Relicário


 

 

ÍNDICE

 Instantâneo

Depois que tu chegaste

Divagação

Miragem

Às ave-Marias

O menino e a flor

Devaneio

Serenata

Aguarela

Retalhos

Rumo certo

Tábua de salvação

Meditações

Requiem

Efeméride

Por que não voltas?

Presunção

Fraternidade

O sabor da vida

Roleta

Tempo de ternura

Momento triste

Herança

Cofre de imagens

Nocturno

Lembranças carinhosas

Tenho saudade

Regato

Moinho

Os meus moinhos

Os carrinhos

Estaleiro

Balões de sabão

As amoras

Papagaio

Alecrim do monte

Loureiro

Rouxinol

Montanha

O passarinho

A Natureza

Outono

Dia dos magustos

Pinheiro do Natal

Feliz nova

Primavera

Dia de Páscoa

O cuco

A rola

Rondó

Prelúdio

Sonho na areia

Discrição

No cais

Sonho ou ideal?

Despertador

Murmúrio

Narração

Desperdícios

Réstia

Mea culpa

Adeus, quimera

Quimera

 


 

À minha Mulher
Aos meus Filhos

 

 

No beijo em que vos enlaço,
com ternura, muito amor,
vai também todo o labor
destas relíquias, que eu faço!

 


 INSTANTÂNEO

 

Craveiro florido,
num vaso qualquer,
por mim escolhido,
um dia, p'ra ser

 

aquele pedaço
tão belo e querido,
que beijo e que abraço
- a minha Mulher!

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DEPOIS QUE TU CHEGASTE

 

Ia passando o tempo acompanhado
por frustrações, anseios, nostalgia:
tu vieste fazer‑me companhia,
resolvida a ficar sempre a meu lado.

 

Contigo me chegou a f'licidade,
por entre mil carícias, mil surpresas,
e pude constatar que eram certezas
o que eu pensava fosse veleidade.

 

Das muitas vezes que nos irritamos,
convicto cada um de ter razão,
em qualquer coisa beneficiamos,

 

pois resulta daí a conclusão
de que, afinal, bastante nos amamos
e tem que haver o mútuo perdão...

 

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 DIVAGAÇÃO

 

 'Inda quando menino me apartei
dessas coisas que me eram tão queridas:
as diversões sadias, coloridas,
que no meu relicário arrecadei!

 

Mas foi tão pouco o tempo que nem sei
porque não cicatrizam as feridas
das horas de lazer, apetecidas,
que pela vida fora bendirei...

 

Então será por isso que 'inda hoje,
ao ver os pequeninos não parar,
um só momento, tantas diversões,

 

eu penso que é o tempo que lhes foge,
também para mais tarde recordar
esse lindo rosário de ilusões...

 

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 MIRAGEM

 

 Recordo‑me daquela pequenina
que uma linda poesia recitou,
com uma doce voz, tão cristalina,
que aplausos calorosos arrancou.

 

Outras vezes, por isso, a convidaram


 

 para que fosse ao palco recitar;
 e até mais tarde se deliciaram
 com dramas que ela veio a interpretar.

 

Era perfeito aquilo que fazia;
mas, sem recursos, quando a adolescência
assomou, viu, com mágoa, que teria
de lutar, p'ra suprir essa carência.

 

E trabalhou na mira de atingir,
pela vida, uma boa posição;
contudo, soçobrou, sem conseguir
jamais concretizar sua ambição...

 

Certa vez, encontrei‑a, miserável,
com um filho no colo, outro p'la mão:
apenas lhe falei do agradável,
mas desatou num choro em convulsão!

 

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 ÀS AVE-MARIAS

 

O rei d'alegrias
ao longe já morre
e todos os dias
as ave‑marias
ressoam na torre!

 

Regressa ao seu lar
quem tanto lidou,
a fim de cear
e então repousar
o corpo, que andou

 

o pão a amargar,
desde antes o sol
na terra raiar,
até vislumbrar
segundo arrebol!

 

Vai tudo dormir,
na noite que avança,
com fé a pedir
que sempre o Porvir
só traga bonança!

 

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 O MENINO E A FLOR

 

 Vermelha flor, num jardim,


um menino quis colher,
mas retira, dolorida,
incauta e magra mãozinha,
pelos cardos agredida!

 

Vai a casa, num instante,
e volta com um cutelo,
para cortar, cerce,o cálix
e mais o que ostenta belo...

 

Toma o fruto da façanha,
alegre, bem triunfante,
e põe‑no num jarrão novo:
ah! extasia o semblante
ao olhar, deliciado,
pétalas de viva cor
e mais o verde, em redor!

 

Depois de um dia passar
vai ele a flor visitar:

 

Mas... Jesus, que decepção!
Jaz pálida no jarrão,
onde na véspera a pôs
o menino, sorridente,
triste agora e descontente...

 

O que ontem era só vida,
hoje é desolação, morte!
E o petiz, estupefacto,
chora, chora, ao ver a sorte

 

que a vermelha flor tivera...
De tudo a mãe se apercebe
e, com ternura, lhe dá
este ensinamento breve:

 

"Meu filho, tu desprezaste
os cardos, que magoavam,
protectores do pezinho,
que lhe sustentava a vida
com amor e com carinho.

 

É preciso, p'ra colher,
sempre saber escolher!"

