ARES DE SOBREPOSTA


ÍNDICE

 

DEDICATÓRIAS

PRÓLOGO

NARRATIVAS SINGELAS

O PENEDO DA COSTUREIRA

PAGOS

PALAVRA CUMPRIDA

A SESSÃO DE FOGO

A CAPELINHA DE S. TOMÉ DE LAGEOSA

A SONÂMBULA

A FAÍSCA

O LITRO

O ÍNDIO

A CHÁVENA DE CAFÉ

O JOAQUIM D’INÁCIO

EPISÓDIO INVULGAR

ACIDENTE BRUTAL

O SE MANELZINHO DE BACELAR

O CAMINHO DAS LACEIRAS

SANTA MULHER

TRILOGIA DE TERNURAS

O “MORTO-VIVO”

A CABRA

GOSTO E NOSTALGIA

GRUPO CORAL LITÚRGICO DE SOBREPOSTA

UMA FRATERNA REMINISCÊNCIA

ADEUS A LAGEOSA

PASSEIO DE MOTORIZADA

UM TESOURO MALDITO

O RAMIRO

EXTRAVIADA

O POBRE DA CHAPA

OS NINHOS DA MINHA INFÂNCIA

DESFILE NOSTÁLGICO

SOBREPOSTA

A SOBREPOSTA

BALADA DE SOBREPOSTA

HINO-CANÇÃO A SOBREPOSTA

CANÇÃO PARA SOBREPOSTA

CANÇÃO AO RIO FEBRAS

O MEU S. TOMÉ

TENHO SAUDADE...

POSTAL DE NOSTALGIA

CAPELA DE S. TOMÉ DE LAGEOSA

LEMBRANÇAS CARINHOSAS

CAI A NOITE

SEM DÚVIDA

SINOS DA MINHA ALDEIA

RECORDAÇÕES

DIA DE PÁSCOA

NOSTALGIA

ALDEIA DE SAUDADE

ÊXTASE

CONTRASTE

NOVENA DO MENINO

EMIGRANTES

A MÃO DE DEUS

ESTROFES DISPERSAS

SENHOR BOM JESUS DOS MILAGRES


Dedicatórias




Aos meus conterrâneos e amigos, destacando os que, como eu, foram forçados a deixar a nossa querida Sobreposta


Aos membros da atual Direção da Associação Social e Cultural de Sobreposta, pelo incentivo para a vinda à estampa deste título


Vou distribuir abraços,
de terno significar:
precisava de mais braços,
para a todos enlaçar!


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PRÓLOGO


Entre 1965 e 2015 elaborei mais de uma centena de trabalhos, quer musicais, quer em prosa e em poesia, dos quais, neste título nostálgico incluo cinquenta e duas peregrinações, numa linguagem singela, muito ao jeito da minha firma identitária. E, no que diz respeito aos versos, prevalecem os de redondilha maior e a quadra, ambos tão ao gosto popular.

Respiguei as narrativas e as poesias, que se encontram dispersas pelos vinte e três títulos que, até ao presente, dei à estampa. E efetivei tal respigo por entender que se enquadram no projeto que arquitetei. Torna-se evidente que, mesmo querendo conter-me e variar os temas, as ideias esplanadas em diversas estrofes se repetem, assim como imensas rimas. Mas a memória e as saudades fazem-me relembrar e repetir tais agradáveis vivências, ao citar os queridos sítios que ainda pude contemplar com a luz dos meus jovens olhos, que me era tão preciosa...

Escrevi algumas narrativas onde Sobreposta é o palco, não insertas aqui, apenas com o intuito de espraiar os meus sentidos e percorrer os acima referidos lugares de predileção. E, se lançarem um olhar mais atento pelos cenários expostos na minha obra de ficção, lá ressalta o airoso planalto, que se implanta ao cimo do vale d’Este, nesse aprazível e bonito triângulo turístico, que é a Citânia de Briteiros, o Sameiro e o Bom Jesus do Monte...

Excluindo os trechos de “Narrativas Singelas”, também, dissimuladamente, a maior parte dos personagens que aparecem ou que descrevo são figuras que conheci, ou de quem tive conhecimento, que povoaram, sobretudo, os meus risonhos primeiros nove anos da infância, em que fui tão feliz, e resguardo, enternecido, no meu imensurável “cofre de ternuras”... E ainda, alguns enredos e argumentos se baseiam em factos ocorridos, que manuseio e que depois fantasio.

As narrativas e as estrofes são um álbum de coisas ternas, onde emergem, acima de tudo, o bucolismo, a sossegada vida dos campos, o viver das gentes simples e humildes, que labutam do clarear ao fenecer da luz, regando-se com o abundante suor das árduas lides campesinas. Sinto-me irmanado com essa gente abnegada, imbuída de um lato espírito cristão. A família, principalmente a mais chegada, também a lembro e exalto em muitos momentos.

Os eventos que me foram marcando, a que assisti, ou me chegaram ao conhecimento, são tratados com verosimilhança e delicadeza e, por vezes, fantasiados, ao longo dos meus escritos. Todo o miolo deste opúsculo, na verdade, não é mais do que a reposição de ternas e sensíveis cenas, o desfiar de um extenso e nostálgico rosário de narrativas e de lembranças, que, gostosamente, partilho com todos os leitores, mas, essencialmente, com os meus estimadíssimos conterrâneos...

Estou convicto de que haja quem não dê importância a estas pequenas coisas que, para mim, são de enorme simbolismo. Mas, se houver a quem pouco ou nada digam, pelo que significam de nostálgico e de sentimental, muito enternecem aqueles que são filhos de Sobreposta e tiveram de partir para outras paragens (como eu), por imposição da vida. Com estes me congrego e sei ajuizar do quanto e tanto, em tantas ocasiões, a alma lhes regressa e se extasia no benquisto rincão natal...


11 de janeiro de 2015


José Fernandes da Silva


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NARRATIVAS SINGELAS


(Textos elaborados entre dezembro de 2003 e dezembro de 2014)


Ao José Manuel Mendes, com um fraterno e agradecido abraço


O PENEDO DA COSTUREIRA (lenda)


À memória do querido amigo José Maria Antunes Ribeiro


Quase na estrema da minha aldeia natal com Briteiros, o Moinho Velho era um sítio desabitado e pouco aprazível. Da estrada nacional entrava-se por um caminho estreito e íngreme, ao fundo com uma pontinha de pedra tosca, sem quaisquer resguardos, sobre o rio Febras, nascido em Pedralva, na serra do Carvalho, que ali corre ao encontro da margem direita do Ave, onde vai desaguar, em S. Cláudio do Barco.

A meio do curto caminho, à esquerda de quem desce, erguia-se um rústico e não muito alto penedo, conhecido por “Penedo da Costureira”. Recebeu esse nome porque se contam algumas histórias relacionadas com aparições de uma bonita mulher, sentada a uma velha máquina de costura, no topo do penedo e, muito atenta e sem parar, a coser não se sabia o quê!

Há quase meio século, pela primeira vez, ouvi falar de tais aparições, numa das muitas agradáveis e extensas conversas com o se Zezinho dos Caniços (um abastado lavrador, venerando e simpático ancião, que me queria como se de um filho se tratasse e que há muito partiu para o Céu, onde creio ter merecido assento, rogando eu ao meu Deus, no qual ele também sempre acreditou e seguiu na vida, que, entre os esplendores da luz perpétua, lhe dê o descanso eterno!).

Depois, no decurso dos anos, escutei mais do que uma versão sobre as estranhas estadias do fantasma no cimo do penedo.

Havia também quem sustentasse que um jovem de uma rica família rural se apaixonara pela costureira e que, num certo dia, a levara para casa, firmemente decidido a recebê-la como esposa. Todavia, à noite, descobrira que se tratava do Demónio em figura de gente e, persignando-se repetidas vezes, fizera com que a esbelta dama começasse a inchar e a crescer desmesuradamente, acabando por dar um estrondoso estoiro e uma rouca e lúgubre gargalhada, que tiveram intenso eco pelo vão.

Quando mais tarde se me proporcionou a leitura das “Lendas e narrativas”, de Alexandre Herculano, lá encontrei a descrição pormenorizada de “A dama pé de cabra” que, ao fim e ao cabo, é uma das muitas histórias de Satanás, disfarçado nos mais variados géneros e personagens.

Sobre as causas de tais aparições é que nunca ouvi ninguém a argumentar...

O pequeno e rústico penedo ainda lá está, no sítio que continua ermo e pouco aprazível, mas a figura fantasmagórica da linda costureira é que deixou de ser vista no topo da pedra secular...


Abril de 2005 in “Palco de Memórias”, 2011; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 3


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PAGOS


A se Ana Moleira era uma humilde e boa mulher. Enviuvou ainda nova, ficando com um filho. Voltou a casar e foi viver num lugar conhecido por “Moleiros” (por ali existirem três famílias que sobreviviam da moagem de milho e de centeio, servindo-se de cerca de uma vintena de moinhos movidos pelas águas do Febras). Do segundo casamento criou oito filhos, cinco raparigas e três rapazes.

Quase diariamente, a moleira ia distribuir as fornadas pelas freguesias vizinhas, com um ou dois burros, bem carregados de taleigas atestadas de farinha. Gostava de matar a sede com umas tigeladas, quer nas casas dos fregueses, que com ela eram solidários, quer nos tascos onde entregava a farinha, recebendo em troca o grão para moer, assim como a “maquia”, que consistia na retenção de uma percentagem do próprio produto, ou na cobrança de uma determinada quantia em dinheiro.

Por usar e abusar de uns bons canecos, começaram a chamar-lhe, às escondidas, Canaca, com o bom povo, na sua sabedoria, a pretender eventualmente dizer Caneca! Em testes incontáveis, ia sucessivamente dando provas de que o amado filho de Baco (neste caso, o verdinho) não tinha espinhas, atendendo a que nunca se sentia engasgada, mesmo nas ocasiões em que o absorvia fora da medida!

Das muitas peripécias que lhe são conhecidas, lá vai uma bem pitoresca com remate salomónico:

Deu-se o caso que o Domingos, a quem alcunharam de Réu, que era bom rapaz, embora também um refinado malandro (praticava um rosário de patifarias e não tendo terminado uma, já estava metido noutra), um belo dia, passou pela se Ana, que ia como um andor. Chamou-lhe o tal nome, que ela detestava e que punia, podendo, com umas rijas lostras, fustigando uma grossa cana da Índia, em que se apoiava. Ou, não o conseguindo, desatando em corridas cambaleantes atrás do malcriado, ilustradas com uma chusma de berradas e sonantes imprecações.

O pai do Domingos, um alfaiate divertido e simpático, morava perto e ela resolveu logo ir fazer-lhe queixa... Esbaforida, ao chegar, despejou apressadamente:

“Ó Antóne, o teu rapaz tratou-me mal!”

“Tratou-a mal, se Ana?!... Então conte lá como foi isso!...”

“É um atrevido! Chamou-me Canaca!”

“Ai sim!... Mas eu tenho três rapazes. Qual deles é que foi o atrevido?” – perguntou, já com a pulga atrás da orelha, o astuto alfaiate.

“Foi o Réu!” – respondeu prontamente.

“Bem, se Ana: eu tenho um filho cujo nome de batismo é Domingos. Ele chamou-lhe Canaca, vossemecê chamou-lhe Réu… Sendo assim, acho que estão pagos!...”

A se Ana Moleira meteu a língua no saco e, vermelhuda e aos “ss”, desandou, descendo caladinha a íngreme cangosta...


Maio de 2005 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 10


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PALAVRA CUMPRIDA


Estava eu, em pensamento, mergulhado nas antigas e tão alegres lides campesinas, nomeadamente nas sachadas e mondas do milho, nas lavradas, espadeladas do linho, varejadas da azeitona, desfolhadas, malhadas de espigas e do feijão, segadas do centeio e da erva… como que embalado pelos arrastados, bonitos e já quase esquecidos cantares tradicionais, quando me veio à lembrança um episódio pouco comum que o meu pai há muito me narrara, versando o seu avô materno, que não resisto à tentação de partilhar:

No início do século passado, o se Inácio Oliveira, homem trintão, era reconhecidamente um hábil caçador e pescador, sendo também considerado o melhor segador de centeio e de erva de que havia memória, em Sobreposta e nas redondezas. Em jeira onde ele investisse, era como se por lá passasse um vendaval! Mas, valha a verdade:

gostava de fazê-lo na companhia de umas abundantes pingas do prisioneiro das pipas!

De uma vez, a meio da tarde de um dia quente de junho, quando regressava da distribuição da moagem, tangendo os burros para casa, encontrou na Veiga a se Mariquinhas dos Caniços, que à cabeça carregava um cântaro de vinho, destinado a dessedentar o muito pessoal que, sob um sol intenso e abrasador, segava o centeio no campo do Moinho, na margem do Febras.

“Ó Inácio, vai uma pinga?...” – perguntou, com toda a franqueza, a bondosa e santa proprietária, certa da resposta pronta e afirmativa do interpelado.

“Se vai, se Mariquinhas! É que vem mesmo na hora!...”

Pegou no cântaro, deitou-lhe os queixos e, de um fôlego, levou-o até ao meio. Ia a entregá-lo, quando a boa senhora lhe disse:

“Ó Inácio, já que tenho de ir a casa e tenho, acaba lá com esse restinho!”

Ora, o sequioso interpelado não se fez rogado e, num segundo fôlego, sugou o cântaro até à derradeira gota! Agradeceu e entregou a vasilha à atónita senhora, que não teve outro remédio senão voltar a casa, a fim de se reabastecer. Enquanto limpava o bigode, restabelecendo-se da empreitada, o homem, sorridente e decidido, declarou com solicitude:

“Vou lá abaixo desarrear os machos e apareço no campo para deitar a minha mão!”

Apareceu, de facto, em curto espaço de tempo e fez mais um brilharete: merendou e ainda bebeu da segunda e da terceira remessas.

Depois, à noite, na espaçosa varanda da grande casa de lavoura dos Caniços, regou uma farta e saborosa ceia, certamente semelhante a tantas que lá me regalaram e que hoje, nostalgicamente, me vêm à memória, pelo incomensurável prazer que me proporcionaram!...


Junho de 2005 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 5


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A SESSÃO DE FOGO


No outono de 1972, saíramos da nossa nova casa, no lugar do Monte (havíamos mudado da Bouça para habitação própria em 1967), onde petiscáramos bem e regáramos ainda melhor, cantando umas cantigas, comigo ora ao piano, ora ao acordeão. Eu, o sr. Moreira (um industrial de móveis de S. Tomé de Negrelos – que no fim da bela pândega se queixou da luz e do fumo do gasómetro, que lhe provocaram muitas gargalhadas e secura, dores de cabeça e não me lembro mais que sintomas!), o Quinzinho da Figueira, o Bertinho Caniço, o Minguinhos do Monte e o irmão Alberto (que morando em Porto Salvo, Oeiras, descansava uns dias na Lageosa, onde acabou por construir uma vivenda, em santa Cristina, a uns passos da bonita e antiga capelinha de S. Tomé – ali no ex-lugar do Regueiro que, no 28 de janeiro de 1948, me serviu de berço) parámos junto ao portal da casa do Monte, discutindo qual seria a próxima estação a visitar... Venceu e convenceu a sugestão do Bertinho Caniço:

“Rapazes, vamos já para a minha casa!”

Perante uma ordem deste calibre, não houve hesitações!

O Bertinho Caniço, que Deus haja, era um excelente amigo e companheiro: se se lhe dissesse que se matava o galo, ele também matava a galinha!

Foi, pois, na sua casa, no Souto, já bem dentro da noite, que o grupo chegou em procissão. Sem demora (por causa da falta de apetite!), cá fora, à luz de um gasómetro, apareceu um cântaro de vinho americano (que na casa dele, do Zezinho do Loureiro, do Quintães da Bouça e do Muro era pomada de estimação, para saborear duas ou mais vezes), um nacão de presunto, nozes e uma broa de pão milho e centeio (com confeção de primeira), uma faca, umas espaçosas malgas...

Ora, o Bertinho tinha um dos filhos (creio que o António) no Ultramar, porque o tempo era de guerra colonial e iam parar a África, sem apelo nem agravo, ricos e pobres, por imposição do regime fascista vigente, de fraca memória para muitos...

Já de madrugada, de sábado para domingo, bem alegres e satisfeitos, lá se foram sucedendo mais umas cançõezinhas, uns bagaços e uns figos, até que o Alberto do Monte, não sei como, descobriu, no coberto, uma molhada de pequeninos foguetes.

“Ó Bertinho, agora uma sessão de fogo vinha mesmo a calhar e ficava bem p’ra rematar!...”

“Ora, ora!... – atalhou o Bertinho, com uma sonora e bem disposta gargalhada – “Tenho o rapaz lá fora e depois o povo começa a falar!...”

Mas a vontade dele era a mesma do Alberto, da nossa e... não tardou que se ouvisse, no absoluto silêncio da noite, o estralejar do primeiro ao último foguete... Bela sessão!

Bebeu-se a tigela da sossega e ainda se fez mais um longo calvário na acolhedora casa do Monte, onde o Minguinhos e os familiares nos tratavam sempre como lordes!

Houve na terra a costumada missa dominical da manhã, sempre muito concorrida, e o padre José Joaquim Esteves (bom sacerdote e amigo dos pobres, mas intransigente, lá de cima do altar, com tudo o que não condissesse com a sua maneira de estar, de ser, de agir e de pensar), na homilia, num tom azedo, comentou:

“Que pouca vergonha, estoirar fogo na madrugada! Falta de temor de Deus e de respeito pelos outros! Só mesmo de quem não tem pai que lhe dê educação!!...”

Por um acaso, o Quinzinho da Figueira assistiu à missa e, no regresso a casa, para os mais íntimos, baixinho, mas a desfazer-se em riso, rematava:

“Realmente!... O sr. abade tem razão: como é que ele adivinhou que todos nós somos órfãos de pai?!... Só o Zé Fernandes, graças a Deus, ainda o tem, mas está a trabalhar em França!...”


Outono de 2005 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 7


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A CAPELINHA DE S. TOMÉ DE LAGEOSA


Ao Jorge Pedrosa

A pequena e bonita capelinha que honra S. Tomé de Lageosa chegou aos nossos dias certamente por milagre. A julgar pelo altar e pelo lindo e cobiçado arco pré-românico granítico, decorado com esferas armilares, sugere-se a sua existência já no século IX.

Sofreu sucessivos e importantes restauros, como os efetuados em 1737 e em 1974, mas “o principal deu-se no século XVII, época em que, pelo menos, foi modificada a frontaria e adicionada a sacristia” (conforme a abalizada opinião do rev. dr. Avelino de Jesus Costa, num documento publicado no Vol. II, Coimbra, 1959, da Obra Monumental “O bispo D. Pedro”, em que me vou apoiar, referenciado e em parte transcrito na “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, da editora Verbo).

A verdade é que, fruto desses restauros, podemos admirá-la hoje, implantada numa zona muito verde, sossegada e acolhedora, com um bem tratado terreiro, arborizado, onde se realizam salutares convívios e fartas merendas. Tem o domingo três de julho, ou o seguinte, como data em que se evoca o bom santo padroeiro, não faltando os animados arraiais, as devotadas cerimónias religiosas e um movimentado bar nos dias de festa, com apetitosos churrascos, escorregadio verdinho de pipa e outras bebidas, para regalo e tempero estomacal dos muitos locais e forasteiros, que ali afluem movidos pela sua fé e desejosos de sã confraternização. E os lageosenses, justiça lhes seja feita, sempre foram e são pródigos na arte de bem receber e acarinhar os que fazem questão de estar presentes nos eventos que realizam.

A capelinha era a igreja paroquial e “o orago primitivo era Santa Cristina de Tiro, cujo culto foi anterior aos meados do século XI”. Após esta data, os documentos citam a freguesia de S. Tomé de Lageosa como tendo o referido santo como padroeiro. No Censo de Entre Douro e Minho, elaborado no século XI, a freguesia aparece diversas vezes nomeada. Manteve-se autónoma até 1430, sendo, então, anexada a Tenões, de que apenas se libertou em 1510.

O rev. cónego Arlindo Cunha aponta 1528 como data da união a Tenões, mas creio tratar-se de erro de um século...

A partir de 1749 dá-se a sua fusão com Santa Maria de Sobreposta, assumindo esta o nome definitivo e atual das duas antigas sedes de freguesias.

