Arca de Filigranas


ÍNDICE

  

Prefácio 

Deslumbramento

Balada da Lua

Torneio

Sonho Fagueiro

Aguarela de Saudade 

Cântico de Ternura  

Desolação 

Discorrendo  

Infortúnio 

Solidário 

Cântico Retalhado

Acróstico 

Variações 

Cavaquinho 

Ternura Materna 

Contraste  

Trioletos

1 - Desgarrada

2 - Serões

3 - Enlevo

4 - Exaltação

A Sobreposta

Versos para Vila Verde

Dupla Ternura

Ecos de Natal

I   - Nascimento de Jesus

II  - Junto ao Presépio

III - Na Gruta

IV  - Sinos de Belém

Esmeraldas

Bodas de Prata

O Carrilhão 

Barquinho 

Brinde 

Consonância 

Sombra da Árvore 

Percurso 

Trancelim

Quietude 

Júbilo e Prece 

Avareza 

Fraqueza 

Sorte Avara 

Gula 

À Vida 

Retrocesso 

A Chuva

Amargura 

Banco de jardim 

Renúncia 

Acidente 

Mulher 

Deambulação 

Ternura e Prece 

 


À minha Mulher

Aos meus Filhos

 

PREFÁCIO

 

 

 

Arca de Filigranas é um título poético que surge no desenvolvimento natural do projecto literário de José Fernandes da Silva, que nem abdica do sentido ecuménico da poesia, nem cede em matéria de princípios intelectuais, morais e sentimentais. Na verdade, Arca de Filigranas entronca na tradição das suas obras que nos remetem para uma esfera de prudência e aviso, de humanal partilha, de harmonia interior e paz natural, um universo onde o caos é submetido à ordem poética.

Cofre, alfobre, relicário, celeiro foram outros nomes comuns, além de arca, que o vate vilaverdense usou para formar títulos da sua poética e que, apesar do emprego metafórico, constituem recorrências de carácter cultural, já que as suas ressonâncias rústico-religiosas se instituem em elementos de regra de vida pura e nítida, apesar das dúvidas que por vezes ensombram o horizonte, e em dimensão humanista superior, apesar do desalento e da dúvida que aqui e acolá surgem a tolher o passo ao caminhante.

Em José Fernandes da Silva há, claramente assumida, uma intenção moralizadora dos costumes e uma persistente acção de pedagogia social que, de obra para obra, se acentuam na sua forma e conceito. De resto, uma das grandes relações dialécticas presentes em toda a sua obra é, precisamente, por um lado, a defesa intransigente de tudo quanto é nobre na vida: o amor, a fraternidade, a inocência, o recato, até a atitude penitente de quem se sente em romagem para um lugar de redenção, contra, por outro lado, o desconcerto do mundo, a tragédia que se abate sobre o semelhante, até à comiseração pelo indigente ignorado. Contra a angústia, a injustiça, a dor, o sofrimento moral, o autor manifesta uma crença inextinguível da perenidade do bem e nas graças dos grandes sentimentos humanos. É uma força espiritual que perpassa toda a obra e lhe dá consistência e unidade interior.

Arca de Filigranas é um livro de canções, baladas e sonetos de intenso recorte lírico-confessional que confere uma marca ainda mais impressiva às fronteiras da "arcádia rústica" onde mora com os seus entes queridos. Mundo que não se cansa de exordiar, bem como de franquear a todos quantos aspiram a uma existência plena de ridentes graças e bênçãos balsâmicas. Apolíneo, como todos os clássicos, o poeta rodeia-se de música, música como tema e música como molde, pelo que os seus versos se fazem melodias de "subtis arpejos" e que se podem ouvir no silêncio das "longas noites" ou na sombra das levadas que bordejam "tapetes de rosmaninho, de alfazema e de boninas".

Mas não é o poeta um ser egoísta, mergulhado na contemplação narcísica do seu vergel, surdo ao lamento do pobre, insensível à desdita da jovem mãe, impassível perante o infortúnio do ente desvalido. É tão vívida em si a consciência moral que, do miradoiro que é a contemplação poética, clama contra todas as injustiças sociais e, nesse aspecto, o seu poema "Cântico Retalhado" é bem o exemplo de um idealismo quase panfletário: "Que os orgulhosos, / rudes, tiranos, / os poderosos / e desumanos / fiquem vencidos / pela Razão". Essa vontade samaritana de ajudar o semelhante, qualquer que ele seja, e que é bem o traço do humanismo cristão do poeta, leva o leitor até junto deste ou daquele caso de desgraça e penúria, para partilhar uma emoção sincera, através de notícias de grande realismo e verdade: "Nessa manhã de denso nevoeiro / é que ele apareceu no povoado, / exangue do suspiro derradeiro." Este claro-escuro da condição humana, já que o autor entremeia a sua obra ora com histórias de infelicidade e reflexões de tom lamentoso: "Ai Vida, Vida... / Provei, há muito, o teu amargo mosto", ora com quadros ridentes de alegria despreocupada e sã: "Ó festas e romarias / da minha risonha infância", coloca a poesia de José Fernandes da Silva entre o confessionalismo moral e sentimental e o tradicionalismo da essência cultural minhota. Não é sem razão que dedica várias redondilhas a Vila Verde e à sua firma identitária, tal como lavra outras ao jeito e ao sabor popular, onde cabem máximas: "mulher é o rosário de ventura", sentenças: "ódio é um viver de inferno" e vaticínios: "seja a jornada calma, doce e bela". Trata-se, pois, de uma poética da alma, da alma unida à harmonia colectiva, mas também uma poética da alma social, isto é, do sentimento que vai do todo, admitido e aceite como legítimo, à consciência individual.

Deste modo, ao abrirmos esta Arca de Filigranas deparamos com uma colecção de poemas que um previdente e minucioso ourives guardou como se fosse um "cofre de saudades", pois muitos dos exemplares reverberam lampejos nostálgicos, sonhos fagueiros de serões e brincadeiras, loas ao mundo ideal, ao Natal e ao presépio, ao "rouxinol que gorjeia no velho salgueiro". Tais jóias filigranadas aparecem-nos sob múltiplas formas, adornos laboriosamente lavrados por alfaias conduzidas por mão de mestre: abunda a redondilha maior, mas não faltam também os versos heróicos nos sonetos, a redondilha menor surge com frequência nas canções e até alexandrinos, como na "Aguarela de Saudade".

Como é seu timbre, José Fernandes da Silva não se cansa do labor rimático, afinal a essência do verso, e usa com à-vontade várias rimas: emparelhadas, cruzadas e interpoladas, conferindo ao livro diversas paisagens sonoras, cuja eufonia se liga, por vezes, à natureza do sentimento. Prefere as estâncias pares e dentre estas a quadra. Nas estâncias ímpares encontramos tercetos e quintilhas. O sentido oficinal deste poeta é de tal ordem que nunca ultrapassa as estrofes decimais nem fica aquém dos versos quebrados, isto é, os de quatro sílabas. O ritmo é pressuroso nas baladas de sabor doutrinário, tanto assim que o poeta tem pressa de bradar o seu protesto a um mundo adormecido e acomodado, e mais repousado nas estâncias decassilábicas e nas formações de alexandrinos, para que a subtileza do pensamento e da emoção melhor atinjam a sensibilidade estética do leitor.

