Celeiro de Retalhos


ÍNDICE

Prefácio
Pórtico
Cabelos brancos
Fuga
Cantata
Precaução
Parabéns, Amor
Búzio
Seara vazia
Trivial
Distracção
O mendigo
Fadinho Batido
Voga, barquinho
Gavião

A mão de Deus
Aleluia
Determinação
Dissabor
Ditame
Retrospecção
Desalento
Bonança

Enigma Resolvido

Alvo errado

Soberba

Presto

Tragédia

Bouquet

Canção de Embalar

Soneto do "val" e do "ão"

Par ou pernão?

Janeiras

Recordações

Itinerário

Posfácio

 


 

 

Ao José Manuel Mendes,

que me incutiu o gosto pela Poesia


À minha Mulher,
Aos meus Filhos,

que ontem e hoje me cumulam de Ternuras
 


PREFÁCIO


            Celeiro de Retalhos, como o título indica, reúne os frutos sazonados de uma sementeira arduamente amanhada nas agras sacrificiais da vida.

            Poema a poema, o autor enche a tulha ampla do peito, essa arca arejada da consciência, com as colheitas de um são‑miguel farto de sonhos vigorosos, de vingados apelos, de nostalgias mirradas por um tempo inclemente, enfim, de histórias de proveito e exemplo e relatos pícaros da condição humana.

 O perfume do humanismo são e desinteressado extravasa da loja abonada do poeta e como que nos envolve numa digressão pela imensa seara existencial, nascida da chã gorda e grávida da memória. É neste alfobre de sonhos e angústias que encontramos o poeta medularmente implicado com toda uma mundividência rural, onde não falta o folclore religioso e profano, a formulação de um voto, a assumpção da dor alheia, a consciência social do povo.

            De todo este fervilhar da vida, de toda esta voragem do tempo, é o autor, mais que uma testemunha impassível, um partícipe emocionado, particularmente quando a tragédia dos outros acontece para lá das raias do explicável. Então, o poeta nem precisa de afastar a cortina da indiferença, porque a não tem, e chora com quem chora, assumindo como sua, no fundo, a dor humana, essa expiação que tantas vezes purifica a alma e convoca os sentimentos místicos.

Aqui reside uma faceta singular da poesia de José Fernandes da Silva, já visível em Relicário (1993), pois toda ela está trespassada por um profundo lastro solidário e fraternal, resultado de uma atitude do tipo samaritano para com todos os infelizes e infortunados.

Ainda que o autor, por vezes, se distraia com o trivial e o comezinho da vida, ainda que se inebrie um pouco com o doce engano do fluir de sensações reconfortantes e de fagueiras recordações, não pode jamais libertar‑se da consciência do tormentório humano, o qual exprime, em Celeiro de Retalhos, a sua mais decisiva decorrência poética. De resto, este "calvário" terreno e inseparável do destino do homem, podendo apenas ser temperado com o calvário divino de Cristo, cuja dor e martírio supera de longe a da condição humana, e que o autor nos aponta a título de exemplo e elevação moral. 

Não admira, pois, que o poeta sonhe com a redenção da dor e divague sobre as possibilidades de ter um cavalo de vento que lhe levasse num halo o pensamento e o libertasse muito mais do mundo que de si próprio:

 

"Queria ter um cavalo,
mas um cavalo de vento,
que a qualquer hora, num halo,
 me levasse o pensamento..."
 

Mas, "o triste fado da vida" corta-lhe cerce as asas com que queria ascender aos céus da fantasia e recondu‑lo a uma vigília penosa, salpicada, embora, de tempos a tempos, por breves momentos de paz interior.
Fiel a um estilo que já o norteou em obras como Cofre de Ternuras (1992) e Relicário (1993), o procedimento clássico e a consequente busca da perfeição formal
associam‑se ao labor rimático e à eufonia da palavra. A imagística, por vezes, é fulgurante, como no poema "Presto", o ritmo melódico é inexcedível como no poema "Voga, barquinho" e, a espaços, o autor deita mão do vocabulário erudito com o que doura todo um edifício de laboriosa palavra construído.
Da leitura de Celeiro de Retalhos fica‑nos na nossa sensibilidade de leitor um indelével perfume de humanismo, quiçá raro neste mundo estulto e sôfrego, mas por
isso mesmo mais valioso e reconfortante. Que outros celeiros como este se abram ao nosso espírito sedento de solidários frutos e benesses de harmonia e paz.

 

Fernando Pinheiro

 

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PÓRTICO

 


Com mil carinhos peguei
 

nos variados retalhos
(o fruto dos meus trabalhos)
e no Celeiro os guardei.
 

São pedaços retirados
do mais fundo do meu ser,
só com ternuras regados
para um subtil florescer...
 

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CABELOS BRANCOS

 


Por que reparam nos cabelos brancos
que tanta gente exibe: quer idosos,
abrindo grandes olhos, maviosos,
olhando tudo com sorrisos francos;

 

quer jovens, que tropeçam nos barrancos,
 que aparecem na vida, descuidosos?
 Há‑os aos caracóis, lisos, sedosos;
em tranças, soltos, a tocar os flancos...

 

Não é a idade que lhes muda a cor:
às vezes são as ralações da vida;
o resultado de incansável lida;

 

as frustrações no campo do amor;
problemas de saúde; ou uma herança
de complicações tidas em criança.

 

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FUGA

 


Dedilho, levemente, o meu piano
em busca de harmonias repousantes:
 nenhuma me parece como dantes
 e eu procuro‑as num trabalho insano.

 

Como retalhos feitos de ruim pano
 no vazio se perdem, anelantes,
 fugindo‑me as composições gigantes,
que consagravam um antigo plano.