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DEVANEIO

Conforta‑me a paz do lar

ao chegar ao fim do dia,


com os filhos a brincar,
inundados de alegria.

 

São três lírios, adorados,
que a inocência ainda guarda
com sublime amor regados
p'la mãe, que não vê mais nada...

 

Vou pensando no Futuro
que a Vida lhes irá dar:
mas que seja um viver puro,
com vontade de lutar

 

pela feliz construção
da paz e mundo melhor,
onde só vença a Razão,
a Liberdade, o Amor...

 

Que sempre façam o Bem
e mantenham porte nobre,
porque muito rico é quem
dá do pouco a qualquer pobre...

 

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SERENATA

(Para a música de Schubert)

 

Que noite calma,
puro luar!
Que paz
me conforta a alma!
Depois de um dia
de labutar
apraz
tão doce harmonia...

 

Ao longe, nos choupos, canta,
até que nasça o sol,
o meigo rouxinol...
E murmura a fonte mansa,
com termo marulhar,
baladas de encantar!

 

Ligeiro vento
vem afagar,
por fim,
o meu pensamento!
Quanta alegria
faz despertar
em mim
tão doce harmonia...

 

Corre, sereno, o ribeiro
a caminho do mar
e nele, a deslizar,
vai um barquinho veleiro,
donde saem canções,
que alegram corações.

 

 Noite amena de encantar:
doce marulhar
das águas. De luar de prata.
Sinfonia sem par
de tudo a ensaiar
a serenata...

 

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AGUARELA

 

Caem grandes farrapos de cor branca,
ficando tudo com aquela cor:
feliz, 'squecendo o frio, uma criança,
muitas coisas modela com primor!

 

A Natureza assim vestida espanta
o perspicaz olhar desse pintor
que mudo, retrocede, pára, avança,
a admirar o magnífico labor!

 

Qualquer pintor se espantaria ao ver
um quadro, fascinante, ao natural,
de um belo colorido, sem igual...

 

Apenas um Autor podia ser
digno de rica paisagem de neve:
Deus, a quem, quanto existe, tudo deve.

 

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RETALHOS

 

 

    I

Trago um grito a explodir
entranhado na garganta:
"Acredito num Porvir
de Liberdade e Bonança"!

 

  II

Há tanta estrela no céu,
cujo Destino é brilhar:
só de escuro trajo eu,


 

sem me poder libertar...

 

              III

Suspiros, quem os não tem
dispersos em qualquer lado?,
sempre à espera, a ver se vem
o fruto tão desejado!

 

              IV

Só depois que ela se foi,
levando‑me o coração,
é que sinto e é que dói
a gangrena da paixão!

 

 V

OiÇo‑vos: "É lindo tudo"!
Sei que nem tudo é beleza.
Triste, sofro e fico mudo,
por não ver a Natureza!

 

VI

Já não sei se vale a pena,
às vezes, tanto lutar,
porque a Vida é tão pequena
e foge sem avisar.

 

VII

Sentindo os filhos brincar,
a rir, despreocupados,
medito como lhes dar,
vida fora, mil cuidados...

 

VIII

Põe na minha a tua mão
e deixa‑os lá murmurar:
muito dói a ingratidão
de quem nos devia amar...

 

IX

De uvas espremi um bago
na boca do meu Amor
e senti o doce afago
de um beijo todo calor.

 

X

Baixem‑me o verde loureiro,
onde canta um rouxinol,
que eu quero ser o primeiro
a sentir chegar o sol...

 

            XI

Que prazer sempre me dá
o meu pequeno Arturinho
quando, meigo, diz: "Papá,

senta‑me no teu colinho!"

 

XII

Mesmo que os filhos mal façam
sempre lhes queremos bem,
porque entristece os que passam
sem afagos de ninguém!

 

XIII

Deixai-me agora gritar
o poema que sufoca,
antes de me amordaçar
as ideias e a boca!

 

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RUMO CERTO

 

Quantas vezes me ponho a meditar
em tantos conterrâneos, que morreram
assim como em amigos, que deixaram
o luto e as saudades a pesar...

 

São tantos que percorrem meu pensar
e páro a ver a vida que tiveram,
fazendo o Bem, ou Mal que praticaram,
e se acaso estarão em bom lugar...

 

Mas só Deus pode responder, bem sei,
às interrogações que me perseguem,
para ter a certeza qual a lei

 

que, um dia, nos dará a salvação:
contudo, as confusões não me conseguem
desviar do caminho de cristão...

 

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 TÁBUA DE SALVAÇÃO

 

 

 

Muitas vezes desanimo
e busco, aflito, um arrimo!

 

E é com amor acendrado
que, nas horas de desânimo,
eu medito nos tormentos
e na morte de Jesus,
rogando‑lhe que me ajude
a transportar ao Calvário
a minha pesada cruz...

 

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 MEDITAÇÕES

 

1

Se pressentires a Morte
em volta de ti rondar
está a fazer‑te a corte,
para a vida te roubar...

 

Se o Bem fizeste, não temas,
que a salvação alcançaste,
mas teme as terríveis penas,
se sempre o Mal praticaste...

 

            2

Não tenhamos presunção,
que a Morte vem de repente
de foice certa na mão
para, de golpe inclemente,

 

ceifar a Vida, tão bela,
que nos tinha sido dada
para termos conta nela
e ser bem acarinhada...