O discurso poético-subjectivo é predominantemente metafórico e logo o primeiro verso "Deslumbramento" nos apresenta metáforas como "manto de luar", "lençol de prata" e "grinalda de timbres", e que marca bem a atmosfera irreal da estrutura lírica de Arca de Filigranas. No entanto, a obra em apreço é rica em recursos estilísticos e tanto se podem apreciar, aqui e acolá, incrustações alegóricas, quando convoca a Morte e suas alfaias simbólicas, e elegíacas, quando recorda o falecimento de um amigo. Não faltam gradações, paralelismos, ao jeito da poesia popular, alguma inesperada onomatopeia, como a do "Carrilhão", esta ou aquela apóstrofe, como quando invoca a terra natal, também a interrogação, não para obter resposta, mas para

realçar as suas ideias: "Quem é que amarfanhou aquela flor... ?".

Arca de Filigranas é, por tudo quanto disse, um livro poético que se lê com emoção, já que o seu discurso é insinuante e belo na sua forma, perturbante e inteligente no seu conteúdo. A mão que segura a pena dá forma e sentido a um espírito poético que continua a evidenciar uma progressão visível em matéria tão delicada. Não estamos a falar ainda de um mestre na arte poética, nem dessa condição José Fernandes da Silva se quererá arrogar, mas não nos admiremos se lá chegar. Não lhe falta coragem para a denúncia do mal, do vício e da pusilanimidade, não lhe falta sentido melódico, tão importante na poesia, e nem lhe falta jeito para amanhar o estro. E um bom poeta faz tanta falta como um bom governante.

 

Fernando Pinheiro

 

Braga, 16 de Abril de 2001

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DESLUMBRAMENTO

 À minha Mulher


Tenho saudade dessa noite amena,
ornada por um manto de luar,
de que conservo uma infinita pena,
por não mais atingir bento lugar,
que me fizesse de emoção vibrar:
Há muito tempo (já 'squeci a data),
a bordo de magnífica fragata,
ouvi sons de cristal da profundeza
das calmas águas, num lençol de prata,
em rendilhados de invulgar beleza...

Da forma inesperada como a cena
aconteceu não sei bem explicar:
Vogava numa embarcação pequena,
em macio beliche a dormitar,
ao embalo de terno marulhar...
E, de repente, (como em fresca mata,
com argentinos cantos de cascata,
que inundam de mistério a Natureza
e a alma, deslumbrada, maniata
em rendilhados de invulgar beleza),
 

sobre a ressaca harmónica e serena,
uma sereia, em laivos de encantar,
na imitação de aveludada avena,
de arpejos puros impregnou o ar,
com lasciva balada de pasmar...

O meu ser ficou preso p'la arreata
na grinalda de timbres da cantata
 

em palco revestido de surpresa,
donde saiu a bela serenata
em rendilhados de invulgar beleza...
 

Amor, se a minh'oferta te for grata,
rumemos pela vida na regata
em busca da fantástica lindeza,
que 'inda agora os sentidos me arrebata
em rendilhados de invulgar beleza...!

Agosto de 1995

 

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BALADA DA LUA


Ao Manuel José Miranda



Deslumbrante manto, sobre a Terra, a Lua
estende, infinito, colossal, sem par:
alvo véu de noiva, que no ar flutua,
num baile de encanto, como a onda nua,
de espumadas rendas, a emergir do mar...
 

Ilumina as vilas, a cidade, aldeias,
os vales, campinas, oceanos, fontes,
as eiras, trigais, a imensidão de areias,
como o brilho intenso de frugais candeias,
postas a sorrir nos alcantis dos montes...
 

Pedaços bordados de macios linhos,
em ponto esmerado, que se diz de cruz,
que, nas longas noites, cobrem pobrezinhos,
fatigados já, nas bermas dos caminhos
vão a repousar os corpos quase nus!
 

Quer seja criança, jovem ou velhinho,
não deixa de olhar a maviosa vela:
linda feiticeira - inigualável tela,
para quem a canta com subtil carinho,
para quem a vê e quem não pode vê-la!
 

Eu que já a vi, naqueles tempos de ouro,
e retenho ainda como é que cintila,
hoje, para olhá-la, dava um bom tesouro,
pois se ela falasse, poderia ouvi-la;
se fosse palpável, podia senti-la!

Uma confissão, muito sincera, faço:
queria rever a grande maravilha,
ainda que fosse por um curto espaço,
que a tudo pudesse levar meu abraço
e essa imensa luz, que na minh'alma brilha!
 

A Lua, soberba, fica indiferente
ao anseio justo de quem é carente.
Mas, todo o Universo peja de fulgor,
como quem asperge uma eficaz semente
de fraternidade, mansidão e amor!
 

Dezembro de 1998

 

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TORNEIO


À Maria Teresa Lobato

 


Quando era delicado como o lírio
e florescente como o fresco linho,
me deram para as mãos um grande círio,
a fim de iluminar o meu caminho
(um doloroso e tão cruel martírio,
que pela vida suportei sozinho,
com horas incontáveis de tristezas,
agruras, agressões, má fé, vilezas...)
 

Carpi, ouvindo delicadas harpas;
travei escaramuças com a Morte;
nas solas dos pés nus espetei farpas;
lutei para mudar a minha Sorte;
forçado, escalei íngremes escarpas;
em tempos de fraqueza fiz-me forte,
para atingir a desejada meta,
que me vedaram com oculta seta...
 

Minaram-me os terrenos na passagem;
choquei em icebergues e rochedos;
nas fases de calor não tive aragem;
escorreguei nos ásperos penedos;
tentaram denegrir a minha imagem
e obrigar-me a partir para degredos;
pensou estrangular-me um bruto algoz
e eu a querer gritar, mas sem ter voz...
 

Fortes grilhões, num lúgubre convés,
não deixaram seguir os horizontes
ao meu alcance, tanta e tanta vez;
não pude a sede saciar nas fontes;

a terra ardente me escaldou os pés;
refugiei-me na aridez dos montes;
urzes agrestes, labirintos, tojos,
penhascos, lamaçais passei de rojos;
 

nas altas árvores subi aos cimos;
nas inúmeras quedas, nos instantes
de precisão negaram-me os arrimos;
suportei privações desconcertantes;
nas águas turvas me enleei nos limos;
combati com anões e com gigantes...
Após tanto revés venci na vida
a atroz batalha, que julguei perdida!
 

Maio de 1995

 

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SONHO FAGUEIRO


Ao Jorge Emanuel Pedrosa


 

Entrei num castelo
riquíssimo e belo:
uma linda Fada
nele governava
e era procurada,
porque decifrava,
ágil, quaisquer temas
fora do vulgar,
que vinha narrar
quem tinha problemas...
 

Fosse do Passado,
Futuro ou Presente,
atenta, silente,
rosto iluminado,
a todos ouvia
com dedicação.
Depois, respondia
a cada questão
e ao jovem ou velho
legava um conselho.

Por isso, a buscava
o mais pobrezinho,
que nela encontrava
conforto, carinho.
O nobre, abastado,
ia confiado
no seu poderio:
se fosse arrogante
punha-o, num instante,
humilhado e frio.
 

Se fosse um ladrão
que só na prisão
'staria seguro,
indicava a forma
p'ra que, de futuro,
seguisse outra norma.
Se fosse carente,
saúde precária,
era solidária
com um bom presente.
 

Se era um vagabundo
que andava no mundo
a parasitar,
logo sugeria
como poderia
o tempo ocupar.
Se fosse mulher,
mãe de muitos filhos,
qu'ria resolver
surgidos cadilhos.

Se era mãe solteira,
sofrendo, apupada
p'la sociedade,
achava maneira
de pô-la alheada
da mofa e maldade.
Se era prostituta,
por obrigação,
'stendia-lhe a mão
p'ra vencer a luta.
 

