Alfobre de Amores


 

INDICE

  

Prefácio

Pátio de Infância

Os Pintainhos

Gato Mau

Galinha e Raposa

O peixinho

O sapo

O cabrito do José

O Pardal

Gato e rato

O galo

Cavalinho

Coelhinho Branco

A cigarra

O meu cão

Pintassilgo

Interlúdio

1 - Disco da raposa

2 - Confissão de um lobo

3 - Lamentações

4 - Burro interesseiro

5 - Porco-espinho diligente

Rapsódia

Ao despertar

A minha escola

O recreio

Gira que gira

Longe a poluição

As castanhas

Gosto de fruta

Multifruta

Excessos e moderação

Fala do Sol

Moinho de vento

Ribeirinho

Avião de papel

Barquinho de madeira

Leais escuteiros

Harmonia e paz

1 - Pinheirinho do Natal

2 - Preces de Natal

3 -A Jesus Menino

4 - Junto ao presépio

5 - Cântico de Natal

Desespero e júbilo

A armadilha

Serão reparador

Promessas cumpridas

Algumas recensões

- "Auréola"

- "Pátio das Canções"

 


Ao Padre António Rodrigues



Sempre que a amizade é pura
(mesmo que chegue tardia),
pela vida além perdura
em perfeita sintonia!

À minha Mulher
e aos meus Filhos
 

Minhas quatro filigranas
de ternura e de alegrias,
que eu quero cobrir de hossanas
e coroas de aleluias!

 


Prefácio

 

Prefaciar "ALFOBRE DE AMORES" é correr um risco. Correr o risco de repetir ideias contidas em anteriores prefácios a obras de José Fernandes da Silva. E isto sucede porque José Fernandes mantém-se fiel aos princípios e à temática que orientam a sua escrita.

"Alfobre de Amores" é uma colectânea de poesia infanto‑juvenil que, através do seu conteúdo, nos reporta a um mundo de vivências reais, vivências essas partilhadas não só pelo universo das crianças, mas pelo do próprio autor.

José Fernandes alude a sensações pessoais e a situações onde o sentir e a musicalidade que lhe é inerente se revelam, onde a generosidade das dádivas simples mas significativas da vida se sobrepõe ao vazio das incongruências de certo mundo moderno e metropolitano.

Fala‑nos também o autor de solidariedade, talvez para que os leitores‑alvo desta obra se não esqueçam que há ainda valores imprescindíveis à condição humana. Fala‑ nos de sonhos ‑ quem os não tem? ‑ e refiro‑na, em particular, a "Avião de Papel" e a "Barquinho de Madeira".

Em toda a verdade, deve a produção para a infância não subestimar a importância do recurso ao carácter lúdico da escrita, à fantasia, enfim, aos sonhos que povoam esse mundo maravilhoso onde se é pequeno, mas se tem uma alma grande. E não é ainda o sonho quem comanda a nossa vida? Pois serão essas crianças os primeiros e mais verdadeiros críticos da obra de José Fernandes. Serão elas que irão fruir da leitura destes poemas e que irão encontrar‑se em cada verso, em cada história com sabor a rima, em cada afecto que este trabalho contém.

Serão essas mesmas crianças que irão justificar a publicação desta obra e todas aquelas que se lhe seguirem, também elas solidárias para com José Fernandes.

 

 

Braga, Abril de 1997

Maria Teresa Lobato

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PÁTIO DE INFÂNCIA


Às Crianças do Universo


Eis as crianças, sorridentes,
alegres como passarinhos,
a divertirem‑se, contentes,
em correrias, aos saltinhos,
a tudo alheias, mas carentes
de amor, ternura, mil carinhos!
 

Assim felizes, mesmo tendo
complicações no dia a dia,
sorriem, gritam, procedendo,
perante quem as aprecia,
descontraídas, entendendo
o mundo feito de magia...
 

Deixai‑as, pois, cabriolar,
como avezinhas nas ramagens,
de tudo absortas, a sonhar
com as magníficas miragens,
que 'stão na vida a povoar
um pátio único de imagens...
 

Junho de 1994

 

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OS PINTAINHOS


Ao Jorge Emanuel Pedrosa e ao irmão


A linda garniza
sete ovos chocou
e seis pintainhos,
muito queridinhos,
por sorte, vingou.
 

Em dia azarento
um gato maltês
comeu um, mais dois
e claro, depois,
ficaram só três.
 

Dos três não sei bem
qual era o mais belo:
um porte engraçado
do corpo doirado
e o bico amarelo!
 

Mas uma desgraça
jamais chega só:
um cão vagabundo
matou, num segundo,
dos três, dois, sem dó.
 

Por fim, a raposa,
que medo não tem,
felina, matreira,
de manso se abeira:
papou filho e mãe...
 

Então, da ninhada
dos seis pequeninos
que a choca vingou,
nenhum escapou
aos tristes destinos.
 

E mesmo a garniza,
que tanto sofreu
ao ver‑se privada
da meiga ninhada,
p'los filhos morreu!
 

Primavera de 1993

 

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GATO MAU


À minha sobrinha Vânia Sofia


Eu tive um gato
travesso e mau:
partiu-me um prato,
levou tau‑tau!
 

O mesmo gato,
por refeição,
comeu‑me um rato
de estimação!
 

Assim um gato,
mau e lambão,
que parte um prato
e come um rato
de estimação,
 

foge a vontade
de em casa o ter,
pois prà maldade
severidade
sempre há‑de haver!
 

Fevereiro de 1994

 

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GALINHA E RAPOSA



Certa galinha foi p'rò campo procurar
muitos bichinhos para o papo consolar.
 

Veio a raposa e começou a magicar
na melhor forma de o pescoço lhe trincar.
 

Ora a galinha adivinhou a intenção
e a capoeira foi a sua salvação!
 

Para a raposa, que é sagaz, foi um revés:
envergonhada, a toda a pressa, deu aos pés!
 

Novembro de 1994

 

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O PEIXINHO



Olha o peixinho no mar,
que apenas sabe nadar:
 

com jeitinho vou tentar
o movimento imitar!
 

Como o peixinho eu bem sei
que nunca igual nadarei,
 

todavia, se treinar,
algum proveito hei‑de achar!
 

Se o conseguir imitar
no rio, ou tanque, ou no mar,
 

sem receio vou nadar
e muito alegre ficar!
 

Primavera de 1994

 

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O SAPO



Já vi muito sapo
andar p'lo jardim,
enchendo o seu papo
de insectos sem-fim!
 

