Bornal de Narrativas


ÍNDICE

 

Dedicatórias

Mãezinha

O Pilha-Tudo

A intempérie

Dá-me Lume

A Fidalga de Guisande

O Sargento Paulino

Dulce

Uma Filha

O Morgadinho da Granja

O Museu do Sebastião Tinoco

Uma Noite de Santo António

Convalescença

Em Recolhimento

Longa Separação

Aparências

Obsessão

Coisas da natureza

Atraquem!

Um Peso, duas medidas

Abraço sem tempo

Ascensão e Assunção

A Madrasta

Arejamento

Conta Saldada

O Cirurgião Gonçalo

A Via-Sacra do Quintela

Semelhanças e Contrastes

Fica Adiado...

O Imigrante

O Torcato dos Vales

A Concertina

Malvadez

O Sr. Beltrão Neiva


Dedicatórias




Ao Fernando Pinheiro, o franco amigo que me responde "sim", quando invocado


À minha Mulher, Aos meus Filhos


Concentrei-me a pincelar
telas simples, impressivas,
a fim de policromar
um Bornal de Narrativas...



 Voltar Índice


Prefácio

TRAGICOMÉDIA, IDENTIDADE E TRADIÇÃO EM BORNAL DE NARRATIVAS



Com este Bornal de Narrativas, José Fernandes da Silva interna-se pela terceira vez nos sinuosos meandros da prosa narrativa de fundo memorialista e moralizante, consideradas as espias metódicas que o autor lançou a um tempo já muito delido na consciência do homem hodierno, uma entidade agora distraída e, em certa medida, alienada pela superabundância dos fenómenos sociais que a todo o momento captam e ofuscam os seus sentidos vulneráveis, se não mesmo cansados de tanta imagem trepidante e de tanto ruído molesto.

Depois de Receptáculo - Um punhado de narrativas (2005), e Palco de Memórias (2011), este autor, que entretanto se notabilizou na composição de música sacra e profana e na edição de poesia (com onze títulos dados já à estampa), regressa com trinta e três contos, extraídos dos mesmos tasselos das fornadas anteriores, ou não fosse ele um artífice de uma bem organizada oficina. Na verdade, José Fernandes da Silva, enquanto prosador, submete também este projeto literário à grande matriz histórico-literária do conto tradicional, mantendo nesta obra todas as marcas da oralidade, da síntese narrativa, da economia de processos, da linearidade objetiva, e do pendor satírico ou moralizante das histórias.

Toda a paleta emotiva e cultural da condição humana, e em particular a do homem do Minho, perpassa diante dos olhos do leitor, nos seus cambiantes caleidoscópicos, desde as gárrulas e luminosas tranquibérnias de pobres orates e outros zé-quitólis que tais, entretidos nos seus jogos de picardia e insólita desforra, até aos sombrios e dolentes cortejos de dor, sofrimento e tragédia que assolam o inditoso destino de pobres casais perdidos na serra e no vale, passando pela saga migrante de um povo que abalou para terras distantes em busca de um desejado salvatério ou na esperança de vingar um fabuloso sonho de alma.

O arco do tempo deste Bornal de Narrativas une essencialmente os finais do séc. XIX aos primeiros anos do nosso ainda jovem milénio. Todavia, o grosso das histórias concentra-se no século transato, do qual o autor extraiu a matéria de uma efabulação que em nada se demarca da realidade que ela mesma pretende representar. Incontornáveis são por isso os temas da doença, da fome e da miséria, da ignorância, da guerra colonial e da emigração, todos eles plasmados em diversos contos que ora nos narram as longas e intermináveis cadeias de separações e reencontros; as saudades jamais curadas pelo regresso afortunado e feliz de um ente querido e desejado; as inevitáveis ciladas em que sempre caem os crédulos e os ingénuos;

as privações por que passam os pobres ou os indigentes; as famílias desfeitas pela lei inexorável do tempo.

Alternando entre o jocoso e o sério, José Fernandes da Silva vai desdobrando histórias que tanto nos mostram ratoneiros amigos do alheio, heróis de tasco e de terreiro, biltres cheios de manha e empáfia, burlões bem-apessoados e bem-falantes, espertalhões caídos em esparrelas melhor engendradas, feiticeiros vítimas do seu próprio feitiço; como, de outro modo, nos apresentam jovens contrariados nos seus amores por preconceitos ancestrais, amantes sinceros dilacerados por súbitas e inesperadas quebras de juramento, desastres causados pela irreverência juvenil, a magistratura de mães e esposas previdentes, e, até, exemplos de comovedora arte popular, como as histórias daquele moleiro e daquele tamanqueiro que transformaram, respetivamente, o seu rústico moinho e as suas pobres tamancaria e residência em museus de arte sacra.

E não valesse esta obra pela edificação de um grandioso fresco das gentes do Baixo Minho, onde cada personagem surge representada em traços fortes e intensamente coloridos (e não só os seus retratos físicos mas também os psicológicos, tanto mais que as grandezas e misérias de cada um ressaltam à vista como coriscos de tempestade), vale ela, seguramente, pela corajosa denúncia que o narrador faz de tanto crime não julgado, de tanto abuso não redimido; de tanto mal não expurgado... Todavia, a justiça que deixou de ser feita pelos homens no devido tempo, fá-la o poeta, aqui e agora, através da palavra salvadora, com ela remindo todos os que então sofreram no corpo e na alma o vitupério de uma agressão inqualificável.

Bornal de Narrativas é assim uma coletânea de contos para todos os gostos, escritos num estilo escorreito e límpido, sem escusados malabarismos estilísticos, bem ao jeito das histórias que antigamente se contavam ao serão e que hoje bem poderiam substituir com vantagem tanto divertimento vão e inútil. E esta obra de José Fernandes da Silva, se a um tempo diverte, porque é próprio do homem aproveitar o riso para catar-se das suas angústias existenciais; a outro ensina, graças às numerosas histórias de proveito e exemplo, que podemos usar para a condução sábia e prudente das nossas vidas, num tempo em que a perigosidade física e a incerteza moral atingiram proporções quase apocalíticas.

Não foi por acaso que o autor titulou esta coletânea de contos como Bornal de Narrativas, cuja intenção não terá sido a de se ficar por mais uma metáfora poética ou literária, para sua auto-satisfação e enlevo, mas, por certo, para desejar transformar este punhado de contos em alimento de espírito, ao alcance de todos, ainda que muitos não o queiram tomar e deixem definhar uma cada vez mais abandonada interioridade.


Braga, abril de 2014


Fernando Pinheiro
escritor


 Voltar Índice


Mãezinha

Ao dr. Secundino de Freitas



Mãezinha!

Sublime diminutivo, segunda mãe, mãe de ternura, de bondade, de compreensão, de carícias, de sensibilidade; firme defensora, sempre preocupada, dedicada e vigilante; abrigo das muitas asneiras, traquinices e birras dos segundos filhos; santuário de suaves mimos e sorrisos: eis a forma carinhosa e delicada com que, sobretudo na pureza dos sentimentos de tempos antigos, docemente, netos, bisnetos... tratavam a venerável avó...

Estava muito acabada e muito idosa, a avó Mariazinha...

Acabada pelos desgostos e pela solidão; idosa pelos seus quase noventa anos.

Tivera o berço numa pequena e acolhedora aldeia minhota, a Lageosa, a uma dúzia de quilómetros de Braga, pertinho da Citânia de Briteiros, no dia de S. João Batista (24 de junho), pouco passava dos meados do século dezanove.

Casara cedo, fora imensamente feliz com o garboso rapaz de quem se enamorou e gerou uma única filha.

Como remediada agricultora que era, a família auferia mais do que o suficiente para levar uma vida desafogada.

A filha, no momento certo, e também bastante nova, resolveu casar e, desse enlace, nasceu um robusto rapaz, batizado com o nome de Clemente, que passou a ser o enlevo da simpática e babada avó materna!

Tudo decorria muito bem, quando, de repente, o então jovem de vinte anos foi chamado para cumprir o serviço militar. Desceu sobre toda a família uma profunda tristeza de lágrimas e doloroso soluçar, particularmente daquela santa velhinha que idolatrava o neto. Decorria a primeira década do século passado. O moço assentou praça no quartel de Braga e, uns cem dias mais tarde, embarcou para Moçambique, na África Oriental, à época uma das muitas possessões ultramarinas portuguesas.

De início, embora raramente, ainda foram chegando notícias. Depois, sem quaisquer explicações, escassearam ainda mais e cessaram. E, neste contexto, consumiu-se uma vintena de anos!

Entretanto, o pai de Clemente, minado por doença malévola e prolongada, morreu. E a mãe, consumida por fundas saudades do filho e agora pelo desaparecimento do companheiro muito amado, nem um ano após, também voou para o Além. Tinha, então, a terna avó ultrapassado os setenta... E enviuvara... Solitária, inúmeras vezes sonhava com o Passado, com o Presente e até com o Futuro. E, também, dentro em pouco, se Deus o permitisse, seria nonagenária...

Numa certa tardinha de fins de maio, sentada num banco de pedra, disposto debaixo de uma entroncada, ramalhuda e secular carvalha, que se erguia a uns trinta metros da sua casa, pôs-se a conjeturar:

"Para aqui estou, velha, sem préstimo, sem família... Jesus!" - refletiu e atalhou, repentinamente: - "Sem família, não sei... E o meu Clemente, o que será feito dele... Se ainda viver já conta perto de meio século... Que pena ter sido forçado a ir para tão longe e deixar de dar notícias...

Como seria sumamente bom, misericordioso Deus, tê-lo na minha companhia, para cobri-lo com a muita ternura que me ficou e que lhe não pude dar em tão curto espaço de tempo... E como eu adormeceria feliz, no derradeiro sono, se fosse ele a cerrar-me os olhos... Se eu pudesse deixar-lhe gravado, na mente, a satisfação e a meiguice do meu suave adeus... Que bom seria, que bom!..."

E depois, todos os dias e mesmo mais do que uma vez, sob uma força misteriosa, alimentava tais meditações...

Aproximava-se o dia de S. João, uma festa de arromba, de romagem e de devoção, na cidade dos Arcebispos.

A devota senhora, enquanto pôde, sacramentalmente, não falhava uma visita ao popular e milagreiro orago bracarense... E nesse junho, ao completar as nove décadas de existência, a avó Mariazinha encheu-se de coragem e de fervor, pediu a ajuda e a companhia de uma estimada e sempre atenta vizinha e lá partiu para a capital do Baixo Minho, a fim de efetuar a sua romaria e festejar o seu aniversário...

Quando à tardinha regressou, num largo junto à estrada e em frente ao portal da sua casa, viu uns baús, malas e muita gente alegre e a conversar, excitada e animadamente... E, ao descer da camioneta de passageiros, que ali realizou uma paragem, surpreendida pelo inesperado, foi recebida pelos braços hercúleos do neto, que a envolveu e beijou, carinhosamente, ao mesmo tempo que lançava um grito comovido e embargado por lágrimas de júbilo:

"Mãezinha, mãezinha, querida mãezinha!..."


8 de dezembro de 2011


 Voltar Índice


O Pilha-Tudo

Ao Fernando Marques Mendes



O Pilha-Tudo era um homem de meia-idade e morava num lugar ermo e pouco aprazível, de uma bonita terra minhota.

Na aldeia onde nascera, nas vizinhas e até nas bem distantes, tinha a fama, e também o proveito, de deitar a mão ao alheio. Tudo lhe servia, desde os simples produtos agrícolas, até a uns anéis, uns relógios de bolso e respetivas correntes, uns brincos, um cordão, um trancelim, uma pulseira (tudo em ouro ou prata, claro está, que depois vendia a preços acessíveis). Mesmo praticando vários furtos, o Pilha-Tudo vivia pobremente, com a mulher e os oito filhos, num casebre esburacado, quer nas paredes, quer no telhado (e este, três quintos de superfície coberto com telhas e dois quintos com palha de centeio).

O Pilha-Tudo era um larápio de nomeada, na verdade, mas roubava somente para o sustento da família.

Já tinha estado preso algumas vezes e também já tinha sentido na pele várias tareias, quando era apanhado em flagrante delito e não podia dar às de vila-diogo!

O Pilha-Tudo bem procurava trabalho. Devido, porém, à fraca fama de que gozava, quase todos se recusavam a dar-lhe que fazer. Às vezes (mas muito raramente), uns mestres-pedreiros chamavam-no a jornal. Metendo-se ele em mais uma alhada, eram forçados a "mandá-lo de guias".

As visitas a locais que lhe eram proibidos sucediam, sobretudo, na véspera de datas comemorativas, como batizados, aniversários, primeiras comunhões e profissões de fé, Carnaval, Páscoa, os santos populares e outras festas da sua terra. Todavia, a quadra que mais o sensibilizava, e para a qual ele se preparava com pompa e circunstância, era a natalícia. Não se poupava a esforços para que tudo fosse celebrado em conformidade, particularmente na parte gastronómica...

Decorria a segunda década do século passado, quando chegou mais um dezembro, por sinal chuvoso e frigidíssimo. Na semana do Natal, o Pilha-Tudo tinha a casa como uma igreja, isto é, vazia de quanto pudesse fazer parte da noite de Consoada... Já há dias que arquitetava um plano salvador, a fim de festejar com os seus, e com a dignidade que se impunha, aquela data festiva.

(...) Com o auxílio de um ferro do monte, arrombou a porta de um moinho e apareceu em casa com umas taleigas de farinha milha e centeia; numa taverna da terra e noutras duas afastadas, subtraiu uns bacalhauzitos, uns cartuchos de açúcar, de arroz e de figos, três pacotinhos de aletria e uns quantos trigos; num lagar de azeite, abasteceu-se com uma lata do precioso líquido; num anexo de uma casa de lavoura encontrou batatas, cebolas e alhos, com fartura, provendo-se para uns tempos; no capoeiro de outra casa, com imensa sorte, porque todos se queixavam de que as galinhas tinham o "cu cozido" (quer dizer, andavam preguiçosas e não punham), juntou uma dezena de ovos; num campo de hortaliças cortou um braçado de olhos de couve-galega...

Chegada a santa noite, bafejada pelo intenso calor da lareira, que crepitava e exibia grande chama (graças a umas canhotas sequinhas que desviou do varandão da eira da Gracindinha Peneda), o Pilha-Tudo e a família, repletos de alegria, comemoraram mais aquela ceia, não descurando o menu tradicional da boa gente do ridente Minho: batatas cozidas com bacalhau e couves (com fartas sobras para a "roupa-velha" do almoço do dia seguinte), aletria, formigos, rabanadas... e umas maçãs vermelhinhas, assadas no borralho, que tinha apanhado no quintal do Albertinho Barbeiro!...

Ah!, e o Pilha-Tudo, sempre atento ao mais pequeno pormenor, também não se esqueceu que ele e todos, em casa, após a "roupa-velha", apreciavam um arroz de pica-no-chão, pelo que arranjou forma de torcer o pescoço ao melhor galo que encontrou num bando de galináceos que, no espaçoso quinteiro da casa do Laranjal, se entretinham com ervas e outros manjares que havia pelo chão...

(...) Ora, nesse dia de Nascimento, após a lauta refeição, constituída pela "roupa-velha", pelo arroz soltinho, e ainda um pouco duro, do pica-no-chão e das sobremesas típicas da época, de repente, ouviu-se no caminho uma voz de homem, que chamava, ou até já berrava... Aos tropeções, Pilha-Tudo e familiares assomaram à porta, para verem do que se tratava... E, assarapantados e medrosos, deram com os olhos numa patrulha de quatro agentes da GNR, armados até aos dentes!... Era a altura do Pilha-Tudo ser também ele pilhado!


13 de dezembro de 2011


 Voltar Índice


A Intempérie

Para a M. Teresa Gomes


Naquele ano, na segunda metade do mês de novembro e, sobretudo, após a terceira semana de dezembro, a chuva nunca mais parava de cair, sendo que, o pequeno rio Febras, que passa ao fundo da bonita Lageosa, engrossara o caudal, como já há muito não sucedia, pois não havia quem tivesse memória de uma tão volumosa enchente.

O morgado de uma grande moradia, no lugar do Paço, um simpático mocetão, vivia com os pais, numa ampla e produtiva quinta, num dos extremos da aldeia com Pedralva.

O mancebo apaixonou-se por uma linda rapariga de Briteiros, aldeia vizinha, implantada no sopé do monte da Citânia.

Estávamos cerca dos meados do século dezanove. Os acessos entre as duas povoações eram essencialmente três: um, pela antiga via romana; outro, por montes e vales, com carreiros bastante íngremes e sinuosos; e um terceiro, um velho caminho, estreito e com um fraco piso térreo, que seguia, na maior parte do seu percurso, ao longo da margem direita do rio, com três pontes de pedra, sem resguardos, para atravessar.

O morgado era um excelente cavaleiro e na quinta havia uma cavalariça recheada de soberbos exemplares da mais pura raça portuguesa.

Para os idílicos encontros com a sua bem-amada preferia sempre o caminho marginal ao rio, que apenas tinha umas cinco casas, antes de entrar nos terrenos da aldeia da namorada.

Não existiam habitações, mas a paisagem era alegre e convidativa.

Se nos derradeiros dias a intempérie tinha fustigado a zona, chegado o último dia do ano, parece que as forças da Natureza se associaram, sem dó, com bátegas catastróficas, ventos ciclónicos e trovões assustadores. O temporal metia medo e não se via vivalma pelos caminhos.

O morgado foi à cavalariça, selou o seu cavalo predileto e dispunha-se a sair, conduzindo o quadrúpede pelas rédeas, quando a bondosa e sempre atenta mãe lhe surgiu pela frente, dirigindo-lhe a palavra:

"Onde vais, filho, com este tempo de meter medo? Daqui a umas duas horas é noite cerrada!"

"Vou com muito juízo e prometo que venho já, sra. mãe. Fiquei de ir lá abaixo levar um presentinho à Mafalda e desejar-lhe um bom novo ano..."

"Ó Camilinho, adia para amanhã, porque me diz o coração que nem tudo vai correr bem..."

"Ó sra. mãe, não se aflija: sempre preocupada comigo e a pensar que me vai suceder qualquer coisa de mal; se Deus quiser não vai acontecer coisa alguma; volto depressa, para ajudá-la no que for necessário para a nossa grande ceia; fique sossegada, tudo farei cuidadosamente!..."

"Não gostava que saísses com tamanha borrasca, mas a visita à Mafalda tem mais força que os conselhos e receios da tua velha mãe... Olha, Camilinho, já que teimas em sair, por que não levas contigo o Severino, que é o nosso criado mais amigo e de maior confiança?"

"Não vale a pena: conheço o trajeto aos palmos. Não esteja triste, que eu volto já..."

"Vai, então, filho, sê prudente, que o anjinho da Guarda te ampare e ilumine e volta sem demora..."

"Assim farei, sra. mãe."

E despediu-se, dando-lhe um terno beijo. Montou e partiu.

O leito do Febras transbordou, mas o enamorado conseguiu efetuar todo o percurso sem dificuldades significativas.

Realizou o almejado encontro, que se prolongou por um largo espaço de tempo, entregou o presentinho, formulou os votos de um excelente novo ano a Mafalda, trocaram meia dúzia de doces beijos, trepou para o selim e iniciou a viagem de retorno...

Há muito que o dia tinha dado a vez a um espesso breu; a tempestade não amainou; os quase três quilómetros que troteou foram morosos e estava encharcado da cabeça aos pés; passou a primeira ponte de pedra, que ainda ficava em terreno vimaranense; uns quatrocentos metros mais acima aparecia a segunda ponte, quase ao começo de Portuguediz, ponte que era um simples passadiço sobre as apressadas e ruidosas águas. À sua direita existia um profundo precipício, onde se ouvia um barulho medonho e ensurdecedor. O cavalo estacou perto da casa dos moleiros. Camilo sabia que, alagada em água, era difícil e arriscado atravessar a estreita passagem.

Podia chamar pelos moleiros e pedir abrigo, mas tinha a ideia fixa de que a boa mãe estava intranquila.

Passaram-lhe pela mente diversificados pensamentos, mas as alternativas para chegar a casa eram escassas.

Reconhecia, agora, que se descuidara bastante e que não teve em conta os rogos e conselhos avisados da previdente progenitora.

E já eram mais que horas de iniciarem a última ceia do ano...

Começou a sentir-se nervoso e arrependido da sua teimosia e imprudência. Tinha, nitidamente, a consciência de que a mãe estava em grande sofrimento, ao ver agravar-se a meteorologia, o adiantado da noite e o paradeiro incerto dele...

E o que fazer, santo Deus... O turbilhão de ideias não lhe permitia discernir... Mas era preciso tomar uma decisão rápida e objetiva...

Levantou os olhos para o Céu: apenas enxergou negrume... Intimamente e com fervor, rezou um pai-nosso, uma ave-maria e um glória...

Dispôs-se, finalmente, a galgar a escassa distância que o separava da perigosa ponte...

E não é que dá com os olhos num bem visível foco de luz, pouco retirado da vertiginosa corrente?! E não é que escuta uma voz forte e aflitiva, que logo reconheceu, e lhe gritava:

"Menino, meu querido menino, pare!, pare! Com calma e com jeito vamos passar este abismo!..."

E o velho criado, submisso, apoiado num rijo lódão de marmeleiro e segurando um grande lampião, resoluto, tomou as rédeas do cavalo, escolheu o centro do passadiço, com a água quase pela cintura e logrou pisar terreno firme e transitável. E assim guiou o Camilinho e o seu cavalo para a terceira ponte, que não oferecia entraves...

(...) É que o coração de mãe adivinhara que o seu filho ia ter problemas ao longo da jornada e, como sempre o desejava junto dela, mal o Camilo partiu, chamou o experiente e fiel Severino, rogando-lhe que, por amor de Deus, lhe trouxesse o menino são e salvo...


31 de dezembro de 2011


 Voltar Índice


Dá-me Lume?

Ao Francisco Bezerra


O Gaspar Manso, a quem alcunharam "o Vila Verde" (por ser natural da vila e concelho do mesmo nome, próximo do distrito de Braga) era, já havia anos, estivador no porto de Viana do Castelo - a sugestiva, linda e panorâmica Princesa do Lima.

Para a época, o Gaspar recebia uma boa paga, sobretudo atendendo às muitas horas extraordinárias que fazia, e levava uma vida de lorde, como na roda dos seus amigos se costumava gracejar. E os encómios eram ainda maiores quando aparecia num dos muitos bem apetrechados tascos da sua vila de origem, para confraternizar com umas abundantes pingas do excelente verde da região, no tempo em que havia muitos e afamados apreciadores e consumidores.

Então assistia-se ao despique salutar entre os taberneiros que porfiavam em ter o melhor vinho - ótimo benefício de que desfrutavam os imensos confrades do "prisioneiro das pipas", que apreciavam acima de tudo o paladar, a cor e o aroma, isto é, a qualidade!

O Gaspar sempre trazia novidades de Viana e, então, todo se regalava a expô-las.

Era um inveterado fumador e fazia-se acompanhar sempre de uma pistola, tentando explicar, ou confundir ainda mais, que se tratava de uma segura companhia e que apenas a trazia "cá por coisas!"

Das imensas peripécias em que foi interveniente, havia uma que não se cansava de referenciar; e notava-se bem que sentia prazer em referi-la e relembrá-la...

Fora o caso que, numa certa vez, ao fim da tarde, quando acabou o dia de trabalho e saiu do porto marítimo vianense, deu com os olhos num cavalheiro, bem-vestido e bem-apessoado, fumando um charuto.

Gaspar dirigiu-se para o concorrido quiosque, na esquina do outro lado do largo, para comprar tabaco, e o sujeito, após ele, também foi comprar charutos...

Gaspar tomou a rota de um café vizinho, e o cavalheiro, mantendo uma determinada distância, lá o ia seguindo.

Gaspar entrou no café, sentou-se numa mesa, acendeu um cigarro e pediu uma cerveja. Ao ser servido, observou que o empregado caminhara para outra mesa, ali próxima, e colocara nela uma chávena de café e um copo de água, e que o cliente era, nem mais nem menos, o mesmo cavalheiro que viu ao deixar a doca, que o acompanhou até ao quiosque e até ao estabelecimento de restauração e que agora, quase a seu lado, como que distraído e devagar, saboreava as duas bebidas.

Gaspar permaneceu por longo tempo no café, lendo o jornal e queimando alguns cigarros.

Por fim, acenou ao servente, pediu a conta, pagou e saiu para a rua, a fim de ir pegar no automóvel que, pela manhã, tinha estacionado a uns trezentos metros dali.

Já era noite. Meteu-se no acesso que o levava ao sítio pretendido e, palmilhados uns cinquenta passos, virando-se, com discrição, para trás, volta a dar com os olhos no companheiro indesejado... O qual ainda o acompanhou mais uns cem metros. Mas, de súbito, desapareceu...