 

Suponho ser o gélido marfim
das teclas do vetusto instrumento,
 que levam para longe a inspiração.

 

Mas eu sinto vibrar dentro de mim,
 em formas de alegria, ou de lamento,
 com grande amor, magnífica canção!

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CANTATA


A

 

Como deslizam as águas
 do riacho de cristal,
sem penas, nem dor, nem mágoas,
 em solene pastoral!
 
B

 

Se não credes no amor,
 amai, uma vez, ao menos,
 p'ra poderdes dar valor
 à tristeza dos terrenos,
 que se contorcem com sede,
 em busca de uma cor verde!
 
C


Há quem diga que o ciúme
 faz penar e até morrer,
 como quem espeta o gume
 de uma lança, sem querer...
 
D

 

Como os espinhos às rosas
 na vida dão protecção,
não podiam, mãos piedosas
 suavizar o coração,
que grita, desesperado,
por não ter o mesmo Fado?

E


Sempre na Vida entristece
 quando, sem 'scolher a idade,
 a ímpia Morte aparece
e deixa o luto e a saudade...

 

F


Ai a borboleta, sim,

 


 

poisa na flor que deseja
e tudo lá no jardim
não sabe esconder a inveja
 por vê‑la partir, voltar,
 sem a poder imitar...

 

A


Como deslizam as águas
 do riacho de cristal,
sem penas, nem dor, nem mágoas,
 em solene pastoral!

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PRECAUÇÃO



Sem medo ao perigo
meu desejo rola:
vou ver se consigo
meter em gaiola
tanto vício antigo!

 

Mal acompanhado,
deixá-lo à solta
é muito arriscado:
por segura escolta
vou pô-lo isolado!

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PARABÉNS, AMOR



Celebras hoje mais um dia, Amor,
 do teu aniversário. Não sei,
ao certo, que presente te darei,
 porque a nada, afinal, dou mais valor
 

do que àquilo que és. Talvez a flor
 substituísse quanto imaginei:
 mas como a ela sempre te verei
 e nenhuma te excede no primor!
 

Então ultrapassaste a bela idade,
que chamam "a ternura dos quarenta"!
 Já que tu és a minha f'licidade
 

e de carinhos dado provas tens,
na chama que nos une e nos alenta
 apenas quero dar‑te os parabéns!

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BÚZIO


Soprei num búzio e tive sons perfeitos
 de um qualquer instrumento da família
 dos metais, ou madeiras, temperados
ao paladar de quem os aprecia!

 

Depois, veio‑me à ideia que, na infância,
 muitas vezes ouvi um a soar,
chamando quem andava pelos campos,
 com ânimo, a lidar de sol a sol...

 

Diziam que o pusesse nos ouvidos,
 porque por ele se ouviria o mar!
E na verdade, com toda a inocência
que a nossa pequenez acarretava,
 parecia que o mar estava ali!
 

Finalmente, não era nada assim:
 a mesma sensação se concretiza
 quando impedimos que circule o ar
 e não atinja a todos os instantes
 os ouvidos sensíveis e atentos...
 

De novo, então, eu vou soprar no búzio,
 à procura de sons misteriosos,
que façam recordar o mar profundo...

 

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SEARA VAZIA

 

Valei àquele que pede,
por caridade, um tostão,
 a fim de matar a sede
 e ter um naco de pão!
 

Ainda por todo o lado
está implantada a fome,
 um flagelo imensurado,
que a Humanidade consome!
 

Em armas se desbarata
dinheiro que não tem conta
 e a pobreza é a sucata
que aos ricos bem pouco monta!

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TRIVIAL

 

...E resolveram casar,
 

mau grado as vozes discordes
 no seio familiar:
Ela era 'inda adolescente,
 em oposição ao noivo,
um trintão experiente...
 

Por isso foi a ilusão
que a levou a declarar
sentir enorme paixão
pelo homem que escolhera
e a quem, sem quaisquer reservas,
alegremente, se dera...
 

Só agora concluiu,
após imensos desgostos,
que o caminho que seguiu
não era aquele sonhado
com belas rosas, fragrantes,
mas sim de acúleos pejado!
 

Ficou‑lhe no ventre um filho
 e uma amarga solidão,
como herança do sarilho
do seu frustrado consórcio,
já que ao fim de poucos meses
 se consumou o divórcio...

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DISTRACÇÃO

 

Uma vez, certo menino,
de uma casca de pinheiro,
 fez um barco pequenino:
pôs‑se num tanque a brincar,
 fingindo ser marinheiro,
 e deixou‑o afundar...
 

Então chorou de amargura,
 por tão grande distracção:
 tinha posto na feitura
do brinquedo delicado
 carinho, amor, devoção,
e viu‑se dele apartado!...

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O MENDIGO



Exausto, com semblante comovente,
 um mendigo, no chão, abandonado,
a tiritar, com frio, as mãos erguia,
 na dolorosa esp'rança de que gente
 ali passasse e, ao ver o seu estado,
 

 por grande compaixão lhe acudiria...
 

O tempo foi passando, lentamente,
 sem que vivalma tenha utilizado,
 como era habitual, aquela via...
E o sol, que despertou bem sorridente,
 encontrou o cadáver salpicado
dos orvalhos da noite negra e fria...
 

Depois, apareceu de todo o lado
 quem pranteasse ardente litania!

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FADINHO BATIDO

 

Convenceu‑se toda a gente
de que a sua opinião
era a mais adequada
àquele caso indecente,
que envolvia um figurão
e uma desavergonhada...
 

Não era a primeira vez
que ela se portava mal;
e ele não seria alheio
a certo grupo maltês,
que em redor e no local
tinha no roubo recreio...
 