A capelinha fica no estremo do lugar do Regueiro, a caminho da Citânia de Briteiros e a menos de 500 metros da pequena e robusta ponte de pedra, na EN 309, sobre o Febras, o meu reduzido e lembrado rio dos banhos e da pesca, agora com pouca água e poluído, de onde já não saem as saborosas e abundantes enguias e trutas (espécimes referidos pelos nossos antepassados e que lhes proporcionavam gostosos pitéus). Onde já não se escutam, nos salgueiros e amieiros frondosos, os prolongados e inesquecíveis concertos, com os maviosos trinados, desprendidos das gargantas de prata dos muitos rouxinóis que, sobretudo desde a Tojeira ao Moinho Velho, pelas noites quentes e enluaradas, extasiavam os meus ouvidos sensíveis, quando me debruçava na janelinha do meu quarto (nesse tempo tão feliz e nostálgico da minha risonha infância e juventude, em que habitei a humilde casa da Bouça, onde nasci num janeiro já distante)...

Até há poucos anos atrás, o acesso era muito fraco, mal passando um carro de bois, mas presentemente existe um largo caminho, que rebatizou o meu lugar, passando a chamar-se “Rua de S. Tomé”, em vez de Regueiro. Sinceramente entristecido, creio tratar-se de um grave erro e de falta de sensibilidade banir-se os topónimos originais, que são marcos etnográficos de qualquer localidade, assim como esquecer-se (ou ter o propósito) a não atribuição do nome de uma ou outra figura mais marcante a equipamentos públicos, no decurso do tempo, em Santa Maria de Sobreposta.

De qualquer modo, a verdade é que, embora aplaudindo tantas quantas melhorias se possam efetuar, o Regueiro, com a airosa e estimada capelinha, as Cruzes, a Bouça, a eira dos Caniços, o velho e carcomido castanheiro (que derrubaram) e o caleiro de pedra (também já removido), que era passadiço sobre o caminho (entre o eido do Barreto ou Raposo para a eira), eternamente estarão presentes no meu Cofre de queridas lembranças!...


Dezembro de 2005 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 6


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A SONÂMBULA


O sonambulismo consiste no estado ou doença de uma pessoa que, durante o sono, se levanta, caminha, fala e age; contudo, depois de acordada, de nada se lembra. Ora, a se Custódia Maceda era sonâmbula!

Já morreu há muitos anos, e velhinha. A minha mãe mal a conheceu (e, graças a Deus, já conta dois carros e mais sete rasas, ou, traduzindo a sabedoria popular, em 6 de março último completou oitenta e sete aniversários!). Morava numa casa frontal à dos Caniços, que foi estreitecida e modificada aquando do corte da EN 309, no começo dos anos 30 do século passado, sendo ministro das Obras Públicas o Dr. João Antunes Guimarães, senhor da Casa da Igreja, em Briteiros. Fidalgo que tanto se empenhou e levou a bom termo a abertura dessa via tão desejada e imprescindível para as povoações que serviu.

Principiando nos arrabaldes de Braga, a estrada sobe a serra da Falperra até ao monte do Sameiro, desce ao Bom Jesus do Monte, volta a subir para Espinho, atravessa Sobreposta, passa na Citânia, ficando interrompida em Santa Maria de Souto, Guimarães (creio que à espera de ser concluída).

A se Marzé Maceda, uma nora da se Custódia que era madrinha de batismo da minha mãe, contava que a sogra, quando era moça, muitas vezes, sem ser preciso e sem ninguém dar conta, pela noite dentro e durante o sono, se levantava da cama, pegava num grande cântaro de barro e ia enchê-lo à fonte do Tapado, regressando com ele à cabeça. Subia uma boa dúzia de altas escaleiras de pedra tosca e colocava o recipiente na cozinha, no sítio certo, sem uma arranhadela e sem verter uma gota, procurando depois, de novo, o aconchego do vale-de-lençóis!

Note-se que, para chegar ao Tapado, só tinha de palmilhar uns cento e tal metros, mas o percurso era danado: uma descida estreita, íngreme e com um piso escabroso.

Por outro lado, para encher a vasilha era necessária uma enorme perícia e ginástica, porque o reservatório parecia uma gruta, em granito. Tinha que se descer uns degraus rústicos, puídos e irregulares, e ficar com os pés mergulhados na água, que permanentemente esbordava e se enfiava num curto e apertado aqueduto. Este conduzia a água para um tanque de lavar roupa, escorrendo aquela dali para uma grande poça de consortes.

Apenas uma sonâmbula se podia movimentar em tal cenário, acarretando a água do Tapado para casa… a dormir de pé!...


Abril de 2007


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A FAÍSCA


Chamava-se Rosa e tinha a alcunha de Bicha. Morava na primeira casa, à direita, da entrada da rua que conduz à capelinha de S. Tomé, em frente ao espigueiro da Eira dos Caniços. Já lá vai meio século. Eu era pequenito, com uns sete anos, mas lembro-me muito bem dela. Era tecedeira, muito alegre e expansiva, passando o tempo a cantar as modinhas da época. Bastante namoradeira e pretendida, era uma boa e simpática rapariga.

No mês de junho, vésperas ou dia de S. João, num dia abafado e quentíssimo, levantou-se uma grande trovoada. Dos Penouços a Campelos, da Pena ao Pedregal, de Ranhó a Castelhão, os relâmpagos cruzavam-se e ouvia-se um ribombar medonho, que assustava e fazia pôr em sentido mesmo os que descreem do poder de Deus!

Ocorreu pelo fim da tarde esta tempestade seca (não pingou gota de chuva) e durou mais de uma hora.

Passou a borrasca e começou muita gente a correr para a casa da se T’resa Bicha. Eu também me juntei ao bom poviléu e fui dar onde todos paravam. Gritava-se e chorava-se. Por quê?

Tinha caído uma faísca na ramada do quinteiro, comum à casa da Bicha e à da se Maria do Maro, e abateu-se sobre a Rosa, que, tendo deixado o tear, se refugiou na varanda, com o terço na mão, a rezar. Estava sozinha em casa. O raio asfixiou-a. Ainda lhe encostaram aos lábios um espelho e murmurava-se que vivia. Mas não, a descarga fora fatal.

Recordo, também, que, devido à crendice e falta de conhecimento, se afirmava que a faísca teve o seu termo na corte, por debaixo da casa e que o diamante lá ficou alojado no chão (acreditava-se que o raio luminoso transportava tal pedra preciosa e que, quem a achasse, ficaria bem na vida). Mas o que de facto se observava eram as ripas do telhado, as divisórias de madeira da varanda e o soalho negros e com espesso fumo.

Nunca ninguém enriqueceu com o diamante, profundamente infiltrado na corte térrea, pois nunca ouvi dizer que o tivessem achado (porque não existia, é claro!).

Mas o que me vem amiudadas ocasiões à memória no percurso da vida, e quando relembro as pequenas grandes coisas da minha Aldeia, é aquele remoto e tenebroso fim de tarde, assim como o precoce desaparecimento de uma alegre e simpática moçoila...


4 de junho de 2007 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 14


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O LITRO


A propósito das alcunhas que existiam na Sobreposta da minha infância e juventude, no tempo em que morava na casa da Bouça, recordo-me, a talhe de foice, de um vizinho, o se João da Mélia, já de idade avançada, que levava os dias a palmilhar dezenas de quilómetros, estendendo a mão à caridade nas freguesias próximas.

Chamavam-lhe o Litro, mas que ele não ouvisse nem suspeitasse que bichanavam dele, porque o porrete de marmeleiro poderia entrar em ação, rodopiando ou voando como uma flecha na direção do atrevido!

Fora o caso que, uma vez, cerca dos anos vinte do século passado, na noitada das festividades do Espírito Santo, no Bom Jesus do Monte (que os antigos classificavam de arromba, já que se celebrava com pompa e circunstância), quando ele era ainda moço e solteiro, um simpático forasteiro, inocentemente, ao balcão de uma das muitas barracas de romaria, perguntou:

“A como é o café?”

“A dois tostões!” (0,0010 €) – respondeu, jovial e prazenteira, a rapariga interpelada.

“Atão, bote aí um litro!”

O invulgar e insólito pedido não passou despercebido aos convivas presentes, que aproveitaram a deixa para alcunhá-lo de Litro. Título que o acompanhou até à sepultura…


Julho de 2007


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O ÍNDIO


As alcunhas têm sido o pão-nosso de cada dia ao longo dos tempos. Na minha aldeia, praticamente todos herdavam ou era-lhes imposta uma. E havia-as engraçadíssimas, sabendo-se as razões de umas, mas desconhecendo-se os motivos de outras. Permito-me aqui deixar uma acha para a fogueira, elucidativa.

O Joaquim Moleiro era um mocetão alegre e comunicativo, que cantava afinadinho e tocava primorosamente flauta travessa, feita por ele mesmo, com cana ou metal. Era conhecido por duas alcunhas:

– Ministro, herdada do pai (que também era titular de duas, “Ministro” e “Marujinho”, sendo, por sinal, um castiço e sempre bem disposto moleiro, que, na meia-idade, devido a um cancro, foi submetido a uma delicada intervenção cirúrgica, vindo a morrer com mais de noventa anos, tendo, até ao fim da vida, emborcado uns tonéis de verdasco e umas alambicadas de bagaço);

- Índio, porque tendo o conterrâneo Joaquim Daniel sido mobilizado para a Índia portuguesa, o Moleiro, que já tinha cumprido o serviço militar obrigatório, a troco de uns patacos, ofereceu-se para o substituir no contingente daquela comissão de serviço que ia embarcar para o Oriente.

Espera que espera, vai hoje, vai amanhã e... nunca mais foi! A alcunha, porém, pegou, a título de escárnio, como é bom de ver!

Ora, é sabido que o Índio, no que diz respeito à pinga, não degenerou dos seus ascendentes, não deixou os nobres pergaminhos por mãos alheias: quando metia a mão ao bolso e achava uns trocos, punha-os a render em qualquer “venda” por onde peregrinava. Mas o mais usual era ser no sr. Mendes (“Mercearia e Vinhos de Augusto Mendes” – estabelecimento de um senhor pequenino, que foi sempre um excelente cristão, bom marido e bom pai, muito humano e simpático que, ao tempo, além de vender petiscos e vinhos, tinha ali um verdadeiro supermercado, abastecedor de toda a população local e vizinha), ou no se Alfredo Perpétua (cavalheiro bondoso e educado, que tinha uma taverna só para servir bebidas e petiscos, no lugar de Bacelar, paredes-meias com a sua oficina de sapateiro, muito concorrida, que dava trabalho a vários artistas e que manteve ativa até emigrar para França, onde morreu há uns dois anos, vindo a enterrar, por vontade expressa, no cemitério da terra que muito amava).

Aí se consolava com umas tigeladas valentes, que só o deixavam regressar à cama já dentro da noite, ou pelo sol nascente, descendo a estrada até ao fundo da Lageosa e fazendo soar da flauta um belo timbre, como que à espera de algum milagre. Ou então, cantando com muita energia, mas sem que as cordas vocais obedecessem ao baldado esforço de afinação e agradável melodia.

Mas o Joaquim, mesmo a cair de satisfeito, não era malcriado e até tinha cenas cómicas, que dispunham bem os eventuais ouvintes. Embora tivesse vivido umas paixonetas e gostasse de se meter com as raparigas que encontrava, dirigindo-lhes e recebendo galanteios galhofeiros, não se casou.

Era uma figura típica de Sobreposta e dos arredores, porque, claro está, com infinita devoção, percorria todos os calvários vinícolas, sempre bem visto e respeitado por toda a gente, nunca demonstrando má disposição ou tristeza, apesar da necessidade, e mesmo da fome, o ter acompanhado no percurso da maior parte da vida, constituindo a música o escape preferido para os seus enfileirados contratempos e desgraças...

(…) Foi geral a consternação quando circulou a notícia de que o Joaquim Moleiro tinha morrido, no monte, esmagado por uma árvore que estava a cortar e o apanhou desprevenido...


Janeiro de 2008 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 13


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A CHÁVENA DE CAFÉ


O se Antóne Marta vivia no lugar do Regueiro (rua de S. Tomé), paredes-meias com a casa da se Fecidade Benta, mulher do se Manel d’Eira Velha, que combateu na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), em França, ao lado dos Aliados. Casa largamente melhorada e onde habita o atual proprietário, o Alexandre Sá (Alexandre do Azeiteiro), que embora tivesse um temperamento levado da breca, era extremamente engraçado. Entendemo-nos sempre muito bem, quer como vizinhos, quer como amigos.

Outrora, a romaria grande do S. Torcato (em princípio de julho), perto de Guimarães, era ponto de referência das inúmeras e divertidas festas minhotas, juntando gente a rodos. Os habitantes das redondezas e de longe ali afluíam e a noitada era de arromba, com muito folclore, tambores, pandeiretas, reco-recos, concertinas, cavaquinhos, violas braguesas, rusgas animadas, desafios, tasquinhas, bons petiscos e muitas pipas de verdinho… Tudo para consolação dos muitos devotos, quer do santo quer do dito filho da videira!

Ora, o se Antóne era peregrino, pelo menos anual, da concorrida festividade. Cerca dos anos 30-40, do século findo, numa das romarias, acompanhava-o, entre outros, o se Manel Estopa (filho da se Rosa Estopa – uma velhinha simpática, que fazia de parteira e que, ao que parece, sempre se saíra às mil maravilhas das delicadas funções e que já morreu há muito tempo, bem entrada na idade, tendo sido boa mãe de muitos filhos, fruto de vários pais), que casou em primeiras núpcias com a se Florinda da Vinha e, depois, com a Rosalina Perpétua, ou Fidalga, minha tia materna, vindo a falecer, com esta, em Toulouse, no sul de França. Sendo que Rosalina deu o último suspiro ainda muito nova, quando contava apenas perto de trinta e cinco primaveras.

Já de madrugada, os dois conterrâneos, que eram excelentes amigos e compadres, entraram num café local e pediram duas bicas. O servente colocou-lhes sobre a mesa as respetivas chávenas, que ao tempo eram excessivamente pequenas, e o se Antóne Marta virou-se logo para o empregado, com semblante e tom de voz que forçavam a necessária seriedade:

“Não me pode arranjar uma baracinha, por favor?...”

Sem compreender o objetivo do cliente, o servente, bastante intrigado, inquire:

“Uma baracinha?!... Mas para que efeito?...”

Responde o freguês, prontamente:

“Para atar à asa, pois tenho medo de engolir isto!!” – e apontava para a minúscula peça de louça...


Primavera de 2009 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 21


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A CHÁVENA DE CAFÉ


O se Antóne Marta vivia no lugar do Regueiro (rua de S. Tomé), paredes-meias com a casa da se Fecidade Benta, mulher do se Manel d’Eira Velha, que combateu na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), em França, ao lado dos Aliados. Casa largamente melhorada e onde habita o atual proprietário, o Alexandre Sá (Alexandre do Azeiteiro), que embora tivesse um temperamento levado da breca, era extremamente engraçado. Entendemo-nos sempre muito bem, quer como vizinhos, quer como amigos.

Outrora, a romaria grande do S. Torcato (em princípio de julho), perto de Guimarães, era ponto de referência das inúmeras e divertidas festas minhotas, juntando gente a rodos. Os habitantes das redondezas e de longe ali afluíam e a noitada era de arromba, com muito folclore, tambores, pandeiretas, reco-recos, concertinas, cavaquinhos, violas braguesas, rusgas animadas, desafios, tasquinhas, bons petiscos e muitas pipas de verdinho… Tudo para consolação dos muitos devotos, quer do santo quer do dito filho da videira!

Ora, o se Antóne era peregrino, pelo menos anual, da concorrida festividade. Cerca dos anos 30-40, do século findo, numa das romarias, acompanhava-o, entre outros, o se Manel Estopa (filho da se Rosa Estopa – uma velhinha simpática, que fazia de parteira e que, ao que parece, sempre se saíra às mil maravilhas das delicadas funções e que já morreu há muito tempo, bem entrada na idade, tendo sido boa mãe de muitos filhos, fruto de vários pais), que casou em primeiras núpcias com a se Florinda da Vinha e, depois, com a Rosalina Perpétua, ou Fidalga, minha tia materna, vindo a falecer, com esta, em Toulouse, no sul de França. Sendo que Rosalina deu o último suspiro ainda muito nova, quando contava apenas perto de trinta e cinco primaveras.

Já de madrugada, os dois conterrâneos, que eram excelentes amigos e compadres, entraram num café local e pediram duas bicas. O servente colocou-lhes sobre a mesa as respetivas chávenas, que ao tempo eram excessivamente pequenas, e o se Antóne Marta virou-se logo para o empregado, com semblante e tom de voz que forçavam a necessária seriedade:

“Não me pode arranjar uma baracinha, por favor?...”

Sem compreender o objetivo do cliente, o servente, bastante intrigado, inquire:

“Uma baracinha?!... Mas para que efeito?...”

Responde o freguês, prontamente:

“Para atar à asa, pois tenho medo de engolir isto!!” – e apontava para a minúscula peça de louça...


Primavera de 2009 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 21


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O JOAQUIM D’INÁCIO


À minha prima Rosa Oliveira, sobrinha do Joaquim

O Joaquim d’Inácio já nos deixou há largos anos. Até ao fim da vida, mesmo nos momentos tristes e de enormes carências, manteve um gosto infinito pela música. Era um exímio tocador de viola braguesa, cavaquinho e harmónica de boca, ou realejo (instrumento que me ensinou a tocar, na minha risonha e despreocupada infância), e cantava que era uma perfeição!

A voz não era forte, antes até bastante voltada para os sons agudos, mas não deixava de ser melodiosa, límpida, com um timbre suave, e afinadíssima. Cantava bem ao desafio e interpretava lindas canções, sobretudo trazidas das terras por onde andarilhava.

Era filho da se Maria Domingos, ou d’Inácio (no primeiro caso, porque o marido se chamava Domingos; no segundo, devido ao marido ser filho do Inácio, meu bisavô paterno, que não conheci e que era moleiro, possuindo moinhos em Portuguediz, o segador de centeio e de erva mais famoso de Sobreposta e arredores, que já referenciei em “Palavra cumprida”, tendo sido casado com a se Maria Pinta-o-Bicho, portanto minha bisavó paterna e que, por sinal, era meia-irmã da minha bisavó materna, a se Luísa Perpétua, ambas da casa dos Manos, onde habita e é proprietária, atualmente, a Lúcia Moleira, neta paterna da se Maria Pinta-o-Bicho, que a comprou ao se Zezinho do Paço-do-Meio).

O pai, deixando quatro rapazes pequeninos, esgueirara-se para Espanha e nunca mais cá pusera os pés. De modo que as crianças foram vivendo de esmolas e, sobretudo, da caridade da casa da Figueira, onde a se Maria era assídua jornaleira.

O filho mais velho, o António, logo que pôde, e talvez chamado pelo progenitor, também emigrou para o país vizinho e lá morreu, como reformado da Guarda Civil. O filho Domingos instalou-se em Passos, perto de S. Gregório, Melgaço, e lá se finou há uns três anos; o Inácio emigrou para Toulouse, regressou para morrer na terra natal, mas, já muito doente, retornou àquela urbe gaulesa, para lá ser enterrado há quase uma década.

Quanto ao Joaquim, que tinha a alcunha de Braga (assim como o irmão Domingos), que lhes adveio na época em que ambos trabalharam como pedreiros em Castro Laboreiro, trabalhou sempre fora do torrão natal até se casar: em Castro, Melgaço, Barragem de Salamonde, Paradela do Rio…

Veio a consorciar-se com a Melindra Benta, minha vizinha, no lugar do Regueiro, tendo-se dado os dois, sobretudo a partir do casamento, a uma preguiça total.

Chegaram a dormir nos montes, onde produziam carvão e arrancavam raizeiros ou os rachavam em canhotas.

Na imensa miséria, Deus povoou-lhes a existência com um filhinho. Foram, então, viver com o se Joaquim Tarrujo, ou se Joaquim Moleiro, que era padrinho de uma legião de cristãos, de Sobreposta e arredores, e, por sinal, também do Joaquim Braga. Fruto da vida que levavam e da péssima alimentação que faziam, a Ermelinda contraiu uma incurável tuberculose, que a ceifou em curto espaço de tempo.

O pequenino sobreviveu por mais quase dois anos, mas acabou também por voar para Deus.

O Joaquim, desanimado, continuou a cultivar a preguiça, vivendo com o padrinho, que o sustentava e lhe fornecia o muito tabaco e álcool que ele consumia.

A certa altura, sentindo-se gravemente enfermo, foi-lhe diagnosticado um cancro no estômago. Ainda aguentou vários meses, mas acabou por sucumbir, indo a sepultar no cemitério de Sobreposta, sequinho como um pau...