 

Se assim fizemos foi bom
e medo não deve haver
da foice certa na mão,
que seus frutos vem colher!

 

             3

É triste, tão triste a Morte,
venha Ela como vier:
punir‑nos, ou dar‑nos sorte
pelo balanço que houver

 

do que fizemos na Vida...
Arriba sem avisar
e ceifa a jóia mais querida
que ao nascer Deus quis legar!

 

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 REQUIEM

 

 Os sinos, ao longe, dobram,

 

dolentes, tristes: dlão, dlão!
E seus gemidos provocam
uma dor no coração,
pois não se sabe a razão
das badaladas que ecoam!

 

Quem seria que passou
ao outro lado da Vida?
Um jovem que não gozou
a fatia concedida
por Deus, de tudo Senhor,
doada só por amor?

 

Ou talvez noiva recente,
que no auge de alegrias
é chamada, de repente,
a dar contas dos seus dias
e do que fez, Bem e Mal,
na busca de um Ideal?

 

Teria sido uma mãe,
que filhos amamentava
e assim os deixa também
entregues ao Deus‑dará!
E o narido, que a adorava,
quanto não pranteará?!

 

 Seria um fiel marido,
que trabalhava, contente,
para o sustento da casa
e deixa, desprotegido,
o lar e a mulher rasa
de lágrimas comoventes?!

 

Mas talvez fosse um velhinho
que nada mais esperava
deste mundo, onde gozou
ternuras, amor, carinho
e certamente pensou
que a sua vez não chegava?...

 

Quem foi não sei, mas os sinos
(que tanto gosto de ouvir
quando repenicam hinos
a quem acabou de vir
das entranhas para o mundo)
dobram, tristes, lá ao fundo...

 

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EFEMÉRIDE

 

Num Inverno distante ela chegou
e há pouco, num Outono, então, partiu:
só saudades e mágoas deixou
àqueles por quem tanto amor sentiu!

 

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 POR QUE NÃO VOLTAS?

 

Há tanto tempo que te foste e não voltaste,
embora eu te esperasse, mas sem esperança...
Só depois soube como tudo aconteceu
e percebi que havia na tua existência
a simbiose feita do ateu e crente.
Mas não foi a segunda que te transportou
ao beco onde p'ra sempre ficaste cativo:
foi a falta de fé no dia de amanhã
que te precipitou no abismo terrível,
roubando‑te ao convívio de quem te estimava...

 

Não sou, de modo algum, um sebastianista
e creio, firmemente, que quem vai não volta.
todavia, gostava que pudesse haver
uma excepção: que tu regressasses à vida
e então, da tua boca, viesse a verdade...

 

Loucuras, ambições, quimeras que me habitam,
porque eu bem sei que tu jamais podes voltar!

 

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PRESUNÇÃO

 

Não cansarei de afirmar
que existe muita injustiça:
uns matam‑se a trabalhar
e outros vivem da preguiça!

 

Penso que devia haver
em tudo mais igualdade:
tendo todos que fazer,
punir a ociosidade!

 

Todavia, ao constatar
que o Mundo não 'stá direito,
nas voltas que lhe quis dar
achei‑o mais imperfeito!

 

Por isso, não vale a pena
eu quer-lo endireitar,
pois tenho a certeza plena
de nada remediar.


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FRATERNIDADE

 

Coitado de quem é pobre
e para viver mendiga,
pedindo um tostão, um cobre,
à fraternidade amiga...

 

E pede só um tostão!
Humilde pedir o seu!
Toca fundo o coração
pedi‑lo em nome do Céu!

 

Quando pequeno, dizia
o meu professor na escola,
que todo o aluno devia,
vendo um pobre, dar‑lhe esmola!

 

É agradável fazer
(sempre sem saber a quem),
aos que pedem p'ra viver,
desinteressado, o Bem...

 

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 O SABOR DA VIDA

 

Se a Vida sempre nos desse
tudo quanto desejamos
por certo não tinha int'resse
os momentos que passamos

 

a resolver os problemas
que a cada passo aparecem
‑ os verdadeiros dilemas,
que matam e que entontecem...

 

Mas, se problemas houver,
p'ra resolver, dia-a-dia,
cada conquista vai ser
um momento de alegria!

 

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 ROLETA

 

Roda a Vida, roda a Sorte,
tudo roda sem parar,


 

até vir o Fim, a Morte,
pôr termo a tanto lutar.

 

Vale, porém, sempre a pena
a luta continuar,
que a Vida é dura e pequena
e é preciso conquistar

 

aquilo que desejamos
de bom para o dia-a-dia:
nessa medida, alcançamos
bem-estar e alegria!

 

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 TEMPO DE TERNURA

 

Confesso, com convicção,
que muito te adoro e quero
e assim, do teu coração,
reciprocidade espero...

 

Sei que és o Tudo na vida
que sempre vem confortar
uma zanga, uma ferida,
p'ra poder cicatrizar...

 

Confesso que mais amor
te dei, porque tu me deste
três Primaveras em flor,
tesouro que me entontece...

 

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 MOMENTO TRISTE

 

Desse tempo em que a pobreza,
fortemente, me marcou
eu recordo, com tristeza,
os males que ela causou:

 

Falta de pão, de agasalho,
de lenha, calor, dinheiro
e para meu pai, trabalho,
por toda a parte falheiro...

