Barca de Esperança


ÍNDICE

 

Prefácio

Cais Dos Devaneios

Minha Barca de Esperança

Meditação

Sublimidade

Homenagem

Heróis de Portugal

Senhor Bom Jesus dos Milagres

Ao Sabor da Fantasia

Versos para Coimbra

Toada do Rio

Grito Perdido

Último Beijo

Cai a Noite

Novena do Menino

Tempo de Natal

Barquinha

Água Corrente

Barco a Remos

Vogando

Reminiscências

Naquele Tempo

Na Montanha

Imagens

De Volta ao Passado

Andorinha

Página do meu Diário

Evocação

Versos Esquecidos

Adeus à minha Musa

Recordo

De mãos dadas

A Rosa

Recensões

Alfobre de Amores

Cantando Jesus Menino

Grinaldas para Jesus

 


 

 

À memória do meu compadre
e querido amigo
Eng. Artur Augusto F. S. Saldanha

 

À minha Mulher
Aos meus Filhos

 

 

 

PREFÁCIO

 

 

Que há-de ser a Arte senão um desvio à regra da interpretação apolínea da vida? Nesta luta quotidiana pela sobrevivência, o Homem, na sua expressão individual, fugindo incessantemente ao padrão racionalizado da adequação e da ordem - sempre transitório e axiologicamente infundante, (quantas vezes talhado à regra política do momento), - o Homem, dizia eu, sente uma irreprimível necessidade de se ancorar, como ponto de partida existencial, num indiferenciado dionisíaco. É esse indiferenciado existente antes e depois do concreto momento histórico, as "nascentes", se assim me posso exprimir, que constitui a matriz fundante do impulso gerecente da experiência estética. É por isso que o autor, o poeta, o criador, se assumem sempre numa dimensão trágica: trágica enquanto se movem, quase sempre, num tempo e num espaço que não constituem referências reconhecíveis ou aceitáveis para a generalidade dos seus coevos; trágico porque, mais sensível à rejeição dos padrões uniformizados, carrega mais densamente sobre si as formas pulsantes e os imediatos alertas da vida; trágico porque, num compromisso mais alto, se empenha afadigadamente no encontro da forma discente daquele pulsar profundo da sua ipseidade ou do seu sentimento; trágico, finalmente, porque viajando incessantemente entre os altos planos da graça e os palácios cavernais do humano se há-de servir de uma liberdade nua, virgem, que usa no momento grave e único, do expressar de novas convicções edificantes, do incessante partejar do mundo.

Nesta luta antitética e de contrários em que o Homem hodiernamente se assume, devemos reconhecer que  a geometria pensante do cartesianismo vastamente triunfou.

Vivemos hoje de interdependências funcionais, isoladas num vasto mundo que se auto-legitima e se auto-justifica, mergulhados num monstro que incessantemente nos devora, sem que o possamos dominar à medida de cada uma das nossas concretas exigências e anseios. Perdeu-se Dionísios ficou-nos a perspectiva asséptica da razão. E esqueceu-se que o Homem mais do que dever é dever-ser, e que quando se exprime nas suas camadas mais densas quase sempre o faz com o irreprimível impulso do sentimento. Foi preciso que Damásio, o português, lembrasse ao mundo esta verdade primeira: o homem também pensa com o coração! Tal como na mente, também este deve ser considerado como um gigantesco telescópio donde, através do acto de criação, se há-de entrever, ou nos há-de chegar, através da obra de arte, a fantástica substancialidade do sujeito humano. Para aquém do que é divino, o Homem, na sua irredutível imanência, não pode ser pensado senão na sua espontaneidade absoluta. Observando com perspicácia, sentindo como um danado, procurando captar e viver aquilo que já perdeu ou ainda não tem. Já lá dizia Montaigne: "quando se não tem o que se ama, ama-se o que se tem".

Contrariamente à regra comum aceite, para a qual não há verdade absoluta nem erro absoluto, o artista valoriza a sua verdade estética não porque ela seja boa para a sociedade ou porque corresponda ao conhecimento de que o comum das pessoas são possuídas. Intrinsecamente repugna-lhe a ideia de que os valores não excedem o que, no momento, seja considerado padrão "standard" para a sociedade. É por isso que a Arte enquanto meio de comunicação de verdades se não pode confinar a uma estrutura de dissimulação exigida pelas conveniências da ordem social. A verdade do artista nunca pode consistir na aplicação de convenções. Como dizia Nietzche tudo o que é Vida quer manifestar a sua força. E só o Homem, que também nasce para manifestar a sua vontade de poder, a pode transcender certamente através da reflexão, certamente através do pensamento, mas também através da Arte que buscada na alcafurra dos sentimentos e da vida se assume, na sua funda inquietude, como uma outra forma de superior manifestação, de insubstituível densificação do humano.

Ser artista é, pois, ser diferente. Alguém que não se sente constrangido ou obediente a puros ideais transcendentes incognoscíveis e indecidentes mas que se constitui na sua radical e inescapável condição humana de diferença, de conflito, que são sempre os inelutáveis maiores sinais da vida. É por isso que no seu sentido mais profundo uma obra de arte se, por um lado, se assume como padrão de beleza, de conformidade, de satisfação estética, por outro, se realiza sempre, porque a contém, numa crítica radical ao momento histórico, uma nova dimensão explicitadora da liberdade na assumpção de um novo plano da condição humana. E fá-lo ainda que essa outra crítica, essa outra forma de experienciação de liberdade, se assuma num não-dado, num desvio ao presentificado.

Vivemos hoje tempos revulsos. A técnica, o progresso, a representação simbólica que integra o nosso universo psíquico, distanciaram-se já tanto de nós, do cidadão vulgar, que nos sentimos espavoridos, náufragos de uma onda civilizacional que se dilata incessantemente, que se auto-justifica e auto-legitima, mas que nos deixa, tantas vezes atónitos e irredutivelmente solitários nas margens de cá desse fantástico Rubicão.

E nós, indecisos, levantados no imenso areal da Vida, como velhos mastros na areia, longamente hesitamos na travessia, detemo-nos até ao limite, junto às margens do turbilhão. Ancorados ainda no pedestal que somos, aspirando longamente os últimos ventos de substância de uma liberdade absoluta, cósmica, nos últimos impulsos geradores de um mundo talhado na miríade de ressumos que compõem o candil dos nossos afectos, nós hesitamos em viajar para esse "great stage of fools", para usar a expressão shakespeariana. Deste cais de vastos silêncios, arrimado ao seu subjectivismo sentimentalista, brota a poesia de José Fernandes.

O poeta José Fernandes, como tantos de nós, receia também esse monstro semovente, feito da regra da oportunidade e da conveniência, esse monstruoso ser tentacular que no seu constante arfar incessantemente se transforma, se auto-constroi, se auto-destroi, que tentacularmente a todos nos abraça e que quando bem entende, ao abrigo de uma lógica intrínseca de colossal molosso, nos coloca à margem, numa velha e imoral redoma de tempo. A nós, aos velhos, aos novos, aos nascituros, às crianças, a todos. E nós que bem o vemos, que também o conhecemos - ou deveríamos conhecer -, tal como Ulisses, em incessantes regressos a Ítaca, só com o sentimento, com os fundos gorgulhos da memória, lhes poderemos resistir. Aqui reside o nosso drama. A luta entre o ser e o ser mais; a luta entre o ser e o dever-ser. A necessidade de nos inscrevermos no futuro sem perder as raízes em que nos reconhecemos.

Hoje, tal como em "1984" - célebre romance de Orwell - deixem-nos que nos detenhamos  num  largo minuto de ódio ao "Big Brother", ao monstro imoral que mata as raízes do afecto e do amor; que polui os rios; que nos traz apressados, que nos desinça dos nossos campos, das nossas crenças, da verdade, da beleza, das crianças, dos idosos, da família, do coração, da unção primeira e virginal com que nascemos e a que todos temos direito.