Por ser um amigo
da Humanidade
não corre o perigo
de qualquer maldade!
 

Primavera de 1994

 

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O CABRITO DO JOSÉ



Brincalhão e engraçado,
o cabrito do José,
tudo rói, por todo o lado,
a fazer: mé‑né, né‑mé!
 

É um gordo cabritinho,
que se desfaz a brincar
no farto prado, verdinho,
onde o põem a pastar!
 

O José o tempo passa,
consolado, a apreciar
as asneiras que, com graça,
faz o bicho, sem parar!
 

Com ele brinca o petiz
sempre que tem um momento,
que é tão alegre e feliz
o simples divertimento!
 

Dezembro de 1995

 

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O PARDAL


Ó lindo pardal
chilreia, chilreia,
ninguém te faz mal
aqui nesta aldeia,
 

embora tu faças
imensas asneiras,
pois sempre desgraças
quaisquer sementeiras!
 

Primavera de 1994

 

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GATO E RATO


À minha afilhada Maria Isabel



Corre o gato atrás do rato,
na esperança de o apanhar:
foge o rato e fica o gato,
furioso, a berregar!
 

Goza o rato o pobre gato,
que não cansa de espreitar:
salta o rato e corre o gato,
desta vez para o caçar!
 

No jogo do gato e rato
há que perder ou ganhar:
ou o rato escapa ao gato,
ou este se vai vingar!
 

Por isso, então, é que o gato
se esforça para vencer
o torneio com o rato
e a raiva satisfazer!
 

Fevereiro de 1994

 

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O GALO



Canta o galo: có‑có‑ró!,
sua espiga a debulhar
e penica, mas sem dó,
quem o for incomodar!
 

É por isso que eu não vou
para ao pé do figurão,
porque livre nunca estou
de levar um penicão!
 

Março de 1993

 

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CAVALINHO


À minha sobrinha Ana Raquel



Corre, salta, cavalinho,
meu brinquedo de encantar:
eu ensino‑te o caminho
e levas‑me a passear!
 

Abandona o verde prado
onde vais te apascentar,
que eu já estou desesperado
por não te poder montar!
 

Não receies os perigos
quando fores galopar,
porque sendo bons amigos
comigo podes contar...
 

Cavalinho, cavalinho,
por favor, põe‑te a caminho!

Julho de 1995

 

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COELHINHO BRANCO



O coelhinho branco gira,
parece uma dobadoura,
com o focinho na mira
de bela e grande cenoura!
 

Rodopia, rodopia
e salta como uma bola,
até que vence a fasquia
e o prémio, então, o consola!

Outubro de 1993

 

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A CIGARRA


À minha afilhada Paula Cristina



Pelo tempo de calor,
alegre, canta a cigarra,
melodias de primor,
numa toada bizarra!
 

Canta, em vez de amealhar
o pão para o rude Inverno,
a sorrir do labutar
da formiga e seu governo!
 

Todavia, tendo fome,
farsante, diz que é amiga
e, sem descanso, consome
a previdente formiga!
 

Verão de 1994

 

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O MEU CÃO



Coitadinho do meu cão,
que de uma das pernas manca:
aquilo ou foi apertão,
ou levou com uma tranca!
 

Mas dá pena vê‑lo assim
com a perna levantada:
não tira os olhos de mim
e eu não posso fazer nada...
 

Quem seria que fez mal
ao meu Pastor, estimado,
pois foi dentro do quintal
que o achámos magoado?
 

Quem o fez foi indecente
e usou de grande maldade,
porque o bicho é o padecente
da reles leviandade...
 

Novembro de 1994

 

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PINTASSILGO



O Meu Pintassilgo
morreu na gaiola:
cantor tão antigo
que mais não consola
o seu velho amigo...
 

De noite e de dia
reinava por tudo
a sã alegria
que a voz de veludo
à casa trazia...
 

Inverno de 1993

 

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INTERLÚDIO


Ao Fernando Neiva Pinheiro


1

DISCO DA RAPOSA



O corvo é uma ave muito feia,
mas gosta que lhe digam o contrário.
Ora uma vez caçou (feliz fadário),
um pequeno coelho para a ceia.
 

Veio a raposa, só de manhas cheia,
e pôs‑se a desfiar um tal rosário
de elogios ao bicho, qual calvário
encantador, de que não há ideia...
 

Tanto o gabou, de forma convincente,
que, grato, abriu o bico, sorridente,
e deixou escapar‑se‑lhe o petisco,
 

que a matreira acolheu no seu focinho.
E, quando já seguia p'lo caminho,
sentia‑se orgulhosa por tal disco!
 

Fevereiro de 1995

 

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2
CONFISSÃO DE UM LOBO


Conta uma fábula que certo dia
se foi um lobo reconciliar.
E, muito humilde, quase a soluçar,
aos pés do confessor, na sacristia,
 

começou por dizer que se sentia
triste, por tantas reses dizimar
e na vida a maldade praticar.
Por isso, arrependido, prometia
 

procurar não cair em tentação
e nas horas difíceis ter cautela...
No adro berra uma infeliz ovelha.
 

Ele interroga o padre e afina a orelha:
‑ "Já me encontro absolvido?" ‑ "Ainda não..."
- "Deixe, então, que eu devore mais aquela!!"
 

Abril de 1995

 

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3

LAMENTAÇÕES



Desesperadamente, regougava
uma raposa, que se emaranhou
numa forte laçada, que lhe armou
quem sabia os caminhos que ela usava.
 

E então, esmorecida, matutava:
"Hoje, correu‑me tudo mal: voou
para longe a galinha que aguçou
a enorme gula, que me estonteava;
 

fugiu‑me o láparo que um caçador,
aos tiros, quase me arrancou da boca;
perdi um bando de aves que o calor,
 

ainda cedo, fez saltar do ninho...
Mas o que mais me dói é ter na toca,
cheio de fome, o único filhinho!"
 

Abril de 1996

 

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4

BURRO INTERESSEIRO



Uma formiga, certa vez, queria
atravessar prà outra margem de um ribeiro,
a fim de regressar ao formigueiro.
Ao passar, de manhã, ainda havia,
 

sobre as águas, um tronco que servia,
para as constantes jornadas, de carreiro.
Perante esta aflição, viu um sendeiro,
que, na corrente pouco audaz, bebia.
 

"Amigo, por favor, tem compaixão
e transporta‑me para o outro lado..."
Ele acedeu. E ela, já no chão,
 

grata, se despediu. Esfomeado,
o burro diz: "Só ficarei saldado
se em tua toca me enfartar de pão!"
 