Fevereiro de 2010 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 25


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EPISÓDIO INVULGAR


Deixou-nos, há poucos meses, a Fernandinha Monteira (alcunha esta que recebeu por ter-se consorciado para a casa do Monteiro), natural da vizinha freguesia de Pedralva, da família de Maria Antónia.

Muitas vezes, em pensamento, nas inumeráveis romagens de saudade que faço aos nostálgicos lugares da minha infância, juventude e adultidade, cruzo-me com ela e medito na pesadíssima Cruz que carregava e nas forças que a sustinham sobrevivente, dado o insólito drama da sua vida de casada...

Tão funesto acontecimento sensibilizou-me tanto (quer porque havia ainda laços de parentesco pela parte da minha bisavó materna com os avós da Fernandinha, quer porque frequentei várias vezes a casa do Monteiro, dado manter uma franca amizade com o Alberto, companheiro de algumas agradáveis e memoráveis borgazinhas, contanto fosse mais novo), que escrevi, tempos depois dos factos que vou invocar, um sentido poema a que dei o título de “A mão de Deus”, inserto nesta peregrinação nostálgica e que faz parte do meu livro de poesia intitulado “Celeiro de Retalhos”, dado à estampa em 1994.

E quando me disseram que a Fernandinha havia partido para a sua derradeira e, porventura, já há muito apetecível morada, com sinceridade, verti uma lágrima por aquela Mulher amargurada – mãe sem filhos e esposa sem marido... (Eis um demonstrativo exemplo da bela parábola de Job, o cristão que possuiu uma fortuna incalculável e que veio a tornar-se num pobre pedinte e num indigente leproso!)

Que a Fernandinha repouse em paz, nesse éden inigualável, junto dos entes estremecidos e do Deus em que, ao longo da vida, acreditou e que seguiu...

Pois a Fernandinha casou para o lugar da Vinha, com o Domingos Monteiro. Embora remediado agricultor, em busca de melhores condições de vida, o Domingos, na década de sessenta do século passado, emigrou para França, donde regressou nos fins dos anos oitenta, auferindo uma boa reforma e sendo já senhor de muitas terras e de um considerável pecúlio financeiro. Deus povoou-lhes o lar com três filhos: dois rapazes – o Alberto e o Fernando – e uma rapariga – a Cândida. No momento certo, cada um constituiu o seu lar. O Alberto emigrou para a Suíça e o Fernando para a França. Já a Cândida, permaneceu na companhia da mãe, mesmo após o seu casamento.

Entendiam-se bem os irmãos. Alberto, o mais velho, ainda na Suíça, começou a sentir-se adoentado. Consultados os médicos, foi-lhe diagnosticada uma doença incurável.

Com a esperança de se curar nos ares pátrios, veio para Portugal, residir na freguesia de Espinho, de onde era oriunda a esposa e onde possuía casa própria.

Remédios, ares, cuidados e atenções familiares e de amigos não foram capazes de mudar o rumo do flagelo...

Em finais de janeiro de 1990, secretamente, e visando obter as melhoras e mesmo o restabelecimento do irmão, o Fernando e a Cândida decidiram consultar e pedir a intervenção de uma famosa e suposta santinha de Arouca (na época, personagem muito badalada e visitada por multidões de fervorosos romeiros).

A Cândida estava grávida e já em adiantado estado de gestação. O marido não os acompanhou. O Fernando levou a mulher e um filhinho de tenra idade. Perto do local pretendido, rolando possivelmente a grande velocidade, numa curva traiçoeira, o condutor perdeu o controlo do veículo, que se despistou, capotou e foi cair num fundo precipício. Supostamente, por falta de rápido socorro e porque ficaram presos nos cintos de segurança, a Cândida e o irmão pereceram, salvando-se a esposa deste e o bebé, que, milagrosamente, foi cuspido para terra e nada sofreu.

Dias depois desta tragédia, o padecente irmão, por quem iam suplicar, abarcando mais aquele enorme desgosto, foi juntar-se aos irmãos no cemitério de Sobreposta.

E fazendo jus ao dito popular “um azar nunca vem só”, tempos volvidos, o pai, por certo distraído e amargurado pelo desaparecimento dos descendentes, foi encontrado morto, por afogamento, na poça de uma bouça que possuía distante da sua residência, sem ninguém entender as razões...

E a mártir Fernandinha, aquela boa e sofredora criatura, que tudo tivera e que tudo perdera em tão curto espaço de tempo (tal como Job), assistia a todas estas tragédias, que lhe ceifaram marido, filhos e a filha grávida!...


2 de fevereiro de 2011 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 39


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ACIDENTE BRUTAL


No início da década de sessenta, do século que terminou, o Joaquim Lourenço e o Francisco da Arminda eram dois moços alegres e simpáticos. Conheci-os muito bem e convivi com os dois, embora fossem bastante mais velhos do que eu.

O Chico nasceu no lugar do Pedregal e era pedreiro, bem como o irmão, Armando, pois seguiram a profissão do pai (o se Manuel da Arminda - por ter casado com a se Arminda Velhinha, uma senhora que já morreu bem entrada na idade -, oriundo de Pedralva, da família dos Montenegros).

O Joaquim, filho mais novo da se Antónia Lourença, que teve berço no lugar de Portuguediz (próximo da ponte de pedra sobre o rio Febras), era trolha.

Estávamos no tempo em que eram raras as camionetas de carga. O Chico, o irmão e o Joaquim tinham estado na venda da Aurorinha, em Sobreposta, perto das Placas – como é conhecido o entroncamento abaixo da capelinha da Senhora de Fátima –, já na estrada que ruma a Pedralva, a despejar umas tigelas de verdinho com o motorista da camioneta da firma onde trabalhavam... Já dentro da noite, resolveram regressar ao conforto dos seus lares, descendo para Lageosa.

Seguiam os quatro, claro, na cabine do veículo pesado. Na curva ao lado do primitivo campo de futebol sobrepostense, o condutor perdeu o controlo do veículo e despistou-se – certamente devido a velocidade excessiva e inevitavelmente a alguma pinga a mais –, indo embater e enfaixar-se num dos muito ancestrais e volumosos carvalhos ali existentes. Foi um choque violentíssimo, que cuspiu os dois moços pelo para-brisas.

O Francisco, aventou-se na altura, teve morte instantânea. Quanto ao Joaquim, transportado para o Hospital de S. Marcos, em Braga, dizia-se que o bom e crente rapaz, sentindo as garras da Morte, de mãos postas, rezava fervorosamente, pedindo à Senhora do Sameiro, com gritos lancinantes, vindos do fundo da alma, e com ardente fervor, que lhe valesse e poupasse a vida, prometendo doar-Lhe tudo quanto possuía, assim como todos os bens que viesse a receber nas partilhas de família...

Contudo, não foram atendidos os revezados e sinceros apelos, dado que os ferimentos eram muitos e de extrema gravidade, acabando por expirar o derradeiro hálito naquela unidade hospitalar...


5 de abril de 2011


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O SE MANELZINHO DE BACELAR


Filho primogénito de uma família abastada em teres e haveres, o se Manelzinho de Bacelar foi herdeiro dos terços da casa que lhe deu o berço e conferiu o apelido.

O pai, o se Dominguinhos, era natural de S. Lourenço de Selho, próximo do bonito mosteiro de S. Torcato, Guimarães, e, na última década do século XIX, casou com a se Mariquinhas, oriunda da casa da Igreja de Baixo. O casal procriou, além do Manelzinho, mais um rapaz e uma rapariga (por sinal duas excelentes pessoas, que muito me consideraram e a quem correspondi na mesma moeda).

O primogénito, chegada a idade certa, consorciou-se com a Emilinha Quintães (uma jovem de cerca de dezoito anos e a única rapariga dos oito filhos da casa do Quintães da Bouça – vistos os casos, ainda moços, dois deles emigraram para África, ou para o Brasil, e nunca mais deram sinal de vida) e não produziram geração. Por essa razão, adotaram uma sobrinha da esposa, que se tornou na herdeira universal da casa de Bacelar: boa moça, da minha igualha, com quem sempre mantive uma sã e íntima amizade.

O se Manelzinho era um homem muito religioso, embora não tivesse queda para acudir aos inúmeros pobres que lhe batiam ao portal, já que quase sempre se retiravam dali com o que já traziam!

Segundo ele me contava, mostrara vontade de doar uma imagem de Cristo à nossa Igreja paroquial. Como, porém, o Zezinho do Oleiro, ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, em ato de gratidão por milagres concedidos, pretendesse ofertar o mesmo, acordaram, com a intervenção do então pároco J. J. Esteves, que o Zezinho ofereceria o Senhor Bom Jesus dos Milagres (que passou a ser um ex-líbris de Sobreposta) e o Manelzinho um sacrário em ouro...

O se Manelzinho tinha pouco vocabulário, utilizando umas quantas frases feitas e alguns termos, como “réu, macaco, estafermo, patife”, assim como outros de que se não sabia bem o significado, como, por exemplo, “macabeu e randalheiro”, que aplicava em quaisquer circunstâncias.

Longe dos seus ouvidos, chamavam-lhe nomes feios, mas o mais frequente era Chibeco! Era muito desconfiado e manhoso e andava sempre a pau com as suas pertenças. Por isso, quem houvesse de passar-lhe alguma rasteira teria de ser bem mais astuto do que ele!

Assobiava como um alegre e afinado melro e cantarolava razoavelmente, sobretudo cânticos religiosos. Mas atenção: quer o canto, quer o assobio, apenas os usava no defeso, isto é, quando não houvesse uvas nas videiras, ouriços nos castanheiros, frutas nas árvores! E, em qualquer propriedade sua, à cautela, deixava à vista um chapéu, um colete, um casaco..., como que a demonstrar que não andava por longe...

Portanto, escutava-se o assobio e as melodias sacras de fins de outubro a meados de maio, porque, principiando as cerejas a amadurar, lá guardava o assobio e a gorja em casa...

Na sua residência, fosse à hora que fosse da noite, era sacramental a reza do terço em família. E, como o imóvel estava bem junto da estrada nacional, quem passasse por debaixo da janela da cozinha, lá ouvia a recitação do terço, com ele a desfiar as contas, adormecendo aqui e ali, fruto do cansaço do trabalho do dia, havendo terço até todos estarem a pesar figos!

Mas tanto do se Manelzinho de Bacelar, como da esposa Emilinha, é deveras de ressaltar um peculiar defeitozito. Dava-se o caso que sempre que a Emilinha ia à adega buscar pinga, tinha que enxaguar a caneca – assim levando nesta alguma água que batizaria o prisioneiro das leivas, transformando-o em água-pé, já que puro, puro, só poderia ser o vinhinho da caneca pequenina, destinada ao chefe da família e que, portanto, não deveria nunca ser enxaguada!

Ora quando era convidado (muitas vezes) pela sobrinha, adotada como filha, para cear, não se lavava a caneca grande, a não ser que eu estivesse distraído e não desse conta da manobra... É que quando eu anunciava que preferia beber da caneca pequena, o se Manelzinho dava uma risada baixinha e devia pensar lá para com os seus botões: “O Zé é cego, mas de tolo não tem nada!”

E é com legitimidade que deduzo tal, porque, ao longo dos anos, mais do que uma pessoa me foi confidenciando que o se Manelzinho costumava comentar com uma sonora gargalhada:

“O estafermo não vê, mas é finório!”

Pudera!, se os queixos dele podiam saborear o “bô”, porque não haveria eu de comungar dos mesmos princípios?!... E, afinal, eu nada mais fazia do que dar a volta ao texto quanto ao ritual da ante-lavagem, ou refrescadela, das canecas que tivessem de fazer a viagem ao rés-do-chão; como também queria, à imagem do anfitrião, o bom e saboroso verdinho da propriedade da Devesa, tinha bem a noção de que a infusa pequenita desceria à loja do vinho as vezes que fossem precisas, tanto mais que era garantidamente a única que, ao ser abastecida na torneira do casco do pingato selecionado, não carecia ser discreta e cuidadosamente enxaguada...


26 de setembro de 2011


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O CAMINHO DAS LACEIRAS


Antes de ser rasgada uma das fraldas do monte d’Este, para dar lugar à via rápida que, há poucos anos, liga Braga a Espinho e a Sobreposta, as Laceiras eram um itinerário danado e com muita fraca fama.

Ao jeito da Falperra e da serra do Carvalho, até cerca dos anos trinta do século passado, a zona era infestada por quadrilhas de amigos do alheio. Sobretudo as gentes de Pedralva e de Sobreposta utilizavam muito aquele caminho, que endireitava imenso o trajeto. Entre S. Pedro d’Este e o cume do referido monte não existiam habitações, abundando por ali denso arvoredo e matagal.

As pessoas iam fazer as compras à cidade e, de vez em quando, quando desciam ou subiam os carreiros tortuosos e de péssimo piso, eram abordadas pelos tais indesejados meliantes. Na descida, essencialmente, interessavam as carteiras mais ou menos recheadas do carcanhol para as compras; na subida, além da nota e cascalho, também dava jeito a mercadoria...

É claro que os quadrilheiros não seguiam o exemplo do famoso Zé do Telhado, que também calcorreou aquelas bandas e que retirava aos ricos para ajudar os pobres.

Estes seus confrades não tinham preferências, nem o sentido de remediar males: assaltavam e depenavam quer os ricos, quer os pobres, e até mais os pobres, porque eram os mais vulneráveis, não tinham possibilidades para andar armados, ou para se fazerem acompanhar por quem os pudesse defender.

Ali pelo fim do primeiro quartel do século findo, o meu avô materno, o se Manuel Fernandes, ou Fidalgo – alcunha que herdara da sua família de Santa Maria de Souto, Guimarães, de onde era natural (ainda hoje, quem o conheceu, me diz que se tratava de um bom homem, que gostava de ajudar os outros e que era amigo do seu amigo, tendo combatido na I Grande Guerra Mundial ao lado dos Aliados e sido ferido por uma granada, o que lhe valeu uma tença de monta para a época, até morrer, muito novo, em 21 de outubro de 1949) –, tendo ido às compras a Braga, acompanhado pela esposa – a minha terna e saudosa mãezinha –, no regresso, já a noite ia caindo e a escuridão cobrindo o vale d’Este, a mais de meio das Laceiras, isto é, prestes a entrar em terras de Sobreposta, escutou em redor uns assobios e ficou com a pulga na orelha...

Marido e mulher caminhavam a pé, enquanto a égua que possuíam trotava, atestada de sacos, embrulhos e caixotes de mercadorias. De repente, num sítio mais feio e propício a encontros inesperados e inconvenientes, apareceu um rufião:

“Boa noite!” – pronunciou, com voz disfarçada e com delicadeza.

“Muito boa noite nos dê Deus!” – retrucou o meu intemerato avô.

O intruso colocou-se na frente da égua, barrando a passagem aos transeuntes.

“Faz favor de deixar passar o animal?...” – continuou o viandeiro.

“Deixo,” – redarguiu o forasteiro, acrescentando – “mas o melhor é aliviá-lo da carga, porque senão vai tudo...”

Tínhamos o caldo entornado!

O ainda recente soldado, destemido e com uns bem abonados trinta anos de idade, enfiou a mão debaixo do arreio, sacou de uma magnífica pistola de guerra (peça que ainda conheci), puxou a corrediça atrás, colocou o dedo no gatilho, apontou o cano ao peito do empecilho e perguntou-lhe, firme, entre azedo e dócil:

“Queres que eu abra e limpe o caminho?!...”

O sujeito, que viu, ou se apercebeu do brilho do metal da arma de fogo, sem dizer água vai nem água vem, desviou-se, para deixar passar o casal e o quadrúpede, carregadinho como uma abelha, porque, pelos vistos, o meu ascendente não abastecia apenas a sua casa, também satisfazia os pedidos de amigos e de conhecidos.

Não largou mais o dedo do gatilho e, quando chegou a terreno seguro, despejou para o ar o conteúdo da câmara e do carregador e, por precaução, não fosse Belzebu tecê-las, meteu outro carregador na arma, com mais umas dez ameixas, como ele apelidava as munições!


28 de maio de 2012 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 31


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SANTA MULHER


Ao meu primo cónego Avelino Amorim, trineto da minha bisavó



A se Maria Pinta-o-Bicho, minha bisavó paterna, foi uma santa mulher. Orçava pelas oitenta primaveras quando (conforme ela previra) a morte chegou, naquela tardinha, já com o breu da noite a querer cobrir Lageosa e vizinhanças, por volta de meados dos anos trinta.

Fora dona de vários moinhos em Portuguediz, assim como de uma extensa tapada e de mais alguns terrenos. Como tanta gente da época, obcecada pelos altos juros enganosos que oferecia o Banco do Minho (e certamente muito mal aconselhada), vendeu moinhos, jumentos, tapada e demais terrenos, depositando todo o capital na famosa e citada instituição bancária...

Com os juros a auferir, sonhava e já antegozava um futuro melhor, ocioso e aprazível... O Banco do Minho, porém, à roda dos anos vinte, faliu e a desvairada se Maria Pinta-o-Bicho ficou, rigorosamente, depenada! Valeu-lhe a meia-irmã Luísa, que lhe cedeu uns cómodos da casa onde morava a única filha, que veio a tornar-se na minha carinhosa avó materna...

Desde sempre, a boa e simpática mulher cultivava um profundo sentimento cristão, apregoando o Evangelho de Jesus Cristo e praticando-o religiosamente. Em tudo tinha Deus na boca e consolava-se com o exemplo de Job, que inúmeras vezes ouvia referenciar aos mais antigos e nas homilias ou sermões que escutava.

Foi mãe de duas raparigas e de dois rapazes, que se casaram e moravam longe dela, sobrevivendo com reduzidas posses.

“Deus me deu, Deus me levou...” – evocava a cativante parábola de Job, prosseguindo, repleta de sinceridade e de acrisolado amor cristão – “Seja tudo para desconto dos meus pecados... Seja por amor de Deus! Ele bem sabe o que faz e a quem o faz!”

Isto balbuciava a santa velhinha a cada hora desgraçada. E acrescentava – “Nosso Senhor a todos tem o que dar e não fica pobre...”

Enviuvou pela meia-idade e acomodou-se à solidão. Não murmurava de ninguém, nunca prejudicou o seu semelhante e usava o terço como arma firme e protetora para as diversas e difíceis situações que a apoquentavam.

Todos os dias calcorreava grandes distâncias, com alvião ao ombro, para, nos montes baldios ou dos lavradores, arrancar pequenos raizeiros, ou para dos grandes extrair um cesto de canhotas: é que o calor da lareira acompanhava-a ao longo de todo o ano... Por isso se abastecia e gostava de armazenar em quantidades exageradas...

Na tal tardinha, uma filha, que morava em Pedralva, veio cozer-lhe a broa (aquecendo o forno e confecionando esse saborosíssimo manjar, que hoje mal se encontra e cuja fornada lhe dava para uma quinzena). Quando saiu o primeiro bolo, partiu uns pedaços e deitou-os numa malga grande, meia de vinho verde tinto, adoçou com uma boa colher de açúcar e comeu, consoladamente, a sopa feita.

Terminado o estimado e useiro petisco, limpou a arroxada boca e disse à filha:

“Que bem me soube, Florinda, graças a Deus! Sabes, filha, olha que foi a última! Ainda hoje hei de sentar-me diante do Senhor, meu Deus, para lhe prestar contas, colocando o bem e o mal que pratiquei nos dois pratos da balança divina!”

“Ó mãe!, é sempre a mesma ladainha! Há anos e anos que lhe oiço dizer que a sra. da Boa Morte há de avisá-la de quando vai partir... Mas, realmente, como hoje, nunca disse quando ia ser... Se calhar, como das outras vezes, está a mangar...”

“Com coisas da religião não se brinca, Florinda!... As minhas rezas chegaram à minha protetora e sinto que hoje me levarão para a derradeira jornada... E que alegria habita a minha alma e todo o meu ser!... Não quero que alguém chore por mim, porque estou feliz e ansiosa por realizar esta viagem!”

(...) E nessa noitinha, exibindo um semblante sereno e iluminado, a alma da se Maria Pinta-o-Bicho, aquela santa mulher, separou-se do corpo exangue e voou para o Além!


14 de julho de 2012


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TRILOGIA DE TERNURAS

Aos meus irmãos e à memória da Maria



O “MORTO-VIVO”


O credenciado e competente médico Alberto Cruz, cirurgião do Hospital de S. Marcos, em Braga, quando operou o António Marçal, refazendo-lhe todo o abdómen, aferindo que tinha salvo aquela vida, passou a intitulá-lo, nas suas façanhas cirúrgicas, como o “Morto-vivo”...