Gaspar, com a pulga na orelha e apresentando uma cara de poucos amigos, parou no passeio, junto de um candeeiro de iluminação, meteu a mão direita ao bolso traseiro das calças e sacou a pistola. Destravou-a, puxou a corrediça atrás, colocando uma bala na câmara, e acomodou a arma na manga esquerda do casaco...

"O freguês parece que se arrependeu e desistiu de me querer fazer companhia. Ainda bem, porque já me estava a enfastiar e a cheirar a esturro. Dá-me a impressão de que queria cócegas e eu não estou nadinha virado para aí!" - desabafou Gaspar Manso.

E, com lentidão, recomeçou a marcha.

Um pouco adiante, de novo, parou. Subtraiu mais um cigarro do maço, acendeu-o com a prisca do anterior, colocou-a no paralelepípedo do chão, pisou-a, apagou-a com o sapato e jogou-a fora, para a via deserta.

Estava a chegar ao estacionamento do carro, quando, de uma viela que ali desembocava, vê reaparecer o perseguidor daquela noite...

"Raios o partam! Afinal, o figurão é teimoso... Dizem-me cá os meus botões que hoje as vamos ter, e das boas! É que parece mesmo o Demónio a tentar as almas... Deixa ver no que isto dá..."

Desta feita, o sujeito, afoito e empertigado, delicadamente, aproximou-se de Gaspar, apresentou-lhe o charuto e dirigiu-lhe a palavra:

"Dá-me lume, por obséquio?"

Gaspar, aparentando grande calma e sem pressas, com a mão direita, retirou a pistola da manga esquerda do casaco, enfiou, na boca do cano, o cigarro e, com o dedo indicador, emperrou o gatilho.

Estendeu o braço, aproximou a ponta do cigarro a arder à ponta do charuto apagado e, solícito, proferiu:

"Faz favor de se servir..."


2 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


A Fidalga de Guisande

Ao José Manuel Mendes


(...) A airosa e bem ornamentada igreja paroquial de Sobreposta ficava ao cimo da asseada e acolhedora aldeia bracarense, com o idoso e venerando sacerdote preparado para receber e abençoar os estimados noivos, Violante e Hilário, que se recusaram, terminantemente, a matrimoniar-se na antiga e bem cuidada capelinha da extensa quinta da fidalga de Guisande.

No espaçoso largo, frontal ao palacete dos pais da formosa noiva, a banda de música dava início ao cortejo nupcial, ouvindo-se já o estralejar de muitos foguetes.

Incorporaram-se os inúmeros convidados e, subindo pela antiga estrada de macadame, partiram a caminho do templo do Senhor...

Decorria o derradeiro quartel do século dezanove.

A Violante era filha única (conhecida por morgada de Guisande) de uma das famílias mais abastadas de Lageosa, com muitos teres e haveres, perto da margem direita do Febras, ainda reclamando e querendo mostrar hábitos e certas manias, como descendentes de ilustres avoengos, que pertenceram à nobreza de Portugal.

E é que, sobretudo a mãe de Violante, uma senhora de meia-idade e de alta estatura, não abdicava uma unha que fosse daquilo que afirmava serem os costumes do verdadeiro fidalgo lusitano.

E, claro está, quando recebia alguém no seu casarão de cantaria, procurava servir com dignidade e com pompa, indo buscar ao louceiro, da sala de receber, as louças antigas e os talheres de prata, herança de um tio clérigo, falecido cerca dos anos oitenta do século dezanove e que se sabia ter sido um miguelista ferrenho, pois até se envolveu em diversas escaramuças e deu guarida, numa sua quinta bem murada, a imensos correligionários e simpatizantes do monarca absolutista.

O Hilário era um garboso rapaz, bem-apessoado, trabalhador e filho de remediados lavradores. Os avós tinham sido ricos proprietários. Uma questão familiar de partilhas, porém, levou unhas e sabugo, absorvendo a Justiça uma maquia bem acuculada de ouro. E o que mais doía, e que influenciou a sentença do tribunal, foi o aparecimento de testemunhas falsas que, por saberem da existência de muito dinheiro, não dispensavam umas vistosas libras douradas...

E a verdade seja dita: em relação à morosidade da justiça, aos tribunais, aos favorecimentos, aos testemunhos falsos e às fortunas que se derretem nos processos, pouco ou nada se alterou, ou, melhor dizendo, antes piorou uns quantos por cento...

De maneira que o jovem Hilário, apanhado na teia da pouca fortuna, apaixonou-se pela riquíssima Violante.

Ainda namoriscaram, clandestinamente, uns dois anos. Quando, todavia, o pé-de-alferes chegou ao conhecimento da mãe afidalgada e com preconceitos genealógicos, foi o diabo em figura de gente: chamou a morgada a capítulo, pregou-lhe um sermão (com missa cantada e tudo), ameaçando deserdá-la, enclausurá-la num convento, dá-la ao desprezo... A aristocrática senhora desfiou num tal rosário de mil e uma patifarias que, de princípio, assustou mesmo a moça.

Neste entremeio, Hilário foi cumprir o serviço militar, tendo sido escolhido para chefiar uma importante missão numa das possessões ultramarinas portuguesas, na África Ocidental. Antes do embarque ainda conseguiu um encontro secreto com a mulher que o enternecia e por quem, verdadeiramente, se prendera, e de tal maneira que por nada deste mundo a desejava perder.

Foi um encontro idílico, regado com amargas lágrimas e selado com a jura mútua de que, um dia, ou seriam um do outro, ou manter-se-iam solteiros até ao fim das suas vidas...

Partiu, pois, o militar para a sua nobre missão e por lá permaneceu cerca de meia dúzia de anos...

Fervilhavam diversificados sentimentos na mente do agora já patenteado militar: era capitão!

E não esquecia as aleivosias da mãe da sua bem-amada, nem os entraves interpostos à desejada união matrimonial... Tanto mais por resultarem somente de uma questão de falta de dinheiro e de situação social. Parecia impossível que naquele tempo ainda houvesse o pedantismo da fidalguia e dos preconceitos de fortuna e de família... Mas a teimosa fidalga não torcia, nem se lhe vislumbrava uma nesga de esperança...

O marido da fidalga, esse, tanto se lhe dava como se lhe deu, não ligava patavina e até, às escondidas, confortava a filha, sem a esposa desconfiar, caso contrário, logo se entornava o caldo outra vez...

A fidalga era tão safada que logrou arranjar forma de intercetar a correspondência, para que as cartas de Hilário não chegassem às mãos da filha... Por isso, a moça andava sempre triste e a chorar pelos cantos.

Nas terras de Basto havia um idoso general, já aposentado, com uma folha de serviço cumulada de coisas boas, de medalhas e condecorações, e que era filho de um tio-avô da fidalga de Guisande.

Casualmente, numa certa Semana Santa, meteu-se na sua liteira e resolveu fazer uma inesperada visita à prima lageosense.

Havia longo tempo que a rica proprietária não desfrutava de tão grande e efusiva alegria. E fez questão de que o primo general ficasse uns dias por ali, pois poderiam visitar o Bom Jesus do Monte, a Sé de Braga e outros ex-líbris dos arrabaldes.

Honrado, o primo general aceitou o convite e por lá permaneceu uns dias.

Como observasse a contínua tristeza de Violante, quis saber quais as razões.

E começou as investigações, se calhar, pelo sítio errado; mas, por outro lado (como Deus escreve direito por linhas tortas), se calhar, também começou pelo melhor sítio; num cavaqueio ameno com a prima fidalga, lançou o repto:

"Acho a menina com um ar triste e tão desprovida de carnes e cores... Alguma doença a traz naquele estado?..."

"Não, sr. primo, não: é uma antiga paixoneta por um rapaz pobre... Mas aquilo, com o tempo, vai passar..."

"Bem, mas se se gostam, fortuna tem a sra. prima que baste para os dois; e só com uma filha, quem há de herdar tantos bens?"

"Ela também podia ter sabido escolher alguém, pelo menos, que pertencesse a uma família de nome, semelhante à nossa..."

"A sra. prima é que sabe, mas eu, se tivesse filhos, deixava que fossem eles a escolher o seu futuro, aconselhando-os, evidentemente."

E mais conversa, menos conversa, cada um manteve e defendeu os expostos argumentos.

Quando se proporcionou uma bela oportunidade, o primo general abordou, com doçura, a sra. priminha Violante:

"Então, menina tão bonita, a que se deve esse corpo esquelético e essa tristeza que a não larga um instante?..."

Em lugar de responder, Violante desatou a chorar baixinho, com soluços que não pôde evitar e com uma torrente de reprimidas lágrimas...

"Onde mora esse infeliz rapaz? Tens a certeza que ele nutre por ti os mesmos sentimentos que não consegues esconder?" - rematou e inquiriu, sem dar tempo à moça para se desculpar.

"Sim, sr. primo, sim, sim, pouco sei dele, porque a sra. mãe interceta toda a correspondência. Ele está em Angola. É militar de carreira..." "Em Angola?... Militar de carreira?... Como se chama esse moço?"

"Hilário Pimenta..."

"O capitão Pimenta, o bravo "Braga", como lhe chamam e que embarcou para África há meia dúzia de anos?..."

A cachopa parou de chorar; ficou hipnotizada ao ouvir aquelas interrogações, que a enchiam de orgulho e de um bom augúrio.

O primo general, o idoso de coração de ouro, o arauto da alegria e da esperança, de leve, poisou-lhe as mãos nas loiras e sedosas tranças e quase que balbuciou:

"Fizeste-me regressar à minha mocidade e lembrar uma mulher (não, muito mais do que mulher, um anjo!) que amei idolatradamente e que o Destino, contra a vontade de ambos, cruelmente, desviou da minha vida. Nunca mais amei. Creio que nunca mais fui amado. Estou contigo, vou ajudar-te: tens direito à felicidade, Violante..."

Depositou-lhe na testa um sentido e carinhoso beijo e foi procurar a sra. prima fidalga de Guisande...


7 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


O Sargento Paulino


O sargento Paulino era um cavalheiro já de idade avançada, de estatura mediana e todo ele bem composto de carnes.

Na época certa assentou praça e, logo que terminou a recruta e jurou bandeira, foi mandado para o arquipélago dos Açores e esqueceu-se de, enquanto militar no ativo, regressar à metrópole e à aldeia onde veio ao mundo, situada pertinho da sede do concelho de Vila Verde, no seio da alegre e franca região do Minho.

Ele costumava gabar-se (e não havia quem tivesse argumentos para o contrariar) de que sempre cumprira o seu dever com aprumo, dedicação e dignidade e que nunca sofreu qualquer sanção disciplinar...

Pela "tarimba" chegou ao posto de sargento e sempre se entendeu com os camaradas como Deus com os anjos...

Namoriscou solteiras e casadas, sopeiras, funcionárias públicas e até senhoras da alta-roda, como, baboso e com um sorriso maroto, gostava de referenciar!

De qualquer forma, não se casou e, quando atingiu a idade da reforma - e fê-lo quando já contava quase setenta primaveras -, decidiu encaminhar-se para o seu torrão natal, não só para matar as imensas saudades, que tentava reprimir, ou que pensava que nem existiam, mas também firmemente determinado a ocupar, a qualquer momento - e que até podia nem vir longe -, uma campa no antigo Campo Santo...

Regressado, apresentou-se, identificou-se e, como as pessoas mais idosas ainda se lembravam dele, acabou por ser bem aceite e por granjear a estima de todos...

Tivera uma irmã, bastante mais velha do que ele, que casou, e morreu quase octogenária, sem filhos. O cunhado tinha ido à frente da esposa e ele, o sr. sargento, era herdeiro de uma casa bastante jeitosa e confortável, de dois extensos campos e de uma grande bouça...

O sargento Paulino era uma pessoa simples, que gostava de praticar o bem e de ajudar em tudo para o que fosse solicitado, pois era um homem dos sete ofícios, como é comum dizer-se: sabia fazer um pouco de tudo, e, ainda melhor, o que fazia, fazia muito bem...

Somente se apontava um defeitozito ao sargento Paulino (ou talvez uma qualidade, porque ninguém o recriminava): em tudo imprimia um cunho castrense, e fazia com que esse hábito fosse seguido por todos aqueles que na circunstância o rodeassem... Era disciplinado e tudo fazia para disciplinar. Por isso, na voz, nos gestos, nas ordens que dava, sempre estava presente o tique de comando...

Ora, o generoso sargento passou a praticar uma boa ação, de que não havia memória na pacata aldeia: como usufruía de uma considerável reforma, vezes sem conta, convidava e até ia buscar a casa, inesperadamente, os mais necessitados, que ele sabia que passavam fome. E era nesses fraternais convívios que o sargento Paulino expressava mais alegria e visível satisfação. E nunca pedia nada em troca...

Na comemoração de datas importantes na vida de cada um e nas festas principais do ano e da terra, lá arrebanhava uma dúzia de convivas desprotegidos e regalava-os com solidariedade, com excelentes refeições que, sem deixar abusar, também eram bem regadas... E o cozinheiro era ele e, pelo que se ouvia dizer à boca-cheia, um magnífico profissional! E todo se abria num franco sorriso, quando confessava ter sido cozinheiro, chefe de cozinha e da messe dos oficiais, ao longo do percurso da sua amada vida militar...

No quartel, nos acampamentos e nos desfiles jamais fez alguma coisa contrariado. Com efeito, por quanto já se disse, o sargento Paulino era um exemplo a imitar, de fio a pavio...

Quando lhe perguntavam as razões daquele solidário proceder, ele, discreto, por um lado, e envaidecido mas sem se vangloriar, por outro, costumava referir:

"Na tropa fui sempre bem tratado. Nunca tive um castigo nem uma repreensão. Por isso, honestamente, gostei sempre, também, de ajudar quem precisava e, sobretudo, os mais acanhados e os que não se desenrascavam... Nunca pude ver sofrer ninguém, porque, de imediato, tudo fazia para minorar-lhes os males..."

(...) No dia em que chegar a vez do seu derradeiro suspiro, por quanto fez pelos outros, como bom e raro samaritano, quem não renderá uma justa homenagem ao brioso, solidário e caritativo senhor sargento Paulino?!...


16 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


Dulce


Bonita e simpática rapariga, a Teresa da Eira, uma adolescente de dezasseis anos e que ia ser mãe. Solteira, é claro.

Era filha de uma boa família, residindo numa propriedade vizinha do santuário da Senhora do Alívio, um ex-líbris do concelho de Vila Verde.

Devido à sua pouca idade, à falta de experiência e às liberdades de que hoje gozam os nossos jovens, deixou-se enganar por um indivíduo, quase trintão, que teve artes de a seduzir. Contudo, apesar da pouca idade, negou-se terminantemente a provocar o aborto que amigas e o próprio sedutor lhe propunham. Tinha sido educada segundo os princípios da Santa Igreja e ser-lhe-ia fiel.

O homem, como é óbvio, vendo a sua determinação, abandonou-a e negou-se a assumir a paternidade da criança.

Durante a gravidez, Teresa teve sempre o apoio firme e seguro da família, particularmente da avó, sempre carinhosa, que nunca lhe dirigira uma única censura.

Chegadas as dores do parto, num fim de tarde de sábado, meados do mês de março (por sinal bem florido e quentinho), conduzida a uma unidade hospitalar, mal teve tempo de ingressar na maternidade, pois logo deu à luz uma rechonchuda, perfeita e linda menina, que uma das parteiras, quando a mãe despertou de um curto sono reparador, lhe colocou nos braços... E ela, com alegria e embevecida, verteu abundantes lágrimas...

Viveria só para a filha e o que mais desejava era fazê-la feliz, o que, efetivamente, veio a suceder.

A menina foi batizada com o nome da terna e amiga bisavó, que se chamava Dulce.

E Dulce, desde logo, foi bafejada por mil ternuras e carinhos, que lhe chegavam de todos os quadrantes...

Foi crescendo, crescendo, e correspondia a todos, também, com sorrisos e com meiguices.

A mãe não via outra coisa no mundo e de dia para dia, dedicava mais amor e desvelos a Dulce.

E também, desde o berço, tomou a decisão de educá-la nos moldes que sempre a nortearam. Dulce ingressou no jardim de infância, passou para o 1.º ciclo, completou o 2.º e o 3.º ciclos e frequentava, agora, o 12.º ano de escolaridade. E todo o seu percurso escolar foi feito com distinção e a meta final a atingir era formar-se em medicina, curso que, quer ela, quer a mãe, quer os demais membros da família, efusivamente, aplaudiam...

Dulce, retirando umas gripezitas, o sarampo, a varicela e outras pequenas mazelas sem importância, foi sempre uma criança e adolescente sadia.

Em março completava dezassete primaveras e no ano letivo seguinte contava ingressar na universidade...

Ali pelos fins de fevereiro, quando, à noitinha, regressou do liceu, queixou-se que sentia frio e lhe doía a cabeça. A mãe ministrou-lhe umas drogas tradicionais e, no dia seguinte, a assídua e excelente aluna não quis faltar às aulas, sobretudo, alegando que já se sentia melhor e que tinha marcado um teste de uma disciplina a que não deveria faltar.

E foi. E realizou o teste, que lhe correu muito bem. Mas começou a sentir-se pior: muitas dores de cabeça e no peito, tonturas, calor, frio... Viu-se-lhe a febre e constatou-se que rondava os 40 graus.

Sem mais perda de tempo, a jovem deu entrada no hospital de S. Marcos, em Braga, onde lhe foi diagnosticada uma pneumonia.

Ficou internada e o prognóstico era preocupante, e nos muitos dias seguintes não foram autorizadas visitas.

Apesar dos esforços insistentes da mãe e bisavó, diariamente, e mais do que uma vez, não lhes foi permitido vê-la.

(...) Numa certa manhã em que, mais uma vez, tentaram a visita, tiveram a imensa alegria de saber que ela estava salva. E, falando ainda com os enfermeiros, viram-na aparecer, embora pálida e frágil, mas já com um sorriso nos lábios. Em instantes era abraçada pela mãe e bisavó que choravam de felicidade...


20-21 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


Uma Filha


Ao Arlindo Fagundes


Angelina e Diamantino casaram no fim do primeiro quarteirão do século findo e escolheram a bonita e ainda recém-construída basílica de Nossa Senhora do Sameiro, implantada no monte e lugar do mesmo nome, da sua freguesia natal, Espinho - Braga, como reconhecimento da noiva pelas imensas graças que a santíssima Mãe de Deus, a quem sempre se encomendava nas constantes orações, lhe foi concedendo.

E escolheram bem, porque quem convivia com o casal sustentava que homem e mulher foram mesmo destinados um para o outro!

Com efeito, já desde o decente e apaixonado namoro, se constatou um perfeito entendimento e uma entrega mútua, que prosseguiu na vida de matrimoniados.

Angelina era uma dona de casa atenta e eficiente e, à medida que os filhos foram nascendo, aplicou neles o carinho e a dedicação que não teve até ao dia do casamento, já que, sobretudo, a madrasta (pois ficara órfã de mãe aos sete anos) lhe infligiu uma infância e, mais ainda, uma adolescência de perseguição e mesmo de maus tratos.

Agora, casada, sentia a compensação da péssima vida de solteira que levou.

Diamantino, aos olhos dela e do mundo, era irrepreensível, no tratamento, nas ações e no convívio, quer conjugal, quer com quem se relacionavam. Trabalhava "como um negro", como toda a gente se não cansava de afirmar, não só no colégio, onde exercia o cargo de vigilante competente, ativo e atento, mas também nos campos e bouças que Angelina herdara, aquando do passamento da estremecida mulher que lhe deu o ser...

Muito trabalhador, sim, ia realizando bastante dinheiro, ora do trabalho (razoavelmente remunerado), ora dos produtos agrícolas que também vendia, mas andava sempre com uma das mãos atrás e a outra à frente...

Levava uma vida de casa para o trabalho e deste para casa; não conhecia o lazer, nem o descanso; não se metia em festas ou patuscadas; e era poupadíssimo, mas... o dinheiro escasseava sempre!

Angelina procedia do mesmo modo, procurando não faltar com o essencial aos filhos e ao marido, mas não percebia bem a razão de tal escassez de recursos...

Neste entremeio, foram vindo ao mundo seis rapazes, todos de boa figura e perfeitinhos (louvado seja Deus!), a quem foi ministrada uma educação cristã esmerada, muitos mimos e desvelos...

E meia dúzia de meninos!... É que, tanto Angelina como Diamantino, ansiavam pela vinda de uma menina... Porém, um a um, chegaram os seis rapazes... Os dois mantinham bem viva a esperança do nascimento de uma filha e investiam muita fé na concretização desse desejo: Diamantino, todavia, desde a primeira gravidez da esposa, não deixava de lançar achas para a fogueira, sempre a falar numa rapariga, e que fosse linda e meiga como a mãe e como uma menina que ele conhecia... Ai quanto adoraria!, ai se Deus lhe desse essa esmola!

Que também gostava muito dos meninos, mas aquela obsessão pelo nascimento de uma filha não o largava mesmo...

E, na conceção seguinte, quando, olhando a barriga de Angelina e dizendo perceber de gravidezes (sobretudo habilidosas, com diversas provas dadas), alguém vaticinava mais um varão, Diamantino, por momentos, ou até mesmo por dias, mostrava um comportamento diferente e ficava cismático...

"Não fiques nem andes triste, meu amado!" - dizia-lhe, sorrindo docemente, a santa esposa. - "Dá tempo ao tempo, porque ainda somos novos e, quem sabe, na próxima fornada, a Senhora do Sameiro pode fazer-nos mais um milagre! Mas os nossos pequenos são tão bonitos e mansos, que não temos o direito de exigir outro qualquer prémio..." - e continuava a sorrir-lhe, afavelmente.

"Isso é verdade, Angelina, eu sei que a razão está toda do teu lado e sinto uma alegria e contentamento sem limites pelos nossos pequerruchos. Mas olha que uma menina vinha mesmo a propósito e enchia-me as medidas..."

"Ó meu querido Diamantino, é bem certo que a gente, quanto mais tem, mais quer: tudo o que Deus dá é bom e nascendo sãos e escorreitos, o que mais poderemos pedir e ambicionar? E, para além disso, uma rapariga exige outros gastos, principalmente por causa do vestir... São mais vaidosas, não querem andar a parecer mal..."

"Talvez, talvez assim seja, minha boa Angelina, mas tudo se remedeia. E, sabes... isto é cá uma ideia já velhota e que há muito me persegue.

Qualquer dia, se Deus permitir, passa... O que eu sou é um casmurro, que nem ganha emenda, nem escuta, nem põe em prática os teus conselhos e os raciocínios de quem sabe..."

"E depois, meu bem, acresce ainda que o nosso dinheiro, sem eu entender porquê, já que ambos tanto nos sacrificamos, não dá para meia missa..."

Diamantino estremeceu e não abriu mais a boca para abordar a sempre badalada obsessão, ou seja, o consolo de ter uma filha...

E foi assim que comemoraram as calmas, floridas e ridentes vinte primaveras de casados...

(...) Mas o Diamantino, afinal, tinha uma filha, e que filha!, linda como um cravo, meiga como um serafim, que se formou em medicina e concluíra, há pouco, brilhantemente, a especialização em oftalmologia...

Fora o caso que, no colégio onde trabalhava, conheceu a filha do diretor do estabelecimento, uma jovem de dezassete anos, quatro mais nova do que ele. Foi um amor à primeira vista, sincero e ardente.

Distraída, ou por falta de prevenção, a adolescente engravidou. Ambos ficaram perplexos, mas, simultaneamente, também se sentiram felizes e logo decidiram que o passo seguinte e urgente era o casamento.

O pai da moça, posto ao corrente pela mãe, levou-se da breca, desatou num chinfrim medonho e, aos berros, declarou que... casarem-se... nem pensar:

a sua filha consorciada com um funcionário seu, que nem tinha onde cair morto?... Nem sonhar com isso era bom: que o patife retirasse o cavalinho da chuva... E mais: iria fazer tudo para o colocar no olho da rua (o que não conseguiu, porque outros valores mais altos se levantaram - o dono do colégio tinha o moço em boa conta e não pactuou com a argumentação do desnorteado e furibundo diretor...).

A mãe fez tudo para demover o marido, mas debalde. Que não, senhora, que não, senhora... e nada feito...

Cumprida a gestação, que decorreu sem percalços, nasceu uma adorável menina, a quem puseram o nome de Angélica.

Diamantino sofreu infinitamente, pois queria remediar o mal com o casamento. A namorada, porém, afogada num caudal de lágrimas, sempre foi recusando tal projeto, com a alegação de que, sem o consentimento do pai, jamais daria um passo que, também ela, de todo o coração, tanto almejava dar...

Angélica nasceu, sem apelo nem agravo, e a jovem progenitora, para fugir de um pai tirano que insistia em metê-la numa casa de regeneração, resolveu enclausurar-se num convento de freiras. Então, a avó, terna (como todas elas são), contrariando as ideias fixas e a teimosia do marido, e sujeitando-se ao que desse e viesse, tomou a inabalável resolução de ficar com Angélica e de criá-la...