Se era um dependente
da droga, do vício,
sob o seu auspício,
franco e convincente,
refazia a vida.
Se era alguém com SIDA,
em isolamento,
de qualquer idade,
dava o tratamento
da fraternidade.
 

Se era a solidão
de um velho ermitão,
da triste orfandade
ou da viuvez,
mesmo da escassez
de amor, de amizade,
logo proferia
frases carinhosas,
que eram companhia
nas horas penosas...

Na lista de espera,
abismado, atento,
pé não arredei:
era uma quimera
o mais nobre evento
com que deparei...
Mas era chegada,
por fim, minha vez,
já que a boa Fada
um gesto me fez...
 

"Então que pretendes?"
- Falou, sorridente,
ao ter-me p'la frente.
"Sei que tudo entendes
e tens para todos
palavras amigas..."
- Respondi com modos
sinceros, tremente:
"São cenas antigas
que, constantemente,
 

me assaltam o peito
e não acho o jeito
de livrar-me delas:
parece que vejo
centenas de telas
que me causam pejo,
pois fazem sangrar
tempos gangrenados,
não cicatrizados,
por neles pensar..."

"E o que pretendias
que fosse exarado?"
"Não ter a meu lado
tantas agonias,
que ao longo da vida
tiveram guarida
neste pobre ser
e para o Futuro
se querem manter
em trono seguro..."
 

"A Vida é tão breve,
qual floco de neve
que derrete ao sol..."
"E eu tanto queria,
como o rouxinol
trinar de alegria,
a saborear
o que de melhor
há na paz e amor,
que tenho no lar..."
 

"Não será demais
tua pretensão?!
Bem sei quantos ais
de dor, de ilusão
da alma brotaram!
Bem sei quantos sonhos,
ousados, medonhos,
na mente habitaram!
Bem sei que sofreste
e que combateste...

Esquece as derrotas,
as lutas perdidas,
as sangrentas gotas
de velhas feridas.
Relembra as vitórias,
que foram as glórias
em muitos momentos
e aproveita hoje
a Vida que foge,
veloz, como os ventos."
 

"Tens toda a razão
e essa sugestão
apraz-me escutar,
porque eu amo a Vida
e quero-A gozar
até à partida...
Mas creio, também,
que existem quimeras
e só Primaveras
não as tem ninguém!"
 

"Virá o Outono,
mais cedo ou mais tarde,
trazer, sem alarde,
o último sono!"
"Será que vem longe
a veste de monge
p'ra me amortalhar?!
A foice, afiada,
p'ra me golpear
pressinto apontada..."

"A Morte há-de vir
quando não se espera,
piedosa ou severa
o fruto auferir.
Por isso, repito:
abandona o mito
do triste Passado
e vive o Presente
no sonho doirado
que hoje tens na mente..."
 

"Que coisas disseste,
Fada primorosa,
com tanta lisura,
já que me puseste
na alma, chorosa,
favos de ternura...
Deixa-me viver
aqui no castelo,
que sonho tão belo
jamais posso ter..."
 

Setembro de 1998

 

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AGUARELA DE SAUDADE


À Maria do Céu Caldas Moreira


 

A mesa velha estava posta, carcomida
pelo rodar dos tempos. Toalha puída,
 

briosa, certamente com a mesma idade.
Dois pratos e talheres, a jarra florida
e por tudo, bib'lots singelos, de saudade...
 

Num muro da cozinha, tosco e defumado,
havia um pequenino quadro pendurado,
onde a mãe via a última fotografia,
que na véspera, a filha tinha colocado
e hoje, era um misto de tristeza e de alegria...
 

Na véspera! Que espaço havia decorrido
e quantos maus momentos tinha a mãe sofrido,
desde a manhã bonita, povoada de cantos
de tanta passarada, em que tinha saído
para a escola, com sol por todos os recantos...
 

Bem parecida, adolescente com talento,
não conhecera o pai, que antes do nascimento,
às escondidas, emigrou para o 'strangeiro,
a fim de não realizar o casamento,
que tinha prometido, como cavalheiro...
 

Aquele a quem se dera de alma e coração
fê-la chorar e conhecer a humilhação,
querendo ele, até, que destruísse o ser
que se estava a gerar. Disse sempre que não,
o que o contrariou e fez enfurecer...
 

Não se importava de ter sido mãe solteira,
nem de escutar tanta palavra zombeteira,
porque aplicou na filha enchentes de ternura
e a preparou para que fosse a companheira
nas horas más e nos instantes de ventura...
 

E afinal, ficou só, saudosa e dolorida,
alheada de tudo, sem gosto p'la vida
e sem compreender, após tanta procura,
quais foram as razões da súbita partida
que, pouco a pouco, a conduziam à loucura...
 

Por isso, o que lhe dava nesgas de alegria
era mirar a última fotografia;
a mesa velha posta, co'a jarra florida;
os bib'lots simples e a esperança de que, um dia,
voltasse a ter consigo a filha tão querida!
 

Maio de 1999

 

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CÂNTICO DE TERNURA


À minha Mulher



Foi bom um dia ter-te conhecido,
porque aceitaste ser a companheira
para o momento alegre, colorido
e para a hora amarga e traiçoeira...
Abençoada sejas, mensageira
desse quatro de Outubro já distante,
em que uma voz bonita e tão fagueira
de mim fez para sempre um grato amante...
 

Chegaste no Outono a ser despido
e preparaste farta sementeira,
que um ano após deu fruto apetecido.
Por isso é que tu foste a mondadeira,
que cuidou, com carinho, a bela jeira,
transformada em tapete rutilante
e a tua mão mimosa, de ceifeira,
de mim fez para sempre um grato amante...
 

Ao longo destes anos tu tens sido
a destra e delicada rendilheira,
que burila o cru fio no tecido
da fresca e confortável travesseira,
arca de lindos sonhos, vida inteira...
Teu coração é o puro diamante,
que me conforta e desde a vez primeira
de mim fez para sempre um grato amante...
 

Imperatriz querida e feiticeira,
a surpresa e fulgor daquele instante,
que eu queria ter na hora derradeira,
de mim fez para sempre um grato amante...
 

Outubro de 1996

 

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DESOLAÇÃO



Desprotegida, sem afecto e sem trabalho,
considerada, como tantas, rebotalho,
 

àquela jovem deram como triste sina
gastar o tempo numa vida clandestina:
 

E, quando certa vez, depois de uma ressaca,
chega onde possuía a ínfima barraca,
 

já madrugada alta, à mísera mansão
dos retalhos da noite até à exaustão,
 

constata, desvairada, que o que sobejava
dos magros bens que algum conforto desfrutava,
 

eram resquícios de inclemente e brava chama,
a soluçar, blasfema, geme, chora, brama,
 

pois lhe furtaram o seu único quinhão
e a deixaram mais só na imensa solidão...
 

Junho de 1995

 

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DISCORRENDO



Bela e pequena nascente,
oculta, algures, no monte:
Procurada como fonte
de água fresca, reluzente,
antes de ser a corrente
de reduzido ribeiro.
Por vale ou desfiladeiro,
apressado viandante,
vai-se tornando um gigante,
que tem no mar o coveiro...
 

Aonde está a nascente
de água fresca, reluzente?
E o reduzido ribeiro,
apressado viandante,
que se tornou num gigante
por vale ou desfiladeiro?
Mas a pequena nascente,
oculta, algures, no monte
e buscada como fonte
antes de ser a corrente
do grande e veloz ribeiro,
teve no mar o coveiro!
 

Janeiro de 1996

 

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INFORTÚNIO




Nessa manhã de denso nevoeiro
é que ele apareceu no povoado,
exangue do suspiro derradeiro.
 