Pelos meados da década de quarenta, o António Marçal orçava pelos trinta anos de idade e era oriundo de uma família de moleiros, tendo tido o seu berço numa acolhedora aldeia minhota, Lageosa, no limite do concelho de Guimarães com o de Braga. Tratava-se de um bom homem, educado e bem-parecido, de estatura um pouco acima do mediano, amigo do seu amigo, honesto e trabalhador. Ainda adolescente, emigrou para a Galiza e por lá se quedou até deflagrar a Guerra Civil (1936-1939), que tantos vitimou e que conduziu Espanha a uma embaraçosa situação política, social e económica. Perseguido por fanáticos rebeldes, foi forçado a atravessar o rio Minho a nado, debaixo de um chuveiro de balas, disparadas por espingardas e por metralhadoras...

Tudo o que possuía lhe ficou numa terriola próxima da cidade muralhada de Lugo, a capital da mesma província galega. Chegou, pois, ao seu rincão natal, já na maioridade, bem-apessoado e com os bolsos cheios de cotão e a carteira repleta de papelada, não de divisas bancárias...

Foi então que reencontrou a Teresa, filha do se Manuel Fidalgo, marido da sua estimada madrinha de batismo e prima carnal da sua mãe. Mais nova uns quatro anos, apresentava-se uma cobiçada moçoila. Atracaram-se no namoro e, volvida meia dúzia de anos (13 de novembro de 1943), numa cerimónia muito simples, subiam os degraus do altar da linda igreja de Santa Maria de Sobreposta, sendo abençoados, em matrimónio, pelo recém-chegado pároco José Joaquim Esteves (um estimado sacerdote que, um lustre de outonos mais tarde, também me batizou)...

O António Marçal era um viciado e exímio jogador de cartas, sobretudo da sueca! Por isso, nos fins de semana, ou em momentos de lazer, era certa a sua presença em alguma venda local ou das proximidades (ainda que mais assíduo na do sr. Augusto Mendes), para matar o vício e esquecer um pouco a sua pesada profissão de “serrinha”...

O seu pai era um aficionado caçador e matador de porcos, muito estimado pela média e alta burguesia do seu tempo. Apanhou um pouco do gosto do pai e comprou uma espingarda, de um cano e de carregar pela boca. E então, às vezes, lá calcorreava clandestinamente umas bouças dos arredores e, uma vez por outra, também lá calhava de aparecer em casa com um coelhito, um gaio, um melro, ou mesmo uma perdiz (tempo em que tais belas peças de caça ainda proliferavam por aquelas bandas).

Tinha duas filhas crianças e a espingarda, devidamente travada, estava sempre acautelada em lugar inacessível às meninas. Como a arma não estava documentada, todos os cuidados eram poucos para que o Regedor não aparecesse em casa, a fim de confiscá-la. E a esposa bem sabia de tudo isso...

Num domingo do mês de novembro, à tarde (por sinal Dia de Cristo-Rei), depois do jantar, o António Marçal, bem-disposto, foi até à venda do sr. Mendes, para, claro, passar um bom pedaço de tempo a jogar as cartas (com fortes pancadas na mesa de jogo e ditos exaltados, quer dos quatro oponentes em disputa, quer das outras mesadas que se organizavam), a somar partidas e partidas, compartilhando uns quartilhos de verdinho e umas saborosas remessas de champarrion...

Pelo fim da tarde, de repente, na casita do lugar do Regueiro (no eido do Eira Velha - pegadinho à “minha Bouça”, em que construíram a rústica casa que me foi berço), onde habitava a família do Marçal, apareceu, esbaforido, um seu amigo, de alcunha o Pilha, pedindo a espingarda, a mando do Marçal... Mentia!: o pretenso amigo tinha-se metido numa alhada e, como lhe queriam apertar o papo, socorreu-se do embuste para usar a espingarda ilegal.

“Mas o António não está e eu não posso mexer na arma...” - retrucou a esposa, medrosa.

“Eu sei: está a batê-las no sr. Mendes. Por isso é que me pediu para vir buscá-la. Vai sondar uma toca de coelho...”

Tanto insistiu e tanta imposturice apresentou, que a Teresa lhe entregou a espingarda. Logo a notícia estoirou na venda do sr. Mendes. E, de imediato, o Artur, um seu primo carnal, amigo e bastante mais novo, saiu em correria e arranjou artimanhas para que o intrujão lhe entregasse a espingarda. E foi, a toda a pressa, levá-la a casa, onde o António já havia chegado, nervoso, azedo, desconsolado e cheio de medo... Mal viu a arma, tomou-a nas mãos e premiu o gatilho por diversas vezes, para fazer explodir a carga. Porém, ou devido ao estado de nervos do ator, ou porque o gatilho encravasse, não aconteceu o esperado disparo...

Então, desaustinado, o António amarra a arma com as duas mãos, com o cano voltado para si, e, irritado, embate com a coronha nas escaleiras de pedra, que conduziam à parte superior da sua pequena e pobre residência... Uma estrondosa explosão se fez ouvir, a espingarda ficou em pedaços, o Marçal desacordado e caído de costas, com as tripas de fora... Gritos e mais gritos desesperados - um caos, uma confusão infernal...

Enquanto se aguardava a chegada de um carro de bois, mandado aparelhar naquela ampla e farta casa de lavoura dos Caniços (que depois transportou o agonizante até ao Bom Jesus do Monte, para aí fretar um táxi – ao tempo a freguesia de Sobreposta ainda não dispunha nem de automóveis, nem de telefone, nem de eletricidade), um bom e arrojado samaritano, o Joãozinho de Bacelar (mais tarde, fomos, mutuamente, excelentes amigos), pacientemente, com perícia e com zelo, desinfetou tudo muito bem, embrulhou o sinistrado e todas as suas perdas em lençóis de linho, e lá foram parar todas as peças à mesa de operações...

E o meu bom pai, graças a Deus e às mãos de ouro do dr. Alberto Cruz, viveu até quase às setenta e quatro primaveras (1 de fevereiro de 1990) com uma saúde de ferro, até que a primeira dorzita de peito que o visitou (um enfarte do miocárdio) resultou no internamento no mesmo hospital onde havia sido, milagrosamente, salvo, cerca de meio século atrás, e o levou à sepultura no Campo Santo de Sobreposta, onde repousa, em jazigo de família!


25-26 de janeiro de 2014


A CABRA


A boa da Teresa Perpétua (minha santa e saudosa mãe), veio ao mundo a 6 de março, no ano vinte, e até nos deixar (a pouco mais de um mês de completar os noventa - em 2 de fevereiro, dia da Senhora da Purificação, padroeira de Sobreposta, de quem era fiel devota) não se cansava de narrar as peripécias da sua vida atribulada, sobretudo as dos primeiros vinte anos de casada. De entre as que gostava de referenciar, uma havia que tinha a sua graça, porque ela sempre a terminava com uma sonora e fresca gargalhada...

“Deu-se o caso que, pelos meados da década de quarenta, quando me casei com o António, de quem sempre gostei muito, tive que ser eu a suportar os custos da papelada e o demais para o Matrimónio, porque ele, em boa verdade, só era bonito e jeitoso (por isso, muito cobiçado por essas coiras que para aí andam e que não têm temor de Deus), já que a carteira que guardava no bolso de trás das calças, na maior parte das ocasiões apenas trazia papéis. As notas de vinte mil réis, ou as moedas de dez, de cinco, e até as de cinco coroas, desviavam-se dele como o diabo da Cruz!

A minha Maria era pequenina. Eu passava o dia no tear para ganhar uma côdea. O sustento era fraco. Quando me nasceu a Sãozinha (que o Senhor me levou já com uns dois aninhos), por assim dizer, o leite secou-se-me. Sugeriu-me, compreensivo, o António:

‘Compra-se uma cabra, mulher! De comer não lhe há de minguar aqui por perto e dará leite para a garota e para a casa!’

E onde vais tu arranjar a cabra, homem?!... E onde temos o dinheiro para o negócio?!...

‘Pedes ao teu irmão Alfredo e logo que eu receba o que me devem da última madeira que serrei, paga-se!’

Não foi preciso incomodar o meu irmão, porque eu toda a vida fui e sou muito poupada e tinha sempre umas economias de lado... Mas disse-lhe que tinha feito o empréstimo.

O António é uma excelente pessoa, não deve nem gosta de dever nada a ninguém, mas o maldito jogo da sueca põe-no tolo... Já o pai assim era: passava dias, e até noites, na jogatina... E o filho, com certeza, apanhou-lhe os livros e, quando se encontra com outros como ele, ou até piores, é o Dianho!...

Estamos em 1970... Já lá vão mais de vinte anos... Dei-lhe uma nota de vinte, que ao tempo dava para pagar a cabra e para sobrar muito troco; enrolou uma cordita, que meteu ao bolso, destinada a prender a bicha por uma perna, ou pelos cornos... Saiu ao fim de jantarmos, pelas duas da tarde, rumo a Briteiros, onde morava o meu sogro... Chegou a noite e… António de grilo! Já pelo meio da madrugada, bateu-me à porta. Abri, e a primeira coisa que lhe perguntei foi onde estava a cabra…

‘Não apareceu nada que tivesse jeito e pediam couro e cabelo... Quando se fizer dia, volto lá abaixo, ou até aqui por perto se arranja o animal!...’

Mas mal o mirei a transpor a soleira da porta da cozinha, à luz de um bonito luar de agosto, verifiquei que uma grande cabra trazia ele na pele, a nadar em vinho verde!... E soube logo, também, que uma boa parte da nota de vinte ficou a render na taverna onde abancou a bater as cartas com outros companheiros, tão bons ou piores do que ele!...”


26 de janeiro de 2014


GOSTO E NOSTALGIA


Pelos finais dos anos sessenta, os moinhos ainda funcionavam com regularidade num dos estremos da asseada Lageosa, em terreno que já fazia parte da freguesia de Briteiros, do concelho de Guimarães. Eram pertença dos fidalgos da conhecida Casa da Igreja, que, ao cimo da rica aldeia agrícola, possuíam uma extensa propriedade, atravessada pelo ainda límpido rio Febras, ao tempo afamado pelas suas muitas trutas e enguias, que faziam as delícias dos aficionados pescadores, e que era um regalo para os lageosenses.

Na margem esquerda, estendia-se uma comprida bouça, recheada de carvalhas, pinheiros e denso matagal; na direita, eram cultivadas umas leiras, onde abundavam árvores citrinas, principalmente laranjeiras e tangerineiras; aí se encontrava uma velha moradia, construída em rústico granito, onde estavam implantadas três mós, que forneciam a farinha com que o moleiro residente, servindo-se do transporte de dois quadrúpedes asininos, satisfazia as necessidades de inúmeros fregueses, quer da aldeia, quer das freguesias da vizinhança.

O António Marçal da Silva, em 8 de maio de 1916, teve o seu berço na citada moradia, embora no seu registo batismal apareça como vindo ao mundo no lugar de Portuguediz, onde, por um acaso, tinha dois tios moleiros (um, irmão da mãe, e outro, irmão do pai). Aí cresceu e passou a meninice e infância.

Regalava-se a pescar no seu rio amigo, a dar furas e banhos incontáveis, assim como a trepar às árvores como um gato, para se saciar com os saborosos citrinos... E ele sabia quais eram as fruteiras que ofereciam os melhores frutos, pelo que ia lá dar como uma bala!

A vida fê-lo dar muitas voltas: foi obrigado a migrar pelo Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, assim como a emigrar (no princípio da adolescência para Espanha e já próximo de atingir o meio século de existência para França).

Regressando da Galiza já homem feito, casou com a Teresa Fernandes, criando cinco filhos - três meninas e dois rapazes.

Sempre que se proporcionava, aprazia-lhe dar um salto aos terrenos que lhe deram o nascimento e comer tudo com uns largos olhos, imbuídos de ternura e de nostalgia...

Na década de oitenta, numa certa tardinha, meteu pés ao caminho e desceu até aos seus queridos sítios de outrora... Atravessou a gasta pontinha, feita de umas compridas e toscas pedras, sem resguardos, e mirou a bouça, na margem esquerda do Febras; prolongou um infinito e meigo olhar pela suja e pouca água que corria a caminho do Ave (onde o Febras vai desaguar, em S. Cláudio do Barco, nas cercanias das Taipas); e, retrocedendo, para regressar à sua casa, no lugar do Monte (implantada num terreno que tinha adquirido com o apreciável salário e pecúlio amargados na França), ao passar junto de uma velhinha tangerineira, bem sua conhecida, colocou-se debaixo dela e pôs-se a ripar e a saborear sem medida o delicioso fruto de tão boa memória.

E, como sempre, continuava a comer tudo com uns olhares ternos e apaixonados... E era com dor de alma que reparava no abandono daquelas leiras, na casa a cair e nos moinhos arruinados, desprovidos das mós, que algum ratoneiro, para embelezar fosse o que fosse, lá teria vindo surripiar...

Somente viandeiros fortuitos por ali passavam e agora, como sempre, nunca ninguém regateava uma barrigada de laranjas e tangerinas, tal como umas abadas ou taleigas de frutos...

E recuava no tempo, quase uns setenta anos atrás, recordando que os donos daquilo, boas pessoas e muito amigas do seu falecido pai, eram os fidalgos da Casa da Igreja...

(...) E o António Marçal da Silva, meu saudoso progenitor, entristecido e com lágrimas sinceras, naquela tardinha de início de primavera, teve a plena noção de que, até ao fim dos seus dias, não mais pisaria os nostálgicos sítios que lhe eram tão queridos, lhe deram o berço e lhe haviam proporcionado uma risonha e alegre infância!


28 de janeiro de 2014


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GRUPO CORAL LITÚRGICO DE SOBREPOSTA


A todos os elementos que já fizeram ou fazem parte do Grupo

Vou, agora, com imenso orgulho e carinho, dedicar um capítulo especial ao Grupo Coral Litúrgico de Sobreposta, que ensaio e que acompanho ao órgão há quase meio século. E para tal socorrer-me-ei, sobretudo, de um artigo, vindo a lume no “Boletim de Sobreposta” (março de 2008), que escrevi para a altura da comemoração do quadragésimo aniversário (2007), assinalada, também, com a edição privada de um CD de cânticos da minha autoria (interpretados pelo nosso Grupo Coral), assim como com um soberbo almoço de confraternização (servido no restaurante Colombo 2, do Abílio Neta, em Braga, – estimado regalo da Junta de Freguesia e do Conselho Económico de Sobreposta), onde se juntaram os atuais e os ex-vocalistas, todos, gentilmente e com justiça, convidados a participar. E o número de presenças não desmereceu o honroso convite.

É ainda de salientar que, até ao momento, já deixaram o Grupo mais de meio cento de componentes, com sentida mágoa, porque motivos de força maior assim o determinaram.

Ressalto, também, antes de prosseguir esta agradável explanação, que temos, e sempre tivemos, vozes magníficas, quer na afinação, quer no timbre, desde os sopranos aos baixos, e tanto nos naipes femininos como nos masculinos.

Aliás, sem falsas modéstias, não tenho pejo algum em afirmar que Sobreposta é terra de gente com gargantas bem afinadas, que sobressaem quer na música folclórica, quer no canto religioso...

Quando em julho de 1967 concluí os primeiros estudos liceais e de música, no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, situado na Linha do Estoril, fui convidado pela Mariquinhas da Figueira (dedicada a tudo quanto à Igreja Católica dizia respeito, dirigente ativa e responsável pelo Grupo Coral e por movimentos religiosos paroquiais) para tocar o velho harmónio e ensaiar o então exíguo elenco, composto por oito elementos femininos, todas solteiras, porque o pároco José Joaquim Esteves não permitia misturas, exigindo que assim fosse. De facto, eram pouquinhas as cantoras, mas senhoras de agradáveis vozes, bem afinadas, muito empenhadas e competentes.

Claro está que, agradecido, aceitei o desafio com prazer, apesar da minha juventude. Foi o início de uma vida dedicada à música sacra (e já lá vão 47 anos de intenso labor!).

Logo me assaltou a ideia de que havia necessidade de aumentar os elementos do Grupo e torná-lo mais eficaz. O ideal seria um grupo misto. Como, porém, atingir tal objetivo? Não se antevia tarefa fácil…

O Homem põe e Deus dispõe... Por essa data, o então seminarista da Congregação do Espírito Santo, José Ribeiro Mendes (Zé do Muro – como sabe melhor pronunciar –, hoje pároco da freguesia bracarense de Nogueira), detentor de uma bela voz e também de ótimos conhecimentos musicais, comungando da mesma vontade de formação de um grupo coral numeroso e polivalente, que abrilhantasse tudo o que à paróquia dissesse respeito, principiou a apadrinhar uns ensaios da missa, em português, à época autorizada pelo Vaticano. Reuniram-se muitos elementos do sexo masculino: um conjunto de amigos que encontraram nestas noitadas uma forma de bem passar e empregar o tempo, em convívios salutares que, a propósito dos ensaios, percorriam algumas casas de famílias que apoiavam a feliz iniciativa. E assim, alternadamente, umas noites nos Pedreiros, outras no Monte, Muro, Figueira, Loureiro, Caniços... a velhinha Lageosa era impregnada com timbres alegres de vozes que bendiziam a Deus e as Criaturas.

E no final dos ensaios, a malta era brindada com um beberete suculento, seguido de uma jogatina de cartas e de dominó, tudo rematado com animado e longo cavaqueio, que alguns, gozosamente, arrastavam até bem dentro da madrugada!

Pelo Natal, ouvida a primeira missa, em português, houve aplausos frenéticos e unânimes, vindos dos assistentes do templo sobrepostense, abarrotado de fiéis, incentivando para que se prosseguisse e se fosse mais além.

E foi-se: para animar os momentos de variedades no salão paroquial, programou o Zé do Muro uma atuação do Grupo com músicas profanas dignas de serem escutadas. O primeiro reportório foi constituído pelas peças “Barqueiro”, “Tem grelinhos” e uma extensa e bonita rapsódia de música portuguesa (tudo interpretado a duas, três e quatro vozes), sendo desta última solista o Joaquim d’Inácio, que possuía uma excelente voz e tocava cavaquinho, viola braguesa e realejo na perfeição, faleceria poucos anos após com um cancro no estômago). Números que resultaram primorosamente.

Em 1969, no mês de dezembro, quando o Zé do Muro se ordenou padre, o Grupo foi convidado para solenizar a primeira missa sacerdotal, que decorreu em Viana do Castelo com enorme dignidade e alegria. Estávamos no tempo da guerra fratricida do Ultramar e muitos conterrâneos lá foram parar, nomeadamente cantores. Então, sempre que um combatente terminasse a comissão de serviço e regressasse ao lar, o Grupo cantava uma missa de ação de graças ao Bom Jesus dos Milagres, um venerado ex-líbris de Sobreposta, a quem os soldados e os emigrantes sempre se encomendavam e dirigiam fervorosas e inumeráveis preces. Depois, para rematar, os coralistas eram obsequiados com um bem recheado beberete e uma confraternização animada, na casa do recém-regressado.

De tal forma se implantou e tal era a qualidade do Grupo dos homens, que o preferiam para solenizar as promessas a cumprir ou as festividades costumeiras.

Foi então que o grupo feminino, agora já mais ampliado, começou a namorar o masculino, no sentido de se fundirem e trabalharem conjuntamente, já que investiam nos mesmos fins. E assim se fez. Em boa hora, graças a Deus!

O atual grupo é constituído por cerca de 35 componentes, repescados antigos membros que outrora haviam dado o seu melhor e assim vão continuar a fazê-lo, pois a retirada apenas se ficara a dever a circunstâncias da vida que não foram permitindo um ansiado regresso mais célere. E quem dera que a outra meia centena também pudesse retornar ao Grupo!...

Têm-se sucedido as deslocações a paróquias ou santuários, para solenizar momentos litúrgicos especiais, sobretudo casamentos. São recusados muitos outros convites por se apostar mais nos eventos da freguesia e nos acontecimentos que aos conterrâneos digam respeito, tal como tendo também em conta a indisponibilidade, por afazeres inadiáveis, de alguns elementos preponderantes.

Sinto a mágoa de não aparecer um organista que possa garantir um ensaio semanal e um acompanhamento mais circunstanciado do grupo. Sinto essa falta, mas se Deus quiser, creio que, num futuro próximo, essa lacuna possa vir a ser colmatada, porque é uma necessidade premente e há que investir tudo para que se concretize (é que eu, a passos largos, rumo para o ocaso da vida!).

E já não falta muito, desde que assumi esta gostosa tarefa de estar à frente do nosso Grupo Coral litúrgico (no fundo, um elenco de bons e generosos amigos), para festejarmos meio século de profícua e congratulante existência.

O nosso reportório é vastíssimo e diversificado. Prosseguiremos, enquanto tivermos forças e saúde, o propósito de sermos cada vez melhores e mais intervenientes.