Todos queriam ter razão
e pugnavam p'ra que fosse
válida a sua invenção.
E o ambiente azedou‑se,
com mútuas ameaças
e indecorosas chalaças...
 

E tudo afinal, por quê?
Há alguém que passa e vê
os dois jovens se beijar
numa cena de ternura
e logo foi espalhar
que aquilo não tinha cura
 

e que o que viu nem dizia,
porque era uma porcaria!
Mas só não disse o que viu
e foi a imaginação
de quantos dela o ouviu
que deu uma sugestão...

O certo é que era mentira
e a terna cena que vira
fôra casta e só de amor;

 

assim como o que inventaram
e a pés juntos afirmaram

não tinha qualquer valor...

Foi por isso que mais tarde,
p'ra desfazer confusões,
uniram os corações
na chama que ainda arde,
com esse beijo bendito
que faz o amor infinito...

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VOGA, BARQUINHO



Voga, barquinho,
percorre o mar,
devagarinho,
quero sonhar...

É grande o mar, infinito,
com ondas sempre a rolar
e eu sei que ele é tão bonito,
que não canso de o lembrar!
 

Lençóis de espuma, bordados,
deslumbram o meu pensar:
os meus sentidos, cansados,
querem neles repousar...
 

Voga, barquinho,
sem descansar,
és o bercinho
p'ra me embalar...
 

Quando balouça o barquinho,
no meio da tempestade,
Não há seguro caminho
para a minha veleidade,
 

que estando o mar agitado
confesso que tenho medo
de poder ser esmagado
de encontro a qualquer rochedo...
 

Voga, barquinho,
sem hesitar,
sulca o caminho,
de alvo a brilhar!
 

Ai que o mar é sempre belo,
quer na calma, ou no tufão,
e como gosto de tê‑lo
é pleno de mansidão.
 

Mas mesmo quando há procela
me embriaga o largo mar:
pela formidável tela,
que espanta e faz meditar...
 

Voga, barquinho,
no largo mar,
tão de mansinho,
quero sonhar...!

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GAVIÃO



Ó ligeiro gavião
atende‑me o suplicar
deste pobre coração,
que quer desanuviar!
 

Leva‑o a cruzar montanhas,
ver mares, colinas, montes,
vencer distâncias tamanhas,
buscar novos horizontes!
 

E se acaso vos for dado
atingir o grande Sol,
a todo o desamparado
dai um seguro farol,
 

para que jamais na vida
o persiga o mau Destino
e cicatrize a ferida
que o oprime desde menino,
 

por não ser iluminado
pela lanterna da Sorte,
ficando assim condenado
a não ter nem Sul, nem Norte...
 

Afinal, 'stou a sonhar,
delicado gavião:
não vale a pena enganar
meu sensível coração...

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A MÃO DE DEUS



 

Sucedeu, não há muito, em minh'aldeia
um episódio fora do vulgar,
que consternou a inúmera plateia
e que, magoado, aqui vos vou narrar:
 

Havia com três filhos um casal
(dois rapazes e uma rapariga).
Cedo deixou o seu rincão natal,
de olhos cravados na fortuna amiga,
 

o marido, que em França vai parar.
Correu‑lhe bem a vida. E os dois filhos,
quando chegou a idade de emigrar,
seguiram, com labor, os mesmos trilhos.
 

Também aos dois a sorte foi sorrindo
e, no momento certo, desposaram
a companheira do seu sonho lindo:
cada lar com um filho povoaram.
 

A fazer companhia à mãe ficou,
no decorrer da vida, a jovem filha...
Ao fim de muitos anos regressou
o pai, com um quinhão de maravilha,
 

fruto de tanto esforço despendido,
até voltar ao lar, definitivo...
Em certa noite tinha‑se perdido
e, sem que alguém decifre um tal motivo,
 

hirto, num lugar ermo, é encontrado,
na poça que ele conhecia bem:
Não o deixou a Morte ter gozado
os louros a que um ser direito tem.
 

Sentiu‑se em certa época doente
o primogénito, que resolveu
vir da Suíça, onde era residente,
em busca da saúde que perdeu.
 

Todavia, a doença era incurável
e o irmão da França veio visitá‑lo.
Ao vê‑lo num estado lastimável
decide com a irmã recomendá‑lo
 

a uma suposta santa lá p'ra Arouca.
Puseram‑se a caminho e viajaram,
ansiosos, numa corrida louca.
Num despiste brutal, já perto, acharam
 

a Morte, que deixou o padecente
'inda assistir a uma tal desgraça.
Casara há pouco a moça e no seu ventre
(funestas malhas que o Destino traça!),
 

também arrasta um fruto sazonado...
E aquele que os irmãos queriam salvar,
dias depois, mais triste e conformado,
no cemitério se lhes vai juntar!
 

Em poucos meses pai e os três irmãos
desaparecem sem ninguém contar:
é que só Deus conserva em suas mãos
o Destino que tem para nos dar...
 

E a esposa, a mãe, que tudo tinha tido,
em curto espaço fica como Job:
despojada do seu tesouro qu'rido;
forçada, dia-a-dia, a viver só...

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ALELUIA, ALELUIA!


A Páscoa vai chegar
e cheio de alegria,
bem alto, vou cantar:                           
"Aleluia, aleluia!"

 

A Cruz, p'ra se beijar,
percorre a freguesia
e tudo a se saudar:
"Aleluia, aleluia!"
 

O alegre repicar
dos sinos nesse dia
parece anunciar:
"Aleluia, aleluia!"
 

Amaina o bravo mar,
não uiva a ventania,
pois querem sussurrar:
"Aleluia, aleluia!"
 