Novembro de 1996

 

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5

PORCO-ESPINHO DILIGENTE



Sucedeu, certa vez, que um porco‑espinho
entrou, com os filhinhos, num quintal,
mas sem a intenção de fazer mal.
Ao percorrer um íngreme caminho
 

sentiu um cheiro estranho no focinho,
mas que lhe deu um gozo sem igual!
Quando, por fim, chegaram ao local
é que, em segredo e com muito carinho,
 

aos filhos revelou os objectivos
daquele prolongado caminhar:
dentro dos muros da propriedade
 

existia um belíssimo pomar,
com magníficos frutos, sugestivos,
prontos para lhes dar saciedade...
 

Novembro de 1996

 

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RAPSÓDIA


Ao meu filho Francisco Miguel


Sai‑me tudo com primor,
quando canto para vós:
como faz qualquer cantor
treino muito a minha voz.
 

Na festa é que eu comprei
um lindo tamborzinho:
reparem que eu já sei
tocá‑lo bem, sozinho.
 

Um, dois, um, dois, a acelerar
vamos a trote, burriquito.
Sei como gostas de brincar:
ai não te faças de esquisito!
 

Tim‑tim‑tim, tim‑tim‑tim,
vou tocar nos ferrinhos:
olhem bem para mim,
como os toco certinhos.
 

Gri‑gri‑gri, cacei um grilo,
que meti numa gaiola:
Não conheço igual estilo,
que os ouvidos me consola!
 

Perdi uma soalha
da minha pandeireta.
Ninguém, porém, me ralha
por esta pirueta!
 

Quem não gosta de dormir
pela tarde, bela sesta
e também se divertir
no arraial de qualquer festa?
 

Prestem agora atenção,
que vão ter uma surpresa:
já toco com perfeição
na minha caixa chinesa!
 

Mas que engraçado boneco
me serve de reco‑reco!
 

A canivete, de um galho,
resultou este trabalho!
 

Roço a cana no boneco
e ouço: reco‑reco‑reco!
 

Em moderado andamento
as maracas vou tocar
e, com os ritmos que invento,
o tempo passo a treinar!
 

Para findar a rapsódia,
com mais música, ou poema,
quer a sério, ou na paródia,
importa é surgir um tema...
 

1994-1996

 

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AO DESPERTAR



Pela manhã, um salto dou da cama
e, com cuidado, dobro o meu pijama.
 

Lavo os dentes, a cara e me penteio,
porque a higiene mostra haver asseio.
 

Tomo o pequeno‑almoço, de fugida,
enquanto aos meus vou dando a despedida.
 

E, feliz, ponho aos ombros a sacola,
porque chegou a hora de ir p'rà escola!
 

Março de 1994

 

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A MINHA ESCOLA



Eu gosto da minha escola,
tudo nela é muito bom:
corro, salto, jogo à bola,
ao berlinde e ao pião!
 

Aos ombros levo a sacola
com os livros da lição
e uma bela merendola
de geleia, fruta e pão!
 

Lá tudo, enfim, me consola
e dá grande animação,
quando bem o ano rola
e não há reprovação!
 

Eu gosto da minha escola,
tudo nela é muito bom!
 

Outubro de 1993

 

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O RECREIO



O recreio já chegou:
sem demora, vou brincar,
porque farto nunca estou
de correr e de saltar!
 

Já me chamam, de repente,
outra vez para estudar:
volto à sala e fico ausente,
no recreio a meditar...
 

É tão bela a brincadeira
nestes tempos de criança
que depois a vida inteira,
nos reconforta a lembrança!
 

E que pena, e que saudade
nos abrasarão um dia,
por não termos nesta idade
aproveitado a folia.
 

Por isso, venham recreios
que animem os corações
e que estejam sempre cheios
de múltiplas diversões!
 

Junho de 1994

 

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GIRA QUE GIRA


Às crianças do Jardim de Infância
da Casa do Povo da Vila de Prado

 

Gira que gira,
mexer o pé,
andar de roda,
assim é que é!
 

Vamos fazer uma roda,
unidos de mão em mão,
que sempre esteve na moda
e nos dá satisfação.
 

Rodar primeiro à direita,
as vezes que se ajustar;
à esquerda, então, será feita
uma volta até parar.
 

Um intervalo em seguida
se deve realizar,
que após constante corrida
é preciso repousar.
Recomeçar ao contrário,
à esquerda sempre a girar:
a volta que é necessário,
à direita, e terminar...
 

Novembro de 1995

 

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LONGE A POLUIÇÃO


Aos meus sobrinhos
Rui e Paulo



Ver as salas, o recreio,
ou qualquer parte da escola
com ar sujo, sem asseio,
os briosos desconsola!
 

"Deitar cedo e cedo erguer"
(como nos diz o rifão),
"dá saúde e faz crescer",
mas longe a poluição!
 

As ruas, praias, o rio,
ou qualquer outro lugar,
todos devem ter o brio
de usá‑los sem os sujar!
 

Ter atenção com os montes,
para o fogo os não queimar,
assim como com as fontes,
prà água não inquinar!
 

é bela cada manhã,
livre de poluição,
que faz ter a alma sã
e também o corpo são!
 

Com uns slogans pioneiros
unamo-nos em clamores:
"Para evitar os maus cheiros
proliferem contentores!"
 

Quem quiser ter alegria
e saudável coração
deve afastar, noite e dia,
focos de poluição!
 

Em todas as circunstâncias
devemos ter o capricho
de alertar quaisquer instâncias
para os perigos do lixo!
 

A Vida terá beleza,
quando encontrarmos o jeito
de estimar a Natureza
e ter‑lhe grande respeito...
 

Janeiro de 1996

 

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AS CASTANHAS

 


Que lindos ouriços
tem o castanheiro:
abertos, sorrindo
para o lambareiro!
 

De dentro a castanha
saúda, contente,
os que desejavam
espetar‑lhe um dente!
 

Castanhas cozidas,
cruas, ou assadas,
em tempo d'Outono
tão apreciadas!
 

Setembro de 1994

 

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GOSTO DE FRUTA



A fruta muito aprecio,
seja ela lá do que for,
e de contente, sorrio,
quando lhe tomo o sabor!
 

Que bela e grossa fatia
me deram para comer
da vermelha melancia,
que a sede mata a valer:
quando comida bem fria
é um pitéu de em conta ter!
 

É magnífico o melão,
após ou pré‑refeição
e servido bem gelado:
é bom como aperitivo,
como lanche, ou digestivo,
sempre muito apreciado!
 