Como colchão, e mantas, e telhado
tinha a poeira e pedras dos caminhos,
a lua, a noite, o dia, o céu 'strelado...
 

Levava uma existência sem carinhos,
de terra em terra, humilde vagabundo,
com alcatifas de cruéis espinhos...
 

Sem lar, sem pão, sem roupas, só no mundo,
vezes sem conta desejou a Morte:
P'ra ser feliz, ao menos um segundo,
não lhe importava qual o algoz da Sorte...
 

Setembro de 1996

 

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SOLIDÁRIO



Faço, crente, uma oração
para que todos os dias
não falte a ninguém o pão:
bastam, às vezes, migalhas
caídas por demasia
de abundantes vitualhas!
 

Há quem receba medalhas
como lustroso quinhão
de imerecidas batalhas
apenas por cortesia:
ao pobre demos a mão
e do pouco uma fatia
 

de calorosa alegria,
aspersa com acendalhas
de carinho e mansidão...
Que haja sempre uma fatia
de abandonadas migalhas
p'ra quem carece de pão...
 

Novembro de 1997

 

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CÂNTICO RETALHADO


Ao Padre Luís Gavina



Do mais profundo
do coração
peço p'rò mundo
paz, mansidão...

Em toda a terra
rogue perdão
o que na guerra
foi mau, vilão,
 

já que ofendeu
a Humanidade
e se esqueceu
 

da caridade...

Quem tem soberba
e despudor
e se exacerba
com o valor
 

do firme braço
de quem trabalha
é um palhaço
de reles palha...

Quando a avareza
firmar tentáculos
contra a pobreza,
surjam obstáculos

das grandes messes
de lutadores,
dando benesses
aos sofredores...

Que os navegantes,
os peregrinos,
os viajantes,
os clandestinos,
 

de noite, ou dia,
no mar, deserto,
sigam a guia
no rumo certo!

Cada mendigo
sem pão, sem lar,
encontre abrigo
p'ra repousar,
 

mais o conforto
de amor, bondade,
fugindo ao porto
de adversidade...

Que os indigentes,
encarcerados,
órfãos, doentes,
carenciados

e os solitários
tenham momentos
 

de solidários
encantamentos...

Que os orgulhosos,
rudes, tiranos,
os poderosos
e desumanos
 

fiquem vencidos
pela Razão
e convertidos
p'la boa acção...

Que os insensatos,
intolerantes,
os inconstantes,
falsos, ingratos,
 

os descarados,
oportunistas,
os comodistas,
ruins, ousados,
 

os fraudulentos,
subornadores,
sabutadores,
os quezilentos,
 

os delinquentes,
exploradores,
destruidores,
os insolentes,

os meliantes,
violadores,
os opressores
e os traficantes
 

sejam coagidos
a respeitar
e a onerar
os ofendidos...

 

Que os oprimidos,
os deserdados,
os desprezados,
os desvalidos,
 

os ignorantes,
analfabetos,
os inquietos
e os hesitantes

 

possam colher,
mais tarde, os louros:
justos tesouros
do seu sofrer...

Há tanta gente
que sofre e chora:
triste, carente,
p'la vida fora...!

Janeiro-Fevereiro de 1998

 

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ACRÓSTICO


AO QUINTINO RODRIGUES




Quero, em versos singelos, exaltar
um verdadeiro herói da bicicleta:
incansável e firme a pedalar,
na esp'rança de em primeiro ter a meta;
tem como lema principal trepar:
igual esforço faz na curva ou recta,
no plano ou na descida, em pelotão
ou sozinho a tentar o seu quinhão.
 

Recebeu em etapas alguns louros,
onde envergou simbólicas três cores:
duas voltas, laranja, foram ouro,
rameadas no pódio com mil flores;
ilustre corredor por vocação,
garboso lutador de pé ladino:
um dia, te consagres campeão
e dês aos muitos fãs satisfação;
sempre em frente!, coragem!, ó Quintino!!!
 

Agosto de 1997

 

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VARIAÇÕES


À Marlene R. Fernandes



Que bem me sabe ouvir uma viola,
por destra mão, sensível, dedilhada!:
É como o pobre que agradece a esmola
que, generosa e farta, lhe foi dada.
 

E então, quando tocada com leveza,
em melodias ou subtis arpejos,
deixa emanar canções de singeleza,
 

repenicadas como ternos beijos!
 

Eterna companheira da guitarra,
que também geme e chora de paixão,
ou se alegra e sorri, com grande garra,
e sempre me comove o coração!
 

Têm as vossas cordas esse Fado,
para exprimir a dor ou a alegria:
convosco, afinal, quero-me irmanado,
p'ra ter-vos sempre em franca companhia!
 

Se uma viola ouvir e uma guitarra,
a semear sonoras harmonias,
nesses instantes, únicos, de farras,
fico inundado de ébrias fantasias...

Não deve haver ninguém no meu País
que ouvindo quaisquer cordas a trinar
se sinta, no momento, um infeliz
e não queira o evento renovar...
 

Ó tocadores, que exibis mãos de oiro,
um qualquer cordofone a dedilhar:
Que sempre conserveis esse tesoiro,
que bem gostava de poder herdar!
 

Agosto de 1997

 

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CAVAQUINHO


Ao Padre João Alves Oliveira


 

São quatro cordas apenas,
para expressar alegria,
ou chorar de amor as penas
em sonora fantasia!
 

Aprende-se por paixão,
já que é fácil de tocar:
diz-se que a sua invenção
no Minho teve lugar...
 

Da Lusa Terra partiu
pela mão dos emigrantes
e muitas vezes serviu
para lembrar os distantes
 

e tão queridos lugares
do lindo torrão natal,
onde deixaram os lares,
na busca de um Ideal...
 

Assim chegou ao Brasil,
aos Açores e Madeira,
numa adoração subtil,
jóia sempre companheira...
 

Também o bravo soldado,
que para longe partia,
garboso, valente, ousado,
o tinha por companhia,
 

como amigo de verdade,
e, irmanado co'a guitarra,
a gemerem de saudade,
na luta lhe davam garra...
 

E eu, quando tenho um instante,
repenico, com carinho,
terna música, excitante,
no pequeno cavaquinho!
 

Setembro de 1999

 

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TERNURA MATERNA

 


Ao colo da sua mãe
dormitava o pequenino
um sono sossegadinho.
"Que o Senhor te fade bem",
lhe diz ela, com carinho,
a sussurrar suave hino.
 

E eram palavras aos molhos:
"Nunca pratiques o mal
e que a Sorte te sorria;
em vez de pisar's abrolhos,
alcances um Ideal
de paz, amor, alegria!"
 

Que mais pode desejar
ao filho a mãe extremosa?
Por isso, tudo pedia,
para que no dia-a-dia
pudesse ele desfrutar
de uma existência mimosa...
 

Abril de 1998

 

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CONTRASTE

 

Era pobre e tão singela
a casinha onde nasci:
Com ternura falo dela
e do quanto lá vivi!
 

Tempos únicos, saudosos,
com os jogos de encantar
e momentos venturosos,
que na vida hei-de lembrar...
......


Agora a casa onde moro
é diferente, moderna:
Claro que também a adoro,
pela paz que lá governa,
 

tendo nascido, por mimo,
três sublimes novas vidas,
que me encantam e que estimo
como as jóias mais queridas!
 

Janeiro de 1996

 

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TRIOLETOS


À Maria do Céu Nogueira




1

DESGARRADA



Quero ser como a cigarra,
mas apenas no cantar,
ao som de bela guitarra!
Quero ser como a cigarra,
numa toada bizarra,
para a todos deslumbrar:
Quero ser como a cigarra,
mas apenas no cantar!
 