No corredio dos tempos, dar à estampa um livro iluminado pela singeleza das coisas simples, por entre esta áspera fuzilaria a que chamamos civilização, é um momento grave de combate. E eu hoje entrevi, no seu posto sagrado, sob um luar suave de um Janeiro alto, defendendo outras Termópilas, um velho soldado hoplita, por entre um suave coro de crianças, erguendo um cântico mágico e doce, avisando todos aqueles que, inebriados na travessia da vida, vazios dos outros e perdidos de si, não sabem que também vão morrer. Evoé, pois, à "Barca de Esperança".

Se na análise literária de um texto relevam o conteúdo e a forma é através desta que o pensamento se torna inteligível. Na magia de seu modo de dizer o Autor, através da escolha do vocabulário, da ordenação frásica, da justeza da expressão lógica, dos ornatos de estilo, da musicalidade do conjunto, não deixa de impressionar vivazmente as qualidades estéticas do leitor.

Bem haja, pois, o poeta José Fernandes que, na sua simplicidade infinitamente comovente, nos soube deixar ao lume da consciência um livro que arrancando do lirismo telúrico regional é sugestivamente rico em sensações visuais, fundamente catártico no seu poder emotivo, sincero nos temas que trata, vigoroso nas sendas de novos horizontes que, no seu esplendor discente, é capaz de abrir ao leitor.

 

Braga, Janeiro de 2000

 

João Lobo

 

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CAIS DOS DEVANEIOS

 

 

MINHA BARCA DE ESPERANÇA

 

À Felicidade

 

Minha Barca de Esperança
vai p'ra longe, faz-te ao mar:
Voga célere e avança,
que eu não quero mais penar...
 

Transporta-me o pensamento
por esses mares além
e companheiro do vento
não regresse atrás, também...
 

Levo a barca carregada
de ilusões e mil enganos,
a fortuna amealhada,
no curso de tantos anos...
 

Mais levo: amor e ternura,
recordações e saudades,
orgulho, fé e doçura,
e um monte de ansiedades...
 

Minha Barca de Esperança
vai p'ra longe, faz-te ao mar:
voga célere e avança,
que eu não quero mais penar...
 

E tanto à barca pedi
que ela as velas desfraldou
e só longe percebi
que nem tudo transportou...
 

Ficaram em terra os sonhos,
castelos no ar erguidos:
remorsos loucos, medonhos
me avivaram os sentidos...
 

Era tarde, pois voava
no rumo que desejei
e o batel não aguentava
com tudo que carreguei...
 

Então, com desejo e medo,
num sussurro, quis gritar:
- "Pára, que eu tenho um segredo
e quero-to confiar!"
 

E logo se fez bonança,
p'ra eu poder atracar:
- "Minha Barca de Esperança,
não mais te faças ao mar!"
 

Braga, Outubro de 1975

 

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MEDITAÇÃO

 

Ao Sr. José Artur da Rocha Peixoto e esposa

 

Debruço-me na janela,
apenas para falar
com os mistérios da noite...
 

São os gritos de uma estrela,
que se muda, a cada instante,
a exibir, com vaidade,
um brilho de diamante!
 

São os murmúrios das águas,
correndo, com mansidão,
a contar sentidas mágoas,
passando, de pedra em pedra,
a marulhar, docemente,
e a abrir novos horizontes
numa labuta insistente!
 

São árvores, de mansinho,
a mover densas folhagens,
a sombrear o caminho!
 

São as sombras, que se adensam,
projectam e amedrontam
quem na noite se entranhou!
 

É o tombar de uma folha,
que o vento, só de passagem,
da verde planta apartou!
 

É a brisa, com doçura,
minhas faces a afagar!
 

É o vento, muito ao longe,
a gemer e a soprar!
 

É a Lua, muito branca,
com um manto de invejar,
a espargir sobre a Terra
raios belos de luar!
 

É uma orquestra infindável
de vozes próprias da noite:
de ralos, grilos e sapos,
do vento, folhas e brisa,
cobras, morcegos e mochos,
e outras muitas, à porfia,
em distinta melodia!
 

É tudo, enfim, a louvar
o Autor de tais maravilhas!
 

Ó noite, profunda e bela,
que eu contemplo a meditar,
debruçado na janela,
que mistérios em ti há?!
 

Noite feita de silêncios,
de sombras, de confissões,
de remorsos e luar,
que mistérios em ti há?!
 

Noite do brilho de estrelas,
do tombar de folhas várias
e do vento a ulular,
 

que mistérios em ti há?!
 

Noite dos crimes, dos sonhos,
das águas a marulhar,
da brisa, mansa, que afaga,
que mistérios em ti há?!
 

Noite de amor, da pureza,
de orquestras harmonizadas
e meditações profundas,
que mistérios em ti há?!
 

Ó noite da escuridão,
o mistério descobri:
nesse escuro que me habita
tu és formada por mim
e eu sou escravo de ti...
 

Braga, Fevereiro de 1975

 

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SUBLIMIDADE

 

Aos meus irmãos

 

Essa palavra tão bela,
inundada de ternura,
dá prazer pronunciar!
Muitas vezes, esquecemos
que nome assim tão sublime
equivale ao nome Mãe!
 

Pai... Eu te venero e amo,
te desejo, adoro e quero,
como à Mãe, que me gerou...
Te recordo, como a ela,
e agradeço os sacrifícios
que, em cada dia, incansável
e alegre fazes por mim...
 

E por entre esta ternura,
que de todo me une a ti,
passo o tempo a meditar
em factos que já lá vão,
ou outros, que existem hoje,
ou os que nunca existiram...
E é um álbum de imagens,
que me aparece na frente:
 

Na distante meninice
vejo-te a pegar-me ao colo
e a beijar-me com deleite...
 

Ó meu Pai!, volta a ser o que eras dantes!:
Leva-me pela mão e vem brincar comigo!
Vamos fazer corridas,
debaixo das videiras!
Vem espremer os bagos
na minha boca, a sorrir!
 

Colhe rosas perfumadas
e desfolha-as sobre mim!
Faz carrinhos de madeira
para alegres diversões!
Leva-me às romarias
e compra-me brinquedos!
 

Volta, Pai... Vem aturar
as imensas traquinices
e perdoar os amuos,
porque a revolta e maldade,
que me habitavam, já partiram para longe,
lá para a Ilha do Esquecimento!
 

Perdoa-me, como eu já perdoei
o Bem que me fizeste e que eu julgara Mal,
os meus justos castigos...
 

Faz-me pequeno e revive,
que eu torno a ser a criança
de olhar cândido e gentil
e sorriso de inocência...
 

Depois, abri nova folha:
 

Vi-me um pouco mais crescido,
talvez já com pensar de homem...
Foste obrigado a partir
e a amassar, com o suor,
nosso pão de cada dia...
 

Um dia, porém, chegaste!
E que alegria senti
ao ter-te, de novo...
 

Mas que mudança
se tinha operado:
mais cabelos brancos,
a barba crescida,
triste e abatido,
morto de saudades...
Como me pareceu breve
o nosso tão longo abraço
e bem curtos os momentos
que juntos passámos!
 

Esquecidos do Passado
abríamos o Futuro,
assim sempre de mãos dadas
e, pedindo, em prece humilde,
p'ra que jamais o Passado
turvasse as puras águas do Presente...
 

Ah, sim, meu bom Pai,
que feliz o reencontro!
Feliz, mas por pouco tempo,
porque tiveste que partir, de novo!
 

E prossegui a folhear o álbum,
repetindo-se, sem conta,
as partidas e regressos...
 

Até quando terei eu
de folhear estas páginas
e ver-te regressar
e, em seguida, partir?...
Para quando, para quando,
o teu regresso final?!
 

Sobreposta, Março de 1975

 

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HOMENAGEM

 

Aos meus familiares maternos

 

Por que partiste, ó minha outra Mãe,
se ainda não havia a tua vez chegado?
Por quê, num curto instante, a sombra triste
e um enorme vazio dos braços e colo,
que em tempos de petiz me tinham embalado?
 

Bem pequenino te conheci...
p'ra cada neto, um pouco de tudo:
uma palavra, muita ternura,
sorrisos belos,
contos de fadas,
que habitavam magníficos castelos!
 

Histórias verdadeiras
de roubos e ladrões
e, p'ra nos adormecer,
a existência de papões...
 