Mas deve ser a maçã
o fruto mais frequente
que ao meu paladar apraz:
gosto dela de manhã,
tempo frio, morno, ou quente,
tarde, ou noite, tanto faz...
 

1995-1996

 

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MULTIFRUTA


Com pêras, maçãs, morangos,
bananas, quivis, laranjas,
cerejas, uvas, melão:
se me deixassem fazia
uma bela refeição!
 

Com pêssegos, melancia,
romãs, maracujás, figos,
medronhos, ginjas, limão:
se me deixassem fazia
uma bela refeição!
 

Com tâmaras, tangerinas,
ameixas, ananás, nêsperas,
damasco ou maracotão:
se me deixassem fazia
uma bela refeição!
 

Com passas, caju, marmelos,
dióspiros, framboesas,
groselha, avelã, pinhão:
se me deixassem fazia
uma bela refeição!
 

Com manga, amendoim, coco,
amoras, baunilha, amêndoas,
castanhas, noz ou nogão:
se me deixassem fazia
uma bela refeição...
 

Verão de 1994

 

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EXCESSOS E MODERAÇÃO


Ao meu sobrinho Quintino Rodrigues
e aos irmãos

 

Quando se diz comer bem,
não quer dizer quantidade,
porque o sentido que tem
é sempre na qualidade.
 

Quem não gosta de um petisco,
cozido, cru, ou assado,
de carne, peixe, ou marisco,
desde que bem preparado?
 

Muitos gostam de ingerir,
quer comidas, quer bebidas,
ao ponto de se enfartar:
mas devem‑se preferir
as refeições, comedidas,
que a saúde vão poupar.
 

Gulosos há‑os aos centos
e com gostos apurados,
sempre à espera de momentos
que os deixem bem aviados.
 

Enfim, tudo é comestível
e na hora desejado:
há que fazer o possível
por ser‑se mais moderado.
 

"Contra a gula temperança"
eis um precioso isco
que a boa etiqueta lança,
p'rà saúde preservar
e não se correr o risco
do organismo arruinar.
 

É que os excessos colocam
em perigo tantas vidas
e só por vezes nos tocam
vê‑las desaparecidas.
 

Unamo‑nos, mão a mão,
num infindável cordão
que proteja cada dia
os abusos no viver
e que todos possam ter
mais momentos de alegria...
 

Primavera de 1996

 

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FALA DO SOL


À minha sobrinha Isaura Salomé



Um dia, o Sol, imponente,
com raios tudo a doirar,
do seu altíssimo trono
decidiu‑se a discursar
para os súbditos, dispersos
pela terra, céu e mar:
 

"O meu Reino é bem maior
do que se pode pensar:
apesar de rico, acordo
bem cedo, p'ra visitar
meus domínios e o brilho
da benta luz espalhar.
 

Percorro todo o Universo,
ao mais ínfimo lugar,
pois sem a minha presença
não pode haver bem‑estar:
por isso, levo o conforto
ao nobre e ao mísero lar.
 

Quando não são preguiçosas,
para me verem entrar
pelas frinchas da janela,
as crianças vão deixar
o aconchego dos lençóis
e, contentes, respirar,
 

das orvalhadas manhãs,
o puro e saudável ar.
De trabalhar nunca páro:
as plantas faço brotar,
amadurecer os frutos
e as flores desabrochar.
 

Àqueles que têm frio
com calor vou consolar.
Sem ver a cor ou a raça,
convicto, vou promulgar:
- "Eu sou o Astro de todos,
p'ra todos quero brilhar..."!
 

Junho de 1994

 

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MOINHO DE VENTO

 

Permiti‑me que vos conte
um raro acontecimento:
vi girar num alto monte
lindo moinho de vento!
 

Gira, gira, ai que beleza
e lembra uma dobadoura:
é dif'rente a Natureza,
quando a luz do sol o doura!
 

Novembro de 1993

 

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RIBEIRINHO


À minha afilhada Marta Sofia

Despacha‑te, ribeirinho,
procura o mar teu amigo:
não te enganes no caminho,
senão corres o perigo
de ficar sempre sozinho!
 

És pequeno na nascente,
enorme ao desaguar:
em locais passas dolente,
noutros, porém, faz pasmar
a tua forte corrente...
 

A toda a hora percorres
campinas, vales e montes
a perfurar chãos e torres,
não tendo outros horizontes
senão o mar, onde morres...
 

Outubro de 1994

 

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AVIÃO DE PAPEL


De onde é que vais descolar,
lindo avião de papel?,
que eu qu'ria pôr‑te a voar
como um ligeiro corcel!
 

Com tanto esmero te fiz,
só para ver‑te planar:
eu vou sentir‑me infeliz,
se não subires no ar!
 

Mas creio não ter razão
para me preocupar,
pois já sinto o coração,
preso a ti, a viajar...
 

Março de 1994

 

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BARQUINHO DE MADEIRA


Meu barquinho de madeira,
aonde o ponho a boiar?,
para a feliz brincadeira,
que me anime a vida inteira
e faça agora sonhar...
 

Não pode ser nesse mar
muitas vezes tão cruel,
com vagas de amedrontar
e que chegam a tragar
um poderoso batel!
 

Que o meu barquinho, pintado,
muito frágil, pequenino,
não o qu'ria destroçado,
nem tão‑pouco abandonado
a um funesto Destino...
 

Por isso o vou colocar
num tanque de calmas águas,
para vè-lo deslizar,
sem que possa naufragar
e encher‑me o peito de mágoas...
 

Janeiro de 1994

 

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LEAIS ESCUTEIROS


Aos escuteiros da Vila de Prado



Leais Escuteiros,
divisa sem par:
"Postura correcta,
alegres, alerta
e o Bem praticar"!
 

Em tudo temos presente
Baden-Powell, Mestre e Guia:
floriu em nós a semente
de paz, amor, alegria!
 

A Natureza é tesouro
que sabemos respeitar,
pois dá‑nos em prendas de ouro
momentos de bem‑estar!
 

Os jogos são o celeiro
que alma e corpo nos conforta:
por isso, o bom Escuteiro
não cansa de abrir‑lhe a porta!
 

Bendita a chama que brilha
quando há Fogo‑de‑Conselho
e a noite que é maravilha
ao pé do clarão vermelho!
 

Fevereiro de 1994

 

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HARMONIA E PAZ


Ao padre Luís Alberto Gavina


I

PINHEIRINHO DO NATAL
 

Tenho um pinheirinho,
bonito, verdinho,
todo iluminado
e bem enfeitado!
 