Quero imitar a formiga
em constante labutar...
Aqui mudo de cantiga:
Quero imitar a formiga
na bela fábula antiga,
que é na vida amealhar:
Quero imitar a formiga
em constante labutar...

Janeiro de 1997

 

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2

SERÕES



Ai que saudade das eiras
e d'alegres desfolhadas!
Como eu, cantam mondadeiras:
"Ai que saudade das eiras
e inocentes brincadeiras
p'las noites enluaradas!"
Ai que saudade das eiras
e d'alegres desfolhadas!
 

Ai serões de fiandeiras,
com os fusos a girar,
nos escanos, às lareiras!
Ai serões de fiandeiras,
que produziam trigueiras
maçarocas do fiar!
Ai serões de fiandeiras,
com os fusos a girar...
 

Janeiro de 1997

 

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3

 

ENLEVO


Ó festas e romarias
da minha risonha infância,
que lembro todos os dias!
Ó festas e romarias,
de sinceras alegrias,
que aguardava cheio de ânsia:
Ó festas e romarias
da minha risonha infância!
 

Ó brincadeiras sadias,
que gozei em abundância,
num sem-fim de tropelias...
Ó brincadeiras sadias,
que 'inda hoje são sinfonias
de sublime consonância:
Ó brincadeiras sadias,
que gozei em abundância!
 

Fevereiro de 1997

 

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4

EXALTAÇÃO



Quanto lembro a minh'aldeia
e o tempo que lá vivi!
E repito, à boca-cheia:
Quanto lembro a minh'aldeia,
que sempre trago na ideia,
qual subtil trecho que li...
Quanto lembro a minh'aldeia
e o tempo que lá vivi!
 

Nostalgia que incendeia
montes de recordações...
Sinto arder em cada veia,
nostalgia que incendeia
a mais ditosa epopeia
de sonhos e de ilusões!
Nostalgia que incendeia
montes de recordações...
 

Fevereiro de 1997

 

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A SOBREPOSTA


Ao Fernando José Lopes



Ó Terra saudosa,
sortido jardim,
devota, mimosa,
singela e airosa,
forrada a cetim:
em era ditosa
ao mundo em Ti vim!

Eu gosto da minh'Aldeia,
um cantinho de encantar,
de tantas ternuras cheia,
que sempre hei-de recordar!
 

Lá tudo é paz, harmonia,
pois se entendem todos bem,
gozando a sã alegria,
que a vida nos campos tem!
 

Minha jóia cristalina,
querido torrão natal:
que eu conserve a grata sina
 

de puro amor filial...
 

Fevereiro de 1995

 

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VERSOS PARA VILA VERDE


Ao Serra Nevada

 


Belo concelho do Minho,
terra simples, Vila Verde,
pura e fresca como o linho,
povoada de carinho,
onde o prazer não se perde!
 

Cantinho, fonte de paz,
lindo canteiro de flores:
Pela harmonia que traz,
a quem é que não apraz
ser um dos muitos amores?!
 

1994
........

 

Possui muitas freguesias,
cheias de encanto e beleza,
que dão mimo e alegrias
a quem ama a Natureza!
 

Há romarias e festas,
quer de Inverno ou de Verão;
pelas tardes, belas sestas
e à noite, longo serão.
 

Tapetes de rosmaninho,
de alfazema e de boninas,
com mantos de fresco linho
tornam as coisas divinas!

Cantam aves na ramagem
e os sinos nos campanários;
chega de longe a mensagem,
que alegra os destinatários!
 

Correm ribeiros, serenos;
alguém pesca nas levadas;
os gados remoem fenos;
ouvem-se mornas toadas!
 

Águas tão puras nas fontes;
campos cobertos de pão;
imensas flores nos montes
 

formam invulgar festão!

 

Apreciam-se os bons vinhos,
os petiscos, jantaradas;
concertinas, cavaquinhoos
p'ra acompanhar desgarradas!
 

Cantigas ao desafio
existem em qualquer farra
e o cantador tem o brio
de imprimir-lhes vida e garra!
 

Nos viras, chulas, malhões,
não há quem lhes leve a palma:
rodopiam foliões
e moças, com toda a alma!
 

Há lares onde é costume,
em coro, o terço rezar,
enquanto fumega o lume,
com a ceia a preparar!

Trabalham as suas gentes
imenso na agricultura
e são devotas e crentes
de uma religião pura!
 

Por isso, em muitos locais
há capelas, santuários,
igrejas paroquiais,
alminhas e nichos vários...
 

Encontram-se monumentos
e casas senhoriais
da autoria de talentos
do concelho naturais...
.........

Vila Verde da alegria,
do amor, da simplicidade
que impere em Ti, dia-a-dia,
tua própria identidade...
 

E que sejas um cantinho
onde nos sintamos bem,
nesta província do Minho,
que no coração te tem!
 

Abril-Setembro de 1996

 

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DUPLA TERNURA


Ao José e ao Amaro Matos


 


Cheguei a Freiriz, um dia,
(num Outono, já distante),
com o ramo d'alegria,
que traz um ditoso amante!
 

Lá deixei a minh'Aldeia,
a humilde Lajeosa,
de tantas emoções cheia,
eterna jóia, saudosa!
 

Com lágrimas a brilhar
disse "adeus" a quanto havia,
como que um lenço a acenar
a quem p'ra longe partia!
 

Foi um despedir sentido
a cada amado lugar,
onde há, ou tem havido
pequenas coisas, sem par,
 

que aos outros nada interessam,
mas tanto prazer me dão
nos momentos que regressam,
benvindas, ao coração!
 

Ficou a Bouça, a família,
a casa, grandes amigos,
longas noites de vigília
e os sonhos de amor, antigos;

as festas e romarias,
p'las casas, largos serões,
que iam das ave-Marias,
até raiarem clarões!
 

Senti enorme tristeza
na hora da despedida,
mas concluí, com firmeza,
que ao começar nova vida
 

não podia esmorecer
e o que tinha que tentar
era amigos lá fazer
e no meio me integrar!
 

E foi assim, na verdade:
Conheci imensa gente,
que me deu sua amizade
e encontrei, muito contente,
 

pessoas que agora são
queridas e estimadas
e tanto delas me dão,
que curam mágoas passadas!
 

Construí a minha casa
e os filhos foram nascendo,
numa ternura que abrasa,
com muito amor, vão crescendo...
 

A tudo me afeiçoei
e até, com sinceridade,
nas vezes que a abandonei,
confesso: senti saudade...

Chamo-lhe, hoje, a minha Terra,
onde vivo o dia-a-dia,
e os bons momentos que encerra
são feitos de nostalgia...
 

Por tudo que ali semeio
e, alegremente, recolho;
por quanto dela me veio
e, com satisfação, olho,
 

Aqui te afirmo, Freiriz:
Sou teu filho de ternura
e me sentirei feliz,
se for Sol de muita dura...

Outubro de 1996

 

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ECOS DE NATAL


Ao Padre António Rodrigues




I

NASCIMENTO DE JESUS



Sem demora, pastorinhos de Belém
ide à gruta para ver e adorar
o Menino que a Senhora ao colo tem,
despidinho, sem consolo, a soluçar!
 

Animais a bafejar bento calor,
p'ra aquecer o pequenino, regelado,
vindo à Terra para ser um Rei de amor,
mas na vida, perseguido e maltratado...
 