Foi um golpe muitíssimo rude para Diamantino, que nunca mais viu a sua infeliz amada, o primeiro grande amor da sua vida, o seu anjo idolatrado...

Por isso, no rodar da ímpia existência, sentia-se comprometido e desconfortável, mas nunca foi capaz de revelar, fosse a quem fosse, o seu segredo, o seu belo e triste romance de "amor de perdição"!

E Angelina, cujo nome desde sempre lhe fez e fazia recordar Angélica, foi o seu indubitável "amor de salvação", porque achou nela o refúgio de inúmeras mágoas e o bálsamo para a sua tão cruel dor...

E a sua querida menina, que lhe não abandonava os sentidos, apenas clandestinamente, e por amável deferência da avó, de longe a longe, podia ver, repleto de ansiedade e de ternura...

Eis a razão porque o dinheiro escasseava na carteira de Diamantino e no abençoado lar: sem lhe ser solicitada ou exigida, pontualmente, todos os meses, fazia chegar uma mesada a uma filha que tinha fora de portas!...


20-21 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


O Morgadinho da Granja


Para o amigo pedralvense Fernando Marques


O verão de 1810 aproximava-se do fim.

Em Pedralva, um casal, que já contava cinco filhas, mas que adorava ter um rapaz, vira o sonho realizado, quando a esposa deu à luz um menino, bem-parecido e gordinho.

Passaram a chamar-lhe "morgado", que, mais tarde, viria a tornar-se herdeiro da casa da Granja, uma das mais ricas da freguesia, e senhor de uma imensa fortuna.

As cinco irmãs não quiseram casar e ficaram a residir no amplo casarão de cantaria, um apreciado imóvel que remontava aos meados do século dezoito, pertença de um abonado comerciante que, estabelecido na cidade do Porto, ali vinha muitas vezes, para desfrutar de merecido descanso e de uns aprazíveis momentos.

O morgado, já trintão, decidiu casar, pois na Póvoa de Lanhoso tinha encontrado "a forma para o seu pé": uma mocetona, filha, também, de abastados proprietários.

Matrimoniados, não tardou muito que Deus lhes povoasse o lar com um filho, a quem puseram o nome de Evaristo.

Após o malogro de inúmeras tentativas, não mais conceberam e ficaram com um filho único que todos tratavam, carinhosamente, e para não confundir-se com o pai, por "morgadinho".

Evaristo foi crescendo e, quase sem darem por isso, tornou-se num simpático moço que atingiu um quarteirão de primaveras da noite para o dia.

De estatura mediana, os dotes de beleza nem por isso o favoreciam muito.

Todavia, se lhe minguavam os dotes de beleza corporal, o mesmo não sucedia com os da alma: era temente a Deus, sensível, amigo de fazer bem e dono de um coração de ouro, reto e compreensivo.

Em meio de uma certa tarde primaveril, o morgadinho regressava da sua quinta de Santo Estêvão de Briteiros, montando um dos seus melhores e preferidos cavalos, subiu a Citânia e, chegando à margem esquerda do rio Febras, em vez de tomar o caminho à direita, direto a Pedralva, preferiu seguir pela Várzea e, ladeando as Barrocas e a Sobreira, apeou junto das puídas escaleiras da vetusta capelinha de S. Tomé de Lageosa, prendendo o animal ao tronco de um velho pinheiro, e trepou para o pequeno adro.

Mentalmente e recolhido, rezou um padre-nosso e uma ave-maria ao bom santo padroeiro. Benzeu-se e preparava-se para descer as escadas, quando, na bouça frontal à capelinha, teve uma visão fatal: uma rapariga, com todo o aspeto de juventude, bastante alta e muito esbelta.

A soberba aparição andava distraída na sua tarefa, mas quando ouviu o trote do cavalo e, pouco depois, viu o aparecimento de um cavalheiro bem trajado, à porta da capelinha, voltou-se para aquele sítio, a tempo de ser observada em cheio pelo cavaleiro, que a achou, desde logo, uma figura divinal, toda feita de lindeza!

Ela, delicada e inocentemente, ao ver os olhos dele em si cravados, sorriu.

O morgadinho sorriu também, e acenou-lhe.

Depois, vagarosamente, desceu as escadas, abeirou-se do quadrúpede, tomou-lhe as rédeas, colocou o pé esquerdo no estribo, levantou a perna direita e sentou-se no selim.

Contornou as escadas, pela esquerda, voltou a passar em frente à capelinha, deitou uma larga olhadela para o local onde se encontrava o objeto de admiração, que estava de costas, agachada e virada para os lados do Reguinho d'Água, esporeou o cavalo, passou Santa Cristina, as Cruzes, a Eira dos Caniços, os lugares de Bacelar e Entre Casas, desceu ao lugar da Vinha, atravessou o do Paço e entrou em terrenos pedralvenses...

Chegou a casa, desarreou o animal e pensou-o; de passagem, saudou duas das velhas tias e correu para o aposento de dormir...

De olhos fixos no teto, estendeu-se na cama, colocou as duas mãos no peito e balbuciou, emocionado:

"Vi uma mulher que admirei, ou foi um anjo que me apareceu?!... Estou apaixonado, Deus bendito!..."

Não sabia quem era, mas conjeturava que deveria ser filha dos donos da bouça.

Não queria perder tempo e era necessário proceder a investigações, voltar a ver aquela formosura e... pensar no Futuro!

Tinha parentela muito chegada e ótimos amigos na Lageosa e não lhe seria difícil recolher informações precisas. Mas que estava seriamente apaixonado, disso já não restava uma nesga de dúvida...

Sentou-se à mesa, ceou pouquíssimo e esteve ausente ao longo de toda a refeição.

Rezou-se o terço em família e as curiosas tias queriam conversa fiada. Evaristo, porém, docilmente, queixou-se de uma dorzita de cabeça e retirou-se. Entrou na alcova, escancarou a enorme janela e pôs-se a apreciar a lua, que brilhava intensamente e iluminava tudo, e teve a sensação de que o monte de Campelos desaparecera e que a capelinha de S. Tomé estava ali bem pertinho...

Já era madrugada alta quando, por fim, se acomodou nos frescos e confortáveis lençóis de antigo linho. Mas dormiu mal.

Era primavera. Estava uma manhã esplêndida, cheiinha de dourado sol, ornamentada por imensas folhas e flores e povoada por bandos de aves, a chilrear, descuidadamente, pelos campos e pelos montes...

Dirigiu-se à cavalariça, arreou um belo cavalo e voou para Lageosa, ao encontro dos primos da casa dos Vales...

Encontrou, pelo caminho, o primo Venceslau e dele soube o que desejava e o que não pretendia saber...

"Ó primo Venceslau, é capaz de me prestar um favorzinho?..." - falou Evaristo, após as efusivas saudações.

"Se eu souber, estás servido, rapaz..." - respondeu o interpelado.

"Ontem à tarde," - prosseguiu o cavaleiro - "quando vinha de Santo Estêvão, numa bouça, na frente do terreiro da capelinha de S. Tomé, vi uma rapariga alta e bonitíssima. Sabe de quem falo, primo Venceslau?..."

"De tranças loiras e compridas, magra e com uns olhos que dão a sensação que hipnotizam quem os fixa?..."

"Nem mais, nem menos..."

"Não é senão a Zefa do Albino, linda como um cravo, alegre como um clarim, joia rara de rapariga, modelo de respeito e de educação, filha do casal mais pobre cá da terra, que sobrevive com tremendas dificuldades. Andava no monte, o que já é costume, a apanhar o rebotalho, a fim de manter a lareira acesa, quer para cozinhar, quer para aquecer, principalmente no inverno, o casebre térreo, onde veio ao mundo, no outono de há dezoito anos atrás. E nunca me esqueço da idade dela, porque nasceu um dia antes do meu Artur e porque fui lá dizer à comadre Joaquina que se fosse preparando para mais um parto, pois a minha patroa tinha passado a noite e o dia a gemer com fortes dores... Vive no Regueiro, com os pais e com quatro irmãos mais novos, três rapazes e uma menina ainda de colo..."

E, de repente, olhando de soslaio para o forasteiro, atalhou:

"Estás a chorar, primo Evaristo? A narrativa, na verdade, é muito triste e mexeu-te com os interiores... Mas é a vida, pois Cristo povoou o mundo com ricos e com pobres..."

"Sim, sim..." - tartamudeou o morgadinho, desabafando, só para si - "Se a Josefa quiser passa a ter bem-estar e conforto; não precisa de sentir mais privações!..."

Doravante, sempre que lhe era possível, visitava a capelinha e lançava um saudoso olhar sobre a bouça, dois pontos de referência e de agradável memória para ele...

Chegou à fala com a jovem. Simples e sem rodeios confessou-lhe os sentimentos que o arrastavam para ela e a vontade de torná-la sua esposa. E Josefa, com um sorriso amargo nos lábios, quase ciciou:

"Seria um milagre, mas é impossível, sr. morgadinho..."

É que já tinham chegado diversos rumores aos ouvidos do pai da jovem, tendo em conta os propósitos e os castos sentimentos do morgadinho da Granja.

Albino não transigia e era preciso arrancar-lhe, a ferros que fosse, as razões das repetidas recusas, evitando as permanentes ameaças à filha.

Mas tanto martelaram, quer familiares, quer amigos, quer mesmo pessoas influentes (e até o sr. Arcebispo de Braga se envolveu no assunto) que, numa certa noite, já enojado de tanta taramelice, Albino lá evocou os seus argumentos.

Deu-se o caso que, sendo os seus ascendentes tão pobres como ele, aos sete anos foi servir para a casa do morgado da Granja...

Como era ainda muito pequeno, embora procurasse aprender e fazer as coisas bem-feitas, quase tudo lhe saía mal. O sr. morgado era compreensivo e apiedava-se dele. As irmãs, porém, por dá cá aquela palha, mimavam-no com valentes puxões de orelhas e fustigadas, usando para o efeito vergas de oliveira, e ficavam a rir-se, escarninhas, do desjeito do garoto.

Ao fim de quase um ano de torturas verbais, corporais e de chibatadas, o miúdo veio passar o Natal com a família e recusou-se a regressar a Pedralva, ao degredo, o que lhe valeu uma sova mestra do pai e mais castigos que julgou por bem aplicar-lhe: mas não tornou à farta e espetacular mansão do morgado! E, apesar das palavras mansas que lhe dirigiam, não cedia nem um palmo...

Que não queria paleio com tal gente; que a filha não tinha onde cair morta; que se o morgadinho tinha muito que o gastasse e comesse de noite e de dia; que a não queria ver maltratada como ele o fora; que as tias eram um veneno, umas beatas e umas corriqueiras incorrigíveis; que nunca lhe deram uma palavra carinhosa, nem uma sede de água; que fizeram dele gato-sapato e bombo de festa; que, certamente, aquelas velhacas atuariam do mesmo modo com a sua Zefa; que trapos e sapos, que cobras e lagartos; que era pobrezinho, mas muito sério e que sempre se esforçara por procurar trabalho e mourejar de sol a sol, por uma côdea; que leva, que deixa, que a amaldiçoava, negava a bênção e desprezava como filha, se ela fosse no engodo do morgadinho e de quantos o elogiavam e protegiam...

Em resumo: tudo em vão, nada feito...

E, neste contexto, decorreu meia dúzia de anos.

O Albino era pedreiro. De vez em quando tinha umas enxaquecas e era forçado a ficar em casa até se restabelecer.

Naquele inverno ruim e excessivamente frio e húmido, o Albino começou a não sentir-se bem de saúde, a perder peso, a tossir a todo o instante e a ter dores no corpo, mas, sobretudo, no peito.

O Evaristo, sabedor da grave situação económica e da precária saúde do Albino, tentou ajudar, com meios que tivesse ao seu alcance. Mas o magoado e birrento doente recusava o apoio, vindo de quem vinha a ajuda.

Mexeram-se os pauzinhos de outra forma e, por uma manhãzinha de meados de janeiro, um médico apareceu, acompanhado da autoridade e obrigaram o enfermo a ter uma minuciosa consulta.

Quando deixou Albino, de semblante carregadíssimo, o competente profissional, à mulher do enfermo, que já nem tinha pranto para derramar, em voz grave e baixinho, comunicou:

"Já é tarde. A tuberculose desfez-lhe os dois pulmões. A sentença é terrível e triste, mas é a realidade: está a sofrer grandemente e não tem mais do que uns dois ou três dias de vida..."

E partiu.

Como vaticinara o sábio facultativo, no dia seguinte, pela noitinha, o Albino já não pertencia ao número dos vivos!

(...) D. Zefinha, como passou a ser conhecida e tratada, ainda celebrou o septuagésimo nono aniversário, finíssima de memória, a vender saúde e muito mimada, à frente do amplo casarão de granito, já que, mal passado o tempo de nojo, ou de luto, como uma flecha, voou para Pedralva, ao encontro dos ternos beijos e abraços do adorado morgadinho da Granja!


25-27 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


O Museu do Sebastião Tinoco


Ao meu primo cónego Avelino Amorim


Estava-se no início do século vinte.

O Sebastião Tinoco já tinha ultrapassado a bonita idade dos setenta anos.

Nascido numa família humilde e numerosa, veio ao mundo na primeira metade do século ora findo.

O pai era moleiro e possuía, naquela pequena e asseada aldeia, num local de péssimo acesso, dois moinhos, cujas mós eram movidas pela água represada numa comprida e larga poça do riacho que nascia num monte, a uns quatro quilómetros dali.

Tivera cinco irmãos e uma irmã: esta casou em terra distante e, ao longo da vida, apenas se encontrou com o irmão umas duas ou três vezes; os irmãos, buscando melhores condições de vida, emigraram, três para o Brasil e dois para África. Nunca mais ouviu falar deles, embora, sempre que sabia da chegada de alguém dessas paragens, inquirisse da possibilidade de obter alguma informação. Tudo sem sucesso: não conheciam, não ouviram falar, eram terras muito grandes, de muita gente, onde cada um procurava o melhor jeito de levar a vida.

O pai morreu primeiro; a mãe ainda sobreviveu mais uma década.

Ora, quando esta partiu para o repouso final, coube-lhe a ele administrar a herança de todos: os dois moinhos e um macho já velhote e rebentadinho de todo.

Os dois moinhos reduziam-se a um piso inferior, ocupado por duas mós, aproveitada a laje rampeada, bastante comprida e estreita, pegada ao leito do riacho, enquanto a parte superior, uma espécie de primeiro andar, servia de residência, embora com escassa superfície.

Desde a juventude que o que mais sensibilizava o Sebas-tião Tinoco era a visita às inúmeras igrejas e capelas bracarenses e à velhíssima Sé Primaz.

Por isso, sempre que tinha alguma disponibilidade, palmilhava uma razoável dúzia de quilómetros e ficava longo tempo embevecido a mirar quantas imagens encontrava. Depois, chegado a casa, munia-se de umas peças de ferramenta artesanal e de uns pedacitos de madeira, sobretudo de pinho, amieiro, carvalho e salgueiro, de preferência ainda verdes, por serem mais fáceis de esculpir, e lá surgiam, materializadas, impecáveis, as imagens do que tinha visualizado.

O local onde se encontravam as duas mós era o seu museu de exposição: nas paredes colocava uns tornos de pau, ou uns nichos de madeira, ou mesmo uns arames ou uns pregos, e lá ia colocando, meticulosamente e sem repetições, as suas obras de arte.

Com o decorrer dos anos, as paredes, do chão ao telhado, ficaram cobertas com imagens de Cristos, Meninos Jesus, Nossas Senhoras, santas e santos, anjos, arcanjos, querubins, serafins, e até demónios...

E era surpreendente que, para além de não haver repetição das imagens, não obstante serem inúmeras, desde ínfimas reproduções até exemplares de tamanho natural, o Sebastião Tinoco sabia com rigor a localização das peças originais que lhe tinham servido de modelo! Tinha uma memória prodigiosa e um cunho religioso inimitáveis!...

E então, nas sestas, nas curtas e quentes noites estivais, ou, sobretudo, nas frias e intermináveis noites de inverno, sentando-se num rolito de amieiro, sorvendo o calor de um raizeiro das árvores abatidas que pudesse arrancar no monte, que ardia num cantinho do espaço onde giravam as mós e guardava a sua fabulosa e estimadíssima coletânea, iluminando-o e aquecendo-o, turbados os olhos com a farinha aspergida das monocórdicas mós, a girar, a girar, mas consolados com a miragem das adoradas figurinhas, o bondoso ancião, deliciado, embevecido, adormecia sob a áurea de tanta santidade e sonhava com todos os corpos celestes, que entoavam nobres e harmoniosos hinos, enchendo o seu modesto recanto museológico de cantos nunca ouvidos, maviosos e celestiais...


29 de janeiro de 2012


 Voltar Índice


Uma Noite de Santo António


Ao Jorge Pedrosa


O sr. Ireneu da Mata era um convencido e aleivoso proprietário, nascido e criado numa extensa aldeia do Minho, a poucos quilómetros da sede do concelho de Vila Verde. De meia-idade, tinha casado há uns vinte e tal anos, mas não havia filhos.

Era um manhoso nato. Estava sempre a gabar-se do que fazia e também daquilo que gostaria de fazer; e, quando solicitado, com desculpas que bem se entendia não existirem, sacudia a água do capote e... ala moleiro: os outros que fizessem...

Possuía um vozeirão que atroava tudo e dava a impressão que submetia a seus pés este mundo e o outro. Havia, contudo, sempre alguém que lhe pregava uma bela rasteira, o que o fazia exacerbar-se e, simultaneamente, corar com vergonha!

Afirmava que ninguém lhe entrava dentro de portas sem a sua autorização e que... ai de quem lhe bulisse na mais ínfima coisa das suas propriedades!...

Ora, era costume na aldeia (e a tradição já remontava a várias gerações atrás), na noite de santo António (devoto padroeiro concelhio), fazerem-se as "atrancadas" - a rapaziada jovem unia-se, desviava de onde podia vasos e outros recipientes com flores e com plantas, panelas, tachos, potes, arados, semeadores, raladores de uvas, carros de bois, cestos e cestas de vindima, escadas de madeira, grades, rodos, malhos, ancinhos, forquilhas, gadanhas, foices roçadouras, jugos, limpadeiras de milho, centeio e feijão, sabe-se lá o quê e o modo como se procedia - enfim, tudo o que aparecia à mão de levar. Depois, no local mais bem situado e concorrido da terra, tudo ficava em exposição e era ver, ainda pela madrugada, os lesados a procurarem as suas velharias ou preciosidades...

Bufava, zombeteiro, mestre Ireneu:

"A mim é que não pifam coisa alguma, que eu coloco-me de sentinela!..."

E de facto, na dita noite, procurava ficar de atalaia.

A trupe da juventude andava a estudar a forma de o ludibriar. Por isso, discretamente, recolhiam informações. E souberam, pela boca de uma sua criada ainda nova e fresca - constava-se e até se bichanava que o sr. Ireneu se entendia bem com ela e que aproveitava uns bons bocados, embora ele o negasse a pés juntos e com modos irritados, até ao dia em que a moça deu à luz um gordinho pimpolho e as provas apresentadas e certificadas da paternidade o obrigaram a perfilhá-lo - que o seu patrão era um dorminhoco incorrigível e que, à noite, quer quando ceava, ou botava o terço, cabeceava, apoiava-se nos cotovelos, adormecia, ressonando como um porco, e só um tiro de canhão é que o despertaria...

Na noitada de um santo António, já dentro da madrugada, os moços sondaram a eira e o coberto do sr. Ireneu, e certificaram-se de que, junto do espigueiro, ele estava de guarda ao seu património, deitado num carro de bois, gradeado com altos e bastos fueiros, com a espingarda a servir-lhe de companhia... E também constataram que, àquela hora adiantada, ele caíra num sono profundo e roncante...

A pulso, com jeito, pegaram no carro e, como quem transporta um andor, conduziram-no a uma parte pré-combinada... Eram cinco os pegadores: atrás, um em cada roda; pouco à frente, mais um de cada lado; e um com o cabeçalho ao ombro. E lá seguiram em silenciosa e solene procissão para a comprida, larga e pouco funda poça de consortes, no largo da Veiga...

E o sr. Ireneu da Mata dormiu durante a viagem e prosseguiu a regalada soneca ao longo da noite, devidamente acomodado no veículo dos seus possantes e afamados bois...

Quando acordou, já o dia ia alto, com um sol quente a bater-lhe nos olhos, assarapantado, viu que estava deitado no carro, bem agasalhado com um enorme tolde da apanha da azeitona (que tinham levado do seu coberto e transformaram em colchão, travesseiro, lençóis de baixo e de cima), sem a espingarda a servir-lhe de companheira (que a malta desarmou, retirando os cartuchos e guardou num cómodo seguro do coberto, onde se encontrava o grande lagar de pedra, para pisar as uvas), todo cercado de água, exceto o cabeçalho, que estava apoiado na berma do caminho e servia de istmo para a pequena península de madeira!


12-13 de fevereiro de 2012


 Voltar Índice


Convalescença


Ao João Lobo


Minhoto e vilaverdense de gema, o Vitorino Maltês era um solteirão, bem-parecido e anafado, orçando pelas quarenta primaveras.

Desde o nascimento que o pai lhe não deu a aceitação como aos outros sete filhos, cinco raparigas e dois rapazes, pois se murmurava que a esposa, a troco de umas belas pingas de verdinho, de que era reconhecida apreciadora, consolava, às escondidas, um grande proprietário da terra. E, claro está, sigilosamente, até se afirmava que o último rebento, o Vitorino, era filho dessa relação ilícita...

A verdade, porém, é que a criança foi bastante desprezada ao longo do seu viver, sendo posta de parte, não só pelo pai, como também pelos irmãos...

Neste contexto, embora fosse extremamente educado e gostasse de trabalhar e de ser prestável, dava a impressão de que tudo se voltava contra ele, correndo-lhe as coisas quase sempre muito mal.

Assim, a pouco e pouco, foi-se tornando num vadiote, ocioso e, por inúmeras carências, começou a pegar no que lhe não pertencia, o que efetuava somente para matar a fome...

Deu a tropa na altura certa e quis ficar na Índia portuguesa - na Ásia, lá nos confins do mundo. A princípio, prometeram-lhe que sim, mas, chegada a hora de terminar a sua comissão em serviço e regressar à terra de origem, viu o seu nome na lista de embarque do navio que o repatriaria...

Decorria a década de cinquenta, do derradeiro século, e o Vitorino habitava e dormia num velho coberto e, quando se metia em apertos, desaparecia, escondendo-se em lugares pouco comuns e inacessíveis, principalmente nos montes...

De qualquer forma, nunca fez mal a ninguém, nem praticou furtos ou ações de grande monta.

Devido à vida que levava é que o alcunharam de "Mal-tês" - pejorativo cognome que o Vitorino, sinceramente, detestava escutar...

Fora o caso que, por um fim de outono, o Maltês andava, havia mais de uma semana, desaparecido.

Toda a gente, mas sobretudo alguns amigos e familiares, deixaram de lhe pôr a vista em cima.

"O que teria sucedido ao Maltês?" - interrogava-se a comunidade.

O Luisinho Salgueiro era um rico proprietário, excelente pessoa e aficionado caçador. Ora, num certo dia do fim de novembro, ainda de manhã, muito cedinho, percorrendo a margem direita do rio Homem, num extenso campo de uma quinta, de súbito, um seu galgo deitou a correr e enfiou-se num antiquíssimo moinho, em estado de degradação bastante visível. E nunca mais saía, pelo que levou o dono a ir procurá-lo lá dentro.

Mal entrou, sentiu um cheiro intenso a podridão e deparou com um exército de ratos e ratazanas, movimentando-se de um lado para o outro. Chamou pelo canino, que veio e latia, latia, com os olhos muito abertos e o focinho voltado para um canto do moinho, querendo caminhar, de novo, para lá. O caçador, primeiro, seguiu-o com o olhar; depois, caminhou para o local e ficou abismado: o Vitorino Maltês estava deitado numas tábuas húmidas e a desfazerem-se, de costas, hirto, muito pálido, olhos cerrados e quase nu. Os roedores faziam do corpo dele uma ponte, vagueando em todas as direções. Chamou-o pelo nome, vezes sem conta, e ele não deu por nada.

Tocou-lhe, levemente. Sacudiu-o. Silêncio absoluto.

Colocou-lhe a mão no peito e, embora vagarosamente, o coração batia.

"Vitorino, Vitorino, ó Maltês!" - insistia.

E nadinha.

"Valha-me Deus, valha-me Deus: como hei de acudir a este pobre de Cristo, a este desgraçado??!!..." - e não desistia de chamá-lo, de lhe tocar, de abaná-lo. E, nada!!...

Pôs-se a jeito e tentou levantar-lhe a cabeça e o tronco, que mais semelhava um molho de guiços, tal era a magreza.