De noite e de dia,
só ele alumia
com santo fulgor
de raios de amor!
 

E nele procuro,
de olhar firme e puro,
brinquedos pedidos,
que me são queridos!
 

É tudo harmonia
na doce alegria
que sinto brotar
de tudo a brilhar!
 

Ó meu pinheirinho,
com grande carinho,
pretendo dizer
que tenho prazer
 

de olhar‑te, contente,
e ver‑te presente
no sítio ideal,
em cada Natal...
 

Dezembro de 1995

 

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II

PRECES DE NATAL


Ó suave Deus Menino
dá amor a toda a gente
e p'ra cada pequenino
traz no Natal um presente!
 

Um presente de ternura,
de carinho e bem‑estar,
p'ra acabar com a amargura,
que hoje destrói tanto lar!
 

Natal de 1992
 

Amigo Jesus Menino
vem pôr‑me no sapatinho
um lindo e bom presentinho,
que alegre este pequenino!
 

Te peço aqui, de mãos postas,
me tragas muitas prendinhas,
pois sei que é das criancinhas
que tanto, Jesus, Tu gostas!
 

Natal de 1994

 

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III


A JESUS MENINO



Jesus Menino,
tão meu amigo,
neste Natal
conto Contigo:
põe-me um presente
no sapatinho,
que está num ramo
do pinheirinho!
 

Sou pequenino
botão de flor,
que desabrocha
para o amor:
Jamais na vida
alguém desfaça
este tesouro
de mimo e graça!
Tanta miséria
povoa a terra
com injustiça,
com fome e guerra:
Dá‑me Natais
todos os dias
onde, somente,
haja alegrias!
 

Dezembro de 1992

 

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IV


JUNTO AO PRESÉPIO


Nasceu pobrezinho,
na gruta em Belém,
um lindo Reizinho,
enlevo da Mãe!
 

O sino repica
com som divinal:
"ó noíte mais rica
do santo Natal"!
 

O sino anuncia:
"Jesus já nasceu
da Virgem Maria,
oferta do Céu"!
 

Saudai‑O, pastores,
vales, campos, montes,
estrelas, luz, flores,
ribeiros e fontes!
 

Louvai‑O, Reis Magos,
noite, sol, campinas,
arcanjos, mar, lagos,
outeiros, colinas!
 

Trazei, povos, gentes,
dádivas de amor,
sinceros presentes
ao Rei Salvador!
 

Natais de 1993 e 1994

 

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V


CÂNTICO DE NATAL



Alegrai‑vos, povos, gentes,
com cânticos excelentes,
louvando Jesus Menino,
que na gruta de Belém
já sorri p'ra Sua Mãe
pleno de poder divino!
 

Bendizei a noite santa,
tão bela, que tudo encanta,
com 'strelas de oiro fulgente
e pastores a marchar,
que levam para ofertar
um carinhoso presente!
 

Contemplai o Pequenino,
que jorra diamantino
olhar ridente, amoroso,
que na vida vai pregar
sobre a forma de alcançar
o Seu Reino glorioso!
 

Natal de 1994

 

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DESESPERO E JÚBILO


Ao meu filho Artur Augusto



No arvoredo do jardim
metia dó ouvi‑la assim,
a reclamar o passarinho
que algum menino, por maldade,
por diversão, leviandade,
pela manhã, tirou do ninho.
 

Era uma mãe que se sentia
feliz, com raios de alegria,
que lhe inundavam o viver,
na moradia confortável,
com a ternura mais afável
que sob o Céu podia haver.
 

Mas fôra um gesto de inocência
que lhe roubou a convivência
e os mil afagos do filhinho,
já que um miúdo, comovido,
o ajuizou desprotegido
de pais, de amor e de carinho...
 

Como não pôde consolá‑lo
voltou, mais tarde, a colocá‑lo
no primoroso e doce lar...
Quando tal viu, enternecida,
a boa mãe rogou à vida
para não mais os separar!
 

Março de 1996

 

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A ARMADILHA


À Marta Vitória Miranda
e ao irmão


Não Passou de uma comédia,
mas podia ser tragédia,
naquele dia florido
e cheio de sol, também,
quando a pequenina filha
se enleou numa armadilha,
por ter desobedecido
às indicações da mãe.
 

Com uma cara sisuda
ela explicou à miúda
que a laçada que o pai fez
num cantinho do quintal
se destinava a caçar,
quem usava lá passar,
pelos vistos muita vez,
e só para fazer mal...
 

Claro que a mãe sabia
que o bicho que lhe comia
toda a hortaliça plantada
era um coelho bravio.
por isso, se sem cautela,
caísse ele na esparrela
faria uma petiscada
e ganhava o desafio.
 

E, com esta convicção,
fez um comprido sermão
com diversos argumentos,
que no fundo não passavam
de razões para alcançar,
sem a pequena sonhar,
sucesso nos seus intentos,
que a raiva e gula minavam...
 

Atrevida e jovial
foi brincar para o local
e por um pé ficou presa
na corda que se apertou.
Como existia um valado
um pouco alto e aprumado
teve uma fraca surpresa,
porque o corpo resvalou,
 

ficando ela pendurada,
aos gritos, atrapalhada,
co'a cabeça e mãos no chão.
Depressa a mãe acorreu
a socorrê‑la, aflita,
mas ao ver aquela fita
sorriu de satisfação
e um terno beijo lhe deu!
 

Maio de 1996

 

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SERÃO REPARADOR


À Helena Sofia Alonso e irmã



Havia um certo casal
que vivia numa aldeia
bonita de Portugal:
ele, alegre, jovial,
ela, preguiçosa e feia.
 

Consoante utilizava
a louça, a roupa de cama,
tudo num monte deixava
a feder, que tresandava,
como suínos na lama.
 

O marido ao perceber
que tinha sido enganado
quando escolheu a mulher
para consigo viver
num lar limpo, consagrado
 

a feliz e terno amor,
já que agora sucedia
em tudo pouco primor
e que gente, por humor,
da situação sorria,
 

começou a pactuar,
embora triste, humilhado,
com a desordem no lar.
Como deixou de lavar
todo o trapo utilizado
 

sucedeu, em certa altura,
mais nada haver para usar.
O marido, com doçura,
escondendo a impostura,
disse, quase a segredar,
 

que iriam pela noitinha,
à poça que longe havia,
tudo aquilo pôr na linha...
Fosse ela à frente, sozinha,
porque ele apareceria,
 

mais tarde, para ajudar...
A enorme trouxa levou,
principiando a lavar,
com as mãos sempre a sangrar:
e ele nunca mais chegou...
 