Os Reis Magos lhe oferecem uns presentes
de incomum significar, representados
por incenso, ouro e mirra e, reverentes,
O bendizem, no chão áspero, prostrados...
 

Santa noite, que nos lembra, em cada ano,
a lapinha que foi palco de um evento,
em que o Filho do Deus-Pai se fez humano
e nas palhas teve um pobre nascimento!
 

Natal de 1998

 

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I


junto ao presépio




Quando nasceu Deus-Menino,
na lapinha de Belém,
a saudação foi um hino,
misto de humano e divino,
aos pés do Filho e da Mãe!
 

Da notícia sabedores,
com alegria sentida,
acorreram os pastores,
p'ra dar prendas e louvores
a quem começava a vida!
......

Como os pastores viemos, ladinos,
ver o cenário que lembra Belém,
onde se entoam angélicos hinos,
justo penhor a Jesus que a nós vem!
 

Como os pastores trazemos presentes:
dádivas puras de amor fraternal.
Dá-nos a paz, de que somos carentes;
faz com que reine um eterno Natal!

Natal de 1996

 

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III


NA GRUTA



Cai a branca neve,
lindo festival:
num cântico leve
celebra o Natal!
 

Nessa noite fria,
 

na gruta, em Belém,
a Virgem Maria
exulta ao ser Mãe!
 

Formoso tesouro
germinou do Céu:
sem ter berço d'ouro,
em palhas nasceu!
 

Os anjos entoam
bela pastoral
e tudo povoam
com paz divinal!
 

Reis Magos, pastores
correm p'ra render
sinceros louvores,
prendas of'recer!
 

Sai da Natureza
um místico arfar,
de amor, subtileza,
o evento a saudar!...
 

Natal de 1998

 

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IV


SINOS DE BELÉM



Os sinos, com alegria,
ressoam na terra e céus,
dizendo-nos, à porfia:
"Chegou o Menino-Deus!"
 

Na gruta dorme o Menino,
ao colo da Sua Mãe:
repica, festivo, o sino,
na santa noite em Belém!
 

Com os sinos a soltar
badaladas argentinas,
correm gentes a galgar
montes, vales e colinas!
 

Juntam-se as vozes aos sinos
e ao coro celestial:
entoam afáveis hinos
nessa noite sem igual...
 

Com eles também eu canto,
repleto de admiração
e guardo o sublime encanto
 

da noite em meu coração!

Natal de 1997

 

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ESMERALDAS


Ao João Lobo



1

O Tempo faz esquecer
os momentos de venturas,
mas na alma deixa a arder
o remorso e as agruras...
 

2
Doce toque das trindades
que retenho na lembrança,
nesse cofre de saudades
do meu tempo de criança!
 

3
Grinalda de roxos lírios
que aos rigores sobrevive,
a recordar-me os martírios
que ao longo da vida tive!
 

4
Nas horas de abatimento
sinto os amargos da vida:
o mais cruel sofrimento
de uma incurável ferida!
 

5
Sinto, muitas vezes, pena,
porque os meus olhos não dão,
a quem, delicado, acena,
recíproca saudação!

6
É adorável ter filhos,
p'ra partilhar a ternura,
mesmo dando-nos cadilhos
do nascer à sepultura...
 

7
Não há franco sentimento
no carpir de certa gente
que em qualquer falecimento
faz questão de estar presente!
 

8
Tenho ciúmes da Lua,
de quando podia olhá-la:
embora ande sempre nua,
ninguém com isso se rala...
 

9
Ódio é um viver de inferno;
amor é ter paraíso;
morte é um adeus eterno;
vida é um belo sorriso.
 

10
Orgulho é ser-se arrogante,
ao invés da caridade;
avareza é estar distante
de quem semeia a bondade.
 

11
Soberba é ter-se a mania;
ofensa é ser malcriado;
sofrer é ter agonia;
perdão é um passo bem dado...

12
Usura é ter ambição;
sorte é não pisar espinhos;
corrigir é educação;
ternura é dar-se carinhos...
 

13
Inveja é tudo querer;
repartir é gesto nobre;
insensível é não ter
compreensão com um pobre...
 

14
Desespero é grande dor;
paixão é fogo ateado;
vaidade é ser impostor;
gula é ser-se desregrado...
 

15
"Palavras leva-as o vento";
o amor vai, deixa o ciúme;
triste é quem possui talento,
mas jamais atinge o cume...
 

16
Na hora de fracassar
tenho em mente esta minuta:
vale a pena batalhar
até se vencer a luta...
 

17
Cintilam por toda a parte
 

milhões e milhões de estrelas:
só Deus criou obras-de-arte
tão imponentes e belas!

18

Prefiro ser degredado
para a zona mais ignota,
do que achar-me defraudado
numa projectada rota...
 

19
Barco que de longe chegas
e a seguir deixas o cais:
a quem regressa, sossegas;
mas a quem parte, enches de ais...

20
Já ganhei muitas batalhas,
mas em épocas remotas:
por causa de incríveis falhas,
agora, tenho derrotas...

21
Cantos puros de sereias
convidaram-me a saltar
acauteladas ameias
de um castelo a flutuar!
 

22
Após ter sofrido tanto
pelo cruel abandono,
só a paz do Campo Santo
para o derradeiro sono...
 

23
Nos ciprestes geme o vento
e eu bem sei por quem o faz:
após longo sofrimento
o amigo repousa em paz...

24
Abandonaram-me, um dia,
num inóspito caminho:
mesmo com falta de guia
cheguei ao rumo sozinho...
 

25
Morreu-me tanta quimera
no percurso do viver:
'inda continuo à 'spera
que voltem a renascer...
 

26
Os momentos de venturas
quem os tem, saiba retê-los,
porque as cismas e agruras
tornam brancos os cabelos...
 

27
Naquela velha casinha,
rebocada p'la verde hera,
nidifica uma andorinha,
vinda cada Primavera!
 

28
Assobiava tão bem
aquele melro vadio:
morreu, que o achou alguém,
entre o silvado, já frio!
 

29
A Morte só ronda a porta
dos que procuram ser justos;
com os outros, mal se importa,
os maldosos e astutos...

30
Parti, um dia, à conquista
de um alto posto na vida:
não tive em nenhuma lista
a pretensão deferida...
 

31
Ai quem me dera alcançar
a tão desejada meta:
compor versos e rimar
como esmerado Poeta...
 

32
Herdei quatro jóias belas
no percurso do viver:
faço tudo para tê-las
no cofre do Bem-querer!
 

33
Fundi o que possuía
em ínfimas filigranas,
a pensar que destruía
as tentativas insanas...
 

Fevereiro de 1997-Março de 1999

 

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BODAS DE PRATA

(Do 25/4/74)

 


 

Ao ilustre Artista
Arlindo Fagundes

 



Não se esqueça a feliz data
da manhã primaveril,
hoje, nas Bodas de Prata
do Vinte e Cinco de Abril!
 

Rebentos de Liberdade
na Primavera mais bela:
homenagem de saudade
aos que não puderam vê-la!
 

Saudável festa dos cravos,
benvinda ao meu País novo,
oferecidos aos bravos
libertadores do Povo!
 

Cravos vermelhos, aos molhos,
nesse Abril tão desejado;
francas lágrimas nos olhos
de quem 'steve acorrentado!
 

Esse dia imorredouro,
feito de fraternidade,
restituiu o tesouro
da bendita Liberdade...
 

Abril de 1999

 

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O CARRILHÃO



Quais hinos em dlim-dlim-dlão
ouço na torre da igreja
repicar o carrilhão
para solene festim:
Soa bem, louvado seja,
alegre como um clarim!
 