 

Muitas vezes a vontade,
sôfrega, que me assaltava
de ter ‑ juro que é verdade ‑,
petiscos, que eu adorava

 

e que se alguém o soubesse

 

ridículo me chamava
e por não gostar dissesse
que daquilo não provava...

 

Com bem pouco contentava
meu estômago vazio:
mas assim continuava
a ter fome e sentir frio...

 

Descalço ia para a escola,
com neve, ou chuva, ou vento,
transportando na sacola
um risonho pensamento

 

que uma página ilustrava
do meu livro, tão querido:
"Estuda" ‑ assim começava -,
"que sendo homem instruído

 

melhor Futuro terás..."
Para depois concluir:
"Com trabalho chegarás
onde jamais pensaste ir..."

 

E a verdade é que cheguei,
com muita perseverança,
onde nunca imaginei
no bom tempo de criança...

 

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 HERANÇA

  

Ó tempos da minha Infância,
onde estais, que vos desejo?
Vinde matar esta ânsia,
que me abrasa, me sufoca,
para que rebente o beijo
que, opresso, me sela a boca!

 

Oh!, como sinto saudade
do meu tempo de Menino,
em que eu, de tão tenra idade,
alegre, feliz, sadio,
projectava o meu Destino,
para ser homem de brio...

 

Mas tudo se transtornou
nas voltas que deu a Vida:
o brio, porém, ficou,
bem assim como a 'sperança
e a fé sã não foi perdida


‑ orgulho‑me desta Herança!

 

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 COFRE DE IMAGENS

 

Belas imagens me assaltam
desse bom tempo em que eu via
a Primavera florida,
alegre, reverdecida!
Frutos amadurecidos,
rosados, apetecidos!
E tudo a resfolegar
de sã e ridente vida!

 

As laranjeiras, formando
castelos amarelados!
As videiras, sustentando
lindos cachos, apinhados!

 

Os brincos pretos, vermelhos,
ou de qualquer outra cor,
suspensos nas cerejeiras!
Figos a desafiar
uma subida às figueiras!

 

 Tapetes de gipsofila
a ornamentar os montes,
bem como uma multidão
de lindas flores, vistosas!
E a fragrância do perfume
exalado por mimosas!

 

Afinal, tudo era belo
nesse tempo de criança
em que eu podia espraiar
meus olhos por toda a parte
e, feliz, apreciar
os magníficos tesouros,
que ornavam a Natureza...

 

Na vida não há só louros:
há mil cardos semeados
nos caminhos que trilhamos...
E agora lembro a beleza
das imagens que povoam
meus olhos martirizados...

 

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NOCTURNO

 

Com belo luar de prata
repousei sob um salgueiro
a ouvir a serenata
do marulhar de um ribeiro...

 

Não eram águas, somente,
que a noite tornavam bela:
também havia o cadente
olhar de distante estrela...

 

E a brisa, bem de mansinho,
não se quis dissociar,
com um sopro levezinho,
seu nocturno a ensaiar!

 

E o belo desafiar
com as águas de cristal
do rouxinol a trilar
magnífica pastoral!

 

E da noite a grande orquestra
de tanta voz a cantar,
qual animada palestra,
que vale a pena escutar!

 

...E as águas sempre a correr,
sob a bênção do luar
e eu, bêbedo de prazer,
de tudo absorto, a sonhar...

 

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LEMBRANÇAS CARINHOSAS

 

Disse adeus à minh'aldeia,
a querida Lajeosa,
e para sempre guardei‑a
numa paixão dolorosa...

 

Foram anos que não voltam
os que então nela passei
e que agora de mim soltam
suspiros, que bendirei...

 

Recordo‑a a cada momento,
nas horas tristes ou boas
e tenho no pensamento
todas aquelas pessoas

 

que eu estimo e são amigas
(tenho provas de que o são),
que as amizades antigas

 

alegram‑me o coração,

 

cada vez que nos juntamos
meia dúzia de amigos
e, felizes, recordamos
esses belos tempos idos...

 

Montes de recordações
que nenhum esquecerá
e às futuras gerações
com saudade contará...

 

Por isso, sempre que posso,
uma visita lhe faço
e me sinto muito moço
ao levar‑lhe o meu abraço...

 

E assim, ó terra querida,
mesmo longe, não te esqueço,
pois que em ti me deram vida
e me embalaram no berço...

 

Pequenas coisas, saudosas,
desses tempos que lá vão:
são lembranças, carinhosas,
que guardo em meu coração!

 

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TENHO SAUDADE...

 

Tenho saudade, saudade...
da minha pequena aldeia,
onde passei belos dias
e noites de lua‑cheia
da saudosa mocidade,
repassada de alegrias...

 

Tenho saudade, saudade...
de quando podia ver
entrar no meu quarto o sol
e escutar, com prazer,
p'las noites de claridade,
trinados de um rouxinol...

 

Tenho saudade, saudade...
da casa pobre, onde um dia
cheguei em certo Janeiro
e da Bouça, que seria
minha alcunha, de verdade,
no meu lugar do Regueiro...

 

Tenho saudade, saudade...
do pequenino ribeiro,
que, ao fundo, passa na ponte.
Do Tapado e de Espinheiro,
onde pela quente tarde
ia beber água à fonte...

 

Tenho saudade, saudade...
das noites enluaradas
em que nas eiras havia
as alegres desfolhadas
e da sã simplicidade
de quem lá aparecia...