Cheia de frio, a chorar,
exausta e envergonhada,
só conseguiu terminar,
para a casa regressar,
bem dentro da madrugada!
 

Ora a bela conclusão
é que a partir desse instante
teve ela em conta a lição
do longo e rude serão.
E então, dali em diante,
 

a assaltou firme vontade
de ter tudo uma lindeza!
E, com esmero e vaidade,
a mais leve sujidade
era fruto de limpeza...
 

Outono de 1995

 

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PROMESSAS CUMPRIDAS


Ao meu filho João Pedro



Vou‑lhes contar uma história,
que me lembra a minha avó,
porque em primeiro lugar
da sua boca saiu,
para os netos consolar.
 

Depois me foi repetida,
com carinho, com amor,
pela minha boa mãe,
que por certo a tinha ouvido
já da sua avó, também.
 

E até mesmo um grande amigo,
que muita coisa sabia
doutras décadas atrás,
esta e outras me narrou
do seu sortido cartaz.
 

De qualquer modo pertence,
como tantas que conheço,
à tradição popular.
Prestai, então, atenção,
porque vou principiar:
 

Certa vez uma mãe pobre,
que tinha uma linda filha,
começou a magicar
na forma como podia
com homem rico a casar.
 

Ora morava ali perto
um mercador abastado,
rapaz novo e bem par'cido.
Foi a mãe à sua loja
para fazer‑lhe um pedido:
 

Consistia no empréstimo
de uma meada de linho,
que até a noite cerrar,
a filha, com tal perícia,
toda havia de fiar.
 

O mercador acedeu
e a mulher, rapidamente,
se dirige para o lar
e impõe à rapariga
que, antes da noite chegar,
 

queria o linho fiado.
E retirou‑se em seguida,
para na horta lidar.
A filha sentou‑se à porta,
desanimada, a chorar.
 

Nisto surge uma velhinha,
agarrada ao seu bordão,
e logo foi perguntar
se tinha fortes motivos
para aquele prantear.
 

A menina lhe contou
o que a mãe havia imposto
e teve que confessar
que a razão daquele choro
era o não saber fiar.
 

A velhinha pediu calma,
afirmando que fiava
todo o linho num momento,
desde que ela lhe chamasse,
no dia do casamento,
 

sua tia por três vezes.
A moça disse que sim
e, quando a mãe arribou,
como por grande milagre,
tudo já feito encontrou.

Pegou, então, nas estrigas
e, chegada ao mercador,
o trabalho lhe entregou.
E a proposta da manhã,
de pé firme, renovou.
 

Chega a casa, novamente,
trazendo outra maçaroca.
A mesma sentença dá
à filha, que não atina
como o linho fiará.
 

De novo se põe à porta,
nas faces com grossas lágrimas.
Outra velhinha aparece
e diz que o trabalho faz,
mas de uma coisa carece:
 

no dia em que se casar
três vezes há‑de tratá‑la,
forçosamente, por tia.
Diz a moçoila que sim
e a velha a meada fia.
 

A mãe entrega as estrigas
e propõe, mais uma vez,
o negócio ao mercador.
A filha recebe o linho
e chora com amargor.
 

Uma outra velhinha passa
e os seus queixumes atende.
Perante a mesma proposta,
a menina logo afirma
estar a isso disposta.
 

Vai entregar o fiado
e o simpático rapaz
se admira da rapidez
e pretende conhecer
quem tanto trabalho fez.
 

Foi o que a mãe quis ouvir,
pois logo a casa o levou.
Ao ver a moça tão bela
a pediu em casamento,
com grande paixão por ela.
Houve uma festa de arromba,
com um almoço à altura
de bolsa bem recheada.
Então, em certo momento,
de nenhum modo esperada,
 

na sala uma velha entrou.
A noiva, ao vê‑la, a saúda:
"Minha tia!, que consolo
a tia vir hoje! ó tia,
não vai um pouco de bolo?!"
 

E, minutos decorridos,
outra velhinha aparece.
E em seguida, uma terceira.
A noiva não se esqueceu
de fazer como à primeira.
 

Os convivas, intrigados,
das três quiseram saber:
por que é que uma, coitadinha,
era assim tão corcovada?
Com mágoa, diz a velhinha,
 

que fôra a maldita roca,
por longos anos usada,
quem a pôs naquele estado.
E a segunda, por que tinha
o queixo tão deformado?
 

Respondeu, quase a chorar,
que também a roca era
por aquilo responsável.
E da terceira indagaram
do aspecto desagradável
 

do nariz grande e recurvo.
Disse‑lhes que anos a fio
tivera que se inclinar
sobre as estopas do linho
e o fuso sempre a girar.
 

O marido tal ouviu
que a um criado ordenou
p'ra, sem demora, queimar
tantos presentes da noiva:
utensílios de fiar.
 

E, porque a moça cumpriu
o prometido às velhinhas,
foi bem feliz no seu lar.
E o marido, que a adorava,
jamais a deixou fiar...
 

Janeiro-Março de 1993

 

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ALGUMAS RECENSÕES




AURÉOLA

 

 

É possível que neste vasto emaranhado de interrogações que ilimitam a vida, a poesia se constitua, na sua fragilidade e pureza, como choro santíssimo donde brotam os amplos sentidos discentes do Mundo.

A arte de José Fernandes, no seu profundo sentido comunicante, vela‑se num transparente caudal de emoções donde gorgulham sereníssimos haustos de claridade e de paz que o candil vibrante do seu engenho faz emergir de um mundo campesino em deperecimento, mas, afinal, onde o incontido reduto da vida se nos apresenta, ausente de modas e pacotilhas, de totalidade sentida, verdadeiro e carnaz.

E tudo isto em "Auréola" nos é trazido, ao lume da consciência, em versos compostos com tão afável simplicidade e tal harmonia, nas paisagens doces e nos caracteres suaves, que deles irradia, para o leitor, a felicidade das coisas simples e delicadas, mas também o amor romantizado

que é o que melhor entende e de que mais se agrada o coração do vilaverdense e o português de lei.

Por isso, ao leitor desprevenido, arredio ao tédio e à desgraça, apetece erguer sinalefa:

‑ Alto lá! ‑ estas páginas são um parêntese tranquilo e meigo onde, por entre o trissar das andorinhas e corolas de lírios entreabertas, pomos a lembrança da paz e da menineira felicidade campestre.

Tréguas, então, por um instante, nesta áspera fuzilaria que vem talhando as horas doridas da sobrevivência.