As flores a enfeitar
as casas, qualquer via,
estão a exalar:
"Aleluia, aleluia!"
 

Exulta cada lar
em rara sintonia,
num coro de encantar:
"Aleluia, aleluia!"
 

O enfermo, a agonizar,
em funda litania
só quer balbuciar:
"Aleluia, aleluia!"
 

A terra e céus a arfar
vibrante sinfonia,
por tudo a ecoar:
"Aleluia, aleluia!"
 

Não canso de incitar
os falhos de energia,
comigo p'ra entoar:
"Aleluia, aleluia!"
Por fim, vou desejar
que seja em harmonia
a forma de expressar:
"Aleluia, aleluia!"

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DETERMINAÇÃO


Que mimos ela fazia
à sua recém‑nascida!
Não estava arrependida
da resolução tomada.
É certo que preferia
ser outra a situação,
mas supunha que era amada
no momento da ilusão...
 

Mas o que mais lhe doía,
naquele transe da vida,
era o saber‑se esquecida
e a filha não perfilhada.
Por ela, então, lutaria,
no ganho de amargo pão,
p'ra sentir-se compensada
de tamanha frustração...

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DISSABOR

 
O que é que aconteceu ao rapazito
que, imóvel, junto ao rio, grossas lágrimas
deixava pelas faces deslizar?!
Segurava, bem firme, a longa cana,
com o anzol, vazio, a balouçar!
 

"Que mágoa te consome? Foste vítima
de algum problema grave, sem remédio?"
Inquire, com ternura, um pescador.
"É que senti pesado o meu anzol
e, ao retirá‑lo d'água, com vigor,
 

vi que trazia pendurado um peixe:
mas, ao tentar colhê-lo para terra,
não sei como, elevou-se e mergulhou,
formando ténues bolhas na corrente
e uma pequena onda se agitou!"
 

Compreensivo, o homem lhe sugere:
"Não vale a pena estares assim triste,
por causa desse peixe se evadir:
do meu cacifre toma os que quiseres,
que em vez do choro eu quero-te a sorrir!"
 

"Não é a quantidade que me importa,
embora lhe agradeça o gesto amigo.
Contudo, o que das águas retirei
e que de novo nelas se sumiu,
era o fruto do tempo que passei
 

à espera que caísse na esparrela.
Por isso choro, ao ver que foi inútil
o sacrifício e tempo que perdi..."
"Tens razão, meu pequeno, mas na vida
mil vezes chorarás como hoje aqui..."

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DITAME


Quando te fores do mundo
(nesse dia que será
o mais triste que vivi),
ai que desgosto profundo
 sobre mim se abaterá,
 pois p'ra sempre te perdi!
 

São mágoas que me visitam
e que eu tento pôr de lado,
pelo muito que te quero.
Nossos corações palpitam,
com amor acrisolado,
e por muito tempo, espero,
 

já que tens sido p'ra mim
uma incomparável flor
a povoar meu jardim:
Que eu sempre tenha o ensejo
de envolver‑te nesse beijo
que me anima e dá vigor!

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RETROSPECÇÃO


 

Segui conforme pude o meu Destino,
guiado pelos sábios conselhos
que, atentamente, quando era menino,
fui ouvindo da boca dos mais velhos.
 

E com isso não me dei mal, confesso,
porque achei positivo quanto fiz,
apoiado na sua experiência.
Por outro lado, triste, reconheço
que muitos outros que seguir não quis
se pautaram por fraca florescência...

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DESALENTO



Tantas vezes na vida me torturam
recordações daquilo que não fiz,
mas que podia ter realizado,
e penso até se valerá a pena
lutar para cumprir o projectado...
 

Nesses momentos lânguidos, confundem-se,
em turbilhão, as múltiplas ideias,
que se atropelam e pretendem ser,
à força, vencedoras da contenda,
que acaba por me dar maior sofrer...

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BONANÇA



Nas horas de desânimo, em que os nervos
estão tensos, faz bem retemperar
o fatigado espírito com coisas
diferentes, suaves, como há muito
não comungava o nosso paladar!
 

Em catadupas, montes de lembranças
nos visitam: tentamos esquecer
o que ao longo da vida nos feriu
e deleitamo‑nos com os momentos,
que foram de alegrias e prazer!

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ENIGMA RESOLVIDO



Sem que eu pudesse repousar, as noites,
com lentidão, lá iam decorrendo.
E pela mente desfilavam críticas
severas, em reprovação da forma
 

como encarava, às vezes, os dilemas,
que a cada passo a vida me ensombravam.
 

Em uma dessas noites decidi
aceitar, com seriedade, as críticas
e dar um novo e firme rumo a tudo
que até à data havia desprezado...
 

Então, adormeci tranquilamente
e passei uma noite como há muito
não desfrutava o meu cansado espírito:
tudo passou, apenas porque achei
a enigmática chave do problema...

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ALVO ERRADO


Um revólver disparava
no meio da confusão
e a bala, sem sul nem norte,
atingiu o coração
de um sem culpas, que passava
e ali encontrou a morte.
 

Um pai de filhos, coitado,
honesto a levar a vida
que, ao a casa regressar
do trabalho, fatigado,
injusta bala, perdida,
lhe põe termo ao labutar...
 

Quem enxugará o pranto
dos filhos e da mulher,
envoltos por triste manto?
E quem irá sustentar,
nos contratempos que houver,
este destroçado lar?...

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SOBERBA



Há sempre quem inveje as alegrias
que pela vida, às vezes, desfrutamos
e tente transformar em agonias
o que, com muito custo, conquistamos.
 

Mas, por que existirá desde as origens,
em tantos, uma sórdida soberba,
que à Humanidade vem causar vertigens
e àqueles que são rectos exacerba?

