio e nunca mais cai neve...
É pena que não caia neste dia,
tornando tudo num tapete leve...

 

Leve e macio, para ser moldado,
repletos de alegria,
em tantas coisas lindas pelas nossas mãos...
Assim, não haveria coração
que não deixasse de ficar maravilhado,

 

ao vê‑la tombar,
branca, como a farinha, de mansinho,
que cai ao deslizar
a mó do moinho...

 

Ou como farrapos,
de tamanhos variados,
formando uma longa manta
de tecidos retalhados
que, por ser feita de trapos,
a todos encanta...
  

 

Ou ainda a recordar
a nuvem alva, que desce
da sacudida peneira,
que rica broa vai dar
a todo o ser que carece
de saciar tanta fome,
que na terra é grande herdeira
e a Humanidade consome...

 

Mau grado tanto frio e desejada
a neve não quer cair
para, repletos de alegria, ser moldada
por tantos pequeninos, a sorrir...

 

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ALVOROÇO

 

Do céu cinzento grandes flocos caem,
formando extenso manto de brancura:
Aos gritos, doidos de alegria, dizem
os meus meninos, rindo, com ternura:

 

"Ó pai!, há tanta neve p'ra brincar
e há muito tempo já que não caía
assim uma tão grande quantidade...
Por isso, vamos ter que aproveitar
o gozo que nos traz tão lindo dia..."

 

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VENTO DO OUTONO

 

Sopra tão triste o vento do Outono,
gemendo ao percorrer o campo, o monte,
qual cão vadio, que não tem um dono,
qual veia de água em busca de uma fonte!

 

As árvores desnuda nas passagens
que efectua, sem dó, cada momento,
quais mãos erguidas de forçadas virgens
que, inconsoláveis, carpem o evento!

 

Ulula nos ciprestes; faz tombar
os troncos, ramos, frutos, folhas, flores;
reaviva, nos enfermos, ténues dores;

 

regela quem habita um pobre lar;
chora com tantos, na 'stação da morte;
mas, de tudo e de todos, ri da sorte...

 

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AMÉM!

 

No começo de Novembro
procura‑se visitar
o lugar onde repousam
tantos entes adorados...

 

E nos olhos, lacrimosos,
de inesquecível saudade,
sente‑se o luto e a dor
patenteados no rosto...

 

Consoante a sua crença,
todos se reverenciam
e meditam, recolhidos,
no mistério do Além...

 

E é no meio do Outono
(estação que representa
a morte da Natureza),
que se celebra tal data...

 

Ontem foi tudo alegria,
honrando todos os santos,
os membros da geração
que procuram o Senhor!

 

Hoje é o recolhimento
de quantos choram os seus
com a alma angustiada...

   

Saudade, lembranças caras,
rogos p'ra que haja perdão
pelas faltas cometidas.
Interrogação, temor
pelo Juízo Final.
Meditação bem profunda
no modo como virá,
um dia, a Morte também...
Uma súplica sincera.
Uma oração atrás de outra...

 

Os votos, pedindo a Deus,
com ardente devoção,
e as lágrimas a brilhar
nos tristes olhos, pisados,
que os seus entes, que partiram
para a última morada,
descansem em paz. Amém!

 

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CONSOLAÇÃO

 

É tão bom chegar‑se ao fim
de um projecto concebido!
Propomo‑nos realizar
tarefas após tarefas,
que vamos delineando.
E bem esquematizadas,
ensaiadas muitas vezes
e, quando nos convencemos
que estão amadurecidas,
brotam de nós e o seu êxito
é causa de inexplicável
prazer e grande alegria!

 

A sensação que nos fica
de sabermos ter cumprido
com o melhor de nós mesmos
paga, com juros bem altos,
o enorme esforço aplicado...

 

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O MEU RIO

 

Na Bouça tudo se ouvia:
Por noites enluaradas,
ao longe, a doce harmonia
saída das ramalhadas

 

dos choupos e dos salgueiros,
que habitam, lá bem ao fundo,
assim como os amieiros,
o valezinho, fecundo...

 

É banhado p'lo ribeiro
(o Fêveras, bem pequeno),
que para o Ave, ligeiro,
ali desliza sereno!

 

Na Tojeira alimentou
um engenho de serrar,
há tempos, que eu não estou
seguro p'ra precisar.

 

Mas do que me lembro bem,
já que lá me diverti,
é da existência também
de um lagar de azeite ali!

 

Mais abaixo é represado
para tocar os moinhos,
abundantes no passado,
que deram tantos carinhos

 

às fomes que reclamavam
a farinha desejada
p'ràs broas, que saciavam
tanta miséria espalhada...