"Vitorino, ó Vitorino, tu ouves-me ou não??!!..." - prosseguiu aos berros, naquele sítio ermo, longe de casas e sem gente por perto que pudesse socorrê-lo, na vontade férrea e cristã que alentava de salvar aquele desprotegido da sorte.

Muito tenuemente, afigurou-se-lhe que escutou como que um gemido.

"Estás vivo, Vitorino?! Ouves-me ou não?!..." - repetia, repetia, sem esmorecer, o sensível caçador.

Graças a Deus, o pobre de Cristo começou a arfar e a choramingar, baixinho, e a soluçar:

"Estou vivo..., mas não tenho... forças..., Luisinho..."

"Bendito e louvado seja o Senhor!! Vais viver, rapaz, vais viver, se Deus quiser!!..." - desabafou o bom samaritano.

(...) Daí por umas duas horas, na cama do quarto de hóspedes da moradia do Luisinho Salgueiro, o Vitorino Maltês iniciava uma longa convalescença!


26-27 de fevereiro de 2012


 Voltar Índice


Em Recolhimento


A D. Pio Alves


Havia uns trinta anos que o Adolfo Champra, moço de vinte e duas primaveras, filho da boa Elisa e do Zacarias (excelentes proprietários e pessoas), contrariando a vontade dos progenitores e da única irmã, resolveu meter-se numa aventura, embarcando num paquete, que o levou para a Austrália, lá no fim do mundo, como ele costumava dizer.

Na estação de caminhos de ferro da cidade de Braga, apanhou um comboio para Lisboa e, em junho de 1930, zarpava do Tejo.

Foi um felizardo, já que, desembarcando na capital australiana, de imediato lhe ofereceram trabalho. Volvido curto espaço de tempo, casou-se com uma vistosa e simpática rapariga, natural do país onde se radicou, que lhe deu dois casais de filhos, e foi imensamente bafejado pela sorte, pelo amor e ternura da esposa e dos descendentes.

Amealhou ótimos recursos, planeou visitar a família por inúmeras ocasiões, mas foi sempre adiando tal propósito. E, neste entremeio, lá se consumiram trinta anos...

O amor e saudades da bondosa mãe nunca o abandonaram. Nas horas mais difíceis do viver, recolhido, recordava-a e rogava-lhe que intercedesse por ele junto de Deus e de Nossa Senhora. Que, mesmo de longe, lhe desse a sua bênção... E, por convicção, ou realmente, depois dessas preces íntimas e fervorosas, as coisas corriam-lhe melhor, ou até, diga-se em abono da verdade, corriam-lhe bem.

Quem espera sempre alcança e, um dia, Adolfo pôde concretizar a velha aspiração...

Quando chegou ao seu nostálgico torrão natal, a primeiríssima atitude que tomou foi dirigir-se ao antigo cemitério e procurar a campa da mãe, na expetativa de achar algum indício que lha indicasse. O portão do cemitério estava apenas encostado. Empur-rou-o e, deveras entristecido, entrou naquele santo lugar que, apesar do magnífico dia de fins de abril, lhe pareceu frigidíssimo e lúgubre...

Percorreu todos os talhões e, onde não existiam lápides, somente descortinava hastes de ferro com números na ponta, que representavam nomes de defuntos. Buscou com mais minúcia e perseverança, mas viu sempre gorados os seus intentos.

Por todo o lado habitavam enormes tufos de ervas, plantas e flores, vicejantes como os enfeites primaveris...

Atingido o derradeiro talhão, pacientemente, recomeçou a digressão. E o mais ínfimo testemunho da presença da mãe não vislumbrou...

(...) Já se retirava, silencioso, desolado e comovido, quando bateu com os olhos no idoso e alquebrado coveiro, o Armando Geada, de enxada ao ombro, que se dirigia para o Campo Santo...

"Ó se Armando!, como está acabado!" - pronunciou, dirigindo-se-lhe e abraçando-o, efusivamente.

"Mas quem é vossemecê, que me não lembro de o ter enxergado alguma vez?" - retrucou, admiradíssimo, o feitor do Campo Santo.

"Sou o Adolfo Champra, o filho da Elisa!" - e duas grossas lágrimas banhavam-lhe as faces, ainda empalidecidas pelo alargado espaço de tempo que passou no cemitério.

"Homessa!, o Adolfo Champra, o filho da Elisa?..., faz anos que constou que ele já não pertencia a este mundo e mesmo a boa Elisa, até ao dia em que Deus lhe deu o eterno descanso, julgava que já não tinha o filho!" - retorquiu o ancião de uma assentada e com os tendões do pescoço dilatados e a baloiçarem-se.

"Mas tinha, se Armando, e sou eu, em carne e osso..."

"Pois muito me admiro e folgo que assim seja." - redarguiu, habituando-se à ideia de que, na verdade, o Adolfo da Elisa ainda fazia parte do número dos vivos e que o tinha ali, frente a frente, trajando como um rico cavalheiro. E logo quis saber: "Estás aqui há muito, Adolfo?"

"Sim, já faz bastante tempo. Cheguei à terra pela manhã e o primeiro lugar que desejei visitar, como era meu dever, morto de saudades, foi este cemitério e procurar a campa onde descansa a minha terna e santa mãe."

"Mas não encontraste a campa dela, pois não?" - inquiriu.

"Não, se Armando, bem rebusquei todos os sítios, mas não fui capaz de encontrar a mais leve referência..."

"Anda comigo, que eu indico onde repousa a santa da Elisa, - que a tua mãe toda a vida foi uma santa e morreu como tal... A tua irmã bem lhe quer mandar fazer um jazigo, ou colocar uma lápide, mas o teu cunhado é um sovina e não abre os cordões à bolsa para nada. De qualquer forma, conforme pôde e sem o homem saber, a tua irmã comprou a campa e pensa colocar uma pedra e uma lápide..."

"Há de fazer-se um jazigo digno da pessoa que mora naqueles sete palmos de terra... E qual é, afinal, se Armando, a campa da minha mãe?" - quis saber, agora já moído pelo desejo e ternura, o recém-chegado viandeiro.

"É no talhão da direita, logo à entrada, e a cova, que fui eu quem a abriu, tem o n.º 7, onde eu já tinha enterrado: há trinta anos, o Carlos Lourenço; há vinte, o Tone Pedreira; há treze, a Beatriz Boavida; e, há sete, pelo Natal, se a memória não me atraiçoa, a Elisa... E agora, pertencendo-vos a campa, veremos quem será o próximo inquilino..."

O se Armando Geada, habituado como estava àquelas romagens de saudade, deixou que o Adolfo Champra se encaminhasse, sozinho, para o talhão da direita, à entrada, procurasse a haste de ferro com o n.º 7, pranteasse e vertesse, nos tufos verdejantes, o doloroso e franco sentimento filial, em profundo recolhimento...


29 de fevereiro de 2012


 Voltar Índice


Longa Separação


(...) E, num certo domingo quentinho de junho, na grandiosa, animada e concorrida festa do padroeiro santo António, na terra natal, encontraram-se, casualmente, ou por intervenção divina, dois homens com idades que já ultrapassavam os setenta anos; trocaram extensas, arrebatadas e minuciosas impressões, acabando por se reconhecerem...

Tratou-se de um momento único nas suas vidas de intensa e amarga peregrinação pelo planeta...

E, por isso, fortemente abraçados, formularam uma mútua jura: doravante, apenas a ímpia morte os poderia separar...

No princípio do último quartel do século dezanove, aquele casal vilaverdense tinha dez filhos e vivia com sérias dificuldades: o marido era jornaleiro e a esposa, coitada, não podia sair de casa, dado que as quatro crianças mais novas orçavam entre uns meses e os cinco anos de idade.

Num certo triste dia, o jornaleiro, ainda quarentão e sob o efeito de uns vapores de álcool, numa das tascas locais, encontrou-se com um cavalheiro, oriundo de uma aldeia vizinha, há uma década emigrado no México e que foi enriquecendo sem ninguém saber por que métodos! Conversa puxa conversa, tigela vazia, tigela cheia, o forasteiro convenceu o pai da dezena de rebentos a deixar ir consigo os dois filhos gémeos, o Alfredo e o Eurico, que contavam, então, catorze primaveras...

Foi para casa o jornaleiro, já a noite ia bem avançada, e com subtis e detalhados argumentos logrou colocar a esposa da sua banda. De maneira que os adolescentes Alfredo e Eurico, lavados em abundantes e sentidas lágrimas, lá partiram para o incerto e inesperado destino...

Com efeito, o paquete em que embarcaram, na doca do Tejo, em Lisboa, seguia a rota das Américas...

Após muitos enjoativos dias de navegação, fizeram uma escala no Rio de Janeiro e Eurico já não regressou a bordo...

Primeiro, com palavras doces, o meliante tentou convencer Alfredo de que o irmão quis ficar no Brasil, porque lhe foi apresentada uma proposta interessante de trabalho. Mas, perante o desconsolo e descrédito de Alfredo, colérico, azedou o discurso, terminando por afirmar que Eurico até lhe suplicou que não queria despedir-se do irmão e que estava persuadido de que a sua sorte e o seu futuro passavam por terras que Pedro Álvares Cabral havia descoberto...

E, desta forma, emigrante e Alfredo, recomeçaram a demorada viagem. Quando aportaram na cidade do México, a capital, o cabecilha embrenhou-se nos becos mais impróprios para serem habitados e terem visitas; à noitinha, enfiaram-se num restaurante rasca e sentaram-se para jantar, numa mesa onde já se encontravam dois cavalheiros, pelos vistos muito familiares do maroto, que garantiu ao jovem Alfredo, assim como ao irmão, excelentes empregos nas suas supostas e singrantes firmas...

Já numa hora bastante tardia da noite, o intrujão simulou a necessidade de ir aos banheiros e... o desalentado Alfredo nunca mais lhe pôs a vista em cima!

Os dois irmãos, gémeos pelo nascimento, afinal, tiveram a mesma sorte e lá foram calcorrear um dificílimo calvário da vida!

Em quase tudo, as duas vivências também foram gémeas e madrastas: não casaram, não amaram (porque, se calhar, nem tempo tiveram) e não deram azo a serem amados; a incerteza dos trabalhos e as péssimas contrapartidas que os bafejaram; as permanentes explorações de que foram vítimas; as dificuldades que sempre experimentaram; a fortuna que nunca obtiveram; os locais que palmilharam; alguns momentos que lhes couberam de fome e desespero; a razoável reforma que, aos setenta anos, com justeza, ambos puderam usufruir; a esperança de melhores dias que jamais os abandonou; as ininterruptas orações e preces que, a cada instante, afloravam aos cérebros; o desejo férreo de, fosse como e quando fosse, poderem reencontrar-se e rever a aldeia distante onde, embora pobres, tiveram uma infância feliz...

Neste palco das duas existências, com o tempo a correr, devagarinho, decorreram umas cinco dúzias de anos.

Alfredo e Eurico, sem conhecerem o paradeiro um do outro, comungavam do mesmo pensamento, da mesma amargura e do mesmo infeliz desfecho: nunca mais se encontrariam, partindo deste mundo com o permanente anseio de um reencontro a fervilhar-lhes nas mentes...


2 de março de 2012


 Voltar Índice


Aparências


Ao pe. António Rodrigues


Toda a gente de Arco de Baúlhe, esse asseado e panorâmico rincão minhoto, cria e afirmava, convictamente (excetuando uma meia dúzia de pessoas), que o sr. Aristides Miranda, já a rondar os sessenta anos de idade, era um santo homem, bem-apessoado e incapaz de cometer uma infração!

O dr. Emídio Sanches, médico conceituado, que já se aposentara e que ainda manejava o lódão como um verdadeiro artista, era amigo do sr. Aristides Miranda e quase todos os dias se encontravam para porem o paleio em dia e tomarem a saborosa bica, ou um copo do afamado verdinho da zona de Basto.

E o sr. Aristides Miranda também era, conforme voz corrente e testemunhada, grande amigo do dr. Emídio...

No que dizia respeito à impecabilidade e ao pretenso recato do sr. Aristides é que o médico não ia na onda, não comungando da opinião geral, e lá lhe assistiam seguras razões...

Os dois confraternizavam muitas vezes, com efeito, mas a pulga não saltava da orelha do clínico, porque, discretamente e mais do que uma vez, já tinha patrulhado e investigado certas andanças e visitas do sr. Aristides! Não deixava, porém, escapar uma palavra que fosse sobre o assunto, de que começou por ouvir alguns murmúrios, tornados certezas após o que testemunhara...

O estimado e competente funcionário público era amigo de fazer jeitos e de resolver simples e complicados problemas. Eram-lhe apresentadas inúmeras e contínuas solicitações e ele resolvia-as quase na totalidade. Por isso, quem o procurava para pedir ajuda contava com uma saída airosa...

Perante a sociedade, o sr. Aristides Miranda era impecável, porque andava metido na sua capa de ótimo cidadão e de amigo de fazer o bem, apresentando um comportamento irrepreensível...

"Sepulcro de podridão, bem caiado por fora, aquele maroto!" - costumava ruminar, de si para si, o estimado e inteligente facultativo... Fique, então, bem claro que o dr. Emídio sabia mais do que o sr. Aristides imaginava...

Sabia, por exemplo, que o seu preclaro amigo, às vezes, gostava de molhar a pena em tinteiro alheio, porque não faltavam mulheres que se lhe ofereciam de bandeja (e, como diz o outro, "um homem não é de pau") e ele, embora bem servido em casa, onde parecia haver mútuo e salutar respeito conjugal, fazia jus ao dito de que "o pão da vizinha é sempre melhor do que o cozido em casa", e, para não jurar falso, apreciava imenso fazer provas...

Constava até, na boca sigilosa da tal meia dúzia de privilegiados do disse-disse, que duas ou três mulheres bem casadas lhe criaram os frutos das relações ilícitas e clandestinas, sem pedirem a sua paternidade! (Sortes que ainda vão bafejando alguns eleitos...)

A verdade seja dita: o dr. Emídio Sanches não queria saber da vida privada do seu amigo, mas tinha provas fidedignas de que o funcionário se entendia às mil maravilhas com uma sua neta, ainda moça de vinte e poucas primaveras, e que costumavam encontrar-se numa casa do sr. Aristides, devoluta de um caseiro, na periferia da terra.

Por isso é que trazia a lição estudada e urdia uma forma de mostrar ao prevaricador que devia arrepiar caminho e não mexer na propriedade de outrem...

(...) Uma bela noite, sabedor de que o melro estava no ninho, o dr. Emídio encapuzou-se, vestiu um comprido capote, escondendo, debaixo dele, um grosso lódão de marmeleiro e dirigiu-se para a casa devoluta do amigo Aristides. Tratava-se de um rés-do-chão, com uma janela do lado direito, pegadinha à porta de entrada.

Segurando o lódão na mão direita, bateu à porta, com o punho da mão esquerda e... nada. Com o próprio pau de marmeleiro, estropeou. Abriram-se, então, as portadas da referida janela e surgiu a figura do adulador, que se debruçou no peitoril, perguntando quem era e o que desejava...

A resposta, sem perda de tempo, foi regalar o inquilino com um chuveiro de rijas lostras, espalhadas por onde lhe pôde chegar...

O médico, ministrado o medicamento mais aconselhável à circunstância, satisfeito, abandonou discretamente o local e dirigiu-se à farmácia, ali próxima. Entrou e pôs-se na treta com o farmacêutico. Mas estava à coca de qualquer coisa... e, a páginas tantas, lá apareceu o sr. Aristides Miranda, empenado, cabisbaixo, ferido e a sangrar...

Mal assomou à porta foi logo interpelado pelo clínico amigo:

"O que te aconteceu, criatura de Deus, que estás num Cristo?!" - falou, mostrando enorme pesar e simulando que já ia a sair do estabelecimento. "Distraí-me lá em casa e caí pelas escadas abaixo, contando-as todas, aos trambolhões!" - retorquiu, com dores e indisfarçavelmente abalado, o intocável sr. Aristides.

"É preciso ter cuidado, homem, é preciso ter muito cuidado: onde quer, o Demónio arma as ciladas! Boa-noite e, se precisares de alguma coisa, bem sabes onde o amigo mora!"


3 - 4 de março de 2012


 Voltar Índice


Obsessão



Acácio e Clara, com a idade de trinta e cinco anos cada, formavam um casal feliz e eram progenitores de um casalinho de crianças, com nove primaveras a menina, e com onze, o menino. Ambos tinham ingressado, bastante cedo, no mundo laboral, ele como técnico de contas e ela como professora.

A firma onde Acácio trabalhava passou por um complicado processo de insolvência e encerrou as portas, deixando-o desempregado. A esposa, em dois anos consecutivos, não arranjou colocação em qualquer escola e nem lhe assistiu o direito ao subsídio de desemprego.

De modo que havia uns oito meses que não lhes entrava em casa um cêntimo!

Clara concorria a todas as vagas abertas, enviava currículos para tudo quanto era sítio e respondia a todos os anúncios, mas em vão.

Acácio teve direito ao subsídio de desemprego e usufruiu dele o tempo estipulado pela lei. Mas não deixou, entretanto, de procurar trabalho, batendo a inumeráveis portas, sem olhar ao tipo de tarefas a cumprir. O que pretendia mesmo era ter uma ocupação remunerada. Diariamente, pois, calcorreava quilómetros e quilómetros a pé, porque os dois automóveis que possuíam tinham sido vendidos, para que, ao menos às crianças, não faltasse o mínimo dos mínimos a que estavam acostumados...

No bom tempo tinham amealhado uns milhares de euros, mas também já estava esgotada tal poupança...

Terrível situação!...

Como sair daquela embaraçosa penúria? É que Acácio não vislumbrava um ténue foco de luz ao fundo do extenso túnel. Sentia-se esgotado, sem moral e sem vontade de viver, porque lhe morrera a esperança e começava, também, a sentir-se debilitado, física e mentalmente...

Perante tão negro cenário, o lutador e agora vencido Acácio só via mesmo uma solução, aquela que há tempos trazia bem vincada no pensamento. Não valia a pena adiar mais: decidiria tudo, sem delongas, não olhando aos meios para atingir os fins!...

Saiu a porta da rua, acendeu o décimo cigarro da manhã e viu o fumo a voar, em espiral, tocado por uma leve brisa. Estendeu um prolongado e melancólico olhar pela imensidão, no sentido da sua terra natal e, depois, fixou-o no pequeno jardim e quintal da residência...

Sorveu mais umas quantas golfadas de fumo, que foi libertando, lentamente...

Entrou, então, resoluto, em casa, com aquela obsessão que o causticava e que o não deprimia...

Atravessou a cozinha, subiu as escadas de madeira, que conduziam aos forrinhos, enfiou-se num reduzido anexo, localizou uma trave do telhado e, no meio de dois caibros, introduzindo a mão direita nas ripas, retirou um saco de plástico. Desatou-lhe as asas, subtraiu um velho coldre, desapertou a mola e sacou o antigo revólver, herança de um avô paterno, que mantinha bem escondido, pois apenas a esposa lhe conhecia o paradeiro, e por causa do casalinho de filhos, é claro...

Destravou a arma e empunhou-a, na mão direita. Encostou o cano a uma das têmporas e, friamente, com o dedo indicador, premiu o gatilho...

O cão saltou atrás, a agulha percutiu, secamente, o orifício de acesso ao fulminante e... não houve detonação...

Lívido e atónito, com os olhos esbugalhados, injetou o tambor... Nem uma bala...

(...) A amorosa e sempre atenta esposa era um anjo e tinha adivinhado os diabólicos intentos do adorado marido...


7 de março de 2012


 Voltar Índice


Atraquem!



Ao pe. Artur V. Marques


O Manuel Lopes, conhecido por Beirigo, era um bom homem, de estatura média e bem-apessoado, que nasceu em Freiriz - Vila Verde, em 2 de junho de 1911, no lugar que lhe conferiu o apelido.

Ainda na infância, juntamente com a irmã Carminda, ficou órfão de pai e de mãe (apanhados nas malhas do surto epidémico que grassava pelo País), ficando sob a tutela de uma tia. Fruto de má administração e do oportunismo de alguns intrusos e agiotas, quase ficaram depenados dos muitos terrenos que herdaram. O Beirigo cantava bem, era tocador de concertina, de viola braguesa e de cavaquinho, muito alegre, com uma gargalhada sonora e agradável, sendo respeitador e muito respeitado. Das muitas peripécias em que se viu envolvido, uma havia que o próprio contava repetidas vezes, e com imensa piada, sobretudo ao sr. pe. Artur V. Marques, atual pároco de Espinho e de Sobreposta - Braga, sincero amigo da casa e que, nos derradeiros anos de vida do Beirigo (que nos deixou no dia 5 de novembro de 1979), pontualmente, o apanhava para irem à Feira dos Vinte, a Prado e, claro está, para reouvir a narrativa e juntar as suas gargalhadas às do ator principal do narrado.

Fora o caso que, no seu tempo de mocidade, o Manuel Beirigo comprara uma boa bicicleta. Ora, nesse tempo (e ainda hoje), na Vila de Prado, os festejos em honra de S. Sebastião, a 20 de janeiro, registavam uma afluência digna de assinalar, com a sua afamada feira de gado e, sobretudo, dos burros... Resolvera o Beirigo montar a sua boa e nova bicicleta e ir folgar, largamente, no tradicional e festivo acontecimento. E, pelos vistos, divertiu-se à farta!

Quando à tardinha regressava a Freiriz, no seu transporte de gosto, na saída para a estrada nacional, que conduz a Ponte de Lima, bateu com os olhos num feirante, montado no seu belo cavalo, selado a rigor, e que trazia atrelados alguns burros, que negociara na feira. Perante aquele cenário, o Beirigo foi assaltado por um inesperado desejo, que logo procurou pôr em prática, rogando, educadamente:

"Ó meu senhor, deixe-me montar um bocadinho num burro!"

Sem hesitações, e até dava a impressão que satisfeito, o interpelado retorquiu, sorridente:

"Ó moço, escolhe o que quiseres e consola-te, mas vai devagar..."

O Beirigo entregou a bicicleta a um companheiro de confiança, para que lha fosse levando a caminho de casa, e escolheu o que lhe semelhava ser o mais garboso dos asinos, o mais bonito e o mais fácil de montar. Trepou para o lombo do animal, desprovido de arreios e de rédeas, amarrou-se às crinas e deu a ordem de partida. O burro iniciou a marcha, troteando com lentidão. O negociante deixou-o ir à-vontade e foi-o seguindo.

O Beirigo principiou a incitar a alimária, para andar mais depressa, excitado, aos berros...

Na reta de Febros, a certa altura, a besta, sem freio, sem rédeas, sem albarda, sem estribos, desatou a acelerar, a acelerar, numa correria vertiginosa e, quanto mais o Beirigo, aflito, suplicava por socorro, berrando "atraquem!, atraquem!", se amarrava desesperadamente às crinas e apertava afincadamente as pernas no lombo do desvairado animal, para não ser cuspido, muito mais o quadrúpede acelerava...

Apanhado nesta emaranhada teia, resultante do bicho ter estranhado o montador e a sua falta de experiência, o cavaleiro ia atrapalhadíssimo, via a sua vida a andar para trás, pelo que gritava, cada vez mais, a plenos pulmões:

"Atraquem!..., atraquem!!..., atraquem!!!..., atraquem!!!..."

E ninguém atracava, porque não estava prevista aquela cena e porque o desalmado burro galopava como um raio.

O feirante, entretanto, quando chegou ao local onde tinha que mudar de direção, para tomar o destino da sua residência, estendendo o olhar pela estrada fora, e não enxergando nem a azémola, nem o cliente gratuito, esporeou o possante cavalo, ultrapassou o burro espantadiço e atravessou-se-lhe na frente, obrigando-o a estacar. Mostrando um ar de sério e de gozão, o dono da alimária dirigiu-se ao Beirigo (que, ainda mal refeito do tremendo susto, a tremelicar e ligeirinho, foi abandonando o transporte - que ele julgava ser uma realização pessoal e um inédito momento de lazer), e acusou-o, sem mais:

"Ó moço, então eu empresto-te o burro e tu ias-me a fugir com ele?!..."

"Ó meu senhor, eu a fugir-lhe com o burro?..., homessa! O burro é que ia a fugir comigo!!"


2 de abril de 2012


 Voltar Índice


Coisas da Natureza



No dealbar do segundo quartel do século passado, a Liberata do Souto festejava vinte risonhas primaveras. Era uma rapariga bonita, fresca e sempre muito asseada e, como filha única e rica, não lhe faltavam os mimos dos pais, dos familiares, dos vizinhos e dos amigos.

Os progenitores possuíam muitas propriedades e trabalhinho era coisa que abundava naquele enorme casarão de lavoura, todo em cantaria, cuja construção remontava a umas duas centúrias atrás.