E da ramada pendiam cachos
de uvas brancas e pretas,
que tu colhias,
depois 'spremias
nas nossas bocas
em lugar das chupetas!
 

E àquela lareira,
com doce calor,
os netinhos, aninhados,
se aqueciam e brincavam,
sob a bênção salutar
do teu infinito amor...
 

Mais os conselhos, dados com siso,
numa voz grave,
por entre um sorriso...
 

E mais o conforto,
a cada momento,
de uma guloseima
e um beijo de mãe,
nas faces poisado,
a pedir, em troca,
da angélica boca,
um beijo, também...
 

Por que partiste, ó minha outra Mãe,
se ainda não havia a tua vez chegado?
Por quê esse gelo,
nas santas mãos, calosas e inertes,
que no decorrer dos anos
me tinham abençoado?
 

Mas enfim, Avó,
ó minh'outra Mãe,
eterna imagem no meu espírito,
talvez devesses partir:
há muito vivias só
e, por certo, do Além,
aquele que te quis
e fizeste feliz,
chamasse e quisesse
que a ele, de novo,
te fosses unir...
 

Minha saudade!, minha tristeza!...
minh'outra Mãe, nunca te esqueci:
sou feito de ti,
sou resultado
da tua carne e sangue,
e ternura, e amor,
dos conselhos tão sábios
e lindas orações
que, com meiguice, aos poucos,
semeavas em nossos corações...
 

Por mais que diga, por mais que faça,
não consigo exprimir o quanto pretendia...
 

Jamais te esquecerei e a tua imagem
há-de permanecer na minha mente,
como benquista e doce miragem...
E, em sincera homenagem,
 

pela bênção, que de longe,
do Paraíso, sem dor,
e ainda pelo amor
que aos teus, que ficaram, dás,
numa prece, de fervor,
dizemos: "descansa em paz!"...
 

Sobreposta, Abril de 1975

 

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HERÓIS DE PORTUGAL

 

Ao padre Artur V. Marques

 

Heróis lembrados, de outrora,
heróis de sempre e de agora!
 

Portugal, terra de heróis,
da paz, no mar e na terra:
de soldados, destemidos,
a lutar em feroz guerra!
 

Portugal das caravelas,
a sulcar o mar profundo,
a descobrir e a dar
os "novos mundos ao Mundo"!
 

Heróis no mar e em terra;
heróis da paz e na guerra!
 

Terra dos desbravadores
dessas florestas, sem-fim,
transformadas, pouco a pouco,
em encantador jardim!
 

Pátria da paz, da Cruz,
a guia, na dianteira,
dos missionários idos
a pregar na terra inteira!
 

Heróis por Cristo e do Bem,
heróis, longe e cá, também...
 

Minha Pátria de heróis santos,
caídos a defender
o Cristo, que tanto amavam,
por quem iam combater...
 

E do Bem, tão espalhado
pelas terras conquistadas
e que, com perseverança,
seriam catequizadas...
 

Heróis do País velhinho
mostrai o melhor caminho...
 

Ó Passado glorioso
do meu lindo Portugal,
aponta, hoje, aos teus filhos,
um verdadeiro Ideal!,
 

todo feito de justiça,
de progresso e bem-estar,
de amor, de paz e concórdia
e alegria em todo o lar!
 

Heróis lembrados, de outrora,
heróis de sempre e de agora!
 

Braga, Abril de 1975

 

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SENHOR BOM JESUS DOS MILAGRES

 

À memória do
Rev. Pároco J. J. Esteves

 

(Há tempos que trazia em mente a composição de um poema simples, que falasse do Senhor Bom Jesus dos Milagres, Imagem muito querida, que se venera na freguesia onde nasci, Santa Maria de Sobreposta.

A oportunidade surgiu. E, em memória do seu principal devoto, o humilde doador da sacra Imagem, que se encontra exposta na igreja paroquial e se tornou num local de visita obrigatória, devido ao reconhecimento das inúmeras pessoas que O buscam, que n'Ele crêem, se Lhe entregam de alma e coração, que Lhe revelam as suas mágoas, ambições, anseios, martírios, privações, misérias, sofrimentos e múltiplos problemas, porque acreditam que apenas Ele lhes pode valer, nas imensas dificuldades que a Vida comporta, e por mim mesmo, a quem tantos favores tem concedido, eis-me a dar um sincero testemunho da minha grande fé e devoção ao Senhor Bom Jesus dos Milagres.

O que escrevi em versos pobres, mas sentidos, corresponde a uma descrição penosa e fiel do Sr. José Antunes de Sousa e Sá, o devoto doador e excelente amigo, que há meses partiu para a sua derradeira morada. Vivi, com muita intensidade, a sua história verdadeira e constatei-a em algumas estrofes modestas, delicadas e comoventes escritas e regadas com ardentes lágrimas pelo brioso Combatente da Primeira Grande Guerra Mundial).

 

 

Meu Bom Jesus dos Milagres,
na cruz pregado por mim:
sei que és feito de ternura
e choro por ter-Te assim...
 

Recorro nas aflições
ao teu poder de bondade,
pois vales a quem Te busca,
havendo sinceridade...
 

Na minh'aldeia de origem
és muito amado, Senhor,
e todos, em Sobreposta,
Te consagram terno amor!
 

Dos que para longe partem,
em tudo, és o protector
e, em cada dificuldade,
Te lembram e dão louvor!
 

São os muitos emigrantes,
lá longe, em terras estranhas,
a pedir sorte e que em breve
matem saudades tamanhas!
 

São os soldados, briosos,
distantes, no Ultramar,
fazendo várias promessas,
para a morte os não levar!
 

São os que ficam doentes,
ou têm problemas graves,
que Te procuram, chorosos,
p'ra ver os males suaves!
 

Todos, enfim, aparecem,
vindos de longe e de perto,
esperançados que Tu
lhes darás remédio certo!
 

O início da devoção
há tempos teve lugar
e, para os que não conhecem,
eu posso a história contar:
 

Um filho de Sobreposta,
honrado trabalhador,
que nas fainas campesinas
se banhava com suor,
 

viveu, humilde e feliz,
os seus tempos de menino.
Chegou a idade da tropa
e foi cumprir seu destino!

Levava dentro do peito
um coração a bater,
mais a amargura e certeza
de não faltar ao dever...
 

Era a Guerra de Catorze
e ele, como bom soldado,
(e outros muitos companheiros),
para França foi mandado!
 

Nunca desejou a guerra,
que era dado à boa paz:
mas, quem é simples, morrer,
perto ou longe, tanto faz,
 

embora os seus pensamentos,
nessa crua e feroz guerra
fossem vir a ter o fim
na sua distante terra!
 

E as tristezas e saudades,
tantas lágrimas choradas
por aqueles que ficaram!:
recordações abafadas,
 

de tão curta mocidade...
E que profundo pesar
dos olhos húmidos, vistos,
de sua mãe, a acenar!
 

Sua mãe! Essa mulher
que, um dia, lhe dera a vida,
ele tinha que deixar,
rasa de água e dolorida!
 

E, junto dela, os amigos,
o pai, a quem tanto amava,
os irmãos, em grande pranto,
mas ele, também chorava...
 

Um crucifixo e medalha,
bem firmes, no peito nobre
e alguns santos na carteira
 

- grande fortuna de um pobre!
 

Era tudo quanto tinha,
naquela manhã, renhida,
quando ao seu encontro veio,
injusta bala, perdida...
 

Ao vê-la julgou morrer
e na mente um só pensar:
súplicas ao crucifixo,
para a vida lhe salvar!
 

A bala bateu em cheio
na pequena cruz, amada,
nada atingindo, portanto,
só a pele chamuscada!
 

Sobre a terra ajoelhou,
em prece de gratidão,
aos beijos no crucifixo,
escudo do coração!
 

E, nesse instante, fez voto
de, na vida, sempre honrar
o Bom Jesus dos Milagres
e o milagre assinalar...
 

E, passados alguns anos,
cumpriu, então, o pensado:
mandou fazer bela Imagem,
com Jesus crucificado!
 

Linda Imagem, delicada,
na igreja da sua terra,
para lembrar, no futuro,
a Primeira Grande Guerra...
 