Pelo exposto, a primeira palavra, com um profundo sentimento de saudade, dedico-a às Mariquinhas e Laurindinha da Figueira, à Zildinha dos Caniços, à São Daniel e às Zirinha e Bertinha do Lopes, que sempre deram o seu melhor e mantiveram viva a chama do reduzido grupo ao longo de décadas e que agora, creio, moram no Reino eterno, que almejaram e para o qual labutaram no decurso do seu viver. Que repousem em paz!

A segunda palavra de gratidão vai para o pe. Zé do Muro, o grande obreiro da nossa existência e que continua a acarinhar-nos e a incentivar-nos no sentido de não esmorecermos e de chegarmos cada vez mais longe.

A terceira dirijo-a ao pe. Dr. Manuel José Gonçalves (em 24/5/2014 entregou a alma ao Criador), que sempre esteve ao lado do grupo, preocupando-se com as suas necessidades, enaltecendo o serviço prestado à comunidade e presenteando-o com um magnífico órgão litúrgico. E relembro que foi sob a sua direção que teve lugar o convívio da celebração do 25.º aniversário, na Senhora da Fé, em Vieira do Minho, proporcionador de uma tarde marcante e inesquecível, em que excelentes iguarias, muita alegria, confraternização e fraternidade tiveram o condão de consolidar e fortalecer a união do grupo.

A quarta visa o sr. pe. Artur Marques (nosso atual pároco, que estimo como um dos meus melhores familiares), com quem trabalho há quarenta anos (fui seu organista, em Espinho, ao longo de muito tempo) e que sempre se esforçou e diligenciou em ordem a que a liturgia fosse dignificada e aprimorada, escolhendo os cânticos adequados e ditando-me as partituras. Gosto que preserva, estando sempre recetivo a tudo quanto ao Grupo diz respeito, como demonstrou no convívio do dia 24 de fevereiro de 2008, em que nos honrou com a sua presença, sempre amiga, estimulante e solidária.

As muitas palavras finais vão para todos os componentes do Grupo, que dedicam muito do seu tempo, nomeadamente noites, sacrificando o bem-estar dos seus lares, em prol deste meritório empreendimento comunitário, marcando presença assídua em ensaios e atos religiosos.

E não posso olvidar os mais de cinquenta que já não fazem parte do Grupo e que jamais negaram o seu prestimoso contributo…

Vamos em frente, caros conterrâneos! Já caminhámos juntos há longos anos, mas ainda há, e sempre haverá, muito itinerário para palmilhar. Unidos na vontade e no desejo de bem servir, seremos capazes de ultrapassar as eventuais e cíclicas dificuldades que se nos deparem e de atingir, estou plenamente convicto, os nossos mais ambiciosos e legítimos anseios.

Crescemos, somos fortes! Mantenhamos bem aceso o facho que nos ilumina desde as primeiras sementes, que produziram este fruto sazonado. Continuemos, com os nossos cantos e dedicação, a agradecer e a louvar Aquele que nos tem cumulado com o dom da partilha, da perseverança, do gosto pelo labor realizado, no sucesso que vamos alcançando, traduzido na alegria que a comunidade expressa sempre que nos envolvemos nos eventos ou solenidades da nossa querida Sobreposta. Muito obrigado! Bem hajam!


Junho de 2014


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UMA FRATERNA REMINISCÊNCIA


Nas inúmeras romagens nostálgicas que enceto à minha firma identitária, recuei, hoje, meio século atrás, ao tempo tão feliz em que tive o privilégio de conhecer e com quem intensamente convivi durante cerca de um lustre de verões – o consagrado escritor José Manuel de Melo Antunes Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores desde há anos.

Foi, na verdade, um período doirado da minha adolescência, que me marcou para sempre, pois muito do que, presentemente, sei e pratico no campo literário o devo a tantos e tão salutares momentos, vividos na casa do sr. Augusto Mendes (proprietário do espaço comercial “Mercearia e vinhos de Augusto Mendes”, desde 1935, altura em que semelhava um verdadeiro hipermercado).

Antes de entrar propriamente no tema que me move nesta gostosa digressão, e ainda como introito, não posso deixar de vincar que, desde quase menino de fraldas, frequentei a residência dos tios do José Manuel. Desde sempre me uniram laços de franca e boa amizade, não apenas ao unido casal, como ao rancho dos dez filhos que foram vindo ao mundo, todos educados com esmero e espírito cristão.

Fui sempre estimado como se de um lorde se tratasse e à simpática Dilinha (Maria Adília), sobretudo, quis-lhe, e lembro-a agora, ternamente como uma segunda mãe.

Na mesma linha de pensamento coloco a mãe do José Manuel, que só conheci em 1961, meses após ter regressado de Angola. Natural da vila de Póvoa de Lanhoso, oriunda da conhecida família Melo (comerciantes de alfaias e produtos agrícolas), matrimoniou-se com o sr. Joaquim Antunes Mendes (um dos três filhos varões da casa dos Pedreiros), indo residir em Luanda, na rua Serpa Pinto, n.º 9, onde deu ao mundo, em 9 de setembro de 1948, o José Manuel e, menos de dois anos volvidos, o irmão Fernando.

Na década de cinquenta, perante uma foto da Lininha (Maria Adelina) e de um cavalheiro, ouvi os primos apontá-lo como o “tio Joaquim”, que estava em África... O estremecido pai do José Manuel deixou, precocemente, a vida terrena e veio a sepultar no Campo Santo sobrepostense, onde repousa em jazigo de família.

Depois de ter eclodido a mortífera e fratricida guerra civil angolana, a extremosa e abalada mãe, muito doente com a dor da morte do marido, quis deixar África, regressar ao seio familiar e prosseguir por cá a educação dos filhos. Desde o momento em que me conheceu (já eu tinha perdido a luz dos meus jovens olhos) e durante os vários anos que com ela convivi, sempre me tratou com afeto e ternura, regalando-me com almoços quer em Lageosa, quer na residência da rua de S. Vicente, em Braga, a par de incontáveis sandes de variadas compotas, que ela confecionava com perícia e fino bom gosto... Não posso pois de deixar de guindá-la ao mesmo patamar a que elevei a irmã e cunhado...

Desfiado este prelúdio, mergulho de imediato no assunto a que me propus... Foi no início da década de sessenta que, pela primeira vez, estabelecemos contactos pessoais. O José Manuel passava todo o tempo enfiado num dos quartos da espaçosa casa dos tios e, quando não se entretinha com jogos e brincadeiras, escrevia e lia sem parar. E era para lá que, nos períodos de férias, sacramentalmente, todos os dias, de manhã e de tarde, eu me encaminhava para aprender a gostar e a beber cultura...

E era nesse quarto que, na maior parte das ocasiões, a sua boa mãe nos servia um saboroso lanche, sempre acompanhado por uma espirituosa pinga de verdinho, tinto, libertada das leivas da pipa que estivesse a correr, para venda aos imensos e aficionados clientes do bondoso tio Augustinho...

Eu ficava estarrecido com quanto me era dado escutar daquela incomensurável fonte de sabedoria! E, quanto mais imergia nos tesouros que me eram expostos, mais e sempre mais ambicionava saber. E o meu interlocutor nunca se absteve de me brindar com o imenso pecúlio que guardava no seu inesgotável cofre intelectual...

Preparava-me diversificadas sessões de leitura: ora saía à cena um romance, ora um livro de poesia, de contos, de teatro... E eu, sempre curioso e ignorante, questionava sobre vocabulário, ideias, frases, conteúdos... E, sempre imbuído de enorme paciência e sapiência, sem vaidade nem egoísmo, o José Manuel esclarecia-me todas as dúvidas...

Quando o conheci já ele possuía uma biblioteca apreciável. Porém, colocava-me, todos os anos, ao corrente do catálogo das últimas aquisições. Malogradamente, em 1969, deflagrou um incêndio que lhe devorou a primeira biblioteca e os já muitos “arquivos” dessa época. E guardo bem na memória que, de vez em quando me dizia que tinha que dar um salto a Braga, para arquivar os títulos já devorados e trazer mais uns quantos reforços. E atrevo-me a revelar uma inconfidenciazita: nessas idas à cidade, de camionete, os livros iam camuflando o desejo de se encontrar com uma certa namorada, que ao tempo lhe incendiava o coração...

Na poesia, brindou-me com a obra de Florbela Espanca, que ele muito apreciava, incutindo-me o mesmo enlevo... Mas, na poética, leu-me igualmente Antero de Quental, João de Deus, Augusto Gil (poesia e ficção), Guerra Junqueiro, Miguel Torga, José Régio, Almeida Garrett (com a leitura de toda a obra dramática e das “Viagens na minha terra”), Fernando Pessoa, Soares de Passos, António Nobre, Bocage, Camões, Geraldo Bessa Vítor (um poeta angolano que eu desconhecia por completo e de quem ouvi, a meu pedido, repetidamente, o título “Cubata abandonada”)...

Na prosa, foi-me dado absorver Fernando Namora, Ferreira de Castro, Eça, Júlio Dinis, Aquilino, Camilo, Vergílio Ferreira... De autores estrangeiros fez-me amostragem de um considerável leque de prodigiosas criações!

Um outro regalo com que me mimava era ditar-me, para eu transcrever para o sistema Braille, as poesias de que eu mais gostava. E guardo-as, em páginas velhinhas e puídas, como preciosas e inestimáveis relíquias!

Quase todos os dias, também, me exercitava na escrita poética, ensinando-me as rimas, a métrica, a acentuação tónica, os diversos tipos de estrofes... E o meu querido Mestre e amigo não se quedava por aí: obrigava-me a treinar! Engendrava um tema e dizia-me: “Vamos criar uma quadra, dizendo cada um, alternadamente, um verso”. Ele principiava, eu prosseguia e, vezes sem conta, ia emendando as minhas prestações. Da quadra passámos para outros tipos de estrofes e, por fim, para o soneto... Os temas, ora eram coisas sérias, ora brincadeiras patuscas e hilariantes, sendo notável a mestria com que me corrigia e aperfeiçoava...

As leituras, em certos momentos de prendimento, prolongavam-se pela noite dentro. E quando eu não pudesse comparecer (o que era raríssimo), o atento e nada invejoso companheirão virava-se para outras empreitadas e apenas com a minha presença se dava seguimento à leitura, partindo do ponto interrompido...

E tão enlevantes tertúlias centuplicaram-se e produziram frutos abundantes e sazonados... Eis uma das principais razões porque hoje, com destreza e particular sensibilidade, manejo a intrincada e subjetiva linguagem da alma!

Nos ciclos díspares e dispersos da vida, cada um vai trilhando o seu percurso e assim, inevitável e naturalmente, seguimos rumos distintos. Do colégio no Estoril, remetia longas missivas ao José Manuel, que sempre tiveram retorno, não tendo, pois, apesar do afastamento físico, deixado de se reeditar, quando oportuno, uma sucessiva e enriquecedora troca de ideias e pensamentos.

Não posso, também, deixar passar em claro um dos factos mais relevantes da minha existência, em que a intervenção do José Manuel foi fulcral:

Fora o caso que, no início de 1970, numa das salutares permutas de impressões, ele inquirira:

“Sei que fizeste o curso de telefonista na Companhia dos Telefones, no Porto, que estagiaste na Administração dos Portos do Douro e Leixões… e quanto a emprego, como estamos?...”

“Existem algumas promessas...”

“É que eu tive uma ideia: a direção do Rotary Clube de Braga tem efetivado umas coisas, no sentido de resolver problemas a cidadãos carenciados; vou escrever-lhes uma carta, colocando os teus justos anseios na obtenção de um posto de trabalho como telefonista...”

Desinibido como era e consciente do que o seu nome já representava, fê-lo de imediato.

Ao tempo, era presidente dos rotários bracarenses o snr. Maurício Pires, um dos donos da conceituada Ourivesaria Pires, estabelecimento sediado na rua do Souto, que, por meados do mês de abril, ligou para o então único posto público de telefone que existia pelas minhas bandas, na venda do sr. Augusto Mendes, solicitando a possibilidade de me contactar. Logo o solícito merceeiro me mandou chamar, para atender o esperado telefonema. Era simpático e delicado, e acertou levar-me, no dia seguinte, a uma entrevista.

Conduziu-me à Fábrica de Malas Rodovia, na av. da Imaculada Conceição, onde fui recebido pelo gerente, o snr. José Artur da Rocha Peixoto (primo carnal do meu estimado amigo médico Manuel da Rocha Peixoto). Feitas as costumeiras apresentações, o Zé Artur (como gostava de ser tratado) mostrou-me um primitivo PBX e questionou:

“O Zé Fernandes sabe trabalhar com este equipamento?...”

“Sei, mas é necessário ser retirada esta régua para eu poder tatear os “olhos de boneca”...

“E onde está o problema?!...”

Pediu uma chave de parafusos e ele mesmo realizou a remoção do obstáculo. Efetuada meia dúzia de bem sucedidas demonstrações, logo o, depois, meu excelente amigo e patrão, sentenciou:

“Tem um posto de trabalho à sua espera a partir deste instante. Inicia quando quiser!”

E, no inesquecível dia 22 de abril desse ano, gratíssimo ao atento José Manuel, ao solidário sr. Maurício Pires e à compreensão e bondade do sr. Rocha Peixoto, passei a integrar, como telefonista-rececionista, o mundo laboral, que tantas e tão diversificadas alegrias me tem proporcionado...

Antes de encerrar este intemporal apontamento, é forçoso que expresse um sentido e fraterno reconhecimento, que sempre eclode do meu íntimo aquando destes pensamentos e divagações: “Bem hajas, caríssimo José Manuel Mendes!”

E agora, com a devida permissão do Autor, reproduzo aqui um poema, datado de há meio cento de anos, que me foi oferecido e composto numa das suas despedidas do gozo remansoso de mais umas férias grandes. Suponho que se trata de um inédito, o que lhe confere um extraordinário valor afetivo, que irradia uma peculiar melancolia e emocionalidade! Sinto-o como um hino ao imaculado bucolismo, às singelas, mas incrivelmente inebriantes sensações que profusamente exalam da remanescente ruralidade do recanto tipicamente minhoto que me viu nascer, tão profunda e genuinamente cantado pelo Mestre!


Setembro de 2014 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 41 e 42


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ADEUS A LAGEOSA


Para o José Fernandes da Silva, meu amigo


A minha alma abre-se para ti, nesta hora,
como uma flor se abre para a noite e para o dia...
A minha alma abre-se para ti,
nesta hora de despedida
em que me abraça a nostalgia...


Recordo agora os teus poentes coloridos,
e a meiga calma da tardinha,
quando os meus versos doloridos,
num silêncio de tempos idos,
eu sonhava e eu compunha...


Recordo agora a tua vida
na suave alacridade da manhã,
quando os socos das mulheres
entoavam uma canção perdida
entre o pez da estrada sobre a pedra vã.
E a vida que aqui vivi
toda ela despreocupada e sã...


Levo comigo os chocalhos dos rebanhos,
os mugidos resignados dos bois,
a alegria das fontes e das noras,
o idílio que passámos nós os dois:
eu a namorar-te, à luz crepuscular,
duma janela deitada sobre videiras,
e tu, mostrando as linhas fagueiras,
abrindo em luz para me encantar,
trazendo no teu seio guardado
o sonho branco dum luar todo amor.
Levo comigo o cheiro agreste do teu gado,
e o aroma do teu campo aberto em flor...


Adeus... Um adeus que não é o adeus dum filho,
mas que é um adeus sincero e doloroso!
Adeus...
Um adeus que é quase o adeus dum filho,
que parte magoado e saudoso!


Adeus... A minha alma abre-se para ti,
nesta hora triste de te deixar,
como tu abres ainda hoje para mim,
o beijo mudo do luar...
Como se abrem as pétalas duma flor
para a noite e para o dia...
E diz-te adeus,
com o lenço branco duma alma em flor,
toda ela amor e nostalgia...


Lageosa, 13 de setembro de 1965


José Manuel Mendes in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 41


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O PASSEIO DE MOTORIZADA


Aos amigos intervenientes desta nostálgica narrativa


Quando na tarde do dia 21, deste mês de dezembro, fui convidado pelos membros da Direção da Associação Social e Cultural de Sobreposta para estar presente no salão da sede da Junta de Freguesia (honrando-me com uma gratificante homenagem), o Fernando Marques Mendes (Fernando das Eiras) efetuou uma amiga e competente apresentação, quer sobre a minha obra poética, musical e de ficção, quer de cunho pessoal.

Afloraram-me à memória inúmeros episódios em que ambos fomos intervenientes e vou expor, neste desfiar de nostalgias e ternuras, uma curta amostragem, pois mencionar todos os eventos daria um volume de apreciável dimensão...

Quedar-me-ei essencialmente no enfoque de uma das últimas peripécias em que fomos ativos atores, juntando um aperitivozito, que sabe sempre bem degustar, como preâmbulo, ao que me proponho rabiscar...

O Fernando leva-me de avanço, na idade, um ano e alguns meses, mas emparelhámos em diversificados cenários. Ele frequentava o seminário e eu os colégios especializados na minha deficiência visual (primeiro na cidade do Porto e, posteriormente, na Linha do Estoril), pelo que apenas nos encontrávamos e convivíamos nos períodos de defeso das aulas. Sobretudo nas férias grandes, quase sacramentalmente, na cozinha do rés-do-chão da venda do seu tio Augusto Mendes, jogávamos as cartas forte e feio, até à exaustão; iniciávamos após o simpático merceeiro encerrar as portadas e, às vezes, só desabancávamos quando os primeiros raios de luz, ou mesmo do sol, invadiam o aposento onde nos entretínhamos!

A equipa, invariavelmente, era formada por mim, pelo Fernando, pelo seu primo, também Fernando e filho da casa, e pelo Zeca do Loureiro. O Justino, também um dos dez descendentes do dono do estabelecimento de mercearia, vinhos e petiscos, era o nosso braço apoiante, porque preparava as remessas de champarrion, o vinho do Porto ou uns traçadinhos – uma mistura de bagaço com vinho do Porto (Ah, é verdade: o Fernando das Eiras não ingeria álcool, compensando com umas laranjadas e sumol) –, os amendoins, os figos de seira, as bolachas e rosquilhos, as punhetas de bacalhau, as saladas de atum… E, pelo seguro, também, quase sempre, assentava os jogos e as partidas...

É que (aqui para nós, que ninguém nos ouve) os três comparsas eram uns habilidosos e... uns batoteiros no jogo de primeira apanha, sobretudo os dois Fernandos...

Recordo-me perfeitamente de, numa certa ocasião, o Fernando das Eiras dar cartas e o Zeca, sub-repticiamente, lhe gamar o duque de trunfo, que foi o que lhe coube, devido ao macete que o outro Fernando tinha feito. Houve a primeira puxada de trunfos e, exibindo um semblante de gozão, o Fernando mostrava-se admiradíssimo por não poder servir à pinta e, está claro, por aferir que lhe surripiaram o morgadinho do naipe e lá lhe enfiaram uma outra carta qualquer!

Como referi, o Justino é que providenciava o cumprimento dos contratos que estabelecíamos para cada porrada de partidas, ora à sueca, ora ao king. E ainda hoje, recolhido, sinto vontade de me escangalhar a rir, lembrando uma brincadeirinha inocente:

Fora o caso que, numa já adiantada matina, os dois perdedores tinham que pagar duas latas de atum, uma cebola, os trigos, a indispensável remessa de champarrion e, por acréscimo, o refresco para o Fernando... Cabiam, por regra, duas sanduíches a cada conviva (aqui, o Justino também usufruía de um quinhão do saboroso petisco).

A páginas tantas, solícito, provocador e manhoso, o Fernando das Eiras interpelou-me:

“Ó Zezinho (às vezes tratava-me assim, o que significava lixadela ou canelada, está visto!), vai mais uma sanduichezita?!...”

“Então não vai, companheiro!” – que, àquela hora, vinha sempre a calhar...

O Justino, que também pegava bem ao pálio, como se costuma expressar o sábio povo, meteu-me na mão um trigo bem recheado. Gulosinho, dei umas trincadelas e somente me chegavam aos queixos uns bocados de cebola, regadinhos no molho apetitoso... Fui avançando, esperançado de que não tardaria a abocanhar uns nicos do peixe teleósteo! Qual quê?, levei a empreitada até à última migalha e, quanto ao desejado..., nicles!

“É a primeira vez na vida que devoro uma sanduíche de cebola!” – exclamei, pressentindo os abafados risinhos da malta, que então se converteram em uníssona e sonora gargalhada!...

Exposto este aperitivo, lá vai então o conduto.