No Oural, a uns três quilómetros de casa, já no começo de uma das aldeias limítrofes e no fundo de um produtivo vale, passava um riacho, com uma meia dúzia de moinhos implantados na margem esquerda, pertença de vários consortes, sendo a família do Souto dona de um, onde moía o milho e o centeio, provendo-se de farinha para os porcos, para o gado e para amassar, visando o fabrico da broa, que era cozida no grande forno, aquecido a lenha, ou com tojo, situado num dos cantos da espaçosa cozinha.

Quando a moagem era de monta, o carro de bois era aparelhado, acarretando os sacos de farinha para casa. Quando, porém, apenas havia uma ou duas arrobas, o transporte era feito à cabeça, sobretudo da mãe ou de Liberata, que palmilhavam a longa distância, por carreiros estreitinhos e de piso irregular, quase sempre a subir, a caminho do povoado.

Numa soalheira e bela manhã de fins de maio, Liberata, aí pelas sete horas, rilhou uma côdea de broa da fornada de há uma semana, consolou-se com uma boa malga de papas de farinha milha, aproveitado o resto do caldo da ceia da noite anterior (uma excelente iguaria, confecionada num enorme pote de ferro, de três pernas, com troços de couve-galega, feijão, um abundante fio de azeite, batata esmagada, uns ossos de suã e uma boa talhada de toucinho entremeado, de porco) e partiu para o Oural, a fim de moer rasa e meia de milho e carregar a farinha para casa.

Chegada, com a grossa e comprida chave abriu a velha e reforçada porta do moinho, despejou o grão no reservatório de madeira, suspenso por cima da mó, destravou o rodízio, guiou a água do riacho para a caleira e a pesada roda de pedra principiou a girar, aspergindo a loira farinha para o dispositivo apropriado, disposto na frente.

Quando terminou a moagem, tapou a água, apanhou o fino e macio pó, atestou o saco, uniu-lhe as pontas, atando-as com fitas de atadeira, arrastou-o para fora da porta, que fechou, cautelosamente, colocou-o sobre uma parede alta, pegou nele à cabeça e, ala moleiro que se faz tarde: iniciou a viagem de retorno.

Não havia uma única habitação em praticamente todo o itinerário e era raríssimo encontrar-se vivalma.

A tarde estava no princípio e o sol escaldava. Sob o peso da taleiga, devido aos carreiros sempre a subir, tendo em conta, sobretudo, o caldo da ceia da noite anterior, as papas daquela manhãzinha e os nacos de broa, a jovem sentia os intestinos revoltosos, com rajadas de ar a digladiarem-se e a rogarem compaixão para serem libertadas com urgência. Era, de facto, uma flatulência tempestuosa... Ainda bem que não havia habitações nem gente no percurso, porque Liberata sentia-se demasiado empertigada e com necessidade de expulsar residentes tão revolucionários e incómodos!

Começou por largar uns bufitos silenciosos e prolongados que, a pouco e pouco, foram subindo de tom; depois, num doseado crescendo, foram ganhando voz; passaram a ouvir-se farpas atrás de farpas; de vez em quando, mais apressado, estoirava um traque; mais adiante, já estralejava um foguete de quatro, cinco ou meia dúzia de explosões; dado o contínuo e incontido rebuliço do inchado ventre, da pressão gasométrica, para maior alívio, resultava uma girândola; as bombas, a cada instante, rebentavam e, com um puxo mais forçado, até um morteiro atroava o descampado!...

Liberata tinha desencadeado, na reconfortante solidão desta sua deslocação pedestre, um inusual, aflitivo e sonoro foguetório!

Estava a chegar à primeira casita da povoação e já desfrutava de um apreciável alívio abdominal, dando graças a Deus por não se ter cruzado com transeuntes...

Foi então que, numa parede da berma do caminho, poisou o pesado fardo, preparando-se para a derradeira etapa que a faria chegar ao bem-estar da sua casa.

Liberta do peso da carga e dos recentes "caseiros que não pagam renda", a moça, aliviada, lançou um olhar pela encosta abaixo... e não é que, a uns escassos vinte metros, bate em cheio com os olhos num rapaz bem-parecido e bem-trajado, que a envolvia com um sorriso aberto e amoroso e que, havia tempos, procurava a forma de chegar à fala com a bonita, asseada e rica lavradeira. Enrubesceu Liberata, ficou embaraçada e perguntou, delicadamente e com uma voz meiguinha:

"O senhor já vem de longe, atrás de mim?!..."

O interpelado sentiu-se feliz por ser abordado pela rapariga, que nunca lhe ligara patavina, e respondeu, entre escarninho e amável:

"Já venho desde o peidinho até ao peidó!"

Sem hesitar e depressinha, Liberata, recolocando a taleiga à cabeça, retorquiu-lhe:

"Faz favor de desculpar, pois julguei que vinha só!..."


31 de março de 2012


 Voltar Índice


Um Peso, duas medidas



O Justino era um bom rapaz e nasceu nas cercanias de Braga, pelos anos trinta do século anterior.

Frequentou a escola, foi um aluno razoável e fez, com sucesso, o exame da então 4.ª classe.

O pai, o sr. Delfim Cantoneiro (o segundo nome devido à profissão que exercia), passava os dias na limpeza e conservação da estrada asfaltada que atravessava a sua aldeia e algumas vizinhas, quer para os lados de Braga, quer para as bandas do concelho de Guimarães.

Saído da escola, Justino acompanhava o pai e pedia-lhe que o deixasse ir aprender um modo-de-vida, sendo a sua preferência tornar-se mecânico de bicicletas e de motorizadas, como um dos tios maternos e do meio-irmão. O pai, contudo, já tinha a sua opção tomada e pô-lo como aprendiz de sapateiro, na reputada oficina do se Abílio da Meca, por sinal um excelente cavalheiro, artista e trabalhador.

O filho disse que era um ofício de que não gostava, mas não teve outro remédio senão obedecer às diretrizes paternais, que nunca lhe admitiam réplicas.

O sr. Delfim tinha um enteado, porque, na mocidade, se apaixonara e desposara uma rapariga, solteira, já mãe de um rapaz, filho do padrasto, que a forçou a ter relações sexuais com ele.

A verdade é que cobria o enteado com mil atenções, em detrimento de Justino. Mesmo depois, as duas filhas que nasceram foram mais felizes no afeto do pai, mas, ainda assim, o enteado levava-lhes a palma!

Pelos dezassete anos, o Justino prendeu-se de amores pela Luísa Regaleira, com a mesma idade, que era filha de uma boa mulher, também solteira, e que já tinha gerado quatro filhos, um de cada pai, segundo se murmurava.

Mal chegou a notícia aos ouvidos do sr. Delfim, pregou um longo sermão ao filho, argumentando coisas sem pés nem cabeça. O mancebo, porém, desgostoso, e sujeitando-se aos castigos do pai, afirmou que amava muito a Luísa Regaleira e que não a deixava fosse pelo que fosse...

Entretanto, Justino foi à inspeção e ficou apurado para a vida militar.

O pai, com grandes empenhos, pois conhecia muitas pessoas influentes, tinha livrado da tropa o enteado. Aos rogos do filho, todavia, fez ouvidos de mercador e Justino, feita a recruta no quartel de Braga, foi mandado a tirar a especialidade na Figueira da Foz.

Ainda se ajoelhou aos pés do pai, sob o fluxo de abundantes lágrimas, suplicando a sua intervenção, para evitar o desterro para tão longe...

Implacável, o sr. Delfim, num tom de voz azedo, disse que não, e que não. E o recruta partiu para a Beira Litoral...

Apesar da redução das tarifas, as viagens ficavam excessivamente caras e eram morosas e o pai nunca o mimou com um chavo... A mãe, como podia, mas às escondidas do marido, que também era um tirano para ela, lá lhe ia dando uns mil réis, mas que não chegavam atrás, nem à frente...

Coitado do Justino: a sorte não queria nada com ele! Apenas a Luísa Regaleira se mantinha fiel ao amor que ambos juraram. E ele, cada dia, hora a hora, minuto a minuto, sentia a saudade da terra natal e o gume da paixão a golpeá-lo, sem dó nem piedade...

Terminou a especialidade e coube-lhe a sorte de marchar para o Forte de Elvas, na solidão do distante Alentejo...

Ainda, uma vez mais, mendigou a interferência do pai: outra vez, dele, colérico, escutou não, e não...

(...) Naquela manhã soalheira de agosto, bem cedinho, junto da casa do sr. Delfim Cantoneiro parou uma carruagem, tirada por uma parelha de alentados cavalos, e dela saltou um oficial de cavalaria, do quartel bracarense, chamando o proprietário que, quase de imediato, apareceu junto do graduado militar.

"Há novidades, sr. capitão?" - perguntou, depois das normais saudações.

"O Justino, que era um modelo de soldado, não se sabe porquê, ontem, ao escurecer, atirou-se à linha do comboio e foi brutalmente colhido por este, que ia a passar, a grande velocidade..."


5 de abril de 2012


 Voltar Índice


Abraço sem Tempo



À Felicidade e aos nossos filhos


O Nicolau Pardal, oriundo das cercanias de Braga, era um moço com dezasseis primaveras, bem-parecido e jovial, quando, à volta dos anos vinte, do século passado, decidiu ir trabalhar para a província de Lugo, na Galiza.

As coisas foram-lhe correndo de feição e, pelos vinte e dois anos, desposou Pilar, uma guapa rapariga espanhola, que, à época, festejara o décimo oitavo aniversário.

Amaram-se apaixonadamente e nasceu-lhes um menino, batizado com o nome de Juliano, que, de dia para dia, mais se parecia com Nicolau. Mimado e idolatrado por pai e mãe, Juliano atingiu os cinco anitos.

Rebentou, entretanto, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e o casal, sem conhecer as causas, começou a ser perseguido por dissidentes do regime vigente. Abandonaram tudo e resolveram fugir para Portugal. Às escondidas, lograram alcançar a margem do rio Minho, fronteira com a província minhota, mas em sítio onde não havia ponte, nem barco para efetuarem a travessia.

Foram atacados por uma brigada de combatentes e forçados a atirarem-se às águas do Minho, debaixo de um chuveiro de balas... Mas, felizmente, Pilar e Nicolau lograram atingir a margem do lado português... E, então, deram-se conta de que o menino não viera com nenhum deles, pois, mutuamente, julgavam que estava com o outro. Ficaram desesperados e loucos... Quiseram retroceder. Os perseguidores, porém, não lhes deram uma nesga de oportunidade.

Ficaram por ali uns dias. Questionaram outros fugitivos. Nada. Clandestinamente, por mais de uma vez, conseguiram ir a Espanha e procurar Juliano por onde lhes era possível. Em vão. Perderam-lhe, de todo, o rasto...

Terminou a sangrenta e fratricida guerra. Realizaram-se diligências de toda a índole. Nada. Sempre em vão...

Nicolau não resistiu à enorme paixão e saudade da perda do filho único. Pelos quarenta anos faleceu. Pilar tomou a decisão de retornar à sua pátria e ao seio familiar.

O tempo foi passando e a amargurada progenitora, a passos largos, aproximava-se dos sessenta anos e já se tinha conformado com a ideia de morrer sem encontrar Juliano...

Uma tardinha, todavia, passeava ela numa avenida movimentada da velha e amuralhada cidade de Lugo, quando, de repente, como que por encanto ou hipnotismo, os seus olhos se fixaram num bonito e simpático sinaleiro, que ali dirigia o complicado trânsito...

Mirou-o, remirou-o, comeu-o com os olhos e com a ternura, das pontas dos cabelos às solas das botas... E quanto mais o mirava, mais a invadia a certeza de que era o seu Juliano, aquele muito amado menino da sua mãe... Não precisava de mais provas: o sensível e amargurado coração materno não poderia ludibriá-la... Era ele, Jesus!, era ele mesmo... Aproximou-se, um pouco a medo, e deu boa-tarde...

Santo Deus!, Pilar estava agora em frente de um homem que aparentava uns quarenta anos e cujo timbre de voz tinha todas as parecenças com a do há muito falecido pai!

"Juliano!" - tartamudeou ela, ainda incrédula, arrebatada e com voz rouca - "És mesmo tu?!..."

"Não sei do que fala, senhora..."

"Não te chamas Juliano?..." - prosseguiu, por um lado, afoita, por outro, cada vez mais nervosa e temendo uma deceção.

"Se quer falar comigo, por favor aguente por aí mais umas duas horas, que é quando sou rendido por um camarada. Apareça se quiser." - respondeu o militar, solicitamente.

Pilar procurou um lugar no passeio, o mais perto possível e onde não o perdesse de vista, porque cada vez mais se convencia de que não havia dúvidas...

As quase duas horas levaram uma eternidade a decorrer. Logo que chegou o companheiro que o substituiria no posto de sentinela, o soldado dirigiu-se a Pilar e interrogou-a:

"Então o que há, senhora?"

Ela queria dizer tudo. As palavras saíam-lhe da boca aos molhos, apressadas, desconchavadas, mas sempre no mesmo objetivo. E repetia, repetia:

"Já sei que és Juliano. Tens pai e mãe? E..."

Ele entristeceu-se e, sem delongas e francamente, retrucou:

"Não tenho pais. Perdi-os no início da maldita Guerra Civil. Fiz todos os esforços para encontrá-los, ou alguma pessoa da família e, até hoje, nem a mais insignificante pista me foi apontada e já se me esvaíram todas as esperanças... Vi os meus pais a atravessar um rio a nado, mas não me deixaram acompanhá-los..."

"Oh, Juliano querido, eu sou a tua mãe, que te tem procurado em cada segundo do viver. E, em suave milagre, apareces-me ao fim de décadas..."

Atarantado, mas sob uma força misteriosa, com a voz embargada pela comoção e por incontidas lágrimas que lhe saltaram dos olhos, o homem ficou preso ao local... E ambos se deixaram levar completamente pelos seus sentimentos. Ela abriu e estendeu os braços e ele avançou e precipitou-se neles com intensa naturalidade, dando a impressão de nunca se terem separado. Após um longo instante, Pilar recuou e Juliano continuou a contemplá-la... Ela, então, acariciou-lhe as faces, os cabelos escuros, deliciando-se com quanto lhe era dado observar e alegrando-se por ele se ter transformado naquela imagem de um bonito homem maduro.

"Nem imaginas a felicidade que me assalta por ter-te encontrado, Juliano! Há quantos anos aguardava esta ocasião única. Quanto teria eu dado para que isto pudesse ter sucedido há trinta e tantos anos. Mas que bom ter-te reencontrado e conseguido que me escutasses... Louvado seja Deus, meu estremecido filho... Já não terei muito espaço de tempo para fazer-te companhia, mas asseguro-te que tudo hei de empenhar para recuperar o tempo perdido e, se possível, centuplicar os muitos carinhos que me habitam e que somente a ti pertencem... E nunca, nunca mais hás de sair da minha companhia. Somos a simbiose um do outro. Bendita seja a hora deste nosso inesperado encontro!..."

E voltou a abrir e a estender os braços... E de novo, sem reservas e feliz, Juliano se entranhou neles e o abraço, desta feita, prolongou-se no tempo, sem tempo...


15 de abril de 2012


 Voltar Índice


Acensão e Assunção



À Maria Teresa Lobato


Era uma vez duas meninas vizinhas, que sempre frequentaram os mesmos lugares de estudo e de ocupação dos tempos livres, com a mesma idade - dez anos -, que adoravam e praticavam as mesmas brincadeiras, jogos e diversões, ambas invejosas e cultivadoras do pecado do orgulho, uma chamada Ascensão e a outra Assunção.

Era uma vez uma alta e copada cerejeira, nascida na extrema de duas leiras, pertença, cada uma, do seu dono, um progenitor de Ascensão e o outro de Assunção.

Tendo, pois, cada proprietário a sua filha, cada uma defendia e gabava-se de que a cerejeira lhe pertencia.

Ambas sempre a conheceram muito alta e bem copada, mas, quanto a frutos... era a única deceção, porque em cada primavera se deliciavam repetidamente a olhar a lindeza de um enormíssimo andor asseado mas, por motivos que desconheciam, caída a flor, dos tão desejados frutos... nem sinais!

Os pais, quer de uma, quer da outra, de vez em quando, e sobretudo nas ocasiões em que as filhas os questionavam das razões da infertilidade do estupendo exemplar, julgando-a ambos também sua, com ar de aborrecidos, desabafavam que, qualquer dia, não haveria outro remédio senão derrubá-la, porque tinham bem presente na memória a conhecida frase:

"Árvore que não dá fruto corta-se pela raiz."

As duas meninas residiam em casas vizinhas, frequentavam a mesma escola, brincavam imenso juntas, mas cultivavam, então, um mesmo defeitozinho:

eram invejosas. Desta forma, o que uma tinha, também a outra gostava de ter e não sossegavam enquanto não satisfizessem os respetivos anseios, orgulhando-se com a exibição das novidades. E era nas alturas em que uma possuía algo de novo que mais quezilavam.

O tempo é quem manda no tempo. A Natureza prega muitas e inesperadas partidas e, nos meados de um certo abril, de repente, as duas meninas, em diferentes momentos, mirando a alta e bem copada cerejeira, estupefactas e alegres, testemunharam um espetáculo fantástico, inédito e há longo tempo aguardado: nos ramos da fruteira não se vislumbrava uma nesga de espaço onde faltasse a tão ansiada cereja! Estava carregadinha, triunfantemente apinhada do delicioso fruto!!

Passaram a partir de então as duas meninas, e mais do que uma vez ao dia, na época própria, a contemplar das suas leiras a formidável tela, onde os frutos cresciam, cresciam e, pelos fins de maio, começavam a pintar a olhos vistos...

E, finalmente, as cerejas lá amaduraram e a dita tela exibia a inevitável e maravilhosa cor encarnada! Formidável cenário aquele!!

E as duas meninas, invejosas como eram, tudo faziam para que a outra não bulisse e não apanhasse as agora madurinhas cerejas.

Era junho. Tinham terminado as aulas e começado as férias grandes. As duas meninas tinham o tempo disponível e passaram a gastá-lo numa vigia quase permanente à carregadíssima cerejeira, não admitindo que a outra tocasse nos frutos e só às vezes, às escondidas, é que conseguiam provar uma cereja, caída do bico da passarada, ou já muito mole e a apodrecer.

As duas meninas pediam e incitavam os pais para tomarem uma posição e apanharem as cerejas. Eles, porém, iam adiando, porque, lá no fundo das suas consciências, não tinham a certeza da cerejeira lhes pertencer.

Às filhas, para lhes agradar e mostrar que eram donos, iam dizendo:

"Vão-se apanhar, filha..."

E as duas meninas, invejosas e repletas de orgulho, só para ferir suscetibilidades, garantiam, mutuamente:

"O pai já me disse que se vão apanhar as cerejas!"

Ao que a outra retorquia, molestada:

"Que nem pense!..."

O tempo não se compadece do tempo. As cerejas eram muitas e estavam maduríssimas... e os pais e as duas meninas não tomavam uma decisão.

Perto do dia de S. João, numa noite, começou a soprar uma brisa, que se foi transformando em rajadas fortes de vento, formou-se uma trovoada medonha, com relâmpagos que iluminavam a densa escuridão e trovões que atroavam o infinito, desabou um chuveiro torrencial, com momentos de fortíssimo granizo. A intempérie durou umas duas ou três horas...

Quando nasceu o novo dia, apresentou-se o céu limpinho, com um sol bonito e quente, dando a impressão de que não tinha existido qualquer borrasca, não fossem os tremendos estragos que se observavam, a olho nu, nos campos de centeio, nas árvores de fruta, nos montes...

Mal se levantaram da cama, ainda cedinho e parece que combinadas no horário, as duas meninas vizinhas, a par, correram para as suas leiras, a fim de verificarem se a "sua" cerejeira tinha sido danificada... Jesus!, uma desolação!

Muitos e muitos ramos partidos. Nem um fruto suspenso... O chão era uma restolhada e estava extremado de cerejas esborrachadas, mais parecendo um lamaçal do que a extrema de duas leiras com uma altíssima e bem copada cerejeira, de dois pretensos donos, invejosos e emproados como as duas filhas de dez anos!...


3 de maio de 2012


 Voltar Índice


A Madrasta



À Marta Mimoso e ao Fernando

Ao António Capela e à Eugénia


Madrasta!

Madrasta é um substantivo feminino que, à partida, exprime maldade, rancor e falta de carinho em relação aos filhos de matrimónio com anterior marido.

Nas inumeráveis histórias que se contam, a madrasta assume sempre um papel de repressão e desprezo em relação às crianças que não procriou.

Funcionam, amiúde, o peso da vergasta, os castigos (a maior parte das vezes injustos), as agressões, os conflitos, tentando sempre a madrasta colocar o pai biológico do seu lado, de modo a aceitar como verdade tudo quanto a esposa refere sobre as crianças inocentes.

Um dos exemplos mais expressivos, no campo da ficção, é a tradicional e bem conhecida história da "Branca de Neve e os Sete Anões", que põe em evidência a inveja, o orgulho, o ódio e a falta de ternura com que a madrasta martiriza a enteada...

Com efeito, e infelizmente, pautam-se por pouquíssimos os exemplos em sentido contrário...

O Duarte Carvalheda era um moço jovial e simpático, tendo vindo ao mundo numa aldeia do Minho.

Pelos vinte anos, e porque já trabalhava e auferia um salário que lhe permitia constituir família, num começo do verão do início dos anos cinquenta, do último século, desposou uma rapariga da mesma igualha, airosa e bem-apresentada, que também trabalhava e fazia imenso pela vida.

Consorciaram-se, pois, e nasceu-lhes uma menina que, não saindo fisicamente nem ao pai nem à mãe, era bastante feiosa, mas que mesmo assim foi batizada com o nome de Regina...

O parto, todavia, não correu bem, pois arrastou uma série de complicações para a parturiente...

Quando a pequena perfazia meio mês de vida, a progenitora não resistiu aos males que lhe sobrevieram, e foi a sepultar no vetusto Campo Santo, acompanhada pelos familiares e muitos conterrâneos, que vertiam sentidas lágrimas pela sua partida tão precoce...

"Jesus!, Jesus!, Gininha, o que vai ser de nós?!" - gemia o pai e chorava com abundância, aconchegando o bebé ao peito e cobrindo-o com ardentes beijos de ternura...

A Lídia Tomentas era uma moça linda como um cravo, a aproximar-se das vinte primaveras e filha de uma boa e respeitada família. Nunca tivera um namorado a sério e deliciava-se a dar umas voltinhas ao toque dos instrumentos do Duarte e, mais ainda, apreciava imenso ouvi-lo tocar. E, também, sejamos francos, bem lá no fundo do seu coração, nutria um fraquinho pelo executante, lamentando que ele fosse comprometido...

Nunca lhe desejou mal e até sentiu o desaire da esposa e a antecipada morte... Mas agora, sendo o Duarte viúvo, podia aspirar e sonhar um pouco alto...

Duarte era um exímio tocador de realejo, concertina e cavaquinho. Aprimorava-se a tocá-los nas pisadas, nas desfolhadas e, com mais frequência, pelas tardes de domingo, junto ao fontanário das Agras, que existia no espaçoso largo, no centro da povoação.

E se os azares batem à porta de uns, entra a felicidade na mansão de outros...

Decorridos uns dois meses sobre o passamento da jovem ainda recém-casada, Lídia, sinceramente comovida e com desejos de suavizar os infortúnios de Duarte, numa certa tarde, quando o sol já se ia escondendo no horizonte, ganhou ânimo e decidiu fazer-lhe uma visita.

Chegada à limpa e airosa entrada da moradia de Duarte, um tanto ou quanto retraída e medrosa, bateu à porta, que não tardou a abrir-se, surgindo o viúvo com a pequenina ao colo.

"Está bonita e gordinha a tua filha, Duarte!" - atalhou a moça, quase a gaguejar e a enrubescer tanto quanto uma maçã camoesa no pomar.

"Tenho feito o que posso, mas o tratamento de um bebé não foi pensado para homens, Lídia." - e lançou-lhe um olhar como ela nunca lhe havia observado. Ela então corou ainda mais.

"Mas... o aspeto que a Gininha apresenta é ótimo e, claro está, só se pode dever ao esmero com que o pai a trata..."

Após este preâmbulo, com gentileza, Duarte convidou-a a entrar e foram sentar-se na asseada sala do bem tratado imóvel... Lídia fez questão de pegar na criança, mimou-a com imensas carícias e..., cabisbaixa, pronunciou, como que num gorjeio de ave:

"O que a Gininha precisa é de uma mãe..."

"Quero que a minha filha seja feliz e tenho grande receio de trazer para casa uma madrasta. Bem vês, Lídia, como procede a Rosa Carónica com os três filhos do marido, a quem jurou, quando ele enviuvou e resolveram matrimoniar-se, tratar-lhe dos filhos como se dela fossem, e, agora, é a calamidade que se conhece: porrada a toda a hora, fominha, nem uma nesga de carinho... Apenas tem olhos para a menina que lhe nasceu faz dois anos... Os rapazes bem se queixam ao pai, acusando a madrasta do uso da chibata e de negar-lhes comida suficiente; ela, sabedora, redobra os castigos e consegue sempre convencer o marido de que a razão está do seu lado e que os miúdos não passam duns intrujões... Não quero tão triste sina para a minha pequena!..."