Leiamos, pois, sob um vasto azul de noites silenciosas, o cântico do artista, incerto, porventura, mas ressumante de vida, de liberdade e amor.

 

Braga, Março de 1997

 

João Lobo

 

 

O professor José Fernandes da Silva, personalidade distinta do nosso concelho porque pedagogo devoto e cidadão activo e incondicionalmente dedicado a causas nobres, um humanista na mais autêntica acepção e abrangência da palavra, tem‑se revelado a muitos de nós um homem de multifacetados talentos.

Além da sua elevada estatura como Homem e dos seus inquestionáveis dotes como educador e intérprete musical, em cada publicação poética vem‑nos encantando com a melodiosa graciosidade das palavras que da sua pena discorrem. Dir‑se‑ia que cada sílaba é uma nota musical que enche os nossos ouvidos e corações de serenidade.

"Auréola", colectânea de versos compostos pelo autor na sua mocidade (entre 1964 e 1968), tempo em que as musas palpitavam freneticamente no âmago deste inveterado romântico e nostálgico poeta, sucede a "Cofre de Ternuras" (esgotado) e "Canções da Minha Escola" (1992), "Relicário" (1993) e "Celeiro de Retalhos" (1994). Nesta nova criação poética a natureza, o fluir do tempo, o genuíno palpitar da vida em todas as suas facetas e dimensões prendem‑nos à leitura de poesias que suscitam em nós devaneio e um encantamento indescritível.

Impõe‑se que recomendemos vivamente a leitura das criações poéticas do Prof. José Fernandes, na certeza de que da sua leitura atenta poderá resultar uma forma mais optimista de encarar a vida. Não se corre minimamente o perigo de fazer valer uma certa concepção da poesia como algo de monótono e abstracto.

Pelo contrário, os versos de José Fernandes da Silva ajudam a combater o tédio e exaltam tão nobre forma de expressão de ideias e sentimentos.

 

Maio de 1995 (nº 99)

Jornal da Vila de Prado

 

 

 

Ao ler "AURÉOLA", do meu amigo Zé Fernandes, vi tratar‑se de um livro, com uma pintura real, cheio de tonalidades: ora é um quadro onde o simbólico e o ideal se tocam, ora é moralizante.

A sua poesia é uma terra prometida, repleta de amor, e aponta caminhos a construir, longe do utópico. E, se todos quiséssemos, bastaria que déssemos as mãos e olhássemos a natureza, da mesma maneira que o Zé a sente.

Quanto ao valor literário, "Auréola" vale pelo que promete. Há nele de tudo um pouco, desde a ingenuidade à originalidade ténue, passando pela robustez da sua inspiração. Por ele perpassam diversos sentimentos humanos desde a desilusão absurda ao optimismo um tanto ou quanto exagerado.

Ler "Auréola" é olhar para o que nos cerca e acreditar que existem outros universos para além do nosso entendimento; é verificar que dentro de nós há abismos ainda não navegados, que nos afastam também do domínio do racional.

Desbravar "Auréola" é ver o passado e viver o presente, para a construção do futuro; é saber dar sentido ao "Eu" na sua relação com os outros: os de ontem, os de hoje e os de amanhã.

Aqui deixo o meu contributo poético:

 

Viver por viver,

Valer não vale;

Mas, viver para viver,

Deve ser o teu ideal!!!

 

Vila Verde, Março de 1997

TUTA

 

 

 

 

"AURÉOLA" exprime um sentimento e uma sensibilidade estética, que transcende o mundo estreito do materialismo e até de um niilismo, que vai assoberbando a sociedade.

 

(Extracto de uma carta de Junho de 1995)

 

Fernando José Lopes

 

 

Reli o teu último livro.

Tudo tão evidente e natural, meu velho: sentimentos, emoções, o sentido da música, o prazer do silêncio. E as memórias, essa sombra luminosa que nos acompanha, conforta, entristece, aumentando em extensão e densidade, enquanto caminhamos pela vida. E o sentido do lugar, que é em ti uma matriz, o amor, a amizade, o apego aos entes desvalidos, a festa do quotidiano. Um ritmo, uma rima de muitas rimas feita, uma sóbria modulação da alegria, porque lá no fundo da tua fala, o jorro é jubiloso, pronuncia o gosto de estar olhando o futuro sem um travo de qualquer estigma escatológico.

Foi a satisfação de um amigo este meu retorno ao teu convívio. Ainda bem que os astros se conjugaram para que assim fosse.

(...) Deixo‑te aqui, uma vez mais, o melhor dos abraços ‑ esse que traz consigo a claridade da adolescência e a autenticidade dos gostos originais.

 

(Extracto de uma carta de Março de 1996)

 

José Manuel Mendes

 

 

 

Auréola, o título deste novo livro de poesia de José Fernandes da Silva, e que se segue a "Celeiro de Retalhos", sugere desde logo a atmosfera lírica da obra. O vocábulo auréola já por si tem um grande poder evocador e traz à fantasia do leitor imagens de uma condição humana banhada pelo ouro da espiritualidade e onde o poeta, num gesto de fraternidade, gostaria de mergulhar todos os homens. Homens que, possuídos pelo resplendor da música e da poesia, encontrariam na beleza e na paz o bálsamo perfumado, não só para o infortúnio do próximo, como também para a própria dor do existir, sempre que a alegria por um tempo se esconde por trás dos véus da melancolia. Essa claridade que parece vir do interior da noite e deflagra num sol radioso é um espantoso sinal de esperança na vida, valor supremo que o poeta não se cansa de afirmar na toada característica dos seus versos. Auréola corresponde, pois, ao triunfo da luz sobre as trevas, à supremacia da felicidade sobre o desespero, ao vencimento categórico da harmonia sobre o caos galopante.

Dando corpo a esse leit-motiv crucial, o poeta, crucificado na grande roda do mundo, vê desfilar ante os olhos emocionados o ciclo indetenível das estações, celebrado em sonetos bem medidos, que se sucedem nas folhas do livro, qual árvore de letras que remoça na Primavera, verdeja no Verão, doura no Outono, para no Inverno ser despida pelo toque repentista do vento. Mas nem só o tema da mudança, e até o tema da viagem, como podemos ver em Canção ao Ribeirinho, se constitui como uma das mais importantes isotopias da poética de Auréola. Também o bucolismo da paisagem minhota, de quem o poeta é um interlocutor privilegiado, pois o discurso resulta de um sensualismo atento, entendido e sentido, se assume como um fio condutor nevrálgico não só da arte literária do livro em apreço, mas de toda a obra do vate vilaverdense. Esta comunhão com o sensível, com o selvagem e o impoluto, se a um tempo permite ao autor uma evasão para o tormento existencial, a outro tempo concede‑lhe a identificação dos estados da alma, experiência que o torna partícipe das benesses prodigiosas da Terra‑Mãe.