Uma das peripécias que me visitou a mente durante o aludido discurso do Fernando, foi o convite deste para uma ronda de motorizada, no fim de uma tarde fria, nas férias da Páscoa, creio que de 1968, quando, por coincidência, nos encontrámos no terreiro da venda do snr. Mendes:

“Zezinho, queres ir dar um passeio comigo a Briteiros? O meu pai empresta-me a motorizada e vamos de ‘cu tremido’!...”

Entusiasmado e com agrado, respondi de imediato afirmativamente.

A mãe do Fernando é natural de Santa Leocádia e tinha, em Briteiros, uma família de parentes muito próximos, na casa do prof. Marques, que procriara um rancho de filhos (o que também sucedeu na casa das Eiras, pois o Fernando é irmão de mais três rapazes e dez raparigas!).

O Fernando era visita costumeira dos primos briteirenses. E eu também me entendia com eles como Deus com os anjos...

Prosseguiu, então, o meu amigo interlocutor: “Vai andando até ao se Daniel e espera lá por mim, que eu só vou a casa buscar o veículo.”

Desci os quase duzentos metros da EN 309 e estacionei no passadiço de pedra da entrada para a casa da Figueira. Quase ato contínuo, escutei o ruído de um motor e, com mais uma aceleradela, o meio de transporte postou-se ao meu lado. Satisfeito, o meu parceiro ordenou: “Monta!”

O motor roncou até à curva antes dos antigos e toscos bancos da Citânia, mas a partir daí, como o resto do percurso era sempre a descer, e bastante, rolámos em silêncio, na poupa, como é hábito dizer-se.

Arribados ao almejado destino, preenchemos o tempo com muito paleio, muita música, uns petiscos… Era já madrugada alta quando o condutor se decidiu a realizar a viagem de retorno... Trepámos para o comprido assento do motociclo e, ala moleiro, que já não é nada cedo!

Um meio quilómetro após termos começado a subir, trrrrr... Apagou-se o motor e estacou a motoreta! O timoneiro deu ao “quics”, tornou a dar e repetiu, mas prevaleceu o silêncio noturno e o frio era de regelar os ossos!...

“Acabou-se o combustível! O meu pai avisou-me e eu contava ir abastecer no Cavaca (um garagista vendedor e consertador de bicicletas e motorizadas – por sinal pertíssimo do local onde confraternizáramos), mas descuidei-me... Vamos a butes: eu guio e tu empurras...”

Era um frete medonho, porque até depois dos bancos (um bom pedaço), havia uma subida e peras! Para além de que, para cortar a meta de chegada, tínhamos pela frente uns bem medidos quatro quilómetros! Não havia, contudo, outro remédio...

Contornámos a volta grande (agora alargada, mas que à época era um gancho estreito), ladeámos os fornos crematórios e os bancos e, atingida a primeira fatia plana, o chefe de equipa parou e, com um risinho maroto, anunciou:

“Até à curva antes dos marcos dos Moleiros não precisas de empurrar...”

Ultrapassámos a Bugalha e, antes da dita curva, reiniciei o empurrão. Quando apareceu a retazita plana da Veiga, lá descansei, um pouco mais, o cangalho...

Perto do Penedo da Seara, afeiçoei-me ao derradeiro estirão, que teve o seu término com a chegada ao ponto de partida, por volta das quatro da matina!

Quedámos junto da casa do se Daniel e, antes da despedida, com falas escarninhas, rematou o anfitrião:

“Que belo passeio, Zezinho!”

“À pata! Deixa-me é dar às de vila-diogo, que está um briol de rachar...”

O Fernando apontou a roda dianteira para a íngreme cangosta do lugar da Vinha, apeando, são e salvo, no espaçoso quinteiro da casa paterna...

E eu lá palmilhei a distância que me separava da casa dos meus bons pais, implantada na subida do lugar do Monte, que conduz ao atual Campo de Futebol sobrepostense...


29-30 de dezembro de 2014 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 43


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UM TESOURO MALDITO


Recordo, como se fosse há pouco, aquela bonita sexta-feira, 3 de maio de 1957, em que incontáveis folhas e flores ornamentavam o mais recôndito lugar. Havia sol, muito sol, a aureolar a terra com deslumbrantes raios luminosos. A passarada cabriolava nos arvoredos, pipilando despreocupadamente. A primavera vestia-se com o seu fato mais esplendoroso, saudada pelos cantos de cucos, rolas, poupas, melros e tantas outras aves, que desempenhavam o seu papel na infinda e admirável orquestra da Natureza. Que belo maio! Que ridente dia!

Levantei-me muito cedo, como era meu hábito na infância, sempre ansioso de partir para a escola. Nesse ano, frequentando a 2.ª classe, tinha aulas só da parte da tarde. E para essa data havia sido combinada a limpeza do jardim da nossa escola. Por isso, cada aluno muniu-se de um apetrecho, levando eu uma sachola pequena.

Raparam-se as ervas, retiraram-se plantas, ramos, folhas e flores já murchas; nos canteiros, substituiu-se o que se arrancou por outras espécies. Fez-se uma rega geral, depois de tudo bem sachado e limpo. Ficou um brinco, porque todos deram o seu melhor!

No recreio, um colega, às escondidas, mostrou-nos um pequenino cilindro amarelo, que, depois, soube tratar-se de um fulminante de dinamite. Diversos companheiros quiseram negociá-lo, mas eu fui o preferido, dando em troca um lápis de cor. Escondi-o bem escondido e fui perseguido até à tardinha, já que todos mo queriam tirar.

Porém, o Destino estava traçado: o tesouro pertencia-me e dele haveria de colher os amargos louros!

Disseram-me que o reduzido objeto estoirava, provocando um raro espetáculo de cores, pelo que tentei fazê-lo explodir, às escondidas, com o auxílio de amigos. Bem lhe arremessámos pedregulhos, mas teimava em não rebentar, acabando eu por recolher a casa com a ideia fixa de concretizar o meu desejo.

A lareira crepitava e o pote fervia ruidosamente. Dois vizinhos, mais novos do que eu, estavam pertinho de mim. O meu pai foi até à sala; a minha mãe segava as couves para o caldo; eu sentei-me num banquinho de madeira e fui-me chegando o mais possível para a labareda. Atento a tudo, retirei discretamente do bolso o fulminante, acomodei-o entre os dedos polegar, indicador e médio da mão esquerda e, com a direita, peguei numa caruma, que acendi e aproximei do cilindrinho...

Ouviu-se uma tremenda explosão, todos desataram aos gritos e eu fui invadido, pela derradeira vez, por estranha luz, que foi, também, a última que os meus olhos viram...


Dezembro de 2003 in “Receptáculo”, 2005


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O RAMIRO


Para a Isabel, Luísa e João

Quem não conheceu o Ramiro, na segunda metade do século passado, na aldeia de origem, Lageosa, ou numas várias léguas em redor?!...

Oriundo de uma família humilde e respeitada, bem-parecido e alimentado, de estatura acima do mediano, desde pequeno que enveredara pela profissão de sapateiro, tornando-se, mais tarde, num empenhado e perfeito artista, ensinado pelo irmão Alfredo, que era dono de uma oficina situada junto da estrada nacional (na frente com um terreirozinho, a que duas velhas e grandes oliveiras davam sombra).

Em criança fora vítima de uma doença grave e prolongada, talvez uma meningite, que lhe deixou sequelas profundas para o resto da vida. Era um bom-serás, amigo de ajudar e bastante pretendido pelas moçoilas. Senhor de uma potente, harmoniosa e bela voz, cantava afinadinho, sendo muito alegre e jovial. Apreciava umas boas e copiosas pingas, que, imensas vezes, o faziam andar de gatas e dormir umas sonecas em locais impróprios e pouco confortáveis.

Casou e foi pai de três filhos, um rapaz e duas gémeas, tendo conhecido a felicidade e os fracos bafejos da Sorte.

Enviuvou cedo e não mais se consorciou, embora se badalasse (e ele assumia) que era pai de uma menina, filha de mãe solteira.

Depois que o irmão encerrara a oficina e emigrara para França, passou a alimentar a preguiça, dando tiros permanentes no trabalho e vivendo de habilidades. Também acabou por ir parar à gaulesa Toulouse, mas, após um período reduzido, certamente a rebentar com saudades, tendo recebido uns francos de salário, que lhe permitiram pagar a viagem de comboio, sem avisar os familiares, que o haviam chamado e acoitavam, desertou para Portugal, com os bolsos vazios como quando partira.

Não era voz corrente que praticasse o roubo, mas cultivava uma forma delicada para extorquir uns cobres das carteiras alheias, sempre que se lhe deparava uma ocasião e a necessidade a isso o obrigasse, utilizando uma bem elaborada e convincente persuasão e refinado paleio... Aliás, mentia desalmadamente, sendo um verdadeiro milagre apanhar-se-lhe uma verdade!

De qualquer maneira, nas arquitetadas e modestas burlas em que se envolvia, não era exigente, e muito menos violento, bastando-lhe algo que resolvesse problemas imediatos ou a curto prazo.

Poder-se-ia desfiar, então, um rosário infindável de peripécias que ilustravam o seu dia a dia: hoje, em Braga, amanhã, em Chaves, depois, em Lamego, Porto, Cabeceiras de Basto, Coimbra, Viana do Castelo...

Era, como se depreende, um judeu errante, sem eira nem beira, conquanto possuísse casa própria no cimo da freguesia. Gostava de mudar de ares, pois não aguentava muito tempo no mesmo sítio. As queixas apareciam aos montes, mas as autoridades respondiam que nada podiam fazer, porque o Ramiro não roubara, apenas procedera ardilosamente...

(...) Constava que há tempos o seu paradeiro era no Porto.

Um certo dia, apareceu de táxi na casa da irmã e madrinha e, ao despedir-se, abatido e com a cara lavada por sinceras lágrimas, vaticinou que estava convencido tratar-se da sua última digressão ao torrão natal.

De facto, volvido nem um mês, foi encontrado morto, de uma forma inesperada e em circunstâncias misteriosas, que nunca foram apuradas, sem quaisquer sinais de agressões, em Vila Nova de Gaia, debaixo de um autocarro estacionado...

Transportado para o Instituto de Medicina Legal da capital nortenha, foi reconhecido pelos filhos e levado a sepultar, com toda a dignidade, no cemitério de Sobreposta, onde repousa em jazigo de família.


Outubro de 2003 in “Receptáculo”, 2005; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 17


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EXTRAVIADA


Mediana de estatura, modesta, trabalhadeira e simpática, a se Alcina Serra era uma boa mulher. Enquanto pôde (e fê-lo até à velhice) olhava pela vida de casa, educava os sete filhos e era tecedeira.

Como tantas da aldeia, ia bastante longe buscar as pesadas teias de algodão, que depois tecia num tear de madeira artesanal.

O marido era um humilde serrador e mestre nesta arte, cujos executantes, na terra e arredores, eram conhecidos por serrinhas… De vez em quando, comprava uma partida de madeira, serrando-a de seguida, quase sempre no local de abate das árvores. A dedicada esposa e extremosa mãe vivia pobremente, mas com limpeza e honestidade.

Pelos setenta anos, lentamente, começou a perder o tino. Os filhos eram obrigados a andar sempre com os olhos fixos nela, para minimizar as asneiras que, involuntariamente, praticava, mantendo-a bem ao seu alcance.

Ora, um certo dia, furtando-se à apertada vigilância, desapareceu de casa. Ao dar pela sua falta, preocupados, os familiares iniciaram uma busca por tudo quanto era sítio, juntando-se-lhes diversa gente.

Percorreram-se bouças, campos, caminhos e carreiros, sem ser encontrado rasto algum da sua passagem. Forjaram-se inúmeras conjeturas, desenharam-se eventuais e até incríveis cenários, mas sempre em vão. Onde se embrenharia a malfadada?

Era imprevisível o desfecho e, malgrado baldados esforços e incontáveis tentativas, não havia jeito de lhe achar o paradeiro.

Já dentro da noite, num lugar ermo, na parte de cima da Devesa de Bacelar, metida numa comprida mina, rasgada para chegar a uma nascente de água que alimentava uma poça de rega, encontraram-na, de borco, com a boca mergulhada no reduzido veio corrente, segurando numa das mãos a candeia ainda acesa, que a guiou no último percurso da terra e agora a iluminava para a prestação de contas ao Criador, o Deus em que sempre acreditara e que servira ao longo da vida...


Março de 2004 in “Receptáculo”, 2005; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 19


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O POBRE DA CHAPA


Aos meus conterrâneos

Era muita a miséria que existia em meados do século passado, levando a que muitos homens, mulheres e crianças calcorreassem grandes distâncias a estender a mão à fraternidade dos bons corações, pedindo um tostão, uma malga de caldo, ou um naco de pão para matar a fome e a dos seus familiares, que os aguardavam em humildes e desconfortáveis casebres, na esperança de que não regressassem com o puído saco vazio... Tempos difíceis esses, que, ciclicamente, por infelicidade, se vão repetindo, sendo que, quem mais sofre é o que pouco ou nada possui e que, pressupõe-se, ainda há de vir a ter menos... Enquanto alguns se vangloriam com vacas gordas, a muitos semelhantes nem as magras lhes sorriem!

Entre os pobres, havia-os rebeldes, orgulhosos, inconformados e incontidos; havia-os moderados e compreensivos; e havia-os também simples e resignados... Quanto a dadores, também se poderia enumerar uma listagem bem distinta, pois havia os soberbos, que sempre negavam a esmola; havia os que, resmungando, iam abrindo os cordões à bolsa, para retirar um ou dois tostões e, raramente, um cruzado ou uma coroa (quatro e cinco tostões, respetivamente); ou os que levantavam a tampa da masseira para entregar uma fatia ou uma côdea de broa; os que desciam à loja, para extrair das tulhas um punhado de milho, de centeio ou de feijão; e havia os generosos, que sempre davam um pouco do que tinham, e faziam-no por amor ao próximo... E as súplicas das esmolas eram, comummente, cantarolices como “Por amor de Deus” e “Pelas alminhas de quem lá têm!” E rezavam, rezavam ave-marias, padre-nossos, glórias, e até salve-rainhas, quer antes de chegarem ao lugar do pedido, quer quando batiam a aldraba do portal, quer ainda quando já se iam retirando (quantas vezes de mãos vazias), dirigindo-se para um novo suposto benfeitor, mesmo que nada lhes tivesse sido dado... De alguns, a canalhada não gostava e, sem pensar no que fazia, arremessava-lhes pedras e chamava-lhes nomes feios... Toda esta lengalenga me faz recuar, nostalgicamente, à minha airosa, bonita, asseada e querida Lageosa e aos bons tempos de criança, ao encontro de um velhinho simpático que por lá peregrinava faz longo, longo tempo...

Já lá vão perto de sessenta anos, decorrendo a década de cinquenta, quando se espalhou a notícia da morte do “Pobre da Chapa”, alcunha por que era conhecido esse pobrezinho bondoso, vindo não me lembro de onde. Com a dita alcunha a dever-se, creio, ao contante uso, no coçado e, quem sabe, quase secular casaco, de um pedacito de uma velha chapa. Caminhava várias léguas, percorrendo algumas aldeias, a estender a mão à caridade. Se aos outros da mesma condição a miudagem, por vezes irreverente, apupava ou jogava pedras, àquele, que há largos anos cumpria um roteiro doloroso, não me recordo de lhe terem feito mal. O que me ressalta à memória, comovido, é a imagem do pobrezinho, de o ver na estrada ou em caminhos tortuosos da minha aldeia, ou, sobretudo, quando se consolava com uma tigela de caldo, na velha e comprida varanda, que existia na saudosa casa da minha carinhosa avó materna! O “Pobre da Chapa” já palmilhava aqueles sítios há imenso tempo, porque as gerações mais velhas a ele se referiam com especial ternura.

Uma vez por semana, pontualmente, era certa a visita do bom homem que, em determinadas casas, além da esperada esmolinha, ainda era brindado com uma malga de caldo, ou um prato de qualquer conduto, conforme a hora de chegada fosse ao almoço (8-10 horas da manhã), ao jantar (1-2 horas da tarde), ou à merenda (5-6 horas, também da tarde).

Quando passava em locais onde houvesse gente, o “Pobre da Chapa” descobria-se, isto é, tirava o chapéu, saudando quem encontrava, e todos lhe correspondiam, notando-se nele afabilidade e visível agrado...

Ora, sucedeu que, num belo dia, pela tardinha, jogávamos ao botão junto à venda do Sr. Mendes, usando, de preferência, os patacos (moedas antigas, sobretudo do tempo da monarquia, já em desuso e que algumas pessoas ainda retinham em casa como recordação), a que se atribuía um determinado valor, trocados por botões, consoante o tamanho e a grossura do mesmo, quando passou o bondoso velhinho, de saco às costas e amarrado ao seu lódão de marmeleiro. Parou e pôs-se a olhar-nos com um sorriso de paternal doçura, dirigindo-nos palavras simples e repletas de amabilidade. Decidiu-se, então, por unanimidade, oferecer-lhe os patacos que ali havia, pois pensávamos que ele os poderia trocar por escudos! E ele, sempre sorridente e com gestos de agradecimento, recusou, recusou e, com delicadeza, não aceitou, entrando no caminho de Espinheiro, certamente rumo a Pedralva, para prosseguir o seu peregrinar até nascerem as estrelas no firmamento...


22 de dezembro de 2010 in “Palco de Memórias”, 2011; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 29


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OS NINHOS DA MINHA INFÂNCIA


Ao Manuel J. Cardoso Gomes

Lembro-me imensas vezes do alegre tempo dos ninhos, quando os meus olhos ainda eram povoados de intensa luz e tudo enxergavam!

Sucederam-me inúmeras peripécias, mas, de vez em quando, afloram-me principalmente três à memória...

Numa dessas vezes, recordo-me perfeitamente daquela manhã bonita de maio, quando, criança de sete anos, saí em busca de ninhos nas bouças vizinhas da casa onde nasci, no lugar do Regueiro. Palmilhei muito terreno, até ter a sorte de descobrir um ninho de gaio, feito na coruta de um pinheiro bastante alto, mas muito delgado.

Aproximei-me, mirei bem o precioso achado, tive inúmeros pensamentos e decidi-me a trepar à árvore, para verificar o conteúdo da nidificação. Subi rapidamente, como um gato, leve e ágil, como eu era aos sete anos de idade...

Chegado à coroa do pinheiro, segurei-me bem ao tronco com o braço esquerdo e estendi o direito para apalpar o que existia naquele ninho. Não sei porquê, assustei-me, tremeliquei, o pinheiro partiu-se e eu vim agarrado ao coruto, aterrando numa verdinha, grande e fofa moita de mato!

A verdade é que, apesar do tombo ainda ser razoável, não me magoei.

O que, porém, me magoou profundamente, foi ver, ao levantar-me, a meu lado, o ninho desfeito, com três ovas esborrachadas...

Numa outra ocasião, no Loural de Entre-Casas, já no estremo de Santa Leocádia de Briteiros, tendo ido aos ninhos com o meu tio Inácio, dei com um buraco redondinho, no meio do tronco de uma velha cerejeira.

“É um ninho de peto!” – disse o meu tio. – “Trepa e vê se tem novinhos...”

Eu tinha uns oito anos. Não me fiz rogado: trepei, com incrível agilidade, até chegar ao ponto onde estava aberto o buraco redondinho. Segurei-me ao tronco com o braço esquerdo e introduzi a mão direita no orifício: do interior da cerejeira saiu um bufar ruidoso e assustador e ouvi umas bicadas agressivas... Julguei tratar-se de uma cobra e, desequilibrando-me, estendi-me ao comprido no quase maduro centeio, semeado naquela leira, numa das margens do riacho, chamado Rio Torto, que, nascido na serra de Espinho, ali corre ao encontro do Ave...

Ainda noutra maré, já os meus olhos eram habitados por densa escuridão, teria uns onze ou doze anos, fui também à procura de ninhos, com um dos grandes companheiros de infância, o João Raposo. No Pedregal, numa bouça da casa da Figueira, na coruta de um pinheiro muito alto e grosso, havia um ninho de tordeia (tordoveia)...

Mesmo cego, não sei porquê, gostava imenso de subir às árvores. E fui incumbido de trepar ao altíssimo pinheiro, recebendo, cá de baixo, todas as instruções do meu amigalhão, que não se aventurou a ir sondar a morada daquela ave rara...

Subi, subi e cheguei ao galho onde estava edificado o ninho, que, por azar, ou para meu castigo, não tinha rigorosamente nada. Iniciei, então, a viagem de regresso, já cansado de ter permanecido tanto tempo empoleirado.

“Ainda falta muito?” – ia perguntando.

“Ainda!” – respondia o João.