"Embora raramente, Duarte, ainda vão acontecendo exceções à regra..."

Conversaram por longo espaço de tempo e já luziam as primeiras estrelas no céu quando a Lídia abandonou a casa do viúvo e se dirigiu, com passos alargados, para o seio familiar...

(...) Ao completar-se meio ano sobre o enterro da mãe de Regina, numa cerimónia simples e discreta, Duarte subia, pela segunda vez, os degraus do altar, unindo à sua a vida de Lídia... E não tardou um ano que Deus lhes não povoasse o lar com outra menina, retrato fiel de Lídia: linda como um serafim!

Duarte ia observando que a sua bonita e meiga esposa lhe tratava as duas filhas com os mesmos desvelos e carícias...

Neste entremeio, Regina começou a ter sintomas de doença e a evidenciar problemas graves de saúde. De imediato, Lídia levou-a a uma consulta de urgência e a miúda teve que ser internada no hospital. Lá permaneceu vários dias e não houve um só em que a madrasta deixasse de fazer-lhe uma visita e a acariciasse, com brandura e sinceridade...

Regressada a pequena ao convívio da sua residência, necessitou de um longo período de convalescença... E lá estava, a cada instante, solícita, por devoção e amor, a dedicada madrasta... E, vezes sem-fim, com a sua filhinha ao colo, não deixava de prestar todos os cuidados à enteada... E sofria, sofria muito com o estado de saúde de Regina...

(...) E Regina, graças a Deus e aos permanentes cuidados e desvelos de Lídia, saiu dos perigos de morte e restabeleceu-se, completamente... Não era bonita... Cresceu e tornou-se numa boa e afável rapariga... E até, também ela, ao constituir família em casa sua, levou na alma a santa imagem da madrasta, nova e bonita, meiga, compreensiva, amiga e defensora dos inocentes...

E, sublinhe-se e proclame-se a plenos pulmões, que, ao contrário das narrativas que se leem e se narram, jamais a rara Lídia deixou de dar apoio à enteada e olhá-la com os mesmos olhos que adulavam a filha...

Bendita Madrasta!


14 de janeiro de 2013


 Voltar Índice


Arejamento



Na sua bela casa de lavoura, implantada na terra natal, nas cercanias de Braga, o sr. Raimundo da Cachada deu o derradeiro hálito em 1950, faltava pouco mais de um ano para ser nonagenário.

Descendente de uma família com alguns bens, frequentou, por uns dois anos, o seminário de Braga, tendo-se chegado à conclusão que, a propósito de vocação, era uma perfeita nulidade, pelo que regressou à sadia vida dos campos, para mourejar de sol a sol.

Pois o nosso Raimundo tinha ido para o seminário a conselho de um tio cónego, do lado materno, que se ordenou, nos meados da década de quarenta do século dezanove. Esse, sim: tinha vocação, era inteligente e tornou-se num pegureiro de almas, pregando e fazendo o bem, tendo paroquiado diversas freguesias do Alto Minho e desempenhado alguns cargos eclesiásticos de relevo.

Quando Raimundo nasceu, a boa irmã e o cunhado fizeram questão de ser o mano padre a batizar e a apadrinhar o querido fruto de amor. E assim foi:

realizou-se o batizado e também os progenitores insistiram para que o pequeno recebesse o nome do padrinho.

Dado o muito labor do clérigo, pôde adquirir uma quintarola, com uma casa confortável e bem situada, numa das freguesias que paroquiava. Quando o afilhado quis abandonar a vida religiosa, o sacerdote chamou-o para junto de si e procurou dar-lhe uma boa educação e empenhá-lo na direção e feitoria das suas propriedades. E, quando entregou a alma ao Senhor, mais que septuagenário, legou quanto possuía a Raimundo. Este viu-se dono de muitos teres e haveres, mas, sobretudo, de muitas libras em ouro e notas de banco...

Pelas quarenta primaveras desposara a Francelina do Eido, mais nova uma dezena de anos, uma conterrânea que o fascinou e com quem fez questão de consorciar-se.

A esposa foi viver para o Alto Minho, mas o seu grande desejo, porém, era regressar à terrinha que lhe serviu de berço. Por isso, após a morte do cónego, o casal (que à época tinha um rapaz de meia dúzia de primaveras e também fora batizado e apadrinhado pelo cónego Raimundo, tendo recebido o nome do padrinho e do pai) logrou efetuar uma excelente venda da quintarola no Alto Minho. Com o capital obtido, compôs os herdeiros dos pais de Francelina, retornando, então, ao convívio de familiares e amigos, na nostálgica firma identitária...

O filho Raimundo recebeu uma educação muito aceitável, tendo frequentado, por uns cinco anos, o seminário bracarense, mas, também ele, numa justa avaliação, se deu conta de que a vocação não o habitava...

Não tardou a namoriscar uma rica lavradeira de uma aldeia vizinha (que, por sinal, não tinha grandes dotes de beleza e, às escondidas, apreciava umas boas pingas do muito bom e apetecido verdinho que se colhia na extensa quinta), casou-se com ela e procriaram uma rapariga e um rapaz.

O velho Raimundo, segundo voz corrente, como não queria depositar o dinheiro no banco, entretinha-se a colocar e a estender as imensas notas na velha eira de pedra, para arejarem, e ao assoalhá-las ia dando um gosto aos olhos! De forma que, atento, num ponto estratégico, zelava pelo seu tesouro!

O filho não mexia no espólio... Mas... "atrás de mim virá..."

De facto, o filho Raimundo não tocava nas notas do pai... Mas o neto e, mais tarde o bisneto, filho da neta, sempre que podiam, surripiavam-lhas da eira e dos esconderijos sempre mudados, e punham-nas a render na bem sortida mercearia da aldeia...

O neto, um pouco ao jeito do pai, e ainda com mais reforço, alheava-se dos trabalhos da grande casa de lavoura. Todas as tardes ia merendar, lautamente, numa das duas tabernas da terra, ou em alguma das vizinhas. Como ficou viúvo muito cedo e a esposa tinha trazido um belo dote em terras, podia vender a herança para pagar as patuscadas... O bisneto do velho Raimundo, que frequentava a escola primária, tendo no bolso uma nota (a esse tempo, às vezes, de cem, quinhentos, e mesmo de mil escudos - pelo menos umas duas vezes), entrava na mercearia e comprava guloseimas em abundância e distribuía pelos companheiros... Mais tarde, também herdeiro de um ótimo pecúlio, quando os pais faleceram, tudo trocou por patacos, até a vistosa e antiga casa, toda construída em fina cantaria...

(...) E os dois Raimundos, cada um na sua vez, deixaram este mundo... Após a morte do avô e do pai, o agora senhor da bela quintarola procurou minuciosamente as libras de ouro e as imensas notas de banco e nãos as topou! Consultou os bancos e, em seu nome, ou do pai, ou do avô, nicles!

Quis vender umas terras, para pagar as dívidas efetuadas nos comes e bebes e... não lhe foi permitido!...

O pai, que sabia muito bem a casta de filho que tinha (guloso e gastador), segurou todas as propriedades aos seus quatro netos e abriu uma razoável conta bancária para cada um...

Devido ao arejamento de dinheiro e propriedades que o filho Raimundo, sábia e acertadamente efetuou, o suposto herdeiro ficou pendente da compreensão, delicadeza e benevolência dos filhos!...


28 de janeiro de 2013


 Voltar Índice


Conta Saldada



Ao Manuel José Miranda

(...) Naquela manhã quente de fins de junho, já o sol ia bem alto, a esposa e o filho mais velho decidiram ir procurar o dono da casa, que, ao início da madrugada, tinha ido pôr a correr a água da levada, a fim de moer umas rasas de milho e de centeio. Chegados ao local, aguardava-os um espetáculo arrepiante: no fundo da levada, vazia, de bruços, teso como um virote, lá estava o Joãozinho das Veigas...

Em duas antigas e ricas moradias, postadas frente a frente, vivia o sr. Joãozinho das Veigas e o sr. Antoninho Poveiro.

O primeiro, filho único e herdeiro de uma considerável fortuna, quando o respeitável pai deixou de pertencer ao número dos vivos, passou a ocupar o lugar de Regedor. O cargo tinha sido desempenhado pelo pai ao longo de uns trinta anos e, segundo se afirmava, com muita justiça e ponderação, fama e proveito que o morgado não auferia...

O segundo tinha uma irmã mais velha, que não procriou, e o seu progenitor era oriundo dos lados da Póvoa de Varzim e havia casado para a aldeia com uma bonita e abastada lavradeira...

O Joãozinho era, mais ou menos, da mesma idade do Antoninho. Enquanto o primeiro, no campo da política, era excessivamente conservador, o segundo (e a tradição já vinha dos seus antepassados) sonhava com a Democracia, com um Povo livre e com dirigentes atentos, justos, inovadores, compreensivos e liberais, e, diga-se em abono da verdade, não escondia os seus propósitos e as suas assumidas convicções.

Ambos casaram: o Joãozinho tinha dois filhos e o Anto-ninho apenas uma filha.

O Joãozinho possuía, ao fundo da aldeia, onde passava um ribeiro a caminho do Ave, um extenso campo, a que chamavam o Campo do Rio e, na margem direita do dito curso de água, os seus avoengos haviam construído um grande moinho, que, por diversas vezes, até ia servindo de recinto para guardar cereais e muitas alfaias agrícolas. A uns trinta metros do moinho, e também já se não sabia há quanto tempo, existia uma profunda e comprida levada, cuja água o Joãozinho utilizava para regar e para fazer girar a pesada mó de pedra, e o Antoninho era também consorte do precioso líquido, já que, junto ao Campo do Rio, possuía uma verdadeira quinta...

De vez em quando, os dois herdeiros entravam em conflito, sobretudo porque o Joãozinho abusava da água da levada, dirigindo-a para a caleira do moinho, muitas e muitas vezes, abusivamente, desrespeitando o costume.

O pai do Antoninho, um bom cidadão e dado à boa paz, lá ia deitando água na fervura e fazendo sempre o possível para que se não passasse do paleio aos atos...

O Joãozinho, ao invés, esquecido já da boa doutrina do pai, era mais resmungão, guardava ódio e, sempre que lhe era dada uma oportunidade, vingava-se nos vizinhos, não olhando aos meios para atingir os seus objetivos.

Numa das vezes em que o Antoninho reclamou contra mais um abuso do Joãozinho, prevaricador que sempre surripiava a água da levada ao vizinho, cruzaram-se no ar as sacholas, o aço tiniu e, por um triz, não houve ferimentos, ou até uma morte...

"Tu só podes ceivar a água nos dias e horas que te estão atribuídos. Fazê-lo quando é minha pertença, queiras ou não queiras, é um roubo!" - desabafou o Antoninho, tentando imprimir calma nas palavras e nos gestos.

"Tu hás de pagar-mas, mais tarde ou mais cedo! Andas sempre a pegar comigo, e por uma porcaria que não vale nada: que falta te faz um litro a mais ou a menos de líquido?..." - retrucou, azedo e ameaçador, o Joãozinho.

Nas eleições dos fins dos anos cinquenta, os dois ricos proprietários tomaram a decisão de apoiarem quem prometia as melhores condições para o bem-estar do país. Claro está que o Joãozinho apoiou a candidatura conservadora, enquanto que o Antoninho, de alma e coração (e com o consentimento e satisfação do velho poveiro), defendia e pugnava pela candidatura do general Humberto Delgado... Foi o diabo, porque o Joãozinho aproveitou-se dessa faceta política do vizinho para fazer com que fosse seriamente incomodado, quer com ameaças, quer mesmo com represálias...

Decorria o final dos anos sessenta e a filha do Antoninho era aluna do curso de Direito, na Universidade de Coimbra. O Joãozinho nunca esquecia o que ele denominava de aleivosias do seu vizinho. Como Regedor, tornou-se, também, num "bufo" - e passou a meter as mais pequenas suspeitas no bico da PIDE (e até era voz corrente - conquanto em sigilo) que o Joãozinho era mafioso e até inventava atos subversivos, só para ser bem visto pelos homens do Estado Novo.

O que é verdade (porque se veio a saber de fonte fidedigna) é que teceu uma infame meada contra a moça estudante, que foi presa, conduzida a lugar incerto e apenas veio a aparecer após o 25 de abril de 1974... Não concluiu o curso, foi maltratada e depreciada pelos fanáticos seguidores do regime que vigorou em Portugal durante quatro décadas...

O Antoninho sentiu o gume da injustiça e do ódio do vizinho a entrar fundo na sua consciência de homem de paz, e, por mais que refletisse, não conseguia perceber por que motivos o Joãozinho se vingava numa inocente rapariga...

Adoeceu com gravidade, física e mentalmente, e entrou numa morbidez profunda, pensando até em suicidar-se... Valeu-lhe, sempre e a cada instante, a sólida moral do quase octogenário progenitor, que o apoiava e imprimia incontáveis consolos na debilidade do seu primogénito e muito amado filho...

Numa noite de fins de junho, o Joãozinho foi para o moinho moer umas quantas rasas de milho e centeio. O velho poveiro, sempre dado à boa paz e à concórdia, sentia agora no fim da vida, os malditos espinhos da doença do filho e do paradeiro incerto da única neta a mortificarem-lhe o pensamento... Discreto, de si para si, passou a astuciar uma forma de punir, exemplarmente, o falso e odiento Regedor (o causador das suas desgraças)...

Com discrição, sem pressas, espiava os passos do João-zinho...

Um seu jornaleiro, por um acaso e sem desconfiar dos propósitos do poveiro, em conversa, referiu que o Joãozinho, naquela noite, ia para o Campo do Rio (como aliás procedia em inúmeras ocasiões), pois, no meio da tarde viu um dos seus carros de bois rodar, atestado de sacos e taleigas, na direção do moinho...

Deixou deitar toda a gente em casa, fingiu que também ele se recolhera aos seus aposentos, envergou um comprido capote, enfiou, num dos bolsos de fora, a sua pistola, com a câmara carregadinha de balas, apoiou-se no seu rijo lódão de marmeleiro e, cauteloso, abandonou a casa... Por uns carreiros longínquos foi dar aos seus terrenos. Depois, lentamente, foi observar a grande e profunda levada, que estava bem repleta e tapada. Num dos lados da represa, um alto e rampeado valado tinha uma densa sebe de silvas. Ocultou-se, como pôde, no silvado. Cerca das duas da manhã, de sachola ao ombro, saído do moinho, onde tinha ido destravar o rodízio e colocar o grão no grande reservatório, suspenso por cima da mó, apareceu, vagaroso, o Joãozinho, encaminhando-se para o sítio onde se localizava o olho da levada. Debruçou-se sobre as águas, enfiou a sachola, a fim de retirar os torrões que tapavam o buraco, e soltou a água para a caleira do moinho...

O poveiro, de mansinho e com uma força que desconhecia em si, conseguiu chegar por trás das costas do Joãozinho, deu-lhe um valente empurrão e atirou-o de cabeça a pique para a levada... Depois, muito atento, pôs-se à coca e, por umas quantas vezes viu o corpo vir à tona. Procurando a melhor posição, de maneira a não o ferir, o ancião forçava-o a ir ao fundo... O reservatório estava a despejar-se... Passou-se uma meia hora e, com uma satisfação que desconhecia no seu viver, verificou que o Joãozinho já não voltava à superfície!...


13 de fevereiro de 2013


 Voltar Índice


O Cirurgião Gonçalo


A sr.ª Ritinha era afilhada do sr. cirurgião Gonçalo Fi-gueiredo e faleceu em 1915, quando contava cinco dúzias de primaveras


O padrinho, quase octogenário, tinha partido para a morada eterna uns quinze anos antes.

O facultativo, oriundo de uma família remediada do concelho de Vila Verde, após a sua formatura e concluída a especialidade em cirurgia, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, foi exercer a profissão em terras de Basto e por lá se manteve até se aposentar e regressar ao seu concelho natal, pelos 65 anos de idade, queixando-se de várias maleitas e enxaquecas.

Foi numa das suas andanças por Celorico de Basto que o convidaram para ser padrinho de um fruto que estava na barriga da mãe e que ainda se não sabia de que sexo era portador.

O cirurgião Gonçalo era um bom conversador e todos simpatizavam com ele. Frequentava algumas casas de fregueses e amigos e regalava-se com umas fartas comezainas e umas não menos abundantes pingotas do afamado verdinho daquelas bandas.

Era cliente estimado e assíduo daquele casal de pequenos lavradores e, por isso, aquando do convite para apadrinhar a futura criança, disse, convictamente, que sim. Concluída a gestação, a ainda jovem mãe deu à luz uma perfeita e bonita rapariga, a quem foi posto o nome de Rita.

Rita foi crescendo, alegre e sadia, tornando-se numa bonita e atraente rapariga. Quando a moça tinha uns quinze anos, o padrinho, alegando que precisava de juventude na sua residência, pois a idosa criada já nem companhia lhe sabia fazer, com palavras mansas e persuasivas, almejou os seus intentos e a Ritinha transferiu-se para a companhia do cirurgião, que, ao tempo, completara meio século de existência.

O dr. Gonçalo afeiçoou-se muito à afilhada e ela, sinceramente, correspondeu na mesma moeda, de modo que viviam como Deus com os anjos!

Toda a gente estimava a afilhada do sr. Cirurgião, que passou a ser conhecida por todo o lado como "Menina Ritinha!"

Claro que, desde logo, apareceram umas más-línguas a insinuar que a Ritinha tinha vindo substituir a idosa Carmin-da e outras, conhecidas e fresquinhas; contrapondo sobretudo as beatas (até com uma pontinha de inveja) que o sr. Cirurgião era incapaz de pisar o risco e de fazer mal a um mosquito. E sempre se ia murmurando, quer em abono do facultativo, quer colocando-o em cheque; e sempre a vidinha lá ia decorrendo sem percalços, quer para os habitantes da zona, quer na residência do médico.

No rincão vilaverdense - herdados alguns terrenos e amealhado um excelente pecúlio na rotatividade clínica -, em 1885, o estimado cirurgião e a Ritinha deixaram, com imensas saudades, as terras de Basto e vieram descansar para uma boa quinta, habitar uma restaurada e ampla casa antiga de lavoura e, desde então, a Ritinha começou a ser tratada por "Sr.ª Ritinha"...

O dr. Gonçalo Figueiredo, a passos largos, rumava para o ocaso da vida e pensava, amiúde, na sua estimadíssima afilhada...

Meigamente e acariciando-a, frequentemente, lhe dizia:

"Ritinha, tens perto de quarenta anos e eu, mais dia menos dia, parto para a minha derradeira viagem e tu ficas sozinha. Tudo o que tenho é teu, quer as propriedades, quer o capital que fui amealhando ao longo da vida. Já te nomeei, por testamento, minha herdeira universal!..."

"Ó querido padrinho, por amor de Deus, não fale assim!..." - e choramingava umas lagrimitas sentidas.

"Mas é a realidade, Ritinha: quem andou, não tem para andar. Não me custa partir, mas vais-me atravessada se ficas sozinha..." - reforçava, comovido e mansamente. E prosseguia: "O melhor era casar-te com um bom rapaz, que te estimasse e fizesse feliz, porque bem mereces a felicidade, Ritinha!"

"Casar, padrinho?, nem pensar; vivo para o padrinho e para o servir!"

"Sim, sim, bem sei, mas podes continuar a fazer o que fazes e seres casada com alguém que te faça companhia e dê felicidade..."

"Não quero casar, padrinho; não quero." - e, desta feita, as lágrimas eram mais abundantes e mais sentidas.

"Pronto, pronto, menina, noutra altura conversaremos."

E este cenário repetiu-se vezes incontáveis. E o dr. Gonçalo não desistia... Malhando na mesma tecla e amiudadas vezes, talvez atingisse os sinceros desejos.

Decorria o ano de 1895. O Tomé da Vinha era um gentil moço de 25 primaveras e terceiro filho de uma boa e abastada família. Como era tradição na família segurar os terços ao filho primogénito, aos demais filhos pouca fortuna cabia.

O cirurgião Gonçalo tinha ótimos amigos e confidentes na sua terra de origem, conversou, alargadamente, com um ancião da sua igualha e muito conceituado na aldeia e vizinhanças, pedindo-lhe para abordar o Tomé da Vinha e fazer-lhe a proposta vantajosa, pois a noiva, apesar dos seus quarenta anos, estava bem conservada, era bonita e jeitosa e extraordinária dona de casa; e, num tom de voz pianinho, fazia questão de lembrar e repetir:

"E a Ritinha é a minha herdeira e fica bem calçada, quer em propriedades, quer em ouro e notas..."

Eram argumentos que o Tomé da Vinha não podia colocar de parte... Amadureceu a ideia, habituou-se à situação de casado com a sr.ª Ritinha e... aceitou!

Consorciaram-se, então, nesse ano de 1895 e, ainda se não tinham completado os nove meses de casados, nasceu um rapagão, a quem puseram o nome de Gonçalo, em homenagem ao padrinho da sr.ª Ritinha, exigindo que, também ele, apadrinhasse o novo rebento. Que não, que não, porque já estava com os pés para a cova; que arranjassem alguém ainda novo; mas (e crê-se que um tanto ou quanto babado), aceitou o insistente convite...

É claro (sejamos francos): lá se levantaram alguns dichotes e logo as más-línguas aproveitaram para propalar, com sorrisinhos marotos:

"Padrinho e pai!"

Ao que outros, mais complacentes, retorquiam:

"O Tomé foi sempre um atiradiço e o dr. Gonçalo já fez o que podia e já mija para os sapatos!"

E, mesmo em abono do facultativo, sobretudo as mulheres que sabiam classificar as crianças pelas parecenças, eram unânimes em sustentar que o Gonçalinho se parecia bem com a avó paterna e, portanto, não se podia negar a paternidade ao Tomé da Vinha...


13 de março de 2013


 Voltar Índice


A Via-Sacra do Quintela


A D. Jorge Ortiga


Humilde, trabalhador, temente a Deus, espírito abnegado e de entreajuda, bom pai, ótimo marido, estimado, por isso, pelos ricos e pelos pobres, o João Quintela veio ao mundo na segunda década do século passado, numa aldeia do concelho de Braga...

Casou ao completar as vinte primaveras e, regularmente, foi nascendo uma numerosa prole de filhos (oito rapazes e duas raparigas), educada segundo o Evangelho de Jesus Cristo, que ele apregoava e cumpria escrupulosamente. A toda a hora o Quintela afirmava, babado e enternecido, que os filhos nunca lhe deram razões de queixa...

Vivia numa casita térrea, que herdou de uma velha tia-avó, do lado paterno, com alguns anexos rudimentares, onde se aquartelava toda a família...

Mas o Quintela também herdou o ofício do pai, tamanqueiro, e trabalhava muito bem o choupo, o salgueiro e o amieiro, fazendo socos, chancas e sulipas em quantidade suficiente para satisfazer as muitas encomendas que recebia, quer da aldeia onde residia, quer das terras limítrofes.

Claro que, atendendo a que trabalhava para prover as necessidades de quem não queria andar descalço, o João Quintela era sobejamente conhecido e respeitado.

Mas agora, mais que septuagenário, a sua fama corria por outro motivo...

Fora o caso que, desde muito jovem, o Quintela frequentava a Igreja católica, não perdendo uma cerimónia, uma festa e, sacramentalmente, em cada tempo quaresmal, marchava para o Bom Jesus do Monte, participando, ativamente, aos domingos à tarde, nas concorridas e penitenciais procissões da via-sacra, que subiam as cerca de sete centenas de degraus, meditando, em todos os calvários, a vida e morte de Jesus Cristo, até culminar com a missa solene e exaltado sermão, no antigo e bonito santuário.

Desta devoção e das inúmeras visitas que fazia ao Bom Jesus do Monte, nasceu-lhe o fino gosto de talhar em madeira e noutros materiais compatíveis todas as figuras bíblicas relacionadas com a via-sacra.

Também as passou a moldar em barro. E incutiu esse fino gosto na mulher e nos filhos, sendo que todos iam criando objetos, em madeira, em barro e noutros materiais que, eventualmente, se pudessem submeter aos objetivos pretendidos.

Assim, as ferramentas da oficina de tamanqueiro estavam sempre em ação: formões, sovelas, enxós, plainas, serrotes, martelos, torqueses, alicates, tesouras, facas de sapateiro e até das cozinhas, navalhas... E materiais como couro, napa, tachas, tacholas, pregos... Lá iam assim surgindo autênticas obras de arte...

Trabalhavam todos, muitas vezes sob a supervisão do Quintela, todas aquelas matérias-primas, que eram sabiamente moldadas, delas resultando incríveis obras-primas!