 

Precipita‑se, em seguida,
na passagem p'los Moleiros
e é uma via reduzida
quando atravessa Briteiros.

 

Pouco adiante, por fim,
no Ave vai terminar:
É tão grato para mim
sobre o meu Rio falar!

 

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VELHO CASTANHEIRO

 

Derrubaram o velho castanheiro
que, indiferente, a idade não sabia,
bem junto e confidente do caleiro,
de tosca pedra feito, que servia
de ponte no caminho do lugar
que foi meu berço e gosto de lembrar...

 

Carcomido, entroncado, ia servindo
de poleiro às crianças, que o trepavam
com ligeireza e dos perigos rindo!

 

As candeias e folhas lhe tiravam,
para simples brinquedos construir
e com eles, então, se divertir...

 

Também, com alegria, fui herdeiro
de tantas diversões no castanheiro!

 

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AQUELE PINHEIRO MANSO

 

Aquele pinheiro manso,
nascido no descampado,
de lembrá‑lo não me canso
em cada Natal que passa:
Bastante alto e entroncado,
com ramos da c'roa ao chão,
que lhe davam tanta graça
naquela imensa verdura
perdida na solidão
da deslumbrante planura...

 

Ouvi que já não existe.
Há tempos que o derrubaram:
Ao sabê‑lo fiquei triste
e senti grande saudade,
porque com ele levaram
recordações bem queridas
da minha tão tenra idade...
Tanta vez que lá colhi
as pinhas apetecidas
dos Natais que não 'squeci!

 

Aproveitava o pinhão
para comer, claro está,
no jogo do par‑pernão,
do rapa, cartas, enfim
em múltiplos jogos que há
e a noite tornam pequena:
Mas o que renasce em mim


 

é o rescender da resina,
que inunda a noite serena
e a faz suave e divina!

  

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CARTÃO DE BOAS-FESTAS

 

É de todo o coração
que a todos quantos laboram
na Vida (que é grande messe)
que as palavras, que lerão,
e com muito gosto foram
escritas para este dia,
dedico, fazendo a prece
ao Menino de Belém,
que a todos dê alegria,
saúde, paz, muito amor,
e que neste ano ninguém
deixe de ter o calor
do bem‑estar, em geral,
e um santo e feliz Natal!

 

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 SANTOS REIS

  

Boas‑festas vimos dar
a quem nesta casa mora
e também os Reis cantar,
pois nasceu o Deus‑Menino,
da Virgem Nossa Senhora,
cheio de poder divino!

 

os três Reis Magos vieram
o Deus‑Menino adorar
e ricas prendas trouxeram
para a Seus pés colocar.

 

Do Oriente partiram
a ver o Filho e a Mãe
e uma estrela seguiram,
que os conduziu a Belém.

 

A Santa Virgem lavava
os trapos da Criancinha,
que sobre as palhas chorava
com tanto frio que tinha.

 

Por ver que tanto chorava
S. José n'Ele pegou:
nos braços o embalava
e o Menino sossegou.

 

Muitos pastores, com fé,
exultaram de alegria,
em louvor de S. José,
Jesus-Menino e Maria.

 

E coros de anjos, no céu,
entoavam, com fervor,
hinos ao Rei, que nasceu,
tão pobre, só por amor.

 

Agora, p'ra despedida,
votos vamos formular:
Felicidades na vida
e santa paz neste lar.

 

Com alegria e ternura
prometemos cá voltar,
se tivermos a ventura
de ao novo ano chegar.

 

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IMPROVISO

 

A neve cai de mansinho,
põe tudo da sua cor:
Não se conhece o caminho,
a brilhar de tão branquinho,
como no ar e em redor,
vistoso lençol de linho...

 

Sopra um pouquinho de vento,
voam farrapos no ar:
crianças, vendo o evento,
colocam todo o talento
no que querem modelar,
sem perderem um momento...

 

É que há muito não havia
um espectáculo assim!
E embora a aragem tão fria,
ninguém esconde a alegria
ao ver o manto sem-fim,
que torna belo esse dia...

 

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O PASTOR

 

Anda o pastor pelo monte
o seu rebanho a guardar,
desde que o dia desponte,
até a noite fechar!

 

Leva o bornal, o cajado,
a manta p'ra se cobrir:
Salta, contente, a seu lado,
o fiel cão, a latir!

 

A neve tomba, faz frio,
ouvem‑se os lobos uivar:
sente o pastor arrepio,
mas mais tem que vigiar!

 

Quando, porém, o sol brilha,
ou sob um lindo luar,
não há igual maravilha,
na flauta ouvi‑lo tocar!