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PRESTO

 
Queria ter um cavalo,
mas um cavalo de vento,
que a qualquer hora, num halo,
me levasse o pensamento
 

a certas zonas ignotas,
para lá depositar
minhas ideias remotas
e me poder renovar...
 

Mas onde é que encontrarei
um raro exemplar assim,
a quem tudo ofertarei
p'ra me libertar de mim?...

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TRAGÉDIA



Que foi uma tragédia não há dúvida,
mas o homem não teve qualquer culpa:
 

Num hábito de há mais de trinta anos
ligou a ignição e pôs‑se em marcha...
Puxou atrás, acelerou e viu,
horrorizado, com as mãos atadas
na cabeça, que a dor estonteava,
o seu netinho único num bolo!
 

Jesus!, Jesus!! Ai... como fôra aquilo?
 

...Quando voltou a si, no hospital,
para onde o levaram sem sentidos,
abriu os olhos, devagar, medroso,
e reviu o terrível espectáculo:
 

Um grito lancinante revibrou
e de novo, o prostrou... O pequenino,
traquina, com dois anos, escondeu-se
atrás do camião, para brincar
com o avô, que tanto se alegrava:
Não o sentiu. Por isso, manobrou
e só deu conta quando os olhos, lívidos,
a tremenda tragédia lhe mostraram...

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BOUQUET


(22/1/1992)

 

A foice que servira há poucos dias,
bem firme, transportava a mão da Morte
e, implacável, sem ter Sul, ou Norte,
a foi cravar naquele que agonias
carpia p'la família da consorte...
 

Ele deixava tudo inconsolado,
após as privações tidas na vida,
para atingir a íngreme subida,
que há longo tempo havia programado
e era motivo de incansável lida...

E, de repente, a foice que pingava
gotas de sangue em abundância, cresce,
impiedosa, sobre ele, e acontece
a tal tragédia, que ninguém 'sperava!
E outra vez, tudo e todos, entristece...
 

Partiu, então, o amigo dedicado,
o pai bom, o esposo estremecido,
sem ter sua quimera concluído!
Hoje e sempre, a cumprir o triste Fado,
Ela acerta no alvo pretendido!

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CANÇÃO DE EMBALAR



O pequenino dorme, dorme,
com lindos sonhos, a sorrir:
pela janela, a Lua enorme,
desfaz‑se em luz, para o cobrir!
 

Porque lhe disse estar presente,
sobre os telhados, um papão:
ai como dorme o inocente,
ainda há pouco resmungão!
 

Foi‑me pedindo que enxotasse,
para bem longe, o comilão:
eu insisti que sossegasse,
que ia mandá‑lo embora, então...
 

E agora é vê‑lo, dorme, dorme,
com sonhos tais, sempre a sorrir:
já foi andando a Lua enorme
outras paragens a cobrir!

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SONETO DO "VeL" E DO "ÃO"


(Para meditar)


 

Nos momentos de luta é lamentável,
tantas vezes, a falta de união:
por comodismo, uns dizem ser estável,
há longo tempo, a sua situação,
 

por isso, julgam não será viável
alguém tomar contrária posição.
Outros bem sabem que é mais confortável
os lucros retirar da confusão.
 

Conclui‑se, então, que é pouco razoável
ser sempre o desgraçado mexilhão
a suportar os custos da função:
 

Isto por ser em tudo responsável
e manter, com firmeza inabalável,
uma digna e sincera opinião!

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PAR OU PERNÃO?



Ao "par ou pernão"
adoro jogar
e sou campeão,
quando à minha mão
não chega o azar!
 

'Squecendo a fadiga
é mais p'lo Natal
que esta moda antiga
une a malta amiga,
com ar jovial!
 

Depois tudo esquece
ao longo de um ano.
Só quando aparece,
de novo, a benesse
se traça o plano
 

do bom passa-tempo
que a todos encanta.
Ai que sentimento
produz o evento
dessa quadra santa!

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JANEIRAS



Vinde à porta, ou à janela,
 

 ós da casa, apreciar
quem nesta noite tão bela
 as janeiras vem cantar!

Sabei que quase passados
estão dois mil anos já,
desde que na gruta entraram
Maria e José, forçados,
porque hotel não encontraram,
e onde Jesus nascerá.
 

Foi isto lá na Judeia,
na cidade de Belém:
Os três Reis Magos trouxeram
de prendas uma mão‑cheia
que, alegremente, puseram
aos pés do Filho e da Mãe.
 

Quem, porém, chegou primeiro,
foi tanto e tanto pastor,
que se guiou pela estrela
e trouxe o melhor cordeiro,
para uma oferta singela
ao pequeno Rei de amor.
 

Quem tinha um Destino nobre
na vida para cumprir
nasceu numa manjedoura,
em frias palhas, tão pobre:
mas com bondade que doura,
eternamente, o Porvir.
 

Um coro, sem-fim, entoa
magnífica pastoral
desde o alto ao mar profundo:
"Exulte toda a pessoa,
porque o Salvador do mundo
já chegou pelo Natal!"
 

Boas-festas desejamos
a todos quantos estão
a ouvir estas janeiras:
Para o ano cá voltamos
a saudar as prazenteiras
gentes de bom coração.

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RECORDAÇÕES


As coisas da minha aldeia,
que sempre hei‑de recordar:
 

Os serões depois da ceia
e os fusos a saltitar
à luz frouxa da candeia
e belas canções no ar!
 

Nos campos as sementeiras;
o arado a terra a lavrar;
entre o milho, as mondadeiras
entoam lento cantar,
como fazem as ceifeiras,
p'lo sol, centeio a cortar!
 