E que estranha sensação
me comove e que me peja
de ternura o coração,
ouvindo tocá-lo assim!!

Novembro de 1994

 

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BARQUINHO



Lindo barquinho,
posto a boiar
nesse laguinho
que, com carinho,
fiz p'ra brincar...
 

Bóia comigo
com mansidão:
leva contigo
p'ra bom abrigo
meu coração!

Se tiver mágoas
a me afrontar,
convicto, trago-as,
para nas águas
depositar!
 

Brinquedo querido,
doce ilusão:
fico perdido
e comovido
na diversão!
 

Só no laguinho
quero brincar
com o barquinho
que, com carinho,
fiz p'ra boiar...
 

Verão de 1999

 

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BRINDE


Ao Jorge, à Bela
e ao seu trio de ternuras

 



Salve, treze de Maio d'alegria,
a saudar o milénio que termina;
rejubila o casal, no ímpar dia,
ao contemplar, feliz, sua menina!
 

Fruto de amor, há muito desejado,
entra no mundo por subtil caminho,
repleto de harmonia, imaculado,
rescendendo ao frescor do puro linho
e de solenes cantos povoado;
incensada por montes de carinho,
respira bálsamos de ardor, no lar,
ao embalo da paz familiar...
 

Por isso, lembro a data bem ridente
e peço que no céu brilhe uma estrela
divinal, amorosa, incandescente,
reproduzindo em maviosa tela
o voto que formulo, amigo e crente:
seja a Jornada calma, doce e bela;
a Vida lhe sorria ternamente...
 

Novembro de 1999

 

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CONSONÂNCIA


À Sónia Catarina



O rouxinol gorjeia, no velho salgueiro,
p'la noite virginal, caiada de brancura...
Por baixo, manso, corre o límpido ribeiro,
marulhos a juntar na mesma partitura!
 

Enquanto, lento, voga um pequeno veleiro,
com jovens a soltar cantigas de ternura,
o rouxinol gorjeia, no velho salgueiro,
p'la noite virginal, caiada de brancura...
 

Sob raios de um luar albente e companheiro
há vozes e ruídos, sem conta, à mistura,
a proporcionar um concerto fagueiro...
Distinto e persistente, em invulgar textura,
o rouxinol gorjeia, no velho salgueiro!
 

Outono de 1999

 

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SOMBRA DA ÁRVORE


Ao Américo Campinho


Ó sombra acolhedora
da árvore frondosa,
que tanto lembro agora,
da infância venturosa!
Ó sombra inigualável
da árvore de outrora:
eterna e tão afável,
que exalto vida fora...
 

Ó sombra sedutora
da árvore com ninhos,
sublime e protectora
mansão dos passarinhos!
Ó sombra embaladora
 

da árvore na calma,
por quem ainda chora,
sensível, a minh'alma...
 

Ó sombra benfazeja
da árvore bendita,
ternura que me peja,
o íntimo, com dita!
Ó sombra de saudades
da árvore de inveja,
ao toque das trindades
na torre lá da igreja...
 

Ó sombra muito amiga
da árvore querida,
refúgio p'rà fadiga
e ralações da vida!

Ó sombra apetecida
da árvore velhinha,
com reza, após a lida,
do terço e ladainha...
 

Ó sombra companheira
da árvore caiada
p'la lua feiticeira,
suave e prateada!
Ó sombra de carícias
da árvore copada
de inúmeras delícias
em era relembrada...
 

Outono de 1999

 

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PERCURSO


Ao Fernando Pinheiro



Há meio século cheguei à vida,
do ventre da mulher que tantas graças
rendeu aos Céus, em mavioso canto,
num misto de sorrisos e de choro
e a suplicar que quando eu fosse à luta
sempre me bafejasse a melhor sorte.
 

Mas os rogos de mãe nem sempre a sorte
atende,nos momentos em que a luta
o cenário propõe da morte ou vida:
Na hipótese primeira haverá choro;
mas se a vida vencer será um canto
de júbilo e sincera acção de graças...
 

A meninice me sorriu com graças
e preparou para enfrentar a vida...
Num três de Maio castigou-me a sorte
com abundantes lágrimas de choro...
No desespero renasceu o canto,
a ter presente no local da luta...

Muito difícil se tornou a luta
em tantas fases cruciais da vida...
Um dia, uma Mulher, cheia de graças,
com franco amor e para minha sorte,
se ofereceu para mudar o choro
em caloroso e repousante canto...
 

Depois de os males arrumar num canto,
no Futuro a pensar, roguei à vida
que povoasse o novo lar com graças,
harmonia, ternura, boa sorte
e que os três filhos ao entrar na luta
nunca fossem punidos pelo choro...

Muitas vezes sofri com dor e choro;
andei à toa nos vai-véns da sorte;
recebi maldições em vez de graças;
deixei a paz e me envolvi na luta;
na alegria ou tristeza fiz um canto;
sempre gostei de erguer um hino à vida...
 

Neste passo da vida darei graças,
num canto forte que me abafe o choro
e havendo luta, que me assista a sorte!
 

Outono de 1999

 

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TRANCELIM



Ao José Manuel Mendes




QUIETUDE


À minha Mulher



Longamente, por vezes, eu medito
se o que sentes por mim será ainda
aquela dádiva de amor, infinda,
que fez o nosso enlace tão bonito...
 

Bem no fundo, porém, eu acredito
que toda a doação, que foi benvinda,
há-de manter-se pura, fresca e linda,
p'ra mais não existir qualquer conflito...
 

Oxalá se conserve vigoroso
o belo sentimento que me invade
e me enternece tão profundamente...
 

Mas se um instante houver litigioso,
jamais se abata sobre a felicidade,
no nosso velho lar sempre presente!
 

Outubro de 1994

 

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JÚBILO E PRECE



Quando do longo sono despertou,
já liberta do peso de montanhas,
que meses lhe pejaram as entranhas,
a mãe, desfalecida, serenou...
 

Ao ver o fruto terno que gerou,
depois de suportar dores tamanhas
e indescritíveis sensações, estranhas,
de bolhas cristalinas marejou,
 

num êxtase, os suaves negros olhos:
O primeiro desejo formulado
foi que o petiz tivesse um belo Fado,
 

isento de perfídias, sem escolhos,
com maviosos lírios, aos molhos,
e a ternura e a paz sempre a seu lado!
 

Janeiro de 1995

 

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AVAREZA

 


Disseram-me que não uns certos olhos
feiticeiros, de límpido cristal,
semelhando vitrais de catedral,
com jactos de suave luz, aos molhos...
 

Nascido por detrás de negros folhos,
o delicado brilho sideral
fazia-me enlear num lamaçal,
infestado por limos e escolhos.
 

Angustiado, quanto mais sofria
com o desprezo, que me causticava,
mais triste por aquela tirania...
 

E eu, afinal, apenas desejava
sorver uma minúscula fatia
do cândido fulgor, que lhes sobrava...

Fevereiro de 1995

 

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FRAQUEZA



Quem é que amarfanhou aquela flor
de rubras pétalas, subtis, sedosas,
exalando perfume de mimosas,
que os sentidos atrai de intenso odor?!
 

Quem quis apoderar-se do vigor
das seivas que brotavam, radiosas,
quais violetas a sorrir, viçosas,
místicas de ternura e santo amor?!
 

Nela, afinal, tudo era muito belo,
um lírio de veludo, divinal:
só podia feri-la esse cutelo,
 

munido por um gume de vileza...
Não houve a intenção de fazer mal,
mas uma enorme dose de fraqueza!