 

Tenho saudade, saudade...
dessas noites de serão,
em que em famílias amigas,
que guardo no coração,
recolhi tanta amizade
e ouvi tradições antigas...

 

A aldeia que me foi berço
e os tempos de tenra idade,
por mais que queira, não 'squeço,
tenho saudade, saudade...

 

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 O REGATO

 

 O regato corre, corre,
em busca do lindo mar
e quando entra nele morre,
pois deixa de marulhar!

 

De dia e noite a correr
pelas planícies, por vales,
faz o Moinho moer
pão, que acode a tantos males.

 

Corre, pois, belo regato,
verdes campos a regar,
que eu te fico muito grato
por quanto me podes dar!

 

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 MOINHO

 

 Canta, moinho, a canção

 

de alegria, porque dás
farinha p'rò nosso pão
e mil fomes matarás.

 

É tão belo o teu girar,
rodísio, que não te cansas
de em espuma transformar
as correntes águas mansas.

 

Que agradável é dormir
uma noite num moinho,
olhando da mó cair
brancos farrapos de linho.

 

Ó moinho abençoado,
bem haja o teu trabalhar:
jamais te sintas cansado
de a todos alimentar.

 

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OS MEUS MOINHOS

 

 Lembro‑me, quando pequeno
(há que tempos isso vai
e que saudades ficaram),
de construir uns moinhos
com bugalhos e pauzinhos,

 

onde houvesse um curso de água,
que eu desviava, feliz,
de regos que iam cevar
os campos, hortas, quintais
e davam para brincar...

 

Ficava ali, deleitado,
contente, absorto, sonhando,
o brinquedo a contemplar
e, com muito orgulho, a vê‑lo,
no seu trabalho, girar...

 

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 OS CARRINHOS

 

 Como ficava bonito
o meu pequeno carrinho,
construído de uma casca,
extraída de um pinheiro!
Era todo o meu carinho,
burilando com a faca
um cabeçalho, um fueiro,


as rodas, o eixo, o jugo,
a carcaça, os chiadouros,
para surgir o brinquedo
tão desejado e querido
na pobreza doutros tempos...
Que valiosos tesouros,
repletos só de ternura,
perpassam no meu sentido?!

 

É um álbum de saudades
de mil carrinhos, perfeitos,
de amor e de cascas feitos,
que outrora, então, povoaram
a minha risonha infância
e ainda não se esfumaram...

 

Que pena sinto e me dói
de não sentir essa ânsia
de procurar um pinheiro,
tirar‑lhe cascas, fazer
os carrinhos tão queridos,
que tive quando criança
e valiam mais dinheiro
que todos os artifícios,
que pejam o mundo inteiro...

 

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ESTALEIRO

 

 Chamávamos‑lhe "estaleiro",
porque dava estalos, feito
de um pouco de sabugueiro,
extraindo‑lhe o miolo:
ficava um pequeno tubo
onde, de estopas de linho,
metíamos duas buchas,
separadas, para haver
entre elas grande pressão...

 

Em seguida, com um pau,
se empurrava uma das buchas,
para que a outra saltasse,
provocando a explosão...

 

Tão simples, tão delicado,
este brinquedo de infância!
Ele faz parte do álbum
de ternuras, de emoção,
de amor, de sãs lembranças,
que guardo em meu coração...

 

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BALÕES DE SABÃO

 

Recordo, com pouca idade:
uma latinha de folha,
ou um copito de vidro,
com água, muito sabão,
uma palhinha qualquer,
donde, soprando, surgia
um colorido balão!

 

Que lindos os meus balões!,
parece que ainda os vejo
a desfazer‑se no ar
e sinto em mim o desejo
de voltar a esses tempos
das bolinhas de sabão,
que tanto gozo me deram
e 'inda agora me embriagam,
ternamente, o coração...

 

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 AS AMORAS

 

 Era tão bom ir colher
amoras pelo silvado,
para, com gula, as comer
ou então, deliciado,
com elas vinho fazer!

 

Num copo, ou numa tigela
as amoras esmagava:
com açúcar adoçava,
para surgir uma bela
bebida, que me encantava...

 

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 PAPAGAIO

 

Oh que lindo papagaio,
por mim feito de papel:
no alto, a voar, olhai‑o,
preso à mão por um cordel!

 

Quem papagaios não fez,
coloridos, de cartão,
e com pena, tanta vez,
os deixou fugir da mão?!

 

Este, porém, que hoje fiz
vou, com força, segurá‑lo,
porque me sinto feliz
e me dá prazer olhá‑lo!

 

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 ALECRIM DO MONTE

 

Alecrim,
alecrim do monte,
levo um ramo ao peito
quando vou à fonte!

 

Alecrim,
tu como ninguém
sabes dos segredos
que eu conto ao meu Bem!

 

Alecrim,
de bela cor d'oiro,
posto num raminho
vales um tesoiro!

 

Alecrim,
semeado em jeira,
no campo, no monte,
ai que bem que cheira!

 

Alecrim,
colho um ramo verde,
quando ao pé da fonte
vou matar a sede!

 

Alecrim,
cheiroso alecrim,
aos molhos, bem fresco,
formas um jardim!

 

Alecrim,
doirado, florido,
rescende, embriaga
todo o meu sentido!