Mas o poeta também não consegue esconder o contentamento interior de se sentir como um fauno embevecido na sua Arcádia rústica, terra encantada de regatos e fontes cristalinas, de rouxinóis em serenatas extasiantes e virgens despreocupadas. Com a fronte aureolada com os ramos de Apolo, o poeta compõe loas inspiradas aos rituais humanos, aos sortilégios das noites de luar, à plangência do toque dos sinos, mensageiros ora da tristeza ora da alegria, dedilha canções de saudade ou infortúnio, murmura elegias tocantes àqueles que a morte, sempre insensível, levou para o Além, organiza acrósticos como aquele que dedica a sua mãe.

José Fernandes da Silva fecha o livro Auréola com vários poemas do chamado lirismo confessional, onde manifesta uma paixão ao jeito romântico, porquanto coloca o discurso na primeira pessoa e dirige-se à amada em tom coloquial, sem os véus das conveniências clássicas. Curiosamente é nesses versos que o poeta abandona num ou noutro caso o talhe mais académico das redondilhas, dos decassílabos ou até de algum alexandrino, composições que marcam a primeira parte do livro, como acontece no poema Eu Queria, ao nível da métrica e em Ainda não, Amor, ao nível da rima. "Bela ninfa, sê minha, porque eu te amo...", oitavo verso do soneto Súplica, eis o modo franco do amante apaixonado, mas sobressaltado pelas incertezas e caprichos do amor: "Retira, Amor, a dúvida espinhosa/deste peito tão pobre e fatigado". Depois, são as lembranças do namoro, com os seus episódios singelos, a declaração emocionada, o primeiro beijo e tantos outros rituais que matizam a alma com aquela pátina que eleva os mortais até ao reino do indelével e do indizível.

Auréola é, em suma, um mergulho no que a condição humana tem de mais autêntico, a natureza, a gregaridade humana, o amor, a saudade, através de processos literários variados e onde não faltam expressivas sinestesias, metáforas oportunas, vívidas prosopopeias e em cujo concerto fica sempre bem o recurso ao rifoneiro popular.

 

Braga, Setembro de 1996

 

Fernando Pinheiro

 

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PÁTIO DAS CANÇÕES

 

"A poesia é para comer-se", afirmava, categoricamente, a grande poetisa, sempre connosco, mas de saudosa memória -Natália Correia.

Assentindo, cabalmente, com tão convincente afirmação do valor da poesia para o alimento do espírito, eu direi que, se Ela serve de condimento preponderante no distinto e saboroso "cozinhado" da Música, atingimos, então, a rara virtude de delicado manjar que vem, afinal, confirmar a teoria dos eruditos da Grécia Antiga, quando concluíam que a Música compreendia, globalmente, uma "trindade" de valores concorrentes: a palavra, o som e o movimento. Os pedagogos musicais da actualidade ocidental, acordando, plenamente, com tão ancestral conclusão, apresentam essa "trindade" por: expressão verbal, musical e corporal.

Quem, como eu, conhece o percurso, a dedicação, o empenho e o entusiasmo com que o autor, valerosamente, se entrega à produção poética e, logo, à elaboração do gostoso manjar musical, não pode deixar de concluir que estamos na presença de um apaixonado pedagogo que vive, de forma singular, com as crianças e para as crianças.

E na sua sabedoria simples e despretensiosa quanto o espírito e a mente das crianças, ele sabe transmitir, às mesmas, não só o gosto pela música ‑ pilar fundamental da formação estética e crescimento harmonioso de quantas têm a felicidade de, com ele, viverem a Música ‑, mas também, através deste jogo envolvente das palavras e do som, abrir‑lhes com leveza, as portas de saberes diferenciados e oportunos. Tal estratégia era já bem evidente no anterior trabalho musical "Canções da Minha Escola", mas, considero, ainda mais sensível na sua última criação, "Pátio das

Canções".

Lançando um olhar atento sobre o conteúdo formativo das diversas canções do "Pátio", observa‑se a abordagem e introdução aos conhecimentos da aritmética, à conformação física do corpo humano, ao tão actual conceito ecológico do ambiente e preservação da natureza e das variadíssimas espécies que a habitam.

Abordada também é uma gama de instrumentos de pequena percussão da reconhecida escola Orff de Pedagogia Musical.

A vivência do dia‑a‑dia das crianças, a sua alimentação, a celebração das quadras festivas e muito mais se pode encontrar, ainda, de inegável mérito, nesta criação tão feliz quão despretensiosa que é o PÁTIO DAS CANÇÕES.

Parabéns ao autor.

 

Barcelos, Abril de 1997

 

Américo Campinho

 

 

Ao soletrar um pouco estas canções, logo me tomou a tentação de meter-me entre as criancitas, a quem se destinam, e entrar na roda com elas a cantar e a bailar.

Quero dizer com isto que imagino quanto estas cantigas hão-de ir naturalmente ao encontro das precisões dos pequeninos, para os ajudar da melhor maneira, isto é, afinando-lhes os dotes e inclinações musicais, a irem cultivando a sensibilidade e a ganhar amor à arte.

 

(Em carta de Julho de 1996)

 

Padre Dr. J. Alves Pires, S. J.

 

 

 

Como eu gostava de saber música para poder apreciar as melodias inscritas nas pautas que fazem este teu livro! Toda a vida cantei, como sabes. Em público muitas vezes, muitíssimas mais em privado. Não viveria sem a beleza contagiante das grandes composições clássicas nem, devo dizê‑lo, sem as canções que me apelam e enriquecem. Mas, olhando as páginas do teu novo trabalho publicado, não consigo extrair o canto. E, contudo, pela agilidade dos textos, bem avalio a intencionalidade formativa, o esmero, a sensibilidade, o prazer comunicativo que perpassam cada uma das peças reunidas, das simples às complexas, aquelas que exigem melhores conhecimentos e ensaios ‑ como a "Nau Catrineta", por exemplo.

Aqui tens: mesmo insciente, fui sentindo uma viva satisfação à medida que percorria o opúsculo.

Felicito-te e agradeço-te haveres-me desafiado para esta pequena aventura. Afinal, vê tu, é sempre aprazível voltar a ser um pouco criança.

 

(Extracto de uma carta de Junho de 1996)

 

José Manuel Mendes

 

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