O barro iam buscá-lo a uma mina que existia num valado e onde, para fazerem os fornos de cozer a broa, os pedreiros haviam extraído argila.

A dita mina já devia existir há longos anos, porque o filão estava muito explorado, apresentava uma extensa galeria, escavada por debaixo do enorme campo do Antoninho do Barral...

A tamancaria encontrava-se num canto da casa, com umas chapas de zinco a servir de telhas. Ainda era um espaço grandinho, mas já não havia um centímetro onde se pudesse expor mais fosse o que fosse. Passaram a utilizar a cozinha, os quartos, a salita... Isto é, por todos os cantos da casa proliferava uma enorme coleção de objetos, que versava somente o tema da via-sacra!

Apesar de a casa ser pobre, assim como quem nela residia, incontáveis curiosos e apreciadores pediam licença para visitarem a invulgar coleção artesanal de obras de arte, que, de ano para ano, era ampliada a olhos vistos e sempre largamente melhorada...


29-30 de março de 2013


 Voltar Índice


Semelhanças e Contrastes


Ao José Manuel Fernandes e à Júlia


Era uma vez... numa conhecida aldeia do ridente Minho, um casal bem abonado de teres e haveres que procriou duas filhas: Arminda, a mais velha, baixota, gorda como uma lontra, feia como uma coruja, mas em tudo comedida; Armanda, a mais nova, alta, magra e esbelta como uma gazela, toda feita de lindeza, voluptuosa inveterada e..., pelos dezanove anos, mãe, solteira...

Era uma vez... duas moças ricas que, pela morte dos progenitores, dividiram as imensas propriedades e a comprida e espaçosa casa de lavoura...

Era uma vez... numa aldeia vizinha, um casal que possuía uma casita desconfortável e um reduzido eido, trabalhando, marido e mulher, como jornaleiros, de estrelas a estrelas, para ganharem uma côdea. Geraram dois filhos: Aníbal, o mais velho, simpático, jeitoso e lindo como um cravo, comedido e reservado; Alberto, o mais novo, magricela e feioso como um bode, que tinha a mania que era um conquistador de corações femininos...

Era uma vez... dois rapazes, pobres, mas que puderam conquistar os corações de duas moças ricas, com quem se matrimoniaram...

Casualmente, na festa do padroeiro da terra das moças, Santo António, numa certa tarde, encontraram-se os dois pares e foi um amor à primeira vista: Alberto atrelou-se a Armanda e Arminda aconchegou-se a Aníbal...

Os dois forasteiros eram conceituados canteiros e auferiam salários razoáveis. Mas, enquanto Alberto era poupado e mostrava genica no ofício, Aníbal era calaceiro, mais gastador, um pouco lambão, apreciando uns bons petiscos e umas boas pingotas...

As moças ajudavam a trabalhar os muitos campos da grande casa de lavoura e eram exímias fiandeiras de linho e de estopas, bem como destras tecedeiras...

Aníbal casou com a Arminda e, se já era um tanto ou quanto preguiçoso, e tendo-lhe subido a riqueza à cabeça, se já pouco fazia, passou ainda a fazer menos, pois quanto a trabalho os jornaleiros que se amolassem. Arminda, dada à boa paz, ia pactuando com o bonito marido e, se ele dizia:

"Mata-se o galo", logo ela acrescentava: "Ó homem, mata-se também a galinha!"

Bem: e a vidinha lá ia decorrendo impávida e serena...

Foram penhorando umas propriedades, vendendo outras e, em certo momento, Arminda lembrou-se do tio Manelzinho, que há meio século tinha emigrado para o Brasil e que estava podre de rico, graças ao seu esforço e empenho. Embora a separação lhe custasse imenso, logrou convencer Aníbal da necessidade de avançar para terras de Vera Cruz, a fim de custear as grandes despesas domésticas e recuperar as terras hipotecadas.

Partiu o marido, foi para a companhia do tio rico e deliciava-se a comer bem e a gozar ótimos dias de lazer... De modo que, passados uns dois anos, comido pelas saudades e com os bolsos cheios de cotão, de ar e vento, lá regressou aos ares pátrios, metido num impecável fato branco...

Estarola como era, em lugar de desipotecar de imediato as propriedades, quando se deu conta já um habilidoso agiota lhe tinha tomado conta dos bens disponíveis e resgatado os demais, acabando o folgazão por concluir que somente lhe restava a casa onde vivia com a mulher e os filhos... Aníbal ainda ensaiou negociar em madeiras, mas faltava-lhe aquilo com que se compram os melões e, com uns sessenta e poucos anos, tranquilamente, deixou de pertencer ao número dos vivos...

Arminda, sempre dada à boa paz (repita-se), ia criando um rancho de sete raparigas e dois rapazes, mas sentiu grandemente a partida do seu amado Aníbal...

Quanto a Alberto, que casou com Armanda, a tal que já era mãe solteira, atendendo a que a moça era jeitosa e linda e, acima de tudo, bastante rica, tomou o mando na casa, afirmando, por diversas ocasiões, que "chapéu, em casa, só existia o dele" e não permitia que Armanda poisasse o pé em ramo verde!

Meteu-se em diversificados negócios, sobretudo vendendo vinho, milho, centeio, feijões, peças de linho (cultivava algumas leiras daquela planta, que depois de arrancada era moída no engenho e, depois de seca, ele mesmo mandava as mulheres espadelar, fiar e tecer - de cuja faina auferia umas maças razoáveis)...

Todavia, a sua melhor fonte de rendimento, advinha-lhe da venda dos bastos pinheiros, grossos e altos, que recheavam as extensas bouças pertencentes à casa...

Possuíam dois grandes e produtivos eidos, bastante desviados da residência, cada um encostado a duas aldeias limítrofes e, por sinal, em concelhos diferentes, para onde palmilhavam meticulosamente, por assim dizer, todos os dias e, nalgumas ocasiões, mais do que uma vez. O Alberto andava sempre de espingarda ao ombro, quer no tempo da caça, quer no tempo do defeso... Usava um enorme bigode, que lhe acentuava a fealdade...

Armanda foi gerando filhos e a Conceição, a enteada, atingira as dezassete primaveras e tornara-se numa atraente e cobiçada moçoila. O padrasto tratava-a com muita delicadeza e, de vez em quando, mimava-a com uns presentinhos...

Numa bela tarde de fins de verão, estando em casa sozinho com a rapariga, começou por arrastar-lhe a asa, com palavras e gestos subtis e, em determinado momento, como a enteada não queria alinhar na sua cantiga, obrigou-a a ter relações sexuais com ele... E mais: ameaçou-a de severos castigos se ela abrisse, um pouco que fosse, a boca. E andava sempre de atalaia, não fosse a Conceição dar com a língua nos dentes...

Apenas a natureza não se apiedou das suas constantes vigias: a barriga da desventurada principiou a crescer, a crescer e a mãe e as meias-irmãs, a ferros, lá lhe arrancaram a verdade... Foi um tremendo balde de água fria que tombou no seio familiar...

Armanda chamou-o a capítulo, zangada, mas ele, imperioso, retorquia-lhe que se lembrasse do que foi no passado e que deitasse o olho às suas filhas, que já lhe dariam bem que entender; e, sobre aquele assunto, bico calado, porque a coisa morria por ali mesmo...

A Armanda bem se podia aplicar o ditado popular: tal mãe tal filha! Ela fora uma rapariga folgazona, apreciava dançaricos e namoricos, e não era nada esquisita no relacionamento com os rapazes, deitando-se debaixo de qualquer um, pois, o que desejava mesmo, era satisfazer os seus caprichos e prazeres. De maneira que, em determinado instante, não ficou preocupada quando notou que estava grávida e que não sabia quem era o pai da criança!

O povinho, sempre atento e inteligente, até passou a murmurar:

"A Armanda anda com o ventre cheio e o fruto tem vários pais!..."

Aos pais da bonita Armanda, o escândalo abalou-os grandemente, de tal modo que se sentiram envergonhados até ao fim da vida. Quando, não ainda muito entrados na idade, foram a enterrar no jazigo de família, não tinham perdoado ainda a afronta que a filha lhes havia feito...

"Cá se fazem, cá se pagam!" - sentencia um rifão popular.

Armanda deu um enorme desgosto aos progenitores, mas nunca mais se lembrou de tal... Quando, porém, o marido abusou da sua filha e a engravidou, jamais conseguiu digerir a afronta e as suas ameaças...

Minada por desgostos, pelos cinquenta anos, também foi ocupar uma das gavetas no Campo Santo, ao lado dos pais. Alberto ainda por cá respirou mais uns bons e gozosos trinta anos...

Poucos meses após Arminda ficar viúva, o duplo cunhado, com velada diplomacia, passou a arrastar a asa à feiosa cunhada, vindo mesmo a propor-lhe casamento. Alegava Alberto que eram da mesma igualha (sessenta anos cada), que ela vivia com dificuldades e ele, graças ao Altíssimo, era senhor de uma riqueza estimável, pelo que poderiam ter uma velhice calma e sem percalços, amparando-se mutuamente até chegar o último suspiro, e mais cobras... e mais lagartos...

A verdade seja dita: lá bem no fundo, à Arminda até lhe poderia interessar a proposta, mas (apenas esquecendo-se de que os seus dotes de beleza a não favoreciam) achava-o demasiado feio... Isso, porém, não seria difícil de ultrapassar... O que não olvidava (e que até já por inúmeras ocasiões havia reprovado) era a aleivosia do cunhado, que tinha forçado a enteada a deitar-se com ele e a brindou com um filho ilegítimo...

E mais ainda: sucedia que Arminda tinha uma filha a viver consigo, solteira, que rondava as vinte e poucas primaveras, e ninguém a libertava da ideia de que o velho galaró seria bicho para lhe violar a moçoila e lhe impingir uma barrigada...

E como pela aragem se vê quem vai na carruagem...


19 de abril de 2013


 Voltar Índice


Fica Adiado...


Para a Olivinha L. da Silva


Naquela pequena e sossegada aldeia barcelense, implantada no franco e alegre Minho, com a mãe e com o Faíscas, um cão de raça e de estimação, morava o Isidro, um moço alentado, a aproximar-se dos trinta anos de idade.

O pai era um conhecido e bem sucedido contratador de gado, que, após uns dez anos de casado, alegou incompatibilidades com a esposa, por supostamente sofrer de problemas do foro psiquiátrico. Como no seu juízo ela não regulava bem da cabeça, abandonou a família e foi juntar-se a outra mulher.

O Isidro tivera uma infância regular e sem complicações. Na adolescência, porém, começaram a manifestar-se nele os sintomas que, com efeito, afetavam a mãe, asseverando os vizinhos tratar-se de um mal hereditário.

Consultado um clínico especialista, o Isidro foi medicado e passou a fazer uma vida normal: frequentou a escola com algum sucesso, convivia com a rapaziada do seu tempo, namoriscou, apaixonou-se, amou e foi correspondido. Esquecendo o seu problema de saúde, em repetidas ocasiões, consumiu álcool em excesso. Por causa desse desregramento, passou a sentir tais efeitos secundários que, de vez em quando, o levavam a ser internado em instituições credenciadas.

Neste entretanto, os anos foram decorrendo, alternando a boa saúde com recaídas no mal que o minava...

O velho cão era um amigo fiel, como o são todos os cães, quando devidamente tratados e respeitados. Isidro apreciava ir passeá-lo, quer por perto da residência, quer conduzindo-o até ao alto monte da Ermida, que tem uma pequena capelinha a encimar a sua aldeia natal.

Nessa primavera tinha regressado, há dias, de uma casa de saúde, após mais uma crise, que, por sinal, fora mais aguda que as anteriores. Pareceu à mãe, e a quem com ele convivia, que tudo decorria pelo melhor... Isidro, todavia, que nada exteriorizava, passava uma fase psíquica extremamente complexa e delicada: cismava, cismava, e nele ia crescendo uma ideia, uma obsessão... Qualquer coisa de dramático e que ele rotulava de plano redentor...

Aproximava-se aquele dia do fim. Não faltava muito para aparecerem as primeiras estrelas. A mãe, vendo-o atrelar o estimado canino, utilizando as grossas correntes que o prendiam a um maciço esteio de pedra, e com o coração ensombrado por pressentimentos de mau agoiro, inquiriu, docemente:

"Onde vais, filho, a esta hora?"

"Vou passear o Faíscas, mãe, mas não demoro..."

"Já é tarde. Deixa isso para amanhã e vai descansar, que bem precisas."

"Apetece-me ir agora e... já que o atrelei... Não demoro..." - e fitou-a com um misto de ternura e de angústia.

E partiu...

A pobre mulher, cada vez mais, sentia-se triste e inquieta: era o coração de mãe que pulsava de um modo que não se recordava de sentir.

A noite, devagar, foi cerrando e a Lua principiava a derramar uma tímida claridade.

Passara uma hora. O filho não regressava... A mãe achou que já não devia aguardar mais tempo. Sem hesitar, ansiosa e ofegante, saiu a correr, cabelos desgrenhados, rosto sofredor, pensamentos turbulentos e incontroláveis...

E por onde caminhar? Que direção deveria seguir?

Caminhou ao deus-dará por algum tempo e, num largo onde se entroncavam três caminhos, de repente, viu aparecer o inteligente Faíscas, sozinho e apenas com a coleira no pescoço...

O animal aproximou-se da dona. Abanava a cauda, orelhas guichas, olhos vivos e muito tristes, com o focinho voltado para algures, que era o itinerário do cimo do monte da Ermida.

A pressurosa mãe não perdeu nem mais um segundo: seguiu o seu fiel cão, partindo ao encontro do inesperado...

Mal deu os primeiros passos, logo o canino lhe tomou a dianteira. Seguiu-o com o coração cada vez mais amargurado e oprimido. Calcorrearam larga distância e embrenharam-se no alto do monte. Era já madrugada, quando a mísera mãe, dilacerada, aos soluços, deu com os olhos num comprido cano de uma velha carvalha e com o filho encavalitado nele, ajeitando-se para enfiar a cabeça no laço que fez numa das pontas das fortes correntes do seu cão... A outra ponta estava atada ao longo cabeço...

A dolorida progenitora soltou um grito agudo e lancinante e, quanto pôde, correu para o tétrico cenário, onde o filho já se encontrava pendurado, a baloiçar, levemente, e iluminado por um pálido luar, com o pescoço a estrangular-se no laço de ferro, a língua de fora e as faces a roxear...

Banhada num mar lacrimejante, a mãe reuniu as forças que ainda a alentavam, abraçou-se às pernas de Isidro, procurou erguer o corpo e gemeu, suplicante:

"Querido filho, por amor de Deus, salva-te!"

Isidro teve pena de quem lhe dera o ser e lhe dava provas de infinito amor...

Esforçou-se, levantou os braços, alargou a laçada e deixou-se escorregar, estonteado, pelo débil corpo da mãe, enquanto, baixinho e com tremores, balbuciava:

"Fica adiado!..."


20 de maio de 2013


 Voltar Índice


O Imigrante


Para a Olivinha L. da Silva


O Francisco começou a aparecer naquela aldeia dos arredores de Terras de Bouro por volta de 1880. Aparentava uns trinta anos, vestia bem e era um bom conversador. Não havia quem o conhecesse, vindo, só mais tarde, a saber-se alguns pormenores do seu passado. Notava-se bem que encobria qualquer coisa, mas, para o essencial, lá ia escorregando...

Disse que se chamava Francisco, nascera em Trás-os-Montes e que, com dezoito anos, no porão de um barco de mercadorias, clandestinamente, foi dar à África Ocidental, onde mourejou uma dezena de anos e de onde regressou com uns razoáveis patacos nos bolsos. Era solteirão, procurava noiva e gostava das gentes daquela povoação...

Sabedoras dos propósitos do Francisco, discretamente, algumas moçoilas foram-se candidatando ao lugar de esposa. Quem, todavia, logrou ocupar tal posto foi a Alzira das Chãs, filha única de uma família remediada.

Casaram-se, pois, no Santuário de S. Bentinho, e logo lhes nasceu um rapaz e depois uma rapariga. O imigrante passou, então, a ser conhecido por Francisco das Chãs.

Com o capital que trouxera adquiriu mais umas boucitas e leiras para juntar ao dote de Alzira, e a vida lá ia prosseguindo sem nada de relevante.

De princípio, ainda se esforçava por ajudar nas lides agrícolas e até ajudar outros lavradores. Depois, porém, começou a cultivar umas boas doses de preguiça e sobrevivia com o que ia obtendo de negócios com madeiras, ora compradas, ora das suas bouças. Mas todos (um pouco sigilosamente) lhe foram conhecendo um defeitozito: enganava-se, com frequência, nos paus que mandava derrubar (das bouças alheias)...

E por diversas vezes - não raro em tom mais azedo -, os donos queixavam-se de que não tinham marcado determinada árvore para ser derrubada... Que tinha sido engano dos jornaleiros, que tudo se resolveria, que pagava, que não se queria sujar por uma ninharia... E ia adiando os prometidos pagaretes.

Como ele dormia muito durante o dia, movimentava-se pela noite, ora guiando águas de rega, que em alturas não eram sua pertença, pondo-as a correr para os campos de erva, ora galgando os montes a estudar mais uma proveitosa lição...

E o povo, pianinho, ia sentenciando:

"O Francisco das Chãs dorme de dia, para quilhar os outros... de noite!"

E o Francisco bem sabia dos murmúrios, fazendo de conta que lhe não diziam respeito... E atingiu a bonita idade dos oitenta...

Numa manhã, muito cedinho, porque ainda havia algumas estrelas a luzir no firmamento, o Marcelo Ferreiro, com uma escada de madeira ao ombro, dirigia-se para a sua propriedade dos Lameiros, a fim de prosseguir a poda das videiras. Ao passar no carreirinho que ladeava a extensa regueira das Ínsuas, que conduzia a água de rega dos muitos consortes (represada na comprida e larga poça das Pegas, situada quase num dos extremos da aldeia e que levava a água a cebar os últimos terrenos), já a confrontar com uma freguesia vizinha, junto de um pejeiro, de borco, com a cabeça quase coberta pelo líquido, Marcelo encontrou o Francisco das Chãs, com uma sachola a seu lado e metido num coçado e comprido capote...

Cá se fazem...


9 de junho de 2013


 Voltar Índice


 Voltar Índice


O Torcato dos Vales


Cerca dos anos setenta, do século dezanove, o Torcato, montando um vistoso e alentado cavalo de pura raça lusitana, sempre selado a rigor, pelo menos três vezes por semana, subia a Citânia de Briteiros, no extremo do concelho de Guimarães, para um encontro idílico e demorado com a morgada da Casa dos Vales, implantada na velha Lageosa e num sítio de destaque.

Oriundo de uma família que residia numa aldeia vizinha do bonito mosteiro de S. Torcato, o moço foi batizado com o nome do venerado santo, como promessa e devoção dos seus progenitores, que até quiseram que se tornasse seu afilhado.

O pai, um rapaz cheio de genica, arrojado e condenado ao sucesso, no começo da primeira década do mesmo século, foi chamado por uns tios-avôs que já viviam no Brasil fazia meio século. Partiu ele então para a companhia deles, com a tenra idade de catorze anos e, quando se lhe proporcionou rever o rincão natal já contava quarenta primaveras. Foi-lhe extremamente fácil escolher a moça mais prendada, quer em beleza, quer em teres e haveres, numa freguesia próxima e matrimoniar-se em poucas semanas. Desse matrimónio vieram ao mundo uma rapariga e, logo de seguida, um ventre de dois gémeos, sendo um deles o que recebeu o nome de Torcato. Decorria o ano de 1845.

No mês de julho de 1870, casualmente, na concorrida romaria de S. Torcato, pela primeira vez, quando a morgadinha saltava da luxuosa liteira, cruzou os olhos com o bonitão do Torcato e lograram, graças a Deus e aos bons hospícios do santo, chegar à fala. E também, na tarde do dia imediato, lá estava o mancebo para manter o primeiro encontro apaixonado.

Volvida meia dúzia de meses, na vetusta, pequena e bonita capelinha de S. Tomé, orago da aldeia, realizava-se um solene casamento, muito concorrido, pomposo e com umas lautas bodas...

Porque casou para a Casa dos Vales, desde então o varão vimaranense passou a ser conhecido e apelidado de "Torcato dos Vales".

Recheado de dinheiro, quer trazido de um bom dote familiar, quer do muito que existia na Casa dos Vales, o Torcato apenas necessitava de gerir com mestria os largos teres e haveres e o capital existente. E foi o que fez ao longo da vida.

Nasceram-lhe dois casais que, antes dos vinte anos de idade, se foram consorciando, ficando em casa o rapaz primogénito, o Aníbal (o menino dos papás, muito mimado e o mais atrofiado dos quatro rebentos).

Com efeito, o Aníbal era um mimalho e o seu paleio resumia-se a uma dúzia de frases feitas. Embora magrote, assapava-lhe bem, tanto na comida como na bebida, preferindo, sempre, coisas boas! E claro, tais requintes nunca lhe faltaram!

O Torcato gostava dele, porque funcionava como um boneco de corda: o pai falava e Aníbal, para lhe ser agradável, nem sabia onde se havia de meter...

Não por amor, mas por interesse, viabilizou-se um conveniente casamento, com a Carminho do Pedregal, uma donzela de dezoito ridentes primaveras, muito linda e prendada (dizendo-se à boca-cheia que era bem mal empregue no Aníbal dos Vales). E depois, ou por mofa, ou com laivos de verdade, contavam-se algumas peripécias do recém-casado, nomeadamente que, a caminho da airosa igreja de Sobreposta (percorrido a pé, com uma banda de música a abrir o cortejo nupcial e um estralejado foguetório), de súbito, a noiva, com os ricos socos de verniz calçados, estrebuchou. Solícito, o noivo, de mansinho, deitou-lhe a mão e pronunciou: "Cuidado, Carminho!"

Mas, no regresso da cerimónia, quando já matrimoniados, perante uma cena semelhante, Aníbal, num tom de voz azedo e depreciativo, e sem lhe deitar a mão, exclamou: "Olha para o chão, Carmo, e vê onde pões os socos!"

E ainda mais: na noite nupcial, quando chegou a hora de recolherem aos leitos, submisso, teria inquirido do progenitor:

"Com quem vai dormir a Carminho, sr. pai?!"

"Contigo, meu vurro!" - retorquiu-lhe, entre sério e escarninho, o capitalista...

Que fique bem esclarecido: o Torcato dos Vales era um sovina, um mandão, não permitia réplicas, usava capote de inverno e de verão e trazia sempre os bolsos recheados de notas! E o Aníbal, praticando os defeitos paternos, tornou-se num exemplo similar...

(...) Já quase octogenário, num dia de junho quentíssimo, o Torcato dos Vales, quando caminhava por cima de uma erva que estava a secar, num alto varandão, escorregou, deslizou e caiu, de cabeça para baixo, na espaçosa eira de pedra. Logo acorreu, aflito, o filho Aníbal que, por um acaso, andava por perto. A primeiríssima coisa que fez foi esvaziar-lhe os bolsos do capote, recolhendo as muitas e valorosas notas, e, depois, chamou a Carminho para ajudá-lo nos primeiros socorros...

Verificando ambos que o acidentado não dava sinal de vida, chamaram uma das filhas, que morava na casa em frente, tendo começado a juntar-se muita gente curiosa...

Mas logo se constatou que o Torcato dos Vales já tinha entregue a alma ao Criador... e as notas ao filho lambão!


17 de junho de 2013


 Voltar Índice


A Concertina


O tempo em que as uvas eram pisadas com os pés (pois ainda não existiam raladores ou as modernas máquinas de ripar os bagos do cangaço), e se utilizavam pequenos e grandes lagares de granito, dornas e dornões, foi um tempo áureo, repleto de alegria e de lazer. Cantava-se a solo ou em grupo, repenicavam cavaquinhos e violas braguesas, a baqueta percutia a pele dos tambores, vibravam as pandeiretas, tilintavam os ferrinhos, roçava-se a cana no reco-reco e então, quando aparecia um realejo, um harmónio, ou, mais tarde, uma concertina, era um momento de festa para se guardar na alma.

Bem me lembro ainda, pelos anos 50/60 do século vinte, desses salutares eventos e pude participar em muitos deles. Retenho, também, na memória, as narrativas que me eram produzidas por anciãos e anciãs, parecendo, pela parte de alguns, ainda estarem a viver e a saborear esses tempos doirados, em que a vida das aldeias era feita de muitas fainas agrícolas, em que quase todos colaboravam. Existia paz, fraternidade e mútuo respeito.

Belos e saudosos tempos!

Ora, pelos anos quarenta do século que findou, o Quim Pinguinhas era um moço trintão, mediano de estatura e bem composto de carnes, apreciador de umas boas merendolas, regadas, de preferência, com uns valentes e bons pingatos... Cantava muito bem, dava cartas ao desafio (e tomara ele que lhe aparecessem muitos desafiadores - embora sempre preferisse digladiar-se com vozes femininas) e dedilhava na perfeição o cavaquinho e a braguesa.