Junho de 1995

 

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SORTE AVARA



Na vida existem horas de fraquezas,
que traem o melhor dos prevenidos:
são momentos cruéis, indefinidos,
que podem conduzir-nos a vilezas...
 

Resultam quase sempre das surpresas
de factos transcendentes e punidos
com torrentes de lágrimas, gemidos
e um Futuro pejado de incertezas...
 

E quando se não tem nenhuma tara
e o modo de actuar é um gesto nobre,
a queda se transforma na mais pobre
 

e desgraçada acção da Sorte avara!
Um manto de vergonha a alma cobre
e a depressão, dificilmente, sara!

Agosto de 1995

 

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GULA


O nosso espírito tem dores tais,
quando, por falta de discernimento
e permissão ao livre pensamento,
se esquece um dos pecados capitais.
 

Sendo comum a todos os mortais
transgredir um proposto mandamento,
surgem promessas de arrependimento
e a convicção de não o fazer jamais.
 

Contudo, na primeira ocasião,
a fraqueza da carne não respeita,
nem declina a feroz provocação.
 

As mãos, de novo, o espírito endireita,
na busca de clemência e de perdão...
Mas, vida fora, o mal nunca rejeita!

Agosto de 1995

 

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À VIDA


À minha Mãe


Ai Vida, Vida, de que tanto gosto,
por que me sais, às vezes, tão madrasta,
tornando-me a existência num desgosto?
Provei, há muito, o teu amargo mosto,
 

que resultou em solidão nefasta...
Talvez tivesse sido um fogo-posto,
que em combustão bem lenta me devasta
 

e para o fundo abismo o ser me arrasta!
 

De qualquer forma sempre te hei-de amar,
tentando os maus momentos olvidar
e ter em conta aquilo que for são...
 

De hoje em diante dá-me as alegrias,
que façam esquecer as agonias,
que me marcaram tanto o coração!
 

Outubro de 1996

 

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RETROCESSO


Ó vento, irrequieto, que cirandas
por vales, por campinas e por montes,
humilde, te suplico: A ninguém contes
que de rojos me viste em certas bandas,
 

num estado caótico, em bolandas,
bebendo em charcos, por faltarem fontes;
caindo em fossos, por não terem pontes;
expondo aos céus, exausto, vãs demandas...
 

Por isso é que me viste em lamaçais,
a cumprir e a arrastar cruel Destino;
a vaguear na escuridão, sem tino,
 

perante obstáculos descomunais...
Esses tempos agrestes de menino
ficaram cheios de sentidos ais!
 

Outubro de 1997

 

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A CHUVA


A chuva, noite e dia, interpretou
ritmos tamborilados, impossíveis,
em bisada cadência que impregnou,
de tédio, os meus sentidos, tão sensíveis!

Também recordo que me obsequiou,
noutras ocasiões, com uns incríveis
momentos de prazer e me levou
a guardar sensações imperecíveis...
 

Ouvi por largo espaço e não podia
suportar uma tal monotonia...
Apraz-me ouvi-la, quando estou no leito,
 

a dormitar, ao som de pingos mansos,
que me sugerem lúdicos remansos,
em contraste co'aquele rude efeito...

Fevereiro de 1998

 

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AMARGURA



Quando chegou à pista, esbaforida,
com uma filha ao colo, outra p'la mão,
cabelos desgrenhados, mal vestida
e os pés nus, a sangrar, no ardente chão,
 

após se libertar da confusão,
com gente morta e muita mais ferida,
como balanço da confrontação
de prolongada guerra, fratricida,
 

onde deixara os bens, o companheiro
e um curto espaço de felicidade,
ao ver o avião, p'ra descolar,
 

julgou ter fim o duro cativeiro
e apiedar-se dela a adversidade...
Mas não partiu, por falta de lugar!
 

Maio de 1998

 

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BANCO DE JARDIM


À Adrianinha



Num jardim cheio de árvores e flores
brincavam, descuidadas, as crianças:
Descalças e com risos de bonanças,
com mil brinquedos e balões às cores!
 

Tudo estava extremado de rumores,
canções-de-roda, lengalengas, danças,
chapéus, cabelos soltos, lindas tranças,
corridas, jogos, palmas e fulgores...
 

E eu, deitado num banco, a dormitar,
tomado de um prazer quase divino,
revivia os meus tempos de menino...
 

Mas não há gosto que não traga azar,
pois levantou-se um vendaval medonho,
que varreu, num instante, o belo sonho!
 

Junho de 1998

 

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RENÚNCIA



Durante a vida procurei renunciar
a tudo aquilo que pudesse colidir
com os princípios recebidos em criança.
Muitos instantes pretendia não lembrar:
 

As tentativas, incontáveis, p'ra aderir
a vilanias, opressões, ou maltratar
os pobrezinhos, pela aldeia, a mendigar
uma oblação que à fome desse temperança!
 

Não se alteraram as ideias do passado,
porque não deixo de sentir-me revoltado
nas discussões em que me é posto em causa o brio...
 

Se necessário for tomar a decisão
de recusar as coisas que prazer me dão,
ah, acreditem, não hesito: Renuncio!

Junho de 1998

 

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ACIDENTE


Aos meus irmãos


Nesse dia azarento, já distante,
é que lhe sucedeu o inesperado:
à pressa, por um primo foi chamado,
para chegar a casa, num instante,
 

que um sujeito, com ares de tratante,
dizendo-se p'lo dono autorizado,
se tinha da espingarda apoderado,
contrariando a esposa, suplicante...
 

Numa pilha de nervos, não sossega
e, aflito, em correria, logo chega,
já que a posse da arma era ilegal:
 

Estava carregada. Nela pega,
destruindo-a no chão, com o bocal
p'ra si voltado. Explode, o que é fatal...
 

Novembro de 1998
 

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MULHER



Mulher é o rosário de ventura,
que se desfia no bendito lar.
Mulher é a guerreira a batalhar
na hora alegre, triste, leve ou dura.
 

Mulher é a nascente de candura,
do coração sensível a jorrar.
Mulher é o luzeiro a derramar
abnegação, coragem e ternura.

Mulher é a feliz progenitora
da nova e tenra vida promissora.
Mulher é a mãe meiga e extremosa,
 

que os filhos acalenta com primor.
Mulher é fada afável e bondosa.
Mulher é templo de subtil amor...

Março de 1999

 

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DEAMBULAÇÃO



O Tempo não perdoa: é um tirano!
Consigo arrasta o bem, as alegrias,
o sossego, o conforto, as harmonias
e os palácios de abóbadas gigantes
 

(erguidos a partir de um raro plano,
ornados por grinaldas de aleluias,
por magnas e vistosas fantasias),
que se tornam escombros fumegantes...
 

Ao invés: o desânimo, as agruras,
as dores, os remorsos, a vileza,
o sofrimento, o desespero, o mal
 

ajunta, vida fora, num local
(sólida e opressora fortaleza),
p'ra chorar e cumprir as penas duras...

Junho de 1999

 

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TERNURA E PRECE


Aos meus filhos
 

Queridos lírios, de haste vigorosa,
só me assistem razões p'ra vos amar,
pois tivestes a mãe, qual fresca rosa,
vinda a mim, num Outubro, ante o altar!
 

Nunca terei palavras p'ra expressar
a dádiva de Deus, tão caridosa,
que veio preencher esse lugar,
latente na minh'alma, angustiosa!
 

Vós sois a jóia rara e preciosa,
que unicamente eu posso apreciar
e no mais íntimo do ser guardar...
 

Que vos sorria a vida mais ditosa:
Eis a prece que faço, sem cessar,
repleta de ternura e fervorosa...

 

Junho de 1999

 

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