Guerra feroz, desumana,
onde tantos companheiros
foram tombando a seu lado,
tendo os dias derradeiros...
 

E o Senhor Bom Jesus é,
hoje, muito procurado:
promessas e mais promessas,
por todos, sempre louvado...
 

Dá grandeza à Freguesia,
p'los milagres que tem feito
e ali se encontra a Relíquia
que o crente trazia ao peito...
 

"Sou Teu devoto, também,
meu delicado Jesus,
e sempre trago comigo
uma pequenina cruz!
 

E nas minhas aflições
Te recordo, humildemente,
e sinto em mim a certeza
que estás em tudo presente!
 

Por mim, e pelos demais,
pelo muito que tens dado,
Te digo, em prece de fé:
- Meu Jesus, muito obrigado!"
 

E hoje e sempre, ó Sobreposta,
tu ostentes e consagres
essa imagem de carinhos
- o Bom Jesus dos Milagres!!!
 

Sobreposta, Maio de 1975

 

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AO SABOR DA FANTASIA

 

À Minha Mãe e à memória de meu Pai

 

Não era mar, mas um lençol extenso
de águas paradas, frias e profundas...
Uma enorme represa, com as geradoras,
a emanar ruídos ensurdecedores
e, de tempos a tempos, perturbada
pelo surgir de uma pequena onda,
que não faz mal a nada,
ou pelo embate no cristal da superfície,
de um peixe que se elevou
e, em seguida, mergulhou...
 

Havia um barco a remos:
nele me fui sentar...
Uma ténue brisa, mansamente,
de vez em quando, me fazia recordar
 

que ainda estava vivo, pois os pensamentos
arrastavam-me para o Infinito...
Não passava, afinal,
de uma coisa mortal!
E ainda que tentasse
'squecer que tinha Vida,
a própria Vida me dizia que os meus sonhos
subiam muito alto...
 

Por entre as divagações,
no tempo recuei diversos anos,
indo parar num Maio, inesquecível,
 

(um Maio bem florido, como tantos
- mês por imensa gente desejado,
mas que eu quisera que não mais fosse lembrado)...
 

Levantei-me, muito cedo,
peguei na velha sacola
e, como sempre, cantando,
dirigi-me para a escola...
 

Era pequeno, com uns tenros nove anos...
Teve lugar a prova de passagem
e a minha professora afiançou-me
a classe imediata!
E nesse três de Maio, infortunado,
(que era uma sexta-feira de cinquenta e sete),
tinha sido combinado
que se faria a limpeza
do jardim da nossa escola:
por isso, é que cada aluno
levou o seu apetrecho
e eu levei uma sachola...
 

Quanta alegria por poder tratar as flores!
Quanta vaidade por olhar o arranjo
do nosso jardim de infância!
E é que o ar perfumado
inundava as narinas
com um odor que apenas traz o mês de Maio!
Sentia-me embriagado
com tão magnífico dia,
por um manto de flores revestido...
E, com tão grande gozo, pouco duradouro,
para casa levei um pequeno tesouro,
a um colega trocado
por um lápis colorido!...
 

E que tesouro, meu Deus!
À noitinha, sentado
num banco de madeira,
em frente ao fulvo lume da lareira,
cheguei fogo ao minúsculo tesouro,
que no bolso trazia bem 'scondido!...
 

Estrondosa explosão,
com um forte clarão!:
Tão forte e tão cruel, que foi o último
que nos meus olhos jovens penetrou
e para sempre a luz lhes retirou...
 

Depois, acendi um facho,
trémulo, que me guiou
pela vida tortuosa
e me reconduziu hoje
ao pequeno barco a remos,
 

onde pude divagar,
recuando bem no tempo,
em busca desse Maio, já longínquo,
que fez amargas lágrimas brotar...
 

Esse facho, agora forte,
no Futuro, há-de guiar,
firmes, meus passos incertos...
E com fé, muita coragem,
hei-de o abismo passar!...
 

Braga, Junho de 1975

 

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VERSOS PARA COIMBRA

 

Para o Baltasar M. S. Fernandes

 

Coimbra, princesa bela,
como tu não há igual:
teu paraíso de sonhos
tem o nome de Choupal!
 

Nos choupos, adormecidos,
canta o meigo rouxinol,
com um trinar variado,
que acaba ao nascer o sol...
 

Adormeço, deleitado,
com belo luar de prata
e escuto, embevecido,
ao longe, uma serenata!
 

E com o toque sublime
de guitarras a trinar,
mais me apraz e esquecido
mergulho em longo sonhar...
 

Lembro a Fonte dos Amores
e o Penedo da Saudade;
Santa Clara e Santa Cruz
e a velha Universidade...
 

Sonho com o grande Hilário
e oiço na Sé Velha os sinos;
e perco-me a visitar
Portugal dos Pequeninos...
 

Badala a Cabra da Torre,
paro no Vale das Canas;
esvoaçam capas negras;
cantam as lindas tricanas...
 

Depois, na Quinta das Lágrimas
ressalta à minha memória
D. Pedro e Inês de Castro
e a sua bem triste história!
 

Recordo, também, a Lapa,
sob um céu de mil estrelas
e, vagueando na noite,
oiço gemidos em Celas...
 

E nas águas do Mondego
correm lágrimas de pranto,
que rolaram, em segredo,
da velhinha Torre de Anto!
 

Ó Coimbra, quem me dera
vir a ser teu filho, um dia!:
Ter mil sonhos de quimera
e uma constante alegria...
 

Sobreposta, Verão de 1975

 

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TOADA DO RIO

 

Ao velho amigo Fernando M. Mendes e família

 

Olha o ribeiro que corre
a cantar lindas canções:
tão manso, tão delicado,
a regar os corações!
 

Oh, que pena!:
é pequenino o ribeiro
que passa na minh'aldeia!,
mas tem choupos e salgueiros
e há concertos
em noites de lua-cheia...
 

Admiram-se?! Mas por quê?...
Por ser pequeno? ...
É chamado Rio Febras,
mas não sei dizer porquê...
Sei que desliza sereno
e em noites de lua-cheia
há concertos
na minha pequena aldeia...
 

E quem os dá? ...
Ah!, quase me ia esquecendo
de o segredo revelar...
Mas todos sabem,
mesmo adivinham,
que nas noites de luar,
 

até ao nascer o sol,
sobre as águas do ribeiro,
quem canta é o rouxinol...
 

É pequeno,
muito pequeno o ribeiro,
que passa na minh'aldeia...
Contudo, é lindo!,
corre sereno!,
e há concertos
em noites de lua-cheia!...
 

Sobreposta, Agosto de 1975

 

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GRITO PERDIDO

 

À Maria Eugénia Sampaio e família

 

A barca mesmo a partir,
quando de longe gritou
alguém que também queria
ir nela, e tarde chegou.
 

A barca não esperou...
Fez-se ao mar, velas ao vento,
e, em vez de vogar veloz,
sulcava em deslize lento...
 

Coitado de quem ficou!:
Veio em louca correria
e viu desprender a barca,
levando a sua alegria!
 

Filho ao colo, desgraçada!:
Era a guerra fratricida,
odiosa, desumana,
que assim lhe impunha a partida!
 

Fugira de tudo e todos,
apenas com a criança,
fruto de feliz amor...
E na Barca de Esperança
 

viu a sua salvação...
E ao ficar só, desejou
destroçar o coração
e, longamente, chorou...
 

Braga, Setembro de 1975

 

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ÚLTIMO BEIJO

 

À minha cunhada Balbina

 

Buscando melhor fortuna,
para bem longe abalou,
com a última esperança
da mãe, que triste ficou...
 

Lacrimosa despedida
(filho único, coitada!)
e mais o luto pesado
pelo homem, jóia amada...
 

Humilde mulher do campo,
a Sorte não lhe sorria,
até que, desesperada,
disse ao filho, certo dia,
 

que não havia remédio,
para endireitar a vida,
senão, embora com lágrimas,
ao 'strangeiro uma saída...
 

E ele, mártir do trabalho,
amargo pão de rotina,
cedeu aos rogos da mãe,
indo cumprir sua sina!
 