O tempo das desfolhadas;
do pão na eira a secar;
das vindimas e pisadas;
dos porcos a chamuscar;
da azeitona as varejadas
e à noite farto cear!
 

As partidas de sueca,
ou então de dominó,
com uns beijos na caneca,
repenicados, sem dó,
que acabavam em soneca
e, às vezes, a falar só...
 

Gostosa castanha assada,
pinguinha de consolar;
a chouriça defumada,
que vinha mesmo a calhar
(já dentro da madrugada)
para o serão rematar...
 

Era tradição antiga,
que ao meu tempo 'inda chegou,
reunir‑se a malta amiga
na casa que se aprazou,
após a imensa fadiga
de quem de dia lidou...
 

Não sei se ainda acontece
o convívio salutar,
que a paz da aldeia oferece
a quem sabe apreciar
o tempo, que não esquece,
de alegria e bem-estar...
 

O que dá, por ser querido,
na vida satisfação,
jamais será esquecido,
pois é a forte razão
para conservar florido,
vida fora, o coração...

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ITINERÁRIO



Ao Luís Gavina


O amigo certo, quando solicitado



ITINERÁRIO



Muitas vezes medito nas proezas,
inimitadas maravilhas, que houve
na Galileia há dois mil anos já,
atribuídas a um Homem bom,
que pelos outros tudo sofrerá...

E um rosário, sem-fim, vou desfiando:
Busca a Virgem Maria uma estalagem,
para com o esposo pernoitar
e, ao ser-lhe recusada em toda a parte,
na humilde e fria gruta O vai gerar...
 

Vieram visitá-l'O os Magos Reis
e Lhe ofertaram ouro, incenso e mirra,
assim como os pastores, que trouxeram
do melhor que existia em seu redil
e humildes, a seus pés, O bendisseram!
 

Também as legiões, inumeráveis,
de todos os espíritos celestes,
oratórias magníficas cantaram,
em coros de harmonias nunca ouvidas,
que de um extremo ao outro se espalharam.
 

Depois, muito pequeno, a discutir
com os doutor's da Lei no santo templo.
Na sua vida pública a pregar
às multidões, que tudo abandonavam
para O seguir e, crentes, escutar.
 

E os milagres, sem conta, realizados:
Nas bodas de Caná transforma em vinho
a água que nas talhas foi deitada;
atesta a rede de abundante peixe,
que antes, vazia, fôra retirada;
 

os paralíticos de braços mexem‑nos,
enquanto que os de pernas se deslocam;
os surdos ouvem; cegos vêem; falam
os mudos; e inúmeros leprosos,
sãos da moléstia, para o lar abalam;
 

restabelece, de doença grave,
um empregado de um oficial
do exército romano, que sofria;
caminha sobre as ondas e amaina
o mar revolto e a forte ventania;
 

ao tocar‑Lhe sentiu o sangue estanque,
uma pobre mulher, que há longos anos
se debatia com hemorragias;
expulsa das pessoas maus espíritos,
que insuportáveis tornam os seus dias;
 

o filho da viúva de Naim
e a filhinha de Jairo ressuscita;
e ao seu amigo Lázaro igual
sentença dá que, ao ser chamado à pressa
e Lhe afirmarem que cheirava mal,
 

porque jazia morto há quatro dias,
lhe toma a mão e restitui à vida;
para dar de comer à multidão,
cinco pães e dois peixes abençoa
e, ao fim, diversos cestos sobrarão...
 

Exprime‑se por meio de parábolas,
e que belas parábolas expõe!:
O filho pródigo, que o pai despreza,
levando o dote que lhe pertencia
e, perdoado, apenas traz pobreza;
 

o bom pastor, que sempre dá a vida
pelas próprias ovelhas, que O conhecem;
o grão de trigo que, lançado à terra,
se não morrer, jamais dará seu fruto;
o agradável sabor, que o sal encerra,
 

perdendo‑o deixará de ser salgado;
 

não se deve acender um candeeiro,
para debaixo de uma caixa pôr;
a colheita abundante na seara,
mas pouco pessoal trabalhador;
 

o grão que se semeia de mostarda
e, sendo a mais pequena das sementes,
se vai em planta enorme transformar;
o fermento minúsculo que faz
grande porção de massa levedar;
 

só uma boa árvore dará
um fruto bom, pois que da apodrecida
apenas frutos maus se colherão;
o homem que a semente à terra lança
e os grãos em vários sítios cairão:
 

Uns, comem‑nos as aves. O sol queima
os que nasceram sem raiz, nas rochas.
Outros, por entre espinhos, abafaram.
E outros ainda, em terra bem saudável,
múltiplos e bons frutos procriaram;
     

a compra de uma preciosa pérola;
o tesouro escondido num terreno;
o lavrador que o trigo semeou,
vindo durante a noite um inimigo
e, por maldade, joio misturou...
 

Em suma: este Homem bom apregoava
uma nova maneira de viver:
A reciprocidade no amor;
perdoar as ofensas; não furtar;
sempre fazer o bem, seja a quem for;
 

Ser pacífico, manso, humilde e simples;
não levantar os falsos testemunhos;
desprezar a soberba e opressão;
às crianças, aos órfãos, às viúvas,
aos tristes, aos carentes de água e pão,
 

aos presos, aos mendigos, não negar
solidariedade; não mentir;
não cobiçar o que a outrem pertence...
‑ Tal era a sã doutrina que Jesus
tinha nas pregações sempre presente!
 

E porque o que pregava Ele fazia
e o que dizia ouvir aos poderosos
não convinha, foi um sem-fim de intrigas
que se gerou e um forte ódio de morte
a fervilhar nas hostes inimigas.
 