 

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 LOUREIRO

 

Um amor que me encantasse
da minha janela via,
se o loureiro me deixasse
ver tudo quanto eu queria!


 

Loureiro, verde loureiro,
no meio tanta ramada:
não deixas ver o fagueiro,
lindo olhar da minha amada!

 

ó loureiro, donde ouvia
um rouxinol a trinar
canções belas de alegria
pelas noites de luar!

 

Há que tempos isso vai,
hoje não sei se morreste:
sobre o tanque, suspenso, ai!,
que prazer sempre me deste!

 

Tenho saudades da aldeia
e coisas do meu lugar,
que me não saem da ideia
e causam um bem‑estar...

 

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ROUXINOL

 

Feliz rouxinol
por lindo luar
até vir o sol
tu sempre a cantar!

 

Cantor pequenino,
artista invulgar,
teu canto, teu hino,
quem pode igualar!?

 

Desliza o ribeiro,
feliz, a 'scutar,
de um choupo, ou salgueiro,
canções de embalar!

 

Suplico‑te: canta
baladas sem par,
com essa garganta
de prata a trinar!

 

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 MONTANHA

 

Ó montanha, aos céus erguida,
como quem quer num abraço
se assenhorear da vida
que compõe todo o Espaço.

 

Montanha, despida, agreste,
a contemplar, nas planuras,
muito do que já tiveste:
belo manto de verduras.

 

Lugar do gelo e da neve
para a prática do esqui;
do alpinista, que escreve
mil aventuras em ti.

 

Ó montanha das nascentes
dos grandes lagos e rios
que, velozes, em torrentes,
fazem sentir calafrios.

 

Ó montanha dos penedos,
onde se esconde o pastor
com seu rebanho e segredos
do seu lar, do seu amor...

 

Ó montanha, tentação
de quantos querem e amam
a calma da solidão
e por ar bem puro clamam.

 

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 PASSARINHO

 

Que bem canta o passarinho,
nas ramagens do quintal,
com ternura, com carinho,
como nunca ouvi igual!

 

Dá vontade de apanhá‑lo
e prendê‑lo, sem demora,
para ter esse regalo
de o ouvir a toda a hora!

 

Mas pensando mais um pouco
concluí que era maldade
um desejo assim tão louco:
retirar‑lhe a liberdade!

 

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 A NATUREZA

 

 

Nas lindas manhãs de Sol
tudo é alegria e luz;
crianças, felizes, cantam:

 

trá‑lá‑lá, trá‑lá‑lá‑lá!

 

Olhai as plantas despidas
do fato da Primavera
e ouvi as aves, que piam:
piu‑piu‑piu, piu‑piu‑piu‑piu!

 

Depois que acaba o Outono
sucede o Inverno rude;
crianças tremem de frio:
ah‑ah‑ah, ah‑ah‑ah‑ah!

 

Vem de novo a Primavera
vestida de muitas cores
e a abelha, em cada flor, zumbe:
z‑z‑ze, z‑z‑z‑ze!

 

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OUTONO

 

Findo o Verão, surge o Outono,
com as vindimas, desfolhadas,
belos serões... mas o adorno
vai‑se das plantas enfeitadas!

 

Fica despida a Natureza:
caem as folhas, frutos, flores;
o vento sopra com tristeza;
os troncos torcem‑se com dores!

 

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 DIA DOS MAGUSTOS

 

Magustos, ai que regalo!,
no dia de S. Martinho:
vamos todos festejá‑l'O
com castanhas, mas sem vinho!

 

Porque hoje a festa é tamanha,
não podemos esquecer,
já que não falta a castanha,
assadinha, p'ra comer!

 

Felizes, às gargalhadas,
vamos, pois, nos divertir:
mesmo com caras pintadas
não deixemos de sorrir!

 

Na vida nós lembraremos
estes dias de emoção,

 

que para sempre teremos,
com amor, no coração!

 

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 PINHEIRO DO NATAL

 

Que bom é ter e contemplar
lindo pinheiro do Natal!

 

Milhões de luzes quero ver
sempre a apagar e a acender!

 

À tua sombra quero pôr
o meu presépio, com amor!

 

Sob os teus braços, a enfeitar,
os mil brinquedos de encantar!

 

Sob os teus ramos, a pender,
os meus presentes quero ver!

 

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 FELIZ NOVA

 

Repica, alegre, o sino,
corramos a Belém,
a ver o Deus‑Menino
e a Sua feliz Mãe!

 

Sigamos a estrela,
que à gruta nos conduz,
na noite santa e bela,
que ao mundo deu Jesus!

 

Na gruta de Belém
o Salvador nasceu:
louvando o Filho e Mãe
há cânticos no céu!

 

Nas palhas, sossegado,
'stá a dormir Jesus
e brilha em todo o lado
uma divina luz!

 

E lá do Oriente
chegam os reis doutores:
com mil e um presentes
se juntam aos pastores!

 

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 PRIMAVERA

 

Vi chegar a Primavera
com ramos verdes e flores:
que beleza! Quem me dera
vestir assim lindas cores.

 

Oiço a alegre passarada
chilrear lindas canções
pela fresca madrugada
e à noite pelos serões.

 

Chegou o cuco e a rola,
a poupa e as andorinhas
e ver os montes consola
com tapetes de florinhas.