E de em breve ter notícias
a pobre tinha desejo,
que ainda lhe fervilhava,
na face, o último beijo...
 

Mas elas muito tardaram
e, chegadas, eram más:
viagem de privações
e de fome, que em rapaz
 

nunca tinha conhecido...
Não entendia o falar
da nação onde chegara;
precisava trabalhar,
 

e até isso lhe negavam!,
de modo que não sabia
o que iria suceder,
nem dizer-lhe qual o dia
 

do envio do dinheiro,
para dar ao passador...
E terminava com lágrimas
 

e um grande beijo de amor...
 

Depois de bem decorada,
a triste carta guardou,
como relíquia, entre os seios
e, amargamente, chorou...
 

Queria melhores novas
e fartou-se de esperar:
contudo, nunca chegaram,
para a dor aliviar!
 

Vivia num sofrimento,
do calendário alheada:
se a Morte se apiedasse
era uma alegre jornada...
 

Ele, passados uns anos,
porque a Sorte lhe sorrira,
não pensou mais mandar cartas
e logo, pois, decidira
 

uma surpresa fazer
àquela por quem partira
e, de novo, ver a aldeia
donde, com mágoa, saíra...
 

Chegado, tudo mudou,
com olhos rasos de pranto,
porque o beijo para a mãe
foi depor no Campo Santo!
 

Braga, Outubro de 1975

 

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CAI A NOITE

 

Ao sr. Manuel Oliveira Moreira e família amiga

 

Cai a noite, cai a noite
na minh'aldeia singela,
a convidar ao descanso
quantos trabalharam nela,
 

desde o começo do dia,
às estrelas, ou luar,
sob um escaldante sol,
que põe tudo a sufocar!
 

Ou por tempo de incertezas,
com chuva, vento ou geada,
embora com sacrifícios
 

não se adia a serviçada...
 

Cai a noite, docemente,
voltam dos campos a casa;
pedem a bênção de Deus
na Fé, que a todos abrasa!
 

Em devotado silêncio,
no caminho ou nas herdades,
rezam três ave-Marias,
ouvindo, na torre, as trindades...
 

Depois, muito fatigados,
junto da mesa, ou lareira,
aproveitam o calor,
que sai da rubra fogueira...
 

Trabalha a roca e o fuso,
a fiar o branco linho,
enquanto que a dobadoira
vai girando, a um cantinho!
 

Recordam-se antigos contos
e pessoas falecidas;
pensa-se no amanhã
e o que se fará nas lidas...
 

Assim, todos irmanados,
decorre cada serão
nos lares donde nasci,
terra de sã devoção!
 

E só bem dentro da noite
recolhem a repousar,
porque mais um dia chega
para árduo labutar...
 

Sobreposta, Novembro de 1975

 

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NOVENA DO MENINO

 

Para o estimado amigo Domingos Ribeiro da Silva

 

Como eu gostava, em pequeno,
de correr atrás das caixas,
que as festas anunciavam
e, de lugar em lugar,
ritmicamente, rufavam!
 

Na novena do Menino,
à noite e de madrugada,
 

corriam, p'ra apreciar,
os miúdos e crescidos
e na ronda se integrar!
 

Ninguém o frio sentia,
nem chuva, nem vento, ou neve,
nem a espessa escuridão:
importava o reconforto
daquela sã diversão!
 

Hoje, ainda se mantém
e bem viva a tradição
do meu tempo de criança,
que me abrasa o coração
e de ouvi-las não me cansa...
 

Sobreposta, Dezembro de 1975

 

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 TEMPO DE NATAL

 

Para o Domingos Antunes Mendes

 

As ruas abarrotam-se de gente,
que se atropela, retrocede, avança,
p'ra chegar primeiro onde pretende.
Desde o mais rico até ao mais carente,
mesmo em tanto lidar, ninguém se cansa
de tudo ornar, como melhor entende!
 

As lojas 'stão pejadas de brinquedos,
que encherão as crianças de folguedos:
elas confiam que aparecerá,
durante a noite, o velho Pai-Natal
e que lindos presentes lhes trará
num recheado e invulgar bornal!
 

Mas quem não se inebria com as prendas
e com a quadra de ternura santa?
Por momentos, se esquecem as contendas,
no divino que os ânimos quebranta...
Por tudo se respira o dom da paz,
que apenas este tempo ao mundo traz!
 

Devia haver natais todos os dias,
para que não houvesse nas famílias
atritos, confusões, má fé, quezílias,
mas imperassem doces harmonias...
Excelente seria, com efeito,
que reinasse, entre os homens, o respeito!...
 

Sobreposta, Natal de 1975

 

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BARQUINHA

 

À minha professora M. Isabel Esteves

 

Barquinha de fantasia,
pintada de cor garrida,
pelo rio a deslizar,
com assobio e cantar,
de quem sabe que a alegria
é dom p'ra reter na vida...
 

Não me podes facultar,
por esmola, uma estadia,
para, feliz, desfrutar
um pouco dessa euforia?
 

A comungar alegria,
que me sustentasse a vida,
ficaria a repousar,
se em ti houvesse um lugar,
barquinha de fantasia,
pintada de cor garrida...
 

Sobreposta, Fevereiro de 1976

 

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ÁGUA CORRENTE

 

À Maria da Conceição Ferraz e família

 

Água que no rio corres,
de pedra em pedra, a saltar,
leva-me as dores, as mágoas
e sepulta-mas no mar...
No mar, mas bem lá no fundo,
para ninguém as herdar
e, mais tarde, como eu hoje,
delas se queira apartar!
 

Água que no rio corres,
vagarosa, a marulhar,
deixa um pouco de sossego
neste peito a soluçar...
Mas que fiques para sempre
a dor a balsamizar
e jamais alguém no mundo
passe a existência a penar!
 

Água que no rio corres
e p'ra trás não vais voltar,
limpa-me do que for mau,
sempre que em ti me banhar...
Se possível, o que é bom
gostaria de guardar
e não mais haja retorno
do que me martirizar!
 

Braga, Março de 1976

 

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BARCO A REMOS

 

Ao velho amigo Claudino Pinto e família

 

Na quietude do lago,
entre montes de alegria,
sentados num barco a remos,
remando, com energia,
mostramos quanto valemos...
 

Ai que momentos de afago
nos confortam ao vogar:
para trás, para diante,
ou para qualquer lugar,
que se atinge num instante...
 

É um belo festival
quando o embate acontece
numa outra embarcação:
largas ovações merece,
sendo forte a colisão!
 

Mas não há quem leve a mal
as gostosas tropelias,
porque na próxima vez,
após muitas fantasias,
se faz a quem já o fez...
 

Braga, Abril de 1976

 

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VOGANDO...

 

Para a Maria Teresa Gomes

 

1

Os sorrisos de criança
são marulhos de leveza,
ou suspiros de bonança
 

a fluir da Natureza!
 

2

A Vida é um longo rosário
que temos p'ra desfiar:
amarguras de calvário,
momentos de bem-estar!
 

3

Para as grandes romarias
se parte bem madrugada,
numa efusão de alegrias,
que alimentam a jornada!
 

4

Romarias, procissões,
feitas a lugares bentos,
para cumprir devoções,
se realizam aos centos!
 

5

Cheiram as terras a estrume
e já se ouve a cotovia:
o arado, como é costume,
no chiar se lhe associa!
 

6

Pelo tempo das vindimas,
sobe escada, desce escada:
cantigas e belas rimas
no decurso da jornada!
 

7

Espadeladas do linho,
que ainda pude observar:
na minh'aldeia, no Minho,
pouco a pouco, vão findar!
 

8

Varejadas d'azeitona,
barulhentas, com cantigas:
tudo a rolar, numa fona,
como em toca de formigas!
 

9

Agora, vão rareando
as segadas do centeio,
mas oiço falar de quando
eram trabalho e recreio!
 

10

Hoje, as nossas raparigas,
já não sabem entoar
aquelas modas antigas
 

que eu gostava de escutar...
 

11

Não posso esquecer o dia
em que minha mãe chorou
as lágrimas de alegria,
quando em casa própria entrou...
 