E aqueles que ainda há pouco O proclamavam,
com incontáveis ramos de palmeira,
quando em Jerusalém, sobre um jumento,
triunfalmente, entrou ao som de cânticos
e frases de feliz contentamento,
 

correndo ao seu encontro e a gritar:
"Hosana, hosana, ao Filho de David!
Honra ao que vem em nome do Senhor!
Seja o Rei de Israel glorificado!
Bendito seja o nosso Salvador!"
 

Muitos deles não foram corajosos
na defesa cerrada do Messias...
Alguns dias depois de na cidade
ter sido alegremente recebido,
e usando de tenaz agilidade,
 

expulsa os vendilhões do santo templo.
Recorda aos seus discípulos que a Páscoa
em breve ia chegar e, amargurado,
que aos inimigos o Filho do Homem
entregarão p'ra ser crucificado.
 

A festa dos pães ázimos chegou
e uma ceia, Jesus, aos seus discípulos,
na noite do solene dia, deu.
E nessa ceia aos doze garantiu,
com frases que os convivas surpreendeu,
 

que um deles o iria atraiçoar.
Jesus, durante a ceia, a Deus deu graças
e do seu pão tomando e do seu vinho,
após abençoar, aos seus discípulos,
solenemente, of'rece, com carinho,
 

dizendo que comessem e bebessem,
que era o seu corpo e sangue que lhes dava:
e assim na santa noite instituía
a dádiva de amor e de perdão
‑ o sacramento da Eucaristia.
 

Depois de terem entoado cânticos,
para o Monte das Oliveiras foram.
Mais tarde, aflito e muito angustiado,
num sítio conhecido por Getsémani,
Jesus foi, só, orar p'ra outro lado.

E por três vezes fez a mesma súplica:
"Se for possível, Pai, de Mim afasta
o cálix de amargura. Todavia,
faça‑se a tua e não minha vontade!"
 

Regressando ao seu grupo, que dormia,
 

lhes disse: "A hora em que o Filho do Homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores
próxima está. Partamos, sem demora,
que aquele que me vai atraiçoar
com esse bando vai chegar agora!"
 

E então, mal proferiu estas palavras,
Judas Iscariotes, que era o bolsa
e por trinta dinheiros ajustou
entregar o seu Mestre, apareceu
e com um beijo falso O indicou.
 

Jesus ao ver alguns guardas do templo,
que pelos fariseus e pelos chefes
dos sacerdotes foram enviados,
e um batalhão de militar's romanos,
com lanternas, archotes, bem armados,
 

lhes perguntou a quem é que buscavam?
"Jesus de Nazaré", logo disseram.
"Sou Eu", lhes retorquiu. "Se me procuram,
levem‑me, mas em paz deixem ir estes".
Então O agarraram e prenderam.
 

Para a casa de Anás O conduziram,
a fim de, sem demora, ser ouvido.
Depois de interrogá‑l'O, ordena Anás,
já que uma decisão não quis tomar,
que O levem à presença de Caifás.
 

Este, nada também quis resolver
e manda que O entreguem a Pilatos
(governador romano no local).
Pilatos inquiriu se àquele Homem
tinha alguém visto praticar o mal?
 

Segunda vez interrogou Jesus
e diz ao povo que razões não vê
p'rà morte O condenar, como pediam.
E já que era costume pela Páscoa
um preso lhes soltar, se pretendiam
 

que naquele ano fosse o Nazareno.
E a multidão, aos gritos, agitada,
respondeu num berreiro furioso:
"Não, não! Solta‑nos antes Barrabás!"
‑ Que aliás era um grande criminoso.
 

Autorizou Pilatos que O prendessem
e fosse, injustamente, maltratado.
Os soldados, então, entrelaçaram
uma c'roa de espinhos que, sem dó,
a Jesus na cabeça colocaram.
 

A seguir sobre os ombros lhe puseram
um vil manto vermelho e, por escárnio,
se aproximavam d'Ele, proferindo:
"Viva o Rei dos Judeus!" E, com escarros,
o rosto tão augusto iam cobrindo.
 

Uma vez mais Pilatos insistiu:
"Qual foi o crime que Ele cometeu?"
E a multidão, com fúria, gritava:
"Seja crucificado, sem demora!"
Então, Pilatos água pede e lava
 

as mãos em público, dizendo ao povo:
"Não serei responsável pela morte
deste Homem. Crucifiquem‑n'O, pois eu
razão nenhuma encontro para tal."
E ordens p'ra que O levassem concedeu.
 

Tiravam‑Lhe da mão direita a cana
e davam‑Lhe com ela na cabeça.
Depois d'Ele, sem dó, tanto troçarem,
Lhe vestiram a roupa em vez do manto
e O levaram p'ra então crucificarem.
 

Partiu em direcção a um lugar,
que em língua hebraica se chamava Gólgota,
mas que era conhecido por "Caveira",
levando às costas uma cruz pesada,
feita de um grosso tronco de madeira.
 

Quando iam a caminho apareceu
um homem da cidade de Cirene,
que Simão se chamava, e o obrigaram
a transportar a cruz do Nazareno
e no local nela Jesus pregaram,
 

também crucificando outros dois homens,
um à sua direita e outro à esquerda,
a quem chamaram "bom e mau ladrão",
porque sendo uns patifes refinados,
se arrependeu um deles, outro não.
 

Retiraram‑Lhe as vestes os soldados,
que foram repartidas entre si,
depois de O terem lá crucificado,
e sobre a túnica deitarem sortes.
Um letreiro na cruz foi colocado,
 

escrito em várias línguas, que dizia:
"Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus!"
Aos pés da cruz estava sua Mãe,
o discípulo que Ele tanto amava
e vários seguidores seus, também.
 