 

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AMIGO FIEL

 

Quem nunca teve um cão não imagina
quanto ele sofre, p'ra cumprir a sina

 

de estar preso à corrente a toda a hora:
enraivece‑se, ladra, uiva, chora,

 

na esperança de que o solte alguém.
Mas só bem aprecia quem o tem

 

e com ele convive, dia-a-dia:
é um amigo na dor e na alegria,

 

defensor, serviçal, fiel, atento
(orelha guicha ao mais ligeiro evento

 

que lese os interesses do seu dono;
'stá sempre alerta, até durante o sono)!

 

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RENOVAÇÃO

 

Já chegou a Primavera,
porque eu vi as andorinhas
poisar, cheias de alegria,
no beiral da minha casa
à procura do lugar
para construir o ninho!

 

Dá‑me tanto prazer vê‑las,
voando por toda a parte,
num chilrear satisfeito,
por morar mais uma vez
no seio de uma família!

 

Depois, como em outros anos,
nascerão os pequeninos
que, logo que vestidinhos,
seguirão quem lhes deu vida...
Só então vem a tristeza
na hora em que pais e filhos
partem p'ra outros países...

 

E mais um ano eu aguardo
a vinda da Primavera,
pois sei que também com ela
regressam as andorinhas,
para, de novo, habitar
o beiral da minha casa...

 

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O MELRO

 

Ainda de madrugada
fui à janela espreitar:
nas silvas, ou na ramada,
um melro a assobiar!

 

Que bem que ele interpretava
as melodias, sem-fim,
que tudo ali se alegrava
por ter um artista assim!

 

Tentei, então, imitá‑lo
e, baixo, pus‑me a dizer:
"Seria tão bom caçá‑lo
e na gaiola o prender!"

 

De tudo tinha vontade,
ao escutá‑lo, feliz.
Por isso, sinto saudade
do tempo em que era petiz!

 

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A BORBOLETA

 

Olha a linda borboleta
a poisar em todo o lado,
na cheirosa violeta,
no jasmim tão delicado!

 

Nos canteiros, na verdura,
apraz tanto, tanto vê-la,
como em noite bem escura
cintilar qualquer estrela!

 

Delicada flor que voa,
sob um sol que tudo aquece:
faz lembrar uma canoa
que, subtil, o rio desce!

 

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ALELUIA, ALELUIA!

  

É Páscoa na minha aldeia
e a santa Cruz vai chegar
a toda a casa, festiva,
de muitos enfeites cheia,
e traz sempre a acompanhar
uma grande comitiva!

 

O mordomo, em todo o lado,
alegremente, anuncia:
"Com Jesus Ressuscitado,
boas‑festas, aleluia!"
Diz o povo, com agrado:
"Aleluia, aleluia!"

  

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A ÁRVORE

  

Após um trabalho árduo,
ou cansado de brincar,
quem é que à sombra da árvore
não gosta de repousar?!

 

A árvore, tão amiga,
em tudo nos dá prazer
e com a sombra frondosa
traz calma ao nosso viver!

 

Dá folhas, flores e frutos,
depende só da estação,
três iguarias que agradam
sempre ao nosso coração!

 

Na vida de toda a gente
ela é riqueza e calor
e em cada dia que passa
lhe ofertamos mais amor!

 

Devemos, pois, respeitá‑la,
no monte, campo, ou cidade,
que os benefícios que traz
são só de felicidade!

 

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SER CRIANÇA

  

Pela vida lutaremos,
com firmeza e com afã,
convictos de que seremos
os crescidos de amanhã!

 

Vede como sorri, alegre, o coração,
e o quanto amamos a vida,
por ser a jóia querida,
que vibra feliz canção!

 

Vamos acreditar num mundo bem melhor:
onde haja em tudo justiça,
ninguém pratique a cobiça
e reine a paz e o amor!

 

Data assim para nós, de festa e de lazer,
devia haver cada dia,
p'ra verem nossa alegria
e o quanto nos dá prazer!

 

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 ...DECEPÇÃO

  

São tantas e que belas borboletas,
que mais parecem flores do jardim,
pousadas nas formosas violetas,
na papoula, na rosa, ou no jasmim...

 

E há‑as das mais variadas cores
‑ quais ímpares e puras obras de arte ‑,
buscadas, com ardor, por toda a parte,
pelos sensíveis apreciadores.

 

Eu quando nelas penso, vejam bem,
lembro aquele petiz que uma apanhou
e, muito alegre, foi mostrá‑la à mãe:
Mas a tristeza logo o assaltou,
porque em lugar da linda borboleta
apenas achou pó na mão aberta!

 

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VIRA-VIRA

 

Quem é que não quer
o vira virar,
enquanto tiver
bons pés p'ra dançar!

 

Coitado de quem não tem,
ao virar,
no bolso nenhum vintém
p'ra gastar!