12

Carregado de esperança,
meu pai, um dia, abalou
e, a mourejar pela França,
o nosso viver mudou!
 

13

Nasci em certo Janeiro,
à beira de pinheirais,
o lugar onde primeiro
despedi sentidos ais...
 

14

Não quero que ninguém ouça
os gemidos e o meu pranto:
saudades da minha Bouça,
de que sempre gostei tanto!
 

15

A terra, após ser gradada,
é alcatifa, sem par,
para longa caminhada
de prazer e bem-estar!
 

16

Os ranchos de sachadeiras,
pelas frescas madrugadas,
enchem os campos, as leiras,
de cantigas arrastadas!
 

17

Pelas festas animadas
do nosso bonito Minho,
se ouvem bem repenicadas
as cordas do cavaquinho!
 

18

Quem não gosta de escutar
uma viola braguesa,
com acordes a trinar
suspiros da Natureza?!
 

19

Instrumento pastoril,
a flauta feita de cana:
é um pipilar subtil
o timbre que dela emana...
 

20

Não te afundes, bela barca,
que levas a minha herança:
atulhados, numa arca,
os tesouros de criança...
 

Sobreposta, Janeiro-Abril de 1976

 

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REMINISCÊNCIAS

 



NAQUELE TEMPO

 

Quando um dia apareceste,
entraste na minha vida...
Cobriste de ardentes beijos
minha face, ressequida!
 

Eras jovem, muito jovem,
e eu supus 'star a sonhar
e em breve nos dois senti
o amor a desabrochar...
 

Amaste-me, doidamente,
e eu assim correspondi,
até vir aquele tempo
em que muito reflecti...
 

E, por tanto meditar,
o nosso amor destruí,
pois me acusaste, dizendo,
querer eu zombar de ti...
 

Não sei, porém, explicar
o que então se consumou:
foste tu a decidir
e o nosso amor terminou...
 

Preferia nunca ter-te
encontrado no caminho
e sermos, eternamente,
tu sozinha e eu sozinho!
 

Braga, Janeiro de 1975

 

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NA MONTANHA

 

Como ficavas bem,
esquecida de ti,
esquecidos de tudo,
ao meu lado, deitada,
numa entrega total!
 

Peguei-te ao colo e amimei
o teu corpo virginal;
estreitei-te, longamente,
nos meus frenéticos braços;
beijei-te a boca ardente,
com os lábios a tremer;
afaguei-te os cabelos,
pequeninos, de cor bela;
fizemos muitas juras
de fantasia e paixão...
 

Entre nós tudo era belo!
E mesmo a Natureza, que nos rodeava,
comungava, também, do nosso júbilo!
 

A fresca relva dava-nos carícias;
os gorjeios das aves, numa sinfonia,
eram embalos e encantamentos;
a mansa brisa, com muita leveza,
reanimava-nos, de longe a longe;
a montanha, magnífica, a trajar de verde,
fraternal, protegia-nos;
e perto, o mar, espelho imensurável
de águas profundas, parecia reflectir-nos...
 

Como a hera à tosca pedra,
 

em doação, sem limites,
sentia-te presa a mim...
 

Oh, meu Amor!, com sentimentos assim puros
e um corpo virginal, a dar-se de bandeja,
nada pedindo como recompensa,
que mais se pode fazer,
a não ser adoração
e respeito p'lo tesouro
que, cheio de confiança,
se lançou nos nossos braços?...
 

Oh, céus!, e achar-se, ainda,
tanta inocência e pureza
numa mulher deste tempo,
que pela corrupção vive cercada!
Oh, Deus!, podermos encontrar alguém,
capaz de amar com essa singeleza,
que constitui o verdadeiro amor!
 

Foi assim que te julguei
e foi assim que cumprimos,
minha casta e meiga flor,
porque só um amor igual ao teu
é digno de respeito e deve ser guardado...
 

Braga, Fevereiro de 1975

 

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IMAGENS

 

Teus olhos humedecidos
feriram-me intimamente...
Espelho turvo, mas firme,
de um coração, que não mente...
 

Fizeste-me examinar
a decisão que tomei
de esquecer o compromisso
que antes contigo tratei...
 

Foi um desfile de imagens,
monte de recordações,
momentos tidos a dois,
talvez loucas ilusões...
 

E em toda a revolução,
travada na minha mente,
tudo, enfim, foi passando,
só tu ficaste presente!
 

Compreendi, afinal,
que mais uma vez errei
ao dizer que não te amava
 

e porque o disse, não sei...

Mas com os teus olhos húmidos
senti remorsos de mim
e quisera adivinhar
por que te falei assim?!
 

E quisera, meu Amor,
essas lágrimas beber,
para aliviar a dor,
que as fez aparecer...
 

Braga, Março de 1975

 

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DE VOLTA AO PASSADO

 

Em cada Maio que passa
eu recordo a vez primeira
em que Deus me fez a graça
de encontrar a mensageira
 

do amor que tem triste sina...
Ao falar-te apaixonei-me
pela meiga voz, tão fina,
e, mais tarde, declarei-me...
 

Por muito tempo sofri
as recusas que fazias...
Contudo, não desisti
e sempre me perseguias,
 

mesmo querendo esquecer...
Amei-te, e amo-te ainda,
e ninguém pode dizer
que existe mulher mais linda!
 

Braga, Maio de 1975

 

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 ANDORINHA

 

Insegura voava a Andorinha,
riscando o ar em círculos constantes
e aproveitava todos os instantes
a mostrar os motivos por que vinha!
 

Todos, porém, sabiam que Ela tinha
amores delicados - diamantes
magníficos, só tidos por amantes
 

em preciosa, típica caixinha...
 

Sempre bela, vestida de nobreza,
trazia muitos sonhos, de ansiedade
e um peito a rebentar com tanto amor!
 

Trémula, rosto feito de rubor,
caiu, mas levantou-se, com firmeza,
pois soube ser amada de verdade...
 

Braga, Junho de 1975

 

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PÁGINA DO MEU DIÁRIO

 

Busquei-te como um mendigo
que nada tem, a não ser
uma esperança incolor
e um coração a morrer...
 

Em certo dia, quis crer
que tu ias repensar
a resolução tomada
de com tudo terminar...
 

Por pouco me iluminaste
e deixaste perceber
não me teres esquecido,
e o teu amor reaver...
 

Reconfortado, pedi
p'ra contigo me encontrar!,
mas arranjaste desculpas,
p'rò pedido recusar!
 

Fui, porém, como pensara:
sabia onde te encontrar...
Viste-me, nada disseste:
Mais me fizeste penar...
 

Afastei-me, solitário,
nada dizendo, também,
levando a amargar-me o fel,
que um triste coração tem...
 

Olhaste-me, longamente,
e nem pensaste, por certo,
que por ti alguém sofria
e o tinhas ali bem perto!
 

Antes assim, penso agora...
Já me tinhas esquecido
 

e mendigar teu amor
já não fazia sentido...
 

Mas nesse dia, contudo,
senti espinhos cravados
tão fundos, como jamais
julgara serem vazados!
 

Doeram por algum tempo...,
e meu coração pulsou,
mas de um modo muito estranho,
e outro sentimento entrou...
 

Sobreposta, Junho de 1975

 

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EVOCAÇÃO

 

Tanto procuro esquecer
e não me sais da lembrança,
rainha, mulher, criança,
entre todas, preferida;
suplico: o que hei-de fazer
a este espinho da vida?!
 

Lembro o tempo que passou,
semeado só de rosas,
e a saudade que ficou
de horas belas e ditosas...
E não me sais da lembrança,
rainha, mulher, criança...
 

Esquecer bem eu queria
teus longos e quentes beijos
e a paixão que nos unia,
cheia de ardor e desejos...
E não me sais da lembrança,
rainha, mulher, criança...
 

Também surgiram momentos
de querelas, de arrelias,
que causaram sofrimentos
e profundas agonias...
E não me sais da lembrança,
rainha, mulher, criança...
 

Foi um puro e forte amor,
que nos levou a loucuras,
mas, no auge do ardor,
se despenhou em agruras...
E não me sais da lembrança,
 

rainha, mulher, criança...
 