 

E não há outra estação
cheia de graça e beleza:
conforta-me o coração
ver assim a Natureza!

 

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DIA DE PÁSCOA

 

É mais um dia de Páscoa
que na minha aldeia passo:
há enfeites, muitas flores,
atapetando os caminhos,
para passar o Compasso...

 

À frente, uma campainha
indica que vai chegar
Jesus Cristo a cada casa,
para todos, com fervor,
a sacra Imagem beijar.

 

São trocados aleluias
com as bocas a sorrir
e o pároco abençoa,
benze e pega no hissope
para água‑benta aspergir...

 

E todos confraternizam,
casa a casa a visitar,
saboreando iguarias,
que por todo o lado estão
a gula a desafiar!

 

É dia de festa a sério:

 

há verdes, tudo florido,
tudo cheirando a frescura,
por esmerada limpeza,
que há muito não tinha havido!

 

E depois, ao fim da tarde,
rematando a devoção,
unem‑se todos, que o dia
festivo vai terminar
com a Cruz em procissão...

 

Ao falar na minha terra
fico‑me a pensar sozinho
que a Páscoa que descrevi
não é única, é igual
em toda a parte do Minho:

 

Mil enfeites; muitas flores;
a Cruz, que é dada a beijar;
a procissão à noitinha;
os aleluias trocados;
toda a gente a se saudar...

 

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O CUCO

 

Cu‑cu, cu‑cu,cu‑cu...

 

Há muito que estava à espera
de ouvir o cuco cantar,
porque sei que a Primavera
também vai desabrochar!

 

Na flauta, então, eu imito
as notas do seu cantar:
muitas vezes as repito
para quem apreciar!

 

Todavia, é diferente,
ao pretender imitá‑lo,
que só o senti‑lo presente
é para nós um regalo!

 

Depressa está de partida
o esmerado cantor,
pois vai procurar guarida
em outro clima melhor!

 

Vou, então, ficar à espera
de ouvi‑lo, outra vez, cantar,
o que só na Primavera,


 

contudo, terá lugar...

 

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A ROLA

 

Geme a rola no pinheiro:
que bom podê‑la escutar!,
como o vento, passageiro,
muito de leve, a soprar...

 

Costuma vir por Abril,
mês em que pelas aldeias
"canta o carro e o carril"
nas terras de flores cheias...

 

Trru‑trru, Trru‑trru... Eis que canta,
nos ramos, a meiga ave,
num suspiro de garganta,
inimitável, suave...

 

Diz um popular rifão:
"Quando a rolinha cantar
pega numa cesta, então,
vai os campos semear"!

 

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 RONDÓ

 

 

Para alegrar corações
Vamos, com força, cantar
todas as lindas canções
que nos apraz recordar!

 

Eu vou cantar p'ra todos vós, com alegria,
uma canção, que é uma simples melodia:
e queria que a cantassem
e comigo se alegrassem!

 

Cantai, cantai, que quem o faz seu mal espanta
e não precisa ter p'ra tal boa garganta:
É por isso que eu repito
que em conjunto é mais bonito!

 

Forte muralha, bem unidos, formaremos
e é mais certo que na vida venceremos:
vamos, pois, uniras mãos
e entender‑nos como irmãos!

 

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FANTASIAS

 

 

1

 

PRELÚDIO

 

 

 

Daquela boca, sorrindo,
um beijo vinha saindo...

 

De leve e terno poisou,
mas em seguida voou,

 

temendo ficar cativo
num laço seguro e vivo!

 

Apenas ficou o nada
da leve pena deixada

 

cair por ave ligeira
na sua breve carreira:

 

A ave, veloz, passou
e o vento logo guardou

 

a leve pena caída
da saudosa ave, querida...

 

Assim o beijo fugiu,
porque no ar se sumiu,

 

de regresso ao seu país,
onde era rei e feliz...

 

A boca outra vez sorrindo,
os lábios, doces, abrindo,

 

àquele nino que entrou
e p'ra sempre se quedou...


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                                                                                                                                                2

SONHO NA AREIA

 

 

 

Na areia escaldante
da praia deserta
passei um instante
que nunca esqueci...

 

Chegaste bem certa
que o mundo p'ra nós
o fim tinha ali:
Senti‑o na voz,
que não te deixava
dizer quanto querias;
senti‑o na pele,
que tanto queimava
e nua trazias;

 

senti‑o naquele
fantástico beijo,
que mais acendeu
o louco desejo
de ter‑te e sentir
teu corpo no meu,

 

pois 'stava a pedir
um forte calmante,
para serenar
o sonho gigante,
em mim a pulsar
já desde as origens:

 

 

Tivemos vertigens
deitados na areia,
até nos cobrir,
com grande lençol,
subtil lua‑cheia!

 

E foi a sorrir
que um lindo arrebol
nos veio encontrar
na praia já fria:
Parece que o mar,
em doce harmonia,
também comungava
da nossa alegria,
num manto de espuma


 

que tudo afagava...

 

Partimos, então,
sem ponta de bruma,
levando uma ruma
de tanta ilusão...

 

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                                                                                                                                                          3

 

DISCRIÇÃO

 

Vali‑te na hora certa,
quando na rua deserta
vagueavas tonta e triste:
hesitaste, mas vieste,
e a confissão que fizeste,
de que segredo pediste,

 

veio levantar o véu
da conduta, sem labéu,
de que tantos duvidaram.
Tu já partiste. Eu fiquei,
mas nunca revelarei
as causas que te levaram...