Há muito, todavia, que trazia uma ideia alojada na cabeça e que nunca o largava: adoraria possuir e saber tocar uma concertina!

À época era um excelente carpinteiro e ia ganhando uns troquitos, mas não se esticavam para satisfazer-lhe o obsessivo desejo. No entanto, com tal intuito, quando lhe era possível, lá deixava uns escudos de lado.

Num certo dia, pelo fim da tarde, numa festa concorrida de uma aldeia vizinha, alcandorada quase no topo de um monte, denominado "Cabeço do Mocho", onde cantou ao desafio e acompanhou, com a braguesa, o Tone Alemão (cuja alcunha lhe advinha de ser muito alto e anafado, e que tocava primorosamente concertina), no terreiro de um afamado tasco (e também já sob os vapores de uns razoáveis quartilhos do mais repintado carrascão), arranjou forma de fazer uma negociata com aquele compincha, apalavrando a compra do ambicionado instrumento de foles! E a data combinada foi a tardinha do domingo vindouro, naquela mesma tasquinha onde confraternizavam...

O carpinteiro passou a semana a sonhar com a compra que ia efetuar e a imaginar-se a dar ao fole do estimado e atrativo instrumento. O tempo girava imensamente vagaroso e ele desejava que, depressinha, chegasse o domingo...

E, finalmente, graças a Deus, o domingo lá chegou, iluminado por um sol que irradiava muita luz e calor. Foi à missa do cedo, tomou um traçadinho (uma mistura de vinho do Porto com bagaço), na venda do Cruzeiro, foi tentar receber umas maças que lhe deviam e entrou em casa para jantar já próximo das duas horas da tarde. Comeu com apetite, regou abundantemente o arroz aguado de pica-no-chão, deu duas de treta com a estimada esposa, juntou as notas de vinte e as moedas que tinha, acomodou-as na carteira e enfiou-a no bolso interior esquerdo do casaco, que, como de costume, abotoou.

Consultou o relógio de bolso. Eram quatro horas e estava na altura de calcorrear os cerca de três quilómetros, praticamente sempre a subir, pois queria chegar ao "Cabeço do Mocho" sem perda de tempo.

(...) Após a negociata, molhada com umas boas tigelas de verde, o Quim Pinguinhas enfiou os braços nas correias da concertina, acomodou-a nas costas, e predispôs-se a regressar, mais contente do que um cuco ribaldeiro. Como fosse já noite bem cerrada, meteu-se em passo acelerado pelo desértico e tortuoso caminho que ligava o "Cabeço do Mocho" à sua terra natal, implantada lá no fundo. Algumas passadas começaram a fugir-lhe para o falso e ele sentiu-se um tanto ou quanto cambaleante, mas para a frente é que era o caminho...

Embora fosse pelos finais de junho, a noite tornou-se fria, sem luar e caía uma chuva miudinha (molha-todos, como costuma dizer o povo), com que o comprador não contava... Ainda não havia vencido um terço do itinerário, quando pressentiu uma restolhada e, quase ato contínuo, uma rija bordoada de lódão acertou-lhe em cheio nas ilhargas e estendeu-o de bruços, no chão de saibro escalavrado. Tentou levantar-se e sentiu que lhe tentavam segurar as pernas. Conseguiu distribuir uns pontapés, proferir uma dúzia de sonoras obscenidades e constatou que apanharam o jeito de lhe surripiar o objeto de tão grande estimação. Voltou a escutar outra restolhada e passos apressados, que, tanto quanto era possível perceber, na subida, iam soando cada vez mais longe, no sentido inverso à sua atribulada deslocação para o ambicionado lar.

Refez-se do susto, habituou-se à ideia de que tinha sido assaltado... Com os pensamentos num turbilhão, ainda projetou voltar atrás. Àquela hora, porém, já não encontraria vivalma...

Ergueu-se, vagarosamente, e reiniciou a marcha, ciente de que guardava, no bolso interior esquerdo do casaco, uma carteira sem notas e, às costas, a leveza, pela falta da concertina de que o despojaram...

Bem, desta vez nem dedos nem anéis!


17 de julho de 2013


 Voltar Índice


Malvadez


(...) E mesmo quando a Dolores Benta foi mãe, e se viu aflita com as terríveis dores do parto, não houve quem lhe arrancasse o segredo da paternidade... Interrogada pela habilidosa parteira, ela, subtil e manhosamente, não revelou o nome do par daquela relação ilícita, apesar do momento ser propício a revelações, pois o sofrimento poderia levá-la a amaldiçoar o homem que a tinha emprenhado. Revoltada e afogada num mar de pranto, prostrada pelo esforço desnatural de deitar para o mundo mais uma pobre criatura, Dolores Benta cerrou os dentes e da sua boca apenas saíam gemidos.

No ridente e verde Minho, o tempo das mondas e das sachadas do milho era delicioso e imerso em sãs alegrias. Essa faina agrícola era executada, sobretudo, por mulheres. Interpretavam-se cantigas da velha guarda, dolentes, melodiosas, com harmonias ocasionais bem interessantes, formando-se verdadeiros corais que enchiam os campos de cantorias. Havia afinadíssimas solistas, principalmente vozes sopranos, que faziam ecoar os sons agudos por uma distância considerável. Depois, o coro, parecendo que ensaiado a rigor e sob a regência de uma batuta, entoava o estribilho.

Ainda tive a dita de escutar algumas maravilhas e até de me integrar em alguns eventos.

Belos tempos, tempos de ouro, Deus meu!

A Dolores Benta era uma rapariga muito linda, muito direitinha no porte e na forma de agir, que gostava de umas paródias com gente séria.

Adolescente (ainda não completara dezassete anos), trabalhava a jornal, principalmente para um abastado lavrador. A maior parte dos campos da quinta localizava-se ao fundo da aldeia, na Várzea, com as moradias mais próximas a quase um quilómetro de distância. A moça, ia poucas vezes sozinha para os terrenos, quer para regar, quer para sachar e mondar o milho. Umas vezes, tinha a companhia da patroa e das três filhas, noutras - embora raramente - a companhia do filho primogénito - quatro anos mais velho que ela, que sempre a tratou como uma irmã -, e ainda outras vezes, era o próprio lavrador que se lhe juntava nas diversas fainas.

Ora, quando trabalhavam juntos e sozinhos, o cavalheiro, já de meia-idade, gostava de dirigir-lhe uns piropos, que a jornaleira não apreciava. Todavia - e ela já trabalhava para aquela família desde que completara a 4.ª classe, com distinção e apenas com nove primaveras de existência -, nunca o patrão passou das palavras aos atos...

Estávamos no início do mês de agosto. A partir da meia-noite de sexta-feira para sábado, a água da grande poça de consortes pertencia ao campo de Mata-Bois. A Lua brilhava intensamente e despejava um claríssimo luar. Pontualmente, à hora estipulada, o patrão foi abrir o olho da poça e guiar a água para o referido terreno. Dolores foi andando para o campo, a fim de aproveitar o precioso líquido. Daí a pouco juntou-se-lhe o lavrador e prosseguiram na realização da tarefa. E, de vez em quando, com palavras muito mansas, o patrão queria conversa fiada... A jovem disfarçava, não retorquia e, intimamente, ficava molestada.

Pelas três horas, de repente, o homem arranjou forma de abraçar a moça e cobri-la de beijos ardentes e gulosos... Dolores, primeiro com delicadeza, mas, depois, já embravecida e a chorar, repeliu-o, tentou esgueirar-se. Não pôde e quando se deu conta, o patife tinha-a possuído e violado...

Deixou-se ficar prostrada no chão, a chorar com abundância... E o malfeitor a querer passar-lhe as mãos pelo corpo, tentando consolá-la, mas a jovem repeliu-o com veemência. Ele, então, em voz baixa e grave, e ameaçador, dirigiu-lhe a palavra:

"Hei de dar-te uma bela e valiosa prenda. Mas ficas avisada: nem uma palavra sobre o que se passou, porque se não nunca mais trabalhas na minha casa e esborracho-te toda!, ouviste bem?"

Dolores continuava a chorar convulsivamente. De súbito, levantou-se e, desvairada e como uma louca, deitou a correr pelo campo fora, retrucando-lhe:

"Não digo, não, seu malvado, porque tenho nojo e vergonha, mas posso morrer de fome que, para si, nunca mais trabalho!"

E voou para casa, onde entrou sem provocar o mais leve ruído. Deitou-se na cama e, baixinho, soluçou, regou a almofada com copiosas e amargas lágrimas e lamentou-se do seu desgraçado Destino!...


19 de julho de 2013


 Voltar Índice


O Sr. Beltrão Neiva


Para o Fernando Pinheiro


A menos de uma légua de distância, à direita de quem viaja na movimentada via rodoviária que liga a Vila de Prado a Barcelos, erguia-se um vasto complexo industrial, pertença do sr. Beltrão Neiva.

O depois bem-sucedido industrial chegou ao mundo pelo meio da última década do século dezanove. O pai e um tio possuíam uma pequena oficina, onde se fazia um pouco de tudo, mas, essencialmente, onde se trabalhava o ferro, utilizando duas forjas e alguns tornos, as primeiras destinadas a levar o ferro ao rubro e os outros a moldá-lo. E a verdade é que das suas mãos saíam algumas verdadeiras obras de arte, como portões, cancelas, gradeamento e mesmo utensílios da vida diária.

Logo que a idade permitiu, Beltrão saltou para a exígua oficina e tornou-se num artista mais arrojado e perfeito que o seu progenitor e o seu tio.

E mesmo os clientes mais delicados, com uma pontinha de inveja, costumavam desabafar:

"Bem, não admira: filho de peixe sabe nadar!"

Beltrão tinha duas irmãs, que amanhavam umas leiras paternas e asseguravam as tarefas caseiras. Ainda não havia atingido as vinte primaveras, submisso e resoluto, sondou o pai, no intuito de construir um pavilhão e lá implantar as ferramentas para produzirem louças. O pai achou a ideia genial e desatou os cordões à bolsa, para satisfazer os planos de Beltrão.

Num campo de grande superfície que possuíam junto da estrada, implantou-se um cobertão grandinho, adquiriu-se muito barro, compraram-se os utensílios para a sua amassadura, moldagem, cozedura, pintura, etc., contrataram-se meia dúzia de raparigas e dois rapazes e, dentro em pouco, começou a sair produto variado: cântaros, cantarinhas, canecas, malgas, pratos, cestinhas, bibelôs de toda a casta e, graças a Deus, toda a produção tinha venda imediata.

Volvidos uns dois ou três anos, como o negócio florescesse a olhos vistos, Beltrão resolveu abrir uma linha de grés, fabricando, essencialmente, tubos para saneamento, que era o que estava a dar...

Como as instalações se tornavam apertadas deliberou-se a construção de mais dois barracões, sendo um deles para armazenamento da matéria-prima e da produção que ia saindo, pois agora já não era uma dezena, mas três dezenas de operários a trabalhar...

Pelo quarteirão de primaveras, tendo encontrado a forma para o seu pé, quer dizer, uma moça bem parecida que o cativou e que logo escolheu para mãe dos seus filhos (se prouvesse a Deus dar-lhos), Beltrão contraiu matrimónio. Sentia-se feliz e, de dois em dois anos, lá foram nascendo os quatro rebentos, que lhe povoavam o lar e o enchiam de sãs alegrias. Primeiro nasceu uma menina, que tomou o nome de batismo da progenitora, Josefina, e os meninos tiveram todos o nome Beltrão, herdado diretamente do babado pai.

Com a paz do lar e a felicidade que nele desfrutava, o industrial dedicou-se à igreja, contribuindo, com mãos largas, para os mais diversos eventos paroquiais, e ocupando todos os cargos de chefia das três associações religiosas existentes. Não faltava a uma procissão, quase sempre caminhando em lugar de destaque, frequentava as cerimónias dominicais e, sempre que os afazeres profissionais lhe permitiam, também as da semana, sobretudo as novenas e outras eventuais atividades da paróquia.

O certo, pois, é que o sr. Beltrão Neiva, por quanto ficou exposto, era um bem visível exemplo a seguir e a imitar... Toda a gente sustentava que era um límpido sepulcro, caiado com material honesto e de santidade...

Graças e louvores sejam sempre dados ao Altíssimo, por deixar habitar na Terra exemplos tão puros e respeitáveis!...

Cerca dos anos trinta, o sr. Beltrão Neiva estava órfão de pai e mãe, que adormeceram contentes pelo filho que tinham gerado, pois sempre lhes enchera, de modo acumulado, as medidas da alegria e do bem-estar... Feitas as respetivas partilhas, ficou ele como patrão do já considerável património laboral.

Foi assim que, nessa mesma década, sem preconceitos, o sr. Beltrão Neiva decidiu lançar-se noutra companha: a tecelagem. E se bem o pensou, depressa o colocou em prática. Mandou construir um grande edifício, com dois pisos, e no rés-do-chão instalou diversos teares, que iniciaram a tecelagem de quilómetros de pano para todos os gostos... E também, uma vez mais, o arrojado industrial foi bem sucedido...

Não há fome que não acarrete fartura: já não trabalhavam nos seus pavilhões três ou quatro dezenas de operários, mas já se cifravam em centenas!

Ora, diga-se em abono da verdade: o sr. Beltrão Neiva tinha sucesso, mas não entregava a direção a cabeças duvidosas. Permanentemente, como um ferrinho, ele era sempre o primeiro a chegar ao complexo industrial e também o derradeiro a deixá-lo, exceto quando, por força do enorme volume de encomendas, foi forçado a dividir o pessoal em três turnos... Saía raras vezes do local de laboração, salvo no decorrer das décadas de trinta e quarenta, quando passou a ausentar-se por maiores períodos de tempo (e, às vezes, até pernoitava fora, alegando viagens de negócios importantes) para as cidades do Porto, Vila Real e Coimbra, onde viviam vários fornecedores e clientes seus...

Pelos meados dos anos quarenta, o sr. Beltrão Neiva concluiu, de novo, haver necessidade de, sem delongas, aumentar as instalações, que já não comportavam o excecional movimento de encomendas.

Construiu um moderno edifício, de quatro pisos, aproveitando o resto do terreno destinado à construção e resolveu implantar mais uma indústria: a confeção. E em boa hora lhe veio a ideia e a concretização, porque, um ano volvido, já não era patrão de algumas centenas de operários, mas sim de quase dois milhares!...

Os empregados gostavam imenso do sr. Beltrão Neiva, porque, desde o início das suas firmas, sempre os tratou com dignidade e humanismo, pagando, na maior parte dos casos, para além do que a Lei estipulava. O que, à época, era uma lança em África!

À medida que os filhos ficavam aptos para o trabalho, colocava-os a gerir os vastos negócios, não deixando de fazer a supervisão e tomar as decisões mais complexas nos momentos precisos...

Entretanto, a santa, dedicada e excelente esposa finara-se havia uma meia dúzia de anos. Houve sempre entre eles uma compreensão ilimitada e recíproco amor. Não existiam vontades da companheira que, de imediato, o sr. Beltrão, afavelmente, não concretizasse. Era, segundo todos os ingredientes e diversificadas afirmações, um casal que vogava num mar de rosas...

Por isso, quando ela adormeceu, docemente, no derradeiro sono, inundava um sorriso paradisíaco, impregnado de paz, saciedade e amor, muito amor, agradecendo a Deus ter-lhe dado tal marido, um exemplo que já tanto rareava na Terra...

O tempo não para: passa por todos e para todos... É soberbo e inexorável!

Ora, o sr. Beltrão Neiva, em finais de novembro do ano de nosso Senhor Jesus Cristo de 1980, tinha completado a bonita idade de oitenta e seis outonos! E a verdade seja dita: com uma saúde e disposição de invejar... E também ileso de grandes moléstias, pois apenas o visitaram alguns simples focos de gripe e umas constipaçõezitas,. A males graves sempre esteve imune.

Pelos princípios de dezembro desse ano, começou a sentir-se cansado e a desequilibrar-se, quando se movimentava, quer na rua, quer em casa.

Telefonou a um médico conhecido, que o aconselhou a providenciar uma consulta e até, se quisesse, poderia aparecer no seu consultório. Comunicou aos filhos e, sem delongas, transportaram-no a uma clínica próxima e fiável, ficando nela internado. Feitos os rotineiros e os mais sofisticados exames médicos e terapias adequadas, dois dias antes da noite de Consoada, o sr. Beltrão Neiva, serenamente, como um patriarca, entregava a alma ao seu Deus e Criador, que, ao seu modo e proveito, seguiu no percurso da longa existência.

Tratados todos os trâmites, o corpo do sr. Beltrão Neiva foi trasladado para a ampla capela mortuária da sua firma identitária (asseado e bem construído edifício para o qual contribuiu com um pecúlio destacadíssimo dos demais doadores).

Houve o velório, a que compareceram gentes de todas as classes sociais. Os três filhos e a irmã iam recebendo os convivas, que apresentavam sentidas condolências, conforme o grau de amizade que os ligava aos familiares do estimado defunto. Havia lágrimas sentidas, frases solidárias e respeitosas de consideração, palavras de conforto, de compreensão. Os sensíveis e agradecidos operários até se atropelavam para dizer o último adeus ao seu patrão e benfeitor, vertendo lágrimas de sinceridade e apreço...

Cerca de uma hora antes de organizar-se o cortejo fúnebre, que iria da capela mortuária para a igreja matriz, quando se aglomerava mais gente na câmara ardente e mais os descendentes se abeiravam da luxuosa urna, de repente, dois cavalheiros e três damas, saídos não se sabia de onde, chegados de parte incerta, bem trajados, com o rigor a que obrigava tal ato, aproximaram-se, à vez, ficando os cinco juntos do esquife, desatando a carpir e a pronunciar palavras de sofrimento e dor - com civilidade e cortesia, comedidos e respeitosos:

"Pai!, pai!... Querido pai! Adeus!..."

Os filhos, de início, não ligaram. Porém, perante a repetição de tais lamúrias, acercaram-se dos intrusos e, com seriedade, o cabeça de casal tomou a palavra e, em surdina, proferiu:

"Desculpem, mas estão enganados, porque, em absoluta certeza, este não é o defunto a quem dirigem as expressões doloridas. Este é o nosso pai e aqui estamos nós, os seus quatro descendentes..."

E os três irmãos e a irmã, afastando-se para um aposento contíguo àquele onde repousava o cadáver, entre si e um tanto ou quanto escarninhos, trocavam impressões, murmurando:

"Que coisa esquisita: parece um grupo organizado que vem carpir e ganhar o seu soldo." - referiu a irmã.

"Se calhar, embora o não pareçam, pois todos trajam com decência e a propósito do ato; uniram-se mesmo só para estragar a seriedade deste momento lutuoso." - prosseguiu o irmão do meio.

"Na verdade, ouvindo-os, dá a impressão que se trata de gente que veio cá parar somente por engano. Outra coisa não pode ser!" - frisou o filho caçula.

"Bem," - falou o irmão mais velho, procurando imprimir às palavras um tom solene, desejando talvez pôr fim ao lamentável episódio - "Temos que regressar à sala onde repousa o nosso pai e, no final das exéquias, com subtileza, tentaremos chamar à fala o grupo dos cinco membros que choramingam e tratam por «pai» o nosso querido e conceituado progenitor..."

Em fila indiana e exibindo semblantes sérios e de profundo respeito, reentraram na sala e voltaram a aproximar-se da urna...

Faltava muito pouco tempo para o cortejo deixar a capela mortuária. E, de novo, agora com mais pesar e mais lacrimejantes, os aparecidos forasteiros gemiam e balbuciavam, ora a solo, ora agrupados:

"Pai!, querido pai. / Meu bom pai. / Adeus, nosso saudoso pai amigo!"...

Organizou-se o cortejo e os cinco elementos atrás, bem coladinhos à urna, lado a lado com os quatro filhos do sr. Beltrão, em silêncio e reverentes, acompanhavam o féretro...

Chegados à igreja, o respeitável sacerdote cumpriu todas as formalidades, na homilia teceu rasgados elogios à vida e obra do extinto sr. Beltrão, rotulando-o de homem bom, de extraordinário cristão, pai de família exemplar, modelo da família de Nazaré a imitar, que tanto a esposa, como os quatro filhos, trabalhadores, fornecedores e clientes respeitavam e tinham na conta de um cavalheiro excecional, em toda a aceção da palavra...

Por fim, a urna foi conduzida ao cemitério e, no momento certo, depositada no antigo jazigo de granito, propriedade de antigos avoengos.

Saídos do Campo Santo, como polos que se atraem, os nove saudosistas, sem que tivesse sido previamente combinado, encontraram-se no espaçoso adro da igreja.

Claro está que nem os supostos filhos ilícitos se conheciam, nem os legítimos supunham a sua existência...

Num local reservado e para onde todos se dirigiram, decidiu-se pela exposição, aleatoriamente, de cada um dos membros presentes.

Adiantou-se um cavalheiro, mais que quarentão, e apresentou-se:

"Chamo-me Beltrão Seixas de Neiva, meu pai perfilhou-me, bem como à minha irmã Josefina Clarinda e nascemos em Coimbra, com a diferença de cinco anos, antes dos meados do século passado. A nossa mãe quando namoriscou o nosso pai era divorciada de um fornecedor de matéria-prima da "Beltrão & C.ª, Lda.". Sou formado em Direito e exerço a profissão, ao passo que a Clarinda se especializou em cardiologia e é assistente no hospital da universidade da terra que nos foi berço. Foi o pai quem custeou todas as despesas das nossas formaturas, assim como todo o percurso do nosso viver."

De imediato, um homem alto e aprumado expôs o seu caso, nestes termos:

"Tenho quase meio século de vida. Sou filho de Vila Real de Trás-os-Montes e a minha mãe enviuvou, quando contava somente vinte e sete anos, de um alferes do Exército, que morreu em combate, numa das então possessões portuguesas, na África Oriental. Sou engenheiro e professor universitário. Ao nosso pai tudo devo, porque me perfilhou e nunca regateou um vintém para a minha sobrevivência e formatura. Chamo-me Beltrão Rodrigo de Neiva e sou descendente único."

Uma das duas senhoras que faltavam, pausadamente, informou:

"Somos irmãs gémeas, a rondar as cinquenta primaveras, nascemos na cidade do Porto, onde cursámos na Escola de Enfermagem, passando a exercer a nossa profissão no Hospital de Santo António. A nossa mãe, ao tempo que conheceu o nosso pai, era solteira e datilógrafa de uma empresa, cliente da "Beltrão & C.ª, Lda.". Chamo-me Josefina Edite e a mana Josefina Adelaide. Somos perfilhadas e tudo o que temos e os gastos efetuados na preparação para o futuro, ao bom coração do pai devemos."

Estava tudo estupefato! De repente, não eram três irmãos e uma irmã, nascidos de uma união lícita, mas havia que acrescentar mais três irmãs e dois irmãos, de relações ilícitas, com três mulheres!

E, inesperadamente, a filha lícita, tartamudeou:

"Bem..., vistos os casos, já não são quatro os herdeiros do sr. Beltrão Neiva, mas sim nove... Espantoso! Em poucos instantes formamos uma prodigiosa prole..." - e forjou um sorriso ténue e amarelo, no que foi seguida pelos dois irmãos mais velhos.

Mas logo, com voz forte e convincente, atalhou o irmão mais novo:

"Claríssimo! Se todos fomos perfilhados pelo mesmo pai, a todos assistem os mesmos direitos; e daqui não há que sair. É puro como os lírios dos montes e transparente como as águas nascentes... Que seja feita justiça e engrandeçamos a obra e o nome do nosso amado progenitor, que, no que toca aos seus deveres de paternidade, se não refugiou na covardia, agindo como um perfeito gentleman..."

O advogado, outra vez em primeiro lugar, atalhou:

"Eu e a minha irmã Clarinda não queremos coisa alguma. Contentámo-nos com o que foi facultado pelo saudoso pai e reverenciamo-nos perante a sua memória..."

Quase sem deixarem o meio-irmão terminar o discurso, em uníssono, as duas gémeas acrescentaram:

"Comungamos da disposição dos nossos irmãos: sentimo-nos largamente compensadas pelo carinho e bens materiais com que sempre fomos obsequiadas pelo pai. Nada desejamos mais..."

O professor universitário, com ênfase, mas singelamente, ajuntou:

"Não podia estar mais de acordo com as decisões tomadas pelos manos. O nosso pai, ao dar-me um curso superior, legou-me um tesouro precioso e de preço inquantificável..."

Entreolhavam-se os nove rebentos da mesma cepa... E todos emudeceram... Intimamente, todos consentiram um turbilhão de inesperados pensamentos e reações... E todos, levados por uma incomparável onda de solidariedade, instintivamente, se abraçaram!...

Afinal de contas, havia um fortíssimo elo que os unia ao bem-sucedido e rico industrial barcelense, o sr. Beltrão Neiva...


2 de agosto de 2013


 Voltar Índice