 

Ligeiro pé deve ter
quem gostar
bastante de se mexer
a bailar!

 

Nas voltas que o vira dá
coração
balança, p'ra lá, p'ra cá,
de paixão!

 

Ai vira e torna a virar,
maganão,
que agora vai terminar
a função!

 

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EU FUI AO JARDIM

 

Eu fui ao jardim
colher uma flor,
p'ra dar ao amor

 

que gosta de mim!

 

Eu fui ao jardim
colher uma flor:
Não era p'ra mim,
mas p'rò meu amor!

 

Contudo, em vez de uma,
juntei muito ramo,
e fiz uma ruma
p'ra dar a quem amo!

 

Também apanhei
um ramo de rosas:
ninguém, eu bem sei,
as viu mais formosas!

 

Por fim, recolhi
um grande braçado
das muitas que vi
no chão extremado!

 

Eu fui ao jardim
colher tanta flor,
p'ra dar ao amor
que gosta de mim...

 

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SUBMERSO

  

Não encontro palavras p'ra exprimir
a alegria que sinto quando escrevo!:

 

Apenas sei que fico desviado
de guerras, do bulício do mundo;
das desavenças, discussões, nisérias;
pobreza, fome, violência, dor,
atentados, trapaças, covardias,
 invejas, terrorismo, aberrações;
 faltas de dignidade, despudor;
abortos sem controlo; cataclismos,
 incompetência, droga, genocídios;
crianças sem um lar, abandonadas;
velhinhos desprezados, sem um tecto
que lhes dê o sossego, porque anseiam;
divórcios incontáveis, que desolam;
por tudo e todos desrespeito; vândalos
que só se alegram com destruições;
os fogos postos, indiscriminados;
os poderosos sempre protegidos,
enquanto os pobres cada vez mais pobres,
mais oprimidos e desamparados;
os loucos do poder, por todo o lado,
a semear a desavença, o ódio...

 

Absorto, quando escrevo, nada sinto,

a não ser a alegria que me inunda

nesses momentos de concentração...

 

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DEMOCRACIA

 

Enquanto houver pobreza pelo mundo
e o rico pretender mandar em tudo,
não poderá haver Democracia,
essa palavra bela, ambicionada,
que aos quatro ventos sempre é proclamada!

 

Às vezes aparece quem deseja
pô‑la na prática, mas logo a inveja
dos que nada fizeram para havê‑La
se sobrepõe às boas intenções
dos que comungam tais opiniões.

 

Quando existirá, pois, na Humanidade,
uma Democracia, de verdade?

 

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TIRANIA

 

Ainda lhe pediram reflexão.
Pertinaz, todavia, não cedeu:
e foi por isso que a população
numa sangrenta luta se envolveu.

 

Em toda a era e em qualquer nação,
um tresloucado sempre apareceu,
sem um pouco de consideração
p'lo povo que, convicto, o elegeu.

 

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NOSTALGIA

  

Por mais que nos esforcemos
não conseguimos gostar
da terra onde colocámos,
por força, a nova morada,
como da que nos foi berço...

 

Pode mesmo ser mais rica,
com múltiplos atractivos,
em contraste com a nossa:
simples, humilde, pacata...

 

Ficamos presos a ela
e cada vez mais redobram
o amor e as saudades...

 

Jamais nos libertaremos
dessa santa nostalgia,
que faz crescer o desejo
de lá voltar a viver
e saber o que se passa
ao pequeno pormenor...

 

Gozar as coisas queridas,
que aos outros não interessam,
mas que ao nosso coração
dão momentos de ternura...

 

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SINFONIA

 

São cânticos nunca ouvidos
que me inundam os sentidos:

 

As águas a marulhar;
a brisa, muito de leve,
o calor a temperar;
o tombar da alva neve,
que of'rece ao pintor, atento,
mil quadros ao seu talento!

 

Um concerto variado,
por mão de artista, esmerado,
em portuguesas guitarras;
as vozes da noite e dia:
De grilos, ralos, cigarras,
cucos, poupa, cotovia,

 

de rouxinóis, melro, rolas;
do rescender das papoulas
e dos craveiros floridos;
das gargantas afinadas
os mornos cantos saídos,
como em doces revoadas!

 

Do vento, sol e estrelas;
da lua, frio e calor;
de todas as aguarelas,
concebidas, com primor,
p'la abundante Natureza,
que sempre causam surpresa!

 

...E os cânticos nunca ouvidos,
sussurrados com ternura,
levaram os meus sentidos
a compor a partitura

 

da mais ímpar sinfonia:
Feita de compreensão,
justiça, paz, alegria,
saúde, amor e perdão!...

 

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