 

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 4

 

NO CAIS

 

Quiseste um dia partir,
rasgando a espuma do mar,
e eu fiquei, triste, a pedir
o teu breve regressar...

 

Muitas vezes fui ao cais,
angustiado, saudoso,
com pranto, dor e com ais,
lembrar nosso amor ditoso...

 

Mas tu nunca mais voltaste
àquele lugar querido,
onde, chorosa, juraste
ser um transe dolorido...

 

Por que não tornaste, então,
a recordar‑te de mim


 

e o meu pobre coração
transformaste em manequim?

 

E agora 'inda vou ao cais,
de dia, à noite, p'las tardes:
Mas sem pranto, dor, ou ais...
Apenas matar saudades!

 

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  5

 

SONHO OU IDEAL?

 

Tantas vezes procuro o que não vem
e tu chegaste como eu não 'sperava:
Receio, todavia, despertar
e nos braços, vazios, não ter quem,
subtil e sem reservas, se entregava
ao desejo comum de consumar

 

Maravilhosa noite nupcial!
anjo adorado, Vénus tão querida,
isto será um sonho, ou o Ideal
aos dois benquisto na exacta medida?

 

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 6

 

DESPERTADOR

 

Aquele doce beijo que me deste
no momento da nossa despedida
abriu pétalas mil no coração,

 

Magoado pelos cardos da paixão...
agora, embora tarde, tu vieste
rasgar o velho penso da ferida,
insuflando‑lhe gotas de esperança
‑ a prova mais feliz de confiança!

 

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 7

 

MURMÚRIO

 

 

Amor, dá‑me um terno beijo,
que venha suavizar
o meu ardente desejo
de nos braços te apertar!

 

Um beijo dá‑se a qualquer,
conforme o significar,
seja homem, ou mulher,
e o sentido no beijar!

 

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 8

 

NARRAÇÃO

 

Martiriza‑me um amor,
ainda que eu o não queira!
Resta‑me só a maneira:
ir ter com o causador,
a razão desta cegueira...

 

Horas de longo sofrer
e noites, sem-fim, que passo,
lutando contra a Mulher,
esbelta, jovem, amada,
na procura de um abraço,
ambição sempre frustrada...

 

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 9

 

DESPERDÍCIOS

 

 Faz‑me bem fantasiar
com quem e COMO quiser
e também me deleitar
com um corpo de mulher,

 

que me alimente a ilusão
de eu estar persuadido
que tenho em seu coração
o lugar de preferido...

 

Mas são tempos que se foram
sem terem repetição:
Coisas que ainda se adoram
e desejamos, em vão...


 

 

Se dissesse não gostar
de em tantos, tantos momentos,
as rédeas, firmes, largar
de oprimidos pensamentos,

 

certamente que mentia.
Mas bem pouco ambiciono:
ter instantes de alegria;
da tristeza o abandono;

 

um gesto; um sorriso; um beijo;
a promessa de que um dia
alguém sacie o desejo
desta bela fantasia.

 

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 10

 

RÉSTIA

 

Que desgraças sucederam
a esses momentos loucos,
que na vida foram poucos
e tanto a ti me prenderam?

 

Agora são fantasias,
que eu recordo, com ternura:
A tua imagem tão pura
e saudosas alegrias...

 

De principio, sofri eu
e depois, fiz‑te sofrer:
O que então aconteceu
não foi por eu o querer
e do rumo que escolhi
'inda não me arrependi...

 

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 11

 

MEA CULPA

 

Nunca mais posso esquecer
o Muito amor que me deste,
bem como o quanto sofreste,
porque me irias perder...

 

São penas que me ficaram
a consumir toda a vida,
pois foste uma Mulher querida
das que em meu Peito habitaram...

 

Todo o mal que te desejo
é que sejas tão feliz
como O tanto que eu te quis
no nosso Primeiro beijo!

 

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  12

 

ADEUS, QUIMERA

 

Agora deixo‑te e sigo
que o meu caminho é dif'rente
daquele que antigamente
combinei trilhar contigo...

 

Adeus, pois, que vou partir
p'rò rumo que me foi dado:
mas não me sinto culpado
de as promessas destruir!

 

Duas vidas encontradas,
tantos castelos erguidos,
de alegrias e gemidos
e das promessas juradas...

 

Mas nada se compadece
do rumo que à vida damos:
Desiludidos, cansamos
e a Esperança perece!

 

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  13

 

QUIMERA

 

Mandei-te beijos secretos,
abraços de enfeitiçar,
rios de sonhos, dilectos,
imolados num altar
armado p'ra te adorar!

 

As saudades, tantos cardos,
dia e noite, sem cessar,


 

recordam os tempos belos,
imorredouros, passados
a levantar os castelos,
nobres, tão frágeis, no ar,
a seguir desmoronados...

 

devaneios de paixão
ensaiou meu coração...

 

Juro, pois, que não te minto
e deves acreditar
ser amor isto que sinto!
um sonho que vai ficar
sem se poder consumar!...

 

Rogo a Deus que, por favor,
insufla nesta paixão
bálsamos e cesse a dor,
e dê ao teu coração,
imaculado, carinhos,
rubras flores, sem espinhos,
amor, paz... o meu perdão!

 

 

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