A este espinho da vida
não sei o que hei-de fazer,
porque procuro esquecer
e não me sais da lembrança,
entre todas, preferida,
rainha, mulher, criança...
 

Sobreposta, Julho de 1975

 

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VERSOS ESQUECIDOS

 

Tu hás-de permanecer
na minha mente gravada,
mulher formosa, a quem quis
e nestes versos cantada!
 

Tu hás-de permanecer,
pois foste a mulher primeira
que amei e a quem seguiria,
fielmente, a vida inteira!
 

Tu hás-de permanecer,
mulher, em silêncio, amada,
segredo não revelado
e, com ternura, lembrada...
 

Foi há muito, muito tempo,
início de Primavera,
quando, então, te conheci...
Contudo, a ninguém dissera
 

da muito viva impressão
que a tua imagem causou
num coração, agitado,
que, sem sossego, ficou...
 

A semente germinou,
pois era bom o terreno
e, desde então, comecei
a não sentir-me sereno!
 

E sempre, por toda a parte,
a tua voz me afagava
e como doce harmonia
os ouvidos me inundava!
 

E o teu corpo de mulher,
a cada instante, estreitava,
 

mas apenas no vazio,
pois acordado, sonhava...
 

Nesses sonhos, cor-de-rosa,
eu cobria-te de beijos:
beijos que nunca te dei,
mas eram loucos desejos!
 

E, por certo, não consigo
a mim mesmo definir
o "por quê" de tanto amor
e o modo de reagir...
 

E foi este sentimento,
que me levou a escrever
um pobre e triste poema,
para nele descrever
 

a mágoa que perturbava
meu espírito, inocente:
poema nunca sonhado,
versos com sabor dolente!
 

E, mais tarde, outros vieram
a confessar meu amor:
amor feito de ternura,
de afecto, devoção, dor,
 

de lágrimas e tristeza,
de paixão e nostalgia,
mas onde, de longe a longe,
surgem raios de alegria!
 

Foste, pois, a minha Musa,
a Deusa que me inspirou
e, por certo, jamais soube
os males que provocou...
 

Mas não: tu não és culpada
desses castelos, que ergui,
nem do amor, que cultivei,
nem das penas, que sofri...
 

Tudo se desmoronou:
tu ficaste e eu parti
sem confessar o segredo
de uma tal paixão por ti...
 

E o tempo foi decorrendo,
célere e indiferente,
enquanto se transformava,
pouco a pouco, docemente,
 

esse amor, forte e secreto,
em fraternal amizade...
 

E hoje, apenas persiste
um ténue véu de saudade...
 

Hás-de, pois, permanecer
na minha mente gravada,
mulher formosa, a quem quis
e nestes versos cantada!
 

Braga, Setembro de 1975

 

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"ADEUS" À MINHA MUSA

 

Agora, digo-te "adeus",
pedaço da minha vida,
porque tudo terminou,
quando te soube perdida...
 

Bem no fundo, alimentava
uma risonha ilusão:
voltar, de novo, a encontrar-te
e fazer a confissão
 

desse amor, que em mim nasceu
e cultivei, com ternura,
julgando não existir,
como tu, mulher tão pura!
 

Soube que tinhas partido
e, mais tarde, regressado...
E pude, então, concluir
não mais ter sido lembrado...
 

Por isso, sei que voltaste,
mas a outro pertencendo,
e eu, em lugar de esquecer,
ou mesmo odiar, sabendo
 

seres amada e feliz
sinto-me feliz, também,
e, em vez de amor, hei-de ter-te
estima, como ninguém!
 

E afinal, o meu "adeus"
não é senão de alegria,
pois foste a Musa formosa,
que me inspirou, certo dia...
 

Sobreposta, Setembro de 1975

 

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RECORDO

 

Com ternura recordo aquele dia,
em que p'la vez primeira te encontrei;
o vendaval de frases, de alegria;
o prolongado abraço que te dei!
 

Os beijos de loucura que trocámos;
as promessas de amor que nos prenderam;
os sonhos de quimera que sonhámos
e para sempre nos comprometeram...
 

Recordo que fizemos muita jura
de, até à morte, sempre nos amar;
e as súplicas, sem-fim, para a Ventura,
um dia, finalmente, nos juntar...
 

Recordo os teus humedecidos olhos
a pedir ao bom Deus não permitisse
ter fim aquele instante sem abrolhos
e p'rò rumo traçado eu não partisse...
 

Recordo que te amava e mais te amei
ao dar-te o grande beijo do adeus!
Recordo que te adoro e já não sei
agradecer um tal favor aos Céus...
 

Sobreposta, Outubro de 1975

 

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DE MÃOS DADAS

 

De mãos dadas, meu Amor,
vamos colher as amoras
que, nas bermas do caminho,
esperam as nossas bocas...
 

Colho uma, ternamente,
e coloco-ta nos lábios...
Provas, gostas e depois
pedes, numa voz ardente:
 

"Outra, mais outra, querido,
que me sabe muito bem
o fruto por ti colhido!
 

Faz-me voltar mais atrás,
ao tempo em que iniciámos
a cultivar nosso amor...
E o modo como mas dás,
 

uma a uma, com doçura,
faz renascer os desejos
da tua boca tão pura
e dos seus primeiros beijos!"
 

Braga, Outubro de 1975

 

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A ROSA

 

Quero colher uma rosa,
para te dar, meu Amor,
mas que seja bem formosa
e conserve seu odor!
 

Hei-de colhê-la, te juro,
e ta darei, sem espinho,
para saberes que puro
é também o meu carinho!
 

Quero colher uma flor,
que só te fale de mim,
de ti e do nosso amor
e forme um novo jardim...
 

Quero que guardes a rosa
que, em ti pensando, colhi
e se mantenha viçosa,
como para nós pedi...
 

Braga, Outubro de 1975

 

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RECENSÕES

 



ALFOBRE DE AMORES

 

Poesia infanto-juvenil (Junho de 1997)

 

"(...) É uma colectânea de poesia infanto‑juvenil que, através do seu conteúdo, nos reporta a um mundo de vivências reais, vivências essas partilhadas não só pelo universo das crianças, mas pelo do próprio autor.

José Fernandes alude a sensações pessoais e a situações onde o sentir e a musicalidade que lhe é inerente se revelam, onde a generosidade das dádivas simples mas significativas da vida se sobrepõe ao vazio das incongruências de certo mundo moderno e metropolitano.

Fala‑nos também o autor de solidariedade, talvez para que os leitores‑alvo desta obra se não esqueçam que há ainda valores imprescindíveis à condição humana.

Em toda a verdade, deve a produção para a infância não subestimar a importância do recurso ao carácter lúdico da escrita, à fantasia, enfim, aos sonhos que povoam esse mundo maravilhoso onde se é pequeno, mas se tem uma alma grande. E não é ainda o sonho quem comanda a nossa vida?"

 

Maria Teresa Lobato,

Braga, Abril de 1997

 

 

"( ... ) A sua poesia é a de um artista plástico, enamorado por um mundo todo ele bucólico e cintilante, fértil nas mais díspares e sugestivas sensações.É por demais interessante notar a forma peculiar como percorre toda uma fauna diversificada, presente no nosso imaginário das vivências de infância, que o poeta desperta e aviva através de uma linguagem prosaica, plena de uma sã naturalidade. Essa animização da natureza, reveladora de uma inestimável paixão pelo campo e pelas crianças, a viva descrição das suas experiências e o apego ao tradicional, são ingredientes que prendem o leitor (...).

Esta objectividade e o notório pendor para o concreto, não são, contudo, impeditivos da expressão, embora algo discreta, de ideias e sentimentos, que definem o autor como um homem solidário com os mais jovens e humildes, amigo da natureza, um apologista e defensor incondicional das tradições e,quiçá, dos mais elementares valores ecológicos.

Na sua poesia a realidade e o sonho dar‑se‑ão sempre as mãos numa marcha contínua e espontânea, sem que se afigure tarefa fácil chegar‑se a determinar até que ponto um se revela  prioritário em relação ao outro. (...)"