Não sei quantas vezes perguntei, sendo a resposta sempre a mesma: “Ainda falta muito, Zé!”

Devo ter pensado que o companheiro me estava a enganar e, então, depois de mais um questionar e do mesmo responder, desamarrei-me e atirei-me abaixo...

Caí de pé, num tojo seco e bravo.

“Não me aleijei!” – proferi, ufano e satisfeito.

“Vamos embora.” – falou o João.

Mal dei as primeiras passadas, ai, Jesus! Doía-me terrivelmente o tornozelo do pé esquerdo. Foi o diabo para chegar a casa.

Na manhã seguinte, com a minha santa mãe, montado num jumento do meu tio Joaquim Moleiro, lá fui a Pedralva, ao se Manezinho do Hermenegildo, que era um homem simpático e habilidoso “endireita” ossos, a fim de que me observasse o pé. Disse que estava “desmanchado”, mimou-me com umas torcidelas e esticões, que me provocaram umas dores danadas e lá regressei a Lageosa, para não sair de casa durante uma quinzena. Mas fiquei ótimo, porque o se Manezinho era mesmo um excelente curandeiro...


28 de fevereiro de 2011 in “Palco de Memórias”, 2011; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 27


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DESFILE NOSTÁLGICO


(Versos compostos entre 1965 e 2015)


POESIA


Ao pe. Artur Vieira Marques,
com um caloroso abraço
de antiga e sã estima


SOBREPOSTA


Aos meus conterrâneos


Sobreposta, linda terra,
onde um dia ao mundo vim,
berço que hoje ainda encerra
recordações para mim
e lembro vezes sem-fim,
pois não esqueço os momentos
outorgados em criança:
sorrisos e sofrimentos,
tempestades e bonança,
ambições e esperança...


Salve, meu torrão bendito,
o roteiro de saudade:
Braga, concelho e distrito,
rumo ao alto, sem idade
e, subindo aquela encosta,
(paisagem deliciosa,
outrora rude e agreste),
surge a linda Sobreposta,
terra asseada e airosa,
ao cimo do rio Este...


Saudades da freguesia,
onde há muito ao mundo vim:
botão frágil de jardim,
regado com alegria,
em permanente festim,
por mãos hábeis, delicadas:
o mais maternal carinho,
são e puro como o linho,
tecido para as jornadas
abertas em meu caminho...


Sou filho de Sobreposta,
o Regueiro meu lugar,
batizado, fraca aposta,
(ressalto aqui meu pesar)
em rua de S. Tomé:
para muitos não diz nada,
ou meditarão até
ser minha pura vaidade:
tanta vez sinto cravada
a lembrança e a saudade...


28 de Janeiro de 2009 in “Ramalhete de Safiras”, 2012; in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 22


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A SOBREPOSTA


À memória do Fernando José Lopes


Ó Terra saudosa,
sortido jardim,
devota, mimosa,
singela e airosa,
forrada a cetim:
em era ditosa
ao mundo em Ti vim!


Eu gosto da minh’Aldeia,
um cantinho de encantar,
de tantas ternuras cheia,
que sempre hei de recordar!


Lá tudo é paz, harmonia,
pois se entendem todos bem,
gozando a sã alegria,
que a vida nos campos tem!


Minha joia cristalina,
querido torrão natal:
que eu conserve a grata sina
de puro amor filial...


Fevereiro de 1995 in “Arca de Filigranas”, 2001


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BALADA DE SOBREPOSTA


Nossa terra é Sobreposta,
de Braga, um lindo rincão:
quem é que d’ela não gosta
e a não traz no coração?!


Sobreposta é um canteiro,
com mil flores de invejar:
quem lá mora é um herdeiro
de ternuras, p’ra lembrar.


Ó querida Sobreposta,
num planalto que é jardim,
como mesa sempre posta
p’ra magnífico festim.


Sobreposta está no Minho
e lá reina devoção:
ó Aldeia de carinho,
nostalgia e gratidão.


Quem visita Sobreposta,
outras vezes vai voltar,
que o que viu é uma aposta
para ver e recordar...


24 de dezembro de 2014


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HINO-CANÇÃO A SOBREPOSTA


Sobreposta graciosa,
num planalto de encantar,
recetiva, tão saudosa,
que me honraste com um lar:
numa época ditosa
o meu berço a embalar!


Asseada Sobreposta,
que de Braga és um jardim:
todo o filho muito gosta
de encontrar-te sempre assim.


És, ó minha freguesia,
um cantinho sem rival,
com ternuras, harmonia,
gente simples e leal.


Bela joia de saudade,
amadíssimo rincão:
pela vida, sem idade,
teu será meu coração.


Sobreposta, terra amada,
onde ao mundo, um dia, vim:
hoje e sempre recordada
és o tudo para mim!...


8 de janeiro de 2015


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CANÇÃO PARA SOBREPOSTA


Aos meus conterrâneos


Asseada, habitantes singelos,
entre a Pena, a Citânia e Campelos,
Sobreposta é uma terra minhota,
o concelho de Braga a integrar,
num planalto de gente devota,
tudo o que é tradição a honrar!


Quem subir o vale d’Este,
Sobreposta vai pisar,
com alguém que muito investe,
o Futuro a desbravar.


Sobreposta é um tesouro
que dá gosto contemplar,
do soberbo miradouro,
que na Pena tem lugar.


Chegam muitos forasteiros,
p’rós moinhos visitar:
sobretudo, nos Moleiros,
várias mós há p’ra girar.


Sobreposta já foi terra
de afamados artesãos,
que venceram feroz guerra
com suadas hábeis mãos.


Desde os anos de sessenta,
da centúria que findou,
Sobreposta, triste, enfrenta,
copiosa emigração.


Sobreposta é uma herdeira
de um convívio fraternal,
desde a Ponte a Vitoreira,
do Cruzeiro ao Pedregal.


Dezembro de 2013 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 38


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CANÇÃO AO RIO FEBRAS


Ao velho companheiro Fernando Marques Mendes


O rio Febras,
Portuguediz,
as rudes quebras
passa, feliz;
e na Tojeira
há gorjear,
sob a fagueira
luz do luar!


De Pedralva para o Ave,
o Febras a deslizar:
em S. Cláudio, bem suave,
não pode mais marulhar!


Na Tojeira e nos Moleiros,
as mós obriga a girar:
noutros tempos, os celeiros
das fomes que ia matar!


Pequenino e tão saudoso,
o Febras quero cantar:
no Passado, tão ditoso,
nas águas me fui banhar!
De quando eu era menino,
pelas noites de luar,
rouxinóis, em subtil hino,
gorjeios a exalar!


Ó meu Rio, sem idade,
te lembro vezes sem-fim:
nos instantes de saudade,
no mais alegre festim...


Rio Febras corre e canta,
no leito, sempre a sonhar:
com gorjeios da garganta
das aves a te saudar!


De Pedralva até Briteiros,
ao fundo, tens que passar,
n’Aldeia, que os ais primeiros
ao nascer, me ouviu soltar...


Rio Febras, tão querido,
ó joia d’estimação:
perto ou longe, em tom sentido,
dedico a minha canção!


Freiriz, 20 de julho de 2014


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O MEU S. TOMÉ


Ao bom amigo Alberto Gomes da Silva, o vizinho mais próximo da capelinha do meu S. Tomé


O meu S. Tomé,
não é
qualquer S. Tomé:
Ele é
a joia preciosa,
em quem tenho fé
e faz a minh’alma ditosa!


Onde fica?
Em poucas letras se explica
e com respeito profundo,
pois é o bom padroeiro
da minh’aldeia saudosa,
a asseada Lageosa,
onde, um dia, vim ao Mundo,
no meu lugar do Regueiro,
já num longínquo janeiro,
numa casa humilde e pobre,
sob maternal olhar nobre...


O meu S. Tomé,
apenas há um,
em quem tenho fé
e assim como é
não há mais nenhum...
É com nostalgia,
imensa alegria
e ‘inda a revê-la,
que repleto de ânsia
regresso à infância
e entro na capela!


Ai meu lugar do Regueiro,
ai orago S. Tomé,
desde o tal mês de janeiro
procuro ser mensageiro
de sã e acendrada fé!


Quantas vezes, em romagem,
realizo a viagem,
cheiinha de nostalgia:
invocado S. Tomé,
faz que sempre a minha fé
seja um manto de alegria...


O meu S. Tomé,
apenas há um,
em quem tenho fé
e assim como é
não há mais nenhum...


30 de setembro de 2012


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TENHO SAUDADE...


Ao saudoso amigo José Maria Antunes Ribeiro e muito prezada família


Tenho saudade, saudade...
da minha pequena aldeia,
onde passei belos dias
e noites de lua-cheia
da saudosa mocidade,
repassada de alegrias...


Tenho saudade, saudade...
de quando podia ver
entrar no meu quarto o sol
e escutar, com prazer,
p’las noites de claridade,
trinados de um rouxinol...


Tenho saudade, saudade...
da casa pobre, onde um dia
cheguei em certo janeiro
e da Bouça, que seria
minha alcunha, de verdade,
no meu lugar do Regueiro...


Tenho saudade, saudade...
do pequenino ribeiro,
que, ao fundo, passa na ponte.
Do Tapado e de Espinheiro,
onde pela quente tarde
ia beber água à fonte...


Tenho saudade, saudade...
das noites enluaradas
em que nas eiras havia
as alegres desfolhadas
e da sã simplicidade
de quem lá aparecia...


Tenho saudade, saudade...
dessas noites de serão,
em que em famílias amigas,
que guardo no coração,
recolhi tanta amizade
e ouvi tradições antigas...


A aldeia que me foi berço
e os tempos de tenra idade,
por mais que queira, não ‘squeço:
tenho saudade, saudade...


in “Relicário”, 1993


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POSTAL DE NOSTALGIA


À memória do rev. pároco Manuel José Gonçalves

Estou longe, minh’Aldeia
(quilómetros, muitos mil):
sentimentos, em cadeia,
daí, chegam ao Brasil!


É rara consolação
o viajar por aqui,
mas, saudoso, o coração,
me transporta para aí!


Nestas noites tropicais
faz-me bem fantasiar
e o que me conforta mais
é do meu Torrão falar...


A velhinha Sobreposta
é saudosa freguesia,
de que todo o filho gosta
e recorda cada dia!


O tempo das desfolhadas,
pelos caminhos, nas eiras,
cantigas e gargalhadas
e sadias brincadeiras!


Na malta havia o sentido
da confraternização:
qualquer lugar escolhido
era certa diversão!


De casa em casa, ensaiava
o nosso grupo coral:
num convívio terminava,
em comunhão fraternal...


Por esses tempos antigos,
noitadas de relembrar:
pelas casas dos amigos,
suecadas a jogar!


Noites e dias passados,
a regalar corações,
com nostalgia lembrados
em muitas ocasiões...


Nostálgico, em muita hora,
me inunda e conforta a ideia:
os belos tempos de outrora,
vividos na minh’Aldeia!


Só temos um ribeirinho,
ao fundo da Lageosa,
mas é joia de carinho
e prenda maravilhosa!


Serás sempre o meu Regueiro,
lugarejo onde nasci:
até ao ai derradeiro,
recordar-me-ei de ti!


Na festa de S. Tomé,
o espaçoso terreiro,
local aprazível é
p’ra convívio verdadeiro!


A capelinha já tem
uma sineta, de novo,
que lá fica muito bem
e muito agradou ao povo!


Puras águas do Passado,
fontes de que fui useiro:
nas Cruzes, Sirga, Tapado,
na Devesa e Espinheiro...


Bouça, joia sem igual,
encostada a pinheirais:
da minha casa natal
despedi sentidos ais...


Da Bouça fui para o Monte,
onde nove anos vivi:
em busca d’outro horizonte,
com nostalgia, parti...
Era de azeite, o lagar,
junto ao rio, na Tojeira;
também se usou p’ra serrar,
em outros tempos, madeira...


Frente à casa do Loureiro,
nos meus tempos de chupeta,
tinha um medo verdadeiro
ao passar junto à Careta...


Dois retábulos d’Alminhas,
que existem na freguesia,
são locais de ladainhas,
de Pai-nosso e ave-Maria!


É uma azáfama enorme,
p’rà festa, o arco fazer:
nem bem a noite se dorme,
que há prazo para o erguer...


Em granito, a Padroeira,
no adro à chuva e ao vento:
sem estar à sua beira,
vem-me muito ao pensamento!


Igreja paroquial
és muito linda e airosa.
Para mim não tens rival:
não há outra mais vistosa!


Dentro em pouco, Bom Jesus,
a devota multidão
a Tua Imagem conduz,
em solene procissão!


A Novena do Menino,
com as caixas a rufar,
anunciam que o divino
Infante está p’ra chegar!


Presépio movimentado,
tarefa dos escuteiros:
sempre muito visitado
por locais e forasteiros!


Vagueou a minha alma
(sem esquecer um lugar)
p’la Terra que me traz calma
e sempre hei de recordar...


Niterói e Vila Velha, Brasil,


julho de 2005


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CAPELA DE S. TOMÉ DE LAGEOSA


Ao conterrâneo amigo José Almeida Ribeiro

Sem uma porta ou janela,
sem sineta, sem telhado,
S. Tomé, Tua capela
e o terreiro desprezado...


Conheci-a na ruína,
já homem e em criança,
e meditava que a sina
seria apenas lembrança...


Havia quem não deixasse
a “joia” reconstruir
e até mesmo ameaçasse
castigos atribuir.


Mas levantou-se uma voz,
pelos crentes acatada:
“Quem decide somos nós,
capelinha restaurada!”


Em setenta e quatro, então,
seguindo a voz do Pastor,
formou-se firme cordão,
trabalhou-se com ardor...
Depois, foi-se otimizando
a capelinha e terreiro
e, com ternura, louvando
o bom santo padroeiro.


E hoje, é vê-la, implantada
num local acolhedor,
por verdura rodeada,
onde se vai com fervor.


É sempre no mês de julho
que em S. Tomé tem lugar
a demonstração de orgulho,
com solene festejar...


Capela de S. Tomé,
no lugar onde nasci:
bem de longe, a minha fé,
muita vez me leva aí!


Páscoa de 2009 in “Boletim Informativo da ASC de Sobreposta”, n.º 18

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LEMBRANÇAS CARINHOSAS


À estimadíssima família de Augusto Mendes


Disse adeus à minh’aldeia,
a querida Lageosa,
e para sempre guardei-a
numa paixão dolorosa...


Foram anos que não voltam
os que então nela passei
e que agora de mim soltam
suspiros, que bendirei...


Recordo-a a cada momento,
nas horas tristes ou boas
e tenho no pensamento
todas aquelas pessoas


que eu estimo e são amigas,
(tenho provas de que o são)
que as amizades antigas
alegram-me o coração,


cada vez que nos juntamos
meia dúzia de amigos
e, felizes, recordamos
esses belos tempos idos...


Montes de recordações
que nenhum esquecerá
e às futuras gerações,
com saudade, contará...


Por isso, sempre que posso,
uma visita lhe faço
e me sinto muito moço
ao levar-lhe o meu abraço...


E assim, ó terra querida,
mesmo longe, não te esqueço,
pois que em ti me deram vida
e me embalaram no berço...


Pequenas coisas, saudosas,
desses tempos que lá vão:
são lembranças carinhosas,
que guardo em meu coração!


in “Relicário”, 1993


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CAI A NOITE


Ao snr. Manuel Oliveira Moreira e família amiga


Cai a noite, cai a noite
na minh’aldeia singela,
a convidar ao descanso
quantos trabalharam nela,


desde o começo do dia,
às estrelas, ou luar,
sob um escaldante sol,
que põe tudo a sufocar,


ou por tempo de incertezas,
com chuva, vento ou geada,
embora com sacrifícios
não se adia a serviçada...


Cai a noite, docemente,
voltam dos campos a casa;
pedem a bênção de Deus
na Fé, que a todos abrasa!


Em devotado silêncio,
no caminho ou nas herdades,
rezam três ave-Marias,
ouvindo, na torre, as Trindades...
Depois, muito fatigados,
junto da mesa, ou lareira,
aproveitam o calor,
que sai da rubra fogueira...


Trabalha a roca e o fuso,
a fiar o branco linho,
enquanto que a dobadoira
vai girando, a um cantinho!


Recordam-se antigos contos
e pessoas falecidas;
pensa-se no amanhã
e o que se fará nas lidas...


Assim, todos irmanados,
decorre cada serão
nos lares donde nasci,
terra de sã devoção!


E só bem dentro da noite
recolhem a repousar,
porque mais um dia chega
para árduo labutar...


Sobreposta, novembro de 1975 in “Barca de Esperança”, 2000


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SEM DÚVIDA


Ao velho amigo Domingos Ribeiro da Silva


Disseram-me que esqueci
a minha pequena aldeia...


Poderei eu esquecer
uma coisa assim querida?!


Não! Sempre hei de recordá-la,
porque um dia ali nasci
e passei o melhor tempo
que me concedeu a Vida...


Fui obrigado a deixá-la,
em busca de outras paragens:
mas, sempre prevaleceram,
na minha mente, as mais belas
e salutares imagens...


Freiriz, julho de 1977 in “Seara Rutilante”, 2004


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SINOS DA MINHA ALDEIA


A D. Manuel da Silva Martins, meu professor e grande amigo


Ó sinos da minha aldeia,
que saudade em vós se encerra!:
sois a música que enleia,
sois a trombeta de guerra!


Sois gorjeios de aves belas
e ribombar de granadas,
luz cintilante de estrelas,
aspergida em badaladas!


Sinos da minha alegria!,
sinos da minha tristeza!
Amigos, que em certo dia
dissestes à Natureza


que ao mundo eu tinha chegado...
E, pela primeira vez,
logo que fui batizado,
lindo toque ouvir se fez...


Badalastes, jubilosos,
em festivo repicar,
por certo muito orgulhosos
de um ser novo anunciar!
Sinos da minha alegria!,
sinos do meu coração!,
que assinalastes o dia
da primeira comunhão!


Que poemas de beleza
desprendeis em cada dia,
sinos da minha tristeza,
sinos da minha alegria!


Sinos da minha tristeza...
Quando vos oiço dobrar
interrogo, com surpresa,
por quem estais a chorar!


Amigos meus, tão queridos,
repenicai com ternura:
não quero os vossos gemidos
ao descer à sepultura...


in “Auréola”, 1995


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RECORDAÇÕES


Aos meus irmãos e à memória de Maria


As coisas da minha aldeia,
que sempre hei de recordar:
Os serões depois da ceia
e os fusos a saltitar
à luz frouxa da candeia
e belas canções no ar!


Nos campos as sementeiras;
o arado a terra a lavrar;
entre o milho, as mondadeiras
entoam lento cantar,
como fazem as ceifeiras,
p’lo sol, centeio a cortar!


O tempo das desfolhadas;
do pão na eira a secar;
das vindimas e pisadas;
dos porcos a chamuscar;
da azeitona as varejadas
e à noite farto cear!


As partidas de sueca,
ou então de dominó,
com uns beijos na caneca,
repenicados, sem dó,
que acabavam em soneca
e, às vezes, a falar só...
Gostosa castanha assada,
pinguinha de consolar;
a chouriça defumada,
que vinha mesmo a calhar
(já dentro da madrugada)
para o serão rematar...


Era tradição antiga,
que ao meu tempo ‘inda chegou,
reunir-se a malta amiga
na casa que se aprazou,
após a imensa fadiga
de quem de dia lidou...


Não sei se ainda acontece
o convívio salutar,
que a paz da aldeia oferece
a quem sabe apreciar
o tempo, que não esquece,
de alegria e bem-estar...


O que dá, por ser querido,
na vida satisfação,
jamais será esquecido,
pois é a forte razão
para conservar florido,
vida fora, o coração...


in “Celeiro de Retalhos”, 1993


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DIA DE PÁSCOA


Ao prezado Domingos Antunes Mendes


É mais um dia de Páscoa
que na minha aldeia passo:
há enfeites, muitas flores,
atapetando os caminhos,
para passar o Compasso...


À frente, uma campainha
indica que vai chegar
Jesus Cristo a cada casa,
para todos, com fervor,
a sacra Imagem beijar.


São trocados aleluias
com as bocas a sorrir
e o pároco abençoa,
benze e pega no hissope
para água-benta aspergir...


E todos confraternizam,
casa a casa a visitar,
saboreando iguarias,
que por todo o lado estão
a gula a desafiar!
É dia de festa a sério:
há verdes, tudo florido,
tudo cheirando a frescura,
por esmerada limpeza,
que há muito não tinha havido!


E depois, ao fim da tarde,
rematando a devoção,
unem-se todos, que o dia
festivo vai terminar
com a Cruz em procissão...