Ao vê-los Ele diz em voz magoada:
"Amigo predilecto, eis tua Mãe!
Aí tens, Mãe querida, o filho teu!"
Então, Ela habitou em casa dele.
Isto dito, Jesus emudeceu...
 

Depois do meio‑dia toda a terra
de um manto se cobriu de escuridão
e, às três horas da tarde, de repente,
Jesus, que há tanto tempo agonizava,
bradou em voz de súplica, potente:
 

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?!"
Todos pensaram que Ele delirava.
Tinha sede. Uma esponja, então, molharam
numa vasilha de vinagre e aos lábios,
na ponta de uma cana, lha levaram.
 

Disse após o vinagre ter provado:
"Está tudo cumprido!" E, lentamente,
inclinou a cabeça e expirou...
A cortina do templo, nesse instante,
a meio, de alto a baixo, se rasgou;
 

houve um tremor de terra assustador;
as portentosas rochas estalaram;
muitos e muitos túmulos se abriram 
e tantos mortos, que faziam parte
do povo do Senhor, deles saíram!
 

Ao verem tudo quanto aconteceu
os soldados romanos, que O guardavam,
encheram‑se de medo e murmuravam:
"Era o Filho de Deus, não haja dúvidas,
conforme os seguidores proclamavam!"
 

Um dos soldados Lhe espetou a lança
no peito e jorrou logo sangue e água.
Quando a noite chegou, apareceu
um homem abastado, natural
de Arimateia, a quem Pilatos deu
 

licença p'ra tirar da cruz o corpo.
Ao seu encontro veio Nicodemos,
com grande quantidade de perfume,
e envolveram Jesus com ligaduras
de linho puro, como era costume
 

entre os Judeus, ao sepultar os mortos.
Para um sepulcro próximo O levaram,
que 'inda não tinha sido utilizado,
e nele o corpo de Jesus puseram,
antes da luz do dia ter chegado...
 

Bem cedo, no domingo de manhã,
Maria Madalena, ao ir ao túmulo,
viu retirada a pedra que o tapava
e aos discípulos foi dizer, à pressa,
que o corpo de Jesus lá não estava...
 

À tarde, reunidos no Cenáculo,
onde, com medo, estavam escondidos,
Jesus no meio deles assumou
e proferiu: "Convosco esteja a paz!"
Depois, as mãos e o peito lhes mostrou.
 

Por verem o Senhor rejubilaram.
Jesus lhes disse, então, segunda vez:
"Convosco esteja a paz!" E acrescentou:
"Ide por todo o mundo a Boa Nova
anunciar, pois como Me enviou
 

o Pai do Céu, também Eu vos envio".
Depois soprou sobre eles e lhes disse:
"Agora o Santo Espírito recebam:
a quantos concederem o perdão,
são perdoados; aos que o não concedam,
 

perdoados, portanto, não serão.
Jesus, mais algum tempo, alegremente,
entre os Apóstolos permaneceu.
Ao som de cantos e aclamações,
por fim, se eleva em corpo e alma ao Céu...
 

Há dois mil anos já que aconteceu,
mas ficou‑me gravado na memória
esse percurso extraordinário,
que começa na gruta de Belém
e acaba com a morte no Calvário! 

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POSFÁCIO

 

José Fernandes da Silva, poeta popular residente em Vila Verde e professor de Educação Musical, lança hoje o seu terceiro livro de poesia, intitulado "RELICÁRIO", depois de "COFRE DE TERNURAS" e "CANÇÕES DA MINHA ESCOLA". 

RELICÁRIO é um livro de sabor confessional, no qual o Autor espalha como poldras no avaro caudal da vida, evocações, saudades e encantos, que nos levam até à outra margem do ser; a esse cais onde fundeiam esperanças de velas enfunadas à mistura com ilusões naufragadas no lodo da cruel evidência. Em RELICÁRIO o Autor regressa a um tempo perdido e do qual guarda ciosamente preciosos pedaços ou relíquias em forma de memórias reconfortantes, sensações que afloram ainda à tona da consciência, encantamentos antigos e que a distância começa a embotar. O Autor revela‑se, entrega a sua alma ao leitor, fiel depositário de uma luz que brilha na solidão da noite na posse desse imaterial relicário entra num mundo por trivialidades pueris, de suaves lirismos, de testemunhos e confissões, de saudade, de sensualismo pictórico, de quadras panfletárias, de místicos hinos, de incontidos idealismos, de enternecimento com o drama alheio, de rituais epicuristas.

Nem sequer faltam as odes ao alecrim, mítico arbusto da fantasia popular, ao loureiro, ao rouxinol, ao cuco, à rola e até à montanha e loas às estações do ano e às festas principais da cristandade. Em FANTASIAS o Autor concretiza uma poesia mais realista, mais denunciadora de um amor físico, carnal, alimentado pelo fogo da paixão, chama que se dilui na quimera da felicidade. E é com o travo agridoce da ilusão, depois de escoado o cálice da angústia, que os apaixonados seguram com as mãos a tremer, que o Autor fecha de novo o seu RELICÁRIO e que, por momentos breves, abriu à nossa sensibilidade de confidentes eleitos pela musa do Poeta.

José Fernandes da Silva é, assim, um poeta, de talhe clássico, que raramente abandona o labor rimático e está predestinado a fazer a gravação em verso das suas experiências pessoais com o auxílio do poderoso óculo da memória, imagens que se purificam no filtro da sensibilidade tênsil e da emoção assumida por inteiro.

 

Fernando Pinheiro

 

(Na apresentação de "RELICÁRIO" -

 Salão Nobre da Câmara Municipal de Vila Verde -

 1 de Maio de 1993)

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