 

"Jornal da Vila de Prado",
09/Junho/1997

 

"Mestre na arte musical e no complexo domínio das relações humanas, J. F. S. surge‑nos em "Alfobre de Amores" como um homem que joga com as sílabas e as palavras de uma forma invulgarmente autêntica, até instintiva, gostosamente entregue  a um infinito espectáculo de sensações, transpirado o ambiente  bucólico em que temos a felicidade de estar inseridos de uma forma intensa e objectiva.

A leitura das composições poéticas em que alude à fauna e à flora típicas do ambiente rural, bem como as referências a todo um património, quadros naturais e tradições de raízes assaz profundas e que se perdem na memória dos tempos, constituem uma verdadeira viagem pelo imaginário do nosso povo.

O interesse manifestamente revelado pelo natural, pelo verso livre, por uma linguagem de sabor inconfundível porque fluente e desenvolta, com resquícios de prosa pela sã naturalidade que ostenta e pelas singelas mas sugestivas comparações a que não raro recorre, tornam a poesia do professor José Fernandes absolutamente versátil e apreciada por leitores de todas as gerações.

(...) É forçoso reconhecer‑se nos versos que com magia discorrem da sua pena uma vontade indómita de desfrutar dos prazeres da vida e de despertar os jovens e adultos leitores para essa inestimável riqueza com que o Criador nos presenteia cada dia.

 

Alfredo Pedrosa, "Escola Verde"Junho/97
(Jornal da Escola EB 2,3 de Vila Verde)

 

 

            Neste seu livro, José Fernandes da Silva prolonga uma experiência que é, simultaneamente, humana e poética. Procurando a notação de sentimentos, de emoções, num contexto de familiaridade e convívio, pede aos seus versos que o iluminem, que o revelem e lhe tragam a voz de quantos elege. Daí que, no prosseguimento de trabalhos anteriores, exprimindo-se através de um lirismo que se inscreve na tradição popular e compositiva, sobrelevem as marcas de uma pessoal relação com o tempo e o espaço, os seres e as coisas, o silêncio e os sons. "Alfobre de Amores" é, assim, desde o título, uma doação. O regresso de uma melodia aos lugares da nossa sensibilidade e do nosso afecto.

 

José Manuel Mendes
Braga, Janeiro de 2000

 

 

            "Ler "Alfobre de Amores" foi penetrar no mundo maravilhoso da minha infância. Pela mão do seu autor, José Fernandes da Silva, apequenei-me e revivi, encantada, os meus tempos de menina. Cantei e dancei, fiz diabruras inocentes sob o olhar atento dos meus pais, trepei às árvores e aos muros da quinta onde nasci, provei todos os sabores dos frutos maduros, bebi, insaciável, a água pura e cristalina das fontes, nadei no Neiva, o rio das belas trutas e corri, louca, pelos campos de erva fresca que calcava de pés descalços.

            Depois, risonha, corada de sol e prazer, descansei debaixo da velha pereira de baguim que os tempos levaram..."

 

Maria do Céu Nogueira,
Escariz S. Martinho, 26 de Julho de 1999

 

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CANTANDO JESUS MENINO

 

 

Cânticos para o Advento e Natal (Dezembro de 1997)

 

            "Este livro é (...) o espelho de uma longa caminhada (...) e o reflexo de uma alma preocupada, insatisfeita, sempre em busca de um bem melhor que ele nem tão‑pouco guardava para si porque gostaria de o ver espelhado à sua volta através da paz e do amor que transbordam dos seus versos.

            (...) José Fernandes soube captar os tremores imprevisíveis com que o Outono geme a sua intranquilidade e traduziu‑a na sua esperança de que estão embebidos estes poemas.(...)

            Realmente não há outra melhor linguagem que fale do Natal senão o carinho das palavras, a singeleza das composições e o encanto que nos fica do presépio. José Fernandes traduz nos seus cânticos a singeleza,o encanto e a nudez de um presépio autêntico."

 

A. Rodrigues,
Vila Verde, Novembro/97

 

 

 

            "Associado à época natalícia, "Cantando Jesus Menino" assume‑se como uma produção em que o filantrópico autor faz a apologia da virtude, da devoção incondicional, idealizando e poetizando o relacionamento da humanidade com a redentora entidade divina. Sob a forma de cantigas para o Advento e Natal, J. F. S. transpira um contagiante e optimizado idealismo, predestinando um mundo de mansidão, fraternidade, alegria, amor e paz, numa combinada invocação da musa de Racine e Euterpe.

            Feliz e absorvente combinação que se traduz num engenhoso e talentoso produto final e transporta um ideólogo do concreto, do humanismo e da Natureza para patamares de criatividade em que figuram, segundo o perspicaz e eloquente prefaciante, A. Rodrigues, "aqueles que ousaram iluminar a vida que se lhes escapou, gota a gota, na alma dos seus versos com o brilho do sentimento que verteram em golfadas nas suas melodias".

            Poeta com marcada apetência pelo realismo, pela meticulosidade formal, J. F. S., reputado docente e musicólogo vilaverdense, bem ao jeito da versatilidade vivencial que patenteia no quotidiano, contagiante pela energia e intensa comunicabilidade, assume‑se com mais este requintado e apurado trabalho, como o expoente municipal na arte da conjugação do verbo com a nota musical, enchendo os locais de culto e de educação com odes de extasiante sonoridade.

            Será sem dúvida nos palcos votados ao culto do mentor espiritual e alvo privilegiado desta inspirada criação (...) que estamos em crer se fará sentir toda a pujança melódico-poética inerente a esta oitava pequena maravilha de

J. F. S.".

 

Jorge Pedrosa,
"O Vilaverdense", 23 de Janeiro de 1998

 

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GRINALDAS PARA JESUS

 

‑ CEM FLORES ‑

Cânticos simples para crianças e jovens

(Dezembro de 1998)

 

            "Trata‑se de uma obra poético‑musical com que J. F. S. "verte a riqueza da sua arte na alma do seu público", afirma o Padre Ildefonso Xavier no Prefácio, um "expert" na matéria que, conjuntamente com Marlene Fernandes e Júlio Dias, dois outros prestigiados músicos vilaverdenses, produziram os arranjos para órgão. Considera o distinto prefaciador que as melodias e os textos das dez "GRINALDAS" do autor constituem "um fino arroio de águas puras que vai deixar no coração de todos o conforto e a satisfação de as ter vivido".

Adianta mesmo o ilustre reverendo de Melgaço (  ... ) que as poesias e as melodias que o livro encerra estão em "perfeita consonância", constituindo a seu ver "um todo verdadeiramente harmonioso", em que expressamente se manifesta a intenção de "colocar a arte musical e poética numa perfeita sintonia ao serviço da arte litúrgica".

Trata‑se de um labor de fino e prodigioso recorte poético‑musical, assinado pela pena de um dotado nosso conterrâneo que, mostra‑se convencido o prefaciador, "não só fazem vibrar a alma de quem os canta, cono facilitam ao espírito a comunhão tranquila com Deus".

 

"Jornal da Vila de Prado"
28 de Fevereiro de 1999

 

 

 

"Portadora de cânticos simples para crianças e jovens, a quarta obra de índole musical do Prof. J. F. revela‑se um trabalho de fino recorte estético (...).

O prezado autor acrescenta assim ao seu já considerável espólio bibliográfico mais um "álbum" de inspiradas e belas melodias pejadas de mística, de arte e poesia que, estamos certos, a julgar pela apreciação de gente avalizada, irão deliciar os seus receptores.

Constitui um relicário de soberba concepção em que se conjugam com rara felicidade a poesia, a música e a fotografia, com o mestre Pe. Luís Gavina a assinar esta última vertente e o arranjo gráfico, como sempre, com admirável perícia e requintado bom gosto.

(...) Esta novel relíquia do multifacetado docente da nossa Escola engrandece o cenário musical concelhio em termos de produção própria, constituindo‑se como um caso muito sério de criatividade em vector artístico tão carenciado entre nós, o que o torna uma personalidade de relevo do panorama cultural vilaverdense nesta última década do segundo milénio."

 

Jorge Pedrosa, "O Mourinho"

Março/97 (Jornal da Escola EB 2,3 de Moure)

 

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