Ao falar na minha terra
fico-me a pensar sozinho
que a Páscoa que descrevi
não é única, é igual
em toda a parte do Minho:


Mil enfeites; muitas flores;
a Cruz, que é dada a beijar;
a procissão à noitinha;
os aleluias trocados;
toda a gente a se saudar...


in “Relicário”, 1993


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NOSTALGIA


Ao caro Manuel Ribeiro Mendes


Por mais que nos esforcemos
não conseguimos gostar
da terra onde colocámos,
por força, a nova morada,
como da que nos foi berço...


Pode mesmo ser mais rica,
com múltiplos atrativos,
em contraste com a nossa:
simples, humilde, pacata...


Ficamos presos a ela
e cada vez mais redobram
o amor e as saudades...


Jamais nos libertaremos
dessa santa nostalgia,
que faz crescer o desejo
de lá voltar a viver
e saber o que se passa
ao pequeno pormenor...


Gozar as coisas queridas,
que aos outros não interessam,
mas que ao nosso coração
dão momentos de ternura...


in “Cofre de Ternuras”, 1992


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ALDEIA DE SAUDADE


Ao querido amigo Domingos de Freitas Ribeiro


És amada, ó Lageosa,
e em tudo muito querida:
minh’Aldeia, carinhosa,
ser-me-ás sempre saudosa,
pois em ti cheguei à vida!


Toda a tua boa gente
trabalha, sem descansar,
desde que o dia é nascente,
até a noite cerrar.


Recordo, agora, as malhadas,
as vindimas e pisadas,
os serões, as desfolhadas,
tudo feito, alegremente,
por um povo que não sente
nunca as suas mãos cansadas!


São à noite as desfolhadas,
feitas com grande alegria,
para esquecer as maçadas
do tão quente e longo dia...
E o trajar das raparigas,
as vestes das lavradeiras,
têm a cor das espigas,
quando estendidas nas eiras!


Ó terra de fantasia,
de ventura e de ansiedade:
viver em ti, dia a dia,
é ter muita f’licidade...


Em teu redor, sem igual,
existem muitas belezas,
que engrandecem, afinal,
essa terra, sem rival,
das aldeias portuguesas!


Doce berço de carinho,
Deus te guarde e a tradição,
pois que a província do Minho
já te traz no coração!


Uns rapazes, com fervor,
durante a noite calada,
pensam palavras de amor,
p’ra dizer à sua amada!


Outros, porém, de mãos dadas,
na noite silenciosa,
pertinho das namoradas
gozam sonhos cor-de-rosa...
Que belos são os caminhos,
bem cedo, de madrugada,
escutando os passarinhos
a cantar em alvorada!


Frescas águas de um ribeiro,
sempre a correr, sem cessar,
dão alegria ao moleiro,
pois fazem as mós girar...


Do meu lar, já tão saudoso,
era um encanto observar,
lá ao longe, no Barroso,
em dias de sol, nevar...


Lindo e querido Regueiro,
lugarejo onde nasci:
no suspiro derradeiro
não me esquecerei de ti!


Também tu, lugar do Monte,
não ficas por recordar:
como os murmúrios da fonte
tens pombinhos a arrulhar!


Ó lugar de Bacelar,
não sei bem qual a razão
de eu um dia aí passar
e perder o coração:
Perdi-o na confusão,
já o consegui reaver,
só não sei qual a ilusão
que me fez assim prender!


Lageosa, minha terra,
perfumada e linda flor:
és uma aldeia que encerra
carinho, paz, terno amor!!


Estoril, fevereiro de 1965 in “Seara Rutilante”, 2004


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ÊXTASE


Para a Adrianinha


Era uma noite de agosto,
quente e feita de luar...
Na minha Bouça, à janela
pequenina do meu quarto,
perplexo, pus-me a escutar
a melodia mais bela
nunca feita por ninguém...


Era uma música terna,
plena de suavidade,
que extasiava os ouvidos
e fazia ter saudade
de não poder imitar
um tão perfeito cantor!
E com que esmero e beleza
o invulgar compositor
descrevia a Natureza!


A ouvir variações,
com tal poder expressivo,
permaneci muito tempo
preso por aquela voz,
debruçado na janela
pequenina do meu quarto,
mudo, pois jamais ouvira
melodia assim tão bela...
Par’cia vir do Além...
E o luar tinha caiado
a terra da sua cor...
E eu tinha o olhar fixado
no loureiro abençoado,
suspenso à beira do tanque...
Era de lá que emanava
o canto que me encantava!


Passaria toda a vida
na minha Bouça, à janela
pequenina do meu quarto,
mudo, pois jamais ouvira
melodia assim tão bela...


Quem era, então, o cantor,
que só, pela noite fora,
se não cansou de cantar?
Vi, pois, ao nascer o sol,
sobre um ramo do loureiro,
um bonito rouxinol:


tão pequenino, tão frágil,
mas com uma voz subtil,
que me prendeu toda a noite,
na minha Bouça, à janela
pequenina do meu quarto,
mudo, pois jamais ouvira
melodia assim tão bela...


in “Auréola”, 1995


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CONTRASTE


Ao caríssimo pe. Zé do Muro


Era pobre e tão singela
a casinha onde nasci:
Com ternura falo dela
e do quanto lá vivi!


Tempos únicos, saudosos,
com os jogos de encantar
e momentos venturosos,
que na vida hei de lembrar...


......


Agora, a casa onde moro
é diferente, moderna:
claro que também a adoro,
pela paz que lá governa,


tendo nascido, por mimo,
três sublimes novas vidas,
que me encantam e que estimo
como as joias mais queridas!


Janeiro de 1996 in “Arca de Filigranas”, 2001


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NOVENA DO MENINO


Para o estimado amigo Domingos Ribeiro da Silva


Como eu gostava, em pequeno,
de correr atrás das caixas,
que as festas anunciavam
e, de lugar em lugar,
ritmicamente, rufavam!


Na novena do Menino,
à noite e de madrugada,
corriam, p’ra apreciar,
os miúdos e crescidos
e na ronda se integrar!


Ninguém o frio sentia,
nem chuva, nem vento, ou neve,
nem a espessa escuridão:
importava o reconforto
daquela sã diversão!


Hoje, ainda se mantém
e bem viva a tradição
do meu tempo de criança,
que me abrasa o coração
e de ouvi-las não me cansa...


Sobreposta, dezembro de 1975 in “Barca de Esperança”, 2000 in “Barca de Esperança”


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EMIGRANTES


Aos meus familiares e amigos, que, longe, buscam melhores condições de vida


Nunca me esqueço de Ti,
ó minha terra querida,
e quando p’ra longe parto
sinto abrir-se uma ferida.


Imensas vezes recordo
que, um dia, me deste o berço
e uma grande nostalgia
é o meu constante universo.


Por isso, bons Emigrantes,
não ficais por recordar:
tendes sempre, neste peito,
um destacado lugar!


Lutadores, abnegados
que a aldeia amada deixais,
a fim de irdes amassar
o amargo pão, que ganhais!


Que trabalhos, sacrifícios,
sofrimento e privações
não passais e que saudade
sempre em vossos corações!


Nada, porém, vós sentis,
pois tendes um só pensar:
o pecúlio p’rà velhice
e o conforto para o lar!


É por isso que lutais,
alagados em suor.
A Deus vos recomendais
e O quereis por protetor...


Sobreposta, agosto de 1972 in “Jardim de Imagens”, 2007


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A MÃO DE DEUS


Ao escritor e querido amigo Fernando Neiva Pinheiro


Sucedeu, não há muito, em minh’aldeia
um episódio fora do vulgar,
que consternou a inúmera plateia
e que, magoado, aqui vos vou narrar:


Havia com três filhos um casal
(dois rapazes e uma rapariga).
Cedo deixou o seu rincão natal,
de olhos cravados na fortuna amiga,


o marido, que em França vai parar.
Correu-lhe bem a vida. E os dois filhos,
quando chegou a idade de emigrar,
seguiram, com labor, os mesmos trilhos.


Também aos dois a sorte foi sorrindo
e, no momento certo, desposaram
a companheira do seu sonho lindo:
cada lar com um filho povoaram.


A fazer companhia à mãe ficou,
no decorrer da vida, a jovem filha...
Ao fim de muitos anos regressou
o pai, com um quinhão de maravilha,
fruto de tanto esforço despendido,
até voltar ao lar, definitivo...
Em certa noite tinha-se perdido
e, sem que alguém decifre um tal motivo,


hirto, num lugar ermo, é encontrado,
na poça que ele conhecia bem:
Não o deixou a Morte ter gozado
os louros a que um ser direito tem.


Sentiu-se em certa época doente
o primogénito, que resolveu
vir da Suíça, onde era residente,
em busca da saúde que perdeu.


Todavia, a doença era incurável
e o irmão da França veio visitá-lo.
Ao vê-lo num estado lastimável
decide com a irmã recomendá-lo


a uma suposta santa lá p’ra Arouca.
Puseram-se a caminho e viajaram,
ansiosos, numa corrida louca.
Num despiste brutal, já perto, acharam


a Morte, que deixou o padecente
‘inda assistir a uma tal desgraça.
Casara há pouco a moça e no seu ventre
(funestas malhas que o Destino traça!)


também arrasta um fruto sazonado...
E aquele que os irmãos queriam salvar,
dias depois, mais triste e conformado,
no cemitério se lhes vai juntar!


Em poucos meses pai e os três irmãos
desaparecem sem ninguém contar:
é que só Deus conserva em Suas mãos
o Destino que tem para nos dar...


E a esposa, a mãe, que tudo tinha tido,
em curto espaço fica como Job:
despojada do seu tesouro qu’rido;
forçada, dia a dia, a viver só...


in “Celeiro de Retalhos”, 1994


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ESTROFES DISPERSAS


À memória de meus Pais


Estendo os meus francos braços,
para a tudo dar resposta,
distribuindo os abraços
na terra de Sobreposta!


Uma oração, cada dia,
todos rezam, eu sei bem,
à Virgem Santa Maria,
que de Sobreposta é Mãe!


Espadeladas do linho,
que ainda pude observar:
na minh’aldeia, no Minho,
pouco a pouco, vão findar!


Nasci em certo janeiro,
à beira de pinheirais,
o lugar onde primeiro
despedi sentidos ais...


Não quero que ninguém ouça
os gemidos e o meu pranto:
saudades da minha Bouça,
de que sempre gostei tanto!


Cada soldado que chega
da Guerra do Ultramar,
nem um momento sossega
sem na igreja graças dar...


Costumo, desde pequeno,
umas noitadas passar
para um cavaqueio ameno,
no alambique, em Bacelar!


Relembro da minh’aldeia,
nos tempos de tenra idade,
à frouxa luz da candeia
serões de eterna saudade...


Escola, muito querida,
sempre te hei de recordar:
em ti comecei a vida,
que nunca mais tem findar...


Sobreposta, tantas vezes,
quer de noite, quer de dia,
no ano, p’los doze meses,
em ti procuro alegria!


O torrão abençoado,
muito lembro, enternecido,
recuando no Passado
e ao momento lá vivido!


Vivo contigo a sonhar,
meu saudoso lugarejo
e sempre te hei de saudar
com um abraço e um beijo!


Eu nasci na Lageosa,
minha avó e mãe, também:
ó aldeia carinhosa,
como eu te quero tão bem!


Doce toque das Trindades,
que retenho na lembrança,
nesse cofre de saudades
do meu tempo de criança!


Queridos sítios que lembro
d’aldeia onde ao mundo vim,
que, de janeiro a dezembro,
é acolhedor jardim!


Já não existe o loureiro
do meu tempo de menino,
onde um rouxinol fagueiro
trinava um invulgar hino!


À terra que me foi berço
e trago no coração
dedico o mais puro verso
de filial afeição!


Minh’aldeia é Lageosa,
que pertence a Sobreposta:
singela e sempre saudosa,
de que um filho tanto gosta!


Verto lágrimas de pranto,
saudoso, queridos Pais,
pois na paz do Campo Santo
para sempre repousais.


Quero regressar às fontes,
onde bebi no Passado
e lembrar os horizontes,
que os olhos têm negado.


Em pequeno, fui vestido,
mais que uma vez, de romeiro,
por alguém agradecido
à Senhora do Sameiro.


Pelo Bom Jesus do Monte
caminhei momento vário,
bebendo água, fonte a fonte,
rezando em cada calvário...


Ai infância, ai minh’aldeia,
desfolhadas de primor,
em que da luz da candeia
saíam versos de amor...


Eram simples romarias,
as da minha ida infância,
mas com ternas alegrias,
de que findou a abundância...


Girava a mó, bem serena,
havia um lindo luar:
ai noite doce e amena,
do beijo que hei de lembrar...


Eu fiquei mais pobrezinho,
porque perdi minha Mãe:
falta-me o muito carinho,
que me não dá mais ninguém...


Eu gosto da minh’aldeia,
um cantinho de encantar,
de tantas ternuras cheia,
que sempre hei de recordar!


Transportei-me à minh’aldeia,
para indagar do ribeiro
se algum rouxinol gorjeia
num qualquer velho amieiro!


Quereis saber a resposta,
qual a minha freguesia?:
natural de Sobreposta;
orago: Santa Maria!


És risonha e asseada,
doce aldeia, pequenina:
serás sempre muito amada,
maternal e genuína!


Lembro-me tanto de ti,
berço querido, meu lar:
saudades levam-me aí,
velhos sonhos de encantar...


Fui à Terra, ouvi os sinos
em terno repenicar:
são os sons mais genuínos,
que ninguém sabe imitar...


Emigrei de Sobreposta,
saudoso, na minh’infância:
como é que tanto se gosta,
considerando a distância?!


Sobreposta é um tesouro
de ternura p’ra guardar,
com rubis e fino ouro,
o seu nome a debruar.


Sempre alegre e bem risonha,
com sublime talismã,
p’ra quem ama, reza, sonha
e trabalha com afã.


Povo humilde, justo e pio,
com nobreza d’imitar,
ressaltando a alma e brio,
a franqueza e puro amar.


Regressar a Sobreposta,
após dura emigração,
com saudades, quem não gosta
de animar o coração?


A Senhora do Sameiro,
a Falperra e Bom Jesus
são ex-líbris e roteiro,
que ao redor, todos conduz.


Sobreposta é um jardim,
onde habita casta flor,
sempre aberta num festim
de amizade, paz, amor.


Visitar tão linda terra
é um gozo p’ra reter,
que as delícias que descerra
são ternuras de prazer.


Para a frente, Sobreposta,
o Futuro a desbravar:
a saudável boa aposta
que se deve ambicionar.


No cimo do vale d’Este
aparece Sobreposta,
onde o habitante investe
e num bom Futuro aposta.


Sobreposta é um canteiro,
onde medra invulgar flor
que um zeloso jardineiro
sempre trata com fervor.


Ao fundo, Portuguediz,
ao cimo, o alto da Pena:
é um passeio feliz
esta distância pequena!


Sobreposta é um cenário
que imenso tem para ver:
cativante itinerário
que dá gosto percorrer.


Cada filho muito gosta
da sua terra natal:
eu gosto de Sobreposta,
um torrão de Portugal!


1965-2015


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SENHOR BOM JESUS DOS MILAGRES


À memória do rev. pároco José Joaquim Esteves


(Há tempos que trazia em mente a composição de um poema simples, que falasse do Senhor Bom Jesus dos Milagres, Imagem muito querida, que se venera na freguesia onde nasci, Santa Maria de Sobreposta.

A oportunidade surgiu. E, em memória do seu principal devoto, o humilde doador da sacra Imagem, que se encontra exposta na igreja paroquial e se tornou num local de visita obrigatória, devido ao reconhecimento das inúmeras pessoas que O buscam, que n’Ele creem, se Lhe entregam de alma e coração, que Lhe revelam as suas mágoas, ambições, anseios, martírios, privações, misérias, sofrimentos e múltiplos problemas, porque acreditam que apenas Ele lhes pode valer, nas imensas dificuldades que a Vida comporta, e por mim mesmo, a quem tantos favores tem concedido, eis-me a dar um sincero testemunho da minha grande fé e devoção ao Senhor Bom Jesus dos Milagres.

O que escrevi em versos pobres, mas sentidos, corresponde a uma descrição penosa e fiel do sr. José Antunes de Sousa e Sá, o devoto doador e excelente amigo, que há meses partiu para a sua derradeira morada. Vivi, com muita intensidade, a sua história verdadeira e constatei-a em algumas estrofes modestas, delicadas e comoventes, escritas e regadas com ardentes lágrimas pelo brioso Combatente da Primeira Grande Guerra Mundial).


Meu Bom Jesus dos Milagres,
na cruz pregado por mim:
sei que és feito de ternura
e choro por ter-Te assim...


Recorro nas aflições
ao Teu poder de bondade,
pois vales a quem Te busca,
havendo sinceridade...


Na minh’aldeia de origem
és muito amado, Senhor,
e todos, em Sobreposta,
Te consagram terno amor!


Dos que para longe partem,
em tudo, és o protetor
e, em cada dificuldade,
Te lembram e dão louvor!


São os muitos emigrantes,
lá longe, em terras estranhas,
a pedir sorte e que em breve
matem saudades tamanhas!


São os soldados, briosos,
distantes, no Ultramar,
fazendo várias promessas,
para a morte os não levar!


São os que ficam doentes,
ou têm problemas graves,
que Te procuram, chorosos,
p’ra ver os males suaves!


Todos, enfim, aparecem,
vindos de longe e de perto,
esperançados que Tu
lhes darás remédio certo!


O início da devoção
há tempos teve lugar
e, para os que não conhecem,
eu posso a história contar:


Um filho de Sobreposta,
honrado trabalhador,
que nas fainas campesinas
se banhava com suor,


viveu, humilde e feliz,
os seus tempos de menino.
Chegou a idade da tropa
e foi cumprir seu destino!


Levava dentro do peito
um coração a bater,
mais a amargura e certeza
de não faltar ao dever...
Era a Guerra de Catorze
e ele, como bom soldado,
(e outros muitos companheiros)
para França foi mandado!


Nunca desejou a guerra,
que era dado à boa paz:
mas, quem é simples, morrer,
perto ou longe, tanto faz,


embora os seus pensamentos,
nessa crua e feroz guerra
fossem vir a ter o fim
na sua distante terra!


E as tristezas e saudades,
tantas lágrimas choradas
por aqueles que ficaram!:
recordações abafadas,


de tão curta mocidade...
E que profundo pesar
dos olhos húmidos, vistos,
de sua mãe, a acenar!


Sua mãe! Essa mulher
que, um dia, lhe dera a vida,
ele tinha que deixar,
rasa de água e dolorida!
E, junto dela, os amigos,
o pai, a quem tanto amava,
os irmãos, em grande pranto,
mas ele, também chorava...


Um crucifixo e medalha,
bem firmes, no peito nobre
e alguns santos na carteira
– grande fortuna de um pobre!


Era tudo quanto tinha,
naquela manhã, renhida,
quando ao seu encontro veio,
injusta bala, perdida...


Ao vê-la julgou morrer
e na mente um só pensar:
súplicas ao crucifixo,
para a vida lhe salvar!


A bala bateu em cheio
na pequena cruz, amada,
nada atingindo, portanto,
só a pele chamuscada!


Sobre a terra ajoelhou,
em prece de gratidão,
aos beijos no crucifixo,
escudo do coração!
E, nesse instante, fez voto
de, na vida, sempre honrar
o Bom Jesus dos Milagres
e o milagre assinalar...


E, passados alguns anos,
cumpriu, então, o pensado:
mandou fazer bela Imagem,
com Jesus crucificado!


Linda Imagem, delicada,
na igreja da sua terra,
para lembrar, no futuro,
a Primeira Grande Guerra...


Guerra feroz, desumana,
onde tantos companheiros
foram tombando a seu lado,
tendo os dias derradeiros...


E o Senhor Bom Jesus é,
hoje, muito procurado:
promessas e mais promessas,
por todos, sempre louvado...


Dá grandeza à Freguesia,
p’los milagres que tem feito
e ali se encontra a Relíquia
que o crente trazia ao peito...
“Sou Teu devoto, também,
meu delicado Jesus,
e sempre trago comigo
uma pequenina cruz!


E nas minhas aflições
Te recordo, humildemente,
e sinto em mim a certeza
que estás em tudo presente!


Por mim, e pelos demais,
pelo muito que tens dado,
Te digo, em prece de fé:
– Meu Jesus, muito obrigado!”


E hoje e sempre, ó Sobreposta,
tu ostentes e consagres,
essa Imagem de carinhos
– o Bom Jesus dos Milagres!!!


Sobreposta, maio de 1975 in “Barca de Esperança”, 2000


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